sexta-feira, 2 de outubro de 2026

ESPERANÇAR - Capítulo 1 - O sol numa caixa de papelão

 


No fundo de uma caixa de papelão, Ela desenhou um sol com retalhos de gizes de cera. Os dias estavam nublados.

Pela janela pintada de azul, descascada e carcomida pelo tempo, Ela via a chuva fina, daquelas que não cessam.

Era o seu aniversário, ia fazer 5 ou 6 anos, mas não sabia ao certo. Não sabia, também, o que significava contar os dias sobre a terra que pirueta tal qual bailarina em um eixo imaginário, ao mesmo tempo em que contorna o sol, num ciclo chamado ano, com verões, outonos, invernos e primaveras…

Mas de todas as estações, a sua preferida era o verão. Adorava dormir descoberta, embora o calor e os zumbidos dos mosquitos tornavam insustentáveis as noites e madrugadas de sono…

Quando Ela se levantava do colchonete colado ao chão, espiava os olhos vermelhos que pareciam ter sido lavados em areia de praia, nos reflexos de um pequeno caco de espelho…

Adorava, ao mesmo tempo, ouvir o burburinho da vizinhança próxima que, levantando-se antes mesmo do despertar do relógio, já se envolvia numa euforia de reclamações quanto à noite mal dormida.

As vozes se misturavam num zumbido ecoante, com algumas notas mais agudas, oriundas da voz de Dona Iaiá…

Ela era uma mulher preta, com olhos brilhantes e castanhos escuros. Seu cabelo curto e cheio de fios brancos contornava o seu rosto arredondado. A moldura não encobria o seu sorriso sem dentes. Havia alegria naquela lavadeira de roupas alheias, apesar de…

Sim! Sem ainda ter idade suficiente para aposentar-se, Dona Iaiá, cujo nome eu nunca soube qual era, tinha por ofício lavar as roupas das pessoas que moravam no entorno.

Detestava quando, por descuido, alguém deixava na trouxa alguma cueca, calcinha ou fralda mijada ou cagada.

Quando se deparava com alguma dessas peças, cuspia um palavrão bem indelicado, gritando com sua voz aguda a sua indignação, uma forma de espantar o nojo.

Sua primeira e ardente vontade era jogar aquelas peças no lixo. Há tempos, não lavava cuecas. Calçolas? Só as dela. Depois, mais comedida em sua raiva, embrulhava as peças num papel de açougue e devolvia aos donos em seu estado fétido.

No auge dos seus 56 anos, montada num tamanco português, o que a fazia chegar a 1,55 metros de altura, não se perdia no cotidiano, mesmo quando este a afrontava violentamente.

Criara três filhos: Jacinto, José e Francisco, todos já soltos no mundo, com seus respectivos 26, 24 e 19 anos. Cada um com sua profissão: pedreiro, pintor e eletricista. Quase formavam uma firma de manutenção.

Mas eram bichos soltos. Cada um se dirigia para um canto do Rio, se amparando em amizades faceiras. De personalidades fortes, não conseguiam trabalhar juntos.

Agora, Dona Iaiá vivia sozinha num barraco bem simples e cravejado de balas na Favela do Campinho. Seu corpo franzino já havia suportado muitas agressões, daquelas que só sabe sofrer quem é mulher e quem é preta.

Baiana de Feira de Santana, nunca se importou com a cor da sua pele. Saíra do estado que mais acolheu nações oriundas do outro lado do Atlântico. Talvez, fosse descendente dos Malês.

Tinha orgulho de ser descendente das ancestralidades do continente hoje chamado África. Mantinha vivas, mesmo a seu modo, as culturas do seu povo.

Enquanto Ela ainda ouvia o estampido agudo da voz de Dona Iaiá, olhava para o seu sol no fundo da caixa, e ele estava muito solitário e apagado, não sorria.

Levantou-se. Colocou as suas mãozinhas no vidro da janela e viu passar apressadamente diante dos seus olhinhos, uma jovem mulher preta, muito bonita. Seu nome: Tina.

Seus olhinhos pupilaram ao vê-la. Acenou, deu tchauzinho, mas Tina não a viu atrás do vidro. Na sua boca, era grande o sorriso. A jovem de 18 anos ria e fazia o dia nublado brilhar.

Seu sorriso encantara Francisco. Se encontraram quando ainda adolescentes, nas brincadeiras de pera, uva, maçã ou salada mista, sempre a melhor opção. Os corpos se aventurando…

As comichões eram molhadas. Na hora da brincadeira, Francisco escolheu salada mista. Tina, em sua intensidade, tacou-lhe um beijo, penetrando-o com a sua língua.  Ele assustou-se…

Recuou com a boca lambida, mas se aprumou. Aproximou-se uma segunda vez com olhar faiscando e se permitiu a troca gostosa. Ela, bem mais madura na arte do que ele.

Sentiu uns arrepios estranhos na pele. Circulação sanguínea em polvorosa. Coração acelerado. Oxitocina puta na veia.

Milagre sensação. Bocas coladas, línguas laçadas, fluidos trocados e babas para todos os lados. Frenesi que não se explica. Um pouco de nojinho ele sentiu na primeira vez. Ela agia naturalmente.

Depois do beijo, a sensação de herói, daqueles que vencem batalhas. Era reles menino, ainda tentando descortinar os pelos do seu púbis.

Tina, por sua vez, se via molhada e resolvida. Já havia beijado outras bocas. Não se apertava com paqueras ou namoricos. Menos ainda com o seu sexo.

Se intumescia pela aventura, pela novidade. Seus feromônios exalavam a acidez de fêmea viva, mas era menina e, como tal, se via envolvida por sonhos lindos e vivos, rosinhas e azuis.

Ela gostava de ver a Tina passar. Sempre elegante, vestida de calça de lycra azul e blusinha de algodão, montada num salto que ela queria para si.

Achava que Tina andava pelas vielas da favela como se estivesse desfilando em Paris, mesmo sem saber o que era Paris. Amava ver o saltitar dos seus cabelos encaracolados, castanho escuros.

As mãozinhas dela continuavam espalmadas no vidro da janela e Tina deslizava morro abaixo. Acreditava que, pelo horário, estava indo trabalhar como vendedora em uma loja em Caxias. Ela a achava corajosa. Francisco era um passado.

Então Ela ouviu a porta ranger. Era a sua mãe voltando da Bitaca do Teixeira. Trazia uma bisnaga envolta em um pedaço de papel cinza. Ela gostava de desenhar naquele papel, também.

O pão parecia gostoso. Sua mãe preparou um café para ela. Não havia leite. Passou margarina Claybom e pôs café em um copo de vidro oriundo de algum extrato de tomate.

Mesmo com os seus 5 ou 6 anos, Ela sabia que em outras casas havia leite, iogurte, biscoitos e bolos, talvez frutas. Na sua, era somente aquilo, mas era bem bom.

Saboreava o seu pão, pois tinha fome. Não poucas vezes não teve o que comer. Uma água rala com fubá lhe era servida, com uma pitada de sal para acalmar o estômago.

Cacilda, sua mãe, muitas vezes não comia, pois, coisa alguma havia em sua casa. Chorava furtivamente nos cantos escuros do barraco, e para esconder o seu sofrer ela dormia.

Era sono doído, acompanhado de sonhos cheios de imagens de sonhos. Já os tinha visto nas padarias, com aquele creme doce e amarelo.

Abrir os olhos era bem fácil. Nem sabia se os havia fechado. A perene inquietação era quebrada com uma dor de cabeça infernal e a pergunta: o que comeremos hoje?

Naquele dia, entretanto, conseguia o pão na Bitaca. Seu Teixeira fora bem favorável na doação. Os olhos dele estavam compridos.

Cacilda tinha lá seus 11 anos. O corpo despontando no corpo. Chamava a atenção da favela.

Enquanto Ela desenhava no papel de pão, via a mãe tão nova. Tinha uma inquietação bem escondidinha. Não sabia que Cacilda era, na verdade, a sua única irmã.

A chuva fina persistia. Cacilda lavava um copo na bica, usando um paninho e um pedacinho de sabão português. Olhava o horizonte. Uma lágrima escorria em sua face. Ela viu a lágrima.

Então Ela se aproximou da mãe, beliscou-a com a pinça dos dedos e com um sorriso nos lábios, mostrou o desenho que havia feito no fundo da caixa de papelão.

