quarta-feira, 15 de abril de 2020

As amizades que fazem a diferença (Décimo quarto texto)



“A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; Ela exerce-se (é uma virtude)”.
Simone Weill

         O poeta Milton Nascimento afirmou certa feita que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração”. Já, outro, o Renato Teixeira, canta pelas paragens das rotas sertanejas que “amizade sincera é grande remédio, um abrigo no mundo”. Cá, no meu canto, sinto as profundas emoções e inspirações que subjazem a essas canções. Fica claro para mim que o desenvolvimento de uma boa amizade é coisa pra lá de boa.
         Por isso, quero continuamente a boa vivência junto aos amigos e as amigas. Quero me assentar frente a uma mesa farta e nutrir minha alma das conversas eivadas de besteiras, as mais diversas. Quero o absurdo da harmonia que favorece o bem-estar em meio ao caos social. Que ninguém compactue das ideias alheias, pois pensar diferente é fundamental. Sejam evidenciadas as contradições, toda a subjetividade e os desejos mais internalizados. Cada um tem a sua vida e os seus problemas, mas a gente se ajunta numa mesa para afogar as mágoas. Na companhia dos amigos e das amigas, não há lugares para o efêmero e o passageiro, pois tudo é efêmero e passageiro...
         No entorno da mesa, importam as pessoas que não querem saber de disputas ou questiúnculas. Somente resiste ali naquele momento de eternidade a boa conversa, misturada a risos e gargalhadas. De fato, não há nada mais prazeroso do que sentar-se à roda com alguns petiscos e bom vinho para celebrar histórias e rir com amigos e amigas. Se tiver um violão e uma música bem cantada, tudo fica quase perfeito! Nesse tempo onde as prosas e as poesias enchem o ar, permanece a vontade intensa de abraçar as pessoas, cuidando delas de uma forma carinhosa e sofisticada. Eis o grande legado oriundo dos momentos marcantes da trajetória comunitária, afinal de contas, a única coisa que prevalecerá em nossa fugaz jornada de vida são as amizades que constituímos.
         Entretanto, quando me deparo com as más resoluções relacionais, principalmente quando pessoas insanas querem se dar bem em cima das outras, fico boquiaberto. Num processo, onde muita gente se veste de insanidade, buscando a frugalidade do sucesso e do status – duas grandes bobagens que se constituem em vazios herméticos – não consigo reconhecer uma pitada de humanidade. Não conheço pessoa alguma em minha jornada de vida que, tendo tido êxito em algum momento de sua parca existência, e que se lança numa busca desenfreada por sucesso e status, alcance o êxito com dignidade. Ao contrário, vejo que a busca pelo glamour requer um alto grau de comprometimento e exigência, transformando pessoas alheias em coisas e objetos. Conheço, igualmente, os exemplos de pessoas que tendo galgado um terreno de grandes possibilidades na vida, acabaram se perdendo na avenida da bancarrota. Triste fim para aqueles que acharam que, por intermédio do sucesso e do status, poderiam ser reconhecidos. Não emito um juízo de valor fechado em relação aos que acham que estão dando o tombo no outro. Todavia, sei que o que se planta, se colhe. De minha parte, quero plantar boas amizades, fugindo de toda e qualquer possibilidade de ser visitado por algum tormento insano nas caladas da madrugada.
         Não quero gastar o meu tempo com as más resoluções relacionais. Vou é investir meu curto tempo de vida na espetacular aventura de conhecer os universos que se encontram nas consciências humanas – suas neuroses e até as suas psicoses.
         Vou apertar as mãos e beijar as faces de todas quantas pessoas eu quiser. Deixar-me ser absorvido pela retina dos olhos que me observarem. Não tenho medo da exposição. Sou o que sou e ninguém tem nada com isso. Se eu não puder viver a minha vida diante dos amigos e das amigas como ela deve ser vivida, quem a viverá, então? Apego-me a essa frágil esperança de viver a vida como ela se me apresenta, pois me sinto uma flor sendo causticada pelo calor do sol. Embora viceja, ficará ressequida e morrerá. Precisa ser bela, enquanto puder sê-lo.
         Assim, vou vivendo a vida curtindo cada momento como se fosse o último. Quero que, no entorno da mesa de celebração, cada amigo e amiga se torne companhia serena em minha caminhada. Desejo compartir o pão cotidiano e oferecer nas palmas das minhas mãos a água fresca a ser sorvida por quem está sedento. Que os sentimentos e gestos sejam estampados na sua mais intensa comensalidade.
         E se advierem as críticas quanto ao meu jeito e comportamento, não me importarei, afinal de contas, não sou perfeito, nem nunca desejei sê-lo. Sou, tão somente, uma síntese de contradições e conheço profundamente todos os meus defeitos, até os mais complexos. Posso até contá-los a você, se me permitir!
         Lembrei-me do Rubem Alves que, quando arguido em um congresso sobre seus posicionamentos quanto ao Jaime Wright, respondeu: “O Jim era meu amigo!” Encerrou a conversa, pois o mestre sabia que o bom da vida, ainda, é encontrar gente amiga que entende o outro e não o avalia por meros atos ou palavras. No fundo, para os amigos, no sentido mais estrito do termo, os defeitos não existem. São irrelevantes.
         Na minha transição, rumo a um lugar qualquer, fica claro a necessidade de romper com a solidão. Preciso da amizade sempre viva, próxima a mim, dando-me sentido e abraçando-me nos momentos de desorganização existencial. Tudo tem que ser regado a muita simplicidade e pé-no-chão. Vou exercer a minha amizade...

