segunda-feira, 2 de março de 2026

A tragédia em Juiz de Fora - MG


Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente desde o dia 23 de fevereiro de 2026, quando a cidade de Juiz de Fora e circunvizinhanças se viram afetadas pelas fortes chuvas, provocando enchentes, deslizamentos, desalojamentos e mortes, sabores esquisitos e inusitados se fizeram presentes no meu paladar e nos meus sentidos mais sentidos.

Com a boca estranha, não consegui me concentrar em quase nada. Até comer o que tanto apeteço não me favoreceu. Eu me conectava com as telas, completamente aturdido por conta do que via e ouvia, a garganta embargada e as lágrimas querendo jorrar. Eu não fora atingido de forma direta, mas indireta e profundamente. Amigos e conhecidos muito próximos, tiveram as suas casas abaladas pelos infortúnios gerados pelo acúmulo de águas, além da normalidade. Ademais, as notícias que comunicavam as mortes das pessoas traziam a ideia evidente do quanto a vida é frágil. As lanças pontiagudas que atravessavam os meus concidadãos me atravessavam também. Não pude negar as dores que se instalaram em meu corpo e, principalmente, em minha alma.

Foram dias de agonia e angústia. Além do amargor na boca, o sentimento transpassado pelo choro e pela dor alheia que me comoviam o ser. À propósito, a dor não era tão alheia assim, pois muito próxima a mim ou a cada um de nós, cada um com a sua percepção. Entretanto, para muitas pessoas, todo o ocorrido foi um acontecimento normal. Fiquei boquiaberto com o volume de insensibilidade presente nas falas e posicionamentos de gente que nem merece ser chamada de gente.

Nunca a cidade de Juiz de Fora havia sido atingida de forma tão violenta e aviltante quanto dessa última vez. Até me lembro de uma saraivada de granizo ocorrida em setembro de 1985, quando pedras de gelo, algumas no tamanho de laranjas, atingiram casas e carros, provocando quebras diversas além da geração de pequenas escoriações e ferimentos nas pessoas. Entretanto ninguém morrera por causa da chuva. Foram 20 min de tormento, com ventos que chegavam a 90km por hora. À época, eu estudava no Colégio Técnico Universitário – CTU. Eu e alguns amigos, depois de termos assistido toda aquela tempestade, descemos à pé até o centro, pois nos faltava o transporte público, suspenso naquela tarde juntamente com as aulas. Invadia-nos o terror ao vermos casas destelhadas e vidros estilhaçados. Pisávamos aquele gelo com certa satisfação, pois as relvas estavam completamente esbranquiçadas. Meninos como éramos, tudo era aventura. Não tínhamos competência para avaliar as perdas. O prefeito à época, Tarcísio Delgado, teve até a sensibilidade de decretar estado de emergência para a cidade, mas não foi necessário. Rapidamente, a cidade se refez, diferentemente do momento atual quando todos sentimos o cheiro da morte em nossas narinas.

Perdemos 63 pessoas, inclusive crianças em tenra idade. 8584 se encontram desalojadas, não podendo retornar às suas casas, pois os riscos de deslizamentos e desabamentos ainda continuam. Nada fácil, principalmente porque a casa é o lugar da intimidade, do sentimento familiar, das memórias e dos conflitos. Guardamos em nossas casas os objetos mais importantes, as nossas coisinhas preciosas e os nossos documentos. É muito cruel perder em uma tragédia o que tem um valor sentimental, cheio de simbolismos e significados. Mas nada se compara a perda de vidas.

Perder um amor é muito triste, mesmo porque isso também deixa um gosto amargo na boca. Em todo e qualquer relacionamento, sempre fica alguma pendenguinha em aberto, uma conversinha que precisava de mais desdobramentos, mas não teve tempo. Ademais, quando se perde alguém importante no círculo relacional, se instala um medo quanto a recomeçar tudo de novo. Exigências da vida, depois de uma tragédia. Infelizmente, pessoa alguma pode se furtar a reconstruir a sua vida e os seus relacionamentos após sofrer um infortúnio.

O sofrimento está no ar, queria que fosse o amor. Obviamente, a tragédia é fruto de um complexo de situações, as mais diversas. Caçar bruxas ou achar culpados é uma atitude muito ingênua. A tragédia é oriunda de elementos multifatoriais, tais como: aquecimento global, forte precipitação, solo encharcado, má ocupação geopolítica, fatores sociopolíticos, construções irregulares, impermeabilização do solo, entupimento do bueiros pelos lixos desovados pelos próprios cidadãos.

      Independente de qualquer observação mais criteriosa elaborada por nós, ou mesmo uma leitura mais cientificizada, o fato é que a tristeza não vai embora tão facilmente e o gosto ruim na boca continuará persistente. Entendo que não podemos perder a nossa sensibilidade. Não podemos deixar que o tempo nos distancie de nossos sentimentos e solidariedade. O amor e a dedicação de uns para com os outros precisa continuar evidenciado. É o que espero que aconteça. Não estamos no mesmo barco, mas não podemos deixar de nos salvaguardarmos em meio ao oceano, principalmente quando ele fica mais bravio. Somos um pelo outro. A dor alheia também me pertence e que coisa alguma arranque do nosso ser o nosso mais expressivo senso de humanidade, por mínima que seja.

A tragédia em Juiz de Fora - MG

Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente d...