sexta-feira, 30 de junho de 2023

Não sou... Sou era...

 


Nem sempre é fácil aceitar-me como sou, mas desafio-me conscientemente à tarefa. Mesmo aceitando-me, entro em litígios interiores e acabo discordando de mim numa quase homérica luta de titãs. Meus paradoxos se desalinham e eu me desequilibro sem mesmo estar na corda bamba. Nestas horas, as minhas argumentações se parecem bilboquês de vidro fino na mão de crianças travessas. Tal brincadeira me assusta a alma.

Amedrontado, permito a chegada dos cristais líquidos que insistem em escorrer no meu rosto. Não são oriundos das minhas decepções pessoais, senão dos meus pés conectados à realidade cotidiana da relva pálida que alimenta continuamente as minhas mais profundas agonias, todas ligadas aos meus próximos que sofrem as agruras diárias. Flores eclodem no meu jardim psíquico e embaralham a vida em seu todo. Pisco as pálpebras e escondo a minha íris multicolorida com predominância jacarandá. Experimento o deleite do seio enluarado, sentindo o visgo do desejo se desfazer no chão de mármore, ao qual me deito nas noites frias.

O horizonte me fisga o olhar. No entorno do sol nascente, vejo uma mandala marajoara escondendo os furos mal feitos na parede de pedra onde o meu corpo se encontra recostado, ao mesmo tempo em que escondo os meus vazios para não permiti-los expostos aos desavisados. Sou um ser em fazimento e só me abro para os que sabem saltar do penhasco e voar por quase dois segundos sem gritar. Há momentos em que o crucial é curtir a queda.

Liberdade é para quem sabe o que significa limites. Liberdade é saborear o hálito da morte e, ainda assim, sorrir com medo. Liberdade é o movimento que ocorre em cada pessoa que se lança ao terreno das escolhas. E por mais que eu pense escolher o que quero escolher ou, por mais que eu não pense o que quero pensar, o meu olho que enxerga as profundezas insiste em cotejar o infinito e se iludir com as fuligens do que restou em algum fogão à lenha, daqueles que fazem um pão-de-queijo bem quentinho e o café e sua borra resinosa. O fogo se extinguiu e ainda resiste como um calor enxerido.

A liberdade requisita o movimento novamente. Neste momento, embarco em um trem para me manter em minhas andanças. Enquanto o trem percorre os seus trilhos, das suas janelas vejo cenários que se fazem e se desfazem. A poesia me invade a alma. A estação do trem é a vida... a hora da partida é também despedida. A sacra letra do Nascimento, aquele que também é chamado pela alcunha de Bituca, favorece a fulguração em meu horizonte existencial. Manifesta-se em mim uma espécie de contexto vital capaz de afirmar que tudo o que vejo veio de uma semente que absorveu a água em seu limite, fazendo-se araucária vivente por duzentos anos.

O céu possui tonalidades acinzentadas e os telhados das casas mais antigas parecem esperar a chuva. Ela vem. Um gosto de hortelã visita-me as narinas. Lembro-me que ainda é manhã e os bocejos ainda são necessários. Agora, meus olhos captam o verde e os meus pensamentos requerem a fotossíntese tão necessária à contínua troca entre os seres viventes.

Enquanto mulheres mergulham no rio, outras destilam sentimentos amorosos e paixões nos seus aparelhos inteligentes de cristais líquidos. Pessoas diversas se afogam. Se não nas águas, nas telas e também nas lágrimas. Desejo um café. Quero gozar ensandecido na transa entre a cafeína e a dopamina, enquanto o trem cruza a avenida e os raios solares rasgam algumas nuvens frívolas. Nem todo algodão doce é consistente. Mais uma vez, enfrento a fila para me desvincular daquilo que é passado. Com o riso jocoso, externo a minha ironia. Ela é fina e ácida como as chuvas frias dos desertos em que eu nunca andei.

Confirmo, assim, a teoria de que nunca é fácil me aceitar como sou, pois nunca sou. Eu sempre serei era...

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

    Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou ...