A
flora da água do lago é encrespada pelo mavioso vento de um dia quente de
verão. Peixinhos que não podem ser vistos nadam e lutam pelas suas parcas
sobrevivências, enquanto saboreiam musgos e outros pequenos seres das
profundidades. Tudo parece calmo, como se o confronto da água, da terra, do
fogo e do ar, tampouco os conflitos entre os seres miúdos, nunca tivessem
existido.
Nas
margens do lago, a moldura do mato selvagem sem domador ou jardineiro que dê
jeito. Libélulas pairam e disparam sem que os olhos possam acompanhar os seus
movimentos enquanto pequenas abelhinhas colhem mililitros de néctar para
abastecerem seus celeiros de cera.
As
árvores robustas próximas à margem são entrecortadas pelos raios do sol
brilhante, enquanto as maritacas, menos agitadas à tarde, aguardam o novo
frescor de uma nova manhã. Daquela casa, exala-se um som romântico, uma música
francesa, uma que diz que não há espaço para o arrependimento de coisa alguma
– Je ne regrette rien.
Os
olhos entreabertos encontram o brilho interior onde o mundo possui tonalidades
pulsantes e rubras. O coração bate enquanto o pulso sinaliza a vivacidade da
corrente sanguínea. Nele uma frase que ecoa diuturnamente: Hic et
Nunc – Aqui e Agora. Nas múltiplas vivências de minha persona em
metamorfoses, o cérebro brilha e os neurotransmissores se agitam em frenesi.
Tudo está iluminado dentro da caixola das percepções, lembrando a Via Láctea,
lugar maior da minha habitação. Lugar maior que nem imagino como é. Moro no
desconhecido e me imagino como um alguém.
Ao
alcance das mãos, toda a beleza dos seres que se querem bem, do amor que
acontece em atos genuínos e afetos cristalinos. Não há risos, mas comoção
intensa. Os olhos banhados se tornam mais brilhantes e as íris douram. De perto
e de longe, gotas autênticas de mel, mas a colmeia das abelhas Jataí fica lá no
alto do morro, onde o mato é denso. O néctar foi colhido e acolhido vivamente.
O castelo de cera está garantido.
Enquanto
percorro a trilha aberta, em meio ao capim gordura e as árvores crescentes com
caules ainda possíveis de serem envergados, sou visitado irremediavelmente
pelos mosquitos que não vejo, mas se refestelam em minhas pernas, em minha pele
morena. Uma Joaninha, daquelas vermelhinhas, gorduchinhas e brilhantes, pousa
em minha mão direita, encantando a minha retina. Minhas percepções se alteram
ainda mais quando quedo o meu olhar para a revoada de pica-paus amarelos. O
encanto redobra e revisito as minhas memórias mais pueris, de quando eu
assistia um determinado seriado infantil.
A
flora do lago agora espelha o céu. Confundo os dois mundos e me perco em minha
eternidade. Ela dura quase um segundo, assim como a minha felicidade. Quero que
este bem-estar permaneça. Detestaria dar lugar a qualquer tipo de angústia ou
ansiedade que não sejam as existenciais. Sei que um dia vou fenecer, mas, por
enquanto, quero abraçar o mundo que me abraça para afetar meus afetos e
desafetos com minha sensibilidade feminina.
E viva a existência…
