Estas
três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no
céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do navio em alto mar e o caminho
do homem para uma jovem. Provérbios 30,18-19
Um
dos grandes desafios para as pessoas que optam pelo matrimônio é a complexidade
da vida a dois. Entendemos por complexidade o emaranhamento de situações
vivenciais que se entremeiam em todo e qualquer tecido social. O casamento é um
entre eles.
Existem
muitos dilemas e conflitos quando duas culturas e espiritualidades distintas,
oriundas de processos educacionais diferentes, se conjugam num espaço para receberem
a alcunha de lar. Comparamos a vida a dois como abrir uma picada na mata densa
e desconhecida, tendo à mão, tão somente, um canivete cego e enferrujado para cortar
raízes, folhas, plantas, árvores, musgos, lodo, criando uma trilha.
No
decorrer da história dos seres humanos no tempo, diversos outros casais de
múltiplas culturas e ancestralidades abriram suas respectivas trilhas e
vivenciaram os seus dramalhões. É bom que se diga que cada vivência se deu de
forma única e intransferível. Por mais que um casal partilhe a outro a sua experiência,
é de todo em vão, pois cada um vai encontrar o dilema que o incomodará. Sendo
assim, cada casal tem que se aventurar em sua própria trilha que, por sua vez,
ainda será aberta.
Mesmo
experiências de matrimônios longevos manifestam cansaços diversos e exaustão
entre os contraentes, devido ao movimento extenuante do canivete na picada.
Então, é fundamental parar para descansar em clareiras, a fim de se lançar,
novamente, ao árduo movimento na mata fechada, com a certeza de nunca se
chegará a um destino. O casamento, então, é uma espécie de labirinto onde duas
pessoas precisam aprender a viver bem sem cobrarem uma felicidade final, pronta
e acabada, pois ela não existe. Na mata fechada e labiríntica, não existem
muitas possibilidades para um encantamento, a não ser viver o que dá para ser
vivido num pequeno lapso de tempo.
Entendemos
que os códigos entre os que resolvem caminhar juntos devem ser combinados e
refeitos sempre, visando sempre a possibilidade de um mínimo contentamento.
Achar um sentido, por mínimo que seja para o casal, é necessário, fundamental e
humano. Essa atitude não deve gerar constrangimentos ou cobranças incautas e
seus respectivos cheiros de desilusão e conformação idiota.
Uma
vivência entre duas pessoas precisa abraçar algum tipo de divertimento e o
contentamento, independentemente dos resultados. Ora, esta opção pode favorecer
a possibilidade de uma melhor harmonização entre as pessoas que caminham
conjuntamente. Quando se abandona a necessidade de uma realização mais
plenificada na relação, é possível que seja mais fácil a aventura a dois.
Nesse
sentido, a epígrafe exposta anteriormente revela a dificuldade do caminho de um
homem com uma mulher e vice-versa. O autor do livro de Provérbios apresenta-nos
quatro coisas que são complexas demais para ele. O caminho da águia no céu; o
caminho da serpente na pedra; o caminho do navio no mar e o caminho do homem para
uma jovem, embora se sinta maravilhado com as três primeiras. À princípio,
podemos dizer que o autor busca o sentido das coisas e as razões pelas quais
essas dinâmicas se dão como se dão. Assim, ele se assusta quando percebe que
não há uma resposta clara e evidente. Seu assombro é, também, o nosso. Sendo
assim, fica claro para todos nós que no que se refere a casamento, o caminho a
ser trilhado e a própria busca de sentido em sua estrutura é experiência
particular onde não existem mapas, tampouco receitas acabadas.
A
aventura do casamento, que muitos abraçam, é única, marcada pela sensação única
de se viver dentro da experiência global no planeta. É preciso, então, se apropriar
da experiência a dois, como sendo a mais especial e intransponível. Então, já
que não se tem a possibilidade de um final feliz, torna-se fundamental que em
meio às tensões inerentes ao casamento, se encontre uma possibilidade para o
divertimento. Acho que este é um bom caminho para a dinâmica da vida a dois.
Talvez, com o intuito de melhorar essa brincadeira, Mario Quintana, poeta
brasileiro, tenha escrito uns versos interessantes que deveriam compor o
momento de votos de todas as celebrações de matrimônio vigentes. Digo isso
porque na dinâmica do relacionamento conjugal deve existir divertimento, e esse
divertimento tem que estar de mãos dadas com a liberdade. Sem liberdade,
nenhuma estrutura consegue resistir, inclusive o casamento. Os votos de
Quintana assim se expressam:
1.
Promete não deixar a paixão fazer de você uma
pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando
sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e
espontânea vontade?
2.
Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo
exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme
numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
3.
Promete fazer da passagem dos anos uma via de
amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não
chegaram a se concretizar?
4.
Promete sentir prazer de estar com a pessoa que
você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa
que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar,
assim como você a ela?
5.
Promete se deixar conhecer?
6.
Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil,
carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de
humor?
7.
Promete que fará sexo sem pudores, que fará
filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os
educará para serem independentes e bem-informados sobre a realidade que os
aguarda?
8.
Promete que não falará mal da pessoa com quem se
casou só para arrancar risadas dos outros?
9.
Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a
mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá
responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá
lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
10. Promete
que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo
assim, declaro-os muito mais que marido e mulher. Declaro-os maduros.
É
na apoteose de uma relação marcada pela maturidade que se encontra a
possibilidade de boas resoluções relacionais. Do contrário, um buraco se abre
às frustrações e ao pior tipo de solidão – aquela que se vive acompanhado de
alguém que não partilha e não vive os sonhos comuns. Ao mesmo tempo, é
importante desistir da ideia de se fazer força para ume relação dar certo. Este
tipo de atitude somente dura até a página dois e desgasta preponderantemente o
casal.
Não
há respostas fáceis, tampouco certezas e convicções quando o assunto é o casamento.
Existem muitas variáveis que podem favorecer os bons encontros relacionais e
tantas outras que enfraquecem a aventura. A rota é complicada e diante dos
desafios é preciso aceitá-los e seguir os dias, um após o outro. O melhor mesmo
é deixar a naturalidade e a espontaneidade dos processos bem clarificados, e
quem sabe nisso, encontrar o que se chama amor. Ao final das contas, ficará a
incompreensão, pois, de fato, nada é mais incompreensível que o amor, essa
espécie de loucura sempre em desatino.

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