quinta-feira, 20 de abril de 2023

DIA 15 - Dizendo não à automação em 1000 balões...

 


Eu acredito no princípio ativo da espontaneidade como uma vacina contra toda e qualquer forma de automação do ser humano. Embora sejamos livres para vivermos as nossas experiências e tomarmos as nossas decisões, todos os dias somos convidados a robotizarmos as nossas ações dentro dos contextos sociais aonde vivemos os mais diversos processos. A perspectiva da automação parece ser uma convidativa porta aberta em nossa vida pessoal conduzindo-nos ao abraço à rotina.

Desde a dinâmica família até a estrutura do ambiente de trabalho a rotina se manifesta como companheira, marcando-nos pela mesma repetição das atividades corriqueiras. São poucas as vezes em que temos a oportunidade de recriar as nossas próprias ações e viver coisas que fazem um novo sentido em nossa dinâmica existencial.

O Grande Mestre da espontaneidade, a meu ver, é o médico romeno Jacob Levi Moreno. Ele é o pai do Psicodrama, que se caracteriza por uma abordagem psíquica baseada no teatro espontâneo. Ao criar o Psicodrama, Moreno enfatizou as profundas dinâmicas subjetivas e coletivas que envolvem a espontaneidade e a criatividade, elementos fundamentais para a vivência humana, favorecendo a projeção humana para uma nova realidade de bem-estar.
É importante situar que o conceito de espontaneidade em Moreno tem a ver com a questão da adequação. Pessoa alguma pode ser espontânea e sem limites. Toda liberdade precisa ser equilibrada pelos limites. Assim, toda e qualquer atitude marcada pela espontaneidade precisa considerar os parâmetros dessa ação.

Todavia, como somos seres limitados pela nossa corporeidade, pelo tempo e pelo espaço, a criatividade se atrela à espontaneidade para possibilitar atitudes extremamente novas diante de contextos que parecem bem resolvidos. Não precisamos deslindar as nossas vidas em ações deslocadas de uma realidade vivencial, mas podemos evidenciar uma série de cenas e ações psíquicas que possibilitem a contemplação de  outros mundos mais coerentes com as nossas expectativas.
Curiosamente, enquanto escrevo este texto, recebo a notícia de que hoje se completam 15 anos do desaparecimento do padre Adelir de Carli. O referido padre ficou conhecido por voar com 1000 balões, cheios de gás hélio, do Paraná até o Mato Grosso do Sul. Ele queria arrecadar uma quantia de dinheiro para construir um hotel para abrigar os caminhoneiros na região do Paranaguá, no litoral do Paraná.

Infelizmente, apesar de toda a sua experiência com voos e saltos de paraquedas, o referido padre acabou enfrentando uma tempestade tropical, vindo a  desaparecer no mar, sendo encontrado somente sete meses depois no litoral do Estado do Rio de Janeiro.

Certamente ele vai ficar registrado na memória de todo e qualquer brasileiro que teve a oportunidade de conhecer a sua história. Hoje, passados quinze anos, ele é relembrado como o “padre do balão”. O seu ato certamente foi um ato espontâneo e criativo. Ele ousou fazer o voo por conta dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Quis arrecadar dinheiro de uma forma inusitada, mas a situação saiu do controle. Seu legado continua entre nós.

Não vou entrar no mérito quanto a decisões certas ou erradas tomadas por ele. Não cabe a qualquer um de nós um julgamento. Ele fez o que acreditava e isso é o que importa.

Mas passo a refletir com os meus botões: Será que em nossos cotidianos não precisamos também fazer os nossos voos inusitados com balões? Obviamente, não precisamos ir às últimas consequências, vindo a  enfrentar situações intempestivas, mas criarmos possibilidades novas que nos afugentem daquilo que é tão concreto, tão cartesiano, tão lógico e tão matemático.
Enfim, eu acho que podemos acreditar um pouquinho mais em nós mesmos em nossas potencialidades pessoais. Indicarmos a nós mesmos os nossos limites com a finalidade de alcançarmos novos tônus vitais em nossa dinâmica existencial, afinal de contas, como sempre gosto de refletir, a aventura da vida é inédita e precisamos experimentar coisas novas todos os dias, de preferência.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

DIA 14 - O inferno sou eu

 


Todos os que já tiveram a oportunidade de conhecer previamente o pensamento do filósofo francês Jean Paul Sartre sabem muito bem da sua assertiva: “o inferno são os outros”, presente na peça teatral “Entre quatro paredes”. Nesta peça Sartre apresenta-nos três personagens: Garcin, Inês e Estelle. Os três estão presos em uma sala sem janelas – uma espécie de inferno sartriano. Além das três pessoas, existem três canapés, uma estátua de bronze e uma lareira. Dentro da sala é dia o tempo todo e os olhos precisam ficar diuturnamente abertos. Obviamente, em um cenário como esse, os desafios relacionais são contínuos e o cansaço emocional extenuante. Cada personagem possui uma personalidade distinta e as aproximações se dão, vis-à-vis, numa contínua perturbação onde há um revezamento entre as posições de vítimas e carrascos. Os olhares intercruzados de cada um dos três referenda a existência de cada qual ao mesmo tempo em que vaticina a debilidade que cada um percepciona em si mesmo. A trama se desenvolve em seus encontros e desencontros entrechocados até o momento que em um embate mais acirrado, Garcin solta a célebre frase: “O inferno são os outros”.

Mas, por que o inferno são os outros?

Em nossa percepção e leitura, diversos aspectos são possíveis de ser elencados na referida peça. Sartre se utiliza de um enredo surreal para considerar a dinâmica das relações que ocorrem nas ambientações sociais. De fato, o olhar do outro sobre nós em um determinado ambiente sugere a incidência de uma série de desconfortos. A maneira pela qual nos vemos estampados nas faces, nas críticas e nos conceitos das pessoas que nos circundam, provoca em cada um de nós uma série de inquietações diversas. Na maioria das vezes, nos vemos e não gostamos do que vemos. É como se o outro oferecesse a nós um espelho onde a nossa própria imagem se projeta, dissociando-nos de nossa própria certeza. Ao mesmo tempo e de certa maneira, aquele que se oferece como espelho acaba julgando a existência alheia, bem como as formas de condutas de um. Tudo isso coloca o ser humano no entroncamento entre os subjetivos encontros e desencontros com o seu próprio eu.

Inspirado nessa peça de Sartre, eu resolvi enfocar o prisma que realmente me importa: “O inferno sou eu”! Sei que essa frase pode até provocar uma inquietação pessoal e subjetiva, mas ela é honesta!

