sexta-feira, 12 de maio de 2023

Que tipo de pássaro eu sou?

 


Nunca neguei o meu apreço pelo teólogo, escritor, educador e psicanalista Rubem Alves. Muito do seu pensamento é corroborado por mim nos dias atuais. Hoje, trago para a minha narrativa uma das suas frases mais pertinentes: “Pássaros engaiolados pensam em gaiolas. Pássaros livres pensam no azul infinito. Eu e os pássaros temos sonhos comuns. Sonhamos com voo e com a imensidão do céu azul”.

Às vezes, paro para refletir sobre que tipo de pássaro eu sou? O engaiolado ou o livre? Todavia, será que faz diferença para mim essa pergunta? Talvez eu só possa ser livre por intermédio dos meus objetos oníricos ou mesmo das poesias que me encantam a alma, fruto das minhas observações pelas trilhas deste mundão de meu Deus. De fato, dou muita importância às observações e ao olhar. Através delas, eu aprendo sobre a vida e, consequentemente, apreendo novas experiências. O olhar possui o poder de captar o que está à volta, oferecendo um primeiro sentido para a vida no mundo. Ao mesmo tempo, ele se assemelha a uma janela aberta com uma vista para o conhecimento do universo interior em cada pessoa. O olhar permite o voo dos pássaros nas imensidões dos obscuros humanos.

O cotidiano de todos nós está marcado pelos olhares. Inclusive, quando se olha para o passado ou para o futuro, a íris se abrilhanta, buscando as novas referências que podem ajudar cada pessoa em sua organização pessoal no tempo presente, suas belezas e seus encantamentos. Cada um de nós tem uma forma de observar as contingências do cotidiano por um ponto de vista. Aliás, o pensador Leonardo Boff, disse certa feita que: “Todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. Com essa frase em meu horizonte, entendo que cada pessoa em sua singularidade tem a oportunidade de se ver e de ser vista de uma maneira muito singular e especial, respeitada em suas convicções, desde que estas não sejam geradoras de constrangimentos ou preconceitos.

A pertinência em se pensar os pontos de vistas reside no entendimento de que todas as pessoas são processos e movimentos que se qualificam na ética do andarilho, indicada por Umberto Galimberti em seu livro Rastros do Sagrado. Em processos e movimentos que se dão nos passos da caminhada de um andarilho, não se pode prescindir os sonhos.

Nisso tudo, resulta o sempre vivo desafio de se possibilitar o encontro com um sentido para a vida. Que isso seja feito e refeito mediante o protagonismo na história, a unicidade de ser dentro das singularidades, das formas de ser, de pensar e de agir.

Tudo isso envolve, também, a percepção contínua da identidade na complexidade da corporeidade que abraça a dimensão do cuidado e da afetividade. Em nossa concepção, isso de dá de três maneiras distintas e complementares. A primeira refere-se às percepções e compreensões de si mesmo, num contínuo diálogo com o eu interior em busca de autoconhecimento. A segunda objetiva o entendimento da relação que envolve o eu e outro, num processo de intersubjetividade. Nessa perspectiva, as questões ligadas diretamente ao convívio com o outro, as relações interpessoais, a tolerância, a empatia, o respeito e a dignidade se entrelaçam trazendo novos significados para a vivência humana. A última refere-se ao encontro com o mundo, ou seja, com os desafios e complexidades que são encontradas no cotidiano vivencial de cada um por conta dos sistemas, acasos e infortúnios que abalam o ser certo de si. Trata-se das muitas vivências que provocam encontros e desencontros diversos.

Obviamente, as relações reais embotam o cotidiano em seus múltiplos desdobramentos, confrontando o eu pessoal. É preciso voar e sonhar com outras possibilidades, voar o voo dos pássaros destemidos, a fim de se possibilitar a afirmação de si mesmo, um novo olhar sobre a intersubjetividade que favoreça o processo de conhecimento com vias ao futuro, que já bate à porta.

Portanto, é preciso se afirmar na condição de um ser autônomo, dotado de fraternura e criativiver (Hugo Assmann). Seres fraternos, ternos, criativos e vivos que voam como os pássaros e que olham e observam o mundo lá do alto, capazes de protagonizar a sua própria história sem as agonias decorrentes das críticas sofridas por outrem, mas livres para ser quem são. A gaiola está aberta, e já não é hora de sonhar. É a hora de voar e conquistar o mundo...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Um pouquinho de devaneios poéticos

 


Há cenários descompassados, mosaicos de árvores feitas de jornais cheios de desconfianças aleatórias, aquelas mesmas que compõem os processos relacionais sempre indefinidos.

Não há nada de mal quando os azulejos são pintados à mão. A textura deles se manifesta como fragmentos de múltiplas imagens coletadas em cotidianos situacionais, onde o cachorro se estira preguiçoso sobre o asfalto quente. Ele parece não ter medo dos veículos que passam perto dos seus pelos.

Enquanto eu o observo, preparo a minha “Nikon” para o processo mágico de captação e congelamento de momentos dentro da dimensão do instantâneo. Gosto das máquinas de fotografias. Aquelas antigas em que filmes precisam ser ajustados, cujas imagens precisam ser reveladas num quarto escuro com iluminação vermelha, onde ocorre o genuíno milagre – fiat lux.

As luzes se acendem e se apagam compulsoriamente em seus respectivos ambientes. Eu, diante do espelho contemplo a barba que cresce impulsionada pelos batimentos cardíacos. Há mais fios brancos do que na semana passada. A mão percorre os pelos, parecidos com os daquele cachorro no asfalto, como se houvesse a oportunidade de se escalar a montanha de espinhos, sentindo-se um alpinista. Eu, sempre alheio a mim mesmo, sequer saio do chão, pois é nele que pareço me sentir mais seguro. Em vão. Talvez eu devesse ter vivido na década de 60, poderia usar brilhantina em meus cabelos cada dia mais rebeldes.

Foi em um Fusca verde com estofados de couro sintético na cor branca que eles saíram para a lua-de-mel. Imagens de uma infância que, independente dos giros do globo terrestre, aguarda o ônibus naquele ponto cheio de cartazes de shows que já aconteceram. Alguns foram bons e encantadores. Outros deixaram um gosto amargo na boca. As fotografias continuam a ser tiradas.

No fundo das figuras e nas figuras e seus fundos, deparo-me com os pedidos inusitados que ocorrem nas caladas das madrugadas silenciosas. Os sorrisos são mentirosos e a prancheta aguarda aquele desenho que ainda não existe na imaginação.

Vejo as marcas do corpo e as cicatrizes que foram feitas ontem. Os ovos do pente despencaram e se romperam ao chão. Não há limites para os desvarios humanos enquanto a caneta é girada na mão esquerda.

Não é bom sentir a luz brilhar incandescente no fundo do olho. Baladas escondem os rostos e as emoções incrustadas na tela do córtex pré-frontal. Enquanto isso me visita o cheiro da gasolina azul que exala do besourinho verde. Não há mais casamento, senão memórias de um tempo que já se foi, que escorreu pela parede dos azulejos fragmentados.

Enquanto o meu olho brilha, procuro no tapete persa aquele meu brinco de argola moldado em prata. Gosto dele, pois não me causa feridas. Minha mão direita o toca, enquanto me mantenho assentado em uma cadeira rústica bem desgastada pelo sol que entra pela fresta da janela de alumínio. Tento espantar os cupins que nela tentam se aninhar. Não sou muito afeito a estes seres poderosos, principalmente aqueles que voam. É deveras muito chato varrer os pós, oriundos das mordeduras vorazes desses insetos incertos.

Não foi possível fazer um álbum de casamento. Bobagem. Um amigo tirou e revelou duas ou três fotos. Presenteou aos nubentes, agora separados pela morte.

No alto do morro do Cruzeiro, na igrejinha na qual eu fui batizado, eles subiram os 382 degraus com um bebê nos braços, aquele que num futuro nada desenhado viria a se apaixonar pelos temas aporéticos da Filosofia. Sartre o posicionou em um lugar insólito onde o movimento da liberdade continua a lhe soprar nos ouvidos.

Agora, é hora de beber um café ou uma cerveja. Somente necessário molhar a língua com algum líquido e comer um pedaço de pão que não seja bolorento. Que ele seja aquecido em uma frigideira e que o queijo seja derretido, dissolvendo-se sobre um metal polido e quente.

Hoje vi o livro que eu queria ler pela vitrine da loja virtual. A capa não era bonita, parecia obscura. Disseram-me que as letras eram vivas e que as emoções brotariam selvagens dos poros desconexos de minha pele cheia de melanina.

Lembrei-me do dia em que, no parque Guanabara, às margens da Lagoa da Pampulha, eu me diverti no minhocão e no carrinho de bate-bate. Sensação de liberdade para uma criança presa em um nicho familiar conservador cheio de gente errada. Movimentos de liberdade.

Depois, deslizei no divã para falar as coisas mais desconexas das minhas mitologias subjetivas. Adoro as associações livres e as palavras soltas que não precisam ser filtradas em filtros de barros. Ao longo dos anos, bebi todas as águas de fontes que eu desconheço para suá-las nas ruas cheias de paralelepípedos aleatórios.

Continuarei a trocar os passos na trilha de terra batida que me conduzem àquele cantinho chamado Ribeirão de São José. Lá, talvez, eu me perca para reinventar a vida que um dia foi desenhada nas conchas que eu encontrei na areia da Praia Brava, no litoral de Angra dos Reis, para fazer um colar. 

 

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Sem medo de dizer quem eu sou! Paris e a Psicoterapia!


No livro de John Powell, intitulado “Por que tenho medo de lhe dizer quem sou?” (Belo Horizonte, Crescer, 1989), nos deparamos com um desafio que se propõe a cada um de nós que tem a necessidade de viver a vida da maneira mais honesta possível, sendo ouvidos e compreendidos por uma escuta atenciosa. Embora nem todas as pessoas possuam a capacidade de acolher simpaticamente e empaticamente o que cada um revela em sua essência, os possíveis acolhimentos cotidianos são essenciais.

Especialmente, nos processos psicoterápicos que se desenvolvem nos settings terapêuticos, cada cliente ou paciente é estimulado a falar e viver com a mais extrema sinceridade, potencializando quem de fato é em seu cotidiano. Isso favorece a ampliação das relações. Nas palavras de Paul Tournier, que prefacia o livro de Powell: "Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, nem encontrar uma vida plena, sem sentir-se compreendido por uma pessoa, pelo menos...." (p. 5).

Ser ou se sentir acolhido na psicoterapia é fundamental, principalmente na sociedade atual que embaça a autenticidade inerente a cada ser. A tendência à robotização e à automação força cada sujeito a se aplicar sobre as suas respectivas máscaras, exercendo papéis teatrais que o afastam das suas mais pertinentes espontaneidades. A implicação disso é que, em algum lugar, dentro de cada ser, se esconde o sentido real do que se é de fato.

A busca pelo ser real pode se consolidar por intermédio do caminho psicoterápico. Para mim, em especial, a psicoterapia é o processo essencial que favorece a busca de sentido do ser humano em seus contextos vivenciais, tanto subjetivos como comunitários.

Hoje, na condição de um psicoterapeuta, eu vivencio experiências extremamente significativas no contexto da minha própria vida, mediante as minhas escutas atenciosas e provocações diversas. É muito especial perceber os meus clientes avançando em suas reflexões e em suas respectivas conquistas – procedimentos fundamentais que levam cada pessoa a ter uma melhor visão de si mesma. Eu acredito que este é um dos grandes fundamentos da psicoterapia: caminhar lado a lado com a pessoa, possibilitando a essa pessoa a descoberta de suas potencialidades e a oportunidade de se posicionar melhor em seu mundo de vivências.

Eu já estive do outro lado da psicoterapia, como uma pessoa que se disponibilizou a ser cuidada no setting terapêutico. Essa experiência me proporcionou aprofundadas visões do meu mundo de sentidos. Aliás, existem duas experiências que eu considero fundamentais em minha dinâmica de vida. A primeira delas se deu quando eu tive a oportunidade de estudar em Paris na França em 2013, permanecendo lá por seis meses. Considero essa primeira experiência um divisor de águas em minha vida. Tendo sido criado por uma família que não cessou esforços para cuidar de mim, esta foi a primeira vez em que eu tive uma responsabilidade plenificada sobre mim mesmo, preparando a minha comida, lavando a minha roupa, arrumando o meu quarto e fazendo todas as atividades corriqueiras, inerente a qualquer pessoa que mora sozinha. Ao mesmo tempo, pratiquei o meu direito de ir e vir sem ter que dar satisfação a qualquer pessoa na minha vida. Não que isso me incomode tanto, mas é uma experiência singular possuir a mínima liberdade para ir aonde se desejar, beber o quanto se quer e o que se quer, comer as besteiras mais exóticas sem necessariamente ter que prestar algum tipo de relatório a pessoas próximas. Viver como eu vivi na França me trouxe um frescor inenarrável.

A segunda experiência igualmente marcante em minha vida se deu no processo psicoterápico. Eu já havia voltado de Paris e já estava cursando a Psicologia. Em meio aos meus encontros e desencontros, principalmente os desencontros e as crises provocadas pela reflexão em torno da Psicologia, vivi na clínica psicoterápica a busca de um conhecimento mais aprofundado de mim mesmo. Procurei por psicólogos e por psicólogas, visando estabelecer o vínculo terapêutico. Quando me encontrei com essa vinculação, pois sou daqueles que se acreditam na vinculação terapêutica, eu me joguei completamente ao processo psicoterápico. Para mim, a vinculação terapêutica corresponde a 80% do processo. Obviamente, para que ela aconteça, faz-se necessária uma boa simbiose, ampla sintonia, empatia e simpatia entre o psicoterapeuta e o seu cliente.