No papel em que o pão viera embrulhado, Ela só havia feito rabiscos coloridos. Não havia formas ou detalhamentos. Somente cores intercruzadas que revelavam a complexidade da lida e os riscos coloridos que a atravessam.

Agarrada nas pernas da mãe, perguntou: “Por que você está chorando, mamãe?” Cacilda enxugou o rosto com a barra do vestido. Conscientizou-se que precisava falar a Ela o que estava afligindo o seu peito.

Angustiada, olhou dentro dos olhos de Ela, buscando forças interiores para dizer o que precisava ser dito. Era como se quisesse vomitar, mas não conseguia. Havia uma palavra a ser dita, mas ela se engasgava.

Há palavras profundas, enraizadas, que machucam desde o interior. Elas demoram a romper as pedras dos ressentimentos, mas precisam escoar das funduras do âmago do ser para darem lugar ao vazio, tão necessário à ressignificação da vida.

Ela olhava dentro dos olhos de Cacilda. Olhos vivos e curiosos como se vê em crianças cheias de vitalidade e imaginação. Apesar de pequena, revelava acolhimento em suas írises. O sorriso dos seus pequenos lábios avermelhados sinalizava à mãe para ela ir em frente.

Cacilda parecia explodir em si mesma. As lágrimas começaram a escorrer, mais densas e mais vivas. Pareciam esgoto a céu aberto, embora transparentes. Traziam tantos segredos, mágoas e desajustes que a deixavam em flutuação suspensa, tal qual graveto na enxurrada.

Queria ter mais coragem, mas coragem não é inata. É presente para um momento. Aprendera com a sua mãe que pessoa alguma é corajosa, mas pode revelar coragem quando a situação vivencial assim exige. Então pediu aos céus alguma coragem.

Com a voz embargadíssima, lábios trêmulos e semblante desterrado, disse: “Ela! Eu não sou a sua mãe. Eu sou a sua irmã mais velha e fiquei com a responsabilidade de cuidar de você!”

“Tem sido muito difícil. Parei de estudar e não sei o que fazer. Não posso trabalhar, pois não quero e não posso deixá-la sozinha. Fico dependendo das doações dos nossos vizinhos, e isso me deixa muito triste!”

Com os mesmos olhinhos brilhantes de sempre, Ela disse: “Mamãe! Olha que lindo o sol que eu desenhei no fundo da caixa”! Não era negação da realidade, mas uma espécie de aceitação plena. Para Ela não fazia diferença. Viver cada momento bastava a Ela.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

 


 

Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou pertences preciosíssimos, que nos conduzem às melhores lembranças sobre algo ou alguém que nos marcou em nossa trajetória de vida.

Essas caixas se transformam em pequenos santuários domésticos, recintos silenciosos que gritam profundamente no interior de cada pessoa, em particular, ecoando os melhores sentimentos, gerando, muitas vezes, a exposição dos afetos.

Cada objeto que guardamos com carinho, presenteado por alguém em especial, se torna um potente símbolo de uma afetividade que transpõe os tempos, ressignificando o presente. Pode ser uma fotografia, uma carta escrita à mão, um relógio parado, uma roupinha que não serve mais no corpo, um bichinho de pelúcia, uma medalhinha, um terço, um livro, um algo bem especial...

O mais curioso é que o objeto que não possui sentidos ativos, desperta os nossos sentidos ativos, gerando boas conversas e múltiplas emoções e sentimentos. Por intermédio de um respectivo objeto, que nunca é qualquer objeto, percepcionamos um monte de palavras, cheiros e afetividades que não cabem em um corpo, mas estabelecem uma ampla comunicação com a alma. Há, por exemplo, objetos que fazemos questão de nos desfazermos. Por outro lado, há aqueles que nunca serão desfeitos, por causa da memória afetiva que carregam. Aliás, valor algum pode bastar para a aquisição daquele objeto.