Tenho por mim que cada pessoa deveria se observar e se percepcionar com vias ao autoconhecimento. Ver-se e aceitar-se em suas contradições é um caminho sumamente importante para o bem-estar. Lembro-me da célebre frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955): “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Nela, o referido filósofo entende que a vida se encontra em um contínuo processo de mudanças. Seu sistema filosófico baseia-se no que chamou de razão vital, ou seja, a ideia de que a racionalidade é uma função da existência e abarca as condições físicas, sociais e psíquicas de cada sujeito. O ser humano vive e interage com o mundo como um sujeito ativo em meio a diversas circunstâncias. Desde o nascimento até a morte, o ser humano vive os movimentos do aprendizado no arcabouço da vida social. Acresce-se a esse sucinto toque tangencial a uma frase do filósofo espanhol a constatação que brota em minha própria consciência de que estamos todos, querendo ou não, nos diversos relacionamentos que ocorrem nos nichos socioculturais marcados pela diversidade.

Infelizmente, estamos acostumados a julgar as pessoas ou lançar críticas ao outro sobre as questões que nos incomodam individualmente. Obviamente, é bem mais simplório colocar o dedo em riste e afirmar que o outro é o culpado quanto a eu viver esta ou aquela vida, esta ou aquela situação, a me assumir. Todavia, sabemos que aceitar que a culpa é do outro significa abraçar uma mentira. Como se diz popularmente: “Mentira tem perna curta”. Acho que essa mentira nem tem pernas, pois na página dois teremos plena consciência das contradições e circunstâncias que nos envolvem. Chegarei à nítida constatação de que o “inferno sou eu”! E pessoa alguma poderá me retirar dessa posição incômoda. Tornamo-nos mentirosos se não assumimos vivamente a nossa responsabilidade frente à nossa liberdade. Somos seres livres, inclusive para escolhermos os caminhos de nossos aprisionamentos.

Enfim, eu não gostaria de estar entre as quatro paredes de Sartre, mas estou. Independente do que pensarem a meu respeito ou dos pretensos julgamentos que me ferirem, vou celebrar o meu próprio caminho amando, dando vexame e sendo ridículo no que eu faço. Só tenho compromisso comigo. Daqui a cem anos, pessoa alguma se lembrará de mim. Sou, como poetizei recentemente: “Eu... Num incêndio, chama miúda. Cristalina gota num mar. Poeira livre, partícula, vento. Húmus terra, sangue a pulsar. Mistura fina que respira amar”.  Sinto-me assim: uma parte no todo, no charco, um lodo. Sei que quanto mais claro eu for sobre mim mesmo, mais terei a oportunidade de me oferecer e me encontrar. Acho que eu vou sair por aí estampando e desfraldando a bandeira de que de fato eu sou o meu próprio inferno. E tenho dito.

 

quarta-feira, 5 de abril de 2023

DIA 13 - O significado da Páscoa para os cristãos



Os cristãos celebram a Páscoa anualmente. Essa é uma data memorável cuja reflexão favorece o renascer na esperança. O evento pascal, que vai além da celebração do domingo é, também, um tempo de saberes e sabores.


Saberes

A Páscoa possui muitos saberes que orientam a vida e as demandas relacionais das pessoas. Esses saberes originam-se no sentido da palavra hebraica “pessach" que significa, por um lado, o ato de manquejar ou de dar pequenos saltos e, por outro, passagem. Independente da dualidade da definição, importa afirmar que a dimensão do que concebemos por Páscoa leva-nos, necessariamente, a pensar em movimentos que ocorrem no caminho da vida.
A páscoa ganhou um peso importante no evento fundante da nação Israel: o êxodo. A passagem da escravidão para a libertação. Este foi o processo que culminou com a fuga dos pré-israelitas do, celebrado com a imolação de um cordeiro e a reunião familiar num ato memorial de suma importância para as crianças e para os anciãos à época. Estes contavam histórias sobre os acontecimentos que culminaram na nova dimensão de vida. Nesse processo de libertação, a celebração familiar era também um culto ao Deus da vida.
Outro saber a ser evidenciado em um período posterior se deu com a ressurreição - base da fé cristã. Pensar a ressurreição de Cristo é um ato de fé. É através da ressurreição que compreendemos o amor de Deus amor, pois Ele não aceitou a morte de seu Filho e o ressuscitou.
Poeticamente, refletindo sobre os sabores da páscoa, nos vemos diante de janelas abertas que nos ajudam a vencer os problemas difíceis da vida. O evento da ressurreição nos ensina a compreender que o fim pode não ser o fim, e que há sempre novas possibilidades de vida diante dos sinais de morte. A ressurreição é um importante saber para os cristãos. É a passagem do caminho tortuoso nas areias escaldantes do deserto para a trilha em mata atlântica à beira mar. É a saída do túmulo frio para o domingo de sol.

Sabores

Páscoa também é composta de sabores. Não somente os saborosos ovos de chocolate e os deliciosos quitutes do almoço de domingo, mas também os elementos que compõem a memória do povo judeu e de outros povos de tradição cristã. O escritor Rubem Alves disse duas frases interessantes sobre os sabores: “dize-me o que tu comes e eu te direi quem és”; e “Como, logo existo”, numa clara analogia ao "cogito" do filósofo René Descartes. Podemos pensar que o que nós comemos tem a ver com a nossa experiência existencial e com a cultura que vivemos. Tenho tido a satisfação de andar por esses brasis e saborear suas culturas e povos. Já saboreei também os sabores das culturas além-mar. Gosto dos sabores que constroem gentes e humanidades por esse mundão de meu Deus.
Assim, diante dessas singelas argumentações, podemos afirmar que os sabores da Páscoa têm a ver muito mais do que com chocolate, coisa que gosto muito, mas com uva, vinho, pão e peixe. A páscoa se estabelece pelos sabores simples e inigualáveis desses elementos. Acho que as nossas celebrações familiares deveriam vir acompanhadas de múltiplos tipos de uvas: rosadas, Itália, rubi, moscatel; regadas com vinho carbenet sauvignon, de preferência; pães, desde os ázimos, passando pelo tradicional pão francês ou pão de sal, até aqueles que são apelidados com a singela metáfora de "sonho". E, por fim, peixes: a traíra frita, a moqueca capixaba de badejo ao molho de camarão muitos camarões, o filhote com azeite, a pescada amarela, a traíra sem espinhas e, até mesmo, a sardinha em lata na mesa de um boteco.
A Páscoa é, assim, um tempo de saberes e sabores. Eu, particularmente, gosto dos saberes e gosto dos sabores. O importante, entretanto, é de celebrar as passagens da vida com vistas à dinamicidade da esperança.

quinta-feira, 30 de março de 2023

DIA 12 - Glória e Liberdade da Glória

 


No dia 2 de fevereiro, infelizmente, fomos aturdidos pela notícia do falecimento da jornalista Glória Maria. De fato, essa jornalista inspirou profundamente grande parcela dos brasileiros através das suas reportagens marcadas pelo seu envolvimento direto com cada delas. Essa jornalista sempre teve a oportunidade de fazer reportagens com amplo envolvimento nas aventuras e desafios. Quem poderia se esquecer dos seus saltos, suas travessias e suas travessuras entre culturas e balões? Ela sempre evidenciou que fazia tudo com muito medo, estabelecendo uma conexão expressiva com as emoções e os sentimentos do povo brasileiro.

