sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Ipês, girassóis e o suicídio no espectro dos tons amarelos – Para não dizer que não falei de setembro

 


Não há nenhuma relação intrínseca entre os ipês amarelos, os girassóis e o suicídio, mas curiosamente, em setembro, mês em que espocam as flores da citada árvore, anunciando a chegada da primavera, somos também convidados a pensar sobre as ideações e comportamentos suicidas, frutos dos múltiplos desesperos e depressões tão presentes e tão próximos a nós. Os ipês amarelos e suas flores tão brilhantes, em sua inerente experiência de “quase morte”, nos convidam também a pensar este aspecto que muito nos afronta, especialmente quando consideramos a vida e existência.

Segundo informações que circulam na internet, o setembro amarelo surgiu de uma situação trágica que atingiu uma determinada família nos EUA no ano de 1994. Conta-se que o adolescente Michael Emme, de 17 anos, provocou a autodestruição ou suicídio, dentro de um Mustang 1968, customizado e pintado por ele mesmo com a cor amarelo brilhante. No dia do seu enterro, os pais distribuíram um pequeno cartão com uma fita amarela afixada. No cartão estava escrita a seguinte mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. Nasceu ali, a Associação Yellow Ribbon – Fita Amarela, que passou a conscientizar as pessoas quanto aos cuidados necessários, especialmente frente aos transtornos, síndromes e depressões. No Brasil, pessoas que possuem ideações ou comportamentos suicidas podem fazer contato com o Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188. Este centro fica disponível em rede pelo período de 24 horas.

Pensando nas contigências que nos acompanham, cabe-me respaldar as minhas argumentações com a ideia de que não podemos negar o fato de que estamos expostos à múltiplas fragilidades. Somos humanos e não super-heróis. Temos as nossas debilidades e precisamos cuidar de cada uma delas de uma maneira única e atenciosa.

Ao mesmo tempo, precisamos destacar a realidade intrínseca à nossa provisoriedade existencial. Não há pessoa alguma que possa se considerar plena e eterna. Todos nós, querendo ou não, somos provisórios como as flores dos ipês amarelos. Em relação ao todo do universo, a existência de cada um de nós é uma espécie de bolha de sabão – que cresce ao sopro e flutua brilhante, vindo a estourar efemeramente. Ademais, vivemos a vida em sua complexidade e, muitas vezes, somos aturdidos por uma série de demandas que nos agridem. Um dia, todos nós vamos morrer. Alguns, infelizmente, não suportam a sua existência atual e resolvem finalizar as suas trajetórias, mediante uma interferência intensificada marcada pela autodestruição. Somos todos como flores que murcham e caem. O cuidado que temos para com as pessoas não pode ficar restrito somente ao mês de setembro.

É fundamental ressignificarmos nossas trajetórias, reconhecendo as nossas efemeridades, impermanências e fragilidades emocionais, cientes das complexidades afetam a cada um nós. Absurda é a vida em sua inteireza e em suas fatalidades. Absurda é a existência que insiste em ser quando não há possibilidades para ser. Absurda é a finalização da existência, num último ato chamado convencionalmente de morte. Embora a morte seja a presença mais viva e insistente a visitar o cotidiano, não podemos perder de vistas o fato de que somos especiais dentro do cosmos e, talvez por esse motivo, compreendamos a morte com mais tragicidade e angústia.

As coisas acontecem com todos os seres vivos, muitas delas, sem as mínimas explicações. Diante do fatídico momento em que o facão amolado ceifa o caule, fazendo jorrar a seiva, a garganta resseca, a lágrima é vertida e a saudade – vontade de estar perto, se longe, e mais perto se perto, é violentada pelo acaso, pelo infortúnio, pelo que pessoa alguma espera.

O cotidiano se rompe, desfazendo tudo o que é concreto. O perfume das flores deslocadas dos seus galhos, fincadas na água de um jarro, dá lugar a um odor fétido. O belo deixa o palco, abrindo as cortinas para o horrendo. Todas as cores e poesias ficam opacas e sem brilho. Faltam luzes e os pássaros cessam os seus cantos e encantos. Tudo fica desinteressante, mesmo o sorriso da criança não provoca o encantamento. O sopro da vida é tão passageiro quanto fugaz, e as ondas da ressaca inundam o arquipélago do contentamento. Tudo se esvai, como águas nas conchas das mãos. Os por quês continuam a insistir pelas respostas. Elas se recusam a sair dos claustros profundos das cavernas pluviais. Instaura-se um vazio cheio de palavras silenciadas que jamais serão pronunciadas, pois no fundo de toda alma aterrada pelo infortúnio, não há o que dizer.

Por isso, em horas de infortúnio, recorremos à sabedoria dinamizada do momento vivencial, mesmo em meio a dores lancinantes. Não há canções, poesias e preces suficientes que possam ajudar nessas horas. Continuamente, somos convocados a abraçar quem precisa ser abraçado, a chorar as dores das dores, sem julgamentos, a contemplar os ipês amarelos que espocam em amores e a olhar a lua cheia. Ela insiste em brilhar entre as nuvens densas e turvas. Em setembro, amarelo ou cinzento ou mesmo em qualquer ano, mês ou dia, havemos de recorrer a um mínimo vestígio de esperança...

 

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A beleza do ipê amarelo e suas lições para a vida

 


 

Gosto de viajar. Gosto mais ainda de observar as belezas naturais que se revelam pelas janelas dos veículos diversos: ônibus, trens, automóveis, navios ou aviões. Gosto, especialmente, do visual liberto provocado pelas trilhas feitas com a minha bicicleta, mas invejo os aventureiros que, mesmo levando uma vida marcada por altos e baixos, singram montanhas e vales, abismos e cachoeiras conhecendo relevos, climas, naturezas, animais e gentes diversas.

A ideia de um visual liberto tem a ver com a entonação do olhar, melhor dizendo, com o desenvolvimento da contemplação em todas as nuances do cotidiano. É fundamental que nosso olhar esteja fixado à concretude dos corpos em ação no enfrentamento dos dilemas corriqueiros, sempre ajudando-nos a vivenciar a maior expressão de nossa humanidade: a espontaneidade para sermos e vivermos a nossa melhor versão, dentro dos limites que nos forem propostos.

 

A poesia natural e o meio ambiente

Em minhas viagens, encanto-me com a poesia colorida, revelada e expressa pela natureza e pelos seus respectivos biomas. Infelizmente, lugares lindíssimos estão sendo violentados pelos seres humanos, detentores do poder econômico. É o caso da nossa floresta amazônica e do pantanal. Sofremos quando visualizamos o meio ambiente ser atacado de diversas maneiras. Choca-nos, por exemplo, quando nos chega às narinas o odor das queimadas que destroem a vegetação, os animais, a água e a própria terra. Seres humanos, de todos os lugares deste planeta, devem denunciar as referidas afrontas e desenvolverem uma atitude mais cuidadora para com o meio ambiente. De qualquer forma, independente destas distorções presenciadas por cada um de nós, a natureza e o meio ambiente são nossas ambientações mais efetivas. O planeta e sua natureza são os quintais das nossas casas.