terça-feira, 14 de abril de 2020

Quixotagens (Décimo terceiro texto)

        
“Concordo com D. Quixote: o meu repouso é a batalha”.
Pablo Picasso

         Nem sempre eu encontro um lugar de recôndito para a minha alma. Às vezes, o que penso ou sonho é inexistente. Continuo a luta utópica, aprendendo a brigar com as armas que possuo. Sei que não vale a pena lutar com as situações e contextos que não serão alterados. Nesse sentido, às vezes me comparo à Dom Quixote, o “cavaleiro da triste figura”.
         Muitas pessoas já ouviram falar desta narrativa fictícia, escrita por Miguel de Cervantes e editada no ano de 1605. Uma interessante obra literária, cuja trama apresenta os idealismos e alucinações de Alonso Quixano – um fidalgo decadente e o seu companheiro lavrador e fiel escudeiro Sancho Pança.
         Dom Quixote, influenciado pelos romances dos cavaleiros andantes, acaba perdendo a razão e sai de sua letargia em busca dos sonhos impossíveis, das conquistas irrealizáveis, das estrelas inalcançáveis, do amor platônico e da paz interior que proporciona o descanso da alma. No início de suas andanças, ele elege uma lavradora chamada Dulcinéia como sua musa, e por ela, entra em delírios e luta contra monstros imaginários e situações irreais. Em uma de suas lutas mais fabulosas, Dom Quixote enfrenta os moinhos de ventos, achando que eram monstros, os mais diversos. Montado em seu cavalo, o Roncinante, vai ao encontro dos monstros, desferindo golpes aleatórios e se ferindo em uma luta vã.
         Todos os idealistas e apaixonados pela vida possuem comportamentos quixotescos. A trajetória de Dom Quixote de La Mancha é uma espécie de espelho para as minhas atitudes igualmente quixotescas. Quando comparo o herói pouco usual de Cervantes com a minha lida diária e com as lutas amorfas e sem sentido que deflagro contra os sistemas ideológicos bem montados, chego a constatação que tudo é paixão inglória.
         Em muitos momentos da minha lida, imagino dragões ou monstros imaginários, quando na verdade, estão adiante de mim somente os moinhos de ventos. Assim, diante de problemas ou dificuldades aparentes, eu preciso ser resoluto, pois no fundo, no fundo, todo dragão é um moinho de vento. Eu tenho medo! Aliás, tenho muitos. O meu medo é o meu grande aliado e meu grande inimigo. Os monstros imaginários tentam me destroçar.
         Dentre os meus medos, um sobressai: o de não ser o que pretendo ser, melhor dizendo, o de não deixar claro o que sou e o que quero. Acho que isso tem a ver com a clareza que possuo em relação ao mundo em que vivo e o sentido que ele me dá. Eu acho que é muito triste para uma pessoa passar por essa vida tão efêmera sem dizer a que veio. Sinto-me angustiado toda vez que penso na impossibilidade de alcançar o topo de um morro qualquer com um megafone, com a única finalidade de dizer: eu estou aqui e eu sou isso! Sei que para muita gente, isso parece uma bobagem, mas para mim não! Não quero aparecer ou lançar holofotes sobre meu próprio ego. Não se trata de marketing pessoal, mas necessidade de marcar a minha trajetória existencial com um legado. Mas, e se isso não for possível? Bem, pelo menos fica evidente a minha intenção de fazê-lo vivamente.
         Os medos ainda atormentam todo o humano em mim, principalmente, nas caladas da madrugada. Quero exorcizá-lo, mas não sei como fazê-lo. Preciso combatê-lo com coragem e ousadia. Arregaço as mangas e enfrento os dramas que me atormentam. Não posso ficar acuado num canto qualquer. O mundo é um campo minado, mas eu não posso deixar de exercer ações expressivas para ressignificá-lo, mesmo que com quixotagens! Assim, vago pelas vielas e becos do cotidiano sobre o meu Roncinante imaginário, sentindo o vento da liberdade fazer um gostoso cafuné nos meus cabelos. Com dignidade, brado a todo mundo, e para quem quiser ouvir, o motivo de ter vindo a este mundo. Ao fazê-lo, inevitável recorrer à memória e recordar todos os projetos frustrados de uma lida.  Com Darcy Ribeiro, eu me expresso:

