quinta-feira, 28 de maio de 2026

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

 


Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do navio em alto mar e o caminho do homem para uma jovem. Provérbios 30,18-19

 

Um dos grandes desafios para as pessoas que optam pelo matrimônio é a complexidade da vida a dois. Entendemos por complexidade o emaranhamento de situações vivenciais que se entremeiam em todo e qualquer tecido social. O casamento é um entre eles.

Existem muitos dilemas e conflitos quando duas culturas e espiritualidades distintas, oriundas de processos educacionais diferentes, se conjugam num espaço para receberem a alcunha de lar. Comparamos a vida a dois como abrir uma picada na mata densa e desconhecida, tendo à mão, tão somente, um canivete cego e enferrujado para cortar raízes, folhas, plantas, árvores, musgos, lodo, criando uma trilha.

No decorrer da história dos seres humanos no tempo, diversos outros casais de múltiplas culturas e ancestralidades abriram suas respectivas trilhas e vivenciaram os seus dramalhões. É bom que se diga que cada vivência se deu de forma única e intransferível. Por mais que um casal partilhe a outro a sua experiência, é de todo em vão, pois cada um vai encontrar o dilema que o incomodará. Sendo assim, cada casal tem que se aventurar em sua própria trilha que, por sua vez, ainda será aberta.

Mesmo experiências de matrimônios longevos manifestam cansaços diversos e exaustão entre os contraentes, devido ao movimento extenuante do canivete na picada. Então, é fundamental parar para descansar em clareiras, a fim de se lançar, novamente, ao árduo movimento na mata fechada, com a certeza de nunca se chegará a um destino. O casamento, então, é uma espécie de labirinto onde duas pessoas precisam aprender a viver bem sem cobrarem uma felicidade final, pronta e acabada, pois ela não existe. Na mata fechada e labiríntica, não existem muitas possibilidades para um encantamento, a não ser viver o que dá para ser vivido num pequeno lapso de tempo.

Entendemos que os códigos entre os que resolvem caminhar juntos devem ser combinados e refeitos sempre, visando sempre a possibilidade de um mínimo contentamento. Achar um sentido, por mínimo que seja para o casal, é necessário, fundamental e humano. Essa atitude não deve gerar constrangimentos ou cobranças incautas e seus respectivos cheiros de desilusão e conformação idiota.

Uma vivência entre duas pessoas precisa abraçar algum tipo de divertimento e o contentamento, independentemente dos resultados. Ora, esta opção pode favorecer a possibilidade de uma melhor harmonização entre as pessoas que caminham conjuntamente. Quando se abandona a necessidade de uma realização mais plenificada na relação, é possível que seja mais fácil a aventura a dois.

Nesse sentido, a epígrafe exposta anteriormente revela a dificuldade do caminho de um homem com uma mulher e vice-versa. O autor do livro de Provérbios apresenta-nos quatro coisas que são complexas demais para ele. O caminho da águia no céu; o caminho da serpente na pedra; o caminho do navio no mar e o caminho do homem para uma jovem, embora se sinta maravilhado com as três primeiras. À princípio, podemos dizer que o autor busca o sentido das coisas e as razões pelas quais essas dinâmicas se dão como se dão. Assim, ele se assusta quando percebe que não há uma resposta clara e evidente. Seu assombro é, também, o nosso. Sendo assim, fica claro para todos nós que no que se refere a casamento, o caminho a ser trilhado e a própria busca de sentido em sua estrutura é experiência particular onde não existem mapas, tampouco receitas acabadas.

A aventura do casamento, que muitos abraçam, é única, marcada pela sensação única de se viver dentro da experiência global no planeta. É preciso, então, se apropriar da experiência a dois, como sendo a mais especial e intransponível. Então, já que não se tem a possibilidade de um final feliz, torna-se fundamental que em meio às tensões inerentes ao casamento, se encontre uma possibilidade para o divertimento. Acho que este é um bom caminho para a dinâmica da vida a dois. Talvez, com o intuito de melhorar essa brincadeira, Mario Quintana, poeta brasileiro, tenha escrito uns versos interessantes que deveriam compor o momento de votos de todas as celebrações de matrimônio vigentes. Digo isso porque na dinâmica do relacionamento conjugal deve existir divertimento, e esse divertimento tem que estar de mãos dadas com a liberdade. Sem liberdade, nenhuma estrutura consegue resistir, inclusive o casamento. Os votos de Quintana assim se expressam:

1.      Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

2.      Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

3.      Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

4.      Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

5.      Promete se deixar conhecer?

6.      Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

7.      Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem-informados sobre a realidade que os aguarda?

