Não sei
por que cargas d’água, ontem, após acordar de uma anestesia, ocorreu-me um
pensamento nada coligado ao momento em que eu estava experienciando. Aliás, um
pensamento que nunca me visitara em qualquer momento de minha lida existencial:
“Quando, de fato, me tornei um apaixonado pela poesia”?
Nem
sempre fui amante das letras e dos livros. Houve um tempo em que os lia sem
prazer, somente por dever, para cumprir as atividades corriqueiras do cotidiano
escolar em suas primeiras séries. Na infância, lia os gibis e os livros, muito
mais pelos desenhos. Meu pai, sempre muito preocupado com os meus processos de
formação, além de me oportunizar os estudos no Jardim de Infância, estimulava-me
a estudar uma cartilha intitulada: Meu amiguinho Davi, escrito por Eunice Alves
e Márcia de Almeida. Não entrarei nos méritos quanto aos modelos familiares ali
evidenciados e a alegria sempre presente em meio ao todo da vida, mas eu
gostava do Davi, sua família e a sua trupe.
Depois, na
pré-adolescência, eu me apropriava de alguns autores e algumas autoras brasileiras
sem o cuidado e atenção que mereciam. Li, por exemplo, Dom Casmurro de Machado de
Assis, sem me preocupar com a Capitu, o que fez, fazia ou deixava de fazer. A
vida dela não era da minha conta. Li, também, Menino de Asas de Homero Homem,
da famosa coleção Vaga-Lume. Li a narrativa com certo asco, pois a ideia de uma
criança com asas, muito me perturbava. Ademais, ficava chateado todas as vezes
que eu percebia os dramas sofridos pela personagem central, mais
especificamente os preconceitos sofridos e a inquietação inerente ao poder
decorrente de sua diferença e os processos quanto à aceitação de si mesmo. Li,
também, a Ilha Perdida de Maria José Dupré, que narrava as aventuras e os apuros
sofridos por Henrique e Eduardo em uma pequena ilhota no meio do Rio Taubaté. E,
ainda teve, um livro que muito me marcou: O Escaravelho do Diabo de Lúcia Machado
de Almeida. A trama em que pessoas ruivas eram assassinadas me comoveu. E o assassino
em série deixava como pista, um besouro espetado por um alfinete em uma rolha.
Todavia,
não havia sabor nas letras, tampouco nas tramas que eu lia. As marcas e as
lembranças decorrem hoje, muito mais por conta das conversas alhures obtidas
com os colegas, do que pelo saborear da leitura. Então? Quando me veio o gosto
e o amor pelos livros e os seus universos embutidos?
Quando
me chamaram, após a anestesia, a pergunta quanto a ao amor pelos livros inundou
a minha mente. Despertei-me, e, ali, frente aos meus olhos, se estampava o
momento em que a poesia e a literatura me despertaram. Subitamente, fui ao
passado, às aulas de português no Colégio Estadual Conselheiro Afonso Pena. A
nossa professora nos estimulava à leitura, a visitar a biblioteca e a se
interessar, de alguma forma, pelas letras e tramas, mesmo que por intermédio
dos gibis. Nas aulas dessa disciplina, éramos estimulados a escrever prosas e
poemas. Eu tinha um amigo, do qual gostava muito, chamado Aluísio, cujo apelido
era “Periquito”, justamente por sua fisicalidade franzina. Ele jogava no gol
com grande elasticidade, às vezes, parecendo voar. Aluísio, além de muito carismático,
era muito hábil com as letras. Demonstrava uma verve poética inata. Estávamos na
sexta-série e ele rebuscava as palavras para falar de coisas corriqueiras.
De
alguma maneira, o estilo de Aluísio me encantava. Eu o ouvia com aquela vontade
de ter escrito o que ele havia escrito. Seus poemas me comoviam e eu ficava
embasbacado pelo que ouvia, quando ele, em tom impostado, lia os seus versos e
prosas, praticamente declamando-os. Ao término, aquilo tanto nos tocava, que
aplaudíamos e elogiávamos de uma forma efusiva. Aluísio era o nosso poeta. Ao
final da aula, eu sempre perguntava a ele de onde ele tirava toda aquela
inspiração. Ele me dizia: “Não sei! Só sinto”! Eu também queria sentir e
transmitir em palavras o que me ocorria na lida diária. Então, comecei a
escrever diferente, com mais suor e sangue, no auge dos meus 11 anos e não
parei mais. Descobri que cada pequeno texto escrito era um pedaço de mim mesmo,
encarnando-me em letras.
Passei a
não ler mais por obrigação, tampouco para manter metas. Os livros começaram a
ser meus parceiros, fazendo-me viver outras vidas, para além da minha própria vida,
o que era maravilhoso. Descobri o quanto era prazeroso e saboroso abraçar as
letras e ler por pura fruição, sem querer alcançar metas. Inclusive, eu acho
ridículo quem estabelece metas para as suas leituras em um ano.
O mestre
Rubem Alves sempre defendeu a ideia de que sabor e saber andam coligados. Em
suas palavras: “Sonho com o dia em que as crianças que leem os meus livrinhos
não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento
das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo
simples prazer da leitura”. Antes de conhecê-lo, mais aprofundadamente, eu
descobri esse privilégio.
Enfim,
diante da pergunta que me sobreveio como uma epifania, posso responder
convictamente que o meu lado literário e poético, mesmo amador, surgiu na
amizade, no encontro e no respeito entre gente que se reconhece sensível e
acolhedora ao outro. Que sejam bem-vindas as novas vidas que me forem oferecidas
através das leituras e dos escritos.
Um comentário:
Meu caro poeta, seu despertar para a magia dos sentimentos em palavras veio num tempo bem favorável: a adolescência.
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