“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são as minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

         Somando os fracassos, continuo minha labuta. Como um Dom Quixote, assento-me à mesa ainda para uma boa refeição e amistosa conversa com Sancho Pança.

sábado, 11 de abril de 2020

Persistindo Dignamente (Décimo segundo texto)

        
“Não queremos perder, nem deveríamos perder: saúde, pessoas, posição, dignidade ou confiança. Mas perder e ganhar faz parte do nosso processo de humanização”.
Lya Luft

         Não sou daqueles que desistem fácil das lutas diárias e dos obstáculos impostos por gente impiedosa. Resisto firmemente enquanto ainda vejo sentido para um pleito qualquer. Entretanto, acho uma grande bobagem ficar brigando por um espaço num lugar onde não se é bem quisto. Se eu tiver que permanecer num lugar para manter minha posição social, pelo menos, que seja com dignidade. Caso contrário, é melhor abortar tudo.
         Tem gente que tem mais “coragem” e permanece em sua posição, se vangloriando de sua postura de fidelidade. Eu não! Mesmo que eu tenha direitos, prefiro abrir mão para abraçar a amiga dignidade, pois melhor do que viver, é viver com dignidade estampada na face. Detestaria ter meu rosto ruborizado, envergonhado por não ter tido a ousadia de romper com o que estava me fazendo mal.
         Para mim, em especial, dignidade tem a ver com a honra, com a decência e a honestidade que precisam ser resguardadas por quem se entende humano. Está ligada também a ideia de integridade, principalmente no campo da moral. Não aquela moralidade apegada a questiúnculas que nada constroem, mas aquela que busca continuamente o sentido da vida.
         Nessa busca pela dignidade e pelo sentido, luto contra a letargia que insiste em amainar todas as minhas ações. Novamente, ínsito em dizer: embora eu perceba os ventos contrários, não penso em desistir de lutar, seja ela qual for. Desisto, somente, das lutas que já foram perdidas e me atenho, sem nenhum ressentimento, a começar do zero. Saio correndo, sem rumo e sem direção, na direção de uma praia deserta. Quero a brisa gelada da liberdade para não me aprisionar nas caladas das noites emocionais. Preciso levitar a minha vida, mesmo sem saber como. Tal qual uma jangada sem vela, ao sabor de vento nenhum, no meio do oceano bravio, veleja a minha alma no tempo e no espaço, desejando recomeçar, sem desistir jamais. Não há sequer uma bússola. Perco minhas referências e fico ao léu, ao sabor das correntes marítimas.
         Nesse arfar pela dignidade, choca-me o comportamento das pessoas que insistem nos conflitos sem sentido, que nada acrescentam ao ser interior. Não quero a aproximação das pessoas que supervalorizam suas próprias vivências, numa prática egóica, desmerecendo todas as demais. Quero distância de gente que se aproveita dos níveis de intimidade para usar e abusar da boa vontade alheia. Não quero mais ficar exposto no chão da intimidade, pois se trata de chão frágil e volátil que distorce o diálogo evidenciado num foro íntimo.
         Fico inquieto com a dúbia interpretação decorrente das minhas falas e ações, principalmente quando sou mal compreendido. O pior é quando tais interpretações ganham a alcunha de fatos, mesmo tendo sido sugeridas num campo de conversas informais. Angustia-me não poder me defender. Como o leite derramado, a ação a ser efetivada é, tão somente, pegar o balde, o rodo e espraiar o pano no chão, com a finalidade de operar a limpeza, se possível. Doutra forma, somente o tempo poderá elaborar a cicatriz. Mas sempre é bom recolher-se ao profundo da alma com o propósito de avaliar e recomeçar com outros princípios. Nunca é tarde para um recomeço digno!
         Nesse ponto, cabe uma leve observação. É que existem duas dimensões de valoração da dignidade. Uma é interna. A outra é externa. A interna tem a ver com a atitude que a pessoa mesmo assume em sua dinâmica de vida. Tem um pouco a ver com a autoestima.  Lembro-me, por exemplo, quando num tempo de agonia, me vi envolto nos seguintes versos:
Sim! Eu vou! Vou porque preciso ir.
Vou porque me sinto mais livre assim.
Vou porque meu voo é dos pássaros
Que nunca experimentaram a gaiola.
Voo pra tornar distante
Os que almejam desestabilizar o canto do encanto.
Sim, vou num voo pra qualquer canto.
        