 

A beleza do ipê amarelo e suas lições para a vida

Preciso confessar que a poesia que mais me encanta, entre todos os seres vivos nos mais distintos biomas, é o ipê amarelo, uma árvore brasileira bastante conhecida e muito bela. Ela se encontra presente em todas as regiões do Brasil e pertence ao grupo das Tabebuia alba.

As árvores desta espécie proporcionam um belo espetáculo com sua esplêndida floração na arborização de ruas e matas. Elas embelezam e promovem um colorido no final do inverno, anunciando a chegada da primavera. Essa árvore é natural do semiárido alagoano e levou o governo deste estado, por meio do Decreto nº 6239, a transformá-la em árvore símbolo. Em fins de setembro, os ipês revelam suas belas cores, numa espécie de “epifania” – uma aparição inusitada na terra dos viventes.

Curiosamente, é o estresse causado pelo frio e pela seca que aciona o relógio biológico das árvores, indicando o florescimento. É de uma experiência de “quase morte” que surge a beleza das flores dos ipês anunciando sua beleza comovedora. Do frio e da seca surgem flores exuberantes e seus tons que fazem os olhos sorrirem. As flores atraem abelhas e pássaros, principalmente beija-flores. As sementes espalhadas pelos pássaros são semeadas pelos ventos.

 

Da contemplação à existência

O que mais me espanta é o fato de que estes ipês, na maioria das vezes, se encontram solitários. Independente da forma e do tamanho de sua copa, os ipês são seres lindíssimos que nos convidam à contínua contemplação. Parecem convocar cada alma ao despertar das emoções e sentimentos mais aprofundados. Talvez, por conta da minha leitura mais atenta à obra de Rubem Alves, eu tenha me sentido mais tocado quanto à beleza dos ipês amarelos, suas árvores preferidas. Ele via estas árvores como sacramentos. Em suas palavras: “Penso que os ipês são uma metáfora do que poderíamos ser. Seria bom se pudéssemos nos abrir para o amor no inverno. Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina”. (As Cores do Crepúsculo, 49). Cabe salientar, encerrando momentaneamente a inspiração deste autor de Boa Esperança, que o logotipo do Instituto Rubem Alves é um ipê amarelo. Amarelo era, também, a cor preferida de Van Gogh, que pintou múltiplos girassóis, minhas flores preferidas.

 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

O ócio pelo ócio - cuidados em tempos de fadiga

 


Reconheço-me continuamente como um profissional da saúde mental. Desenvolvo as minhas atividades como psicólogo, seguindo uma linha chamada Humanista-Existencial. Todos os dias, eu me envolvo em conversas ativas no campo social, bem como no atendimento clínico psicoterápico em um setting terapêutico.

Entendo que toda e qualquer pessoa presente em uma sociedade desenvolve o seu papel social. Entendo também que os profissionais da área de saúde mental, além de desenvolverem seus respectivos papéis, também se envolvem em  demandas que se encontram para além do que poderiam ou deveriam se envolver. Ora, toda profissão requer um nível de entrega, mas a entrega de um profissional da saúde mental é de uma ampla intensidade, pois marcada por uma escuta atenciosa eivada de múltiplas interpretações simbólicas. Nem sempre o que o cliente traz em suas demandas iniciais é o que, de fato, importuna a sua interioridade.
Por conta de todo esse movimento de idas e vindas, partidas sem chegadas ou absolutos, os profissionais de saúde mental adquirem uma fadiga bem complexa e inusitada, pois inquirem sobre um terreno gelatinoso. Sabedor desta realidade, eu separei um tempo de reclusão para mim mesmo. Em virtude das múltiplas ações desenvolvidas nos dias, tive a necessidade de estabelecer uma pausa das atividades com a finalidade de melhor me organizar intimamente.

Eu sou daquelas pessoas que nunca tive um problema efetivo de ordem psíquica, um que me levasse, por exemplo, a um tratamento psiquiátrico. Bati na trave algumas vezes, é verdade, mas por conta do meu investimento na psicoterapia, permiti-me múltiplas ressignificações dos tempos idos e dos vários eventos vivenciados ao longo de minha historicidade, inclusive vencendo uma Síndrome de Burnout – um conjunto de sentimentos ligados diretamente ao ambiente de trabalho e suas frustrações. Com a psicoterapia, passei a respeitar um pouco mais tudo aquilo que era sinalizado em meu próprio corpo. Alinhada às demandas básicas biológicas, como beber, comer,  dormir e transar, eu entendi que era fundamental cuidar das explosões das minhas emoções, visando o equilíbrio saudável dos meus sentimentos, naquele lugar reconhecido como consciência.

Confesso que quando eu gozava do meu momento de pausa,  descanso e relaxamento, eu procurei provocar um refazimento da minha própria experiência de vida. Eu sei que para aqueles que são inquietos com a vida e com as suas polissemias, trona-se muito difícil pausar as atividades cotidianas, todavia ela é fundamental para a recuperação do corpo e da saúde psíquica. A melhor forma de descansar a cabeça é tentar não fazer coisas que habitualmente são feitas. Então, assim eu fiz. Deixei o vento me conduzir sem qualquer preocupação com um êxito ou sucesso, sem nenhum intento por arcar com um compromisso. Procurei efetivar o que costumeiramente eu não faria, fazendo o meu sabbath shalom, mesmo sem ser judeu. Um dos meus grandes ganhos neste tempo de pausa foi gozar cada instante como um instante de desfrute. Foi muito prazeroso caminhar sobre o sol, especialmente ao final da tarde, expericiando as cores brilhantes do crepúsculo. Caminhadas e contemplações podem ser consideradas bobinhas para muita gente, mas para mim são fundamentais. Elas me ajudam a fugir dos processos de automação, enfrentados na lida diária. Através delas, eu redescubro as potencialidades do viver e reencontro as perenes riquezas do equilíbrio e do bem-estar.

Foi muito bom chegar ao final desse período com a cabeça mais leve e com os sentimentos bem mais soltos. Tranquilidade e sentimentos esvoaçantes como pássaros selvagens são vitais para a dinâmica do pensamento. Dessa forma, eu voltei ao meu trabalho com outra perspectiva, outro “astral”.

