terça-feira, 15 de agosto de 2023

Dos paradoxos da liberdade...

 


Pela manhã, o sol aqueceu o meu corpo. Senti o seu banho iluminado tocar a minha pele morena e me abastecer de vitamina D. Como é curioso saber que a luz da nossa estrela mais próxima alimenta e dá vida.

E eu precisava desse banho. Depois de um porre – daqueles que fazem você se esquecer de quem você é o que você faz – e de um ataque de sonambulismo –, acordar em intensidades dando bom dia ao dia é simplesmente maravilhoso. O coração batia em toadas descompassadas nutrindo a alma de uma alegria poética ao mesmo tempo em que mariposas faziam revoadas na altura do estômago. É que a vida sempre nos apresenta as mais soturnas surpresas, especialmente quando os sentimentos são intensos e marcados pela historicidade e pelos carinhos que não cessam de escorrer dos olhos brilhantes daquele menino que soltava pipa nos tempos de férias, junto a outros moleques. Eu gostava mesmo de fazer voar o meu “jelequinho”. Fazia diversos deles e me divertia, tecendo pequenas rabiolas com papel de pão. Sim, os pães comprados nas mercearias eram embrulhados com um papel cinza, envolto por um barbante de algodão. Aqueles papéis faziam a alegria da criançada.

Envolvido pelo momento e pelas memórias do momento, saí do sol e voltei para o sofá onde me permiti a explosão de diversas inquietações e múltiplos pensamentos.

Diante de mim, dois quadros pintados pela minha filha, que é artista plástica, dialogaram com as minhas interioridades. O menor deles é uma pintura em preto e branco onde um ser humano se sente acossado em suas dúvidas e questões, enquanto se vê rodeado de flores e sombras, não necessariamente nesta ordem. Sua face revela a contínua inquietação dos seres que sempre se encontram em processos de reelaboração da existência. Lembra-me um casmurro em seu processo de enclausuramento cinza. Seus olhos semicerrados anseiam pelos mundos não imaginados, presentes em algum estado onírico surrealista. O ser não toca o chão, tampouco o céu e pende a cabeça para a esquerda, onde há um clarão e as flores parecem querer sorrir, mesmo no breu em que se encontram. Por sua vez, o quadro maior, comprido por sinal, revela um movimento. Trata-se de um ser em transição. Desde o primeiro momento em que vi as primeiras pinceladas deste quadro, disse a ela que eu o compraria e que ele seria meu. Ela indagou-me de que estava preparando aquele quadro para outra pessoa e que não queria que ele ficasse ali em casa. Eu a questionei dizendo que ela estava pintado parte significativa do meu próprio eu. O quadro se compõe de três cenas separadas e correlatas. À minha direita, pessoas indeterminadas com suas mãos e garras tentam aprisionar o ser que busca a sua libertação. O ser tem as pernas ainda presas pelas mãos e há um teor opressivo em tons e semitons na cor verde-musgo. O ser tem as suas mãos em movimento de fuga. A angústia em seu rosto denota a sua insana vontade de sair de uma realidade para se apossar de outra. Ele almeja a sua liberdade e luta consideravelmente por ela. A sua mão direita é maior que a sua própria cabeça. Sua sana é pela busca do novo. Todo o seu corpo se acentua na segunda parte do quadro, a central, onde se revela um céu com as suas nuvens e uma ambientação de paz. É a invasão de um estado onírico eivado de possibilidades representadas num voo sempiterno e sem limites. O ser, agora alado, não possui asas. Mas se desloca entre o gases da atmosfera. Na terceira parte, revelam-se quatro pessoas sem sexo, sem gênero, que dançam nuas num movimento “pericorético”. Não há entre elas qualquer que seja mais relevante ou importante. Todas revelam a liberdade em tonalidades quentes, vermelhas e alaranjadas, se opondo às mãos opressoras enquadradas nas tonalidades verde-musgo, numa veemente oposição ao ambiente opressor.

Enquanto os meus pensamentos se refaziam e de desfaziam em movimentos de sístoles e diástoles sentimentais, eu mergulhava em minhas próprias imagens mentais para me referendar de mim mesmo, visando minha afirmação identitária. Em minha memória eram fugidios os flash’s do que ocorrera na madrugada anterior, somente a certeza de que continua vivo o meu clamor pela minha liberdade de sair de tudo aquilo que me oprime para viver em movimentos a minha dança nua entre pessoas de bem.

Mais do que um maniqueísmo dualista entre bem e mal, a experiência de ser ou querer ser a melhor versão de mim mesmo continua a ser a bandeira a ser desfraldada na minha mente solidamente solitária. Nunca almejei ser um referencial para qualquer pessoa, tampouco um exemplo de vida. Sou, como sempre afirmo, uma síntese de contradições e me assumo assim de peito nu e cabelo ao vento, ao melhor estilo do Valença. Continuo as minhas transições e saboreio alguma espécie de contentamento no momento em que me é possível colorir a folha em branco.

Meu corpo continua aquecido e acolhido pelo sol. Eu sorrio, pois me resta uma porção de alegria, inspirada em Pessoa: “tudo vale à pena se a alma não é pequena”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Mundos fecundos e profundos

 


 

Descortinam-se mundos fecundos... horizontes abertos, profundos...

E neles, luzeiros sem contas contam das suas vivências, das suas andanças num lapso de segundo que se estende pela eternidade. Progenitores dão luz aos seus filhos, e cada qual, mediante a sua própria energia vital, segue a sua lida, iluminando o seu próprio percurso e os percursos alheios desfraldando diversos devaneios.

Do mistério profundo que é viver, inaugura-se a intensa possibilidade de criar e recriar a ciranda das luzes, mais conhecida como relacionamento. Todavia, quem ousaria afirmar a frivolidade dos relacionamentos? Em todos os tempos, relações se configuram afetando o oposto, especialmente na aglutinação das memórias que celebram as iluminações que ocorrem nos rostos daqueles que compõem o mundo. Em todas as faces, eivadas de suas respectivas quantidades de melanina na pele, os risos não cabem em si, tamanhas as cores rubis em frenesi.

É bom quando se depara com as chamas pueris das crianças cheias de vigor correndo de um lado para o outro, dependurando-se em balanços e gangorras nos parquinhos envelhecidos das praças que silenciam memórias.

Manifesta-se o crepúsculo e as traquinagens de revelam com gosto de caramelo. Hora de tirar a roupa suja e tomar aquele banho com gosto de carinho e sabonete. Que venha a noite de cores sombrias e a aurora com suas cores cheias de aventuras escolares, iluminadas pelas amizades nas brincadeiras de roda e pelos livros desenhados com letras palito.