Antes de falecer, eu ganhei do meu pai um violão elétrico. Quando dedilho ou toco o meu violão, sinto-me presentificado pelo instante, deixando que a minha memória escoe em meu ser as lembranças do dia em que recebi aquele presente. O violão é um pedaço do meu pai que permanece em mim. Mesmo se alguém me desse 1 milhão de reais por aquele instrumento, seria desprezado, pois não se trata de um mero instrumento. O violão torna viva a saudade do meu pai.   Não é somente a memória e a saudade, mas o amor que atravessa os tempos, morando em miudezas que alegram o coração, mesmo com a presença de lágrimas.

O tempo passa, o tempo voa e os nossos objetos mais preciosos envelhecem com a gente. Eles perdem a cor, o viço, ficam desgastados, mas continuam a nos acompanhar em nossos dias. Continuarão guardados em nossas caixinhas, mas, mais do que isso, em nossos corações, por se tratar de vestígios de amor. Como nos lembra a poeta Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória imperecível”. De fato, enquanto houver a vida se manifestando em nossas vidas, a potência da memória ribombará profundamente nos abismos da alma, tornando as coisas boas imperecíveis.

Ao final das contas, cada um dos objetos-símbolos que guardamos em nossas caixinhas ou gavetas, são, e sempre serão, pedacinhos de eternidade em nossas pequenas existências.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Paradoxo da Empatia

 


Todos nós, seres humanos, além de carregarmos os pesos externos, tais como mochilas, sacolas, valises, trouxas e malas, também carregamos pesos internos, na maioria das vezes, desnecessariamente.

Os pesos externos podem ser vistos e avaliados pelas pessoas, mas os internos jamais, pois só sente o que sente quem sente. Os outros podem até ter um recurso empático, mas não podem viver aquele nível de experiência.

Diuturnamente, nos deparamos com pessoas que até sorriem, mas a alma se encontra repleta de tristeza. Em outros momentos, nos deparamos com pessoas que parecem estar “na dela”, mas anseiam por uma voz externa que tente puxar algum nível de conversa.

Há uma postura assumida por algumas pessoas em relação a outras alcunhada de empatia. Basicamente, empatia significa a capacidade de se colocar no lugar do outro. Embora o significado pareça simpático, é sabido que este significado é insuficiente, afinal de contas, pessoa alguma consegue se colocar no lugar de outra.

Cada existência é única e irrepetível. O corpo e a memória de cada qual se entrechoca com a cultura e as contradições da história e da sociedade, deixando mais distante ainda a possibilidade de reconhecer o outro em sua integridade.

Talvez, a possibilidade empática exista por intermédio da poesia, essa linha vermelha que toca a profundidade de cada um de nós de uma forma única. Empatia talvez seja isso: tocar o outro imageticamente por intermédio da poesia, tentando sentir o que o outro se sente. É como colocar uma lente especial e diferente na tentativa de se enxergar o mundo pelos olhos do outro.

Há um poema de Jacob Levi Moreno que exemplifica o que queremos dizer, que assim expressa:

Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face,

E quando você estiver perto arrancarei seus olhos

E os colocarei no lugar dos meus;

Arrancarei os meus olhos e os colocarei no lugar dos seus;

Então verei você com os seus olhos

E você me verá com os meus olhos.

Então, até a coisa mais comum servirá ao silêncio e

Nosso encontro permanecerá a meta sem cadeias.

Um lugar indeterminado, em um tempo indeterminado.

Uma palavra indeterminada para um homem indeterminado.

 

Um poema não precisa de explicações. Ele, por si só, dá conta de apresentar o que precisa ser apresentado e sentido por quem quer que queira sentí-lo. De qualquer forma, pessoa alguma precisa ser gigante para imaginar a empatia para e com o outro. Desde um simples: “Como vai você”? até o acompanhamento em um leito de hospital, ou mesmo, no abraço silencioso frente ao luto estabelecido pela perda significativa de uma pessoa querida.

Importa sempre afirmar que pequenas atitudes em prol da outra pessoa fazem uma diferença enorme. No fundo do fundo, pessoa alguma gosta de se sentir sozinha ou excluída.

Quando, de alguma maneira, nos lançamos ao cuidado com o outro, tornamos a vida mais leve e fortalecemos o único amor que sobrevive “apesar de”, a saber, a amizade. No fim da linha, os amigos do momento se farão presentes, tornando melhores os dias chatos.