8.      Promete que não falará mal da pessoa com quem se casou só para arrancar risadas dos outros?

9.      Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

10. Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher. Declaro-os maduros.

É na apoteose de uma relação marcada pela maturidade que se encontra a possibilidade de boas resoluções relacionais. Do contrário, um buraco se abre às frustrações e ao pior tipo de solidão – aquela que se vive acompanhado de alguém que não partilha e não vive os sonhos comuns. Ao mesmo tempo, é importante desistir da ideia de se fazer força para ume relação dar certo. Este tipo de atitude somente dura até a página dois e desgasta preponderantemente o casal.

Não há respostas fáceis, tampouco certezas e convicções quando o assunto é o casamento. Existem muitas variáveis que podem favorecer os bons encontros relacionais e tantas outras que enfraquecem a aventura. A rota é complicada e diante dos desafios é preciso aceitá-los e seguir os dias, um após o outro. O melhor mesmo é deixar a naturalidade e a espontaneidade dos processos bem clarificados, e quem sabe nisso, encontrar o que se chama amor. Ao final das contas, ficará a incompreensão, pois, de fato, nada é mais incompreensível que o amor, essa espécie de loucura sempre em desatino.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Quando me veio o amor pelas letras?

 


Não sei por que cargas d’água, ontem, após acordar de uma anestesia, ocorreu-me um pensamento nada coligado ao momento em que eu estava experienciando. Aliás, um pensamento que nunca me visitara em qualquer momento de minha lida existencial: “Quando, de fato, me tornei um apaixonado pela poesia”?

Nem sempre fui amante das letras e dos livros. Houve um tempo em que os lia sem prazer, somente por dever, para cumprir as atividades corriqueiras do cotidiano escolar em suas primeiras séries. Na infância, lia os gibis e os livros, muito mais pelos desenhos. Meu pai, sempre muito preocupado com os meus processos de formação, além de me oportunizar os estudos no Jardim de Infância, estimulava-me a estudar uma cartilha intitulada: Meu amiguinho Davi, escrito por Eunice Alves e Márcia de Almeida. Não entrarei nos méritos quanto aos modelos familiares ali evidenciados e a alegria sempre presente em meio ao todo da vida, mas eu gostava do Davi, sua família e a sua trupe.

Depois, na pré-adolescência, eu me apropriava de alguns autores e algumas autoras brasileiras sem o cuidado e atenção que mereciam. Li, por exemplo, Dom Casmurro de Machado de Assis, sem me preocupar com a Capitu, o que fez, fazia ou deixava de fazer. A vida dela não era da minha conta. Li, também, Menino de Asas de Homero Homem, da famosa coleção Vaga-Lume. Li a narrativa com certo asco, pois a ideia de uma criança com asas, muito me perturbava. Ademais, ficava chateado todas as vezes que eu percebia os dramas sofridos pela personagem central, mais especificamente os preconceitos sofridos e a inquietação inerente ao poder decorrente de sua diferença e os processos quanto à aceitação de si mesmo. Li, também, a Ilha Perdida de Maria José Dupré, que narrava as aventuras e os apuros sofridos por Henrique e Eduardo em uma pequena ilhota no meio do Rio Taubaté. E, ainda teve, um livro que muito me marcou: O Escaravelho do Diabo de Lúcia Machado de Almeida. A trama em que pessoas ruivas eram assassinadas me comoveu. E o assassino em série deixava como pista, um besouro espetado por um alfinete em uma rolha.

Todavia, não havia sabor nas letras, tampouco nas tramas que eu lia. As marcas e as lembranças decorrem hoje, muito mais por conta das conversas alhures obtidas com os colegas, do que pelo saborear da leitura. Então? Quando me veio o gosto e o amor pelos livros e os seus universos embutidos?