Assistindo ao término do Jornal Nacional naquele mesmo dia, fiquei impressionado com a homenagem que os jornalistas e as jornalistas, bem como todas as equipes de várias regiões do Brasil prestou à jornalista. A emissora reservou um espaço significativo na TV aberta para aplaudirem-na, com grande respeito, emoção, comoção e devoção. Após este momento icônico, nunca dantes visto na televisão, fui “sapear” as redes sociais para descobrir outras falas inusitadas da jornalista preta que fez história no telejornalismo brasileiro. Marcou-me profundamente uma entrevista da própria Glória Maria em que ela expunha a memória da sua avó, que sempre a ensinava a nunca abrir mão da sua própria liberdade, pois os seus antepassados foram privados da liberdade por conta da escravidão e ela, na contramão dessas proposições, deveria fazer um enfrentamento e se apresentar autenticamente e espontaneamente como um ser que quisesse ser e fazer o que quisesse. Na mesma entrevista, a jornalista falou sobre o racismo que sofreu em todos os anos de sua atuação. Fez questão de salientar os enfrentamentos em todos os tempos e a sua coragem – o carro chefe que deu a ela a possibilidade de conhecer grande parte deste mundo e as culturas diversas sem perder a essência da sua própria vida e liberdade.

Talvez resida nesse legado de Glória Maria algo muito especial para cada um de nós, pois, de fato, se pararmos para pensar um pouco, chegaremos à constatação de que o que vale à pena em nossa existência é o abraço firme e genuíno à liberdade. Mais do que isso, acho que nenhuma pessoa nesse mundo deve deixar de viver a sua vida da forma como gostaria de viver, afinal de contas, descobriremos que nada mais somos do que pequenas bolhas de sabão que flutuam nesse universo. Por mais voos que façamos ou brilhos que espraiemos, um dia vamos pocar.

Depois das entrevistas, passei a ouvir os depoimentos de cada amigo e amiga na jornada. Tocou-me de uma forma mais efetiva a fala do jornalista Marcos Losekann. Ele disse que a Glória não deveria ser enterrada, tão pouco cremada, mas plantada para que continuasse a dar muitos e muitos frutos e flores no decorrer dos tempos, tudo para ser contemplado por aqueles que respirarem o seu legado em algum momento da nossa jornada existencial. Essa fala me trouxe boas rememorações, pois me lembrei de ter recebido um presente de uma Escola de São Paulo após uma palestra ministrada. O presente me veio pelos Correios. Tratava-se de quatro mudas de Ipês, cada um com uma cor. Recebi com apreço e surpresa aquele presente. Fiquei deveras feliz e batizei cada uma das mudas com um nome querido por mim. O ipê Amarelo que foi batizado por mim pela alcunha de Rubem Alves. Havia uma razão óbvia: Rubem amava os ipês amarelos; o ipê branco, que recebeu o nome de Frida Kahlo; o ipê Rosa que recebeu a alcunha de Maria Bonita e o ipê roxo que recebeu o nome de Darcy Ribeiro. Como na minha casa não havia espaços para a plantação dos ipês, resolvi ir a um sítio de uns amigos queridos para proceder o plantio das árvores. Até gravei um vídeo registrando todo o momento. Foi tudo muito especial. Celebrei aquelas vidas – árvores e gentes – mediante um ritual de respeito e devoção ao plantio delas em lugar tão lindo tão paradisíaco. Acho que foi por essa celebração que a fala de Losekann mexera muito comigo. Quando ele falou da amiga em sua passagem, eu me lembrei do meu ritual celebrativo, cheio de encantamentos.

Embora as árvores embora não sejam tão livres quanto à Glória, certamente elas continuarão a crescer e semear as suas sementes e a ditar as normas dessa vida marcada pelos seus mais distintos encontros e desencontros, seus consecutivos nascimentos e mortes, suas potencialidades ornadas por este poder chamado natureza.

Que a memória de Glória seja continuamente plantada entre aqueles que anseiam a liberdade em seus lindos movimentos...

quinta-feira, 23 de março de 2023

Uma situação limite no cotidiano

 


Há duas semanas, eu vivi uma outra experiência extremamente complexa em minha vida. É muito interessante como somos assaltados pelo inusitado de uma forma muito intensa, quando estamos esperando, tão somente, a normalidade.

Eu estava em casa com a finalidade de participar via on-line de uma audiência no Fórum de São Paulo. Eu era uma das testemunhas arroladas. Já conectado, aguardava a intervenção do juiz. De repente, comecei a ouvir o meu nome sendo chamado por uma pessoa que nunca houvera gritado o meu nome. À princípio, achei aquela situação bastante estranha mas por causa da recorrência, resolvi responder. Foi quando saindo de minha casa me deparei com a Fisioterapeuta de minha mãe vindo ao meu encontro com as feições do rosto carregadas de um certo terror. Ela foi prontamente me dizendo que a minha mãe estava passando mal. Eu rapidamente subi as escadarias da casa da minha mãe para saber o que havia acontecido. Moramos perto. Pensei, à princípio, ter se tratado de um mal-estar comum, chegando a um desmaio, mas não. Ela havia sofrido uma parada cardiorrespiratória, o que foi comprovado pela ausência de pulsação na hora. Eu a vi completamente desfalecida, sem sangue no corpo e com uma coloração azulada. Naquele momento, eu realmente pensei que tinha perdido a minha mãe.