Nos mundos fecundos que desde a infância são gestados, é preciso fortalecer os elos sem roer a corda, passando pelas portas e portais onde se pode experimentar os primeiros beijos e os diversos afetos roubados nos lapsos de segundos, quem sabe nos estalinhos que espocam nas festas adolescentes. Mas nem sempre, beijinhos acontecem. Às vezes, na ausência das vanguardas, o tempo e o espaço acolhem e abraçam os choros e os lamentos, os risos bem concisos e, talvez, alguns amores dissabores.

Todavia, nada como um dia após o outro. É lindo quando um broto de amora lambuza todo o corpo de quem namora, quando quem namora tem o corpo afetado pelo mel inerente aos humanos, cada vez mais humanos.

Em meio à luz acesa de afetos sem rudeza, o encontro inusitado pode acontecer na tela iluminada de um antigo celular. No início, pouca luz, depois gostosinho amor que seduz. Há momentos em que pequenos momentos se transformam num luar espraiado em um divã.

No tempo real, concreto e singrado pelo senso surreal dos olhares perdidos em uma piscina imaginária, nada mais resta ao que se refestela, a não ser a satisfação. O doce escorre no cheiro de sangue que é acolhido pelo cogumelo brilhante.

Os caminhos continuamente se abrem, cada um com seu ancinho, a terra a arar. O jardim ora plantado, tem que ser iluminado e capaz de aninhar o amor em seus múltiplos sentidos, olhares consentidos e a luz em seu clarão de luzes quentes.   

terça-feira, 25 de julho de 2023

Por uma boa dosagem de loucura

 


Um pensamento da psiquiatra alagoana Nise da Silveira ecoou em minha mente, provocando-me e convocando-me a refletir sobre a subjetividade de cada ser e o constante desafio de não se curar além da conta. Há sempre uma boa dose de loucura em cada um de nós e ela precisa ser continuamente preservada. Nas palavras do poeta Raulzito: Somos metamorfoses ambulantes e malucos beleza. Mais do que isso, é preciso ter a consciência ou a inconsciência, tanto faz, de que ser louco é ser feliz e não se preocupar com o que os outros pensam ou dizem.

Em outras palavras, podemos refletir que tudo o que nos constitui é emprestado da natureza que nos cerca: o corpo em que habitamos e sua base material, contém 30% de terra e 70% de água; o fogo que eletrifica os nossos órgãos internos e mantém, por exemplo, o coração batendo ativamente e, enfim; o ar que num contínuo ir e vir nos impulsiona energeticamente para as diversas ações que efetuamos. Então, o que de fato pode ser considerado nosso ou meu? Que posse nós temos nessa nossa existência? Ora, somos seres totalmente moldados pela natureza e, também, os únicos que sabem dos processos que são iniciados, que se constroem e se finalizam nos múltiplos ciclos do rio da vida. Somos os únicos seres capazes de reconhecer a finitude, tendo a certeza da iminente morte que nos assombra e nos contorce. Talvez, por esta razão, tentamos disfarçá-la continuamente, criando projetos e inventando ideias diversas.

As ideias bem estabelecidas quanto a se plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, ecos da poesia do poeta cubano José Martí, são tentativas alusivas a este disfarce, além de uma maneira adequada de deixarmos os nossos rastros por aí, uma mentirinha boba que nos permitirá acreditar na ideia de eternidade, porque sabemos que não somos eternos. Deixamos rastros para dizermos que nossa vã existência não foi de toda em vão.

Por conta da insanidade alusiva ao que é viver e existir, é fundamental confirmá-la nas nossas loucas e inusitadas experiências e movimentos na existência. Pessoa alguma está condenada a ser o que os outros esperam que ela seja, a não ser que ela queira. Cada ser em si tem a possibilidade de viver o que quer viver, declarando a plenos pulmões o que realmente gostaria de ser. E qual o problema dessa declaração?

Há tempos, acolhi em minha clínica psicológica uma pessoa que aos 78 anos, afirmou categoricamente que se arrependia de não ter vivido o que gostaria de viver, por conta das expectativas das pessoas quanto ao seu comportamento. Eu, ao ouvi-la, fiquei consternado, buscando acolher a angústia presente em sua voz embargada. Ao mesmo tempo, deixei que o silêncio inundasse o setting terapêutico para que um grito ensurdecedor afetasse as nossas emoções, tanto a minha quanto a dela. O silêncio, tal qual adaga afiada que corta e rasga as roupas na hora do sexo, foi lâmina fria recostada no mamilo e desferiu golpes ferinos em nossas almas. Furtivamente, a lágrima escorria. Não há maior sofrimento do que viver uma vida não vivida. Nem a morte de uma criança amada no seio de uma família é tão lancinante. Todavia, esta é só uma metáfora para se perceber o nível de sofrimento existente em um ser que não existiu como queria existir.

Por isso, eu acredito piamente com fé cega e faca amolada, que cada um de nós deve se esforçar na tarefa de viver a melhor versão de si mesmo, sem medo, sem frescura, sem nojo. Curiosamente, temos nos campos da filosofia grega um pós-socrático chamado Diógenes. Este filósofo cínico vivia como um cão dentro de um barril. Ele não usava roupas e denunciava toda forma de estereótipos presentes em sua sociedade hipócrita. Era considerado um louco. Diógenes é um símbolo que continua a denunciar todas as formas de hipocrisia presentes na nossa sociedade atual. Os loucos são aqueles que denunciam as loucuras de uma sociedade insana. Eu acho que todos nós devemos ter muito de Diógenes. Que as babaquices de uma vida insossa não se façam presentes em nossa lide.

Por esta razão, uma boa dose de loucura se faz necessária na vida de qualquer um de nós. O que de fato queremos é a aventura de nos embriagarmos na paixão até aquele momento em que o corpo extasiado se vê completamente molinho, por se sentir recheado da pequena morte, la petit mort. Ou então, naquele momento em que a dinamite e o fogo se misturam num paiol de estrelas onde um mísero colchonete no chão serve de esteio para o amor se fazer presente e acontecer de forma surreal.

Enfim, continua a ecoar em meus mais distintos dilemas escondidos naquele baú antiquíssimo de bordas assimétricas, a frase que emoldura este texto. Que a loucura sempre preceda a cura, essa vontade de cuidado, e que a gente cometa mais besteiras no cotidiano, mais bobagens na trilha que ainda se possibilita aberturas, permitindo que a lâmina afiada continue a ameaçar as pétalas da rosa, as luas gêmeas e o túnel amaríneo.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A Cura pessoal pela criatividade e espontaneidade

 


Há um processo de cura pessoal no desenvolvimento psicoterápico que ocorre nos grupos. De antemão, deixamos claro que partimos da premissa etimológica de cura como cuidado e vigília. Essa premissa nos coloca frente ao movimento dialógico que ocorre no tecido social, segundo a concepção de Jacob Levy Moreno. Por um lado, a preocupação com o subjetivo que nunca se ausentou de sua obra; por outro, a convicção de que o ser humano somente pode se perceber completo na sua relação com o outro, num processo interpessoal.