Quando me chamaram, após a anestesia, a pergunta quanto a ao amor pelos livros inundou a minha mente. Despertei-me, e, ali, frente aos meus olhos, se estampava o momento em que a poesia e a literatura me despertaram. Subitamente, fui ao passado, às aulas de português no Colégio Estadual Conselheiro Afonso Pena. A nossa professora nos estimulava à leitura, a visitar a biblioteca e a se interessar, de alguma forma, pelas letras e tramas, mesmo que por intermédio dos gibis. Nas aulas dessa disciplina, éramos estimulados a escrever prosas e poemas. Eu tinha um amigo, do qual gostava muito, chamado Aluísio, cujo apelido era “Periquito”, justamente por sua fisicalidade franzina. Ele jogava no gol com grande elasticidade, às vezes, parecendo voar. Aluísio, além de muito carismático, era muito hábil com as letras. Demonstrava uma verve poética inata. Estávamos na sexta-série e ele rebuscava as palavras para falar de coisas corriqueiras.

De alguma maneira, o estilo de Aluísio me encantava. Eu o ouvia com aquela vontade de ter escrito o que ele havia escrito. Seus poemas me comoviam e eu ficava embasbacado pelo que ouvia, quando ele, em tom impostado, lia os seus versos e prosas, praticamente declamando-os. Ao término, aquilo tanto nos tocava, que aplaudíamos e elogiávamos de uma forma efusiva. Aluísio era o nosso poeta. Ao final da aula, eu sempre perguntava a ele de onde ele tirava toda aquela inspiração. Ele me dizia: “Não sei! Só sinto”! Eu também queria sentir e transmitir em palavras o que me ocorria na lida diária. Então, comecei a escrever diferente, com mais suor e sangue, no auge dos meus 11 anos e não parei mais. Descobri que cada pequeno texto escrito era um pedaço de mim mesmo, encarnando-me em letras.

Passei a não ler mais por obrigação, tampouco para manter metas. Os livros começaram a ser meus parceiros, fazendo-me viver outras vidas, para além da minha própria vida, o que era maravilhoso. Descobri o quanto era prazeroso e saboroso abraçar as letras e ler por pura fruição, sem querer alcançar metas. Inclusive, eu acho ridículo quem estabelece metas para as suas leituras em um ano.

O mestre Rubem Alves sempre defendeu a ideia de que sabor e saber andam coligados. Em suas palavras: “Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura”. Antes de conhecê-lo, mais aprofundadamente, eu descobri esse privilégio.

Enfim, diante da pergunta que me sobreveio como uma epifania, posso responder convictamente que o meu lado literário e poético, mesmo amador, surgiu na amizade, no encontro e no respeito entre gente que se reconhece sensível e acolhedora ao outro. Que sejam bem-vindas as novas vidas que me forem oferecidas através das leituras e dos escritos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A tragédia em Juiz de Fora - MG


Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente desde o dia 23 de fevereiro de 2026, quando a cidade de Juiz de Fora e circunvizinhanças se viram afetadas pelas fortes chuvas, provocando enchentes, deslizamentos, desalojamentos e mortes, sabores esquisitos e inusitados se fizeram presentes no meu paladar e nos meus sentidos mais sentidos.

Com a boca estranha, não consegui me concentrar em quase nada. Até comer o que tanto apeteço não me favoreceu. Eu me conectava com as telas, completamente aturdido por conta do que via e ouvia, a garganta embargada e as lágrimas querendo jorrar. Eu não fora atingido de forma direta, mas indireta e profundamente. Amigos e conhecidos muito próximos, tiveram as suas casas abaladas pelos infortúnios gerados pelo acúmulo de águas, além da normalidade. Ademais, as notícias que comunicavam as mortes das pessoas traziam a ideia evidente do quanto a vida é frágil. As lanças pontiagudas que atravessavam os meus concidadãos me atravessavam também. Não pude negar as dores que se instalaram em meu corpo e, principalmente, em minha alma.

