Há algum tempo eu tenho refletido sobre
as questões inerentes ao consumo e ao consumismo presentes em nossa dinâmica de
vida social. De fato, as mídias em geral se esmeram continuamente na tarefa e
elaboração de bons reclames, cujos intuitos são o de despertar, ainda mais, o
desejo das pessoas para comprar objetos desnecessários ou supérfluos.
De antemão, é fundamental entendermos
que o consumo tem a ver com a satisfação de nossas mais básicas necessidades,
Como tal, em uma sociedade capitalista, é entendido e aceito de uma maneira
convencional. Por outro lado, o consumismo é uma prática alienada cujas ações
desenfreadas fazem com que uma pessoa adquira um determinado bem ou produto sem
a mínima necessidade. Segundo o site Educa Mais Brasil,
“O consumismo é um fenômeno social estimulado pela sociedade
capitalista devido à sua capacidade de movimentar a estrutura econômica e,
desse modo, garantir o funcionamento das engrenagens de consumo. Contudo, ele
também constitui um aspecto característico de subjetividades fragilizadas.
E, muitas vezes, está associado a transtornos de saúde mental, como ansiedade e
depressão. Conceitualmente, o consumismo pode ser definido
pela compulsividade em comprar. Desse modo, é considerado consumista o
indivíduo que adquire com frequência produtos para os quais não possui
necessidade. Esse fenômeno emerge com a sociedade do consumo que é estruturada
no período pós Revolução Industrial e é retroalimentado pelas estratégias
empregadas pelo capitalismo”. Curiosamente, o consumismo já ganhou uma
classificação como doença pela OMS. Trata-se da oneomania, a doença do
consumo desenfreado. Segundo dados da própria organização, cerca de 8% da
população mundial sofre com este transtorno. Seus principais sintomas
são: pensar em compras o tempo todo, sentindo angústia a respeito;
estourar o orçamento frequentemente e gastar mais do que ganha, principalmente
com itens desnecessários; gastar demais a ponto de prejudicar relacionamentos e
carreira; esconder compras de pessoas próximas e mentir sobre os
valores gastos; viver endividado sem a menor perspectiva de sair do
vermelho; repetir continuamente o
ciclo “gatilho-descontrole-ressaca-recaída”.
Uma simples olhadela no interior de
nossas casas nos fará enxergar o número excessivo de quinquilharias que estão
em nosso entorno, mas não servem para absolutamente coisa alguma. O fato é que
em todos os dias, somos bombardeados com uma série de cores, sons e formas
imagéticas, cuja finalidade é a de fazer com que cada um se sinta menos gente
por não possuir aquilo que foi midiatizado. Um minuto de cada propaganda sobre
determinado produto diz que nós não somos porque não temos, não possuímos.
É antiga essa discussão quanto ao ser e
ao ter. Ela é complexa e envolve cada pessoa em sua respectiva zona de sentido,
convocando-a a observar um novo estilo de vida ou uma nova orientação
existencial. Sobre este assunto, o psicanalista Erich Fromm expressou: “Por ser
ou ter não me refiro a certas qualidades distintas de um sujeito em declarações
como: ‘eu tenho um carro’, ‘eu sou branco’ ou ‘eu sou feliz’. Refiro-me a dois
modos fundamentais de existência, a duas diferentes espécies de orientação para
com o eu e o mundo, a duas diferentes espécies de estrutura de caráter cujas
respectivas predominâncias determinam a totalidade do pensar, sentir e agir de
uma pessoa”. (Ser e ter, 1987, p. 43).
O universo humano pode se organizar, ou
não, por intermédio dessas duas orientações, favorecendo ao ser que muitas
vezes gasta o que não te, a não sucumbir-se aos mandos e desmandos da economia
de mercado. Seria muito pertinente que todos os cidadãos e cidadãs pudessem
repensar as suas respectivas listas de consumo a fim de consumirem, tão
somente, aquilo que é vital para a dinâmica existencial. A pergunta basilar que
pode e deve nos acompanhar é: “Preciso, de fato, disto que estou comprando”?
Ora, comprar com certa razoabilidade é fundamental. Embora as empresas estejam
agregando valores aos seus produtos, não se pode sucumbir às emoções ou mesmo à
ideia de que aquilo adquirido impulsivamente vai proporcionar a felicidade.
Em geral, as pessoas possuem um lugar
para morar, mas querem um lugar maior e melhor; possuem um carro bom, mas
querem um carro zero km; podem viajar para uma excelente praia, mas querem ir
para Cancun; o guarda-roupa se encontra cheio de roupas e sapatos, muitos deles
sem uso, mas querem comprar mais e mais, consumindo todos os espaços.
O certo é que em qualquer uma dessas
circunstâncias e situações, o desejo realizado não sucumbirá, pois abrirá
portas para outro desejo. É um eixo sem fim. Uma coisa é certa: pessoas compram
para se sentirem melhor, mas o que garante o bem-estar não é a aquisição disso
ou daquilo, mas o encontro com aquele estado de espírito compatível com o
equilíbrio da vida, especialmente o que favorece o bom entendimento com pessoas
próximas ou distantes.
Ao final das contas, o que vale mesmo é
o consumo de coisas e objetos que nos sejam realmente importantes, dentro dos
respectivos orçamentos. Planejar o que se precisa é fundamental. Uma dica
pertinente é focar no que se quer e precisa, cotejar o produto por algum tempo
até que haja a possibilidade da aquisição definitiva ou não.
Assim, vale à pena se ornar do básico do
básico para sobreviver e se expressar socialmente. Acumular coisas não traz
sentido algum, porque, em geral, sempre usamos as mesmas coisas no habitual.
Agora, de boa, tenha as suas roupas bem legais, mas nada além daquilo que é
necessário.
No fundo, como diria Milton Santos: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão”. Optemos, conscientemente, pela nossa cidadania.