Infelizmente, muitas pessoas acham que as demandas cotidianas precisam ocupar a cabeça com outras atividades pesadas. Não poucas vezes, eu ouço as pessoas se achegarem a mim, dizendo que precisam fazer isto ou aquilo para mudar o foco, o pensamento. Eu até entendo a boa intenção da pessoa a e sua vontade de distrair o pensamento com outras atividades, mas isso não é garantia de que os problemas serão desfocados.

A meu ver, muitas das nossas demandas se resolvem quando temos a oportunidade de pausar a vida e todas as suas experiências para nos encontrarmos com o sentido mais internalizado de nossa subjetividade. Quem sabe, nada fazer para experimentar o ócio, o puro prazer de se deitar em uma rede para relaxar, de preferência com meio olho aberto para o mar. Em suma, é importante conceituarmos que fazer coisa alguma na maioria das vezes significa fazer o melhor por nós e para nós. Eu, particularmente, gosto de pensar que através da pausa necessária para o meu viver, dou melhores condições e significados para a ampliação do meu entendimento como pessoa.

Recentemente, perdemos Domenico de Masi, filósofo e cientista italiano, uma grande perda para o mundo acadêmico. É dele a obra O Ócio Criativo (1995). Em que pese todas as boas percepções deste autor nesta obra fundamental, a ideia de que muitas vezes temos que nos contrapor aos mecanismos de trabalho que em geral consomem a dinâmica de nossas próprias vidas, aliada ao fato de podermos fazer o que gostamos de fazer, é a que mais me apetece. De fato, o ócio criativo caracteriza a passagem da sociedade industrial para a pós-industrial, valorizando-se as atividades criativas. O intelectual sobrepondo-se ao manual. Nas palavras de Masi, o ócio criativo é “a síntese entre o trabalho, o estudo e o jogo”. Nesta síntese, o bem-estar precisa ser amplamente valorizado.

Podemos ampliar a provocação e dizer que, em alguns casos, só o ócio pelo ócio mesmo e o descanso pelo descanso, com descaso para os resultados. Em alguns momentos, torna-se fundamental esquecer-se quem se é, onde se está, o que se faz, apertando o famoso “botão” para tudo e todos. Depois, só suspirar com alívio. A vida é boa quando a gente, também, tem a coragem de se desconectar dela.

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

A vida que a gente leva - Das abstrações à concretude

 



A sabedoria milenar sempre se debruçou frente à existência humana para dissecar o sentido de ser no mundo. Os antiquíssimos registros arqueológicos nos revelam elementos substanciais que corroboram com a nossa incipiente afirmação. Com o advento da abertura das bibliotecas em mosteiros e a invenção da imprensa em fins do século XV, obras copiadas e recopiadas dos clássicos gregos se espraiaram pelo contexto Ocidental desembocando na Renascença, onde filósofos, artistas e poetas entenderam que o ser humano poderia ser compreendido ou se autocompreender na metáfora do tempo, num canto qualquer chamado espaço.

Tempo e espaço são grandes aliados dos seres preocupados com a dimensão da existência, propriamente dita. Nestas duas dimensões, inexistentes para todos os demais seres dos distintos reinos, somente o ser humano se ocupa da tarefa de celebrar os múltiplos períodos de investimento físico, emocional e transcendental, evidenciando os elementos cruciais das vivências que ressignificam a vida de cada um no tempo presente.

Ao pensar sobre a ressignificação da existência a partir das vivências, busco provocar um universo de sentimentos no “aqui e agora”, entendendo que neste presente – que é o nosso presente –, condensamos os anos passados e projetamos no campo hipotético da esperança, o futuro que nunca será, pois já é.

É no presente que enfrentamos os desafios diversos e nos esmeramos em múltiplas atividades, abraçando o que deu pra abraçar, fazendo o que deu pra fazer, mesmo quando a crença em nós mesmos não foi possível, devido a diversas contingências do cotidiano.

Neste processo, nos entrechocamos com pessoas diversas que partilham ou não, com a gente, um bocado de pão. Isso fica muito bem ilustrado na expressão musical do cantor Renato Russo quando poetizou:

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez, eu sei. Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã. Espera que o sol já vem. Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Mas eu sei que um dia a gente aprende, se você quiser alguém em quem confiar. Confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança. Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem Ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém. Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar. Mas eu sei que um dia a gente aprende se você quiser alguém em quem confiar

Confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança”.

 

Essa canção indica a importância da presença de boas pessoas ao nosso lado, embora uma grande gama ao nosso redor seja de gente que não sabe amar. Ao mesmo tempo, enfatiza a crença de que cada pessoa deve acreditar em si, pois dessa maneira alcança o que se espera. Ora, não se trata de um preciosismo em relação à individualidade pessoal, marcado pelo sabor da vitória, mas de entender que é relevante e prazeroso chegar ao cume de um propósito determinado.

 

Diante dessas nossas observações, algumas eivadas de certo teor filosófico, preciso ser um pouco mais pragmático, mesmo porque em minha concepção, é fundamental transformarmos os nossos universalismos abstratos em perspectivas mais concretas. A passagem dos discursos para as práticas se estabelece como eixo fundamental para o desenvolvimento de uma vida mais equilibrada na jornada existencial. Portanto, serei ousado em apresentar algumas considerações pontuais que visam apontar parâmetros para a transição do abstrato para o concreto.

Em primeiro lugar, é fundamental que se acredite no aprofundamento das questões que realmente importam na vida que, por sua vez, não é estática. Aliás, ela é sempre um movimento em contínuas revoluções. Jamais atingiremos determinado patamar em nossa vivência, mesmo porque qualquer pessoa que se sinta no cume do monte, está principiando para si, a ruína. Achar que já se sabe ou se conquistou tudo é arruinar-se rapidamente.

Em segundo lugar, acho que todas as pessoas que vivem no mundo precisam estabelecer uma boa composição entre a vontade de ser o melhor e a humildade. Ora, não podemos nos furtar ao exercício da ambição. Claro que não devemos ser tomados de ambição, mas um pouco dela é essencial para nos tirar do estágio de letargia. Ela não pode ser exagerada, pois daí se torna uma patologia social insustentável. O fato é que precisamos nos esforçar para sermos melhores naquilo que somos ou naquilo que fazemos, sem perder a humildade, tão cara à humanidade. Eu acredito que a boa combinação entre a vontade de ser o melhor e a humildade são fundamentos para o bem-estar de cada qual.

 

Em terceiro lugar, segue a admoestação quanto ao cuidado pessoal. Tudo o que fazemos na vida requer o cuidado do corpo e dos sentimentos. É sumamente importante remir o tempo e aproveitar cada instante como sendo o último. Nesse quadro específico, é preciso que cada um exija de si mesmo o cuidado na dimensão integral da vida. Se o corpo e os sentimentos se encontram na zona do equilíbrio, então, tudo o mais estará em ordem.