À priori, importa-nos salientar que o ser humano é um ser de relações. Antes mesmo de sua estreia no palco da existência, influências oriundas de sua matriz materna compõem os aspectos mais altissonantes de sua constituição psíquica. Sobre este aspecto, Martim destaca:

Embora em suas obras, faltem capítulos dedicados ao estudo teórico do “animal político”, nelas é possível encontrar afirmações sobre esta natureza social. O estudo do indivíduo em relação com os demais ocupa a maioria de suas páginas fundamentalmente das que se referem à primeira etapa do existir humano, ou seja, a matriz de identidade. Quando a criança nem mesmo percebe a diferença entre si-mesma e seu ego auxiliar materno, já está vivenciando na relação com a mãe, a sociedade. (Psicoterapia do Encontro, 163-164).

 

Para Moreno, portanto, a perspectiva dialógica que vê o sujeito e o objeto não possui uma dissociação. O subjetivo e o grupo estão inter-relacionados e contribuem com a existência de ser. Em outras palavras, “a pessoa humana é o resultado de forças hereditárias (g); forças espontâneas (e); forças sociais (f) e forças ambientais (a)”. (Psicodrama, 168). Como se percebe, todas as quatro forças elencadas possuem uma conotação social, com pertinente base fisiológica, com dois órgãos complementares que atuam de maneira recíproca: o princípio da bissexualidade e o princípio da bissociabilidade.

Essa ideia nos leva a compreender, de forma mais efetiva, que há uma expressiva aproximação da psique, do corpo e da ação. Dessa forma, é pela atuação dos papéis que o ser se conhece e se dá a conhecer no grupo. Complementam-se, portanto, os dois princípios – bissexualidade e bissociabilidade – na ação desenvolvida dramaticamente pelo corpo em ampla manifestação da criatividade e da espontaneidade, possibilitando os processos de encontro de si-mesmo e com o outro. Este processo garante a ruptura das conservas culturais e a possibilidade de rematrizações.

Neto (1989), ao tecer aproximações que podem ser consideradas por nós, afirma que o eu na perspectiva moreniana, somente pode ser descrito em uma dimensão corporal (Paixões e Questões de um Terapeuta, 94). Este autor amplia a sua argumentação afirmando:

O eu começa a se formar através dos papéis psicossomáticos e da vivência infantil de certas zonas corporais em ação. [...]. E aí, tanto faz que aceitemos ou não a noção de papel psicossomático, o importante é que certas necessidades fisiológicas colocam certas zonas corporais em ação. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 94).

 

Decorre dessa referência a ideia de que o corpo em ação se torna a primeira referência receptora de experiências diversas, no tempo e no espaço, no campo em que Moreno chama de Matriz de Identidade. É no encontro com o outro, mediante a experiência dos afetos no corpo que a criança, desde os seus primeiros tempos de vida, vai se percebendo. Segundo Neto:

É essa dimensão do corpo assim conformada e codificada que designa o eu; entretanto, ao lado da imagem e dos fluxos domesticados e modelados, pululam todos aqueles que resistiram a esse processo forçado e artificial de unificação. Por isso, costuma-se dizer e qualquer bom terapeuta sabe disso – que o eu e a singularidade de cada um não designam a mesma coisa. Somos sempre uma multiplicidade representada por uma unidade. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 96).

 

De fato, o corpo é o aglutinador das imagens e afetos, fazendo com que nos tornemos múltiplas representações. A artificialidade se encontra na ideia de uma unidade de ser. Moreno faz questão de frisar a importância e a pertinência em se atingir a coordenação do corpo e da expressão verbal, bem como a diminuição dos gestos pessoais e idiossincráticos sem uma preocupação expressiva com os papéis sociais. (Paixões e Questões de um Terapeuta, 93). Em outras palavras, o agente múltiplo de improvisação e criatividade encontra o seu ponto de partida dentro de si mesmo, no princípio da espontaneidade.

Entretanto, mais do que isso, somos seres de interações sociais e desenvolvemos múltiplos papéis, os mais diversificados. Nessa compreensão, somos atores e atrizes no palco da existência e nos envolvemos em diversos dramas, dramalhões e algumas comédias que nos destinam ao alcance do melhor sentido de nossa vida – ou de nossas vidas –, visto a multiplicidade do que somos em nossa subjetividade. Moreno sonhava com a possibilidade das pessoas alcançarem as suas melhores versões pelo dispositivo da espontaneidade, acrescido da capacidade criativa, se contrapondo à automação requerida pela sociedade. Na possibilidade de se afirmar como um ser inteiro em inter-relações, mediante as dramatizações possíveis e adequadas do corpo, o ser humano pode se encontrar consigo e ser plenificado em si-mesmo. O teatro da vida aguarda pelo protagonismo de cada um.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Pela reinvenção das inconsequências

 


Eu acho que todos nós deveríamos nos embriagar continuamente na tarefa de reinventar a vida em suas inconsequências. É preciso despetalar as flores lindas que cerceiam o pântano para que algo novo aconteça. É muito estranho pensar no fato de que tudo tem que ser como sempre foi ou ainda é. Eu tenho uma paixão pelo inusitado e pelas coisas que acontecem numa mesa de bar, onde se comem bolinhos de bacalhau. Ah! Tá! Tudo bem! Os bolinhos têm mais batatas do que bacalhau, mas as geladas estavam nevadas, tipo “perninhas de pedreiro”, como se diz popularmente.

Quando vivo estas experiências, me localizo novamente naquela única ideia fixa quanto a ser continuamente surpreendido, tendo os meus olhos encantados diante do novo. Talvez isso se deva aos meus sofrimentos poéticos, os mesmos que brotam no cotidiano situacional dos meus espaços infinitos. Por isso, exponho-me em meus risos e danças em gestos espontâneos para ser o que realmente quero ser.

