terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Sobre o amor, a ponte e as cinzas

 


Eu tenho um apreço muito grande pelo filme: As Pontes de Madison (1995), dirigido por Clint Eastwood e estrelado por este e pela atriz Meryl Streep. O drama romântico gira em torno da mãe e dona de casa Francesca Johnson, casada há anos com seu esposo Richard.

Como o marido e os filhos viajam para uma competição de novilhos, ela fica sozinha em sua casa por quatro dias. Neste período, aparece no condado de Madison o fotógrafo da revista National Geographic, Robert Kincaid. Ele tem por função fotografar as famosas pontes cobertas da região e, por um acaso, pede informações justamente a Francesca. Já no primeiro encontro, a recatada dona de casa se sente entusiasmada com Robert. Um novo interesse foi despertado nela, o que se comprova em sua disponibilidade para levá-lo ao local a ser fotografado.

Após finalizar os closes, Robert leva Francesca de volta para a sua casa e é convidado a entrar para tomar um chá, o que desemboca em um momento de extrema afetuosidade e amistosa conversa. Ela, sempre atenta ao cuidado com os filhos e ao marido esquecera-se de si, e somente no momento de solitude vivenciado nos quatro dias, diante de um desconhecido, se percebe novamente viva para a paixão e o amor.

Todo este enredo é emoldurado pela descoberta das cartas e anotações de Francesca guardadas em um baú. O casal de filhos, já adultos, descobre os segredos de Francesca já falecida e, num misto de decepção, conservadorismo, apreço e sentimentos afetuosos, acolhe a narrativa segregada pela mãe.

O filme é carregado de uma riqueza de detalhes. Sua fotografia é bucólica, delicada e capaz de envolver a todos os que o assistem em um clima de romance singelo e profundo. O amor acontece sem nenhum tipo de preparação, de forma espontânea, mediante diversos cuidados que fogem o habitual e o cotidiano. Ele ocorre tal como a semente que brota no meio do mato ou o como um pássaro que nasce em um ninho sem que ninguém tenha o anunciado. Agrada-me e encanta-me esse tipo de perspectiva espontânea, pois ela decorre dos desejos, muitas vezes cristalizados ou congelados, presentes no mais humano que há em cada um nós, e que se quebram ou descongelam. Os que ainda insistem em acreditar no amor descobrem que na singeleza dos pequenos atos e gestos, reside uma fonte de vitalidade que acaba por exaltar o prazer inerente à humanidade. Somos seres desejantes e temos uma necessidade muito grande de vivenciar aquilo que é o prazer na vida. Ora, o prazer nos faz deleitar, nos encanta e nos aproxima de tudo aquilo que essencial para dinâmica da vida. Eu também tenho um apreço muito grande por aquilo que traz prazer e encanta o ser em sua maior probabilidade de vida.

Pensar a dinâmica dos afetos, do prazer o do amor se torna fundamental, embora o filme traga um conflito mais profundo: deixar-se ser levada pela paixão e pelo desconhecido ou permanecer na vida cotidiana por amor à família? O conflito é ilustrado pela seguinte cena: Francesca está no veículo ao lado do marido Richard, enquanto o fotógrafo que lhe provocou a renovação da alegria, do prazer e dos desejos se encontra no cruzamento em frente ao semáforo. Ela, ofegante, transtornada em sua dúvida, coloca a mão na maçaneta, mas não age. Ele, em sua caminhonete, coloca a corrente que ganhou dela no espelho retrovisor interno e espera pela decisão dela. Ela morde os lábios e cogita sobre sair do carro, modificando por completo a sua vida. Ele respeita a singularidade do momento dela, deixando que ela tome a decisão de forma livre. Tais conflitos nos levam a pensar sobre as possibilidades dos amores que podem acontecer e dos que não podem. Em ambos, se manifesta a mesma grandiosidade, marcada pela vontade, pelo prazer, pelo desejo e pelo afeto.

Nem todos os amores são possíveis. Os apaixonamentos ocorrem sem previsão, mas a cadência deles no cotidiano é outra história. Há muitos códigos sociais e morais que envolvem as pessoas em suas vidas comuns e cotidianas. A decisão sobre ir ou permanecer é complexa e depende do momento e das emoções envolvidas. A decisão se complexifica quando a questão de fundo envolve a dinâmica do amor em seus fragmentos. Há momentos em que só cabem as possibilidades de se deixar como está. Há amores impossíveis, infelizmente.

Ao escolher pela permanência, Francesca abre mão do possível amor de sua vida, eternizando o amor em sua memória como um instante de eternidade. Na carta lida pelos filhos, ela pede que as suas cinzas sejam jogadas na ponte fotografada por Robert, onde já se encontram as cinzas dele. Eles, já convencidos pela grandiosidade do amor que envolveu a mãe e o fotógrafo resolvem atender ao pedido da mãe. O amor, enfim, se concretiza nas cinzas.


segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Cuidando da Saúde Mental - Janeiro Branco

 


Recentemente um cliente que eu muito prezo perguntou-me em uma das nossas sessões psicoterápicas: “Moisés, porventura você tem algum problema na vida”? Respeitosamente, soltei uma gostosa gargalhada e respondi que não, pois eu, na verdade era um extraterrestre ou um astronauta de mármore fixado no planeta Saturno, e, portanto, sem problemas existenciais.

Em que pese o tom jocoso da minha brincadeirinha, sequencialmente eu deixei claro ao meu cliente que, como qualquer pessoa no mundo, eu também tenho os meus problemas pessoais e comunitários.  Não é pelo fato de ser um psicólogo e versar sobre algumas nuances da mente humana e a consequente busca pelo bem estar que eu não esteja sujeito a situações complexas e problemas diversos, passíveis de atingir, diametralmente, a minha saúde mental.

Enquanto eu pensava sobre os altos e baixos que me acometem a vida, presentes em toda a dinâmica da vida humana, eu revisitei os alguns baixos que eu vivenciei na primeira semana de 2024. Pela minha habilidade socioemocional, eu acabei por vencer as situações diversas que mexeram com a dinâmica do meu cotidiano, entretanto eu queria que aqueles problemas passassem o mais rápido possível. Como toda e qualquer pessoa, queria um “remedinho” para dormir.

Eu sei que quando nós vivemos situações adversas, tendemos a buscar soluções rápidas e facilitadas. Das soluções mais buscadas pelas pessoas na atualidade, uma se refere à utilização dos psicofármacos disponíveis nas redes farmacêuticas. É interessante notar como que no decorrer destes últimos anos o número de farmácias e drogarias aumentou consideravelmente nos grandes centros, alarmando os diversos grupos sociais. A busca considerável de remédios em todos os níveis e em todos os graus revela que alguma coisa não está bem na sociedade. Acresce-se a isso o fato de que ninguém quer sofrer. Sentir a angústia ou ansiedade, embora amplamente naturais na experiência existencial, não é fácil para pessoa alguma, mas é uma realidade.

Eu entendo que todos nós precisamos acolher bem as nossas angústias e as nossas ansiedades. A melhor forma de encontrarmos saídas para os problemas que muitas vezes agravam a nossa saúde mental se dá por intermédio de um diálogo consigo, uma boa conversa com o “self”. Eu sinto que precisamos investir mais e mais no desenvolvimento de algumas novas – não tão novas – atitudes para a boa resolução de nossas demandas emocionais. Além do investimento na clínica psicoterápica, é essencial que cada um de nós desenvolva três nobres capacidades fundamentais: 1. A capacidade de se desenvolver ludicamente, se divertindo mais, mesmo com as tensões inerentes; 2. A capacidade de ressignificar os sentidos para ampliar a postura contemplativa; 3. A capacidade de harmonizar afetos amorosos, dignos de posicionamentos mais maduros e menos centrados em si-mesmo. Aliás, sobre esta última capacidade, é fundamental pensar que a maturidade nos livra dos pensamentos desconexos que insistem em visitar a nossa mente, fazendo com que monstros e fantasmas nos visitem. Todavia, se eles chegarem, torna-se vital aprender a acolhê-los. Não são necessários os receios. O que nos assombra ou assusta não precisa ser repelido, ao contrário, acolhido.

Neste mês de janeiro, por iniciativa do Instituto Janeiro Branco, ocorre uma série de atividades em diversas partes do mundo visando o estabelecimento de uma cultura de Saúde Mental que abarque toda a humanidade. Ora, sabemos de antemão que ao mesmo tempo em que possuímos a nossa subjetividade, vivemos em comunidade, respeitando as instituições. Dessa forma, pensar a saúde mental é pensar a sanidade das emoções e dos sentimentos como um problema público, pois todas as perspectivas biológicas, fisiológicas, afetivas, espirituais e sexuais fazem parte da integralidade humana e, portanto, com amplas ligações à saúde mental.

Enfim, a possibilidade de se discutir a saúde mental em janeiro nos abre a porta para nos atentarmos a todos os pormenores inerentes ao cuidado integral do ser humano pelo ser humano. Acho que mais do que se buscar soluções rápidas para os dilemas emocionais, vale à pena aquela conversa intensa com o eu, a fim de realmente percepcionar se o que é considerado dor, de fato é dor.

 


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O amor sempre em evidência…

 


É sempre um privilégio recomeçar um novo ciclo de vida e experimentar o poder de ser quem se quer ser, como se pode ser.

Nas múltiplas partes da existência, pessoas são conjugações de corpos que se enriquecem quando se amam. As exposições ao toque e as aberturas ao intenso calor emanados em cheiros favorecem os voos das borboletas livres, eternizadas em lindas pinturas rupestres.

Enquanto elas voam em vôos de ventos, pode-se gritar à lua fina para declarar a urgência que clona os olhos a fim de respirar as paixões que só as estrelas cadentes e ridentes conhecem. Na clonagem, provocar os encantamentos num abraço que envolve vidas e personas para, quem sabe, vivenciar uma manhã de núpcias num quarto de núpcias sem jamais ceder aos devaneios sem encantamentos.

Há uma rota que se abre no horizonte sem cerceamento de barbantes. O amor é laçado em seu estado bruto, selvagem  e surpreendente, tal como  o regime inebriante da dama-da-noite. De fato, felicidade só ocorre em momentos de descuido, quando o perfume e os ecos são soprados no interior da boca mordida.

No lugar chamado coração, é possível levar-se risos e emoções. Em seu interior, bem interior, horizontes se abrem para viver o que nunca antes foi vivido. Entregar-se ao inusitado é essencial para se experimentar o frenesi e o arrepio daquele tesão que não cabe no corpo, a ponta dos dedos percorrendo-o.

É preciso fundir o amor sem limites, mediante a língua que lambe o universo para que a alma seja tocada.

Ornar-se da poesia enquanto fôlego houver. Preparar a mesa da casa para aguardar o arauto do prazer, insistindo em harmonizar os sensos de forma tal que o que importa continue se perdendo e se achando, não necessariamente nessa ordem…

Estampa-se nas retinas aquela mulher do Apocalipse, vestida de sol com a lua a seus pés, uma coroa de 12 estrelas, grávida para dar a luz. Para os católicos é Maria, para os protestantes é a Igreja. Tanto faz, é imagem do Sagrado Feminino e por esta imagem, todas as mulheres são amadas e adoradas.

No amor ou na adoração, combina aquele transplante que comporta um coração maior capaz de acolher os fragmentos de qualquer amor e buscar sempre as novas formas que demonstram a imensidão das paixões que se sente, enquanto se conta as areias do mar. Se não se sabe ou se não se dá conta, importa  brincar com os corpos, experimentando ardentes sensações e sinceras emoções.

O amor pode até ser universal, mas não aprisiona individualidades. Na cosmoeticidade, universos desejantes de afetos, detalhes, contornos, peculiaridades se aplicam às voanças da vida para achar pouso em algum ninho aconchegante.

Mesmo alado, eternizar-se nas peles espraiando as essências que percorrem os corpos e beijam os poros.

E quando tudo estiver eriçado, soltar a fera na savana para a exaltação do cio, permitindo-se ver no espelho da alma o que é puro deleite.

Deleite de amor para construir o amor, para viver o amor, para fazer o amor acontecer em milhões de oportunidades que se expressam sem palavras.

Que a exposição, ainda que tacanha, não se furte a uma safadeza bestial. Tudo se extrapola no nada inusitado, salvaguarda dos momentos efêmeros daquela convivência íntima, quando todos os nossos monstros se reúnem num só corpo.

Deixar escorrer dos dedos as carícias ou o encontro das mãos entrelaçadas a fim de cantarolar uma canção e que alguém que me importo me acompanhe. Carinhos e malícias se revelam sem ordem.

Hora de tomar uma cervejinha e conversar bobagens.

O amor acontece…

 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Repensando o consumo, dizendo não ao consumismo...

 


Há algum tempo eu tenho refletido sobre as questões inerentes ao consumo e ao consumismo presentes em nossa dinâmica de vida social. De fato, as mídias em geral se esmeram continuamente na tarefa e elaboração de bons reclames, cujos intuitos são o de despertar, ainda mais, o desejo das pessoas para comprar objetos desnecessários ou supérfluos.

