quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Duvido do amor! Que ele seja eterno enquanto hard...

 


Eu duvido do amor!

E quando duvido, questiono!

E quando questiono, complico!

E quando complico, viajo aos interstícios de mim mesmo,
para encontrar com o que, talvez, nunca seja parte de mim mesmo ou que seja o todo do meu todo, em minha plenitude.

Plenificado de nada, singro o mar dos meus pensamentos desconexos em uma jangada já desgastada pelo tempo e pela lida, ansiando a insanidade dos fragmentos que me foram adicionados por pessoas que eu encontrei nos corredores apertados desses canais da vida, os mais diversas. Algumas eram próximas, outras bem distantes. A maioria era amistosa, algumas poucas bem cruéis. De todas elas, recebi a afetação sem anfetaminas, enquanto o rio caudaloso que eu filosoficamente observava me ensinava sobre o sentido sem sentido da existência e seus fluxos nômades.

O rio, nem tão rio assim, fazia-me rir, pois era nada mais que um riacho. Diacho! Ele tinha amor ao amar e desejava perder-se no seu objeto amado para nunca mais ser o que sempre foi. Expressava assim, mediante o mavioso dançar das águas em correntezas e redemoinhos a indicação do seu destino, cujo destino era não ter destino algum.

Todas as coisas se fazem e se refazem em seus ciclos e a água, este ser extraterrestre que habita este planetinha de fazer rir, tão grandioso em suas bobagens e guerras sem razão, viaja livremente pelos céus em nebulosas formas disformes,  para desaguar onde quiser, banhando plantações ou inundando cidadelas, casas e favelas, sem pedir permissão. Mesmo quando impostas às garrafinhas plásticas, nada as detém. Livram-se daqueles recipientes transparentes para em suas transparências habitarem os obscuros dos abismos oceânicos, das profundezas dos rios e das corporeidades humanas. Enquanto faço a água circular em todo o meu corpo até o momento de libertá-la de mim, num ato compulsório e gozoso, experimento toda esta louca dimensão dos ciclos nos quais estamos condenados a coexistir.

Mergulho frente a onda altiva e penetro toda a sua vaga salgada de areias remexidas, para me rever do outro lado de suas correntes sem certezas. O mar não tem cabelos...

Percebo como a existência congela a coluna vertebral, provocando os encontros e os desencontros entre as gentes dos diversos continentes.
Em várias casas, dores.

Em cada uma das dores, sofrimento.

Em cada sofrimento, a singularidade dos sabores daquele fruto proibido no paraíso, nunca dantes encontrado, sempre telúrico e perdido.
Um casal se beija na rua. Pós e poeiras misturam-se nas bocas molhadas de salivas.

Outro anda cabisbaixa-mente, sem dar as mãos. As algemas sentimentais parecem já fracionadas e um restolho de afeto agride ainda a alma.

Um terceiro conduz criancinhas que deveriam fazer um pacto para serem escondidas pelo próprio tempo.

Um quarto está desiludido com a ilusão plantada ao longo dos anos pueris e adolescentes. Seu quarto foi pintado com as cores da desilusão e sua cama desabrochou-se silenciosa, aflita?

Um quinto se agride em palavras e gestos, não necessariamente nesta ordem. Palavras fazem mal quando “mal-ditas”. Fazem bem quando “bem-ditas” na boca da criancinha em seu arrolhamento com hálito de leite materno.

A mulher expõe o seu seio para alimentar o mundo, dando contornos de sensibilidade ao amor em seu fragmento de dádiva. No gesto sereno de pura dádiva ao infante, por sua vez, aguerrido em suas sucções e mordiscadas junto ao seio túrgido, a vida vai se entranhando, se estranhando e se emaranhando em figuras nada geométricas riscadas em situações e circunstâncias que não cabem nas profundidades obscuras dos oceanos, complexificando a vida.

Os relacionamentos que emaranham a vida são mais complexos ainda, pois poliedros eivados de diversos ângulos e lados.

É preciso bailar os dias no céu, revelando, de tempos em tempos, seus pirilampos de luz. Tudo é tão próprio, tão singular.

Gosto de me aninhar de novo em minhas dúvidas, a fim de respeitar, até mesmo, o ciclo que ocorre em torno do sol.
Quero me seduzir de mim mesmo para experimentar o encantamento da nudes do amor que eu duvido, mas que se reflete em minha crua retina.

Eu, de mim mesmo, continuo a me debater frente ao amor, aquele mesmo que eu questiono. Enquanto assim questiono, teimosamente insisto em fazê-lo acontecer nas finas teias relacionais que me envolvem continuamente em meu cotidiano, tentando fazer como bem sugeriu Vinícius de Moraes, o "poetinha": que o amor duvidado seja eterno enquanto dure, ou enquanto hard...

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

    Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou ...