sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Campeão e o Vencedor - Divagações poéticas






A vida é marcada por uma série de ritos de passagens. Desde o nascimento até a morte, colecionamos ritos que nos lançam ao inesperado e inusitado. Todos os dias, portais se abrem para todos nós e ao atravessá-los, vislumbramos o “novo” que se reveste de realidade. Essa realidade nos conduz aos mais diversos riscos inerentes à vida. E a vida é marcada por vitórias e derrotas. É na dialética dessas duas dimensões que confrontamos e somos confrontados.
Ao pensar nos confrontos e nas peças que a vida nos apresenta, à minha memória vem a imagem da atleta Gabriele Andersen-Scheiss. Quem não se lembra desta brava suíça capengando, desorientada, se arrastando no final da maratona Olímpica de 1984, em Los Angeles. No calor escaldante daquele dia, Gabriele desafiou a natureza e o clima ao não aceitar água no ultimo posto d’agua no percurso. Gabriele disse depois que estava com 39 anos e não teria outra oportunidade de honrar o seu diploma de participação olímpica. Resolveu, então, cumprir o seu calvário nos últimos 500 metros para completar a maratona em 2:48.42. E a suíça Gabriele é hoje mais lembrada que a própria Joan Benoit, vencedora da primeira maratona de 1984, exatamente a primeira maratona olímpica feminina. Mas também nos lembramos do nosso atleta brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona nas Olimpíadas de Atenas - Grécia.
Vanderlei liderava a prova com mais de 45 segundos de vantagem. Foi quando o insano padre irlandês Cornélius Horan resolveu pregar aquela peça e travá-lo na sua jornada rumo ao ouro. Vanderlei chegou em terceiro lugar, depois desse indesejado ocorrido. Trouxe o bronze para o Brasil e ganhou do COI - Comitê Olímpico Internacional - a medalha "Pierre de Coubertin", que é dada a pessoas que dignificam o esporte com o conhecido "fair play". Como Gabrielle e Vanderlei, escolhemos ir ao final de nossa maratona, e mesmo que não cheguemos em primeiro lugar, o importante é chegar. Aliás é justamente nesse ponto que vale a pena fazer uma distinção entre o campeão e o vencedor. A distinção que ora faço, é muito mais simbólica do que real, mesmo porque há uma aproximação entre as duas expressões. Mas quero sugerir que a distinção perpassa a lógica da plausibilidade.
O campeão é aquele que chega em primeiro lugar, ganha os louros da vitória e a taça dourada que, em breve, ficará empoeirada em uma estante qualquer, como Joan Benoit. A conquista do primeiro lugar é efêmera, embora marcada pelo glamour dos aplausos.
O vencedor não necessariamente é aquele que chega em primeiro lugar. É aquele que chega. É aquele que experimenta a luta do cotidiano e se impõe, mesmo que tudo lhe diga o contrário. O vencedor é aquele que resiste, agüenta, suporta... como Gabrielle A. Scheiss.
A vida é cheia de oportunidades, de possibilidades, de conquistas. Entramos nela completamente inexperientes. Vivenciamos alegrias, tristezas, namoros, paixões, desentendimentos, construções, separações. Conhecemos lugares, pessoas, coisas e culturas diferentes. Enfrentamos situações diversas, boas ou ruins que contribuem para a grande mudança do efêmero.
Nesse caminho de desafios e incertezas, inunda-nos um sentimento de realização. Doravante, em qualquer canto deste planeta cada dia mais apertado, novos paradigmas serão superados. E nessa esfera de pululação inusitada, almejamos a consciência de um mundo melhor, um mundo formado por vencedores que façam a diferença nos relacionamentos e não por campeões que se gabam por causa da vaidade.

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

    Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou ...