terça-feira, 27 de outubro de 2026

Agora quero ver passar a neblina - Para Zwinglio Mota Dias

 

Na lida da vida, descortinam-se horizontes abertos, profundos. E nela, luzeiros sem contas contam das suas vivências, das suas andanças num lapso de segundo que se estende pela eternidade. Progenitores dão luz aos seus filhos, e cada qual, mediante a sua própria energia vital, segue a sua lida, iluminando o seu próprio percurso e os percursos alheios desfraldando diversos devaneios.

Do mistério profundo que é viver, inaugura-se a intensa possibilidade de criar e recriar a ciranda das luzes, mais conhecida como relacionamento. Em todos os tempos, relações se configuram afetando o oposto, especialmente na aglutinação das memórias que celebram as iluminações que ocorrem nos rostos daqueles que compõem o mundo. Em todas as faces, os risos não cabem em si, tamanhas as cores rubis em frenesi pueril. Nas palavras de Riobaldo Tatarana: “Vida é noção que a gente completa seguida assim, não só por lei de uma ideia falsa. Cada dia é um dia”.

Em algumas manhãs, aquelas que nascem sem a cordialidade do cotidiano, espraia-se sobre a relva, vez por outra, aquela neblina chorosa e charmosa. O afinado canto do Sabiá Laranjeira, pousado em galho de ipê amarelo descolorido em dias de novembro, ecoa o seu canto piedoso entre as luzes preguiçosas do sol que insiste em bradar o seu brilho e o seu calor.

Numa delas, chegou-me um sussurro na esteira da maviosa brisa. Instante bucólico. Ele anunciou a passagem de um, meu amigo querido. Os cenários se embaraçaram. As lágrimas se verteram e a saudade apertou em abraço bem doído, revelando-me que os dias de nossa humanidade são contados e, então, encantados em memórias tão vivas quanto o pulsar das maritacas esverdeadas.

Há lembranças que nunca serão lembranças, pois se encontram hasteadas no palco das relações regadas a boas conversas e saborosos vinhos, num tempo que mistura passado, presente e futuro. Tudo eivado pela mistura entre a simplicidade dos afetos e o alinhamento ao fino saber teológico de um autêntico protestante que, mais do que se pontuar no panteão dos deuses acadêmicos, se engendrava com as amizades singelas, evocadas pelas lutas em prol da dignidade do povo pobre. Insistente em sua autêntica humildade, meu amigo escondia o iluminado pensador e trazia na concha das mãos, as histórias e vivências profundas com cheiro de gente.

Na cozinha, enquanto observávamos pela janela a falta de brio dos homens e seus pretensos poderes, sobravam-nos as peraltices dos meninos e as boas e jocosas risadas. Se para muitos, o egoísmo e o egocentrismo alçam voos sempre mais evidentes, favorecendo a cada um a defesa do seu cada um, na mesa daquela cozinha, os planos se davam numa esperança solidária cheinha de sabor, ego-transcendência.

Há saudade em meu semblante, mas eu quero ver a neblina passar. Tentar enxergar algum facho de luz que me ajude a recuperar aquela teimosia viva, tantas vezes me ensinada por ele. Saboreei suas múltiplas experiências e vivi com ele, a convivência eucarística, como um ávido faminto. Deixei de lado aquele ser ingênuo. Em meus devaneios momentâneos, minhas carnes sangram forte; as veias sempre pulsando num coração carcomido pelo aqui, pelo agora.

E quando a neblina passar, que um pequeno arco-íris seja projetado em minha íris, refazendo-me naquele abraço genuíno de uma alma encharcada de terra latino-americana. Neste chão, onde a gente se resolve melhor, continuo a encontrar a leveza da pluma do amor. Agora que o rio está mais límpido para a travessia, os ribeirinhos recobram meus sentidos. Choros viram risos. O palco é sempre o dos protagonistas da vida. A neblina se desfez, mas as relvas e flores ainda se encontram cheias de orvalho.

Eu ainda quero me desnudar sob a luz do astro rei, para recobrar a minha lucidez. Beduíno serei em minhas sombras, celebrando em canto qualquer a sua memória que, para mim, sempre será viva, marcada pela beleza e pelo amor. Nas palavras de Rubem Alves: “Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira”.

A neblina não existe mais. Revelou as cores, a beleza e o sorriso amistoso na sempre viva eterna idade...



[1] Elegia em memória de Zwinglio Mota Dias

Agora quero ver passar a neblina - Para Zwinglio Mota Dias

  Na lida da vida, descortinam-se horizontes abertos, profundos. E nela, luzeiros sem contas contam das suas vivências, das suas andanças ...