E finalmente volto à inquietante pergunta pelo sentido da vida. Afinal de contas, por que nos gastamos em tempos de transformação para almejarmos a dignidade ou algum reconhecimento? Ora, é prazeroso demais ganharmos o reconhecimento de algo ou de alguma coisa que fizemos, mas o principal reconhecimento é o que parte de nós mesmos. Em minha concepção, não existem possibilidades de mensurar os valores que se aglutinam num tempo de conquistas e perdas pessoais, mas é bom quando nos empenhamos em uma ação visando um determinado objetivo, alcançando o resultado dignamente. Em cada pequena conquista cotidiana, construímos o nosso eu e alçamos o sentido de nossa vida que, em suma, é a própria vida que vivenciamos.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Expectativas frustradas?

 


É inerente ao ser humano criar expectativas em relação à vida, principalmente em relação aos sonhos, às pessoas e aos relacionamentos. As expectativas podem ser de duas naturezas: As coligadas ao cotidiano, tipo “o que vamos fazer hoje?”, ou as que se encontram em uma programação futura – uma viagem, um curso, um projeto. Ambas estão diretamente ligadas à necessidade por satisfação dos desejos que, por sua vez, não podem ser satisfeitos completamente. Os desejos humanos são sempre buracos sem fundo. De uma maneira ou de outra, as expectativas que se manifestam em nossas vontades e em nossos desejos nos mantêm vivos.

Por outro lado, é inegável o paradoxo de que somos seres que criam e que frustram expectativas. Assim, desembocamos em um terreno inglório de boas e más resoluções relacionais. Isto ocorre por dois motivos específicos: o primeiro refere-se ao fato de que todos nós possuímos um anelo sistemático pela produção de heróis. Desejamos que as pessoas que convivem conosco se tornem heróis. O problema não reside em projetarmos heróis, mas em transformá-los em ídolos. Além desse anseio por heróis, nossa condição humana é contraditória. Por mais que alguma pessoa pretenda ser congruente, ela se constituirá como incongruente, pois não há espaços para a perfeição. Como nas palavras de Walt Whitman, em seu “Song of my self” – “Canção para meu ser”: “Eu me contradigo? Muito bem, então eu me contradigo. (Sou enorme, contenho multidões)”. O segundo refere-se à ideia de que achamos poder alcançar a felicidade. Todavia, felicidade plena não é possível de ser alcançada. Temos que nos contentar com as bolhas de sabão que fazemos e que nos alegram o coração naquele mágico instante de eternidade. É no momento que as belezas se revelam a cada um de nós.

Independente do ponto “a” ou ponto “b”, importa desafiar cada pessoa a olhar para dentro de si mesma, com a finalidade de acentuar um dos aspectos mais relevantes da existência, a saber, a humildade para contemplar o mavioso movimento do rio. Quando passamos a compreender que determinadas dimensões de nossa existência requerem paciência, damo-nos uma rica oportunidade de calma. De nada adianta se achegar à margem de um rio e tentar acelerar o seu fluxo com uma concha de feijão. Na melhor das hipóteses, só se estabelecerá o cansaço físico. Contemplar o caminho do rio pode nos ajudar a minimizar as ansiedades e valorizar o que de mais fundamental existe na nossa vida, ou seja, o contentamento de ser o que se é, como dá pra ser naquele momento presente.

Temos que estar descomprometidos com processos que nos convocam à perfeição ou à comparação. A grande gama de exposição de vidas felizes nas redes sociais ou mesmo as “poderosas” lições dadas pela miríade de coachs é um engodo que pode levar muita gente a se entender menor do que as outras pessoas. Uma coisa é cada um de nós buscar a nossa melhor versão de si mesmo. Outra, bem diferente, é aceitar a falácia da meritocracia, pois todos nós, seres humanos, somos sínteses de contradições. Por isso, o ideal é sempre manter a cabeça no lugar e se encher de humildade: a certeza de que somos pó, que somos da terra e a ela voltaremos. É olhar o húmus e se perceber simples e pequeno ante a grandiosidade do universo.

A manutenção de nossas expectativas num campo equilibrado e coerente com a vida pode evitar a frustração quando o objetivo não foi alcançado. A nossa saúde mental precisa de sobriedade e de humildade sempre, não para sermos bobocas, mas para nos entendermos melhor no nosso mundo de sentidos. Enfim, que as nossas expectativas quanto ao cotidiano e quanto ao futuro sejam coerentes. Precisamos de equilíbrio para alcançarmos os nossos intentos e contentos.

 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Nunca "Está Pago" - conversinha boba sobre sexo e amor

 


Perdoem-me aqueles que pensam diferente de mim, mas eu não consigo pensar em sexo, ou no sexo, sem coligá-lo à dimensão do amor. Para mim em específico, o ato está ligado ao sentimento. Tenho consciência de que para outras pessoas, é possível fazer sexo sem amor, o que considero excêntrico e provável. Todavia, para mim, fazer sexo sem amor é como fazer uma atividade física, como outra qualquer e registrar no insta a terrível frase: “Tá pago”.

Daí, alguém poderia até me perguntar se eu já tentei fazer sexo sem amor? Ao que responderei prontamente que não tentei, nem tentarei, porque eu sei, de antemão, que me propondo a agir desta maneira, poderei me agredir contundentemente. É completamente sem sentido para mim uma relação sexual sem ligações diretas com a dinâmica do amor. Aliás, em minha perspectiva bastante pontual, o amor é a premissa fundamental de toda e qualquer relação.

Rita Lee e Roberto de Carvalho, inspirados em uma crônica do Arnaldo Jabor, escreveram uma música intitulada Amor e Sexo. Nas linhas melódicas da canção, sexo e amor se dissociam e se completam ao mesmo tempo. Entretanto, os compositores brincam com as evidentes diferenças entre uma dimensão e outra, com forte ênfase na ideia de que fazer sexo é mais apimentado do que sentir e viver o amor.

O amor para mim é o que move e o que movimenta toda a perspectiva da vida, dando a ela o contorno necessário para a garantia do bem-estar. Eu não me sinto um ser que se enriquece de qualquer maneira em qualquer situação em um determinado momento. Sinto-me sempre aberto a perspectiva da sexualidade se estou em uma relação de afetuosidade e intensa troca amorosa. Com isso, afirmo que jamais eu poderia ser colocado ou até mesmo rotulado na condição de um “pegador” contumaz, destes que colecionam suas ficadas. Às vezes, ouço algumas narrativas dos meus amigos mais próximos e alguns conhecidos, quanto às suas respectivas aventuras sexuais cotidianas. Dou risadas, até, mas não me vejo envolvido em nenhuma dessas histórias, qualquer que sejam elas.