A minha psicóloga é psicanalista. Conduziu-me de forma firme, fortalecendo a transferência e possibilitando o meu encontro comigo mesmo de uma forma intensa e profunda. Eu tive múltiplos insights em seu consultório. Passei por experiências marcantes e me desconectei dos meus medos, anseios e culpas. A psicoterapia para mim foi libertadora. Ajudou-me a me perder o medo de dizer que eu realmente sou. E quanto às pessoas que me cobram determinadas posturas ou composturas, acho melhor elas tomarem cuidado, pois, para mim que perdi o medo, a língua afiada por ser ferina também. Se insistirem em fofocar, eu lhes responderei: “Está tudo bem, mas, me chamem para fofocar, também. Posso contar a vocês coisas horríveis sobre mim”. E como diria uma amiga minha: “Beijinhos de luz para vocês”!  

quinta-feira, 27 de abril de 2023

DIA 16 - O tempo psicológico, o aqui e agora, o sentido da vida e o amor...

 


Quando paramos para refletir sobre o significado do tempo, reconhecemos nitidamente que ele é uma forma de organização dos momentos, eventos e acontecimentos importantes que vivenciamos em nossa trajetória existencial, tanto de uma forma pessoal e subjetiva, quanto comunitária.

Somos seres envolvidos em muitas atividades em nosso cotidiano sobre a terra. Todas as nossas histórias são narradas de formas épicas e contadas em diversas variações. O historiador Jacques Le Goff em sua obra História e Memória (1990) nos trás a informação de que os eventos históricos são monumentos erigidos para a manutenção da memória humana e que favorecem a busca pela sua localização enquanto espécie viva na inédita jornada da existência em seu mundo de sentidos. Quando nos referendamos em relação ao universo, chegamos à constatação de que somos um lapso no tempo, uma espécie de bip agudo, cujo zumbido, de alguma maneira, vai sumindo... sumindo... sumindo.

Ao considerarmos os eventos como tempo histórico, consideramos também o tempo cronológico. Curiosamente, na língua grega existem duas variações para a palavra tempo: cronos e kairós – na mitologia, Cronos e Kairós são deuses. Cronos tem a ver com a divisão do tempo, tanto nos relógios quanto nos calendários. Representa a divisão do tempo em fracionamentos que ocorreu, paulatinamente, pela observação do sol e das sombras, das fases da lua, o dos ciclos das estações e dos eventos comunitários tais como o nascimento e a morte de entes próximos.

Já kairós é o tempo da oportunidade, do aqui e do agora, do hic et nunc. É o tempo que ocorre no cotidiano caracterizando os instantes de eternidade que ocorrem em todos os momentos da vida. Ele não é previsível, tampouco preciso, entretanto é cheio de significados para aqueles que se plenificam continuamente diante da própria existência. Não podemos extinguir um tempo ou o outro. É na conjugação de cronos e kairós que se estabelecem as nossas melhores leituras de mundo. Tanto em cronos, quanto em kairós, nossa busca de sentido se imbrica em todas as possibilidades que ela mesma nos apresenta por acasos ou escolhas.

Embora eu reconheça as definições de tempo em todas as culturas, como a mesopotâmica, judaica, islâmica e cristã, quero me referir mais especificamente ao tempo psicológico, que em minha concepção evoca a biologia, a narratividade e a ética.

O tempo biológico tem a ver com os estágios da vida e seus desdobramentos no desenvolvimento humano. Assim, computam-se as conquistas angariadas desde o nascimento até a morte. Esse tempo é diferente para os seres humanos, enquanto os animais se desenvolvem mediante sua combinação genética instintiva. Os seres humanos se veem modulados pelas suas respectivas culturas, diferentemente dos outros seres de vida dinâmica. O tempo biológico é marcado por fotografias de eventos vivenciados ao longo da vida dos que amamos ou nos importamos (#maltm). Todavia, existem os estraga prazeres que incidem sobre o tempo biológico e o mutilam.

Ao me referir às narratividades no tempo, evidencio as qualidades que envolvem a narrativa que, por sua vez, se liga diretamente à produção de sentido, especialmente quando transformada em discurso ou texto. Na narratividade ocorre uma alquimia da linguagem com valoração da estética. O fenômeno estético ocorre no receptor da mensagem, favorecendo ao mesmo tempo, a construção ativa da história. Neste processo, é fundamental a suspensão da descrença ou a fixação na verdade cartesiana a fim de favorecer o encontro de sentido com a narrativa, mesmo ficcional. É na apreensão da expressão artística, capaz de proporcionar a recriação dos horizontes no mundo em contínua atualização, que os processos narrativos miméticos de pré-configuração, configuração e refiguração, conforme o filósofo francês Paul Ricoeur em sua obra Tempo e Narrativa (Tomo I – 1994), valorizam a historicidade sempre representada em seus amplos sentidos. De alguma maneira, esse conceito se alinha à esfera do tempo psicológico.

Já o tempo psicológico em uma perspectiva ética refere-se às nossas formas subjetivas de percepção do tempo. São formadas pelas percepções mais intensas alusivas aos eventos que nos impactaram de forma emocional. Por exemplo, em geral, todos nós lembramos aonde nós estávamos quando ocorreram os atentados contra as “Torres Gêmeas” no dia 11 de setembro de 2001. Lembramo-nos, também, dos acontecimentos sui generis ocorridos em nossa família, principalmente eventos de nascimento, ritos de passagens – batizados, casamentos, formaturas e morte. Revivemos com grande nitidez cada um desses eventos em nossa memória como se acontecessem no presente. Em geral, o tempo psicológico pode gerar temores, culpas, arrependimentos e ansiedades. Isso ocorre porque o pensamento humano não é linear, tampouco contínuo. Ele figura entre passado e futuro de uma forma furtiva e intensa, paradoxalmente. No tempo psicológico, enfrentamos a ambiguidade e a contradição do nosso próprio ser, bem como as afetações que desembocam em fenômenos complexos que precisam ser ressignificados no tempo presente.