De antemão, é fundamental entendermos que o consumo tem a ver com a satisfação de nossas mais básicas necessidades, Como tal, em uma sociedade capitalista, é entendido e aceito de uma maneira convencional. Por outro lado, o consumismo é uma prática alienada cujas ações desenfreadas fazem com que uma pessoa adquira um determinado bem ou produto sem a mínima necessidade. Segundo o site Educa Mais Brasil, “O consumismo é um fenômeno social estimulado pela sociedade capitalista devido à sua capacidade de movimentar a estrutura econômica e, desse modo, garantir o funcionamento das engrenagens de consumo. Contudo, ele também constitui um aspecto característico de subjetividades fragilizadas. E, muitas vezes, está associado a transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão. Conceitualmente, o consumismo pode ser definido pela compulsividade em comprar. Desse modo, é considerado consumista o indivíduo que adquire com frequência produtos para os quais não possui necessidade. Esse fenômeno emerge com a sociedade do consumo que é estruturada no período pós Revolução Industrial e é retroalimentado pelas estratégias empregadas pelo capitalismo”. Curiosamente, o consumismo já ganhou uma classificação como doença pela OMS. Trata-se da oneomania, a doença do consumo desenfreado. Segundo dados da própria organização, cerca de 8% da população mundial sofre com este transtorno. Seus principais sintomas são: pensar em compras o tempo todo, sentindo angústia a respeito; estourar o orçamento frequentemente e gastar mais do que ganha, principalmente com itens desnecessários; gastar demais a ponto de prejudicar relacionamentos e carreira; esconder compras de pessoas próximas e mentir sobre os valores gastos; viver endividado sem a menor perspectiva de sair do vermelho; repetir continuamente o ciclo “gatilho-descontrole-ressaca-recaída”.

Uma simples olhadela no interior de nossas casas nos fará enxergar o número excessivo de quinquilharias que estão em nosso entorno, mas não servem para absolutamente coisa alguma. O fato é que em todos os dias, somos bombardeados com uma série de cores, sons e formas imagéticas, cuja finalidade é a de fazer com que cada um se sinta menos gente por não possuir aquilo que foi midiatizado. Um minuto de cada propaganda sobre determinado produto diz que nós não somos porque não temos, não possuímos.

É antiga essa discussão quanto ao ser e ao ter. Ela é complexa e envolve cada pessoa em sua respectiva zona de sentido, convocando-a a observar um novo estilo de vida ou uma nova orientação existencial. Sobre este assunto, o psicanalista Erich Fromm expressou: “Por ser ou ter não me refiro a certas qualidades distintas de um sujeito em declarações como: ‘eu tenho um carro’, ‘eu sou branco’ ou ‘eu sou feliz’. Refiro-me a dois modos fundamentais de existência, a duas diferentes espécies de orientação para com o eu e o mundo, a duas diferentes espécies de estrutura de caráter cujas respectivas predominâncias determinam a totalidade do pensar, sentir e agir de uma pessoa”. (Ser e ter, 1987, p. 43).

O universo humano pode se organizar, ou não, por intermédio dessas duas orientações, favorecendo ao ser que muitas vezes gasta o que não te, a não sucumbir-se aos mandos e desmandos da economia de mercado. Seria muito pertinente que todos os cidadãos e cidadãs pudessem repensar as suas respectivas listas de consumo a fim de consumirem, tão somente, aquilo que é vital para a dinâmica existencial. A pergunta basilar que pode e deve nos acompanhar é: “Preciso, de fato, disto que estou comprando”? Ora, comprar com certa razoabilidade é fundamental. Embora as empresas estejam agregando valores aos seus produtos, não se pode sucumbir às emoções ou mesmo à ideia de que aquilo adquirido impulsivamente vai proporcionar a felicidade.

Em geral, as pessoas possuem um lugar para morar, mas querem um lugar maior e melhor; possuem um carro bom, mas querem um carro zero km; podem viajar para uma excelente praia, mas querem ir para Cancun; o guarda-roupa se encontra cheio de roupas e sapatos, muitos deles sem uso, mas querem comprar mais e mais, consumindo todos os espaços.

O certo é que em qualquer uma dessas circunstâncias e situações, o desejo realizado não sucumbirá, pois abrirá portas para outro desejo. É um eixo sem fim. Uma coisa é certa: pessoas compram para se sentirem melhor, mas o que garante o bem-estar não é a aquisição disso ou daquilo, mas o encontro com aquele estado de espírito compatível com o equilíbrio da vida, especialmente o que favorece o bom entendimento com pessoas próximas ou distantes.

Ao final das contas, o que vale mesmo é o consumo de coisas e objetos que nos sejam realmente importantes, dentro dos respectivos orçamentos. Planejar o que se precisa é fundamental. Uma dica pertinente é focar no que se quer e precisa, cotejar o produto por algum tempo até que haja a possibilidade da aquisição definitiva ou não.

Assim, vale à pena se ornar do básico do básico para sobreviver e se expressar socialmente. Acumular coisas não traz sentido algum, porque, em geral, sempre usamos as mesmas coisas no habitual. Agora, de boa, tenha as suas roupas bem legais, mas nada além daquilo que é necessário.

No fundo, como diria Milton Santos: “Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão”. Optemos, conscientemente, pela nossa cidadania.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Fugindo dos maniqueísmos, desistindo do que não vale à pena...

 


Por mais que todos nós lutemos contra a estrutura de pensamento maniqueísta que divide o mundo entre o bem e o mal, tornando a multiplicidade de argumentações extremamente empobrecidas, sempre nos debateremos com essa tônica em discussões e falácias no cotidiano. Invariavelmente, buscamos separar ovelhas de bodes e assim, quem sabe, estabelecermos diferenças em relação a si e ao outro.

Entretanto, agir dessa forma somente provoca mais cisões e separações. De alguma forma, torna-se fundamental compreender que não há uma luta entre o bem e o mal, mas sim, uma luta entre princípios, pois como bem sabemos, pessoas pensam diferente de outras pessoas e, igualmente, pensam diferente em relação a quase todos os temas inerentes à vida. Nesta premissa reside a riqueza da diversidade.

Numa modernidade como a nossa, quem sabe líquida, para usar aqui a expressão de Zygmunt Bauman, fechamentos de ideias absolutas não cabem. Embora seja evidente o fato de que muitos agrupamentos sociais procurem determinar zelosamente seus limites, o campo das ágoras, a arena destinada à discussão ou o diálogo entre os diferentes, continua a ser o terreno fértil onde as possibilidades mais criativas em prol do bem-estar comum entre as gentes pode se afirmar. Em minha percepção, as boas resoluções relacionais podem favorecer uma melhor harmonização dos sentimentos, quando possível.

Ora, todos somos sínteses de contradições. Pessoa alguma pode ab-rogar para si o direito de ser pura ou isenta de paradoxos. Pessoa assim não existe e todos nós sabemos disso. Então, como sínteses de contradições, cada ser pendula entre as paixões e as razões e, muitas vezes, se perdem em ambas. Por isso, não concordo com as argumentações que polarizam as pessoas, quando é mais sensato polarizar as ideias. Pessoas não precisam ser julgadas, mas as suas ideias sim. Claro que as ideias e as posturas têm a ver com as pessoas. Entretanto, existem momentos em que as paixões falam mais alto e as pessoas passam a se ferir com palavras e com comportamentos. Quando um conflito chega neste estágio, não há vencedores. Todos perdem, infelizmente.