Será que sempre aceitamos o amor que achamos merecer? Pergunta boba quando o assunto mesmo é fazer o que precisa ser feito! Há abraços e beijos, e beijos e carícias que falam mais do que mil palavras. Chego a essa constatação com certa propriedade,  por acreditar piamente que tal tarefa tem a ver com aquilo que nos torna mais humanos, mais gente. Não somos mônadas estruturais ou estátuas condenadas à eternidade das praças históricas que temos a oportunidade de visitar nos grandes centros turísticos.
Mais do que isso, somos seres dotados de experiências e de movimentos que buscam mais experiências e mais movimentos num contínuo deslizar na flora do rio que uma hora chegará ao mar. Somos destinados a nos ressignificarmos continuamente na arte de atravessarmos o túnel sentindo a liberdade de ser, simplesmente ser...
Não posso mentir! Tenho orgulho da minha redenção de vida. Saí do caminho para me arranhar nas trilhas fechadas de uma mata selvagem. Gastei grande parte do meu tempo e da dinâmica do meu ser em uma esfera de atividades da qual eu gostava e me animava, mas que, depois de vinte minutos, deixou de fazer sentido para mim. Foram vinte longos minutos. Depois, resolvi abraçar outra perspectiva insólita e sem sentido para, depois de vinte minutos, montar uma rede à beira de um precipício com a finalidade de me balançar na amplitude da psicologia. Com isso, dei à minha vida outro sentido, um novo sentido com sabor de satisfação.
Eu acho que a vida realmente precisa de aspectos totalmente novos que alimentem a dinâmica da própria existência, lançando o ser para o avanço e o alcance de novos horizontes.

Trago para este momento reflexivo uma perspectiva presente na obra do filósofo alemão G. W. F. Hegel que afirmou uma dimensão muito interessante ao estabelecer, mediante linhas específicas da dialética aristotélica, filósofo grego, a ideia de uma dialética marcada por três estruturas: a tese, a antítese e a síntese. Não se pode relevar o brilhante argumento do filósofo alemão ao pensar as estruturas do pensamento pela lógica do idealismo, considerando a fórmula: “o real é o racional e o racional é o real”. E nessa espiral sem fim, ou quase sem fim – tem a questão do Estado nessa parada –, que Hegel provoca a sempre viva relação entre sujeito e objeto num percurso que almeja o diálogo contínuo e aberto. Com base na dialética de Hegel, o filósofo francês Paul Ricoeur elabora a sua dialética aberta e sem fechamentos, ampliando o debate da interpretação, apontando para a sua hermenêutica fenomenológica.  Assim, de braços dados com o método dialético apresentado por Hegel e amplificado por Ricoeur, afirmo categoricamente a minha vontade pela reinvenção da invenção da vida e pela redenção da alegria no cotidiano. Eu realmente não consigo conceber a vida sem a alegria, pois para mim a predisposição à alegria é o elemento central e situacional do ser humano perante a vida que, em suma, é muito curta como flash: uma faísca no meio de incêndio, como bem nos disse Heráclito. A vida não pode ser vivida de qualquer maneira, mas de formas aprofundadas e intensas.

Uma pergunta deve permear o pensamento de todo aquele que quer reinventar a vida: O que realmente posso fazer para que se tenha mais prazer, mais satisfação e mais alegria na existência? Tal pergunta vai requerer de cada ser um debruçar-se sobre a ideia presente no pensamento do psicanalista Roberto Freire, pai da Somaterapia, que nos convoca a realmente vivermos a vida mediante o nosso mais intenso pulso pelo tesão, pois é o tesão que mobiliza o ser humano para fazer aquilo que modifica a rotina e a automação. O tesão é a vacina. Por isso a máxima citada recorrentemente por Roberto Freire: “Sem tesão, não há solução”. Eu já perdi a conta de quantas vezes li o livro deste autor, pois ele alimenta a minha alma e me convoca a reinventar a vida que tenho, vivendo cada momento como sendo o melhor momento. Meu corpo tem fome de afetos e desejos que se debruçam nas janelas sensíveis de minha poesia, fazendo com que a todo instante eu afirme o fato de que a vida vale a pena ser vivida.

Portanto, o desafio contínuo é pela reinvenção da vida em suas inconsequências. As flores se reinventam, mesmo quando despedaçadas e tudo vira movimento, dança, risos e estranheza.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

Não sou... Sou era...

 


Nem sempre é fácil aceitar-me como sou, mas desafio-me conscientemente à tarefa. Mesmo aceitando-me, entro em litígios interiores e acabo discordando de mim numa quase homérica luta de titãs. Meus paradoxos se desalinham e eu me desequilibro sem mesmo estar na corda bamba. Nestas horas, as minhas argumentações se parecem bilboquês de vidro fino na mão de crianças travessas. Tal brincadeira me assusta a alma.

Amedrontado, permito a chegada dos cristais líquidos que insistem em escorrer no meu rosto. Não são oriundos das minhas decepções pessoais, senão dos meus pés conectados à realidade cotidiana da relva pálida que alimenta continuamente as minhas mais profundas agonias, todas ligadas aos meus próximos que sofrem as agruras diárias. Flores eclodem no meu jardim psíquico e embaralham a vida em seu todo. Pisco as pálpebras e escondo a minha íris multicolorida com predominância jacarandá. Experimento o deleite do seio enluarado, sentindo o visgo do desejo se desfazer no chão de mármore, ao qual me deito nas noites frias.

O horizonte me fisga o olhar. No entorno do sol nascente, vejo uma mandala marajoara escondendo os furos mal feitos na parede de pedra onde o meu corpo se encontra recostado, ao mesmo tempo em que escondo os meus vazios para não permiti-los expostos aos desavisados. Sou um ser em fazimento e só me abro para os que sabem saltar do penhasco e voar por quase dois segundos sem gritar. Há momentos em que o crucial é curtir a queda.

Liberdade é para quem sabe o que significa limites. Liberdade é saborear o hálito da morte e, ainda assim, sorrir com medo. Liberdade é o movimento que ocorre em cada pessoa que se lança ao terreno das escolhas. E por mais que eu pense escolher o que quero escolher ou, por mais que eu não pense o que quero pensar, o meu olho que enxerga as profundezas insiste em cotejar o infinito e se iludir com as fuligens do que restou em algum fogão à lenha, daqueles que fazem um pão-de-queijo bem quentinho e o café e sua borra resinosa. O fogo se extinguiu e ainda resiste como um calor enxerido.

A liberdade requisita o movimento novamente. Neste momento, embarco em um trem para me manter em minhas andanças. Enquanto o trem percorre os seus trilhos, das suas janelas vejo cenários que se fazem e se desfazem. A poesia me invade a alma. A estação do trem é a vida... a hora da partida é também despedida. A sacra letra do Nascimento, aquele que também é chamado pela alcunha de Bituca, favorece a fulguração em meu horizonte existencial. Manifesta-se em mim uma espécie de contexto vital capaz de afirmar que tudo o que vejo veio de uma semente que absorveu a água em seu limite, fazendo-se araucária vivente por duzentos anos.

O céu possui tonalidades acinzentadas e os telhados das casas mais antigas parecem esperar a chuva. Ela vem. Um gosto de hortelã visita-me as narinas. Lembro-me que ainda é manhã e os bocejos ainda são necessários. Agora, meus olhos captam o verde e os meus pensamentos requerem a fotossíntese tão necessária à contínua troca entre os seres viventes.