Segundo B. Nunes em seu livro O tempo na narrativa (1995), o tempo psicológico é variável, pois tem a ver com a percepção qualitativa de cada sujeito, cuja representação se encontra na literatura. Eu, por exemplo, sou tomado pelo tempo psicológico quando leio Presente do Mar de Anne Morrow Lidenbergh (2001) e O Desterro dos Mortos (2001), do poeta baiano Aleílton Fonseca. Não podemos deixar de aludir ao fato de que o tempo é uma condição fluída e modal. Ele se conforma aos momentos de vida aos quais nos inserimos poeticamente em um determinado momento. Talvez seja por este motivo que o filósofo francês Henri Bergson em sua obra Duração e Simultaneidade (2006), assim expresse:

“Quando estamos sentados na margem de um rio, o correr da água, o deslizar de um barco ou o voo de um pássaro, o murmúrio ininterrupto de nossa vida profunda são para nós três coisas diferentes ou uma só, como quisermos. Podemos interiorizar o todo, lidar com uma percepção única que carrega, confundidos, os três fluxos em seu curso; ou podemos manter exteriores os dois primeiros e repartir então nossa atenção entre o dentro e o fora; ou, melhor ainda, podemos fazer as duas coisas concomitantemente, nossa atenção ligando e, no entanto, separando os três escoamentos, graças ao singular privilégio que ela possui de ser uma e várias”.

 

Tive essa percepção sugerida por Bergson em uma foto que o Júlio – um querido amigo que encontrei em Portugal – tirou de mim às margens do Rio D’Ouro. Eu me inseri em mim, tendo a ampla percepção do todo que me envolvia, mas também notei detalhes da tarde fria que não queria ir embora, do rio em suave deslize, do crepúsculo aquarelado, do meu coração que batia ao sabor dos meus mais iludidos pensamentos... tudo em minha consciência...

Sim! É na consciência, envolta pelas perspectivas éticas e sem julgamentos moralizantes, que as mais profundas percepções de mundo se aninham em nossa mente permitindo-nos escorregar nos diversos fluxos nômades que se manifestam em cada um de nós de forma profunda e inigualável. Talvez, seja justamente dessa forma que os momentos e eventos devam ser considerados em nossa lida diária, como fluxos nômades e narratividades, tadaa, que só podem ter sentido no tempo presente, na vivência do dia-a-dia totalmente protegida dos comentários alheios, mesmo dos que são próximos a nós. Ao entrarmos em um novo dia ou um novo mês – (o que é maio na fila do pão?), não há coisa alguma de nova, a não ser a nossa intencionalidade de viver o aqui e o agora de forma intensa.

Enfim, por que considerar o que não precisa ser considerado? Por que dar valor ao que não precisa ser valorado? Por que importunar-se com os alheios que só sabem importunar? Por que perder a alegria do instante se o que passou, já passou? E se não passou, que passe. Como diria o escritor norte-americano William Faulkner: “...o tempo morre sempre que é medido em estalidos por pequenas engrenagens; é só quando o relógio para que o tempo vive”.

Que o relógio pare! Que o calendário se rasgue! Que as datas marcantes, ou nem tanto assim, sejam consideradas sopros. Enfim, que o amor seja celebrado em sua eternidade no beijo que nunca deveria deixar de existir. Só existir naquela corrente do vento que liga corações distantes a 35 quilômetros.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

DIA 15 - Dizendo não à automação em 1000 balões...

 


Eu acredito no princípio ativo da espontaneidade como uma vacina contra toda e qualquer forma de automação do ser humano. Embora sejamos livres para vivermos as nossas experiências e tomarmos as nossas decisões, todos os dias somos convidados a robotizarmos as nossas ações dentro dos contextos sociais aonde vivemos os mais diversos processos. A perspectiva da automação parece ser uma convidativa porta aberta em nossa vida pessoal conduzindo-nos ao abraço à rotina.

Desde a dinâmica família até a estrutura do ambiente de trabalho a rotina se manifesta como companheira, marcando-nos pela mesma repetição das atividades corriqueiras. São poucas as vezes em que temos a oportunidade de recriar as nossas próprias ações e viver coisas que fazem um novo sentido em nossa dinâmica existencial.

O Grande Mestre da espontaneidade, a meu ver, é o médico romeno Jacob Levi Moreno. Ele é o pai do Psicodrama, que se caracteriza por uma abordagem psíquica baseada no teatro espontâneo. Ao criar o Psicodrama, Moreno enfatizou as profundas dinâmicas subjetivas e coletivas que envolvem a espontaneidade e a criatividade, elementos fundamentais para a vivência humana, favorecendo a projeção humana para uma nova realidade de bem-estar.
É importante situar que o conceito de espontaneidade em Moreno tem a ver com a questão da adequação. Pessoa alguma pode ser espontânea e sem limites. Toda liberdade precisa ser equilibrada pelos limites. Assim, toda e qualquer atitude marcada pela espontaneidade precisa considerar os parâmetros dessa ação.

Todavia, como somos seres limitados pela nossa corporeidade, pelo tempo e pelo espaço, a criatividade se atrela à espontaneidade para possibilitar atitudes extremamente novas diante de contextos que parecem bem resolvidos. Não precisamos deslindar as nossas vidas em ações deslocadas de uma realidade vivencial, mas podemos evidenciar uma série de cenas e ações psíquicas que possibilitem a contemplação de  outros mundos mais coerentes com as nossas expectativas.
Curiosamente, enquanto escrevo este texto, recebo a notícia de que hoje se completam 15 anos do desaparecimento do padre Adelir de Carli. O referido padre ficou conhecido por voar com 1000 balões, cheios de gás hélio, do Paraná até o Mato Grosso do Sul. Ele queria arrecadar uma quantia de dinheiro para construir um hotel para abrigar os caminhoneiros na região do Paranaguá, no litoral do Paraná.

Infelizmente, apesar de toda a sua experiência com voos e saltos de paraquedas, o referido padre acabou enfrentando uma tempestade tropical, vindo a  desaparecer no mar, sendo encontrado somente sete meses depois no litoral do Estado do Rio de Janeiro.

Certamente ele vai ficar registrado na memória de todo e qualquer brasileiro que teve a oportunidade de conhecer a sua história. Hoje, passados quinze anos, ele é relembrado como o “padre do balão”. O seu ato certamente foi um ato espontâneo e criativo. Ele ousou fazer o voo por conta dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Quis arrecadar dinheiro de uma forma inusitada, mas a situação saiu do controle. Seu legado continua entre nós.

Não vou entrar no mérito quanto a decisões certas ou erradas tomadas por ele. Não cabe a qualquer um de nós um julgamento. Ele fez o que acreditava e isso é o que importa.