Com os olhos trocados, deixemos que as palavras e atitudes deixem as suas marcas em meio aos movimentos poéticos, e que eles sejam bons, janelas abertas para novas possibilidades relacionais.

 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

 


Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do navio em alto mar e o caminho do homem para uma jovem. Provérbios 30,18-19

 

Um dos grandes desafios para as pessoas que optam pelo matrimônio é a complexidade da vida a dois. Entendemos por complexidade o emaranhamento de situações vivenciais que se entremeiam em todo e qualquer tecido social. O casamento é um entre eles.

Existem muitos dilemas e conflitos quando duas culturas e espiritualidades distintas, oriundas de processos educacionais diferentes, se conjugam num espaço para receberem a alcunha de lar. Comparamos a vida a dois como abrir uma picada na mata densa e desconhecida, tendo à mão, tão somente, um canivete cego e enferrujado para cortar raízes, folhas, plantas, árvores, musgos, lodo, criando uma trilha.

No decorrer da história dos seres humanos no tempo, diversos outros casais de múltiplas culturas e ancestralidades abriram suas respectivas trilhas e vivenciaram os seus dramalhões. É bom que se diga que cada vivência se deu de forma única e intransferível. Por mais que um casal partilhe a outro a sua experiência, é de todo em vão, pois cada um vai encontrar o dilema que o incomodará. Sendo assim, cada casal tem que se aventurar em sua própria trilha que, por sua vez, ainda será aberta.

Mesmo experiências de matrimônios longevos manifestam cansaços diversos e exaustão entre os contraentes, devido ao movimento extenuante do canivete na picada. Então, é fundamental parar para descansar em clareiras, a fim de se lançar, novamente, ao árduo movimento na mata fechada, com a certeza de nunca se chegará a um destino. O casamento, então, é uma espécie de labirinto onde duas pessoas precisam aprender a viver bem sem cobrarem uma felicidade final, pronta e acabada, pois ela não existe. Na mata fechada e labiríntica, não existem muitas possibilidades para um encantamento, a não ser viver o que dá para ser vivido num pequeno lapso de tempo.

Entendemos que os códigos entre os que resolvem caminhar juntos devem ser combinados e refeitos sempre, visando sempre a possibilidade de um mínimo contentamento. Achar um sentido, por mínimo que seja para o casal, é necessário, fundamental e humano. Essa atitude não deve gerar constrangimentos ou cobranças incautas e seus respectivos cheiros de desilusão e conformação idiota.

Uma vivência entre duas pessoas precisa abraçar algum tipo de divertimento e o contentamento, independentemente dos resultados. Ora, esta opção pode favorecer a possibilidade de uma melhor harmonização entre as pessoas que caminham conjuntamente. Quando se abandona a necessidade de uma realização mais plenificada na relação, é possível que seja mais fácil a aventura a dois.

Nesse sentido, a epígrafe exposta anteriormente revela a dificuldade do caminho de um homem com uma mulher e vice-versa. O autor do livro de Provérbios apresenta-nos quatro coisas que são complexas demais para ele. O caminho da águia no céu; o caminho da serpente na pedra; o caminho do navio no mar e o caminho do homem para uma jovem, embora se sinta maravilhado com as três primeiras. À princípio, podemos dizer que o autor busca o sentido das coisas e as razões pelas quais essas dinâmicas se dão como se dão. Assim, ele se assusta quando percebe que não há uma resposta clara e evidente. Seu assombro é, também, o nosso. Sendo assim, fica claro para todos nós que no que se refere a casamento, o caminho a ser trilhado e a própria busca de sentido em sua estrutura é experiência particular onde não existem mapas, tampouco receitas acabadas.

A aventura do casamento, que muitos abraçam, é única, marcada pela sensação única de se viver dentro da experiência global no planeta. É preciso, então, se apropriar da experiência a dois, como sendo a mais especial e intransponível. Então, já que não se tem a possibilidade de um final feliz, torna-se fundamental que em meio às tensões inerentes ao casamento, se encontre uma possibilidade para o divertimento. Acho que este é um bom caminho para a dinâmica da vida a dois. Talvez, com o intuito de melhorar essa brincadeira, Mario Quintana, poeta brasileiro, tenha escrito uns versos interessantes que deveriam compor o momento de votos de todas as celebrações de matrimônio vigentes. Digo isso porque na dinâmica do relacionamento conjugal deve existir divertimento, e esse divertimento tem que estar de mãos dadas com a liberdade. Sem liberdade, nenhuma estrutura consegue resistir, inclusive o casamento. Os votos de Quintana assim se expressam:

1.      Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

2.      Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

3.      Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

4.      Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

5.      Promete se deixar conhecer?

6.      Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

7.      Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem-informados sobre a realidade que os aguarda?