Foram dias de agonia e angústia. Além do amargor na boca, o sentimento transpassado pelo choro e pela dor alheia que me comoviam o ser. À propósito, a dor não era tão alheia assim, pois muito próxima a mim ou a cada um de nós, cada um com a sua percepção. Entretanto, para muitas pessoas, todo o ocorrido foi um acontecimento normal. Fiquei boquiaberto com o volume de insensibilidade presente nas falas e posicionamentos de gente que nem merece ser chamada de gente.

Nunca a cidade de Juiz de Fora havia sido atingida de forma tão violenta e aviltante quanto dessa última vez. Até me lembro de uma saraivada de granizo ocorrida em setembro de 1985, quando pedras de gelo, algumas no tamanho de laranjas, atingiram casas e carros, provocando quebras diversas além da geração de pequenas escoriações e ferimentos nas pessoas. Entretanto ninguém morrera por causa da chuva. Foram 20 min de tormento, com ventos que chegavam a 90km por hora. À época, eu estudava no Colégio Técnico Universitário – CTU. Eu e alguns amigos, depois de termos assistido toda aquela tempestade, descemos à pé até o centro, pois nos faltava o transporte público, suspenso naquela tarde juntamente com as aulas. Invadia-nos o terror ao vermos casas destelhadas e vidros estilhaçados. Pisávamos aquele gelo com certa satisfação, pois as relvas estavam completamente esbranquiçadas. Meninos como éramos, tudo era aventura. Não tínhamos competência para avaliar as perdas. O prefeito à época, Tarcísio Delgado, teve até a sensibilidade de decretar estado de emergência para a cidade, mas não foi necessário. Rapidamente, a cidade se refez, diferentemente do momento atual quando todos sentimos o cheiro da morte em nossas narinas.

Perdemos 63 pessoas, inclusive crianças em tenra idade. 8584 se encontram desalojadas, não podendo retornar às suas casas, pois os riscos de deslizamentos e desabamentos ainda continuam. Nada fácil, principalmente porque a casa é o lugar da intimidade, do sentimento familiar, das memórias e dos conflitos. Guardamos em nossas casas os objetos mais importantes, as nossas coisinhas preciosas e os nossos documentos. É muito cruel perder em uma tragédia o que tem um valor sentimental, cheio de simbolismos e significados. Mas nada se compara a perda de vidas.

Perder um amor é muito triste, mesmo porque isso também deixa um gosto amargo na boca. Em todo e qualquer relacionamento, sempre fica alguma pendenguinha em aberto, uma conversinha que precisava de mais desdobramentos, mas não teve tempo. Ademais, quando se perde alguém importante no círculo relacional, se instala um medo quanto a recomeçar tudo de novo. Exigências da vida, depois de uma tragédia. Infelizmente, pessoa alguma pode se furtar a reconstruir a sua vida e os seus relacionamentos após sofrer um infortúnio.

O sofrimento está no ar, queria que fosse o amor. Obviamente, a tragédia é fruto de um complexo de situações, as mais diversas. Caçar bruxas ou achar culpados é uma atitude muito ingênua. A tragédia é oriunda de elementos multifatoriais, tais como: aquecimento global, forte precipitação, solo encharcado, má ocupação geopolítica, fatores sociopolíticos, construções irregulares, impermeabilização do solo, entupimento do bueiros pelos lixos desovados pelos próprios cidadãos.

      Independente de qualquer observação mais criteriosa elaborada por nós, ou mesmo uma leitura mais cientificizada, o fato é que a tristeza não vai embora tão facilmente e o gosto ruim na boca continuará persistente. Entendo que não podemos perder a nossa sensibilidade. Não podemos deixar que o tempo nos distancie de nossos sentimentos e solidariedade. O amor e a dedicação de uns para com os outros precisa continuar evidenciado. É o que espero que aconteça. Não estamos no mesmo barco, mas não podemos deixar de nos salvaguardarmos em meio ao oceano, principalmente quando ele fica mais bravio. Somos um pelo outro. A dor alheia também me pertence e que coisa alguma arranque do nosso ser o nosso mais expressivo senso de humanidade, por mínima que seja.

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

  Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do na...