Há momentos em que o golpe de sabedoria requer o aquietar do coração e a contínua luta contra as hostes das ideias equivocadas, sem a perda da ternura pelas pessoas. Eu ainda acredito que por intermédio dos atos cuidadosos para com uma pessoa, é possível fazer a diferença na vida, mesmo quando necessário se recolher à caverna com o intuito buscar a sanidade dos sentimentos. Sempre é preciso aliviar as tensões e estender os braços em direção ao outro, mesmo o outro que pensa de forma diametralmente oposta.

Na época da ditadura militar, poucos ingentes determinavam como deveria ser a vida da maioria. É horrível ter a vida determinada por tartarugas que estão em cima das árvores. Eu, particularmente, não tenho nenhum problema em cumprir determinações, desde que elas sejam promulgadas por quem se constitui legal e legitimamente. Doutra forma, acesso o meu modo “desobediência civil” e ignoro os processos e as tartarugas.

Com essas premissas em mente, eu resolvi aplicar em minha vida dinâmica algumas desistências pertinentes que me oportunizam viver mais consciente de minhas próprias balizas pessoais. Seguem-se:


1. Desisto de querer controlar tudo em minha vida ou na vida de qualquer pessoa, a fim de respeitar, mais detidamente, os movimentos e as experiências, os ciclos dos ventos e das águas sem apressar qualquer deles;

2. Desisto de viver a minha vida na linha da mediocridade para ser mais ativo nos relacionamentos com as pessoas abertas aos diálogos e bons debates;

3. Desisto de achar que pessoas e problemas conspiram contra o que sou ou deixo de ser, o que faço ou deixo de fazer. O fundamental é sempre ligar o famoso botão do “foda-se”;

4. Desisto de viver uma vida importunada com o jeito de ser do outro, para me gastar com as disputas que realmente importam no tecido social;

5. Desisto de jogar a culpa no outro, para assumir o fato de que a responsabilidade pela minha vida é tão somente minha;

6. Desisto de cargos, posições sociais ou mesmo de me afirmar em um pretenso status quo, para assumir a minha postura, pois o mais importante é viver como dá, como posso. Enquanto aguentar, vou mantendo o meu carro velho em ordem;

7. Desisto de criticar as pessoas para estabelecer uma autocrítica;

8. Desisto de abraçar meu egocentrismo, para ser mais ego-transcendental e, assim, viver de forma mais espontânea a minha jornada existencial;

9. Desisto de viver o amor na superfície, para aprofundá-lo em suas dinâmicas com a finalidade de experimentá-lo como genuíno néctar em meu coração;

10. Desisto, enfim, de desistir de viver a minha vida sem o sabor da amargura, para destilar em meu peito a alegria e a autenticidade de ser quem eu sou.

Assim, diante das lutas estruturais dos famigerados pensamentos empobrecidos, anteriormente denunciados, afirmo uma vez mais a fulcral consciência para se fugir dos contrassensos com vias a investir em relações leves e divertidas. Nada de tensões bobas e infundadas. O respeito à diversidade é fundamental, mas viver de boa, sem pesos e compromissos bestas é ainda mais. Importa desistir do que não vale à pena.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Poesia e existência...

 


A flora da água do lago é encrespada pelo mavioso vento de um dia quente de verão. Peixinhos que não podem ser vistos nadam e lutam pelas suas parcas sobrevivências, enquanto saboreiam musgos e outros pequenos seres das profundidades. Tudo parece calmo, como se o confronto da água, da terra, do fogo e do ar, tampouco os conflitos entre os seres miúdos, nunca tivessem existido.

Nas margens do lago, a moldura do mato selvagem sem domador ou jardineiro que dê jeito. Libélulas pairam e disparam sem que os olhos possam acompanhar os seus movimentos enquanto pequenas abelhinhas colhem mililitros de néctar para abastecerem seus celeiros de cera.

As árvores robustas próximas à margem são entrecortadas pelos raios do sol brilhante, enquanto as maritacas, menos agitadas à tarde, aguardam o novo frescor de uma nova manhã. Daquela casa, exala-se um som romântico, uma música francesa, uma que diz que não há espaço para o arrependimento de coisa alguma – Je ne regrette rien.

Os olhos entreabertos encontram o brilho interior onde o mundo possui tonalidades pulsantes e rubras. O coração bate enquanto o pulso sinaliza a vivacidade da corrente sanguínea. Nele uma frase que ecoa diuturnamente: Hic et Nunc – Aqui e Agora. Nas múltiplas vivências de minha persona em metamorfoses, o cérebro brilha e os neurotransmissores se agitam em frenesi. Tudo está iluminado dentro da caixola das percepções, lembrando a Via Láctea, lugar maior da minha habitação. Lugar maior que nem imagino como é. Moro no desconhecido e me imagino como um alguém.

Ao alcance das mãos, toda a beleza dos seres que se querem bem, do amor que acontece em atos genuínos e afetos cristalinos. Não há risos, mas comoção intensa. Os olhos banhados se tornam mais brilhantes e as íris douram. De perto e de longe, gotas autênticas de mel, mas a colmeia das abelhas Jataí fica lá no alto do morro, onde o mato é denso. O néctar foi colhido e acolhido vivamente. O castelo de cera está garantido.

Enquanto percorro a trilha aberta, em meio ao capim gordura e as árvores crescentes com caules ainda possíveis de serem envergados, sou visitado irremediavelmente pelos mosquitos que não vejo, mas se refestelam em minhas pernas, em minha pele morena. Uma Joaninha, daquelas vermelhinhas, gorduchinhas e brilhantes, pousa em minha mão direita, encantando a minha retina. Minhas percepções se alteram ainda mais quando quedo o meu olhar para a revoada de pica-paus amarelos. O encanto redobra e revisito as minhas memórias mais pueris, de quando eu assistia um determinado seriado infantil.

A flora do lago agora espelha o céu. Confundo os dois mundos e me perco em minha eternidade. Ela dura quase um segundo, assim como a minha felicidade. Quero que este bem-estar permaneça. Detestaria dar lugar a qualquer tipo de angústia ou ansiedade que não sejam as existenciais. Sei que um dia vou fenecer, mas, por enquanto, quero abraçar o mundo que me abraça para afetar meus afetos e desafetos com minha sensibilidade feminina.

E viva a existência… 

domingo, 31 de dezembro de 2023

Esperançando como as crianças esperançam...

 


A vida exige de cada um de nós certa atitude para enfrentar os desafios complexos do dia-a-dia, pois cada um deles possui sua constituição inusitada. Diante das múltiplas afrontas, acabamos por desenvolver certo temor e cedemos espaços para a angústia e a possibilidade do desespero. Em momentos tais como este, o pensar humano se refugia na atitude de se dar um salto no escuro ou tentar fugir das realidades que confrontam a existência.