8.      Promete que não falará mal da pessoa com quem se casou só para arrancar risadas dos outros?

9.      Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

10. Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher. Declaro-os maduros.

É na apoteose de uma relação marcada pela maturidade que se encontra a possibilidade de boas resoluções relacionais. Do contrário, um buraco se abre às frustrações e ao pior tipo de solidão – aquela que se vive acompanhado de alguém que não partilha e não vive os sonhos comuns. Ao mesmo tempo, é importante desistir da ideia de se fazer força para ume relação dar certo. Este tipo de atitude somente dura até a página dois e desgasta preponderantemente o casal.

Não há respostas fáceis, tampouco certezas e convicções quando o assunto é o casamento. Existem muitas variáveis que podem favorecer os bons encontros relacionais e tantas outras que enfraquecem a aventura. A rota é complicada e diante dos desafios é preciso aceitá-los e seguir os dias, um após o outro. O melhor mesmo é deixar a naturalidade e a espontaneidade dos processos bem clarificados, e quem sabe nisso, encontrar o que se chama amor. Ao final das contas, ficará a incompreensão, pois, de fato, nada é mais incompreensível que o amor, essa espécie de loucura sempre em desatino.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Quando me veio o amor pelas letras?

 


Não sei por que cargas d’água, ontem, após acordar de uma anestesia, ocorreu-me um pensamento nada coligado ao momento em que eu estava experienciando. Aliás, um pensamento que nunca me visitara em qualquer momento de minha lida existencial: “Quando, de fato, me tornei um apaixonado pela poesia”?

Nem sempre fui amante das letras e dos livros. Houve um tempo em que os lia sem prazer, somente por dever, para cumprir as atividades corriqueiras do cotidiano escolar em suas primeiras séries. Na infância, lia os gibis e os livros, muito mais pelos desenhos. Meu pai, sempre muito preocupado com os meus processos de formação, além de me oportunizar os estudos no Jardim de Infância, estimulava-me a estudar uma cartilha intitulada: Meu amiguinho Davi, escrito por Eunice Alves e Márcia de Almeida. Não entrarei nos méritos quanto aos modelos familiares ali evidenciados e a alegria sempre presente em meio ao todo da vida, mas eu gostava do Davi, sua família e a sua trupe.

Depois, na pré-adolescência, eu me apropriava de alguns autores e algumas autoras brasileiras sem o cuidado e atenção que mereciam. Li, por exemplo, Dom Casmurro de Machado de Assis, sem me preocupar com a Capitu, o que fez, fazia ou deixava de fazer. A vida dela não era da minha conta. Li, também, Menino de Asas de Homero Homem, da famosa coleção Vaga-Lume. Li a narrativa com certo asco, pois a ideia de uma criança com asas, muito me perturbava. Ademais, ficava chateado todas as vezes que eu percebia os dramas sofridos pela personagem central, mais especificamente os preconceitos sofridos e a inquietação inerente ao poder decorrente de sua diferença e os processos quanto à aceitação de si mesmo. Li, também, a Ilha Perdida de Maria José Dupré, que narrava as aventuras e os apuros sofridos por Henrique e Eduardo em uma pequena ilhota no meio do Rio Taubaté. E, ainda teve, um livro que muito me marcou: O Escaravelho do Diabo de Lúcia Machado de Almeida. A trama em que pessoas ruivas eram assassinadas me comoveu. E o assassino em série deixava como pista, um besouro espetado por um alfinete em uma rolha.

Todavia, não havia sabor nas letras, tampouco nas tramas que eu lia. As marcas e as lembranças decorrem hoje, muito mais por conta das conversas alhures obtidas com os colegas, do que pelo saborear da leitura. Então? Quando me veio o gosto e o amor pelos livros e os seus universos embutidos?

