No fundo de uma caixa de
papelão, Ela desenhou um sol com retalhos de gizes de cera. Os dias estavam
nublados.
Pela janela pintada de azul,
descascada e carcomida pelo tempo, Ela via a chuva fina, daquelas que não
cessam.
Era o seu aniversário, ia
fazer 5 ou 6 anos, mas não sabia ao certo. Não sabia, também, o que significava
contar os dias sobre a terra que pirueta tal qual bailarina em um eixo
imaginário, ao mesmo tempo em que contorna o sol, num ciclo chamado ano, com verões,
outonos, invernos e primaveras…
Mas de todas as estações, a
sua preferida era o verão. Adorava dormir descoberta, embora o calor e os
zumbidos dos mosquitos tornavam insustentáveis as noites e madrugadas de sono…
Quando Ela se levantava do
colchonete colado ao chão, espiava os olhos vermelhos que pareciam ter sido
lavados em areia de praia, nos reflexos de um pequeno caco de espelho…
Adorava, ao mesmo tempo,
ouvir o burburinho da vizinhança próxima que, levantando-se antes mesmo do
despertar do relógio, já se envolvia numa euforia de reclamações quanto à noite
mal dormida.
As vozes se misturavam num
zumbido ecoante, com algumas notas mais agudas, oriundas da voz de Dona Iaiá…
Ela era uma mulher preta,
com olhos brilhantes e castanhos escuros. Seu cabelo curto e cheio de fios
brancos contornava o seu rosto arredondado. A moldura não encobria o seu
sorriso sem dentes. Havia alegria naquela lavadeira de roupas alheias, apesar
de…
Sim! Sem ainda ter idade
suficiente para aposentar-se, Dona Iaiá, cujo nome eu nunca soube qual era,
tinha por ofício lavar as roupas das pessoas que moravam no entorno.
Detestava quando, por
descuido, alguém deixava na trouxa alguma cueca, calcinha ou fralda mijada ou
cagada.
Quando se deparava com
alguma dessas peças, cuspia um palavrão bem indelicado, gritando com sua voz
aguda a sua indignação, uma forma de espantar o nojo.
Sua primeira e ardente
vontade era jogar aquelas peças no lixo. Há tempos, não lavava cuecas.
Calçolas? Só as dela. Depois, mais comedida em sua raiva, embrulhava as peças
num papel de açougue e devolvia aos donos em seu estado fétido.
No auge dos seus 56 anos,
montada num tamanco português, o que a fazia chegar a 1,55 metros de altura,
não se perdia no cotidiano, mesmo quando este a afrontava violentamente.
Criara três filhos: Jacinto,
José e Francisco, todos já soltos no mundo, com seus respectivos 26, 24 e 19
anos. Cada um com sua profissão: pedreiro, pintor e eletricista. Quase formavam
uma firma de manutenção.
Mas eram bichos soltos. Cada
um se dirigia para um canto do Rio, se amparando em amizades faceiras. De
personalidades fortes, não conseguiam trabalhar juntos.
Agora, Dona Iaiá vivia
sozinha num barraco bem simples e cravejado de balas na Favela do Campinho. Seu
corpo franzino já havia suportado muitas agressões, daquelas que só sabe sofrer
quem é mulher e quem é preta.
Baiana de Feira de Santana,
nunca se importou com a cor da sua pele. Saíra do estado que mais acolheu
nações oriundas do outro lado do Atlântico. Talvez, fosse descendente dos
Malês.
Tinha orgulho de ser
descendente das ancestralidades do continente hoje chamado África. Mantinha
vivas, mesmo a seu modo, as culturas do seu povo.
Enquanto Ela ainda ouvia o
estampido agudo da voz de Dona Iaiá, olhava para o seu sol no fundo da caixa, e
ele estava muito solitário e apagado, não sorria.
Levantou-se. Colocou as suas
mãozinhas no vidro da janela e viu passar apressadamente diante dos seus
olhinhos, uma jovem mulher preta, muito bonita. Seu nome: Tina.
Seus olhinhos pupilaram ao
vê-la. Acenou, deu tchauzinho, mas Tina não a viu atrás do vidro. Na sua boca,
era grande o sorriso. A jovem de 18 anos ria e fazia o dia nublado brilhar.
Seu sorriso encantara
Francisco. Se encontraram quando ainda adolescentes, nas brincadeiras de pera,
uva, maçã ou salada mista, sempre a melhor opção. Os corpos se aventurando…
As comichões eram molhadas.
Na hora da brincadeira, Francisco escolheu salada mista. Tina, em sua
intensidade, tacou-lhe um beijo, penetrando-o com a sua língua. Ele assustou-se…
Recuou com a boca lambida,
mas se aprumou. Aproximou-se uma segunda vez com olhar faiscando e se permitiu
a troca gostosa. Ela, bem mais madura na arte do que ele.
Sentiu uns arrepios
estranhos na pele. Circulação sanguínea em polvorosa. Coração acelerado.
Oxitocina puta na veia.
Milagre sensação. Bocas
coladas, línguas laçadas, fluidos trocados e babas para todos os lados. Frenesi
que não se explica. Um pouco de nojinho ele sentiu na primeira vez. Ela agia
naturalmente.
Depois do beijo, a sensação
de herói, daqueles que vencem batalhas. Era reles menino, ainda tentando
descortinar os pelos do seu púbis.
Tina, por sua vez, se via
molhada e resolvida. Já havia beijado outras bocas. Não se apertava com
paqueras ou namoricos. Menos ainda com o seu sexo.