Não sei por que cargas d'água eu gosto de seguir o meu coração e permitir, de alguma maneira, que ele seja tocado por outro coração que bata em sintonia com o meu, mas isso é bem efetivo para mim. Por esta razão, não me sinto muito aberto e propício a conquistas pontuais que se estabeleçam pelo acaso ou pelo ineditismo do momento, talvez pelo “Tinder”. Nada contra, entendam-me, por favor. É que nunca me vi assim, pois existe um lado meu extremamente romântico e apegado à poesia. O amor tem a sua conotação de sofrimento e isso me afeta positivamente. Eu não me cobro por viver dessa maneira. Ao contrário, respeito-me profundamente por entender que esse é o meu melhor jeito de captar a vida e de me equilibrar positivamente em minha dinâmica existencial. Eu entendo que existe uma relação muito próxima entre os sexos e os amores que se querem bem. Em minha humilde opinião, sexo e amor devem andar de mãos dadas, ampliando a arte do romance resultante daquela conversa atenta, marcada pela intensidade do mergulho dos olhos nos olhos.

Por isso, atrevo-me a dialogar com a saudosa Lee, com o Carvalho e o saudoso Jabor, especialmente com a sua crônica O amor atrapalha o sexo, publicada pelo jornal O Globo em 17 de dezembro de 2002, disponível no link: https://oglobo.globo.com/cultura/o-amor-atrapalha-sexo-25395132. Vale a pena a sua leitura.

Neste dialogo, eu, mais afeito ao meu lado poético, fico somente com as partes piegas do amor, dizendo que: Gosto do jardim, com cerca e projeto. Gosto de depender do desejo e construir o que crio. Não me masturbo. Sou agradecido após o ato sexual. Sou do depois, não do antes. Perco a cabeça ao mesmo tempo em que penso. Quero a redenção e o alcance da plenitude. Amo a impossibilidade no horizonte e até permito que o amor atrapalhe o sexo, sem necessidade de que gozem juntos. Quero a propriedade e a lei, mesmo que estejam presentes num sonho que deseja o um romântico latifúndio. Sou narcisista, ofereço e recebo o remédio e o veneno.

Continuamente, escrevo o meu texto sem exigir a presença do outro, mesmo o que é ausente. Quero a ilusão da masturbação que vem de dentro, de nós. Concordo com Rodrigues: "O amor, se não for eterno, não era amor". Invento a alma, a eternidade, a linguagem, a moral. Sou ridículo, patético,  egoísta e domador. Sou da prosa, sou mulher e quero a grandeza dos afetos. Que tudo vire amizade e que eu faça sexo sem camisinha. Sonho com a pureza e com o sonho dos solteiros. Posso até ser chamado de careta. No amor, morro me afastando da morte.

Aceito os paradoxos e as contradições do meu recorte, afirmando a minha posição continuamente, sempre ciente de que a discussão sobre a temática é muito ampla. Atualmente, num ambiente cultural e social totalmente tomado pela lógica da “sofrência” relacional e os seus decorrentes encontros e desencontros marcados pelo fortuito e pelo acaso, as relações se revelam puramente frugais, marcadas pela lógica do fazer por fazer, sem amor, sem apego. Mas eu quero o amor e o apego. Continuarei respeitando todos os que pensam ao contrário, seguindo o que acho que acontece em meu coração. Para mim, sexo e amor se complementam sempre. Bem sei que foi justamente isso que Jabor, Lee e Carvalho, dentre outros muito mais, disseram e corroboraram. Portanto, jamais direi que “Tá pago”.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

A importância das palavras de estímulos em tempos de competição

 


Quando eu era criança em meus tempos escolares, nunca era escolhido para jogar ou defender o time da minha sala nas competições e jogos inter-classes. Os colegas diziam que eu era ruim de bola e pouco competitivo. Para um moleque nascido no Brasil, cognominado o país do futebol, ouvir dos pares que eu era ruim de bola era extremamente afrontoso. Confesso que eu sofri bastante com as palavras maldosas ditas a mim naqueles momentos. Eu estava continuamente condenado a esquentar o banco dos reservas. Não era fácil buscar forças e autoestima diante dos momentos que eu ouvia o que afligia os meus sentimentos. Logicamente, as palavras proferidas pelos colegas de turma afetaram negativamente as minhas emoções. Ouvi-las me chateavam bastante. Eu não gostava de ser tratado daquela maneira e isso me deixava quieto e embotado em minhas ações.

De fato, as palavras proferidas pelas pessoas próximas, especialmente as da nossa própria família, podem provocar em nós os mais diversos sentimentos e reações. Por isso, temos que ter um cuidado singular com a forma como as acolhemos em nossas vidas. É fundamental que saibamos filtrar o que realmente é importante ouvirmos e o que não. Por outro lado, é importante que cuidemos, também, das palavras que proferimos aos outros. Costumo sempre dizer que se não temos coisa alguma de boa pra dizer para outrem, então é melhor não dizer nada, fechar a matraca. Aliás, nossa intencionalidade nas falas tem que ser sempre voltada para a manifestação de palavras gentis e agradáveis às pessoas.

No campo das sociabilidades, as palavras agradáveis são sumamente importantes. Em primeiro lugar porque elas estimulam a pessoa que as recebe a se esforçar mais em relação a respectiva atividade que está realizando. Em segundo lugar, porque pessoa alguma pode ir adiante se não for impulsionada pelas palavras motivacionais, ou seja, pelos motivos para as ações a serem efetivadas. Ora, obviamente o que estamos apontando não é uma regra, mas um estímulo voltado à possibilidade de adequação das palavras nos diálogos e convivências. Não podemos deixar de evidenciar que, infelizmente, muitas pessoas paralisam as suas vidas por conta das palavras mal ditas por outras pessoas alheias. Às vezes, mesmo sem saber, machucamos as pessoas ou somos machucados por conta da veiculação das palavras numa conversa ou em uma discussão.

Eu sou daqueles que acreditam na força do amor. Amigos próximos me chamam continuamente de emocionado. De fato o sou, pois acho que a veiculação das nossas palavras deve ser marcada pela dinâmica do amor. Eu acredito na potência do amor, especialmente quando as relações vinculares ficam bem estabelecidas. Que todos precisamos de motivação, isto é fato. É inegável que a boa condução das palavras garante um bom desenvolvimento das ações nas rotinas cotidianas.

