terça-feira, 18 de agosto de 2026

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

 


 

Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou pertences preciosíssimos, que nos conduzem às melhores lembranças sobre algo ou alguém que nos marcou em nossa trajetória de vida.

Essas caixas se transformam em pequenos santuários domésticos, recintos silenciosos que gritam profundamente no interior de cada pessoa, em particular, ecoando os melhores sentimentos, gerando, muitas vezes, a exposição dos afetos.

Cada objeto que guardamos com carinho, presenteado por alguém em especial, se torna um potente símbolo de uma afetividade que transpõe os tempos, ressignificando o presente. Pode ser uma fotografia, uma carta escrita à mão, um relógio parado, uma roupinha que não serve mais no corpo, um bichinho de pelúcia, uma medalhinha, um terço, um livro, um algo bem especial...

O mais curioso é que o objeto que não possui sentidos ativos, desperta os nossos sentidos ativos, gerando boas conversas e múltiplas emoções e sentimentos. Por intermédio de um respectivo objeto, que nunca é qualquer objeto, percepcionamos um monte de palavras, cheiros e afetividades que não cabem em um corpo, mas estabelecem uma ampla comunicação com a alma. Há, por exemplo, objetos que fazemos questão de nos desfazermos. Por outro lado, há aqueles que nunca serão desfeitos, por causa da memória afetiva que carregam. Aliás, valor algum pode bastar para a aquisição daquele objeto.

Antes de falecer, eu ganhei do meu pai um violão elétrico. Quando dedilho ou toco o meu violão, sinto-me presentificado pelo instante, deixando que a minha memória escoe em meu ser as lembranças do dia em que recebi aquele presente. O violão é um pedaço do meu pai que permanece em mim. Mesmo se alguém me desse 1 milhão de reais por aquele instrumento, seria desprezado, pois não se trata de um mero instrumento. O violão torna viva a saudade do meu pai.   Não é somente a memória e a saudade, mas o amor que atravessa os tempos, morando em miudezas que alegram o coração, mesmo com a presença de lágrimas.

O tempo passa, o tempo voa e os nossos objetos mais preciosos envelhecem com a gente. Eles perdem a cor, o viço, ficam desgastados, mas continuam a nos acompanhar em nossos dias. Continuarão guardados em nossas caixinhas, mas, mais do que isso, em nossos corações, por se tratar de vestígios de amor. Como nos lembra a poeta Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória imperecível”. De fato, enquanto houver a vida se manifestando em nossas vidas, a potência da memória ribombará profundamente nos abismos da alma, tornando as coisas boas imperecíveis.

Ao final das contas, cada um dos objetos-símbolos que guardamos em nossas caixinhas ou gavetas, são, e sempre serão, pedacinhos de eternidade em nossas pequenas existências.

 

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