Então, eu e a Fisioterapeuta iniciamos os procedimentos básicos para a pessoa retomar o tônus vital. Enquanto ela fazia a massagem cardíaca, eu fazia a respiração boca a boca. Depois de alguns minutos, conseguimos trazer ela de volta e nos felicitamos com isso. Nesse prazo, já havíamos ligado para o SAMU e em questão de minutos, as equipes ali estavam para fazer o atendimento emergencial. O coração da minha mãe estava batendo fraquinho, sua pulsação quase inexistente e o assombro em seu rosto.

Preciso enaltecer o trabalho de toda a equipe do SAMU. Rapidez, eficiência e cuidado sendo revelados ao mesmo tempo. De um instante para o outro, o quarto onde a minha mãe dorme se viu envolto por pessoas que nunca ali estiveram para o pronto socorro.

Depois do susto, quando a adrenalina começou a voltar para os seus recônditos, passei a pensar um pouco mais sobre a efemeridade da vida. Eu sempre reflito sobre essa temática. Aliás, ela é muito recorrente na dinâmica do meu pensamento, todavia ela ganhou outro contorno efetivo no momento em que eu estava vivenciando aquela experiência com a minha mãe. O piano ficou suspenso por um fio de cabelo.

É estranho pensar que em um instante fugaz, tudo o que é importante para cada um de nós perde todo o valor. Nossos pertences pessoais, nossas fotografias, nossos documentos, nossos títulos, o dinheiro na carteira, o dinheiro no banco, a comida e a bebida na geladeira... tudo perde o sentido e o sabor. Em uma situação limite, coisa alguma importa, pois tudo é neblina...

Pensei também que ao final de todas as coisas, o aspecto mais relevante concerne aos afetos que devotamos às pessoas que amamos e nos importamos. Às vezes, a vida em seu tapete cotidiano faz com que vivamos de forma muito superficial, sem o carinho necessário para quem está ao nosso lado. Quando as situações se complicam, a gente se encolhe em uma caixinha de fósforos. É interessante como que, em situações limites, quando em uma hora nós somos e na outra, não mais, agonias diversas se estabelecem e a angústia nos visita intensamente. Como nos diria Karl Jasper, é a partir da situação limite que perdemos a segurança que antes possuíamos ou mesmo a certeza que antes nos assegurava. Em suas próprias palavras: Como Jaspers disse: “[...] mas no final não podemos fazer nada além de nos render. O jeito significativo de reagir às situações limite é, então, não por planos ou cálculos a fim de superá-las...” (1932, vol. 2, p. 179).

Aceitar o que nos sobrevêm? Talvez!

Hora de abandonar todas as sapiências e indagar sobre o que de fato vale à pena quando existir é o que nos resta...

Enfim, minha mãe agora está bem! Instalou no seu corpo um marcapasso e seguirá a sua jornada até a próxima situação limite.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Tempo, relacionamentos e prazer...



No clássico livro O Pequeno Príncipe, de Saint Exupéry, dois diálogos se ressaltam: o que se dá com a raposa e o que se dá com a rosa. No caso dessa última, uma conclusão se torna emblemática: "Foi o tempo que você passou com a sua rosa o que a fez tão importante”.

Esta frase me comunica muito sobre o investimento que realizo em meus relacionamentos. Ora, neste mundo marcado pelas lógicas individualizadas das muitas pessoas, investir em relações se torna, quase, um ato subversivo, pois eivado de um deslocamento de si mesmo em direção ao outro. Infelizmente, não é muito comum as pessoas se dedicarem às outras sem esperarem coisa alguma em troca. De qualquer forma, é fundamental que dediquemos grande parte do nosso tempo a abraçarmos e a beijarmos as pessoas, ampliando os nossos vínculos afetivos.

Infelizmente, muito desse investimento hoje se perde nas mídias sociais. A relação virtual ganhou grandes contornos e ocupa o lugar das experiências  mais impactantes do cotidiano. Na contramão das redes sociais, eu tenho nutrido um grande apreço pelos risos largos e os abraços apertados. Com estes afetos em evidência, enfatizo que pessoas bem especiais para mim passaram a ter uma importância mais efetiva em minha vida.

Tenho sempre dito que uma das coisas mais fantásticas da experiência vivencial é a gente ter a oportunidade de viver coisas novas em nosso cotidiano. Obviamente nós somos seres fascinados pelas novidades que se estabelecem diante dos nossos próprios sentidos. Sentir é uma experiência vital para cada um de nós seres humanos, especialmente os que têm o privilégio de viver essa dinâmica vital completamente inédita chamada existência. Lembro-me sempre que o tempo é muito curto e que tudo que nós vivemos aqui voa rapidamente como o vento, como a chuva, como a tempestade de verão. Então, torna-se fundamental que a gente tenha a oportunidade de saborear cada momento como se fosse o único. Hoje, eu tenho 52 anos e para mim, experimentar coisas novas, é uma aventura maravilhosa.

Recentemente eu tive o privilégio de experimentar uma das maiores sensações corpóreas da minha vida, enquanto eu estava completamente tomado por tudo aquilo que me ocorria num simples gesto de amor. Eu fechava os olhos e visualizava coisas que eu não tinha consciência de que existiam na minha memória. Em dado momento, eu vi o universo e seus sistemas complexos cheios de estrelas, asteroides e planetas; eu vi o fundo do mar e suas pérolas brilhantes; eu vi a constelação dos meus neurônios brilharem dentro de mim. No âmbito desta minha contemplação em mim mesmo, não conseguia mensurar ou mesmo colocar em palavras aquele apelo tão profundo que me fez viver a pequena morte de um jeito nunca vivido. Minha alma ficou translúcida e o corpo passou a viver o que nós tradicionalmente chamamos de transcendência. Existem momentos em que voamos tal como as nuvens que se manifestam no céu azul, na abóboda celeste. Elas se fazem e se refazem, assumindo formas que se reformam e que se esmaecem numa doce brincadeira de algodão doce. Talvez, a nossa experiência corporal seja muito similar a experiência das nuvens. Nós nos formamos e nos perdemos para nunca esmaecermos a experiência de unir o céu, o mar e a constelação dos neurônios em vitalidade.

Essa experiência se tornou divisora de águas na minha vida. Não a vivi sozinho, pois toda experiência é vivida em contato com a alteridade, com o outro que se revela intimamente especial. Nessa relação, se forma e se transforma o universo no qual todos nós estamos inseridos.

Obviamente, com o tempo e os relacionamentos, manifesta-se em cada um de nós a coragem para ousarmos e vivenciarmos coisas que nós não vivenciamos ainda. Não há sombra de dúvida: a vida é fugaz e a aventura de viver é inédita. Então, por que não aproveitar cada instante como se fosse o único, afinal de contas, quando tudo passar, poderemos chegar ao final de nossa existência e naquele último suspiro declarar que valeu a pena viver.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Só sentimentos...