Quando me chamaram, após a anestesia, a pergunta quanto a ao amor pelos livros inundou a minha mente. Despertei-me, e, ali, frente aos meus olhos, se estampava o momento em que a poesia e a literatura me despertaram. Subitamente, fui ao passado, às aulas de português no Colégio Estadual Conselheiro Afonso Pena. A nossa professora nos estimulava à leitura, a visitar a biblioteca e a se interessar, de alguma forma, pelas letras e tramas, mesmo que por intermédio dos gibis. Nas aulas dessa disciplina, éramos estimulados a escrever prosas e poemas. Eu tinha um amigo, do qual gostava muito, chamado Aluísio, cujo apelido era “Periquito”, justamente por sua fisicalidade franzina. Ele jogava no gol com grande elasticidade, às vezes, parecendo voar. Aluísio, além de muito carismático, era muito hábil com as letras. Demonstrava uma verve poética inata. Estávamos na sexta-série e ele rebuscava as palavras para falar de coisas corriqueiras.

De alguma maneira, o estilo de Aluísio me encantava. Eu o ouvia com aquela vontade de ter escrito o que ele havia escrito. Seus poemas me comoviam e eu ficava embasbacado pelo que ouvia, quando ele, em tom impostado, lia os seus versos e prosas, praticamente declamando-os. Ao término, aquilo tanto nos tocava, que aplaudíamos e elogiávamos de uma forma efusiva. Aluísio era o nosso poeta. Ao final da aula, eu sempre perguntava a ele de onde ele tirava toda aquela inspiração. Ele me dizia: “Não sei! Só sinto”! Eu também queria sentir e transmitir em palavras o que me ocorria na lida diária. Então, comecei a escrever diferente, com mais suor e sangue, no auge dos meus 11 anos e não parei mais. Descobri que cada pequeno texto escrito era um pedaço de mim mesmo, encarnando-me em letras.

Passei a não ler mais por obrigação, tampouco para manter metas. Os livros começaram a ser meus parceiros, fazendo-me viver outras vidas, para além da minha própria vida, o que era maravilhoso. Descobri o quanto era prazeroso e saboroso abraçar as letras e ler por pura fruição, sem querer alcançar metas. Inclusive, eu acho ridículo quem estabelece metas para as suas leituras em um ano.

O mestre Rubem Alves sempre defendeu a ideia de que sabor e saber andam coligados. Em suas palavras: “Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura”. Antes de conhecê-lo, mais aprofundadamente, eu descobri esse privilégio.

Enfim, diante da pergunta que me sobreveio como uma epifania, posso responder convictamente que o meu lado literário e poético, mesmo amador, surgiu na amizade, no encontro e no respeito entre gente que se reconhece sensível e acolhedora ao outro. Que sejam bem-vindas as novas vidas que me forem oferecidas através das leituras e dos escritos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A tragédia em Juiz de Fora - MG


Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente desde o dia 23 de fevereiro de 2026, quando a cidade de Juiz de Fora e circunvizinhanças se viram afetadas pelas fortes chuvas, provocando enchentes, deslizamentos, desalojamentos e mortes, sabores esquisitos e inusitados se fizeram presentes no meu paladar e nos meus sentidos mais sentidos.

Com a boca estranha, não consegui me concentrar em quase nada. Até comer o que tanto apeteço não me favoreceu. Eu me conectava com as telas, completamente aturdido por conta do que via e ouvia, a garganta embargada e as lágrimas querendo jorrar. Eu não fora atingido de forma direta, mas indireta e profundamente. Amigos e conhecidos muito próximos, tiveram as suas casas abaladas pelos infortúnios gerados pelo acúmulo de águas, além da normalidade. Ademais, as notícias que comunicavam as mortes das pessoas traziam a ideia evidente do quanto a vida é frágil. As lanças pontiagudas que atravessavam os meus concidadãos me atravessavam também. Não pude negar as dores que se instalaram em meu corpo e, principalmente, em minha alma.

