Eu
acho que todos nós deveríamos nos embriagar continuamente na tarefa de
reinventar a vida em suas inconsequências. É preciso despetalar as flores
lindas que cerceiam o pântano para que algo novo aconteça. É muito estranho
pensar no fato de que tudo tem que ser como sempre foi ou ainda é. Eu tenho uma
paixão pelo inusitado e pelas coisas que acontecem numa mesa de bar, onde se
comem bolinhos de bacalhau. Ah! Tá! Tudo bem! Os bolinhos têm mais batatas do
que bacalhau, mas as geladas estavam nevadas, tipo “perninhas de pedreiro”,
como se diz popularmente.
Quando
vivo estas experiências, me localizo novamente naquela única ideia fixa quanto
a ser continuamente surpreendido, tendo os meus olhos encantados diante do
novo. Talvez isso se deva aos meus sofrimentos poéticos, os mesmos que brotam
no cotidiano situacional dos meus espaços infinitos. Por isso, exponho-me em
meus risos e danças em gestos espontâneos para ser o que realmente quero ser.
Será
que sempre aceitamos o amor que achamos merecer? Pergunta boba quando o assunto
mesmo é fazer o que precisa ser feito! Há abraços e beijos, e beijos e carícias
que falam mais do que mil palavras. Chego a essa constatação com certa
propriedade, por acreditar piamente que tal tarefa tem a ver com aquilo
que nos torna mais humanos, mais gente. Não somos mônadas estruturais ou
estátuas condenadas à eternidade das praças históricas que temos a oportunidade
de visitar nos grandes centros turísticos.
Mais do que isso, somos seres dotados de experiências e de movimentos que
buscam mais experiências e mais movimentos num contínuo deslizar na flora do
rio que uma hora chegará ao mar. Somos destinados a nos ressignificarmos
continuamente na arte de atravessarmos o túnel sentindo a liberdade de ser,
simplesmente ser...
Não posso mentir! Tenho orgulho da minha redenção de vida. Saí do caminho para
me arranhar nas trilhas fechadas de uma mata selvagem. Gastei grande parte do
meu tempo e da dinâmica do meu ser em uma esfera de atividades da qual eu
gostava e me animava, mas que, depois de vinte minutos, deixou de fazer sentido
para mim. Foram vinte longos minutos. Depois, resolvi abraçar outra perspectiva
insólita e sem sentido para, depois de vinte minutos, montar uma rede à beira
de um precipício com a finalidade de me balançar na amplitude da psicologia.
Com isso, dei à minha vida outro sentido, um novo sentido com sabor de
satisfação.
Eu acho que a vida realmente precisa de aspectos totalmente novos que alimentem
a dinâmica da própria existência, lançando o ser para o avanço e o alcance de
novos horizontes.
Trago
para este momento reflexivo uma perspectiva presente na obra do filósofo alemão
G. W. F. Hegel que afirmou uma dimensão muito interessante ao estabelecer, mediante
linhas específicas da dialética aristotélica, filósofo grego, a ideia de uma
dialética marcada por três estruturas: a tese, a antítese e a síntese. Não se
pode relevar o brilhante argumento do filósofo alemão ao pensar as estruturas do
pensamento pela lógica do idealismo, considerando a fórmula: “o real é o
racional e o racional é o real”. E nessa espiral sem fim, ou quase sem fim –
tem a questão do Estado nessa parada –, que Hegel provoca a sempre viva relação
entre sujeito e objeto num percurso que almeja o diálogo contínuo e aberto. Com
base na dialética de Hegel, o filósofo francês Paul Ricoeur elabora a sua dialética
aberta e sem fechamentos, ampliando o debate da interpretação, apontando para a
sua hermenêutica fenomenológica. Assim,
de braços dados com o método dialético apresentado por Hegel e amplificado por
Ricoeur, afirmo categoricamente a minha vontade pela reinvenção da invenção da
vida e pela redenção da alegria no cotidiano. Eu realmente não consigo conceber
a vida sem a alegria, pois para mim a predisposição à alegria é o elemento
central e situacional do ser humano perante a vida que, em suma, é muito curta
como flash: uma faísca no meio de incêndio, como bem nos disse Heráclito. A
vida não pode ser vivida de qualquer maneira, mas de formas aprofundadas e
intensas.
Uma
pergunta deve permear o pensamento de todo aquele que quer reinventar a vida: O
que realmente posso fazer para que se tenha mais prazer, mais satisfação e mais
alegria na existência? Tal pergunta vai requerer de cada ser um debruçar-se
sobre a ideia presente no pensamento do psicanalista Roberto Freire, pai da
Somaterapia, que nos convoca a realmente vivermos a vida mediante o nosso mais
intenso pulso pelo tesão, pois é o tesão que mobiliza o ser humano para fazer aquilo
que modifica a rotina e a automação. O tesão é a vacina. Por isso a máxima
citada recorrentemente por Roberto Freire: “Sem tesão, não há solução”. Eu já
perdi a conta de quantas vezes li o livro deste autor, pois ele alimenta a
minha alma e me convoca a reinventar a vida que tenho, vivendo cada momento
como sendo o melhor momento. Meu corpo tem fome de afetos e desejos que se
debruçam nas janelas sensíveis de minha poesia, fazendo com que a todo instante
eu afirme o fato de que a vida vale a pena ser vivida.
Portanto,
o desafio contínuo é pela reinvenção da vida em suas inconsequências. As flores
se reinventam, mesmo quando despedaçadas e tudo vira movimento, dança, risos e
estranheza.