Enquanto mulheres mergulham no rio, outras destilam sentimentos amorosos e paixões nos seus aparelhos inteligentes de cristais líquidos. Pessoas diversas se afogam. Se não nas águas, nas telas e também nas lágrimas. Desejo um café. Quero gozar ensandecido na transa entre a cafeína e a dopamina, enquanto o trem cruza a avenida e os raios solares rasgam algumas nuvens frívolas. Nem todo algodão doce é consistente. Mais uma vez, enfrento a fila para me desvincular daquilo que é passado. Com o riso jocoso, externo a minha ironia. Ela é fina e ácida como as chuvas frias dos desertos em que eu nunca andei.

Confirmo, assim, a teoria de que nunca é fácil me aceitar como sou, pois nunca sou. Eu sempre serei era...

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Dos paradoxos do amor


Era sexta!

Enquanto eu rumava para o consultório, por voltas das 7h da manhã, com a finalidade de atender aos meus clientes na clínica psicoterápica, vi o amor acontecer em dois de seus paradoxos. Talvez, a agonia extravagante do meu olhar fugidio, manifesto em segundos, se dê através dessa minha mania de mergulhar nas profundas emoções humanas, interpretando-as  nas horas mais inusitadas dos dias.

Vi dois abraços e dois beijos. Entretanto, as emoções que tocavam o peito daquelas quatro pessoas, fazendo arder os quatro corações, eram bem diferentes. No primeiro dos abraços, havia romance e olhares apaixonados. O rapaz alto, com um capacete na mão e ao lado de sua moto, uma CG-125, possivelmente um motoboy se preparando para os seus "corres", olhava apaixonadamente a amada uniformizada para o duro dia de trabalho junto a ASCOMCER - um hospital de referência para o tratamento de câncer localizado na cidade de Juiz de Fora - MG. Ele e ela se despediam com dúzias de beijinhos. O sol invadia os globos oculares de cada um dos amantes e os faziam brilhar como cristais. Os beijos se intercalavam aos abraços cheios de intensidades. O amor estava no ar frio daquela manhã preguiçosa e cheia de expectativa, afinal de contas era sexta, e sexta é dia de happy hour. Cervejas geladas aguardavam aqueles e aquelas que almejam um tempo para o relaxamento acompanhado de conversa fiada e risadas; e mais cervejas; e umas tiras de torresmo bem sequinhas. Efêmeros eternos.

Entretanto, na vida, nem tudo são bares com cervejas, tampouco flores. Pessoa alguma vive em mar de rosas, se é que se pode falar dele. Aliás, são parcas as flores perfumadas que insistem em sobreviver nos jardins da existência. Perdidas estão nos oceanos atmosféricos da lida. São dispersas aos bentos ventos.

Foi então que vi o outro abraço...

Era triste! Era muito triste! Era um abraço doído com rostos pranteados, daqueles cheios de lágrimas quentes.
Era abraço eivado de consolação. Pareciam-me dois irmãos buscando forças diante do luto. Tenho por mim, talvez de forma tímida, tratarem-se de dois entes marcados pela intimidade e a proximidade. Ela, de coque com alguns grampos, olhar cansado com olheiras arroxeadas, apertava as costas do irmão, igualmente condoído. Sua camisa de malha simples e a calça estilo legging revelavam a típica roupa confortável para uma madrugada de desconforto.
Ele dormiu em casa, não tão menos agoniado. Quem dorme confortavelmente, tendo em mente a figura moribunda de um ente querido da família, internado devido a um tratamento se câncer? À frente do supracitado hospital, o choro dolorido só poderia indicar o passamento de um ente querido da família, talvez a mãe. Não é nada simples receber a notícia de que alguém que fazia parte da rotina de uma casa, mediada por tantos símbolos e fotografias penduradas na parede, se perceba tranquila frente ao  infortúnio destino de todos os seres viventes: a morte. Embora saibamos que a morte faz parte da vida, jamais poderemos nos acostumar com as demandas que a envolvem e as suas decorrentes aflições.
A certeza que temos, de que somos passageiros nesse mísero e encantador planeta nos coloca, inevitavelmente, diante dos paradoxos do amor, evidenciando aquilo de lindo e aquilo de assombro que justamente, à sombra de uma árvore qualquer, acolhe ao mesmo tempo os olhos estatelados pelo amor ou pela dor.
Somos dores e amores, desconsertos e alegrias que se espraiam no chão insólito da existência. Diante daquilo que agride, a vontade é sempre aquela de pular do penhasco para mergulhar profundo no mar aberto, de águas geladas e salgadas. É preciso arrepiar o corpo para se viver o que se quer ou se pretende viver. Abraçar a morte como uma amiga e sorver o vinho e seus taninos amadeirados, oriundo daquele valho barril de carvalho, olhando o horizonte e suas nebulosas.

Os pensamentos são extremamente rápidos e o corpo e seus sentidos não o acompanham. Vi as duas cenas da vida, os paradoxos do amor e, investido de um sentimento de pura humilhação humana diante da pequenez do universo, percepcionei a grandiosidade do humano que habita o humano.
Preciso acelerar o carro. O dia requer de mim a dedicação. As pessoas que celebram as suas aventuras psicoterápicas esperam pela minha companhia naquele lugar onde emoções musas desfilam nuas nas artérias rasgadas da consciência bifurcada pelos beijos e abraços, os abraços apertados e os afetos que acontecem. O amor sempre acontece...

domingo, 18 de junho de 2023

As duas asas da borboleta

 

Estava saindo do recinto onde desenvolvo cotidianamente as minhas atividades profissionais como psicólogo, quando tive a oportunidade de perceber uma borboleta agonizando. Infelizmente, ao que parece, ela fora atacada por um passarinho e já não tinha mais a potencialidade necessária para voar e encantar os olhos observadores.
Caída ao chão, enquanto ainda se agitava em seus últimos momentos até parar, percebi a sua cor marrom e as formações naturais retilíneas e circulares que certamente serviam como qualidades adaptativas para a proteção quanto ao ataque dos seus predadores. Seu mimetismo lembrava um roedor ou uma coruja.



Então resolvi retirar a borboleta, agora sem vida, do caminho, o que fiz carinhosamente, sabendo da sua fragilidade. Todavia, ao virá-la, deparei-me com uma agradável surpresa: ela era maravilhosa e linda, muito mais linda do que eu supunha. Num primeiro momento, revelou-me o seu verso obscuro em tonalidades pretas, cinzas e marrons. O anverso, por sua vez, apresentava uma tonalidade brilhante azul turquesa. A retina do meu olho que vê ficou encantada.