Mas passo a refletir com os meus botões: Será que em nossos cotidianos não precisamos também fazer os nossos voos inusitados com balões? Obviamente, não precisamos ir às últimas consequências, vindo a  enfrentar situações intempestivas, mas criarmos possibilidades novas que nos afugentem daquilo que é tão concreto, tão cartesiano, tão lógico e tão matemático.
Enfim, eu acho que podemos acreditar um pouquinho mais em nós mesmos em nossas potencialidades pessoais. Indicarmos a nós mesmos os nossos limites com a finalidade de alcançarmos novos tônus vitais em nossa dinâmica existencial, afinal de contas, como sempre gosto de refletir, a aventura da vida é inédita e precisamos experimentar coisas novas todos os dias, de preferência.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

DIA 14 - O inferno sou eu

 


Todos os que já tiveram a oportunidade de conhecer previamente o pensamento do filósofo francês Jean Paul Sartre sabem muito bem da sua assertiva: “o inferno são os outros”, presente na peça teatral “Entre quatro paredes”. Nesta peça Sartre apresenta-nos três personagens: Garcin, Inês e Estelle. Os três estão presos em uma sala sem janelas – uma espécie de inferno sartriano. Além das três pessoas, existem três canapés, uma estátua de bronze e uma lareira. Dentro da sala é dia o tempo todo e os olhos precisam ficar diuturnamente abertos. Obviamente, em um cenário como esse, os desafios relacionais são contínuos e o cansaço emocional extenuante. Cada personagem possui uma personalidade distinta e as aproximações se dão, vis-à-vis, numa contínua perturbação onde há um revezamento entre as posições de vítimas e carrascos. Os olhares intercruzados de cada um dos três referenda a existência de cada qual ao mesmo tempo em que vaticina a debilidade que cada um percepciona em si mesmo. A trama se desenvolve em seus encontros e desencontros entrechocados até o momento que em um embate mais acirrado, Garcin solta a célebre frase: “O inferno são os outros”.

Mas, por que o inferno são os outros?

Em nossa percepção e leitura, diversos aspectos são possíveis de ser elencados na referida peça. Sartre se utiliza de um enredo surreal para considerar a dinâmica das relações que ocorrem nas ambientações sociais. De fato, o olhar do outro sobre nós em um determinado ambiente sugere a incidência de uma série de desconfortos. A maneira pela qual nos vemos estampados nas faces, nas críticas e nos conceitos das pessoas que nos circundam, provoca em cada um de nós uma série de inquietações diversas. Na maioria das vezes, nos vemos e não gostamos do que vemos. É como se o outro oferecesse a nós um espelho onde a nossa própria imagem se projeta, dissociando-nos de nossa própria certeza. Ao mesmo tempo e de certa maneira, aquele que se oferece como espelho acaba julgando a existência alheia, bem como as formas de condutas de um. Tudo isso coloca o ser humano no entroncamento entre os subjetivos encontros e desencontros com o seu próprio eu.

Inspirado nessa peça de Sartre, eu resolvi enfocar o prisma que realmente me importa: “O inferno sou eu”! Sei que essa frase pode até provocar uma inquietação pessoal e subjetiva, mas ela é honesta!

Tenho por mim que cada pessoa deveria se observar e se percepcionar com vias ao autoconhecimento. Ver-se e aceitar-se em suas contradições é um caminho sumamente importante para o bem-estar. Lembro-me da célebre frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955): “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Nela, o referido filósofo entende que a vida se encontra em um contínuo processo de mudanças. Seu sistema filosófico baseia-se no que chamou de razão vital, ou seja, a ideia de que a racionalidade é uma função da existência e abarca as condições físicas, sociais e psíquicas de cada sujeito. O ser humano vive e interage com o mundo como um sujeito ativo em meio a diversas circunstâncias. Desde o nascimento até a morte, o ser humano vive os movimentos do aprendizado no arcabouço da vida social. Acresce-se a esse sucinto toque tangencial a uma frase do filósofo espanhol a constatação que brota em minha própria consciência de que estamos todos, querendo ou não, nos diversos relacionamentos que ocorrem nos nichos socioculturais marcados pela diversidade.

Infelizmente, estamos acostumados a julgar as pessoas ou lançar críticas ao outro sobre as questões que nos incomodam individualmente. Obviamente, é bem mais simplório colocar o dedo em riste e afirmar que o outro é o culpado quanto a eu viver esta ou aquela vida, esta ou aquela situação, a me assumir. Todavia, sabemos que aceitar que a culpa é do outro significa abraçar uma mentira. Como se diz popularmente: “Mentira tem perna curta”. Acho que essa mentira nem tem pernas, pois na página dois teremos plena consciência das contradições e circunstâncias que nos envolvem. Chegarei à nítida constatação de que o “inferno sou eu”! E pessoa alguma poderá me retirar dessa posição incômoda. Tornamo-nos mentirosos se não assumimos vivamente a nossa responsabilidade frente à nossa liberdade. Somos seres livres, inclusive para escolhermos os caminhos de nossos aprisionamentos.

Enfim, eu não gostaria de estar entre as quatro paredes de Sartre, mas estou. Independente do que pensarem a meu respeito ou dos pretensos julgamentos que me ferirem, vou celebrar o meu próprio caminho amando, dando vexame e sendo ridículo no que eu faço. Só tenho compromisso comigo. Daqui a cem anos, pessoa alguma se lembrará de mim. Sou, como poetizei recentemente: “Eu... Num incêndio, chama miúda. Cristalina gota num mar. Poeira livre, partícula, vento. Húmus terra, sangue a pulsar. Mistura fina que respira amar”.  Sinto-me assim: uma parte no todo, no charco, um lodo. Sei que quanto mais claro eu for sobre mim mesmo, mais terei a oportunidade de me oferecer e me encontrar. Acho que eu vou sair por aí estampando e desfraldando a bandeira de que de fato eu sou o meu próprio inferno. E tenho dito.

 

quarta-feira, 5 de abril de 2023

DIA 13 - O significado da Páscoa para os cristãos



Os cristãos celebram a Páscoa anualmente. Essa é uma data memorável cuja reflexão favorece o renascer na esperança. O evento pascal, que vai além da celebração do domingo é, também, um tempo de saberes e sabores.


Saberes

A Páscoa possui muitos saberes que orientam a vida e as demandas relacionais das pessoas. Esses saberes originam-se no sentido da palavra hebraica “pessach" que significa, por um lado, o ato de manquejar ou de dar pequenos saltos e, por outro, passagem. Independente da dualidade da definição, importa afirmar que a dimensão do que concebemos por Páscoa leva-nos, necessariamente, a pensar em movimentos que ocorrem no caminho da vida.
A páscoa ganhou um peso importante no evento fundante da nação Israel: o êxodo. A passagem da escravidão para a libertação. Este foi o processo que culminou com a fuga dos pré-israelitas do, celebrado com a imolação de um cordeiro e a reunião familiar num ato memorial de suma importância para as crianças e para os anciãos à época. Estes contavam histórias sobre os acontecimentos que culminaram na nova dimensão de vida. Nesse processo de libertação, a celebração familiar era também um culto ao Deus da vida.
Outro saber a ser evidenciado em um período posterior se deu com a ressurreição - base da fé cristã. Pensar a ressurreição de Cristo é um ato de fé. É através da ressurreição que compreendemos o amor de Deus amor, pois Ele não aceitou a morte de seu Filho e o ressuscitou.
Poeticamente, refletindo sobre os sabores da páscoa, nos vemos diante de janelas abertas que nos ajudam a vencer os problemas difíceis da vida. O evento da ressurreição nos ensina a compreender que o fim pode não ser o fim, e que há sempre novas possibilidades de vida diante dos sinais de morte. A ressurreição é um importante saber para os cristãos. É a passagem do caminho tortuoso nas areias escaldantes do deserto para a trilha em mata atlântica à beira mar. É a saída do túmulo frio para o domingo de sol.