As palavras proferidas de formas gentis não machucam. Tem gente que sempre afirma: “Eu sempre falo a verdade”. Ora, não há coisa alguma de errada em se dizer a verdade, mas as verdades precisam ser expostas com amor. As palavras agradáveis trazem bons sentimentos para psique humana, bem como a liberação dos melhores hormônios e substâncias para o corpo, como a dopamina, a serotonina, a endorfina e a ocitocina. Quem sabe, um consenso entre nós, seres humanos, pudesse ser estabelecido com a finalidade de se garantir o bem-estar de todas as pessoas nos seus nichos sociais. Quem sabe não nos desafiemos continuamente a somente proferirmos palavras agradáveis às pessoas? Tudo bem! Podem me acusar de piegas, mas é nisso que eu acredito.

Por outro lado, é claro que existem momentos que nos sobem à cabeça e precisam de esclarecimentos mais efetivos e discussões mais aguerridas. Pessoa alguma é boba ou condenada a aceitar tudo sem algum tipo de critério. Há sempre limites relacionais e se alguns escapam aos dedos, bora para a contenda. Não é o ideal, mas, às vezes, necessário para se garantir o posicionamento. Que não seja a defesa de uma postura idiota, mas a argumentação bem posicionada com fundamentação e palavras firmes com tonalidades serenas.

Enfim, salvaguardados os momentos em que precisamos nos posicionar mais assertivamente, o bom é quando deixamos deslizar as palavras que fazem bem a nós e a quem estiver ao nosso lado. Em tempos de ampla competição e abusivas comparações, nada melhor do que boas palavras. Que haja doçura, cuidado e gentilezas em nossas palavras. O bem-estar entre nós precisa ser bem estabelecido.

 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Dos paradoxos da liberdade...

 


Pela manhã, o sol aqueceu o meu corpo. Senti o seu banho iluminado tocar a minha pele morena e me abastecer de vitamina D. Como é curioso saber que a luz da nossa estrela mais próxima alimenta e dá vida.

E eu precisava desse banho. Depois de um porre – daqueles que fazem você se esquecer de quem você é o que você faz – e de um ataque de sonambulismo –, acordar em intensidades dando bom dia ao dia é simplesmente maravilhoso. O coração batia em toadas descompassadas nutrindo a alma de uma alegria poética ao mesmo tempo em que mariposas faziam revoadas na altura do estômago. É que a vida sempre nos apresenta as mais soturnas surpresas, especialmente quando os sentimentos são intensos e marcados pela historicidade e pelos carinhos que não cessam de escorrer dos olhos brilhantes daquele menino que soltava pipa nos tempos de férias, junto a outros moleques. Eu gostava mesmo de fazer voar o meu “jelequinho”. Fazia diversos deles e me divertia, tecendo pequenas rabiolas com papel de pão. Sim, os pães comprados nas mercearias eram embrulhados com um papel cinza, envolto por um barbante de algodão. Aqueles papéis faziam a alegria da criançada.

Envolvido pelo momento e pelas memórias do momento, saí do sol e voltei para o sofá onde me permiti a explosão de diversas inquietações e múltiplos pensamentos.

Diante de mim, dois quadros pintados pela minha filha, que é artista plástica, dialogaram com as minhas interioridades. O menor deles é uma pintura em preto e branco onde um ser humano se sente acossado em suas dúvidas e questões, enquanto se vê rodeado de flores e sombras, não necessariamente nesta ordem. Sua face revela a contínua inquietação dos seres que sempre se encontram em processos de reelaboração da existência. Lembra-me um casmurro em seu processo de enclausuramento cinza. Seus olhos semicerrados anseiam pelos mundos não imaginados, presentes em algum estado onírico surrealista. O ser não toca o chão, tampouco o céu e pende a cabeça para a esquerda, onde há um clarão e as flores parecem querer sorrir, mesmo no breu em que se encontram. Por sua vez, o quadro maior, comprido por sinal, revela um movimento. Trata-se de um ser em transição. Desde o primeiro momento em que vi as primeiras pinceladas deste quadro, disse a ela que eu o compraria e que ele seria meu. Ela indagou-me de que estava preparando aquele quadro para outra pessoa e que não queria que ele ficasse ali em casa. Eu a questionei dizendo que ela estava pintado parte significativa do meu próprio eu. O quadro se compõe de três cenas separadas e correlatas. À minha direita, pessoas indeterminadas com suas mãos e garras tentam aprisionar o ser que busca a sua libertação. O ser tem as pernas ainda presas pelas mãos e há um teor opressivo em tons e semitons na cor verde-musgo. O ser tem as suas mãos em movimento de fuga. A angústia em seu rosto denota a sua insana vontade de sair de uma realidade para se apossar de outra. Ele almeja a sua liberdade e luta consideravelmente por ela. A sua mão direita é maior que a sua própria cabeça. Sua sana é pela busca do novo. Todo o seu corpo se acentua na segunda parte do quadro, a central, onde se revela um céu com as suas nuvens e uma ambientação de paz. É a invasão de um estado onírico eivado de possibilidades representadas num voo sempiterno e sem limites. O ser, agora alado, não possui asas. Mas se desloca entre o gases da atmosfera. Na terceira parte, revelam-se quatro pessoas sem sexo, sem gênero, que dançam nuas num movimento “pericorético”. Não há entre elas qualquer que seja mais relevante ou importante. Todas revelam a liberdade em tonalidades quentes, vermelhas e alaranjadas, se opondo às mãos opressoras enquadradas nas tonalidades verde-musgo, numa veemente oposição ao ambiente opressor.

Enquanto os meus pensamentos se refaziam e de desfaziam em movimentos de sístoles e diástoles sentimentais, eu mergulhava em minhas próprias imagens mentais para me referendar de mim mesmo, visando minha afirmação identitária. Em minha memória eram fugidios os flash’s do que ocorrera na madrugada anterior, somente a certeza de que continua vivo o meu clamor pela minha liberdade de sair de tudo aquilo que me oprime para viver em movimentos a minha dança nua entre pessoas de bem.

Mais do que um maniqueísmo dualista entre bem e mal, a experiência de ser ou querer ser a melhor versão de mim mesmo continua a ser a bandeira a ser desfraldada na minha mente solidamente solitária. Nunca almejei ser um referencial para qualquer pessoa, tampouco um exemplo de vida. Sou, como sempre afirmo, uma síntese de contradições e me assumo assim de peito nu e cabelo ao vento, ao melhor estilo do Valença. Continuo as minhas transições e saboreio alguma espécie de contentamento no momento em que me é possível colorir a folha em branco.

Meu corpo continua aquecido e acolhido pelo sol. Eu sorrio, pois me resta uma porção de alegria, inspirada em Pessoa: “tudo vale à pena se a alma não é pequena”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Mundos fecundos e profundos

 


 

Descortinam-se mundos fecundos... horizontes abertos, profundos...