Foram dias de agonia e angústia. Além do amargor na boca, o sentimento transpassado pelo choro e pela dor alheia que me comoviam o ser. À propósito, a dor não era tão alheia assim, pois muito próxima a mim ou a cada um de nós, cada um com a sua percepção. Entretanto, para muitas pessoas, todo o ocorrido foi um acontecimento normal. Fiquei boquiaberto com o volume de insensibilidade presente nas falas e posicionamentos de gente que nem merece ser chamada de gente.

Nunca a cidade de Juiz de Fora havia sido atingida de forma tão violenta e aviltante quanto dessa última vez. Até me lembro de uma saraivada de granizo ocorrida em setembro de 1985, quando pedras de gelo, algumas no tamanho de laranjas, atingiram casas e carros, provocando quebras diversas além da geração de pequenas escoriações e ferimentos nas pessoas. Entretanto ninguém morrera por causa da chuva. Foram 20 min de tormento, com ventos que chegavam a 90km por hora. À época, eu estudava no Colégio Técnico Universitário – CTU. Eu e alguns amigos, depois de termos assistido toda aquela tempestade, descemos à pé até o centro, pois nos faltava o transporte público, suspenso naquela tarde juntamente com as aulas. Invadia-nos o terror ao vermos casas destelhadas e vidros estilhaçados. Pisávamos aquele gelo com certa satisfação, pois as relvas estavam completamente esbranquiçadas. Meninos como éramos, tudo era aventura. Não tínhamos competência para avaliar as perdas. O prefeito à época, Tarcísio Delgado, teve até a sensibilidade de decretar estado de emergência para a cidade, mas não foi necessário. Rapidamente, a cidade se refez, diferentemente do momento atual quando todos sentimos o cheiro da morte em nossas narinas.

Perdemos 63 pessoas, inclusive crianças em tenra idade. 8584 se encontram desalojadas, não podendo retornar às suas casas, pois os riscos de deslizamentos e desabamentos ainda continuam. Nada fácil, principalmente porque a casa é o lugar da intimidade, do sentimento familiar, das memórias e dos conflitos. Guardamos em nossas casas os objetos mais importantes, as nossas coisinhas preciosas e os nossos documentos. É muito cruel perder em uma tragédia o que tem um valor sentimental, cheio de simbolismos e significados. Mas nada se compara a perda de vidas.

Perder um amor é muito triste, mesmo porque isso também deixa um gosto amargo na boca. Em todo e qualquer relacionamento, sempre fica alguma pendenguinha em aberto, uma conversinha que precisava de mais desdobramentos, mas não teve tempo. Ademais, quando se perde alguém importante no círculo relacional, se instala um medo quanto a recomeçar tudo de novo. Exigências da vida, depois de uma tragédia. Infelizmente, pessoa alguma pode se furtar a reconstruir a sua vida e os seus relacionamentos após sofrer um infortúnio.

O sofrimento está no ar, queria que fosse o amor. Obviamente, a tragédia é fruto de um complexo de situações, as mais diversas. Caçar bruxas ou achar culpados é uma atitude muito ingênua. A tragédia é oriunda de elementos multifatoriais, tais como: aquecimento global, forte precipitação, solo encharcado, má ocupação geopolítica, fatores sociopolíticos, construções irregulares, impermeabilização do solo, entupimento do bueiros pelos lixos desovados pelos próprios cidadãos.

      Independente de qualquer observação mais criteriosa elaborada por nós, ou mesmo uma leitura mais cientificizada, o fato é que a tristeza não vai embora tão facilmente e o gosto ruim na boca continuará persistente. Entendo que não podemos perder a nossa sensibilidade. Não podemos deixar que o tempo nos distancie de nossos sentimentos e solidariedade. O amor e a dedicação de uns para com os outros precisa continuar evidenciado. É o que espero que aconteça. Não estamos no mesmo barco, mas não podemos deixar de nos salvaguardarmos em meio ao oceano, principalmente quando ele fica mais bravio. Somos um pelo outro. A dor alheia também me pertence e que coisa alguma arranque do nosso ser o nosso mais expressivo senso de humanidade, por mínima que seja.

ESPERANÇAR - Capítulo 1 - O sol numa caixa de papelão

  No fundo de uma caixa de papelão, Ela desenhou um sol com retalhos de gizes de cera. Os dias estavam nublados. Pela janela pintada de ...