Sabores

Páscoa também é composta de sabores. Não somente os saborosos ovos de chocolate e os deliciosos quitutes do almoço de domingo, mas também os elementos que compõem a memória do povo judeu e de outros povos de tradição cristã. O escritor Rubem Alves disse duas frases interessantes sobre os sabores: “dize-me o que tu comes e eu te direi quem és”; e “Como, logo existo”, numa clara analogia ao "cogito" do filósofo René Descartes. Podemos pensar que o que nós comemos tem a ver com a nossa experiência existencial e com a cultura que vivemos. Tenho tido a satisfação de andar por esses brasis e saborear suas culturas e povos. Já saboreei também os sabores das culturas além-mar. Gosto dos sabores que constroem gentes e humanidades por esse mundão de meu Deus.
Assim, diante dessas singelas argumentações, podemos afirmar que os sabores da Páscoa têm a ver muito mais do que com chocolate, coisa que gosto muito, mas com uva, vinho, pão e peixe. A páscoa se estabelece pelos sabores simples e inigualáveis desses elementos. Acho que as nossas celebrações familiares deveriam vir acompanhadas de múltiplos tipos de uvas: rosadas, Itália, rubi, moscatel; regadas com vinho carbenet sauvignon, de preferência; pães, desde os ázimos, passando pelo tradicional pão francês ou pão de sal, até aqueles que são apelidados com a singela metáfora de "sonho". E, por fim, peixes: a traíra frita, a moqueca capixaba de badejo ao molho de camarão muitos camarões, o filhote com azeite, a pescada amarela, a traíra sem espinhas e, até mesmo, a sardinha em lata na mesa de um boteco.
A Páscoa é, assim, um tempo de saberes e sabores. Eu, particularmente, gosto dos saberes e gosto dos sabores. O importante, entretanto, é de celebrar as passagens da vida com vistas à dinamicidade da esperança.

quinta-feira, 30 de março de 2023

DIA 12 - Glória e Liberdade da Glória

 


No dia 2 de fevereiro, infelizmente, fomos aturdidos pela notícia do falecimento da jornalista Glória Maria. De fato, essa jornalista inspirou profundamente grande parcela dos brasileiros através das suas reportagens marcadas pelo seu envolvimento direto com cada delas. Essa jornalista sempre teve a oportunidade de fazer reportagens com amplo envolvimento nas aventuras e desafios. Quem poderia se esquecer dos seus saltos, suas travessias e suas travessuras entre culturas e balões? Ela sempre evidenciou que fazia tudo com muito medo, estabelecendo uma conexão expressiva com as emoções e os sentimentos do povo brasileiro.

Assistindo ao término do Jornal Nacional naquele mesmo dia, fiquei impressionado com a homenagem que os jornalistas e as jornalistas, bem como todas as equipes de várias regiões do Brasil prestou à jornalista. A emissora reservou um espaço significativo na TV aberta para aplaudirem-na, com grande respeito, emoção, comoção e devoção. Após este momento icônico, nunca dantes visto na televisão, fui “sapear” as redes sociais para descobrir outras falas inusitadas da jornalista preta que fez história no telejornalismo brasileiro. Marcou-me profundamente uma entrevista da própria Glória Maria em que ela expunha a memória da sua avó, que sempre a ensinava a nunca abrir mão da sua própria liberdade, pois os seus antepassados foram privados da liberdade por conta da escravidão e ela, na contramão dessas proposições, deveria fazer um enfrentamento e se apresentar autenticamente e espontaneamente como um ser que quisesse ser e fazer o que quisesse. Na mesma entrevista, a jornalista falou sobre o racismo que sofreu em todos os anos de sua atuação. Fez questão de salientar os enfrentamentos em todos os tempos e a sua coragem – o carro chefe que deu a ela a possibilidade de conhecer grande parte deste mundo e as culturas diversas sem perder a essência da sua própria vida e liberdade.

Talvez resida nesse legado de Glória Maria algo muito especial para cada um de nós, pois, de fato, se pararmos para pensar um pouco, chegaremos à constatação de que o que vale à pena em nossa existência é o abraço firme e genuíno à liberdade. Mais do que isso, acho que nenhuma pessoa nesse mundo deve deixar de viver a sua vida da forma como gostaria de viver, afinal de contas, descobriremos que nada mais somos do que pequenas bolhas de sabão que flutuam nesse universo. Por mais voos que façamos ou brilhos que espraiemos, um dia vamos pocar.

Depois das entrevistas, passei a ouvir os depoimentos de cada amigo e amiga na jornada. Tocou-me de uma forma mais efetiva a fala do jornalista Marcos Losekann. Ele disse que a Glória não deveria ser enterrada, tão pouco cremada, mas plantada para que continuasse a dar muitos e muitos frutos e flores no decorrer dos tempos, tudo para ser contemplado por aqueles que respirarem o seu legado em algum momento da nossa jornada existencial. Essa fala me trouxe boas rememorações, pois me lembrei de ter recebido um presente de uma Escola de São Paulo após uma palestra ministrada. O presente me veio pelos Correios. Tratava-se de quatro mudas de Ipês, cada um com uma cor. Recebi com apreço e surpresa aquele presente. Fiquei deveras feliz e batizei cada uma das mudas com um nome querido por mim. O ipê Amarelo que foi batizado por mim pela alcunha de Rubem Alves. Havia uma razão óbvia: Rubem amava os ipês amarelos; o ipê branco, que recebeu o nome de Frida Kahlo; o ipê Rosa que recebeu a alcunha de Maria Bonita e o ipê roxo que recebeu o nome de Darcy Ribeiro. Como na minha casa não havia espaços para a plantação dos ipês, resolvi ir a um sítio de uns amigos queridos para proceder o plantio das árvores. Até gravei um vídeo registrando todo o momento. Foi tudo muito especial. Celebrei aquelas vidas – árvores e gentes – mediante um ritual de respeito e devoção ao plantio delas em lugar tão lindo tão paradisíaco. Acho que foi por essa celebração que a fala de Losekann mexera muito comigo. Quando ele falou da amiga em sua passagem, eu me lembrei do meu ritual celebrativo, cheio de encantamentos.

