sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Fazendo coisas novas a cada novo dia



Há algum tempo, eu assumi um desafio pessoal! Fazer em cada dia, algo especial, inusitado, diferente do habitual. Eu percebi, bem rapidamente, aliás, que a vida é bem passageira e que a gente precisa apreciar cada moranguinho que ela nos apresenta.

Num sábado qualquer, resolvi almoçar em um bar bem movimentado. Queria uma comida bem simples e bem temperada. O ambiente estava tumultuado, no fervilhar das manhãs de sábado no centro da cidade de Juiz de Fora. Sentei-me em uma mesa de canto, onde podia acompanhar o ir e vir das pessoas em uma galeria paralela ao bar. Pedi um chope para começar. Chegou-me rapidamente à mesa, com aquele colarinho a ser vencido. Sorvi deleitoso aquela cerveja gelada, sem pensar, pensando em como aquilo era bom.

Um grupo de coroas conversava ao meu lado. Não queria acompanhar a conversa, mas um deles falou: “Não vou ficar tomando mais chifres”!

Meus ouvidos se atentaram ao assunto, mesmo sem eu querer. “Pô! Tem onze anos que eu estou tomando chifre. Cansei”!

“Já te falei isso, carái! Tem que parar com essa merda! Tem que largar essa mulher! Ela já extrapolou! Pô”! Disse um outro coroa, que tinha um colar de metal, bem jovial, e parecia o ator americano Dani De Vitto.

Um outro, usando óculos quadrado de armação preta, sem barba e sem bigode, que ficava o tempo todo conversando, bebendo e comendo pastel, além de fiscalizar as bundas das meninas que desfilavam na galeria, entrou no bar e pegou uma cerveja de baixa qualidade, compartilhando com os seus amigos.

“Carái! Tem outra cerveja não! Essa aí parece mijo de vaca”! Disse o coroa jovial. Mesmo com esta piada mequetrefe, abriu a lata e encheu o copo, sorvendo o primeiro gole como se fosse um vinho francês. O importante naquele momento era a conversaria em torno do sexo na maturidade e não a qualidade da cerva.

Levei um susto. Uma pombinha cinza e manca entrou no estabelecimento, bicando restos de comida que estavam no chão. Uma espécie de utilidade pública. Pedi o cardápio ao dono do bar. Uma figura simpática, oriunda da China. Prontamente, me cedeu o cardápio e eu pedi um prato feito, com pouco arroz. Uma senhora assentou-se proximamente, só para beber água e atualizar as suas redes sociais. Não era casada e parecia querer uma aventura na noite. As sobrancelhas estavam bem feitas e o cabelo bem alisado. Devia ter uns 59 anos. O sapato vermelho revelava para mim que os seus passos precisavam ou queriam subvertê-la. Atentamente, futucava o seu celular.

Os coroas foram embora. Depois de várias goladas, era preciso estimular a coragem do amigo, para romper com aquela sequência de chifres.

Meu almoço chegou! Cheirinho delicioso e um prato contendo arroz, feijão, batatas fritas e salada. Pedi para o acompanhamento um bife acebolado de frango. Era um prato simples, mas estava delicioso.
Saboreei-o e deleitei-me naquele momento. Pedi mais um chope.
Muita gente rindo e falando alto. Uma pequena banda tocava alguns clássicos, chorinho, para ser mais preciso. Eram artistas em suas insanas lutas por reconhecimento através da arte diante do público.

Deu vontade de tomar mais um chope. Balancei a caneca de vidro e sorvi a última gota. Uns pastéis crocantes me convidavam a um novo prazer. Um chope com pastel. Resisti àquela transa.
Precisava pagar a conta e ir para o curso de Psicodrama. O dever me chamava, e eu já estava leve.

Outras coisas novas precisavam acontecer.

Paguei a conta.

A pombinha não voltou mais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Uma manifestação contra os fechamentos obtusos da vida aberta

 


Tenho um problema sério com os recintos fechados e com os fechamentos obtusos. Afeito que sou ao espaço amplo que se abre para os sóis das manhãs e das tardes, apego-me ao que pode me fazer respirar os 20% de oxigênio que eu preciso para a continuidade do meu metabolismo. Fosse mineiro, gostaria de morar naqueles casebres de janelas abertas e frágeis portas cheias de frestas. Todavia, sou carioca, e talvez, por um acidente deste meu percurso existencial, tenha me acostumado a gerenciar a minha infância e a minha adolescência junto às belíssimas praias de tons azuis esverdeados do litoral brasileiro.

Tenho, também, um problema sério com as pessoas fechadas e de mente embotada. Não consigo gastar tempo com gente que não consegue ver a vida como ela é, ou seja, com suas contradições e dicotomias. Ora, a vida real é marcada pelas possibilidades aventadas por Eros ou por Tânatos, pulsos de vida e pulsos de morte. Não há como fugir-se dos paradoxos que esbofeteiam o ser humano em sua lida diária. Os eventos que ocorrem na dinâmica existencial não podem ser amparados pelas palmas das mãos, sequer pela mente. Algumas escolhas podem controlar o rumo da prosa de cada qual, mas o fato é que todo ser humano é tomado de assalto quanto ao acaso que abraça e zela por todo o universo. Talvez, por este motivo, Einstein tenha dito de forma enfática que o único Deus que ele aceitava era o sinalizado por Espinosa. E qual era o Deus do filósofo holandês? Um Deus despersonalizado e geométrico, estabelecendo-se numa simbiose perfeita com a natureza: Deus e Natureza, a mesma coisa. Como Espinosa indica: “Tenho uma concepção de Deus e da natureza totalmente diferente da que costumam ter os cristãos mais recentes, pois afirmo que Deus é a causa imanente, e não externa, de todas as coisas. Eu digo: Tudo está em Deus; tudo vive e se movimenta em Deus”.

Independente do posicionamento de Einstein ou Espinosa, é inegável a energia que movimenta o mundo e seus engendramentos. Sei que muitas pessoas apegadas à segurança de suas palavras e atos, preferem agendar o cotidiano com a (i)lógica do destino, como se tudo o que acontecesse na dinâmica existencial estivesse pré-determinado por um poder do além. Ora, se o futuro ainda não aconteceu, como haver um destino? De minha parte, prefiro conceber a ideia de que a vida é uma grande e inédita aventura e que cada um é protagonista do seu existir, quando possível. O cotidiano e sua simplicidade é o campo fantástico onde se pode viver a aventura da vida, seus encontros e desencontros, suas pessoas ou situações.