Sei que não é muito comum aos homens falarem dos seus sentimentos, mas seguindo um aforismo de T. S. Eliot, múltiplas vezes citado por Rubem Alves, eu também gosto de andar em uma direção contrária. Então, eu me abro continuamente para falar dos meus sentimentos. Nestes últimos dias estive envolvido em um processo seletivo, visando um cargo bastante interessante como professor na área de psicologia. Me inscrevi no processo e passei pelas três etapas primárias. Ao final uma banca constituída por professores da casa entendeu que na minha aula teste eu não havia entregado aquilo que eles precisavam. Eu preciso confessar que essa resposta me deixou em um turbilhão reflexivo. Como poderia saber o que a banca esperava que eu entregasse? Junto ao turbilhão, manifestou-se uma tristeza. Ora, desde 2020, quando eu fui demitido da Faculdade Metodista Granbery, no auge da pandemia, sem receber os meus mínimos direitos trabalhistas, eu tenho buscado uma nova colacação profissional na condição de professor universitário. Neste último processo, bati na trave e, por isso, a tristeza.

Eu tenho um imenso apreço pela Psicologia e as linhas que dela fazem parte, especialmente a Psicoterapia Humanista-Existencial, embora tenha investido e estudado em níveis de especialização, mestrado e doutorado na área de Ciências da Religião, por conta da minha antiga atividade profissional. Hoje, só me interessa o campo psíquico.

Quando no desenvolvimento dos estudos em nível de doutorado, me aprofundei em hermenêutica e fenomenologia, duas potências que se fazem presentes na prática clínica Humanista-Existencial.

Há dois anos, ininterruptamente, tenho tido a oportunidade de vivenciar junto aos meus clientes a experiência da Clínica Humanista-Existencial. Eu sou um apaixonado por essa dinâmica por conta da sua forte carga filosófica e por entendê-la sempre aberta aos processos mais aprofundados da subjetividade humana, sem a pretensão de querer determinar perspectivas que sejam orientadoras ou diretivas para o cliente. A Clínica Humanista-Existencial é um movimento sempre aberto para entender o ser humano para além das suas próprias circunstâncias e demandas momentâneas. Talvez, pelo meu investimento nestes dois anos, participando inclusive da coautoria de vários livros importantes na área, bem como meu envolvimento no Curso de formação sobre a psicoterapia sartriana, eu me sinta um pouco decepcionado com a não aprovação no processo seletivo.

Sei que existem pessoas que passariam por cima dessa situação de boa, mas eu não. Estou chateado e confesso a minha chateação porque me sinto preparado para exercer a função docente e oferecer subsídios, informações e vivências a todos aqueles que quiserem compartilhar uma caminhada conjunta na docência e formação.

Acresce-se a isso a minha ampla experiência no acompanhamento às situações-limites vivenciadas pelas pessoas. Não há qualquer caso que eu enfrente do qual eu não tenha já percepcionado anteriormente. Coisa alguma me assusta, pois eu tenho referências diversas que me auxiliam nas provocações que visam a conscientização do cliente em sua demanda psíquica.

Os que me conhecem mais proximamente costumam sempre dizer: "Esquenta não! Vem coisa melhor por aí"! Mas eu não quero ouvir isso! Não quero mesmo! Estou frustrado e é assim que me sinto. É assim que me respeito e é assim que quero que me vejam. Frustrado por ter tentado e não ter conseguido. E por favor, não me venham com palavras frívolas dizendo: "Vale mais tentar do que não tentar, mesmo que não se consiga"! Há momentos em nossa vida que a gente precisa alcançar o que a gente espera alcançar. É o mínimo. Há uma música do compositor e cantor brasileiro Gonzaguinha, intitulada Guerreiro Menino que é muito significativa. Ele afirma em uma de suas estrofes que o homem precisa do seu trabalho, "pois sem o seu trabalho, o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre, se mata". Eu preciso do meu trabalho. Eu preciso da minha honra.

Não pensem que eu estou chorando o leite derramado. Eu amo o que eu faço atualmente na clínica psicológica Humanista-Existencial, mas eu preciso de dinheiro para a minha subsistência e para o pagamento das minhas contas. Isso eu busco continuamente, especialmente porque a clínica psicológica tem as suas flutuações. Há meses em que tudo ocorre de uma forma muito tranquila, mas há meses em que os clientes, por conta de suas demandas pessoais e familiares, se afastam.

Como a gente ganha pelo que a gente produz, ou seja, pelas sessões que acontecem, se não há clientea, não há honorários. Por isso, todo psicólogo busca uma base profissional ou estrutura básica a fim de garantir o pagamento de suas contas basilares.

Por favor, não considere este texto como um desabafo ou coisa do gênero. Ele é só uma constatação de alguém que aprendeu a falar dos seus sentimentos, sem medo e sem ressentimentos. Só sentimentos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Em meio ao lazer, inquietações e diversidade

 


 

Considero-me uma pessoa muito curiosa, especialmente com as demandas que a vida e a existência oferecem a cada dia. Talvez, por este fato, eu esteja o tempo todo em busca das perspectivas mais inusitadas que me favoreçam novos olhares para o todo que me cerca. Eu acredito que viver seja uma grande aventura contigencial, eivada das mais diversas experiências. Aliás, viver é experimentar os sabores que nem sempre nos apetecem, mas também aqueles que nos jogam no lago dos deleites. Através dessas vivências, sempre dicotômicas ou dialéticas, torna-se possível a abertura de novos horizontes reflexivos e interpretativos, os mais diversificados.

A curiosidade me liga a essa incrível vontade de querer viver coisas novas e de aceitar a minha recriação e a minha ressignificação, continuamente. Lembro-me a cada instante que o que eu tenho para viver é o instante. Até tatuei no pulso do meu braço esquerdo a expressão latina hic et nunc, que quer dizer: aqui e agora. A cada momento, preciso me recordar que o que eu tenho é o lapso do tempo que passa, já foi. Aliás, coisa estranha é essa marcação do tempo, dividido em dias, horas, minutos e segundos. No fundo, vivemos transições contínuas entre dias de sol e noites de luas. Chuvas em parcos ou contínuos momentos. Que não nos assombrem as inundações.

Por isso, gosto de experimentar através dos meus sentidos, o que move o meu coração de forma individual, bem como toda a sua dimensão relacional.