Embora as árvores embora não sejam tão livres quanto à Glória, certamente elas continuarão a crescer e semear as suas sementes e a ditar as normas dessa vida marcada pelos seus mais distintos encontros e desencontros, seus consecutivos nascimentos e mortes, suas potencialidades ornadas por este poder chamado natureza.

Que a memória de Glória seja continuamente plantada entre aqueles que anseiam a liberdade em seus lindos movimentos...

quinta-feira, 23 de março de 2023

Uma situação limite no cotidiano

 


Há duas semanas, eu vivi uma outra experiência extremamente complexa em minha vida. É muito interessante como somos assaltados pelo inusitado de uma forma muito intensa, quando estamos esperando, tão somente, a normalidade.

Eu estava em casa com a finalidade de participar via on-line de uma audiência no Fórum de São Paulo. Eu era uma das testemunhas arroladas. Já conectado, aguardava a intervenção do juiz. De repente, comecei a ouvir o meu nome sendo chamado por uma pessoa que nunca houvera gritado o meu nome. À princípio, achei aquela situação bastante estranha mas por causa da recorrência, resolvi responder. Foi quando saindo de minha casa me deparei com a Fisioterapeuta de minha mãe vindo ao meu encontro com as feições do rosto carregadas de um certo terror. Ela foi prontamente me dizendo que a minha mãe estava passando mal. Eu rapidamente subi as escadarias da casa da minha mãe para saber o que havia acontecido. Moramos perto. Pensei, à princípio, ter se tratado de um mal-estar comum, chegando a um desmaio, mas não. Ela havia sofrido uma parada cardiorrespiratória, o que foi comprovado pela ausência de pulsação na hora. Eu a vi completamente desfalecida, sem sangue no corpo e com uma coloração azulada. Naquele momento, eu realmente pensei que tinha perdido a minha mãe.

Então, eu e a Fisioterapeuta iniciamos os procedimentos básicos para a pessoa retomar o tônus vital. Enquanto ela fazia a massagem cardíaca, eu fazia a respiração boca a boca. Depois de alguns minutos, conseguimos trazer ela de volta e nos felicitamos com isso. Nesse prazo, já havíamos ligado para o SAMU e em questão de minutos, as equipes ali estavam para fazer o atendimento emergencial. O coração da minha mãe estava batendo fraquinho, sua pulsação quase inexistente e o assombro em seu rosto.

Preciso enaltecer o trabalho de toda a equipe do SAMU. Rapidez, eficiência e cuidado sendo revelados ao mesmo tempo. De um instante para o outro, o quarto onde a minha mãe dorme se viu envolto por pessoas que nunca ali estiveram para o pronto socorro.

Depois do susto, quando a adrenalina começou a voltar para os seus recônditos, passei a pensar um pouco mais sobre a efemeridade da vida. Eu sempre reflito sobre essa temática. Aliás, ela é muito recorrente na dinâmica do meu pensamento, todavia ela ganhou outro contorno efetivo no momento em que eu estava vivenciando aquela experiência com a minha mãe. O piano ficou suspenso por um fio de cabelo.

É estranho pensar que em um instante fugaz, tudo o que é importante para cada um de nós perde todo o valor. Nossos pertences pessoais, nossas fotografias, nossos documentos, nossos títulos, o dinheiro na carteira, o dinheiro no banco, a comida e a bebida na geladeira... tudo perde o sentido e o sabor. Em uma situação limite, coisa alguma importa, pois tudo é neblina...

Pensei também que ao final de todas as coisas, o aspecto mais relevante concerne aos afetos que devotamos às pessoas que amamos e nos importamos. Às vezes, a vida em seu tapete cotidiano faz com que vivamos de forma muito superficial, sem o carinho necessário para quem está ao nosso lado. Quando as situações se complicam, a gente se encolhe em uma caixinha de fósforos. É interessante como que, em situações limites, quando em uma hora nós somos e na outra, não mais, agonias diversas se estabelecem e a angústia nos visita intensamente. Como nos diria Karl Jasper, é a partir da situação limite que perdemos a segurança que antes possuíamos ou mesmo a certeza que antes nos assegurava. Em suas próprias palavras: Como Jaspers disse: “[...] mas no final não podemos fazer nada além de nos render. O jeito significativo de reagir às situações limite é, então, não por planos ou cálculos a fim de superá-las...” (1932, vol. 2, p. 179).

Aceitar o que nos sobrevêm? Talvez!

Hora de abandonar todas as sapiências e indagar sobre o que de fato vale à pena quando existir é o que nos resta...

Enfim, minha mãe agora está bem! Instalou no seu corpo um marcapasso e seguirá a sua jornada até a próxima situação limite.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Tempo, relacionamentos e prazer...



No clássico livro O Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry, dois diálogos se ressaltam: o que se dá com a raposa e o que se dá com a rosa. No caso dessa última, uma conclusão se torna emblemática: "Foi o tempo que você passou com a sua rosa o que a fez tão importante”.

Esta frase me comunica muito sobre o investimento que realizo em meus relacionamentos. Ora, neste mundo marcado pelas lógicas individualizadas das muitas pessoas, investir em relações se torna, quase, um ato subversivo, pois eivado de um deslocamento de si mesmo em direção ao outro. Infelizmente, não é muito comum as pessoas se dedicarem às outras sem esperarem coisa alguma em troca. De qualquer forma, é fundamental que dediquemos grande parte do nosso tempo a abraçarmos e a beijarmos as pessoas, ampliando os nossos vínculos afetivos.

Infelizmente, muito desse investimento hoje se perde nas mídias sociais. A relação virtual ganhou grandes contornos e ocupa o lugar das experiências  mais impactantes do cotidiano. Na contramão das redes sociais, eu tenho nutrido um grande apreço pelos risos largos e os abraços apertados. Com estes afetos em evidência, enfatizo que pessoas bem especiais para mim passaram a ter uma importância mais efetiva em minha vida.

Tenho sempre dito que uma das coisas mais fantásticas da experiência vivencial é a gente ter a oportunidade de viver coisas novas em nosso cotidiano. Obviamente nós somos seres fascinados pelas novidades que se estabelecem diante dos nossos próprios sentidos. Sentir é uma experiência vital para cada um de nós seres humanos, especialmente os que têm o privilégio de viver essa dinâmica vital completamente inédita chamada existência. Lembro-me sempre que o tempo é muito curto e que tudo que nós vivemos aqui voa rapidamente como o vento, como a chuva, como a tempestade de verão. Então, torna-se fundamental que a gente tenha a oportunidade de saborear cada momento como se fosse o único. Hoje, eu tenho 52 anos e para mim, experimentar coisas novas, é uma aventura maravilhosa.

