quarta-feira, 20 de maio de 2026

Quando me veio o amor pelas letras?

 


Não sei por que cargas d’água, ontem, após acordar de uma anestesia, ocorreu-me um pensamento nada coligado ao momento em que eu estava experienciando. Aliás, um pensamento que nunca me visitara em qualquer momento de minha lida existencial: “Quando, de fato, me tornei um apaixonado pela poesia”?

Nem sempre fui amante das letras e dos livros. Houve um tempo em que os lia sem prazer, somente por dever, para cumprir as atividades corriqueiras do cotidiano escolar em suas primeiras séries. Na infância, lia os gibis e os livros, muito mais pelos desenhos. Meu pai, sempre muito preocupado com os meus processos de formação, além de me oportunizar os estudos no Jardim de Infância, estimulava-me a estudar uma cartilha intitulada: Meu amiguinho Davi, escrito por Eunice Alves e Márcia de Almeida. Não entrarei nos méritos quanto aos modelos familiares ali evidenciados e a alegria sempre presente em meio ao todo da vida, mas eu gostava do Davi, sua família e a sua trupe.

Depois, na pré-adolescência, eu me apropriava de alguns autores e algumas autoras brasileiras sem o cuidado e atenção que mereciam. Li, por exemplo, Dom Casmurro de Machado de Assis, sem me preocupar com a Capitu, o que fez, fazia ou deixava de fazer. A vida dela não era da minha conta. Li, também, Menino de Asas de Homero Homem, da famosa coleção Vaga-Lume. Li a narrativa com certo asco, pois a ideia de uma criança com asas, muito me perturbava. Ademais, ficava chateado todas as vezes que eu percebia os dramas sofridos pela personagem central, mais especificamente os preconceitos sofridos e a inquietação inerente ao poder decorrente de sua diferença e os processos quanto à aceitação de si mesmo. Li, também, a Ilha Perdida de Maria José Dupré, que narrava as aventuras e os apuros sofridos por Henrique e Eduardo em uma pequena ilhota no meio do Rio Taubaté. E, ainda teve, um livro que muito me marcou: O Escaravelho do Diabo de Lúcia Machado de Almeida. A trama em que pessoas ruivas eram assassinadas me comoveu. E o assassino em série deixava como pista, um besouro espetado por um alfinete em uma rolha.

Todavia, não havia sabor nas letras, tampouco nas tramas que eu lia. As marcas e as lembranças decorrem hoje, muito mais por conta das conversas alhures obtidas com os colegas, do que pelo saborear da leitura. Então? Quando me veio o gosto e o amor pelos livros e os seus universos embutidos?

Quando me chamaram, após a anestesia, a pergunta quanto a ao amor pelos livros inundou a minha mente. Despertei-me, e, ali, frente aos meus olhos, se estampava o momento em que a poesia e a literatura me despertaram. Subitamente, fui ao passado, às aulas de português no Colégio Estadual Conselheiro Afonso Pena. A nossa professora nos estimulava à leitura, a visitar a biblioteca e a se interessar, de alguma forma, pelas letras e tramas, mesmo que por intermédio dos gibis. Nas aulas dessa disciplina, éramos estimulados a escrever prosas e poemas. Eu tinha um amigo, do qual gostava muito, chamado Aluísio, cujo apelido era “Periquito”, justamente por sua fisicalidade franzina. Ele jogava no gol com grande elasticidade, às vezes, parecendo voar. Aluísio, além de muito carismático, era muito hábil com as letras. Demonstrava uma verve poética inata. Estávamos na sexta-série e ele rebuscava as palavras para falar de coisas corriqueiras.

De alguma maneira, o estilo de Aluísio me encantava. Eu o ouvia com aquela vontade de ter escrito o que ele havia escrito. Seus poemas me comoviam e eu ficava embasbacado pelo que ouvia, quando ele, em tom impostado, lia os seus versos e prosas, praticamente declamando-os. Ao término, aquilo tanto nos tocava, que aplaudíamos e elogiávamos de uma forma efusiva. Aluísio era o nosso poeta. Ao final da aula, eu sempre perguntava a ele de onde ele tirava toda aquela inspiração. Ele me dizia: “Não sei! Só sinto”! Eu também queria sentir e transmitir em palavras o que me ocorria na lida diária. Então, comecei a escrever diferente, com mais suor e sangue, no auge dos meus 11 anos e não parei mais. Descobri que cada pequeno texto escrito era um pedaço de mim mesmo, encarnando-me em letras.

Passei a não ler mais por obrigação, tampouco para manter metas. Os livros começaram a ser meus parceiros, fazendo-me viver outras vidas, para além da minha própria vida, o que era maravilhoso. Descobri o quanto era prazeroso e saboroso abraçar as letras e ler por pura fruição, sem querer alcançar metas. Inclusive, eu acho ridículo quem estabelece metas para as suas leituras em um ano.

O mestre Rubem Alves sempre defendeu a ideia de que sabor e saber andam coligados. Em suas palavras: “Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura”. Antes de conhecê-lo, mais aprofundadamente, eu descobri esse privilégio.

Enfim, diante da pergunta que me sobreveio como uma epifania, posso responder convictamente que o meu lado literário e poético, mesmo amador, surgiu na amizade, no encontro e no respeito entre gente que se reconhece sensível e acolhedora ao outro. Que sejam bem-vindas as novas vidas que me forem oferecidas através das leituras e dos escritos.

Um comentário:

SAULO DE TARSO disse...

Meu caro poeta, seu despertar para a magia dos sentimentos em palavras veio num tempo bem favorável: a adolescência.

Quando me veio o amor pelas letras?

  Não sei por que cargas d’água, ontem, após acordar de uma anestesia, ocorreu-me um pensamento nada coligado ao momento em que eu estava ex...