Neste mês de janeiro, revisitei todos estes meus pensamentos, a ponto de refazê-los, enquanto curtia uma praia no litoral sul do Espírito Santo. Ora, sempre ouço as pessoas dizerem que entram no período de férias para descansarem, mas a verdade é que, em férias, nós nos cansamos de uma forma diferente. Me gastei diante do mar refletindo sobre as potencialidades no nosso próprio existir humano. Confesso que a partir da observação dos fenômenos da natureza, tive a oportunidade de visualizar também todo o universo. Ver a água do mar moldar continuamente as pedras ou mesmo favorecer o processo de conjugação de pequenas plumagens de líquens ao seu ao redor, criava uma conexão em mim, capaz de me lançar ao cosmos, num amplo fascínio presente em uma memória afetiva ancestral, inerente às grandiosidades do existir neste planeta pequeno.

Infelizmente os meus dias de paz foram afetados por uma necessidade de escrever um texto e gravar uma aula-vídeo para um importante processo seletivo do qual eu faria parte. Mas como eu estava sem meus livros, sofri um pouco a ausência dos recursos primários. Foram momentos de grande tensão justamente porque eu não estava com o meu aparato técnico, especialmente o meu notebook.

Tal situação importunou-me bastante, estabelecendo-se no meu corpo uma ansiedade a ponto de me provocar náuseas. Depois de ter fechado o texto com o estabelecimento das linhas gerais do meu pensamento, eu vomitei muito e tive uma reação febril.

O mal-estar não tirou o sabor dos meus dias de paz. Depois do ocorrido, curti bastante, bebi muita cerveja e comi petiscos na companhia de amigos mais chegados que irmãos. Vivi dias de muita completude, retornando à minha cidade, à minha casa e às minhas atividades como psicólogo, completamente renovado.

Lembro-me, entretanto, de ter pensado em uma questão extremamente pertinente para a dinâmica da vida social, a saber a questão da diversidade. Enquanto eu observava as pessoas indo e vindo na praia, todas elas vestidas de suas singularidades e, a meu ver, completamente abertas para viver a experiência da nadificação, aproveitava para visualizar os corpos, os cabelos, o jeito de se portar e as variações posturais. Havia gente em pé, gente deitada, gente andando, gente correndo, gente comendo, gente bebendo, gente dormindo e gente contemplando a imensidão do mar até a linha do horizonte.

A ideia de diversidade denota a riqueza na qual estamos inseridos. Se por um lado, lutamos pela igualdade de direitos para todos, por outro, afirmamos as nossas diferenças em todos os rincões deste país multifacetado. Existimos para afirmarmos continuamente a nossa mais autêntica "Arca de Noé".

Enfim, eu que sempre tenho um caso de amor com as pessoas continuo a minha jornada comum, almejando, acima de tudo, minha curiosidade para ver e me relacionar com toda a diversidade dos corpos das gentes que me for possível relacionar.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Das alegrias e dos ascos...

 


Acredito que seja igual para você. Há dias em que a gente acorda com uma diferenciada emoção no peito. Do nada, se manifesta aquela alegria esfuziante que se irrompe pela manhã, conjugando o lindo sorriso com o raio de sol que rasga as cortinas das janelas e as retinas dos olhos. Todavia, em outros dias, a situação é diferente. Acordamos como que cansados, pensativos, reflexivos e perplexos diante da vida. O fato é que em alguns dias, vivemos dias bons, em outros, dias maus. Em todos, é fundamental que cada um de nós entenda que as variações não podem ser evitadas.

Acordei em minha segunda feira com o humor elevado, afinal de contas, tive um bom, relaxante e gostoso final de semana. Aproveitei o sábado e o domingo para investir em leituras e, também, assistir alguns documentários e filmes. O dia foi muito prazeroso, tranquilo, eivado de silêncio e boas reflexões. O sábado culminou com uma festa de aniversário, onde tivemos a oportunidade de celebrar a vida de uma adolescente de 13 anos. Lembro-me de ter dito a ela para jamais abrir mão das suas potencialidades, das suas alegrias e da sua espontaneidade. Disse, também, para ela não ter pressa para decidir, absolutamente, coisa alguma em sua vida, antes dos 25 anos. Ela me respondeu com um sorriso nos lábios e sua tênue simpatia adolescente que nunca se esqueceria do que eu havia lhe dito.

A noite estava chuvosa e no retorno para casa senti bater o cansaço próprio do tempo. Computo, hoje, 52 anos de histórias bem vividas e experiências contínuas. Depois de 2004, quando sofri um deslocamento de retina, apesar de toda a boa adaptação que eu resilientemente adquiri, muitas dificuldades inerentes sempre se manifestaram, como, por exemplo, colocar o suco presente em um simples jarro em um copo. Às vezes, até acho que está tudo certo, até o momento em vejo se espraiar parte do suco sobre a toalha da mesa. E no tempo atual, não tenho apreciado dirigir à noite. Em dias de chuvas, tudo piora, embora eu dirija com extremo cuidado. Cheguei em casa, tomei um bom banho e parti para um sono profundo.

No domingo, acordei alegre, festivo e sorridente. Assisti a um filme nada a ver, meio besteirol. Comecei a ler com outro livro: Mulheres que correm com lobos da escritora Clarissa Pinkola Estés. Aliás, tenho nutrido um forte interesse, ultimamente, por assuntos que se referem a saúde mental da mulher, o universo feminino e suas variações. Confesso que já tive a oportunidade de começar a ler este livro no passado, mas não o li como na atualidade. Agora, assumi a leitura com mais afinco, lendo o livro de uma forma bem mais atenta e afetiva.

Meus filhos vieram almoçar conosco. Almoçamos um saboroso arroz à piamontez, acompanhado de bifes suculentos. Após o almoço, resolvemos ir para uma roda de samba. Eu curto demais um grupo formado só por mulheres, chamado Samba de Colher. Chegamos ao local onde o grupo iria se apresentar, no Bar do Antônio em Juiz de Fora. Descobrimos que não havia mesas para nos assentarmos e, então, ficamos do lado de fora sob a pequena garoa que caía, mas tendo um ângulo privilegiado, pois o grupo estava a 4 metros de nós. A chuva começou a apertar e um dos garçons, muito atencioso por sinal, conseguiu uma mesa para nós na varanda do bar. Fomos para lá, nós sentamos e pedimos alguns quitutes: Fígado com jiló e batatas com queijo. Estava tudo uma delícia. Tudo regado, obviamente, pelas cervejas estupidamente geladas.