Uma gama de pessoas entende que este confronto somente pode ocorrer por intermédio da esperança. Em geral, o que se convencionou se chamar de esperança é uma espécie de mola precursora para aqueles que vivem com vigor a experiência da existência. Para outros, ela é a contínua respiração ofegante por um novo tempo, um novo mundo. Mas será mesmo?

O antigo adágio popular expressa: “a esperança é a última que morre”. A inspiração desta frase remonta a antiguidade e a mitologia grega. O titã Prometeu havia roubado o fogo do Olimpo para partilhá-lo aos seres humanos. Ao mesmo tempo, trancafiou em uma caixa todos os males do mundo, inclusive a esperança. Recebeu de Zeus o castigo de ser preso em uma pedra para ter o seu fígado devorado por um abutre durante o dia. O órgão se recuperaria durante a noite e o castigo eterno se repetiria. Além disso, Zeus cria Pandora, uma mulher linda que se casa com Epimeteu, irmão de Prometeu. Na terra, Pandora encontrou a caixa de Prometeu e a abriu, liberando todos os males e os sofrimentos à humanidade, inclusive a esperança – Elpis. Mas por que a esperança também fora aprisionada nesta caixa? Ela possui uma conotação maligna?

Para os gregos, a esperança era filha da mentira e, portanto, era considerada má por afastar os seres humanos dos ideais da verdade que não poderia ser ignorada. Decerto, se uma determinada expectativa quanto ao futuro paralisa uma determinada pessoa, a esperança se torna extremamente negativa. O filósofo Nietzsche, seguindo esta linha, afirma que a esperança é o pior dos males, pois se refere a confiar em um futuro incerto.

De fato, o futuro é incerto. Felizmente ou infelizmente, não temos como controlar as coisas que acontecem em nosso cotidiano. Existem muitas situações que fogem ao controle das mãos ou das mínimas organizações de vida. Quando as pessoas se deparam com as suas respectivas complexidades existenciais, sentem-se atormentadas e, em muitos casos, se angustiam em pensamentos mil, até perderem o sono. Entretanto, é preciso considerar que apesar de todas as complicações da vida, cada pessoa em sua subjetividade pode se esmerar em fazer diferente a sua própria realidade de vida.

Um caminho pertinente é o de se respeitar o tempo presente como as crianças o respeitam. É preciso aceitar o desafio de olhar o tempo presente sem a necessidade de se buscar respostas quanto ao futuro. É preciso que os olhos brilhem dentro do espectro de espontaneidade tão comum ao mundo das crianças. Ora, as crianças não se gastam pensando no futuro. A esperança nas crianças se traduz na possibilidade de vivenciar as experiências lúdicas sem a mínima preocupação quanto ao que vai acontecer amanhã. É desnecessário nutrir altas expectativas quanto ao tempo vindouro e, tampouco, tornar o que se concebe como esperança como algo desnecessário. Aliás, mais do que esperar, é necessário esperançar, todavia sem aquela ansiedade para se alcançar um determinado objetivo. Deve-se, sim, esperançar no cotidiano, vivendo o que dá para se viver, como se quer viver.

Viver sem muita expectativa quanto ao futuro não significa se tornar pessimista, mas saborear o tempo presente de forma mais perceptiva. Acho que, aqui, vale um antigo conselho que eu recebi do meu pai: “Filho! Coloque as suas barbas de molho”. E olha que eu nem tenho barba. Descobri que essa expressão está ligada a um provérbio espanhol que diz: “Quando vir as barbas do seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho”. Aliás, descobri também que na antiguidade e na Idade Média, a barba simbolizava honra e poder. Se cortada, representava uma grande humilhação. Independente de comentários aleatórios, certo é que essa expressão tem a ver com desconfiar daquilo que se apresenta diante do olhar. Acho mais prudente essa postura a ser surpreendido por alguma novidade que possa ocasionar algum desconforto. Ora, não temo coisa alguma que me desafie na vida, a não ser a hipocrisia dos que sorriem pela frente e ameaçam pelas costas. Por isso, prefiro colocar as barbas de molho, mesmo sem tê-las, como já disse. Ademais, minha alma é povoada por uma série de sentimentos difusos que se deslocam com facilidade nos meus jogos mentais e me dão a sensação de múltiplas transitoriedades. O poeta Raulzito declarou a necessidade de se tornar uma metamorfose ambulante, a ter sempre a velha opinião formada sobre tudo. Corroboro com a intuição do poeta e me sinto igualmente em completa e complexa transformação. Talvez decorra daqui essa minha dúvida inquietante frente à esperança. Por isso, prefiro a teimosia das crianças em sua sanha pela vivência cotidiana. Sigo aqui, também, um princípio de Gandhi: “Coisas que nos parecem impossíveis, só podem ser conseguidas com uma teimosia pacífica”. Nos dicionários, teimosia se define por uma persistente obstinação às próprias ideias, gostos etc. Eu sei que para muitas pessoas a teimosia tem um aspecto completamente negativo, mas no arcabouço dessa reflexão, abarca uma conotação positiva e extremamente propícia para esses tempos de transitoriedades ou metamorfoses.

Por uma razão inerente a mim mesmo, somente consegui alcançar o que alcancei por causa da minha teimosia em dado momento presente. Eu sei também que pelo fato de me autodesignar um teimoso, acabo por ser considerado um chato para muitos. Que se dane. Confirmo aquilo dito pelo mesmo poeta de antes: “Não sei aonde vou chegar, mas estou no meu caminho”. Então, independente do que se estabelecer frente aos meus olhos, vou continuar com minha teimosia no presente, pois é a única forma de continuar sobrevivendo diante do caos que se instala travestido em discursos informes.

Os dias muitas vezes são sombrios e nublados. Mesmo diante da minha recatada esperança que se concretiza numa espécie de teimosia chata, faço minhas as palavras de Darcy Ribeiro: “Na verdade, sou um homem feito muito mais de dúvidas que de certezas, e estou sempre predisposto a ouvir argumentos e a mudar de opinião. Tenho mudado muitas vezes na vida. Felizmente”.

E é isso o que eu vou fazer em meu tempo presente, esperançando, mudando de opinião, metamorfoseando-me sem muitas expectativas ilusórias quanto ao que virá amanhã.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Das emoções inteligentes e os sentimentos conscientes

 


Viver requer de cada um de nós uma série de comprometimentos diversos com os eventos que nos ocorrem no cotidiano e com as pessoas com as quais nos envolvemos direta ou indiretamente, distantes ou intimamente.