Obviamente, contemplei a dupla beleza da borboleta e parei para pensar sobre a realidade de todos nós. Somos seres de dupla face. Por um lado escondemos os nossos mais parcos sentimentos para nos protegemos das pessoas que, muitas vezes, não nos querem bem. Em nossos voos existenciais, revelamos as nossas sombras mais estranhas. Ao mesmo tempo, na contraposição, expomos a beleza de nossa singularidade e nossas competências e habilidades. Assim o fazemos por sermos seres multicoloridos que revelamos ao mesmo tempo as nossas sombras protetoras e as nossas belezas subjetivas.
Enquanto eu ainda me via completamente envolto com essa reflexão, percorria o caminho de terra que me levava a um povoado rural chamado Ribeirão de Santo Antônio. Minha cabeça era um intenso turbilhão reflexivo. Percepcionava as sombras e cores das árvores, plantas, flores e seres e confirmava paulatinamente a dualidade de todos os seres.
Apesar de sermos tão diferentes, compartilhamos a perspectiva de que, de fato, temos nossas respectivas dualidades e múltiplas revelações. Pensei contundentemente nas relações vivencias, pois nem sempre se pode expressar vivamente o que se é ou como se está. Nem sempre as pessoas com as quais se convive se encontram preparadas para ouvir ou para acolher aquilo que ocorre na intimidade pessoal. Nesse sentido, todos nós nos encontramos aprisionados dentro de nossos corpos pessoais. Talvez, este aprisionamento seja muito necessário, pois a apropriação indevida de nossos sentimentos sem o carinho genuíno ou a atenção própria e devida pode se constituir em alto prejuízo para quem se revela. Os sentimentos revelados precisam ser cuidados como cristais preciosos que não podem cair ao chão, se estilhaçando.
Apesar das duas asas da borboleta ainda baterem em minha caixola, eu precisava cumprir o meu trajeto e acalentar os meus conflitos. Eu estava acompanhado de duas jovens senhoras e como um bom provocador que sempre soube ser, fazia observações aleatórias sobre a vida e suas dicotomias, abrindo janelas reflexivas capazes de romper as ideias monolíticas e os pensamentos racionais que parecem nos colocar naquela posição confortável de quem sabe o que diz ou que sabe o que vive. Ledo engano. Somos somente experiências e movimentos: as duas asas da borboleta em seu voo. Pensar de uma única forma torna a vida empobrecida.
Enfim, coloquei a borboleta inerte em um jardim, a fim de que a sua decomposição alimente outros seres e sementes, pois é assim a vida. As duas asas da borboleta tocaram o meu cotidiano e fizeram-me repensar as dinâmicas relacionais do meu próprio existir. Elas continuam a bater, lembrando-me continuamente que somos sempre sombras e belezas em movimentos originais.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Experiências deslocadoras do eu



Em um dia de verão em 2015, eu acordei com uma frase na minha cabeça: Faça o amor acontecer. Eu estava vivendo diversas experiências inusitadas em minha dinâmica de vida, especialmente por conta dos estudos mais efetivos em Psicologia. Tais experiências deslocadoras do meu eu interior se ampliaram em meio aos movimentos psicoterapêuticos aos quais eu me submetia junto à minha psicóloga. Na psicoterapia, mais precisamente na análise, pois ela era psicanalista, eu alcançava uns insights bem fodas. Enquanto eu jorrava minhas palavras nas sessões, criando diversas bolhas de informações bem reflexivas, vivenciava, ao mesmo tempo, as emoções díspares e sentimentos cadenciados pela minha consciência. De fato, me deparei com situações que eu não sabia que existiam em mim, possibilitando um maior conhecimento de mim mesmo, um autoconhecimento.

Em um dia mais específico, observei os detalhes do setting terapêutico e me deparei, mais detidamente, à parede do consultório aonde eu era atendido. Nela, havia uma pintura abstrata que mexeu com o meu mais profundo íntimo, revelando-me o que poderia sugerir o meu próprio inconsciente. Obviamente, os conhecidos movimentos freudianos entre o id, o ego e o superego marcavam as nossas conversas, gerando surpresas diversas em minha própria consciência. Embora aquela pintura fosse limitada pela parede, eu sabia que as minhas demandas mais intimistas se abririam para um campo aberto, desorientado e de olhar ilimitado. Na perspectiva psicanalítica, o inconsciente não pode ser limitado por pessoa alguma, embora os vestígios que parecem sair do interior de alguma caverna escura favoreçam novas compreensões do que cada um é, em si. Como se velas fossem acesas em meio às tempestades de verão e expostas aos ventos fortes que transtornam o interior do humano, desvelando sentidos diversos, talvez. Assim, observar aquela parede em um processo psicoterápico me possibilitou simbolizar mais a mim mesmo e a meu próprio respeito, e com isso, ampliar as minhas caças por mim mesmo. Sem a pretensão de limitar meu inconsciente, tampouco as possíveis hermenêuticas daquela pintura, mergulhei dentro de mim mesmo, procurando achar o que não poderia ser achado, rapidamente. Me senti em eterna procura. Parafraseando o cantor Milton Nascimento: “Eu, caçador de mim”. (Phillips, 1981).

De súbito, resolvi estourar aquela bolha de pensamentos. Era a hora de parar de pensar. Hora de colocar a devassidão da minha carne em algum lugar. Revelei-me cansado de ser o reflexivo. Sempre primou em mim o desejo, em seu estado mais chulo. Então, sentia que era hora de deixar o animal sobrepujar o racional e libertar completamente o instintivo em mim, no seu estado mais puro, mais insano. E com aquelas impressões em minhas reflexões, decidi que o que eu desejava:

Beijar o que precisava ser beijado!

Lamber o que precisava ser lambido!

Morder o que precisava ser mordido!

Comer o que precisava ser comido!

Gozar o que precisava ser gozado!

Extasiar-me inconsequentemente, só querendo saber de mim, ligando o “foda-se” para todo o resto!

Mas por favor, antes de você levar todas as minhas assertivas para o buraco da maldade, entenda: beijar as flores dos campos por onde eu percorrer; lamber aquele sorvete de bacuri maravilhoso; morder aquela fatia de bolo fresquinho saindo do forno; comer aquela gostosa feijoada no sábado e gozar a vida com contentamentos.

E o que me restaria, então? Viver o aqui e o agora, só como o aqui e o agora, certo de que o que me viria não me pertencia. Eu precisava viver o pretenso amor tão evidenciado em minhas parcas palavras.

