Na lida da
vida, descortinam-se horizontes abertos, profundos. E nela, luzeiros sem contas
contam das suas vivências, das suas andanças num lapso de segundo que se
estende pela eternidade. Progenitores dão luz aos seus filhos, e cada qual,
mediante a sua própria energia vital, segue a sua lida, iluminando o seu
próprio percurso e os percursos alheios desfraldando diversos devaneios.
Do mistério
profundo que é viver, inaugura-se a intensa possibilidade de criar e recriar a
ciranda das luzes, mais conhecida como relacionamento. Em todos os tempos,
relações se configuram afetando o oposto, especialmente na aglutinação das
memórias que celebram as iluminações que ocorrem nos rostos daqueles que
compõem o mundo. Em todas as faces, os risos não cabem em si, tamanhas as cores
rubis em frenesi pueril. Nas palavras de Riobaldo Tatarana: “Vida é noção que a
gente completa seguida assim, não só por lei de uma ideia falsa. Cada dia é um
dia”.
Em algumas manhãs, aquelas que nascem
sem a cordialidade do cotidiano, espraia-se sobre a relva, vez por outra,
aquela neblina chorosa e charmosa. O afinado canto do Sabiá Laranjeira, pousado
em galho de ipê amarelo descolorido em dias de novembro, ecoa o seu canto
piedoso entre as luzes preguiçosas do sol que insiste em bradar o seu brilho e
o seu calor.
Numa delas, chegou-me um sussurro na
esteira da maviosa brisa. Instante bucólico. Ele anunciou a passagem de um, meu
amigo querido. Os cenários se embaraçaram. As lágrimas se verteram e a saudade
apertou em abraço bem doído, revelando-me que os dias de nossa humanidade são
contados e, então, encantados em memórias tão vivas quanto o pulsar das
maritacas esverdeadas.
Há lembranças que nunca serão
lembranças, pois se encontram hasteadas no palco das relações regadas a boas
conversas e saborosos vinhos, num tempo que mistura passado, presente e futuro.
Tudo eivado pela mistura entre a simplicidade dos afetos e o alinhamento ao
fino saber teológico de um autêntico protestante que, mais do que se pontuar no
panteão dos deuses acadêmicos, se engendrava com as amizades singelas, evocadas
pelas lutas em prol da dignidade do povo pobre. Insistente em sua autêntica
humildade, meu amigo escondia o iluminado pensador e trazia na concha das mãos,
as histórias e vivências profundas com cheiro de gente.
Na cozinha, enquanto observávamos pela
janela a falta de brio dos homens e seus pretensos poderes, sobravam-nos as
peraltices dos meninos e as boas e jocosas risadas. Se para muitos, o egoísmo e
o egocentrismo alçam voos sempre mais evidentes, favorecendo a cada um a
defesa do seu cada um, na mesa daquela cozinha, os planos se davam numa
esperança solidária cheinha de sabor, ego-transcendência.
Há saudade em meu semblante, mas eu
quero ver a neblina passar. Tentar enxergar algum facho de luz que me ajude a
recuperar aquela teimosia viva, tantas vezes me ensinada por ele. Saboreei suas
múltiplas experiências e vivi com ele, a convivência eucarística, como um ávido
faminto. Deixei de lado aquele ser ingênuo. Em meus devaneios momentâneos,
minhas carnes sangram forte; as veias sempre pulsando num coração carcomido
pelo aqui, pelo agora.
E quando a neblina passar, que um
pequeno arco-íris seja projetado em minha íris, refazendo-me naquele abraço
genuíno de uma alma encharcada de terra latino-americana. Neste chão, onde a
gente se resolve melhor, continuo a encontrar a leveza da pluma do amor. Agora
que o rio está mais límpido para a travessia, os ribeirinhos recobram meus
sentidos. Choros viram risos. O palco é sempre o dos protagonistas da vida. A
neblina se desfez, mas as relvas e flores ainda se encontram cheias de orvalho.
Eu ainda quero me desnudar sob a luz do
astro rei, para recobrar a minha lucidez. Beduíno serei em minhas sombras,
celebrando em canto qualquer a sua memória que, para mim, sempre será viva,
marcada pela beleza e pelo amor. Nas palavras de Rubem Alves: “Cada momento de
beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa
destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida
inteira”.
A neblina não existe mais. Revelou as
cores, a beleza e o sorriso amistoso na sempre viva eterna idade...
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