Recentemente eu tive o privilégio de experimentar uma das maiores sensações corpóreas da minha vida, enquanto eu estava completamente tomado por tudo aquilo que me ocorria num simples gesto de amor. Eu fechava os olhos e visualizava coisas que eu não tinha consciência de que existiam na minha memória. Em dado momento, eu vi o universo e seus sistemas complexos cheios de estrelas, asteroides e planetas; eu vi o fundo do mar e suas pérolas brilhantes; eu vi a constelação dos meus neurônios brilharem dentro de mim. No âmbito desta minha contemplação em mim mesmo, não conseguia mensurar ou mesmo colocar em palavras aquele apelo tão profundo que me fez viver a pequena morte de um jeito nunca vivido. Minha alma ficou translúcida e o corpo passou a viver o que nós tradicionalmente chamamos de transcendência. Existem momentos em que voamos tal como as nuvens que se manifestam no céu azul, na abóboda celeste. Elas se fazem e se refazem, assumindo formas que se reformam e que se esmaecem numa doce brincadeira de algodão doce. Talvez, a nossa experiência corporal seja muito similar a experiência das nuvens. Nós nos formamos e nos perdemos para nunca esmaecermos a experiência de unir o céu, o mar e a constelação dos neurônios em vitalidade.

Essa experiência se tornou divisora de águas na minha vida. Não a vivi sozinho, pois toda experiência é vivida em contato com a alteridade, com o outro que se revela intimamente especial. Nessa relação, se forma e se transforma o universo no qual todos nós estamos inseridos.

Obviamente, com o tempo e os relacionamentos, manifesta-se em cada um de nós a coragem para ousarmos e vivenciarmos coisas que nós não vivenciamos ainda. Não há sombra de dúvida: a vida é fugaz e a aventura de viver é inédita. Então, por que não aproveitar cada instante como se fosse o único, afinal de contas, quando tudo passar, poderemos chegar ao final de nossa existência e naquele último suspiro declarar que valeu a pena viver.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Só sentimentos...


Sei que não é muito comum aos homens falarem dos seus sentimentos, mas seguindo um aforismo de T. S. Eliot, múltiplas vezes citado por Rubem Alves, eu também gosto de andar em uma direção contrária. Então, eu me abro continuamente para falar dos meus sentimentos. Nestes últimos dias estive envolvido em um processo seletivo, visando um cargo bastante interessante como professor na área de psicologia. Me inscrevi no processo e passei pelas três etapas primárias. Ao final uma banca constituída por professores da casa entendeu que na minha aula teste eu não havia entregado aquilo que eles precisavam. Eu preciso confessar que essa resposta me deixou em um turbilhão reflexivo. Como poderia saber o que a banca esperava que eu entregasse? Junto ao turbilhão, manifestou-se uma tristeza. Ora, desde 2020, quando eu fui demitido da Faculdade Metodista Granbery, no auge da pandemia, sem receber os meus mínimos direitos trabalhistas, eu tenho buscado uma nova colacação profissional na condição de professor universitário. Neste último processo, bati na trave e, por isso, a tristeza.

Eu tenho um imenso apreço pela Psicologia e as linhas que dela fazem parte, especialmente a Psicoterapia Humanista-Existencial, embora tenha investido e estudado em níveis de especialização, mestrado e doutorado na área de Ciências da Religião, por conta da minha antiga atividade profissional. Hoje, só me interessa o campo psíquico.

Quando no desenvolvimento dos estudos em nível de doutorado, me aprofundei em hermenêutica e fenomenologia, duas potências que se fazem presentes na prática clínica Humanista-Existencial.

Há dois anos, ininterruptamente, tenho tido a oportunidade de vivenciar junto aos meus clientes a experiência da Clínica Humanista-Existencial. Eu sou um apaixonado por essa dinâmica por conta da sua forte carga filosófica e por entendê-la sempre aberta aos processos mais aprofundados da subjetividade humana, sem a pretensão de querer determinar perspectivas que sejam orientadoras ou diretivas para o cliente. A Clínica Humanista-Existencial é um movimento sempre aberto para entender o ser humano para além das suas próprias circunstâncias e demandas momentâneas. Talvez, pelo meu investimento nestes dois anos, participando inclusive da coautoria de vários livros importantes na área, bem como meu envolvimento no Curso de formação sobre a psicoterapia sartriana, eu me sinta um pouco decepcionado com a não aprovação no processo seletivo.

Sei que existem pessoas que passariam por cima dessa situação de boa, mas eu não. Estou chateado e confesso a minha chateação porque me sinto preparado para exercer a função docente e oferecer subsídios, informações e vivências a todos aqueles que quiserem compartilhar uma caminhada conjunta na docência e formação.

Acresce-se a isso a minha ampla experiência no acompanhamento às situações-limites vivenciadas pelas pessoas. Não há qualquer caso que eu enfrente do qual eu não tenha já percepcionado anteriormente. Coisa alguma me assusta, pois eu tenho referências diversas que me auxiliam nas provocações que visam a conscientização do cliente em sua demanda psíquica.

Os que me conhecem mais proximamente costumam sempre dizer: "Esquenta não! Vem coisa melhor por aí"! Mas eu não quero ouvir isso! Não quero mesmo! Estou frustrado e é assim que me sinto. É assim que me respeito e é assim que quero que me vejam. Frustrado por ter tentado e não ter conseguido. E por favor, não me venham com palavras frívolas dizendo: "Vale mais tentar do que não tentar, mesmo que não se consiga"! Há momentos em nossa vida que a gente precisa alcançar o que a gente espera alcançar. É o mínimo. Há uma música do compositor e cantor brasileiro Gonzaguinha, intitulada Guerreiro Menino que é muito significativa. Ele afirma em uma de suas estrofes que o homem precisa do seu trabalho, "pois sem o seu trabalho, o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre, se mata". Eu preciso do meu trabalho. Eu preciso da minha honra.

Não pensem que eu estou chorando o leite derramado. Eu amo o que eu faço atualmente na clínica psicológica Humanista-Existencial, mas eu preciso de dinheiro para a minha subsistência e para o pagamento das minhas contas. Isso eu busco continuamente, especialmente porque a clínica psicológica tem as suas flutuações. Há meses em que tudo ocorre de uma forma muito tranquila, mas há meses em que os clientes, por conta de suas demandas pessoais e familiares, se afastam.

Como a gente ganha pelo que a gente produz, ou seja, pelas sessões que acontecem, se não há clientea, não há honorários. Por isso, todo psicólogo busca uma base profissional ou estrutura básica a fim de garantir o pagamento de suas contas basilares.

Por favor, não considere este texto como um desabafo ou coisa do gênero. Ele é só uma constatação de alguém que aprendeu a falar dos seus sentimentos, sem medo e sem ressentimentos. Só sentimentos.

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

  Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do na...