Somos
seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou
gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou pertences
preciosíssimos, que nos conduzem às melhores lembranças sobre algo ou alguém
que nos marcou em nossa trajetória de vida.
Essas
caixas se transformam em pequenos santuários domésticos, recintos silenciosos
que gritam profundamente no interior de cada pessoa, em particular, ecoando os
melhores sentimentos, gerando, muitas vezes, a exposição dos afetos.
Cada
objeto que guardamos com carinho, presenteado por alguém em especial, se torna
um potente símbolo de uma afetividade que transpõe os tempos, ressignificando o
presente. Pode ser uma fotografia, uma carta escrita à mão, um relógio parado,
uma roupinha que não serve mais no corpo, um bichinho de pelúcia, uma
medalhinha, um terço, um livro, um algo bem especial...
O mais
curioso é que o objeto que não possui sentidos ativos, desperta os nossos
sentidos ativos, gerando boas conversas e múltiplas emoções e sentimentos. Por
intermédio de um respectivo objeto, que nunca é qualquer objeto, percepcionamos
um monte de palavras, cheiros e afetividades que não cabem em um corpo, mas
estabelecem uma ampla comunicação com a alma. Há, por exemplo, objetos que
fazemos questão de nos desfazermos. Por outro lado, há aqueles que nunca serão
desfeitos, por causa da memória afetiva que carregam. Aliás, valor algum pode
bastar para a aquisição daquele objeto.
Antes de
falecer, eu ganhei do meu pai um violão elétrico. Quando dedilho ou toco o meu
violão, sinto-me presentificado pelo instante, deixando que a minha memória
escoe em meu ser as lembranças do dia em que recebi aquele presente. O violão é
um pedaço do meu pai que permanece em mim. Mesmo se alguém me desse 1 milhão de
reais por aquele instrumento, seria desprezado, pois não se trata de um mero
instrumento. O violão torna viva a saudade do meu pai. Não é somente a memória e a saudade, mas o
amor que atravessa os tempos, morando em miudezas que alegram o coração, mesmo
com a presença de lágrimas.
O tempo
passa, o tempo voa e os nossos objetos mais preciosos envelhecem com a gente.
Eles perdem a cor, o viço, ficam desgastados, mas continuam a nos acompanhar em
nossos dias. Continuarão guardados em nossas caixinhas, mas, mais do que isso,
em nossos corações, por se tratar de vestígios de amor. Como nos lembra a poeta
Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno. Te amo com a memória
imperecível”. De fato, enquanto houver a vida se manifestando em nossas vidas,
a potência da memória ribombará profundamente nos abismos da alma, tornando as
coisas boas imperecíveis.
Ao final
das contas, cada um dos objetos-símbolos que guardamos em nossas caixinhas ou
gavetas, são, e sempre serão, pedacinhos de eternidade em nossas pequenas
existências.

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