E neles, luzeiros sem contas contam das suas vivências, das suas andanças num lapso de segundo que se estende pela eternidade. Progenitores dão luz aos seus filhos, e cada qual, mediante a sua própria energia vital, segue a sua lida, iluminando o seu próprio percurso e os percursos alheios desfraldando diversos devaneios.

Do mistério profundo que é viver, inaugura-se a intensa possibilidade de criar e recriar a ciranda das luzes, mais conhecida como relacionamento. Todavia, quem ousaria afirmar a frivolidade dos relacionamentos? Em todos os tempos, relações se configuram afetando o oposto, especialmente na aglutinação das memórias que celebram as iluminações que ocorrem nos rostos daqueles que compõem o mundo. Em todas as faces, eivadas de suas respectivas quantidades de melanina na pele, os risos não cabem em si, tamanhas as cores rubis em frenesi.

É bom quando se depara com as chamas pueris das crianças cheias de vigor correndo de um lado para o outro, dependurando-se em balanços e gangorras nos parquinhos envelhecidos das praças que silenciam memórias.

Manifesta-se o crepúsculo e as traquinagens de revelam com gosto de caramelo. Hora de tirar a roupa suja e tomar aquele banho com gosto de carinho e sabonete. Que venha a noite de cores sombrias e a aurora com suas cores cheias de aventuras escolares, iluminadas pelas amizades nas brincadeiras de roda e pelos livros desenhados com letras palito.

Nos mundos fecundos que desde a infância são gestados, é preciso fortalecer os elos sem roer a corda, passando pelas portas e portais onde se pode experimentar os primeiros beijos e os diversos afetos roubados nos lapsos de segundos, quem sabe nos estalinhos que espocam nas festas adolescentes. Mas nem sempre, beijinhos acontecem. Às vezes, na ausência das vanguardas, o tempo e o espaço acolhem e abraçam os choros e os lamentos, os risos bem concisos e, talvez, alguns amores dissabores.

Todavia, nada como um dia após o outro. É lindo quando um broto de amora lambuza todo o corpo de quem namora, quando quem namora tem o corpo afetado pelo mel inerente aos humanos, cada vez mais humanos.

Em meio à luz acesa de afetos sem rudeza, o encontro inusitado pode acontecer na tela iluminada de um antigo celular. No início, pouca luz, depois gostosinho amor que seduz. Há momentos em que pequenos momentos se transformam num luar espraiado em um divã.

No tempo real, concreto e singrado pelo senso surreal dos olhares perdidos em uma piscina imaginária, nada mais resta ao que se refestela, a não ser a satisfação. O doce escorre no cheiro de sangue que é acolhido pelo cogumelo brilhante.

Os caminhos continuamente se abrem, cada um com seu ancinho, a terra a arar. O jardim ora plantado, tem que ser iluminado e capaz de aninhar o amor em seus múltiplos sentidos, olhares consentidos e a luz em seu clarão de luzes quentes.   

terça-feira, 25 de julho de 2023

Por uma boa dosagem de loucura

 


Um pensamento da psiquiatra alagoana Nise da Silveira ecoou em minha mente, provocando-me e convocando-me a refletir sobre a subjetividade de cada ser e o constante desafio de não se curar além da conta. Há sempre uma boa dose de loucura em cada um de nós e ela precisa ser continuamente preservada. Nas palavras do poeta Raulzito: Somos metamorfoses ambulantes e malucos beleza. Mais do que isso, é preciso ter a consciência ou a inconsciência, tanto faz, de que ser louco é ser feliz e não se preocupar com o que os outros pensam ou dizem.

Em outras palavras, podemos refletir que tudo o que nos constitui é emprestado da natureza que nos cerca: o corpo em que habitamos e sua base material, contém 30% de terra e 70% de água; o fogo que eletrifica os nossos órgãos internos e mantém, por exemplo, o coração batendo ativamente e, enfim; o ar que num contínuo ir e vir nos impulsiona energeticamente para as diversas ações que efetuamos. Então, o que de fato pode ser considerado nosso ou meu? Que posse nós temos nessa nossa existência? Ora, somos seres totalmente moldados pela natureza e, também, os únicos que sabem dos processos que são iniciados, que se constroem e se finalizam nos múltiplos ciclos do rio da vida. Somos os únicos seres capazes de reconhecer a finitude, tendo a certeza da iminente morte que nos assombra e nos contorce. Talvez, por esta razão, tentamos disfarçá-la continuamente, criando projetos e inventando ideias diversas.

As ideias bem estabelecidas quanto a se plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, ecos da poesia do poeta cubano José Martí, são tentativas alusivas a este disfarce, além de uma maneira adequada de deixarmos os nossos rastros por aí, uma mentirinha boba que nos permitirá acreditar na ideia de eternidade, porque sabemos que não somos eternos. Deixamos rastros para dizermos que nossa vã existência não foi de toda em vão.

Por conta da insanidade alusiva ao que é viver e existir, é fundamental confirmá-la nas nossas loucas e inusitadas experiências e movimentos na existência. Pessoa alguma está condenada a ser o que os outros esperam que ela seja, a não ser que ela queira. Cada ser em si tem a possibilidade de viver o que quer viver, declarando a plenos pulmões o que realmente gostaria de ser. E qual o problema dessa declaração?

Há tempos, acolhi em minha clínica psicológica uma pessoa que aos 78 anos, afirmou categoricamente que se arrependia de não ter vivido o que gostaria de viver, por conta das expectativas das pessoas quanto ao seu comportamento. Eu, ao ouvi-la, fiquei consternado, buscando acolher a angústia presente em sua voz embargada. Ao mesmo tempo, deixei que o silêncio inundasse o setting terapêutico para que um grito ensurdecedor afetasse as nossas emoções, tanto a minha quanto a dela. O silêncio, tal qual adaga afiada que corta e rasga as roupas na hora do sexo, foi lâmina fria recostada no mamilo e desferiu golpes ferinos em nossas almas. Furtivamente, a lágrima escorria. Não há maior sofrimento do que viver uma vida não vivida. Nem a morte de uma criança amada no seio de uma família é tão lancinante. Todavia, esta é só uma metáfora para se perceber o nível de sofrimento existente em um ser que não existiu como queria existir.

Por isso, eu acredito piamente com fé cega e faca amolada, que cada um de nós deve se esforçar na tarefa de viver a melhor versão de si mesmo, sem medo, sem frescura, sem nojo. Curiosamente, temos nos campos da filosofia grega um pós-socrático chamado Diógenes. Este filósofo cínico vivia como um cão dentro de um barril. Ele não usava roupas e denunciava toda forma de estereótipos presentes em sua sociedade hipócrita. Era considerado um louco. Diógenes é um símbolo que continua a denunciar todas as formas de hipocrisia presentes na nossa sociedade atual. Os loucos são aqueles que denunciam as loucuras de uma sociedade insana. Eu acho que todos nós devemos ter muito de Diógenes. Que as babaquices de uma vida insossa não se façam presentes em nossa lide.