Participamos do momento, conversamos e curtimos as músicas. Uma amiga se ajuntou a nós. Depois, com o fechamento do bar, resolvemos ir para a nossa casa, para continuar a nossa bebericação e jogar conversa fora, nossa grande especialidade. Justamente nesse momento fomos aturdidos, mais detidamente, pelas notícias que nos chegavam pelas mídias, sobre a violência dos criminosos golpistas em Brasília. Confesso que assistir às bárbaras cenas dos extremistas provocou-me um genuíno nojo. Como pode existir gente que não aceita o resultado democrático de uma nação livre e soberana? Deu-me asco ver as caretas hipócritas de cristãos esdrúxulos que, de certa forma, manifestavam a patologia da fé cristã, conjuntamente ao anúncio do anticristo. A destruição do patrimônio dos Três Poderes constituídos provocou-me os meus piores instintos sentimentais. Eu, que estou ao lado da democracia, mesmo sabedor das suas fragilidades, sei que vamos virar essa página, assim como aconteceu nos Estados Unidos. Essa cópia gerada por esse gado criminoso, aqui no Brasil, não ficará impune.

Enquanto terminava a presente narrativa, me organizava para ir ao consultório atender aos meus clientes. Essa minha ação psicoterápica me gera muita satisfação. Sempre acolho os meus clientes com alegria. É preciso abraçar cada um em suas singularidades. Todo eivado, obviamente, pela dinâmica do amor. Mesmo na simplicidade de um momento, fazer acontecer o amor é necessário. Sim! O amor explode no ar. Depois dos atendimentos, retornei à minha casa e estudei um pouco mais. O dia foi bom e o diferencial dele foi buscar um lugar de refúgio para descansar a psique pessoal. Todos nós, psicólogos e psicólogas precisamos, em dado momento do dia, nos esquecermos de quem somos e o que fazemos. Vida que segue. Eu, de minha parte, espero que todos os terroristas que depredaram o patrimônio públicos paguem pelos seus crimes.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Chuva, amor e teimosias



Ouvi durante toda a madrugada, pelo menos na hora em que me revirava na cama, a copiosa chuva que caía tilintando nos telhados. Preciso confessar que, embora reconheça todos os riscos inerentes ao volume das chuvas nas diversas regiões e seus consequentes alagamentos e quedas de barreiras, dormir com o barulhinho da chuva é uma dádiva.

Eu acordei inspirado. Existem dias que, por uma razão que não sei explicar, a dinâmica dos meus pensamentos se emoldura pela dimensão maravilhosa e inexplicável do amor. Eu que tenho andado pelos caminhos e trilhas da psicologia, me deparo continuamente com a ideia de que a psicoterapia se faz mediante a vivência do amor. Aliás, para a maioria dos grandes nomes que compõem a trajetória da Psicologia, o amor é o elemento que pode estabelecer a chamada cura psicoterápica. Eu prefiro falar de ajustes psicoterápicos. Mas, para além desse fato, não posso me eximir de considerar a ideia de que a relação entre o psicoterapeuta e o seu cliente ou o seu paciente se dá justamente na dimensão relacional do amor. O amor é, de fato, a tônica maior que não pode ser substantivada, pois é ação cotidiana na dinâmica do mundo.

Recentemente, lendo um livro de Humberto Maturana, observei se sensibilizar o amor que me envolve, novamente. Segundo o autor: “Por que eu uso a palavra amor? Uso a palavra amor porque é a palavra que usamos na vida cotidiana para nos referirmos à aceitação do outro ou algo como um legítimo outro na convivência. Alguém diz um amigo que está limpando seu carro: ‘ – Ei, você ama muito o seu carro’? – ‘Sim, claro, responde ele, ele é novo, eu cuido dele. Eu gosto dele’. A uma outra pessoa que deixa o gato subir na sua cama podemos dizer: – ‘Ei, parece que você ama o seu gato’! – ‘Sim, ele responde, eu o amo’. Ou, quando alguém nos permite ser o que somos, sem exigências, diremos ‘O fulano é um amor’, ou ‘O fulano me ama’. Ao mesmo tempo, quando alguém nos nega fazendo-nos exigências, dizemos ‘ – Você não me ama’. O que é o amor? O amor é a emoção que constitui as ações de aceitar o outro como um legitimo outro na convivência. Portanto, amar é abrir um espaço de interações recorrentes com o outro, no qual sua presença é legitima, sem exigências. O amor não é um fenômeno biológico eventual nem especial, é um fenômeno biológico cotidiano. Mais do que isto, o amor é um fenômeno biológico tão básico e cotidiano no humano, que frequentemente o negamos culturalmente criando limites na legitimidade da convivência, em função outras emoções”. (MATURANA, Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Editora UFMG, 2002, 67).

Tendo em mente os meus pensamentos livres e a pertinente intuição de Maturana, motivei-me, ainda mais, diante dessa possibilidade de me encontrar perante o outro sem exigências. Isso me deu um novo vigor às condições de minha atuação no consultório, com o intuito de abraçar mais afetivamente os meus clientes no contexto psicoterápico. Foi muito especial o dia, pois diante de todos os desafios e das demandas que cada um me trouxe, tivemos a oportunidade de construir os percursos mediante novas interpolações e, principalmente, novos caminhos visando a descoberta daquilo que poderíamos considerar a identidade de cada um. Chamou-me a atenção um fato que se destacou preponderantemente na maioria dos processos: a necessidade de se vivenciar a experiência vital de uma maneira tal que favoreça a adequação espontânea e criativa ao mesmo tempo em que haja uma proteção das emoções e dos sentimentos mais intimistas, afinal de contas, só se pode partilhar sentimentos intimistas com pessoas que possuam a mínima sensibilidade, capaz de acolhimento.

Enquanto eu desenvolvia toda essa dinâmica reflexiva presente nos processos psicoterápicos, não me faltava ao pensamento a dinâmica maravilhosa do amor.  Eu, particularmente, gosto de vivenciar o amor em todas as suas intenções, em todas as suas profundidades, em todas as suas paixões. Encontros e desencontros. Parto da premissa de que coisa alguma é perfeita, mas tudo pode ser extremamente divertido, pois os corpos são brinquedos que fazem experiências diversas e inusitadas, entrechocando os afetos possíveis e inimagináveis nesse não espaço que chamamos de universo. É preciso orgasmos.