Desse turbilhão, nasceu a inquietação convidativa a fazer o amor acontecer. Aliás, só dessa forma eu entendia o amor: como um acontecimento que precisa ocorrer, de fato, na dimensão existencial humana. Em suma, viver...


segunda-feira, 5 de junho de 2023

Em alusão ao Dia Mundial do Meio Ambiente

 


Um sério problema a ser considerado pelas nações em geral e pelas pessoas em particular é o que se refere ao cuidado com o meio ambiente. Aliás, este é um problema de real emergência.

Precisamos partir da premissa de que o Planeta Terra é o único lugar em que podemos habitar neste universo. É a casa comum para a humanidade e suas contradições, geradoras de todas as formas de injustiças e distanciamentos estruturais, mas também de todas as belezas e alegrias.

Hoje, enquanto me deslocava para o meu ambiente de trabalho, reconfigurei toda a minha contemplação, pois toda a natureza que eu contemplava apresentava a sua exuberância e esplendor pela primeira vez aos meus olhos, mesmo tendo eu passado por este caminho uma dezena de vezes. Todos os dias, as dimensões que nos visitam devem ser observadas por nós como sendo reveladas pela primeira vez. O cuidado com o meio ambiente precisa ser renovado cotidianamente.

Apesar de algumas correntes teóricas afirmarem a supremacia antropológica sobre a face deste planeta, somos todos sabedores da nossa relação de interdependência dos reinos animal, vegetal e mineral. Estamos em ampla e completa relação de simbiose. Cabe aqui a premissa de que o todo é maior do que as partes que o compõe. E nessa perspectiva, importa pontuar também que pessoa alguma é mais importante do que a outra. Apesar dos esforços extenuantes quanto à apropriação indevida de recursos para a salvaguarda de riquezas pessoais, o que realmente importa é a atitude de solidariedade que deve se expressar de forma viva entre os reinos supracitados, preservando-se, assim, a continuidade da vida em nossa casa comum.

Todo esse processo de solidariedade abraça, também, a busca pela dignidade humana, especialmente para os pobres e desvalidos, completamente afastados das mínimas possibilidades de sobrevida. É preciso lutar pela justiça, inclusive na proteção do meio ambiente, pois a degradação da terra, do ar e da água é tamanha. Todos os sinais de alerta já foram acesos e os líderes mundiais sabem disso. Desde o início do ano de 2005, uma preocupação com o meio ambiente e com a ecologia foi ampliada por conta do furacão Katrina. Deflagrou-se, a partir do ocorrido nos EUA uma preocupação mais efetiva com o planeta. Diante dos olhos, se estampava os rescaldos do aquecimento global, as grandes precipitações e a inconstância dos ventos. De fato, os grandes cataclismas atuais estão deixando os cientistas comprometidos como o meio ambiente em estado de tensão e atenção.

Entendemos que as novas possibilidades históricas podem remeter o ser humano a uma reconsideração da visão de mundo, desembocando a reflexão à busca por um equilíbrio entre três importantes forças que se referem aos cuidados com a casa comum: a ecologia, a economia e o ecumenismo. O prefixo destas palavras é o mesmo. Refere-se à palavra grega oikos, que se caracteriza em língua portuguesa como casa.

Como já afirmamos, o planeta terra é a casa comum de todos os seres humanos, mas em todas as três dimensões, se pode inferir que a casa comum se encontra em crise. Ora, nas últimas três décadas aguçou-se a preocupação com a preservação da vida em todos os continentes. O ambientalista Maurício Waldman que foi assessor de Chico Mendes ressaltou que os problemas socioambientais são sem precedentes. Toda a biosfera está ameaçada por causa de uma falsa dicotomia que o mundo ocidental estabeleceu entre economia e ecologia, mesmo porque os termos não são antagônicos: “A palavra ecologia, proveniente de oikos-logos, significa “estudo”, “tratado sobre a casa”, e a palavra economia, derivado de oikos-nomos, reportaria a “ordem”, “organização da casa”. Porém, esta etimologia não esgota o significado de ambas as palavras”. (WALDMAN: 2003: 14). No passado, oikos tinha ver com uma unidade marcada pela auto-suficiência, produção e consumo, da qual dependia a sobrevivência do grupo, subtendendo também uma determinada organização política”. (WALDMAN: 2003: 14). Mediante esse apontamento, Waldman apresenta-nos a relação indissociável entre nomos e logos, especialmente quanto à questão ambiental: “Uma economia que pretenda de fato ser uma oiko-nomos tem de ser uma economia ecológica. Por sua vez, uma oiko-logos que faça sentido tem também de incorporar uma vertente econômica”. (WALDMAN: 2003: 15). Dentro do arcabouço do termo oikos, a noção de auto-suficiência, sobrevivência do grupo, equilíbrio, ordem sociopolítica e econômica precisam ser consideradas de forma intencionalial, enfim, da sobrevivência do grupo. Digno de nota é a seguinte argumentação de Waldman: “O enfrentamento da deterioração da biosfera deve buscar a causa comum da conquista da justiça social e do respeito ao meio ambiente, um mundo que não seja mais da divisão dos riscos, e sim do risco comum de não sermos divididos. É deste modo que ecologia e economia desdobram-se obrigatoriamente em ecumenismo”. (WALDMAN: 2003: 16).

Essas premissas de Waldman estabelecem eixos fundamentais para a nossa reflexão sobre os riscos e oportunidades inerentes ao planeta. É preciso ainda considerar que a mídia, apesar de acelerar as informações, também favorece um tratamento chulo a questões sérias. É possível que alguns temas, como o tema do meio ambiente, mediante abordagens equivocadas, se tornem uma espécie de “moda”, não sendo enfáticos e, tampouco, não direcionando de forma evidente as ações de políticas públicas que provoquem mutações para o futuro do planeta.

Portanto, é preciso que todos nos conscientizemos quanto à necessidade e urgência quanto ao cuidado da nossa casa comum, o planeta que habitamos. Se há uma correlação efetiva entre economia e ecologia, é de vital importância que a grande miríade de religiões espalhadas sobre a face da terra se abrace numa corrente solidária e se esmere na possibilidade de cuidar do planeta, independente de suas narrativas e convicções específicas. O ecumenismo se associa à economia e ecologia no cuidado com este planeta que vaga por este universo de dimensões inimagináveis.

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Em busca de si mesmo

 


O sentido da vida está intimamente conectado à consciência de si. Todos os dias, ao abrirmos os olhos, invariavelmente somos tomados pela pergunta: “Quem sou eu?” Obviamente, não é uma tarefa fácil enfrentar essa temática, pois ela exige um pouco de reflexão e exposição pessoal, especialmente das contradições que acompanham cada um de nós.

Todas as vezes que eu me deparo com a referida pergunta, deixo-me ser levado pela narrativa do Oráculo de Délfos. A narrativa, guardadas as devidas proporções históricas, convoca o ser em busca da sua consciência, no enfrentamento com os dilemas da vida e o significado de ser no mundo.