Por esta razão, uma boa dose de loucura se faz necessária na vida de qualquer um de nós. O que de fato queremos é a aventura de nos embriagarmos na paixão até aquele momento em que o corpo extasiado se vê completamente molinho, por se sentir recheado da pequena morte, la petit mort. Ou então, naquele momento em que a dinamite e o fogo se misturam num paiol de estrelas onde um mísero colchonete no chão serve de esteio para o amor se fazer presente e acontecer de forma surreal.

Enfim, continua a ecoar em meus mais distintos dilemas escondidos naquele baú antiquíssimo de bordas assimétricas, a frase que emoldura este texto. Que a loucura sempre preceda a cura, essa vontade de cuidado, e que a gente cometa mais besteiras no cotidiano, mais bobagens na trilha que ainda se possibilita aberturas, permitindo que a lâmina afiada continue a ameaçar as pétalas da rosa, as luas gêmeas e o túnel amaríneo.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Cura pessoal pela criatividade e espontaneidade

 


Há um processo de cura pessoal no desenvolvimento psicoterápico que ocorre nos grupos. De antemão, deixamos claro que partimos da premissa etimológica de cura como cuidado e vigília. Essa premissa nos coloca frente ao movimento dialógico que ocorre no tecido social, segundo a concepção de Jacob Levy Moreno. Por um lado, a preocupação com o subjetivo que nunca se ausentou de sua obra; por outro, a convicção de que o ser humano somente pode se perceber completo na sua relação com o outro, num processo interpessoal.

À priori, importa-nos salientar que o ser humano é um ser de relações. Antes mesmo de sua estreia no palco da existência, influências oriundas de sua matriz materna compõem os aspectos mais altissonantes de sua constituição psíquica. Sobre este aspecto, Martim destaca:

Embora em suas obras, faltem capítulos dedicados ao estudo teórico do “animal político”, nelas é possível encontrar afirmações sobre esta natureza social. O estudo do indivíduo em relação com os demais ocupa a maioria de suas páginas fundamentalmente das que se referem à primeira etapa do existir humano, ou seja, a matriz de identidade. Quando a criança nem mesmo percebe a diferença entre si-mesma e seu ego auxiliar materno, já está vivenciando na relação com a mãe, a sociedade. (Psicoterapia do Encontro, 163-164).

 

Para Moreno, portanto, a perspectiva dialógica que vê o sujeito e o objeto não possui uma dissociação. O subjetivo e o grupo estão inter-relacionados e contribuem com a existência de ser. Em outras palavras, “a pessoa humana é o resultado de forças hereditárias (g); forças espontâneas (e); forças sociais (f) e forças ambientais (a)”. (Psicodrama, 168). Como se percebe, todas as quatro forças elencadas possuem uma conotação social, com pertinente base fisiológica, com dois órgãos complementares que atuam de maneira recíproca: o princípio da bissexualidade e o princípio da bissociabilidade.

Essa ideia nos leva a compreender, de forma mais efetiva, que há uma expressiva aproximação da psique, do corpo e da ação. Dessa forma, é pela atuação dos papéis que o ser se conhece e se dá a conhecer no grupo. Complementam-se, portanto, os dois princípios – bissexualidade e bissociabilidade – na ação desenvolvida dramaticamente pelo corpo em ampla manifestação da criatividade e da espontaneidade, possibilitando os processos de encontro de si-mesmo e com o outro. Este processo garante a ruptura das conservas culturais e a possibilidade de rematrizações.

Neto (1989), ao tecer aproximações que podem ser consideradas por nós, afirma que o eu na perspectiva moreniana, somente pode ser descrito em uma dimensão corporal (Paixões e Questões de um Terapeuta, 94). Este autor amplia a sua argumentação afirmando:

O eu começa a se formar através dos papéis psicossomáticos e da vivência infantil de certas zonas corporais em ação. [...]. E aí, tanto faz que aceitemos ou não a noção de papel psicossomático, o importante é que certas necessidades fisiológicas colocam certas zonas corporais em ação. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 94).

 

Decorre dessa referência a ideia de que o corpo em ação se torna a primeira referência receptora de experiências diversas, no tempo e no espaço, no campo em que Moreno chama de Matriz de Identidade. É no encontro com o outro, mediante a experiência dos afetos no corpo que a criança, desde os seus primeiros tempos de vida, vai se percebendo. Segundo Neto:

É essa dimensão do corpo assim conformada e codificada que designa o eu; entretanto, ao lado da imagem e dos fluxos domesticados e modelados, pululam todos aqueles que resistiram a esse processo forçado e artificial de unificação. Por isso, costuma-se dizer e qualquer bom terapeuta sabe disso – que o eu e a singularidade de cada um não designam a mesma coisa. Somos sempre uma multiplicidade representada por uma unidade. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 96).

 

De fato, o corpo é o aglutinador das imagens e afetos, fazendo com que nos tornemos múltiplas representações. A artificialidade se encontra na ideia de uma unidade de ser. Moreno faz questão de frisar a importância e a pertinência em se atingir a coordenação do corpo e da expressão verbal, bem como a diminuição dos gestos pessoais e idiossincráticos sem uma preocupação expressiva com os papéis sociais. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 93). Em outras palavras, o agente múltiplo de improvisação e criatividade encontra o seu ponto de partida dentro de si mesmo, no princípio da espontaneidade.

Entretanto, mais do que isso, somos seres de interações sociais e desenvolvemos múltiplos papéis, os mais diversificados. Nessa compreensão, somos atores e atrizes no palco da existência e nos envolvemos em diversos dramas, dramalhões e algumas comédias que nos destinam ao alcance do melhor sentido de nossa vida – ou de nossas vidas –, visto a multiplicidade do que somos em nossa subjetividade. Moreno sonhava com a possibilidade das pessoas alcançarem as suas melhores versões pelo dispositivo da espontaneidade, acrescido da capacidade criativa, se contrapondo à automação requerida pela sociedade. Na possibilidade de se afirmar como um ser inteiro em inter-relações, mediante as dramatizações possíveis e adequadas do corpo, o ser humano pode se encontrar consigo e ser plenificado em si-mesmo. O teatro da vida aguarda pelo protagonismo de cada um.

O Paradoxo da Empatia

  Todos nós, seres humanos, além de carregarmos os pesos externos, tais como mochilas, sacolas, valises, trouxas e malas, também carregamos ...