A questão de fundo que se evidencia em um segundo plano, refere-se à fuga do sofrimento que surge por conta do inusitado. Tem gente que acha que, mediante fechamentos obtusos e controles do cotidiano, se pode evitar o sofrimento. Ledo engano. Sofrimento não se evita com fechamentos. Aliás, sofrimento não se evita. Sofrimento ocorre e exige renovações e recomeços, tanto nos níveis subjetivo ou objetivo, pessoal ou comunitário. Ele está presente na dinâmica existencial porque nunca se sabe bem o que vai acontecer na aventura da vida, e está tudo bem. Em tempos passados, escrevi uma crônica que considera a vida nas dinâmicas da montanha russa e do carrossel. Corroboro sempre que a vida é bem mais uma montanha russa, com seus anseios, medos, sustos, contentamentos e alegrias. Tudo isso junto e misturado num contexto cheio de sonhos e pesadelos. Às vezes, muito mais pesadelos. A gente só não pode se perder o foco de que no meio do abismo, como diria Rubem Alves, a gente tem que curtir o que dá pra curtir e saborear aquele moranguinho na beira do abismo. Vejo isso na cultura nordestina brasileira, que tanto amo. Acontece que há um legado sertanejo que transforma grandes infortúnios em esperança. No fundo, manifesta-se ali uma religião cultural ou uma cultura religiosa que se espraia numa vontade de superação artesanal e musical que, ao mesmo tempo, sente o sofrimento inerente à vida e manifesta a vontade de revogação da situação com o grito: “Deus é mais”!

Hoje, especialmente, meu corpo requer um mergulho na profundidade do mar, entre ondas e vagas, para se perder no universo azul esverdeado. Perdido no interior das águas salinas, lanço-me ao absoluto sem parâmetros, sem fechamentos obtusos, afirmando, ainda, o quanto é insensato querer controlar a vida que não pode ser controlada. Diante dos paradoxos que continuam a me esbofetear, respeito a intuição do momento e abraço o acaso se ele quiser me abraçar. Assim vivo, pois as tramas da vida sempre precisam ser vivenciadas com ampla ousadia.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Da natureza da coragem



Uma amiga a quem muito prezo mandou-me um recado tecendo considerações sobre um livro de crônicas que tive a oportunidade de publicar há alguns anos. Este recado carinhoso gerou-me sentimentos múltiplos e a vontade de dialogar com as suas percepções. Basicamente, ela me falou a respeito de coragem e de liberdade. Ela sentiu, no contexto das emanações de minha alma subversiva que eu estava tecendo críticas em relação às injustiças que tentavam amordaçar a vida humana, favorecendo a ampliação do espaço destinado às estruturas de poder, e que isso era muito corajoso da minha parte.

Eu preciso confessar que eu não sou corajoso. Aliás, minha vida é marcada pelo medo, pela ansiedade e pela angústia. Coragem substantiva não me define. Coragem substantiva não existe em minhas palavras, em minhas ações, tampouco em meu velho e carcomido dicionário de bolso – coisa antiga. Por uma causa que não sei mensurar, a coragem que eu não tenho surge em minha vida como uma erupção vulcânica em dados e espasmódicos momentos cotidianos. De repente, me vejo completamente tomado de uma ira sem precedentes e passo, então, a falar, agir e escrever coisas que não havia pensado ou medido. Assim, compreendi que pessoa alguma é corajosa fortuitamente, mas se enche de coragem ante a uma situação inusitada que lhe fere a alma ou a vida.

Ao mesmo tempo, passei a pensar no intrigante livro A Coragem de Ser, escrito pelo filósofo e teólogo Paul Tillich. Neste livro, o autor reúne os conceitos ético e ontológico alusivos à coragem e à angústia, afirmando que “a coragem de ser é o ato ético no qual o homem afirma seu próprio ser a despeito daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com a sua autoafirmação essencial”. Nessa perspectiva, a coragem é uma atitude e uma potência do ser-em-si que recebe a si-próprio de volta, num processo de contínua autoafirmação frente ao não-ser. Não é fácil encarar os desafios mais diversos que se apresentam no campo da existência e, ainda assim, buscar a autoafirmação. Embora haja muitos medos envolvidos, como, por exemplo, o medo da perda, o medo da frustração, o medo da rejeição, o medo da morte, entre outros, dando a ideia de que coragem se relacione ao poder da mente para vencer o medo, para Tillich a coragem existe para refrear a ansiedade e angústia. Em suas palavras: “Coragem é usualmente descrita como o poder da mente para vencer o medo. O significado do medo pareceu por demais óbvio para merecer inquérito. Porém, nas últimas décadas, a psicologia profunda em cooperação com a filosofia existencialista, tem conduzido a uma decisiva distinção entre medo e ansiedade e a definições mais precisas de cada um destes conceitos”. A coragem aparece como uma postura e uma atitude concreta no aqui e no agora, obscurecendo o medo e seu objeto conhecido, e a ansiedade, quanto ao não-ser e a sua finitude, evidenciando as emoções e atitudes necessárias para o enfrentamento dos diversos monstros, inclusive os imaginários.

Em todos os dias, pessoas as mais diversas lutam continuamente com os seus medos, suas ansiedades e suas angústias, especialmente quanto à finitude. A convocação que cada ser se impõe, especialmente quanto a buscar posturas corajosas de autoafirmação frente às contínuas lutas cotidianas, é o que favorece a manifestação da coragem de ser. É justamente no momento em que a adrenalina inunda a corrente sanguínea que o autocontrole precisa se manifestar. Quando a emoção toma o lugar da consciência, os batimentos cardíacos e a pressão arterial precisam ser controlados mediante a respiração pausada e contínua. Um copo com água ajuda bastante. Em momentos de perigo iminente, a coragem brota em meio ao medo, à ansiedade e a angústia. Somente se manifesta com coragem quem tem medo, ansiedade e angústia. Somente tem coragem quem enfrenta o medo de arriscar. É nessa dialética contínua, entre medo e coragem, angústia e autoafirmação, que cada pessoa descobre, paulatinamente, as possibilidades de se buscar na dimensão do amor as possibilidades de afastamento do medo, da ansiedade e da angústia.

Como um gêiser que se manifesta do interior da terra, fazendo espargir o seu fluxo cheio de pressão, a coragem deve se manifestar num processo de autoafirmação à despeito das situações aflitivas e afrontosas que se manifestarem no cotidiano existencial. Quando o corpo for confrontado pelo infortúnio, a teimosia para se pensar diferente se torna uma condição amplamente necessária. Essa teimosia é a manifestação da coragem para se tomar a decisão certa nas situações limites que são experimentadas por cada ser.