Na verdade, cada um de nós é desafiado a equilibrar as emoções que fluem como vulcões em erupção da interioridade humana. Gosto sempre de fazer uma distinção entre o que são as emoções e o que são os sentimentos. A emoção é o que brota no momento exato em que os sentidos percepcionam algo ou alguma coisa que escapa ao habitual, como, por exemplo, quando vemos um filme e nos emocionamos, rindo ou chorando, ou ainda, quando enfrentamos um acidente de percurso ou o ataque de algum animal. É o que ocorre, também, quando entramos em uma discussão acalorada com alguém, num conflito que se estende em gritos, berros, choros e nervosismos. Num momento como este, tudo e todos se perdem. Instala-se o reinado das emoções que se descontrolam.

Os sentimentos, por sua vez, também em minha concepção, se configuram como a boa resolução das emoções. Então, no momento em se sente que algo vai explodir ou convulsionar na corporeidade, é preciso buscar a possibilidade de diálogo internalizado. A boa conduta e possível resolução dos sentimentos pode fazer com que as emoções se tornem inteligentes. Em suma, as emoções inteligentes são as resultantes de um processo de autoconhecimento, autocontrole e autoestima, mediados pela consciência que, por sua vez, acalma as emoções deslocadoras do ser. Para quem se entende em um processo de contínua mudança ou identidade fluída, uma espécie de metamorfose ambulante, para fazer deferência ao cantor Raul Seixas, os entroncamentos complexos e confusos pertencentes ao campo emocional dos eventos e das pessoas são tirados de letra.

O contínuo desafio quanto a se viver bem e alcançar o bem-estar é sempre confrontado pelo caudal de situações difíceis que exigem uma postura marcada pelas emoções inteligentes, mesmo quando se é tomado por sensações e percepções diversas que se encontram distantes do entendimento pessoal ou da sempre requisitada zona de conforto. Que fique claro, nada tenho contra as respectivas zonas de conforto. Cada um sabe a sua e deve conquista-la da melhor forma possível. O que não vale é a preguiça para se tornar um ser humano bem equilibrado na dinâmica existencial.

Um dos mais profundos elementos para a elaboração das emoções inteligentes é a empatia. Colocar-se no lugar do outro para sentir o que o outro sente ou, ao menos, percepcionar o que o outro anseia, é um dos elementos mais preponderantes para a organização mental dos sentimentos. Isso evita, por exemplo, o surgimento de anseios equivocados e interpretações apressadas quanto a pessoas que compõem o tecido social. Em outras palavras, torna-se fundamental que o sujeito no auge de sua empatia, não sendo bobo, tenha a oportunidade de se conhecer bem, sabendo dos seus limites, assumindo aquilo que de fato é importante em seu determinado momento da vida.

Particularmente, tenho vivido muitas situações em que as vontades eruptivas do meu próprio ser tendem a consolidar ações que certamente vão criar constrangimentos a mim ou a alguém. Para evitar tais constrangimentos, eu procuro cadenciar as minhas emoções transformando-as em palavras, em narrativas e, até mesmo, em textos que favoreçam a preservação da minha identidade, o que é um grande desafio.

Expressar-se da melhor maneira possível em um ambiente qualquer nem sempre é fácil, mesmo porque as pessoas, em geral, precisam se esmerar em suas pretensas verdades. Mas quem pode ser inteiramente verdadeiro ou honesto com o outro? Ora, uma verdade até pode ser dita, mas ela precisa deslizar amorosamente na vida de outrem. Algo dito de forma direta, sem filtros, pode gerar sentimentos desconexos e interpretações díspares. Todos nós, sem exceção, somos seres da contradição e dotados de identidades fluídas. Sendo assim, o sentimento de impermanência e transitoriedades, tão comum também à natureza que organiza caoticamente este mundo e suas polissemias, é respeitado em alto e bom tom.

Enfim, eu gostaria muito que cada um de nós pudesse privilegiar o seu melhor lado, evitando a defesa aguerrida de pontos de vistas que não são, necessariamente, particulares; evitando-se as alterações de voz; evitando-se a raiva; evitando-se os ressentimentos, cadenciando as situações de forma tal a que não se perca a idoneidade de quem se é na essência, deixando vazar desnecessariamente, e somente, a aparência. Nunca é pertinente a exposição efêmera a quem não é interessante a revelação íntima do ser. Nunca é pertinente deixar de se viver bem com a consciência pessoal, exalando pelos rincões deste mundo as emoções inteligentes e os sentimentos bem resolvidos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Solidão para quem precisa dar tchau à solidão

 


Será possível sentir a solidão mesmo em convivência com outras pessoas? Qualquer resposta premeditada seria ridiculamente idiota. Talvez, sim! Talvez, não.

Com este dilema no córtex pré-frontal, eu analiso os encontros solitários que ocorrem nos desertos existenciais. Para os incautos, uma singela consideração: o deserto é um lugar para poucos. Em especial, somente suportam as areias no deserto aqueles que se preparam para ele ou os que são forçados a vivê-lo, mesmo contrariados.

Há, indubitavelmente, uma relação muito próxima entre a solidão e o deserto que, metaforicamente, pode ser considerado a habitação da alma. A alma, se a concebermos como os gregos a concebiam, é o campo da psique e da subjetividade humana, ambiente paradoxal e desértico onde os desejos, os cerceamentos e as possibilidades se agitam continuamente em busca das respostas às perguntas insolúveis. No silêncio da solidão desértica a alma perambula como se fosse aventureira desbravadora. Ela só e todos sós com os pés descalços na areia quente.

A solidão que visita cada ser relaciona-se às dimensões psíquicas. É a solidão em se ter muito para oferecer ao outro sem a oportunidade de partilha. É a solidão de desejar a comunhão da partilha quando não se tem espaços ou motivos para ela. É a solidão que insiste e até persiste em ser quando não há possibilidades para ser. Mas, quem sabe, depois das chuvas, o arco-íris dê o ar da sua graça?

Em meio aos temores, a ansiedade não será ofuscada pelo sentimento de nada ser, nada poder. Na solidão, o desprezo requererá motivos para o ajuntamento e a possibilidade de sonhar com um novo tempo, uma nova vida.

Sei que muitos não conseguem ver a luz no fim do túnel. Ao contrário, tudo lhes parece cinza e sem definições. Nessa paleta de uma cor e algumas tonalidades, tudo pode ser e nada tem razão...

Somos todos solitários em busca de algo que, por estar tão ao nosso alcance, não podemos avistar. Somos assim solitários como Tales de Mileto, que sendo filósofo, teve a oportunidade de prever um eclipse, mas não conseguiu perceber o buraco diante de si. Caiu no buraco e foi ridicularizado pela mulher de Trácia.

E assim, a solidão continua a doer e provocar feridas profundas em todas as pessoas que, não tendo medo da dor provocada pelas feridas, fogem das feridas sem dor e sem cuidados. Optam, muitas vezes, pela caverna, o recôndito envolvido de trevas e obscuridade. Quem sabe um tempo de esquecimento do que se é, do que se faz, do que se almeja para mergulhar no abismo do silêncio e provocar o misto paradoxal do prazer, fugindo da autocomiseração. A solidão se compromete com a solidariedade e a solidariedade avilta-se com os jornaleiros da vida.

