O cotidiano e os seus
consequentes eventos singulares são constantemente interpretados pelos seres
humanos da forma como cada qual os interpreta. Em geral, a pessoa interpreta os
seus acontecimentos mais pessoais a partir dos seus sentidos e das suas percepções.
O que se revela no mundo não é captado da mesma maneira por todas as pessoas.
Cada qual constrói a sua narrativa de forma a se sentir em segurança com ela.
No processo psicoterápico, as
nuances perceptivas se entrechocam o tempo todo entre o psicoterapeuta e seu
cliente, tocando singelamente os limites das dimensões da espontaneidade e da
criatividade. Os entrechoques e toques visam um novo viver marcado pelo
bem-estar de melhor ser, na dimensão do que Fritz Pearls batizou
de awaraness – uma dimensão especial de contentamento com as
possibilidades de viver melhor, uma consciência de si perceptiva; a tomada de
consciência global no momento presente, a atenção ao conjunto da percepção
pessoal, corporal e emocional, interior e ambiental. Obviamente, nestes
intercruzamentos perceptivos, verdades absolutas e discussões sobre o certo e o
errado não cabem. E todos os debates, conversas e revelações ocorrem na zona nebulosa
dos sensos ativos em processo, no campo do segredo das palavras e dos
sentimentos, na escuridão profunda das cavernas mais obscuras, frias e
silenciosas. Nelas, às vezes, uma pequena fogueira é acesa para favorecer os
sentidos e, ainda, se perceber vivo.
Por entender os interstícios da
psiquê humana, o respeitado psicanalista Contardo Calligaris usou de uma
metáfora para falar do trabalho do psicólogo ou psicanalista como o trabalho de
uma puta. Confesso já ter meditado múltiplas vezes sobre esta metáfora e
cheguei à conclusão que o psicanalista estava certo. Com essa metáfora, eu que
já respeitava as putas, passei a respeita-las ainda mais. De fato, psicólogos,
psicanalistas e putas acolhem pessoas em suas mais desditosas intimidades, na
nudez expressa sem constrangimentos, sem estabelecerem juízos
preconceituosos ou julgamentos indevidos. Nas situações de acolhimento há
vazios e interpenetrações, vergonha e exposição, alívio e angústia, recuos e
avanços, transferências e contratransferências, tanto positivas quanto
negativas. Não se pode perder de vistas a ideia de que o risco em se estar
exposto em uma zona paradisíaca onde tudo é permitido, sem repressões ou
reprimendas, o ser em situação se permite experimentar o doce sabor da
liberdade e do amor, quem sabe para conseguir ser quem se pretende ser, o que é
extremamente legítimo. Todavia, para os que não conhecem ou não experimentaram
o processo psicoterápico, deparar-se com alguém em estado de graça ou disposto
a virar o mundo de ponta cabeça é assustador.
Na sabedoria milenar, há uma
narrativa sobre um homem que vivia nos escombros e cemitérios, assombrando e
assustando os concidadãos. Um dia, o mestre da Galileia atravessou todo um lago
só pra encontrar este homem. Num processo que não podemos avaliar, aquele homem
se refez e se organizou. A cidadela, ao invés de ser favorável ao homem e
celebrar a sua conquista pessoal, o que lhe deu mais dignidade de vida, se
manifestou contrária ao processo libertador e perseguiu a quem provocou a
metamorfose. É curioso como as pessoas no entorno de alguém que se liberta das
amarras aprisionantes rechaçam de forma perniciosa e, muitas vezes, grotesca, o
liberto. Para muitos, a lagarta precisa continuar a ser lagarta por toda a
vida. Se ousar se transformar em borboleta, precisa ter as asas cortadas, pois
as pessoas encarceradas em suas verdades sem amor não suportam quando um
sorriso se esboça como genuíno sorriso e não como maquiagem embotada.
Na condição de um
psicoterapeuta, eu vivencio semanalmente as glórias e as agruras decorrentes de
minha ação e palavras. Sempre provoco os meus clientes a saírem de suas vidas
letárgicas a fim de abraçarem as novas possibilidades que se abrem em um novo dia.
Sempre há um arco-íris colorindo o céu quando raios de sol rompem a tempestade
que banhou a terra, as árvores e as pedras que choram sozinhas. Em minhas
provocações, incito cada um a sair de suas ideias congeladas ou cristalizadas
para oportunizarem uma outra experiência em si mesmas.
Outro dia, perguntaram-me se o
que eu faço é perigoso? Eu respondi prontamente que sim. Aliás, é muito
perigoso, uma espécie de aventura constante que singra o mar das emoções
extenuando-se em encontros e desencontros, alegrias e choros, conquistas e perdas.
Às vezes, pergunto-me se toda e qualquer provocação vale à pena. Não tenho uma
resposta pronta e acabada. Acho se tratar de uma pergunta complexa. Quando sou
questionado em minha prática e ação, recolho-me silenciosamente, pois somente o
tempo poderá me defender. Sem pontuar as razões que me levaram a esta ou aquela
ação psicodramática, espero o plausível tempo onde a minha historicidade e a
minha ética será salvaguardada, nem que seja na brisa suave que roçará o meu
rosto.
Enfim, não importa como as
pessoas interpretam os fatos. Importa, sim, como eu me entendo enquanto
eu-mesmo. Por enquanto, eu somente espero que haja o mínimo de respeito e,
assim como eu me recolho em mim, que outros também o façam, afinal de contas, a
“putaria” sempre estará em ordem se visa o awareness.