À minha amiga, eu respondo: não sei se tenho coragem, mas a expresso continuamente, mesmo diante dos meus medos, minhas ansiedades e minhas angústias.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Conscientização, vida nova e os perigos do processo psicoterápico

 


O cotidiano e os seus consequentes eventos singulares são constantemente interpretados pelos seres humanos da forma como cada qual os interpreta. Em geral, a pessoa interpreta os seus acontecimentos mais pessoais a partir dos seus sentidos e das suas percepções. O que se revela no mundo não é captado da mesma maneira por todas as pessoas. Cada qual constrói a sua narrativa de forma a se sentir em segurança com ela.

No processo psicoterápico, as nuances perceptivas se entrechocam o tempo todo entre o psicoterapeuta e seu cliente, tocando singelamente os limites das dimensões da espontaneidade e da criatividade. Os entrechoques e toques visam um novo viver marcado pelo bem-estar de melhor ser, na dimensão do que Fritz Pearls batizou de awaraness – uma dimensão especial de contentamento com as possibilidades de viver melhor, uma consciência de si perceptiva; a tomada de consciência global no momento presente, a atenção ao conjunto da percepção pessoal, corporal e emocional, interior e ambiental. Obviamente, nestes intercruzamentos perceptivos, verdades absolutas e discussões sobre o certo e o errado não cabem. E todos os debates, conversas e revelações ocorrem na zona nebulosa dos sensos ativos em processo, no campo do segredo das palavras e dos sentimentos, na escuridão profunda das cavernas mais obscuras, frias e silenciosas. Nelas, às vezes, uma pequena fogueira é acesa para favorecer os sentidos e, ainda, se perceber vivo.

Por entender os interstícios da psiquê humana, o respeitado psicanalista Contardo Calligaris usou de uma metáfora para falar do trabalho do psicólogo ou psicanalista como o trabalho de uma puta. Confesso já ter meditado múltiplas vezes sobre esta metáfora e cheguei à conclusão que o psicanalista estava certo. Com essa metáfora, eu que já respeitava as putas, passei a respeita-las ainda mais. De fato, psicólogos, psicanalistas e putas acolhem pessoas em suas mais desditosas intimidades, na nudez expressa sem constrangimentos, sem estabelecerem juízos preconceituosos ou julgamentos indevidos. Nas situações de acolhimento há vazios e interpenetrações, vergonha e exposição, alívio e angústia, recuos e avanços, transferências e contratransferências, tanto positivas quanto negativas. Não se pode perder de vistas a ideia de que o risco em se estar exposto em uma zona paradisíaca onde tudo é permitido, sem repressões ou reprimendas, o ser em situação se permite experimentar o doce sabor da liberdade e do amor, quem sabe para conseguir ser quem se pretende ser, o que é extremamente legítimo. Todavia, para os que não conhecem ou não experimentaram o processo psicoterápico, deparar-se com alguém em estado de graça ou disposto a virar o mundo de ponta cabeça é assustador.

Na sabedoria milenar, há uma narrativa sobre um homem que vivia nos escombros e cemitérios, assombrando e assustando os concidadãos. Um dia, o mestre da Galileia atravessou todo um lago só pra encontrar este homem. Num processo que não podemos avaliar, aquele homem se refez e se organizou. A cidadela, ao invés de ser favorável ao homem e celebrar a sua conquista pessoal, o que lhe deu mais dignidade de vida, se manifestou contrária ao processo libertador e perseguiu a quem provocou a metamorfose. É curioso como as pessoas no entorno de alguém que se liberta das amarras aprisionantes rechaçam de forma perniciosa e, muitas vezes, grotesca, o liberto. Para muitos, a lagarta precisa continuar a ser lagarta por toda a vida. Se ousar se transformar em borboleta, precisa ter as asas cortadas, pois as pessoas encarceradas em suas verdades sem amor não suportam quando um sorriso se esboça como genuíno sorriso e não como maquiagem embotada.

Na condição de um psicoterapeuta, eu vivencio semanalmente as glórias e as agruras decorrentes de minha ação e palavras. Sempre provoco os meus clientes a saírem de suas vidas letárgicas a fim de abraçarem as novas possibilidades que se abrem em um novo dia. Sempre há um arco-íris colorindo o céu quando raios de sol rompem a tempestade que banhou a terra, as árvores e as pedras que choram sozinhas. Em minhas provocações, incito cada um a sair de suas ideias congeladas ou cristalizadas para oportunizarem uma outra experiência em si mesmas.

Outro dia, perguntaram-me se o que eu faço é perigoso? Eu respondi prontamente que sim. Aliás, é muito perigoso, uma espécie de aventura constante que singra o mar das emoções extenuando-se em encontros e desencontros, alegrias e choros, conquistas e perdas. Às vezes, pergunto-me se toda e qualquer provocação vale à pena. Não tenho uma resposta pronta e acabada. Acho se tratar de uma pergunta complexa. Quando sou questionado em minha prática e ação, recolho-me silenciosamente, pois somente o tempo poderá me defender. Sem pontuar as razões que me levaram a esta ou aquela ação psicodramática, espero o plausível tempo onde a minha historicidade e a minha ética será salvaguardada, nem que seja na brisa suave que roçará o meu rosto.

Enfim, não importa como as pessoas interpretam os fatos. Importa, sim, como eu me entendo enquanto eu-mesmo. Por enquanto, eu somente espero que haja o mínimo de respeito e, assim como eu me recolho em mim, que outros também o façam, afinal de contas, a “putaria” sempre estará em ordem se visa o awareness.

 


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Será que precisamos saber qual é o sentido da vida?

 


Qual é o sentido da vida? Será que existe algum sentido para a existência de cada um de nós?

O psicanalista Contardo Calligaris apresentou em uma de suas conferências uma resolução interessante e significativa sobre o que de fato vem a ser o sentido da vida. Para ele, em especial, o sentido da vida possui uma característica mais singularizada e refere-se justamente á própria “vida que cada um de nós leva”. Nesta perspectiva, o sentido não está no ponto partida ou no ponto de chegada, mas em todas as circunstâncias que emolduram o cotidiano de cada pessoa em sua subjetividade. Eu, particularmente, gosto muito da premissa de Calligaris, especialmente porque ela me aponta a ideia de que cada um de nós pode: criar, recriar, achar ou desenvolver o próprio sentido da vida na vida em cada um leva.

Quando penso e reflito sobre a vida e as percepções que ocorrem em meus sentidos, buscando compreender os aspectos biopsicossociais e, mesmo, a existência que eu tenho, minha mente viaja e imagina as estruturas que geraram a vida neste planeta. Segundo Marcelo Domingos Leal – Coordenador da área de ciências naturais do Parque de Ciências Newton Freire –, uma pesquisa mais específica, lançada em fevereiro de 2014, realizada pela Universidade Estadual Paulista – UNESP em colaboração com colegas da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR) e do Instituto de Astrobiologia da agência espacial norte-americana – NASA, trouxe dados mais efetivos sobre a origem da água e da vida no planeta. Além dos cometas batizados como planetessimais ou protoplanetas, a pesquisa indicou que “parte deste recurso pode ter vindo de outros objetos planetesimais (que deram origem aos planetas), como asteróides carbonáceos – o tipo mais abundante de asteróides no Sistema Solar –, por meio da interação com planetas e embriões planetários durante a formação do Sistema Solar. A hipótese foi confirmada nos últimos anos por observações de asteróides feitas a partir da Terra e de meteoritos (pedaços de asteróides) que entraram na atmosfera terrestre. Outras possíveis fontes de água da Terra, também propostas nos últimos anos, são grãos de silicato (poeira) da nebulosa solar (nuvem de gás e poeira do cosmos relacionada diretamente com a origem do Sistema Solar), que encapsularam moléculas de água durante o estágio inicial de formação do Sistema Solar”.

É curioso pensar como os entrechoques destes pequenos asteroides e cometas provocaram uma modificação no todo e a possibilidade de existência neste planeta com o surgimento de toda uma exuberância que se exibe diante dos sentidos. Foi nos encontros e nos desencontros dos quatro elementos: água, terra, ar e fogo, que o mundo conhecido por nós hoje se formou.

De alguma maneira, os nossos sentidos captam as possibilidades destes encontros e desencontros, pois eles ainda ocorrem profusamente em pequenos e múltiplos eventos naturais, inclusive em nossa própria corporeidade. Muitas das nossas potências residem no corpo e favorecem a dinamização do ser em movimentos efêmeros e nada substanciais. Como diria Heráclito: “A vida é uma faísca no meio de um incêndio”.  Em outras palavras, precisamos considerar a insignificância que é ser neste mundo. Apesar de nada sermos, existimos e resistimos numa constante luta biológica para nos entendermos em nossas demandas mais cruciais. E nesse constante conflito, cada um de nós possui um fragmento. Como se um grande espelho se estilhaçasse e cada pessoa angariasse para si um pequeno caco. Nossa imagem refletida no fragmento é imperfeita, mas, se conjugada a outros fragmentos, pode ganhar novo sentido.

Muitas vezes, na clínica psicoterápica, sou convidado a responder aos meus clientes sobre se, de fato, existe um sentido na vida. Eu até entendo a curiosidade, mas respondo categoricamente que não sei. Fico com o posicionamento de Calligaris e afirmo sempre que o que vale à pena, mesmo, são os afetos e os encantos que nos cercam, favorecendo a nossa identificação como pessoa mais efetiva e integrada com o bem-estar. Aliás, para mim, viver em sintonia e em harmonia com o cosmos e com a natureza, sem orgulho ou avareza, sem se considerar superior a qualquer coisa, é muito especial, pois somos partes constituídas de um todo muito maior do que cada um de nós. Há enzimas e substâncias em nós presentes em todos os demais seres vivos coexistentes na natureza. Há simbioses lindas entre os reinos animal, vegetal e mineral e os seres humanos fazem parte disso.

Em meu trajeto diário para o município de Coronel Pacheco – MG, eu me deparo com a exuberância de uma natureza linda. Há, por exemplo, uma árvore maravilhosa cuja formação se desponta à margem da estrada. Ela recebeu o nome de “Árvore da Babá”. Reza a lenda que uma antiga babá levava as crianças que ela cuidava para brincarem naquele espaço e no entorno da árvore, daí o nome, mas eu confesso que ela me remete sempre a um Baobá – uma árvore nativa do continente africano que possui grande importância para os povos africanos, sendo considerado símbolo de fertilidade, fartura e cura. Contemplo a árvore e silencio a minha alma, trazendo á memória toda a minha ancestralidade. Lembro-me, ao mesmo tempo, das singularidades poderosas e subversivas deste mundo, como as flores que desabrocham nos canteiros e as Marias-sem-vergonha que nascem nas brechas das calçadas, rompendo os concretos para beijarem o sol. Talvez, o sentido da vida esteja justamente ligado ao entendimento de que participamos de uma simbiose amorosa que convoca todos os seres a uma troca relacional e a subversões diversas. Sob esta significativa consciência, talvez nós tenhamos a possibilidade de não nos sentirmos aquém ou além de qualquer ser, mas em completude com o que nos cerceia, seguindo o fluxo da vida, como faíscas no meio de um incêndio, sendo pessoas mais legais, sem nos gastarmos em muitas firulas filosóficas e nos abastando da ideia de que pertencemos a um todo muito maior do que nós imaginamos.

Sobre o sentido da vida? Ah! Deixa pra lá! O que vale é curtir o que se nos apresenta no aqui e no agora, nessa eterna simbiose do todo com as partes e das partes com o todo...

 


terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Sobre o amor, a ponte e as cinzas

 


Eu tenho um apreço muito grande pelo filme: As Pontes de Madison (1995), dirigido por Clint Eastwood e estrelado por este e pela atriz Meryl Streep. O drama romântico gira em torno da mãe e dona de casa Francesca Johnson, casada há anos com seu esposo Richard.

Como o marido e os filhos viajam para uma competição de novilhos, ela fica sozinha em sua casa por quatro dias. Neste período, aparece no condado de Madison o fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid. Ele tem por função fotografar as famosas pontes cobertas da região e, por um acaso, pede informações justamente a Francesca. Já no primeiro encontro, a recatada dona de casa se sente entusiasmada com Robert. Um novo interesse foi despertado nela, o que se comprova em sua disponibilidade para levá-lo ao local a ser fotografado.

Após finalizar os closes, Robert leva Francesca de volta para a sua casa e é convidado a entrar para tomar um chá, o que desemboca em um momento de extrema afetuosidade e amistosa conversa. Ela, sempre atenta ao cuidado com os filhos e ao marido esquecera-se de si, e somente no momento de solitude vivenciado nos quatro dias, diante de um desconhecido, se percebe novamente viva para a paixão e o amor.

Todo este enredo é emoldurado pela descoberta das cartas e anotações de Francesca guardadas em um baú. O casal de filhos, já adultos, descobre os segredos de Francesca já falecida e, num misto de decepção, conservadorismo, apreço e sentimentos afetuosos, acolhe a narrativa segregada pela mãe.

O filme é carregado de uma riqueza de detalhes. Sua fotografia é bucólica, delicada e capaz de envolver a todos os que o assistem em um clima de romance singelo e profundo. O amor acontece sem nenhum tipo de preparação, de forma espontânea, mediante diversos cuidados que fogem o habitual e o cotidiano. Ele ocorre tal como a semente que brota no meio do mato ou o como um pássaro que nasce em um ninho sem que ninguém tenha o anunciado. Agrada-me e encanta-me esse tipo de perspectiva espontânea, pois ela decorre dos desejos, muitas vezes cristalizados ou congelados, presentes no mais humano que há em cada um nós, e que se quebram ou descongelam. Os que ainda insistem em acreditar no amor descobrem que na singeleza dos pequenos atos e gestos, reside uma fonte de vitalidade que acaba por exaltar o prazer inerente à humanidade. Somos seres desejantes e temos uma necessidade muito grande de vivenciar aquilo que é o prazer na vida. Ora, o prazer nos faz deleitar, nos encanta e nos aproxima de tudo aquilo que essencial para dinâmica da vida. Eu também tenho um apreço muito grande por aquilo que traz prazer e encanta o ser em sua maior probabilidade de vida.

Pensar a dinâmica dos afetos, do prazer o do amor se torna fundamental, embora o filme traga um conflito mais profundo: deixar-se ser levada pela paixão e pelo desconhecido ou permanecer na vida cotidiana por amor à família? O conflito é ilustrado pela seguinte cena: Francesca está no veículo ao lado do marido Richard, enquanto o fotógrafo que lhe provocou a renovação da alegria, do prazer e dos desejos se encontra no cruzamento em frente ao semáforo. Ela, ofegante, transtornada em sua dúvida, coloca a mão na maçaneta, mas não age. Ele, em sua caminhonete, coloca a corrente que ganhou dela no espelho retrovisor interno e espera pela decisão dela. Ela morde os lábios e cogita sobre sair do carro, modificando por completo a sua vida. Ele respeita a singularidade do momento dela, deixando que ela tome a decisão de forma livre. Tais conflitos nos levam a pensar sobre as possibilidades dos amores que podem acontecer e dos que não podem. Em ambos, se manifesta a mesma grandiosidade, marcada pela vontade, pelo prazer, pelo desejo e pelo afeto.

Nem todos os amores são possíveis. Os apaixonamentos ocorrem sem previsão, mas a cadência deles no cotidiano é outra história. Há muitos códigos sociais e morais que envolvem as pessoas em suas vidas comuns e cotidianas. A decisão sobre ir ou permanecer é complexa e depende do momento e das emoções envolvidas. A decisão se complexifica quando a questão de fundo envolve a dinâmica do amor em seus fragmentos. Há momentos em que só cabem as possibilidades de se deixar como está. Há amores impossíveis, infelizmente.

Ao escolher pela permanência, Francesca abre mão do possível amor de sua vida, eternizando o amor em sua memória como um instante de eternidade. Na carta lida pelos filhos, ela pede que as suas cinzas sejam jogadas na ponte fotografada por Robert, onde já se encontram as cinzas dele. Eles, já convencidos pela grandiosidade do amor que envolveu a mãe e o fotógrafo resolvem atender ao pedido da mãe. O amor, enfim, se concretiza nas cinzas.


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Cuidando da Saúde Mental - Janeiro Branco

 


Recentemente um cliente que eu muito prezo perguntou-me em uma das nossas sessões psicoterápicas: “Moisés, porventura você tem algum problema na vida”? Respeitosamente, soltei uma gostosa gargalhada e respondi que não, pois eu, na verdade era um extraterrestre ou um astronauta de mármore fixado no planeta Saturno, e, portanto, sem problemas existenciais.

Em que pese o tom jocoso da minha brincadeirinha, sequencialmente eu deixei claro ao meu cliente que, como qualquer pessoa no mundo, eu também tenho os meus problemas pessoais e comunitários.  Não é pelo fato de ser um psicólogo e versar sobre algumas nuances da mente humana e a consequente busca pelo bem estar que eu não esteja sujeito a situações complexas e problemas diversos, passíveis de atingir, diametralmente, a minha saúde mental.

Enquanto eu pensava sobre os altos e baixos que me acometem a vida, presentes em toda a dinâmica da vida humana, eu revisitei os alguns baixos que eu vivenciei na primeira semana de 2024. Pela minha habilidade socioemocional, eu acabei por vencer as situações diversas que mexeram com a dinâmica do meu cotidiano, entretanto eu queria que aqueles problemas passassem o mais rápido possível. Como toda e qualquer pessoa, queria um “remedinho” para dormir.

Eu sei que quando nós vivemos situações adversas, tendemos a buscar soluções rápidas e facilitadas. Das soluções mais buscadas pelas pessoas na atualidade, uma se refere à utilização dos psicofármacos disponíveis nas redes farmacêuticas. É interessante notar como que no decorrer destes últimos anos o número de farmácias e drogarias aumentou consideravelmente nos grandes centros, alarmando os diversos grupos sociais. A busca considerável de remédios em todos os níveis e em todos os graus revela que alguma coisa não está bem na sociedade. Acresce-se a isso o fato de que ninguém quer sofrer. Sentir a angústia ou ansiedade, embora amplamente naturais na experiência existencial, não é fácil para pessoa alguma, mas é uma realidade.

Eu entendo que todos nós precisamos acolher bem as nossas angústias e as nossas ansiedades. A melhor forma de encontrarmos saídas para os problemas que muitas vezes agravam a nossa saúde mental se dá por intermédio de um diálogo consigo, uma boa conversa com o “self”. Eu sinto que precisamos investir mais e mais no desenvolvimento de algumas novas – não tão novas – atitudes para a boa resolução de nossas demandas emocionais. Além do investimento na clínica psicoterápica, é essencial que cada um de nós desenvolva três nobres capacidades fundamentais: 1. A capacidade de se desenvolver ludicamente, se divertindo mais, mesmo com as tensões inerentes; 2. A capacidade de ressignificar os sentidos para ampliar a postura contemplativa; 3. A capacidade de harmonizar afetos amorosos, dignos de posicionamentos mais maduros e menos centrados em si-mesmo. Aliás, sobre esta última capacidade, é fundamental pensar que a maturidade nos livra dos pensamentos desconexos que insistem em visitar a nossa mente, fazendo com que monstros e fantasmas nos visitem. Todavia, se eles chegarem, torna-se vital aprender a acolhê-los. Não são necessários os receios. O que nos assombra ou assusta não precisa ser repelido, ao contrário, acolhido.

Neste mês de janeiro, por iniciativa do Instituto Janeiro Branco, ocorre uma série de atividades em diversas partes do mundo visando o estabelecimento de uma cultura de Saúde Mental que abarque toda a humanidade. Ora, sabemos de antemão que ao mesmo tempo em que possuímos a nossa subjetividade, vivemos em comunidade, respeitando as instituições. Dessa forma, pensar a saúde mental é pensar a sanidade das emoções e dos sentimentos como um problema público, pois todas as perspectivas biológicas, fisiológicas, afetivas, espirituais e sexuais fazem parte da integralidade humana e, portanto, com amplas ligações à saúde mental.

Enfim, a possibilidade de se discutir a saúde mental em janeiro nos abre a porta para nos atentarmos a todos os pormenores inerentes ao cuidado integral do ser humano pelo ser humano. Acho que mais do que se buscar soluções rápidas para os dilemas emocionais, vale à pena aquela conversa intensa com o eu, a fim de realmente percepcionar se o que é considerado dor, de fato é dor.

 


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O amor sempre em evidência…

 


É sempre um privilégio recomeçar um novo ciclo de vida e experimentar o poder de ser quem se quer ser, como se pode ser.

Nas múltiplas partes da existência, pessoas são conjugações de corpos que se enriquecem quando se amam. As exposições ao toque e as aberturas ao intenso calor emanados em cheiros favorecem os voos das borboletas livres, eternizadas em lindas pinturas rupestres.

Enquanto elas voam em vôos de ventos, pode-se gritar à lua fina para declarar a urgência que clona os olhos a fim de respirar as paixões que só as estrelas cadentes e ridentes conhecem. Na clonagem, provocar os encantamentos num abraço que envolve vidas e personas para, quem sabe, vivenciar uma manhã de núpcias num quarto de núpcias sem jamais ceder aos devaneios sem encantamentos.

Há uma rota que se abre no horizonte sem cerceamento de barbantes. O amor é laçado em seu estado bruto, selvagem  e surpreendente, tal como  o regime inebriante da dama-da-noite. De fato, felicidade só ocorre em momentos de descuido, quando o perfume e os ecos são soprados no interior da boca mordida.

No lugar chamado coração, é possível levar-se risos e emoções. Em seu interior, bem interior, horizontes se abrem para viver o que nunca antes foi vivido. Entregar-se ao inusitado é essencial para se experimentar o frenesi e o arrepio daquele tesão que não cabe no corpo, a ponta dos dedos percorrendo-o.

É preciso fundir o amor sem limites, mediante a língua que lambe o universo para que a alma seja tocada.

Ornar-se da poesia enquanto fôlego houver. Preparar a mesa da casa para aguardar o arauto do prazer, insistindo em harmonizar os sensos de forma tal que o que importa continue se perdendo e se achando, não necessariamente nessa ordem…

Estampa-se nas retinas aquela mulher do Apocalipse, vestida de sol com a lua a seus pés, uma coroa de 12 estrelas, grávida para dar a luz. Para os católicos é Maria, para os protestantes é a Igreja. Tanto faz, é imagem do Sagrado Feminino e por esta imagem, todas as mulheres são amadas e adoradas.

No amor ou na adoração, combina aquele transplante que comporta um coração maior capaz de acolher os fragmentos de qualquer amor e buscar sempre as novas formas que demonstram a imensidão das paixões que se sente, enquanto se conta as areias do mar. Se não se sabe ou se não se dá conta, importa  brincar com os corpos, experimentando ardentes sensações e sinceras emoções.

O amor pode até ser universal, mas não aprisiona individualidades. Na cosmoeticidade, universos desejantes de afetos, detalhes, contornos, peculiaridades se aplicam às voanças da vida para achar pouso em algum ninho aconchegante.

Mesmo alado, eternizar-se nas peles espraiando as essências que percorrem os corpos e beijam os poros.

E quando tudo estiver eriçado, soltar a fera na savana para a exaltação do cio, permitindo-se ver no espelho da alma o que é puro deleite.

Deleite de amor para construir o amor, para viver o amor, para fazer o amor acontecer em milhões de oportunidades que se expressam sem palavras.

Que a exposição, ainda que tacanha, não se furte a uma safadeza bestial. Tudo se extrapola no nada inusitado, salvaguarda dos momentos efêmeros daquela convivência íntima, quando todos os nossos monstros se reúnem num só corpo.

Deixar escorrer dos dedos as carícias ou o encontro das mãos entrelaçadas a fim de cantarolar uma canção e que alguém que me importo me acompanhe. Carinhos e malícias se revelam sem ordem.

Hora de tomar uma cervejinha e conversar bobagens.

O amor acontece…

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Repensando o consumo, dizendo não ao consumismo...

 


Há algum tempo eu tenho refletido sobre as questões inerentes ao consumo e ao consumismo presentes em nossa dinâmica de vida social. De fato, as mídias em geral se esmeram continuamente na tarefa e elaboração de bons reclames, cujos intuitos são o de despertar, ainda mais, o desejo das pessoas para comprar objetos desnecessários ou supérfluos.