E nessa jornada efêmera e comprometida somos peregrinos, somos companheiros, somos talvez... e coisa alguma possuímos. Lançamo-nos ao inusitado da existência, sendo afrontado pela dimensão lúdica, vivendo ou morrendo como quem, mesmo em meio à solidão, continua acreditando na vida.

De uma maneira mais particular, vivi a solidão no primoroso tempo da adolescência, onde o amor dava os seus primeiro berros. Lembro-me que aprendi a tocar violão com as músicas que povoavam a cabeça da maioria dos meus colegas e amigos. Era a década de 80. Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, entre outros. Além das tradicionais bandas de Rock, eu gostava também da irreverência da Blitz. A voz estranha de Evandro Mesquita era interessante de ser ouvida porque apresentava, ele mesmo também, a referida irreverência.

E nesse processo de aprendizado, cansei de ensaiar a música que tinha por título: A dois passos do Paraíso. Seu início: “Longe de casa, a mais de uma semana. Milhas e milhas distantes do meu amor...”. De alguma forma, todas as pessoas, física ou emocionalmente, sempre se encontram a milhas e milhas dos seus amores. Mas distância alguma nesse mundão pode afastar pessoas que se gostam. A subjetividade e a efemeridade do amor ganham na jornada dos dias uma dimensão real inexplicável, que toca a alma e se concretiza num sentimento profundo de presença ausente, típica dos amantes dados à poesia.

Sinto que mesmo a milhas e milhas de distância, não posso impedir que os desejos se misturem, evidenciando o toque das almas. O acontecimento amor precisa ser eivado do carinho dos namorados e o desejo ardente dos amadores.

No cotidiano, quando se recebe a visita da solidão, é preciso sentir a pessoa amada bem próxima, como se fosse a presença de uma fada cuidadosa e zelosa. Todavia, é preciso se desfazer rapidamente dessa imagem pueril, pois o desejo pela beleza tem que deixar tudo bem vivo. Quando longe de casa, torna-se urgente desejar o envolvimento dos abraços, o toque dos beijos e a delícia das falas cheias de bobagens ditas à borda dos ouvidos.

Invariavelmente, um ser só é uma pecinha que falta no outro ser. Uma pecinha que sem a sua parte maior não funciona. Assim, é preciso uma mútua redescoberta como numa primeira vez, quando uma pessoa toca outra pessoa, sem distinção de gêneros ou orientações. Em meio aos gemidos e sussurros do prazer, o mais íntimo, importa se pertencer ao outro com o amplo direito de se perder para se achar em quem está próximo.

Nessas horas, dizer que se ama é muito pouco. Na verdade, no gosto e no gozo, amadores fazem estrelas e apequenam o planeta azul dando tchau à solidão.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

E por falar em prioridades...

 


Eu sempre tenho abordado em meus textos e em minhas palestras sobre a importância de não vivermos de forma automatizada na complexidade do tecido social. Essa premissa assertiva objetiva, simplesmente, a possibilidade de favorecer a organização da vida nas respectivas agendas do nosso cotidiano, afinal de contas, como nos remete a sabedoria milenar, “há tempo para todas as coisas”. Tudo o que ocorre na face deste planetinha chamado Terra se qualifica dentro de um ciclo contínuo dos ventos e das águas que não pode ser controlado. Todavia, em tempos quentes como os que estamos experimentando na atualidade, condicionamos os ventos em ventiladores e as águas em tubulações e recipientes. Mas, ainda assim, são entidades libertas e que não podem ser controladas.

Diante do importante fato de que não podemos controlar os entes, tampouco a nossa própria existência, torna-se fulcral pensarmos no parco estabelecimento das prioridades, pois a vida requer uma mínima organização em suas demandas. Em que pese a possibilidade de navegarmos em um rio contemplando todas as belezas naturais que se revelam aos nossos sentidos, não podemos nos eximir ao fato de que alguns aspectos precisam ser percepcionados de forma mais atenciosa. Há instantes que são únicos e devem ser fotografados pela retina. Da mesma forma, há demandas que precisam de considerações mais reflexivas, pois se tornam fundamentais para os alicerces existenciais.

Entretanto, o que vem a ser prioridade? Segundo o dicionário: “prioridade é a condição de algo que necessita correr de maneira imediata, preferencial ou emergencial. Normalmente, a prioridade está relacionada a algo importante que ocorre em primeiro lugar, quando em uma relação com outras questões, sejam de tempo ou de ordem”. O psicólogo humanista Abraham Maslow nos oferece uma perspectiva muito interessante ao apresentar a sua pirâmide de necessidades. Sua teoria é conhecida como uma importante teoria de motivação.

Em sua premissa, as necessidades humanas se qualificam em uma escala de valores que devem ser transpostos. Em outras palavras, no momento em que uma pessoa vence uma necessidade, outra sobrevém em seu lugar de acordo com a importância e a influência. Os cinco níveis a serem superados são: Necessidades fisiológicas básicas (respirar, comer, beber, dormir e transar); Necessidades de segurança; Necessidades de associação (harmonia relacional e afetos); Necessidades de Autoestima (dignidade, respeito, prestígio e reconhecimento) e Necessidades de realização integral (ser autônomo e fazer o que se gosta). No aprofundamento dos seus estudos, Maslow identificou ainda outras duas necessidades adicionais: a Necessidade de conhecer e entender (conhecer e entender o mundo ao seu redor, as pessoas e a natureza) e a Necessidade de satisfação estética (beleza, simetria e arte em geral). Sobre esta última, Maslow expressa:

"Um músico deve compor, um artista deve pintar, um poeta deve escrever, caso pretendam deixar seu coração em paz. O que um homem pode ser, ele deve ser. A essa necessidade podemos dar o nome de auto realização.” Abraham Harold Maslow (1908 - 1970).

 

Com base na ideia da pirâmide das necessidades de Maslow, podemos estabelecer algumas prioridades com base nos objetivos que pretendemos alcançar sem sermos seduzidos pela euforia do sucesso. A finalidade de visualizar as prioridades é fundamental, pois no processo de elencar aquilo que tem que vir antes ou depois, a orientação básica deve sempre se perguntar pelo que é importante e/ou urgente. Essa dinâmica ajuda cada pessoa na identificação daquilo que é a prioridade. Ora, existem coisas que são importantes e urgentes; outras que são importantes, mas não urgentes; outras, ainda, que são urgentes, mas não importantes e outras, enfim, que não são importantes e nem urgentes. Brincar com estas ideias ajuda cada ser em uma mínima organização das prioridades. A organização não significa o estabelecimento de um processo automatizado, mas do reconhecimento à luz de nossa própria existência, das situações que podem nos favorecer na complexidade dos dias vividos, a fim de que o bem-estar pessoal se estabeleça na dinâmica existencial.

