quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Conscientização, vida nova e os perigos do processo psicoterápico

 


O cotidiano e os seus consequentes eventos singulares são constantemente interpretados pelos seres humanos da forma como cada qual os interpreta. Em geral, a pessoa interpreta os seus acontecimentos mais pessoais a partir dos seus sentidos e das suas percepções. O que se revela no mundo não é captado da mesma maneira por todas as pessoas. Cada qual constrói a sua narrativa de forma a se sentir em segurança com ela.

No processo psicoterápico, as nuances perceptivas se entrechocam o tempo todo entre o psicoterapeuta e seu cliente, tocando singelamente os limites das dimensões da espontaneidade e da criatividade. Os entrechoques e toques visam um novo viver marcado pelo bem-estar de melhor ser, na dimensão do que Fritz Pearls batizou de awaraness – uma dimensão especial de contentamento com as possibilidades de viver melhor, uma consciência de si perceptiva; a tomada de consciência global no momento presente, a atenção ao conjunto da percepção pessoal, corporal e emocional, interior e ambiental. Obviamente, nestes intercruzamentos perceptivos, verdades absolutas e discussões sobre o certo e o errado não cabem. E todos os debates, conversas e revelações ocorrem na zona nebulosa dos sensos ativos em processo, no campo do segredo das palavras e dos sentimentos, na escuridão profunda das cavernas mais obscuras, frias e silenciosas. Nelas, às vezes, uma pequena fogueira é acesa para favorecer os sentidos e, ainda, se perceber vivo.

Por entender os interstícios da psiquê humana, o respeitado psicanalista Contardo Calligaris usou de uma metáfora para falar do trabalho do psicólogo ou psicanalista como o trabalho de uma puta. Confesso já ter meditado múltiplas vezes sobre esta metáfora e cheguei à conclusão que o psicanalista estava certo. Com essa metáfora, eu que já respeitava as putas, passei a respeita-las ainda mais. De fato, psicólogos, psicanalistas e putas acolhem pessoas em suas mais desditosas intimidades, na nudez expressa sem constrangimentos, sem estabelecerem juízos preconceituosos ou julgamentos indevidos. Nas situações de acolhimento há vazios e interpenetrações, vergonha e exposição, alívio e angústia, recuos e avanços, transferências e contratransferências, tanto positivas quanto negativas. Não se pode perder de vistas a ideia de que o risco em se estar exposto em uma zona paradisíaca onde tudo é permitido, sem repressões ou reprimendas, o ser em situação se permite experimentar o doce sabor da liberdade e do amor, quem sabe para conseguir ser quem se pretende ser, o que é extremamente legítimo. Todavia, para os que não conhecem ou não experimentaram o processo psicoterápico, deparar-se com alguém em estado de graça ou disposto a virar o mundo de ponta cabeça é assustador.

Na sabedoria milenar, há uma narrativa sobre um homem que vivia nos escombros e cemitérios, assombrando e assustando os concidadãos. Um dia, o mestre da Galileia atravessou todo um lago só pra encontrar este homem. Num processo que não podemos avaliar, aquele homem se refez e se organizou. A cidadela, ao invés de ser favorável ao homem e celebrar a sua conquista pessoal, o que lhe deu mais dignidade de vida, se manifestou contrária ao processo libertador e perseguiu a quem provocou a metamorfose. É curioso como as pessoas no entorno de alguém que se liberta das amarras aprisionantes rechaçam de forma perniciosa e, muitas vezes, grotesca, o liberto. Para muitos, a lagarta precisa continuar a ser lagarta por toda a vida. Se ousar se transformar em borboleta, precisa ter as asas cortadas, pois as pessoas encarceradas em suas verdades sem amor não suportam quando um sorriso se esboça como genuíno sorriso e não como maquiagem embotada.

Na condição de um psicoterapeuta, eu vivencio semanalmente as glórias e as agruras decorrentes de minha ação e palavras. Sempre provoco os meus clientes a saírem de suas vidas letárgicas a fim de abraçarem as novas possibilidades que se abrem em um novo dia. Sempre há um arco-íris colorindo o céu quando raios de sol rompem a tempestade que banhou a terra, as árvores e as pedras que choram sozinhas. Em minhas provocações, incito cada um a sair de suas ideias congeladas ou cristalizadas para oportunizarem uma outra experiência em si mesmas.

Outro dia, perguntaram-me se o que eu faço é perigoso? Eu respondi prontamente que sim. Aliás, é muito perigoso, uma espécie de aventura constante que singra o mar das emoções extenuando-se em encontros e desencontros, alegrias e choros, conquistas e perdas. Às vezes, pergunto-me se toda e qualquer provocação vale à pena. Não tenho uma resposta pronta e acabada. Acho se tratar de uma pergunta complexa. Quando sou questionado em minha prática e ação, recolho-me silenciosamente, pois somente o tempo poderá me defender. Sem pontuar as razões que me levaram a esta ou aquela ação psicodramática, espero o plausível tempo onde a minha historicidade e a minha ética será salvaguardada, nem que seja na brisa suave que roçará o meu rosto.

Enfim, não importa como as pessoas interpretam os fatos. Importa, sim, como eu me entendo enquanto eu-mesmo. Por enquanto, eu somente espero que haja o mínimo de respeito e, assim como eu me recolho em mim, que outros também o façam, afinal de contas, a “putaria” sempre estará em ordem se visa o awareness.

 


ESPERANÇAR - Capítulo 1 - O sol numa caixa de papelão

  No fundo de uma caixa de papelão, Ela desenhou um sol com retalhos de gizes de cera. Os dias estavam nublados. Pela janela pintada de ...