sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Ipês, girassóis e o suicídio no espectro dos tons amarelos – Para não dizer que não falei de setembro

 


Não há nenhuma relação intrínseca entre os ipês amarelos, os girassóis e o suicídio, mas curiosamente, em setembro, mês em que espocam as flores da citada árvore, anunciando a chegada da primavera, somos também convidados a pensar sobre as ideações e comportamentos suicidas, frutos dos múltiplos desesperos e depressões tão presentes e tão próximos a nós. Os ipês amarelos e suas flores tão brilhantes, em sua inerente experiência de “quase morte”, nos convidam também a pensar este aspecto que muito nos afronta, especialmente quando consideramos a vida e existência.

Segundo informações que circulam na internet, o setembro amarelo surgiu de uma situação trágica que atingiu uma determinada família nos EUA no ano de 1994. Conta-se que o adolescente Michael Emme, de 17 anos, provocou a autodestruição ou suicídio, dentro de um Mustang 1968, customizado e pintado por ele mesmo com a cor amarelo brilhante. No dia do seu enterro, os pais distribuíram um pequeno cartão com uma fita amarela afixada. No cartão estava escrita a seguinte mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. Nasceu ali, a Associação Yellow Ribbon – Fita Amarela, que passou a conscientizar as pessoas quanto aos cuidados necessários, especialmente frente aos transtornos, síndromes e depressões. No Brasil, pessoas que possuem ideações ou comportamentos suicidas podem fazer contato com o Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188. Este centro fica disponível em rede pelo período de 24 horas.

Pensando nas contigências que nos acompanham, cabe-me respaldar as minhas argumentações com a ideia de que não podemos negar o fato de que estamos expostos à múltiplas fragilidades. Somos humanos e não super-heróis. Temos as nossas debilidades e precisamos cuidar de cada uma delas de uma maneira única e atenciosa.

Ao mesmo tempo, precisamos destacar a realidade intrínseca à nossa provisoriedade existencial. Não há pessoa alguma que possa se considerar plena e eterna. Todos nós, querendo ou não, somos provisórios como as flores dos ipês amarelos. Em relação ao todo do universo, a existência de cada um de nós é uma espécie de bolha de sabão – que cresce ao sopro e flutua brilhante, vindo a estourar efemeramente. Ademais, vivemos a vida em sua complexidade e, muitas vezes, somos aturdidos por uma série de demandas que nos agridem. Um dia, todos nós vamos morrer. Alguns, infelizmente, não suportam a sua existência atual e resolvem finalizar as suas trajetórias, mediante uma interferência intensificada marcada pela autodestruição. Somos todos como flores que murcham e caem. O cuidado que temos para com as pessoas não pode ficar restrito somente ao mês de setembro.

É fundamental ressignificarmos nossas trajetórias, reconhecendo as nossas efemeridades, impermanências e fragilidades emocionais, cientes das complexidades afetam a cada um nós. Absurda é a vida em sua inteireza e em suas fatalidades. Absurda é a existência que insiste em ser quando não há possibilidades para ser. Absurda é a finalização da existência, num último ato chamado convencionalmente de morte. Embora a morte seja a presença mais viva e insistente a visitar o cotidiano, não podemos perder de vistas o fato de que somos especiais dentro do cosmos e, talvez por esse motivo, compreendamos a morte com mais tragicidade e angústia.

As coisas acontecem com todos os seres vivos, muitas delas, sem as mínimas explicações. Diante do fatídico momento em que o facão amolado ceifa o caule, fazendo jorrar a seiva, a garganta resseca, a lágrima é vertida e a saudade – vontade de estar perto, se longe, e mais perto se perto, é violentada pelo acaso, pelo infortúnio, pelo que pessoa alguma espera.

O cotidiano se rompe, desfazendo tudo o que é concreto. O perfume das flores deslocadas dos seus galhos, fincadas na água de um jarro, dá lugar a um odor fétido. O belo deixa o palco, abrindo as cortinas para o horrendo. Todas as cores e poesias ficam opacas e sem brilho. Faltam luzes e os pássaros cessam os seus cantos e encantos. Tudo fica desinteressante, mesmo o sorriso da criança não provoca o encantamento. O sopro da vida é tão passageiro quanto fugaz, e as ondas da ressaca inundam o arquipélago do contentamento. Tudo se esvai, como águas nas conchas das mãos. Os por quês continuam a insistir pelas respostas. Elas se recusam a sair dos claustros profundos das cavernas pluviais. Instaura-se um vazio cheio de palavras silenciadas que jamais serão pronunciadas, pois no fundo de toda alma aterrada pelo infortúnio, não há o que dizer.

Por isso, em horas de infortúnio, recorremos à sabedoria dinamizada do momento vivencial, mesmo em meio a dores lancinantes. Não há canções, poesias e preces suficientes que possam ajudar nessas horas. Continuamente, somos convocados a abraçar quem precisa ser abraçado, a chorar as dores das dores, sem julgamentos, a contemplar os ipês amarelos que espocam em amores e a olhar a lua cheia. Ela insiste em brilhar entre as nuvens densas e turvas. Em setembro, amarelo ou cinzento ou mesmo em qualquer ano, mês ou dia, havemos de recorrer a um mínimo vestígio de esperança...

 

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

    Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou ...