Uma
amiga a quem muito prezo mandou-me um recado tecendo considerações sobre um
livro de crônicas que tive a oportunidade de publicar há alguns anos. Este
recado carinhoso gerou-me sentimentos múltiplos e a vontade de dialogar com as
suas percepções. Basicamente, ela me falou a respeito de coragem e de liberdade.
Ela sentiu, no contexto das emanações de minha alma subversiva que eu estava
tecendo críticas em relação às injustiças que tentavam amordaçar a vida humana,
favorecendo a ampliação do espaço destinado às estruturas de poder, e que isso
era muito corajoso da minha parte.
Eu
preciso confessar que eu não sou corajoso. Aliás, minha vida é marcada pelo
medo, pela ansiedade e pela angústia. Coragem substantiva não me define.
Coragem substantiva não existe em minhas palavras, em minhas ações, tampouco em
meu velho e carcomido dicionário de bolso – coisa antiga. Por uma causa que não
sei mensurar, a coragem que eu não tenho surge em minha vida como uma erupção
vulcânica em dados e espasmódicos momentos cotidianos. De repente, me vejo
completamente tomado de uma ira sem precedentes e passo, então, a falar, agir e
escrever coisas que não havia pensado ou medido. Assim, compreendi que pessoa
alguma é corajosa fortuitamente, mas se enche de coragem ante a uma situação
inusitada que lhe fere a alma ou a vida.
Ao
mesmo tempo, passei a pensar no intrigante livro A Coragem de Ser,
escrito pelo filósofo e teólogo Paul Tillich. Neste livro, o autor reúne os
conceitos ético e ontológico alusivos à coragem e à angústia, afirmando que “a
coragem de ser é o ato ético no qual o homem afirma seu próprio ser a despeito
daqueles elementos de sua existência que entram em conflito com a sua
autoafirmação essencial”. Nessa perspectiva, a coragem é uma atitude e uma potência
do ser-em-si que recebe a si-próprio de volta, num processo de contínua
autoafirmação frente ao não-ser. Não é fácil encarar os desafios mais diversos que
se apresentam no campo da existência e, ainda assim, buscar a autoafirmação. Embora
haja muitos medos envolvidos, como, por exemplo, o medo da perda, o medo da frustração,
o medo da rejeição, o medo da morte, entre outros, dando a ideia de que coragem
se relacione ao poder da mente para vencer o medo, para Tillich a coragem
existe para refrear a ansiedade e angústia. Em suas palavras: “Coragem é
usualmente descrita como o poder da mente para vencer o medo. O significado do
medo pareceu por demais óbvio para merecer inquérito. Porém, nas últimas
décadas, a psicologia profunda em cooperação com a filosofia existencialista,
tem conduzido a uma decisiva distinção entre medo e ansiedade e a definições
mais precisas de cada um destes conceitos”. A coragem aparece como uma postura
e uma atitude concreta no aqui e no agora, obscurecendo o medo e
seu objeto conhecido, e a ansiedade, quanto ao não-ser e a sua finitude,
evidenciando as emoções e atitudes necessárias para o enfrentamento dos
diversos monstros, inclusive os imaginários.
Em
todos os dias, pessoas as mais diversas lutam continuamente com os seus medos,
suas ansiedades e suas angústias, especialmente quanto à finitude. A convocação
que cada ser se impõe, especialmente quanto a buscar posturas corajosas de
autoafirmação frente às contínuas lutas cotidianas, é o que favorece a
manifestação da coragem de ser. É justamente no momento em que a adrenalina
inunda a corrente sanguínea que o autocontrole precisa se manifestar. Quando a
emoção toma o lugar da consciência, os batimentos cardíacos e a pressão arterial
precisam ser controlados mediante a respiração pausada e contínua. Um copo com
água ajuda bastante. Em momentos de perigo iminente, a coragem brota em meio ao
medo, à ansiedade e a angústia. Somente se manifesta com coragem quem tem medo,
ansiedade e angústia. Somente tem coragem quem enfrenta o medo de arriscar. É nessa
dialética contínua, entre medo e coragem, angústia e autoafirmação, que cada
pessoa descobre, paulatinamente, as possibilidades de se buscar na dimensão do
amor as possibilidades de afastamento do medo, da ansiedade e da angústia.
Como
um gêiser que se manifesta do interior da terra, fazendo espargir o seu fluxo
cheio de pressão, a coragem deve se manifestar num processo de autoafirmação à despeito
das situações aflitivas e afrontosas que se manifestarem no cotidiano
existencial. Quando o corpo for confrontado pelo infortúnio, a teimosia para se
pensar diferente se torna uma condição amplamente necessária. Essa teimosia é a
manifestação da coragem para se tomar a decisão certa nas situações limites que
são experimentadas por cada ser.
À
minha amiga, eu respondo: não sei se tenho coragem, mas a expresso
continuamente, mesmo diante dos meus medos, minhas ansiedades e minhas angústias.
Um comentário:
Resumindo...acho que tens muita coragem!
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