Eu tenho
um apreço muito grande pelo filme: As Pontes de Madison (1995),
dirigido por Clint Eastwood e estrelado por este e pela atriz Meryl Streep. O
drama romântico gira em torno da mãe e dona de casa Francesca Johnson,
casada há anos com seu esposo Richard.
Como o
marido e os filhos viajam para uma competição de novilhos, ela fica sozinha em
sua casa por quatro dias. Neste período, aparece no condado de Madison o
fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid. Ele tem por função
fotografar as famosas pontes cobertas da região e, por um acaso, pede
informações justamente a Francesca. Já no primeiro encontro, a recatada dona de
casa se sente entusiasmada com Robert. Um novo interesse foi despertado nela, o
que se comprova em sua disponibilidade para levá-lo ao local a ser fotografado.
Após
finalizar os closes, Robert leva Francesca de volta para a sua casa e é
convidado a entrar para tomar um chá, o que desemboca em um momento de extrema
afetuosidade e amistosa conversa. Ela, sempre atenta ao cuidado com os filhos e
ao marido esquecera-se de si, e somente no momento de solitude vivenciado nos
quatro dias, diante de um desconhecido, se percebe novamente viva para a paixão
e o amor.
Todo
este enredo é emoldurado pela descoberta das cartas e anotações de Francesca
guardadas em um baú. O casal de filhos, já adultos, descobre os segredos de
Francesca já falecida e, num misto de decepção, conservadorismo, apreço e
sentimentos afetuosos, acolhe a narrativa segregada pela mãe.
O filme
é carregado de uma riqueza de detalhes. Sua fotografia é bucólica, delicada e
capaz de envolver a todos os que o assistem em um clima de romance singelo e
profundo. O amor acontece sem nenhum tipo de preparação, de forma espontânea,
mediante diversos cuidados que fogem o habitual e o cotidiano. Ele ocorre
tal como a semente que brota no meio do mato ou o como um pássaro que nasce em
um ninho sem que ninguém tenha o anunciado. Agrada-me e encanta-me esse tipo de
perspectiva espontânea, pois ela decorre dos desejos, muitas vezes
cristalizados ou congelados, presentes no mais humano que há em cada um nós, e
que se quebram ou descongelam. Os que ainda insistem em acreditar no amor
descobrem que na singeleza dos pequenos atos e gestos, reside uma fonte de
vitalidade que acaba por exaltar o prazer inerente à humanidade. Somos seres
desejantes e temos uma necessidade muito grande de vivenciar aquilo que é o
prazer na vida. Ora, o prazer nos faz deleitar, nos encanta e nos aproxima de
tudo aquilo que essencial para dinâmica da vida. Eu também tenho um apreço
muito grande por aquilo que traz prazer e encanta o ser em sua maior
probabilidade de vida.
Pensar a
dinâmica dos afetos, do prazer o do amor se torna fundamental, embora o filme
traga um conflito mais profundo: deixar-se ser levada pela paixão e pelo
desconhecido ou permanecer na vida cotidiana por amor à família? O conflito é
ilustrado pela seguinte cena: Francesca está no veículo ao lado do marido
Richard, enquanto o fotógrafo que lhe provocou a renovação da alegria, do
prazer e dos desejos se encontra no cruzamento em frente ao semáforo. Ela,
ofegante, transtornada em sua dúvida, coloca a mão na maçaneta, mas não age.
Ele, em sua caminhonete, coloca a corrente que ganhou dela no espelho
retrovisor interno e espera pela decisão dela. Ela morde os lábios e cogita
sobre sair do carro, modificando por completo a sua vida. Ele respeita a
singularidade do momento dela, deixando que ela tome a decisão de forma livre.
Tais conflitos nos levam a pensar sobre as possibilidades dos amores que podem
acontecer e dos que não podem. Em ambos, se manifesta a mesma grandiosidade,
marcada pela vontade, pelo prazer, pelo desejo e pelo afeto.
Nem
todos os amores são possíveis. Os apaixonamentos ocorrem sem previsão, mas a
cadência deles no cotidiano é outra história. Há muitos códigos sociais e
morais que envolvem as pessoas em suas vidas comuns e cotidianas. A decisão
sobre ir ou permanecer é complexa e depende do momento e das emoções
envolvidas. A decisão se complexifica quando a questão de fundo envolve a
dinâmica do amor em seus fragmentos. Há momentos em que só cabem as
possibilidades de se deixar como está. Há amores impossíveis, infelizmente.
Ao
escolher pela permanência, Francesca abre mão do possível amor de sua vida,
eternizando o amor em sua memória como um instante de eternidade. Na carta lida
pelos filhos, ela pede que as suas cinzas sejam jogadas na ponte fotografada
por Robert, onde já se encontram as cinzas dele. Eles, já convencidos pela
grandiosidade do amor que envolveu a mãe e o fotógrafo resolvem atender ao
pedido da mãe. O amor, enfim, se concretiza nas cinzas.

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