Em todos os períodos de nossa existência, nos deparamos com muitas dúvidas, anseios, expectativas e transformações. As memórias passadas e as inquietações quanto ao futuro também se fazem presentes, especialmente quanto ao caminho a se percorrer. Em todos eles, é fundamental que haja um bom conhecimento de si mesmo. Este conhecimento é o que possibilita a valorização dos sonhos e a projeção das realizações no presente, permitindo-se avaliar a historicidade e o protagonismo espontâneo.

A busca pelo conhecimento de si é milenar. Em todas as culturas mais arcaicas, a pergunta pelo significado e sentido de ser se evidenciaram. Um bom exemplo vem da mitologia grega e a sua reconhecida narrativa do Oráculo de Delfos, como segue:

Os gregos acreditavam que o famoso oráculo de Delfos era capaz de lhes dizer coisas sobre o seu destino. Em Delfos, o deus do oráculo era Apolo. Ele falava através de sua sacerdotisa, Pítia, que ficava sentada num banquinho colocado sobre uma fenda na terra. Dessa fenda subiam vapores inebriantes, que colocavam pítia numa espécie de transe. E isto era necessário para que ela se tornasse o meio pelo qual Apolo falava.

Quem vinha a Delfos primeiro fazia suas perguntas para os sacerdotes locais, que iam consultar Pítia. A sacerdotisa do oráculo lhes dava uma resposta, que era tão incompreensível ou tão ambígua que os sacerdotes tinham que ‘interpretá-la’ para os consulentes.

Dessa forma, os gregos podiam se valer da sabedoria de Apolo, que , para eles, era o deus que sabia de tudo, tanto do passado quanto do futuro.

Muitos chefes de Estado não ousavam entrar numa guerra ou tomar decisões importantes sem antes consultar o oráculo de Delfos. Dessa forma, os sacerdotes de Apolo eram quase como diplomatas ou conselheiros, que possuíam um profundo conhecimento do povo e do país.

No templo de Delfos havia uma famosa inscrição: conhece-te a ti mesmo! E ela ficava ali para lembrar aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir de seu destino.

Entre os gregos contavam-se muitas histórias de pessoas que tinham sifo apanhadas por seus destinos. Ao longo do tempo, uma série de peças – as tragédias – foi escrita sobre essas “trágicas” personalidades. O exemplo mais conhecido é a história do rei Édipo, que, na tentativa de fugir do seu destino, acaba correndo ao seu encontro. (GAARDNER, Jostein. O Mundo de Sofia. Romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 66 e 67).

 

A narrativa sugere-nos os dois movimentos cruciais que nos acompanham em nossa busca pessoal: o movimento interno que busca as nossas emoções e sentimentos e o movimento externo que tem a ver com as nossas relações comunitárias. Assim, conhecer-se a si mesmo coaduna a ideia de um conhecimento do todo social. O desafio de se conhecer a si mesmo requer, também, uma retrospectiva dos acontecimentos que ocorreram desde o nascimento, até o tempo presente. Muito do que se é hoje, decorre das múltiplas vivências experimentadas desde a primeira infância. Conjuntamente ao se repensar o si, aglutina-se a cultura e todas as suas variantes. O si se constitui com o outro, também.

Um exemplo do que estamos considerando encontramos no filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989), dirigido por Peter Wier. A narrativa retrata o ano de 1959. Numa tradicional escola preparatória, a Academia Welton – conhecida pela rigidez da sua formação e os seus quatro princípios elementares: tradição, honra, disciplina e excelência, um ex-aluno se torna o novo professor de literatura. Seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos". Nele, encontramos a inegável importância do ato de se olhar para dentro de si mesmo, valorizado pelo Senhor Keating – Robin Williams e seu contínuo questionamento quanto aos princípios castradores da possibilidade quanto a novos conhecimentos, baseado em um poema de Walt Whitman, intitulado Oh Capitão! Meu Capitão! Em suas letras:

Oh capitão, meu capitão! Nossa viagem de medo findou

O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que perseguíamos foi ganho

O porto está próximo, ouço os sinos, as pessoas todas exultam

Enquanto os olhos seguem a firme quilha, o raivoso e audaz barco

Mas oh coração! coração! coração!

O as rutilantes gotas de sangue

No tombadilho onde jaz meu capitão

caído, frio e morto

Oh capitão, meu capitão

Oh capitão, meu capitão! Levante-se e ouça os sinos

Erga-se - para você a bandeira tremula - para você tocam os clarins

Por você buquês e coroas de flores com fitas - para você as costas estão lotadas

Para você que eles chamam, a massa oscilante, suas faces ansiosas se viram

Aqui capitão! querido pai!

Este braço sob sua cabeça!

É algum sonho que no tombadilho

Você jaz frio e morto.

Meu capitão não responde, seus lábios estão pálidos e quietos

Meu pai não sente meu braço, ele não tem pulso nem vontade

O navio está ancorado são e salvo, sua viagem finda e encerrada

De uma horrível travessia o vitorioso barco vem com esse objeto ganho

Exulta, oh praia, e toquem, Oh sinos!

Mas eu com passos desolados

Ando pelo tombadilho onde jaz meu capitão

Caído, frio e morto.

 

Mediante o brado ao capitão em sua nau livre, a arte, a poesia e a liberdade, Keating convida os rapazes em suas aulas a refletirem por si mesmos, escrevendo poemas sobre si mesmos e os seus respectivos sentimentos, para fazê-los viver a dimensão do “CARPE DIEM” – Colha o dia, viva o momento. Trata-se da busca pelo conhecimento de si, suas possibilidades, qualidades e defeitos, mediante a utópica manifestação dos sonhos e das fantasias que não podem ser desprezados. Dessa forma, buscando o interior de si mesmo, o ser alcança as maiores noções da sua subjetividade, das singularidades e das potencialidades que constituem o ser.

No filme, estes ideais apresentados foram oprimidos e o resultado foi trágico, inclusive com o suicídio de um jovem, vivente em seus novos ideais.

Enfim, no Oráculo e no filme, manifesta-se o eterno conflito entre os nossos desejos libertários e as nossas inquietações automatizadas reais e cotidianas; entre a nossa sanha por liberdade e os aprisionamentos provocados pelo alheio. Em nosso busca pelo nosso eu, sempre sobrarão os ostracismos da sociedade. A subversão, o bom humor e a poesia sempre se constituirão em um bom caminho para o contentamento pessoal e subjetivo. Carpe diem...    

 

O Paradoxo da Empatia

  Todos nós, seres humanos, além de carregarmos os pesos externos, tais como mochilas, sacolas, valises, trouxas e malas, também carregamos ...