De antemão, é fundamental entendermos que o consumo tem a ver com a satisfação de nossas mais básicas necessidades, Como tal, em uma sociedade capitalista, é entendido e aceito de uma maneira convencional. Por outro lado, o consumismo é uma prática alienada cujas ações desenfreadas fazem com que uma pessoa adquira um determinado bem ou produto sem a mínima necessidade. Segundo o site Educa Mais Brasil, “O consumismo é um fenômeno social estimulado pela sociedade capitalista devido à sua capacidade de movimentar a estrutura econômica e, desse modo, garantir o funcionamento das engrenagens de consumo. Contudo, ele também constitui um aspecto característico de subjetividades fragilizadas. E, muitas vezes, está associado a transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão. Conceitualmente, o consumismo pode ser definido pela compulsividade em comprar. Desse modo, é considerado consumista o indivíduo que adquire com frequência produtos para os quais não possui necessidade. Esse fenômeno emerge com a sociedade do consumo que é estruturada no período pós Revolução Industrial e é retroalimentado pelas estratégias empregadas pelo capitalismo”. Curiosamente, o consumismo já ganhou uma classificação como doença pela OMS. Trata-se da oneomania, a doença do consumo desenfreado. Segundo dados da própria organização, cerca de 8% da população mundial sofre com este transtorno. Seus principais sintomas são: pensar em compras o tempo todo, sentindo angústia a respeito; estourar o orçamento frequentemente e gastar mais do que ganha, principalmente com itens desnecessários; gastar demais a ponto de prejudicar relacionamentos e carreira; esconder compras de pessoas próximas e mentir sobre os valores gastos; viver endividado sem a menor perspectiva de sair do vermelho; repetir continuamente o ciclo “gatilho-descontrole-ressaca-recaída”.

Uma simples olhadela no interior de nossas casas nos fará enxergar o número excessivo de quinquilharias que estão em nosso entorno, mas não servem para absolutamente coisa alguma. O fato é que em todos os dias, somos bombardeados com uma série de cores, sons e formas imagéticas, cuja finalidade é a de fazer com que cada um se sinta menos gente por não possuir aquilo que foi midiatizado. Um minuto de cada propaganda sobre determinado produto diz que nós não somos porque não temos, não possuímos.

É antiga essa discussão quanto ao ser e ao ter. Ela é complexa e envolve cada pessoa em sua respectiva zona de sentido, convocando-a a observar um novo estilo de vida ou uma nova orientação existencial. Sobre este assunto, o psicanalista Erich Fromm expressou: “Por ser ou ter não me refiro a certas qualidades distintas de um sujeito em declarações como: ‘eu tenho um carro’, ‘eu sou branco’ ou ‘eu sou feliz’. Refiro-me a dois modos fundamentais de existência, a duas diferentes espécies de orientação para com o eu e o mundo, a duas diferentes espécies de estrutura de caráter cujas respectivas predominâncias determinam a totalidade do pensar, sentir e agir de uma pessoa”. (Ser e ter, 1987, p. 43).

O universo humano pode se organizar, ou não, por intermédio dessas duas orientações, favorecendo ao ser que muitas vezes gasta o que não te, a não sucumbir-se aos mandos e desmandos da economia de mercado. Seria muito pertinente que todos os cidadãos e cidadãs pudessem repensar as suas respectivas listas de consumo a fim de consumirem, tão somente, aquilo que é vital para a dinâmica existencial. A pergunta basilar que pode e deve nos acompanhar é: “Preciso, de fato, disto que estou comprando”? Ora, comprar com certa razoabilidade é fundamental. Embora as empresas estejam agregando valores aos seus produtos, não se pode sucumbir às emoções ou mesmo à ideia de que aquilo adquirido impulsivamente vai proporcionar a felicidade.

Em geral, as pessoas possuem um lugar para morar, mas querem um lugar maior e melhor; possuem um carro bom, mas querem um carro zero km; podem viajar para uma excelente praia, mas querem ir para Cancun; o guarda-roupa se encontra cheio de roupas e sapatos, muitos deles sem uso, mas querem comprar mais e mais, consumindo todos os espaços.

O certo é que em qualquer uma dessas circunstâncias e situações, o desejo realizado não sucumbirá, pois abrirá portas para outro desejo. É um eixo sem fim. Uma coisa é certa: pessoas compram para se sentirem melhor, mas o que garante o bem-estar não é a aquisição disso ou daquilo, mas o encontro com aquele estado de espírito compatível com o equilíbrio da vida, especialmente o que favorece o bom entendimento com pessoas próximas ou distantes.

Ao final das contas, o que vale mesmo é o consumo de coisas e objetos que nos sejam realmente importantes, dentro dos respectivos orçamentos. Planejar o que se precisa é fundamental. Uma dica pertinente é focar no que se quer e precisa, cotejar o produto por algum tempo até que haja a possibilidade da aquisição definitiva ou não.

Assim, vale à pena se ornar do básico do básico para sobreviver e se expressar socialmente. Acumular coisas não traz sentido algum, porque, em geral, sempre usamos as mesmas coisas no habitual. Agora, de boa, tenha as suas roupas bem legais, mas nada além daquilo que é necessário.

No fundo, como diria Milton Santos: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão”. Optemos, conscientemente, pela nossa cidadania.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Fugindo dos maniqueísmos, desistindo do que não vale à pena...

 


Por mais que todos nós lutemos contra a estrutura de pensamento maniqueísta que divide o mundo entre o bem e o mal, tornando a multiplicidade de argumentações extremamente empobrecidas, sempre nos debateremos com essa tônica em discussões e falácias no cotidiano. Invariavelmente, buscamos separar ovelhas de bodes e assim, quem sabe, estabelecermos diferenças em relação a si e ao outro.

Entretanto, agir dessa forma somente provoca mais cisões e separações. De alguma forma, torna-se fundamental compreender que não há uma luta entre o bem e o mal, mas sim, uma luta entre princípios, pois como bem sabemos, pessoas pensam diferente de outras pessoas e, igualmente, pensam diferente em relação a quase todos os temas inerentes à vida. Nesta premissa reside a riqueza da diversidade.

Numa modernidade como a nossa, quem sabe líquida, para usar aqui a expressão de Zygmunt Bauman, fechamentos de ideias absolutas não cabem. Embora seja evidente o fato de que muitos agrupamentos sociais procurem determinar zelosamente seus limites, o campo das ágoras, a arena destinada à discussão ou o diálogo entre os diferentes, continua a ser o terreno fértil onde as possibilidades mais criativas em prol do bem-estar comum entre as gentes pode se afirmar. Em minha percepção, as boas resoluções relacionais podem favorecer uma melhor harmonização dos sentimentos, quando possível.

Ora, todos somos sínteses de contradições. Pessoa alguma pode ab-rogar para si o direito de ser pura ou isenta de paradoxos. Pessoa assim não existe e todos nós sabemos disso. Então, como sínteses de contradições, cada ser pendula entre as paixões e as razões e, muitas vezes, se perdem em ambas. Por isso, não concordo com as argumentações que polarizam as pessoas, quando é mais sensato polarizar as ideias. Pessoas não precisam ser julgadas, mas as suas ideias sim. Claro que as ideias e as posturas têm a ver com as pessoas. Entretanto, existem momentos em que as paixões falam mais alto e as pessoas passam a se ferir com palavras e com comportamentos. Quando um conflito chega neste estágio, não há vencedores. Todos perdem, infelizmente.

