Seria praticamente perfeita uma
sociedade onde cada pessoa cuidasse exclusivamente da sua própria vida.
Infelizmente, vivemos uma
sociedade onde a maioria das pessoas se preocupa com o que está acontecendo com
a vida do outro, como se a vida do outro e seus pormenores, sejam quais forem,
lhes dissesse respeito.
Eu até entendo a dinâmica que
envolve a vivência humana em um sistema social, assim como as possibilidades e
impossibilidades decorrentes das relações interpessoais, mas as aberturas para
conversas e diálogos possuem os seus limites.
É essencial que o todo sistêmico
das relações sociais entenda que cada pessoa carrega diversas situações em sua
própria historicidade e os caminhos e descaminhos que cada um vivencia em sua
própria vida deve ser respeitado. Não cabe aos paladinos da pretensa justiça o
apontar de dedos em riste ou mesmo a acusação fortuita.
No fundo, no fundo, pessoa
alguma sabe o que acontece na intimidade do outro. Pode-se ter alguma
percepção, mas jamais um conhecimento. Ao contrário, o que se vê é justamente a
ausência de um conhecimento mais profundo sobre as questões que atravessaram e
ainda atravessam a vida, a psique e a própria existência de cada pessoa.
Seria muito pertinente que,
antes de qualquer observação ou comentário em relação ao outro, cada um
buscasse um conhecimento mais aprofundado das razões que levaram aquela pessoa
a tomar aquele caminho ou aquela decisão, seja ela qual for.
Ao mesmo tempo, vale a pena a
premissa de que pessoa alguma precisa dar palpite sobre como deve funcionar a
vida alheia, afinal de contas cada um sabe como melhor deve vivenciar as suas
experiências contíguas.
Há uma premissa significativa
aprendida em um velho livro de sabedoria que diz que ninguém deve se preocupar
com o cisco que está no olho do outro, mas se deter, especificamente, ao
graveto instalado em seu próprio. Mediante essa premissa de sabedoria, a
constatação de que cada pessoa deve se ocupar do graveto que se encontra no seu
próprio olho é a atitude mais sensata.
Acresce-se a esse princípio a
ideia de que qualquer tipo de julgamento e comentários distorcidos devem ser
evitados. Cada pessoa carrega em si uma dor, uma falta que não pode ser
explicada e tampouco entendida pelo outro em sua circunstância vivencial.
Todos nós temos as nossas
rachaduras. Pessoa alguma pode bater no seu próprio peito e achar que é melhor
do que a outra. Humildade é tudo.
Eu detesto o sentimento que
alguns nutrem de se julgarem os algozes dos outros, os que se julgam mais
sábios, mais conscientes, mais bonitos, mais bem posicionados.
Por exemplo, na atualidade,
sempre me ocupa a ideia de que cada um faz o que bem entender da sua vida.
Acho, inclusive, que deveríamos empreender um manifesto quanto ao direito de
fazer “merdinha”.
Seria lindo demais todas as
pessoas saindo pelas ruas estampando as suas camisas com a frase: “eu tenho o
direito de fazer merdinha”. Vivemos uma sociedade recalcada e reprimida. Os
desejos não podem, sequer, ser manifestos verbalmente, quando muito, somente no
setting terapêutico.
Freud já havia assinalado que o
mal estar presente na nossa sociedade está diretamente ligado ao recalcamento
dos desejos e das vontades que perambulam no interior da vida humana. Eu, já
cansado de tanta repressão e comentários alheios, tenho apertado continuamente
aquele famoso “botão”. Às vezes, parece até que estou jogando videogame.
Sigo a ética do andarilho, sem
um compromisso com o ponto de partida ou o ponto de chegada. Busco a minha
vagabundagem alternativa em meio às minhas contemplações, sejam das auroras,
sejam dos crepúsculos. Se quero caminhar, caminho. Doutra forma, refreio os
passos para descansar a minha lida como quero, como posso, sempre me dando ao
direito de fazer “merdinha”.
Se os seus olhos me virem, se
vire e me deixe. Você nada tem a ver comigo e com o que eu faço ou deixo de
fazer.
Nós nada somos neste mundo.
Heráclito bem nos lembra que somos faíscas no meio de um incêndio. Somos
completamente desnecessários, similares a qualquer criatura presente neste
planetinha de nada. O mundo não precisa de nós. Tudo o que existe passa, se transforma,
se reforma e nós nos enganamos sempre, pensando que estamos construindo coisas,
projetos e objetos significativos. Até os nossos relacionamentos são efêmeros.
Quanta bobagem. Nada mais somos do que instantes desprezíveis.
Se tomamos a consciência de que
somos desprezíveis neste cosmos, abrimos novas possibilidades para
aproveitarmos as nossas vivências da forma como quisermos.
O mundo está aberto e que cada
instante seja aproveitado da melhor maneira.
Que a sociedade onde as pessoas
cuidem de suas próprias vidas seja uma realidade, quem sabe alternativa. Aqui e
agora, já.

Um comentário:
Apertar " aquele botão" como se estivesse jogando vídeo game. 😆👏👏👏
Haaa como eu iria amar fazer isso!! Eu convivendo semanalmente com "" o perigoso" sendo uma eterna teimosa e frouxa. 🤣
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