Depois de todos os encontros possíveis no dia de hoje, retornei à minha casa com o intuito de poder relaxar um pouco. A chuva visitava ainda os telhados das casas da minha vizinhança. Então, busquei o relaxamento. Assisti a um filme muito intrigante, intitulado: Todas as razões para esquecer (2017), que fala, justamente, desses encontros e desencontros do amor na trajetória de um jovem rapaz que, passando por uma experiência de separação, vivencia todas as crises, todas as angústias, todas as emoções e todos os sentimentos inerentes ao término relacional. Ao final, a sua síntese foi emblemática. Ele disse que nem tudo pode ser vencido e que tudo pode ser saboreado na dinâmica do que é bom e do que não é tão bom...

Fui dormir em paz, depois de ter saboreado uma cerveja Colorado com essência de café forte. Degustar essa bebida foi uma experiência inusitada, pois nunca havia saboreado este sabor tão marcante. Fiquei com gosto de café na boca e cafeína no cérebro, mas nada capaz de me perturbar o sono. Ao contrário, eu dormi como um anjo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Gentileza e amizade sempre

 


Hoje, eu me levantei com um compromisso bastante específico. Por conta da manifestação de uma diverticulose em minha mãe, que já há anos sofre com essa inflamação, combinei de levá-la ao consultório médico com a finalidade de tirar uma radiografia, fazer alguns exames e visitar, como de costume, a sua médica particular. Eu já havia trocado de roupa e preparado o café. Enquanto eu tomava algumas goladas e via algumas notícias nas redes sociais, fui surpreendido com uma mensagem da minha filha. Me vi surpreso, pois ela, quase nunca, me envia mensagens aleatórias.

A bem da verdade, essa mensagem não era tão aleatória, pois ela continha um pedido bem específico. Ela queria que eu levasse para ela a bolsa com os seus objetos destinados à higiene bucal, que ela havia esquecido em seu quarto. Eu, prontamente, disse a ela que faria o meu esforço para ir ao encontro dela. O curioso foi notar que a rua da clínica onde a minha mãe iria fazer o seu exame era a mesma rua onde se localizava a cafetaria Grão Moente, onde a minha filha trabalha. Desci de carro até o centro da cidade de Juiz de Fora e me destinei à Rua Oscar Vidal. Estacionei o carro na rua, liguei o pisca alerta e disse à minha mãe: “Mãe, entra na clínica que eu vou levar uma encomenda para minha filha”. Enquanto eu me destinava à cafetaria, fiquei pensando sobre a coincidência, quanto à proximidade dos dois espaços. Eu estava usando a minha camisa branca com a inscrição: “Faça o amor acontecer”. Sempre quando ando com essa camisa, tanto a branca como a preta, noto que as pessoas ficam observando a frase que me acompanha na vida. Cheguei à cafeteria e entreguei à minha filha a sua encomenda. Dei um abraço nela e saí rapidamente para não atrapalhar o seu trampo. Eu precisava ainda resolver a questão do estacionamento.

Enquanto rumava para a clínica, eu me deparei com uma jovem senhora chamada Rita. Ela trabalha nas ruas da cidade, organizando a forma dos estacionamentos e fiscalizando os que estacionam de forma irregular. Dei-lhe bom dia e adquiri com ela o ticket com a finalidade de deixar o meu carro na rua pelo prazo de 1h30. Conversamos um pouco mais e, ao final, desejei a ela um feliz ano de 2023. Trocamos sorrisos e eu continuei a minha trajetória. Eu, particularmente, acho muito especial quando esses encontros fortuitos acontecem. É bom quando temos a possibilidade de sermos gentis com as pessoas e recebemos a retribuição. Foi inevitável para mim não me lembrar de José Datrino, mais conhecido como o Profeta Gentileza. Eu já tive a oportunidade de narrar um pouco da sua história em um pequeno livro que eu escrevi, intitulado: “Crônicas de uma alma subversiva”. Enfim, eu concordo plenamente com Datrino: “Gentileza gera gentileza”.

Na sequência, eu atravessei a Avenida Rio Branco, principal avenida da cidade de Juiz de Fora, que foi idealizada pelo engenheiro Henrique Halfeld em fins do século XIX. Me destinei à clínica onde a minha mãe estava fazendo o exame. Havia um procedimento de segurança e as pessoas estavam sendo convidadas a usar a máscara. Eu não portava nenhuma, mas a secretária da clínica me cedeu uma para que eu a usasse, especialmente dentro do espaço fechado. Fiquei aguardando a minha mãe por cerca de 29 minutos. Assim que ela desceu com o resultado do exame, rumamos para o carro que estava estacionado na rua, logo em frente. Dei partida no carro e subimos a Avenida Itamar Franco até o bairro Cascatinha. No caminho, ela me disse que precisava pegar um dinheiro no banco. Estacionei o carro e ajudei-a a sacar o dinheiro. Depois, rumei para casa, pois tinha que preparar um material que eu estava escrevendo. Ao mesmo tempo, precisava também me organizar para as sessões on-line que eu teria à tarde. Cheguei em casa, tomei um banho e me organizei com as minhas demandas. Almocei e me assentei na cadeira para aguardar o primeiro cliente. Atendi-o, bem como aos demais durante o período da tarde. Em meios aos intervalos entre um atendimento e outro, gastei meu tempo lendo uma obra muito simpática que me chegou às mãos, intitulada: “Presente do Mar”, escrito por Anne Marrow Lindebergh. A leitura dessa obra começou a provocar em mim um certo encantamento, especialmente por conta da sua simplicidade e profundidade.

Passei a tarde e início da noite envolvido com os meus atendimentos e o processo psicoterápico, bem como com os meus estudos. Nesse processo, tive a oportunidade de experimentar um pouco mais do crescimento inerente ao vasto campo da psicologia. Encerrei os atendimentos por volta das 19 horas. Eu havia combinado com um amigo muito querido, de longa data, para nos encontrarmos em um boteco. A gente iria beber um pouco, colocar a prosa em dia e, assim, amimarmos os nossos pilares emocionais de forma afetuosa. É, de fato, uma coisa maravilhosa a celebração da amizade. Não bebemos muito. Eu tomei somente dois copos de cerveja Petra e uma água com gás. Comemos um contrafilé com mandioca frita e pronto. Voltando para casa, sob uma intensa chuva, estacionei o carro e destinei-me a um bom banho. O dia foi exaustivo. Depois do banho, assentei-me na poltrona da minha casa, fiz um pequeno lanche e assisti a alguns flashes do último jornal de uma rede televisiva. Depois, coloquei o meu pijama e me destinei à cama para, enfim, descansar e relaxar, porque a sexta-feira prometia.

O Paradoxo da Empatia

  Todos nós, seres humanos, além de carregarmos os pesos externos, tais como mochilas, sacolas, valises, trouxas e malas, também carregamos ...