Imaginemos psicodramaticamente uma dinâmica: encontramos uma lâmpada mágica e nela um gênio. Este vai nos dar a oportunidade de fazermos rapidamente três pedidos concretos, oriundos dos nossos desejos. Será que estaríamos preparados para fazê-los ou titubearíamos? Será que teríamos em claridade o que, de fato, desejamos em nossa interioridade? Será que saberíamos, de fato, quais são as nossas prioridades?

Diante de uma possibilidade tal como esta, seria salutar que as necessidades e as prioridades de cada ser estivessem na ponta da língua, para que pessoa alguma seja surpreendida quando visitada pela surpresa.

Enfim, o estabelecimento das prioridades não pode ser assumido como uma camisa de forças, mas como uma orientação para que os horizontes não se percam, pois como bem disse o Gato Cheshirepara a Alice: “Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho serve”.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

O bufão nosso de cada dia

 


Na chamada e reconhecida Idade Média, a figura do bufão se evidenciava nos palácios e se caracterizava como uma representação alusiva ao contrário da realidade aparentemente revelada. De fato, o bufão era uma figura marginal cuja fala era destoante e, ao mesmo tempo, proibida e ouvida por todas as pessoas próximas. Encontrava-se sempre na oposição do que era assimilável socialmente.

Geralmente, o bufão possuía uma deformidade física ou era uma pessoa com nanismo. A deformidade física era percebida como uma espécie de afronta ao comum ou ao relativamente comum. Além disso, estava sempre vestido de uma forma não usual para chamar, ainda mais, a atenção das gentes. Segundo a Escola de Teatro de São Paulo, o termo bufão se refere a:

 

Uma figura dramática marginalizada da idade média, uma espécie de palhaço caracterizado entre o grotesco e o charme; era utilizado para se referir a pessoas muito feias ou com algum tipo de deformidade. Os bufões zombavam das pessoas consideradas “bonitas” e também criticavam os setores dominantes da sociedade, tais como o Governo, a Igreja e a burguesia. Típico da dramaturgia cômica, o arquétipo concentra em si a manifestação exagerada dos sentidos humanos. O bufão também é popularmente conhecido como o ‘bobo da corte’ ou o ‘arlequim’’’. Transgressor das regras sociais, ele utiliza muito do desprezo, ironia e da desinibição em suas representações. (Disponível em: https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/o-que-e-bufao).

 

Ora, é factível pensar que todas as pessoas possuem um lado arquetípico bufônico em suas vidas, uma personalidade distinta das que são naturalmente percebidas pelos outros na complexidade do tecido social. Aliás, todas as vezes que nos surgem sentimentos os mais diversos, principalmente os marcados pela “loucura” ou por desvios que se estabelecem sem as máscaras, sem as fantasias ou sem nenhum tipo de aprisionamento, o bufão se evidencia desfraldando a realidade de sua persona mais autêntica e mais interiorizada. O lado bufônico de cada um de nós revela a livre expressão do ser e a ausência da mínima possibilidade de se querer fazer média com qualquer pessoa que seja. Ao mesmo tempo, não se afina com a manutenção dos poderes desta ou daquela autoridade. Ao contrário, ri e gargalha do poder.

Na dinâmica do amor como um acontecimento, a presentificação do bufão que há em cada um de nós concebe a realidade que se dispõe diante dos olhares através de formas (i)lógicas e despudoradas. O bufão em seu espaço de espontaneidade inadequada, eivado de liberdade na dimensão do amor, pode dizer muitas coisas e apresentar possibilidades e situações outras que chocam e subvertem as realidades que se encontram cristalizadas.

Eu entendo que pessoa alguma deve aprisionar o seu bufão interior, especialmente se existem nos horizontes utópicos emocionais a possibilidade da manifestação do acontecimento amor. Aliás, a estrutura existencial de cada pessoa não pode prescindir a manifestação bufônica. A lida diária e todos os seus inconvenientes requer uma boa dose de comicidade e bom humor, especialmente na dinâmica relacional, quando o cotidiano é embotado e a vida fica embrutecida, desembocando no desequilíbrio das relações que envolvem as palavras e os gestos. Nas dinâmicas internalizadas, pode-se considerar o entendimento das regras, mas, também, a abertura para a manifestação do sempre estranho habitante de outro mundo que vive em cada um de nós, aquele capaz de desorganizar a vida relacional, dando-lhe novo sabor.

Mais do que sentimentos, o amor, ou o que se pode entender dele, refere-se a múltiplas atitudes que ocorrem entre duas pessoas ou mais. É um acontecimento que extrapola as relações sociais. No fundo, o que pensamos ser o amor é o nome que a gente dá a um monte de coisas que a gente sente ou fala e não entende. Existe coisa mais bufônica do que esta?

Essa perspectiva pode favorecer o convite a que cada pessoa se abra à propensa discussão internalizada sobre o significado do desejo e do prazer na corporeidade. Ao amar, o amador ou amante não pensa em outra coisa a não ser em seu próprio bem-estar, seu estado de satisfação. Essa coisa assimilada pelas pessoas de que o amor é uma entrega ou um cuidado é pura balela. Se assim entendemos, nos depararemos com a fragilidade que é existir e viver o amor em suas múltiplas formas, configurações e manifestações. E está tudo bem, dentro dos conformes.

Essa característica camaleônica das emoções e dos sentimentos em cada um de nós se encontra diretamente coligada às relações afetivas e, mais do que isso, à autêntica expressão do amor que encontra maior e mais significativa expressividade em sua manifestação bufônica. A pessoa que vive expressando o amor não pode prescindir uma boa dose de “loucura”. Como diria Nietzsche: “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura”.

Portanto, acho que todas as pessoas deveriam se permitir mais a alegrai e a posse de coisas leves, sem a tônica da cobrança, sem o receio do desajuste ou o medo de passar vergonha. Anula-se o melhor da vida quando se provoca o aviltamento das possibilidades do ideal de liberdade ou então, quando se perde a precisa intensão de se querer viver como quer, dentro das múltiplas possibilidades ofertadas pela vida. É preciso um pouco mais de desordem ao caos que imaginamos ou vivemos. Nada de valorizar a seriedade e a severidade da vida. Abraçar a comicidade inusitada é o que abre o amor em diversos paralelos desconexos. O bufão nosso de cada dia precisa quebrar o nosso cotidiano e oferecer outra lógica que não seja tão pesada a nós, mesmo que seja brega e cafona.

 

 

Pedacinhos de Eternidade em nossa pequena existência

    Somos seres que colecionam memórias e, por esta razão, guardamos em caixas ou gavetas, ou em caixinhas nas gavetas, alguns objetos ou ...