Há momentos em que o golpe de sabedoria requer o aquietar do coração e a contínua luta contra as hostes das ideias equivocadas, sem a perda da ternura pelas pessoas. Eu ainda acredito que por intermédio dos atos cuidadosos para com uma pessoa, é possível fazer a diferença na vida, mesmo quando necessário se recolher à caverna com o intuito buscar a sanidade dos sentimentos. Sempre é preciso aliviar as tensões e estender os braços em direção ao outro, mesmo o outro que pensa de forma diametralmente oposta.

Na época da ditadura militar, poucos ingentes determinavam como deveria ser a vida da maioria. É horrível ter a vida determinada por tartarugas que estão em cima das árvores. Eu, particularmente, não tenho nenhum problema em cumprir determinações, desde que elas sejam promulgadas por quem se constitui legal e legitimamente. Doutra forma, acesso o meu modo “desobediência civil” e ignoro os processos e as tartarugas.

Com essas premissas em mente, eu resolvi aplicar em minha vida dinâmica algumas desistências pertinentes que me oportunizam viver mais consciente de minhas próprias balizas pessoais. Seguem-se:


1. Desisto de querer controlar tudo em minha vida ou na vida de qualquer pessoa, a fim de respeitar, mais detidamente, os movimentos e as experiências, os ciclos dos ventos e das águas sem apressar qualquer deles;

2. Desisto de viver a minha vida na linha da mediocridade para ser mais ativo nos relacionamentos com as pessoas abertas aos diálogos e bons debates;

3. Desisto de achar que pessoas e problemas conspiram contra o que sou ou deixo de ser, o que faço ou deixo de fazer. O fundamental é sempre ligar o famoso botão do “foda-se”;

4. Desisto de viver uma vida importunada com o jeito de ser do outro, para me gastar com as disputas que realmente importam no tecido social;

5. Desisto de jogar a culpa no outro, para assumir o fato de que a responsabilidade pela minha vida é tão somente minha;

6. Desisto de cargos, posições sociais ou mesmo de me afirmar em um pretenso status quo, para assumir a minha postura, pois o mais importante é viver como dá, como posso. Enquanto aguentar, vou mantendo o meu carro velho em ordem;

7. Desisto de criticar as pessoas para estabelecer uma autocrítica;

8. Desisto de abraçar meu egocentrismo, para ser mais ego-transcendental e, assim, viver de forma mais espontânea a minha jornada existencial;

9. Desisto de viver o amor na superfície, para aprofundá-lo em suas dinâmicas com a finalidade de experimentá-lo como genuíno néctar em meu coração;

10. Desisto, enfim, de desistir de viver a minha vida sem o sabor da amargura, para destilar em meu peito a alegria e a autenticidade de ser quem eu sou.

Assim, diante das lutas estruturais dos famigerados pensamentos empobrecidos, anteriormente denunciados, afirmo uma vez mais a fulcral consciência para se fugir dos contrassensos com vias a investir em relações leves e divertidas. Nada de tensões bobas e infundadas. O respeito à diversidade é fundamental, mas viver de boa, sem pesos e compromissos bestas é ainda mais. Importa desistir do que não vale à pena.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Poesia e existência...

 


A flora da água do lago é encrespada pelo mavioso vento de um dia quente de verão. Peixinhos que não podem ser vistos nadam e lutam pelas suas parcas sobrevivências, enquanto saboreiam musgos e outros pequenos seres das profundidades. Tudo parece calmo, como se o confronto da água, da terra, do fogo e do ar, tampouco os conflitos entre os seres miúdos, nunca tivessem existido.

Nas margens do lago, a moldura do mato selvagem sem domador ou jardineiro que dê jeito. Libélulas pairam e disparam sem que os olhos possam acompanhar os seus movimentos enquanto pequenas abelhinhas colhem mililitros de néctar para abastecerem seus celeiros de cera.

As árvores robustas próximas à margem são entrecortadas pelos raios do sol brilhante, enquanto as maritacas, menos agitadas à tarde, aguardam o novo frescor de uma nova manhã. Daquela casa, exala-se um som romântico, uma música francesa, uma que diz que não há espaço para o arrependimento de coisa alguma – Je ne regrette rien.

Os olhos entreabertos encontram o brilho interior onde o mundo possui tonalidades pulsantes e rubras. O coração bate enquanto o pulso sinaliza a vivacidade da corrente sanguínea. Nele uma frase que ecoa diuturnamente: Hic et Nunc – Aqui e Agora. Nas múltiplas vivências de minha persona em metamorfoses, o cérebro brilha e os neurotransmissores se agitam em frenesi. Tudo está iluminado dentro da caixola das percepções, lembrando a Via Láctea, lugar maior da minha habitação. Lugar maior que nem imagino como é. Moro no desconhecido e me imagino como um alguém.

Ao alcance das mãos, toda a beleza dos seres que se querem bem, do amor que acontece em atos genuínos e afetos cristalinos. Não há risos, mas comoção intensa. Os olhos banhados se tornam mais brilhantes e as íris douram. De perto e de longe, gotas autênticas de mel, mas a colmeia das abelhas Jataí fica lá no alto do morro, onde o mato é denso. O néctar foi colhido e acolhido vivamente. O castelo de cera está garantido.

Enquanto percorro a trilha aberta, em meio ao capim gordura e as árvores crescentes com caules ainda possíveis de serem envergados, sou visitado irremediavelmente pelos mosquitos que não vejo, mas se refestelam em minhas pernas, em minha pele morena. Uma Joaninha, daquelas vermelhinhas, gorduchinhas e brilhantes, pousa em minha mão direita, encantando a minha retina. Minhas percepções se alteram ainda mais quando quedo o meu olhar para a revoada de pica-paus amarelos. O encanto redobra e revisito as minhas memórias mais pueris, de quando eu assistia um determinado seriado infantil.

A flora do lago agora espelha o céu. Confundo os dois mundos e me perco em minha eternidade. Ela dura quase um segundo, assim como a minha felicidade. Quero que este bem-estar permaneça. Detestaria dar lugar a qualquer tipo de angústia ou ansiedade que não sejam as existenciais. Sei que um dia vou fenecer, mas, por enquanto, quero abraçar o mundo que me abraça para afetar meus afetos e desafetos com minha sensibilidade feminina.

E viva a existência… 

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

  Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do na...