Se intumescia pela aventura,
pela novidade. Seus feromônios exalavam a acidez de fêmea viva, mas era menina
e, como tal, se via envolvida por sonhos lindos e vivos, rosinhas e azuis.
Ela gostava de ver a Tina
passar. Sempre elegante, vestida de calça de lycra azul e blusinha de algodão,
montada num salto que ela queria para si.
Achava que Tina andava pelas
vielas da favela como se estivesse desfilando em Paris, mesmo sem saber o que
era Paris. Amava ver o saltitar dos seus cabelos encaracolados, castanho
escuros.
As mãozinhas dela
continuavam espalmadas no vidro da janela e Tina deslizava morro abaixo.
Acreditava que, pelo horário, estava indo trabalhar como vendedora em uma loja
em Caxias. Ela a achava corajosa. Francisco era um passado.
Então Ela ouviu a porta
ranger. Era a sua mãe voltando da Bitaca do Teixeira. Trazia uma bisnaga
envolta em um pedaço de papel cinza. Ela gostava de desenhar naquele papel,
também.
O pão parecia gostoso. Sua
mãe preparou um café para ela. Não havia leite. Passou margarina Claybom e pôs
café em um copo de vidro oriundo de algum extrato de tomate.
Mesmo com os seus 5 ou 6
anos, Ela sabia que em outras casas havia leite, iogurte, biscoitos e bolos,
talvez frutas. Na sua, era somente aquilo, mas era bem bom.
Saboreava o seu pão, pois
tinha fome. Não poucas vezes não teve o que comer. Uma água rala com fubá lhe
era servida, com uma pitada de sal para acalmar o estômago.
Cacilda, sua mãe, muitas
vezes não comia, pois, coisa alguma havia em sua casa. Chorava furtivamente nos
cantos escuros do barraco, e para esconder o seu sofrer ela dormia.
Era sono doído, acompanhado
de sonhos cheios de imagens de sonhos. Já os tinha visto nas padarias, com
aquele creme doce e amarelo.
Abrir os olhos era bem
fácil. Nem sabia se os havia fechado. A perene inquietação era quebrada com uma
dor de cabeça infernal e a pergunta: o que comeremos hoje?
Naquele dia, entretanto,
conseguia o pão na Bitaca. Seu Teixeira fora bem favorável na doação. Os olhos
dele estavam compridos.
Cacilda tinha lá seus 11
anos. O corpo despontando no corpo. Chamava a atenção da favela.
Enquanto Ela desenhava no
papel de pão, via a mãe tão nova. Tinha uma inquietação bem escondidinha. Não
sabia que Cacilda era, na verdade, a sua única irmã.
A chuva fina persistia.
Cacilda lavava um copo na bica, usando um paninho e um pedacinho de sabão
português. Olhava o horizonte. Uma lágrima escorria em sua face. Ela viu a
lágrima.
Então Ela se aproximou da
mãe, beliscou-a com a pinça dos dedos e com um sorriso nos lábios, mostrou o
desenho que havia feito no fundo da caixa de papelão.
No papel em que o pão viera
embrulhado, Ela só havia feito rabiscos coloridos. Não havia formas ou
detalhamentos. Somente cores intercruzadas que revelavam a complexidade da lida
e os riscos coloridos que a atravessam.
Agarrada nas pernas da mãe, perguntou:
“Por que você está chorando, mamãe?” Cacilda enxugou o rosto com a barra do
vestido. Conscientizou-se que precisava falar a Ela o que estava afligindo o
seu peito.
Angustiada, olhou dentro dos
olhos de Ela, buscando forças interiores para dizer o que precisava ser dito.
Era como se quisesse vomitar, mas não conseguia. Havia uma palavra a ser dita,
mas ela se engasgava.
Há palavras profundas,
enraizadas, que machucam desde o interior. Elas demoram a romper as pedras dos
ressentimentos, mas precisam escoar das funduras do âmago do ser para darem
lugar ao vazio, tão necessário à ressignificação da vida.
Ela olhava dentro dos olhos
de Cacilda. Olhos vivos e curiosos como se vê em crianças cheias de vitalidade
e imaginação. Apesar de pequena, revelava acolhimento em suas írises. O sorriso
dos seus pequenos lábios avermelhados sinalizava à mãe para ela ir em frente.
Cacilda parecia explodir em
si mesma. As lágrimas começaram a escorrer, mais densas e mais vivas. Pareciam
esgoto a céu aberto, embora transparentes. Traziam tantos segredos, mágoas e
desajustes que a deixavam em flutuação suspensa, tal qual graveto na enxurrada.
Queria ter mais coragem, mas
coragem não é inata. É presente para um momento. Aprendera com a sua mãe que
pessoa alguma é corajosa, mas pode revelar coragem quando a situação vivencial
assim exige. Então pediu aos céus alguma coragem.
Com a voz embargadíssima,
lábios trêmulos e semblante desterrado, disse: “Ela! Eu não sou a sua mãe. Eu
sou a sua irmã mais velha e fiquei com a responsabilidade de cuidar de você!”
“Tem sido muito difícil.
Parei de estudar e não sei o que fazer. Não posso trabalhar, pois não quero e
não posso deixá-la sozinha. Fico dependendo das doações dos nossos vizinhos, e
isso me deixa muito triste!”
Com os mesmos olhinhos
brilhantes de sempre, Ela disse: “Mamãe! Olha que lindo o sol que eu desenhei
no fundo da caixa”! Não era negação da realidade, mas uma espécie de aceitação
plena. Para Ela não fazia diferença. Viver cada momento bastava a Ela.

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