         Vou, porque quero a dignidade, aquela dos pássaros livres. Talvez eu tenha encontrado inspiração no famoso verso de Mário Quintana: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho”.
         Passarinhando, desenho em círculos e retas minha rota no céu acinzentado pelas nuvens carregadas que anunciam a chegada da chuva. É o ciclo em sua coordenada composição, ensinando que nada é estático, tudo é recomeço. A vida se reinventa todos os dias. Eu, sendo bom aprendiz, recomeço com a dignidade que me é devida. Poder efêmero e múltiplas utopias demarcam os meus novos princípios e valores, sem estabelecer uma zona limítrofe. Vivo o que quero viver e como desejo viver.
         Jogo-me na vida, pois há muito a ganhar sem nada a perder. E dialeticamente, há muito a perder sem nada a ganhar. Nos ganhos e perdas, nas perdas e ganhos, pelo menos, pelo mais, faço valer a pena minha frágil existência de porcelana.
         Sei que a minha vida é extremamente frágil e qualquer movimento mais agudo pode me levar ao fenecimento. Todos os dias sou posto à prova, diante da morte. Aliás, a morte é a grande sombra que se projeta sobre o iluminado viver de todos os meus dias. Não tenho medo da morte. Ela é minha companheira inevitável e a qualquer momento ela baterá à minha porta. Então, se a vida precisa ser reinventada, precisa, ao mesmo tempo, ser considerada dentro de um prisma equilibrado e digno.
         Portanto, eu resolvo viver a minha vida como ela é, como um ser-aí no tempo e no espaço, esbanjando simplicidade e o máximo de autenticidade que me for possível. Sei que, por assumir uma postura assim, serei rotulado e criticado. Respeitando os pontos de vistas contrários, acabo rindo em meu íntimo destes que ficam aficionados aos seus sisteminhas de fazer dó. Quero fazer valer a pena a minha vida, deixando as coisas acontecerem ao sabor do vento, sem mais confiar naquelas pessoas que arrotam com empáfia e arrogância o seu poderzinho de merreca. Bem-aventurados os que se recolhem às suas frágeis existências de porcelana. Da minha parte, por exemplo, Já atravessei alguns mares com marés. Já percorri alguns desertos sem oásis. Já subi algumas montanhas e vi os abismos. Quando quis o sol, veio a chuva! Quando quis a chuva, veio a névoa! Quando veio a névoa, resolvi calar. E me recolhi num canto qualquer, para plantar meu jardim de sentidos. Agora entendo melhor o Rubem Alves.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Saboreando a Angústia (Décimo primeiro texto)


“Não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não está sendo. E então vem o desamparo de se estar vivo. Estou falando de angústia mesmo, do mal. Porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai”.
Clarice Lispector

         Afronta-me a angústia. Sinto o meu coração em taquicardias descompassadas. Sei que há normalidade nisso, pois se trata da somatização de diversos sentimentos que se misturam no interior de minha humanidade. Lembro-me novamente de Kierkegaard – um dos filósofos que estabeleceu como ponto fundamental da perspectiva das transições necessárias à vida humana o conceito de angústia.
         Além de me impulsionar a um novo estágio na vivência habitual, a angústia me acompanha no confronto com uma nova realidade, especialmente a que está na contramão do que eu penso ou do que quero. Um paradoxo se estabelece em minha frágil consciência. Se para o referido filósofo dinamarquês a angústia faz parte da natureza humana, jogando o ser humano num precipício de possibilidades e impulsionando-o a saltar no escuro, tornando-o responsável pela sua própria existência, para mim é a genuína síntese de contradições emocionais.
         Mesmo assim, continuo meus recomeços e minhas transições, tentando satisfazer a minha pergunta pelo sentido da vida. E não é isso o que todas as pessoas procuram? De minha parte, busco, além disso, o que está intimamente ligado ao conceito de viver inquietamente de boa.
         A flor da angústia nasce no chão da fragilidade, adubado pela solidão dos profundos pensamentos, mesmo em contato com diversas pessoas. Ela cresce assombrosamente quando a vontade de se cultivar amizades no campo da sinceridade, humildade e cumplicidade se vê abatida por alguma vontade de poder.
         Ora, não há coisa alguma errada em se buscar o poder, pois o mesmo é inerente ao ser humano e as suas relações em geral. O problema mais específico reside nas atitudes desenfreadas, inescrupulosas e desrespeitosas, tantas vezes evidenciadas nos pequenos nichos sociais, onde gente quer se impor sobre gente. Pessoa alguma se sente bem quando se vê usada pelo outro que almeja, tão somente, seus próprios interesses alheios.
         Quando me percebi envolvido numa teia maldita como esta, fiquei estressado e doente. Minhas emoções ficaram estáticas e eu não conseguia transgredir a ordem que estava sendo imposta sobre mim. Aconselharam-me a calma, mas eu queria a agressão. Não me conformava com aquela situação e sofria, pois não encontrava formas adequadas para o estabelecimento de minha frágil zona de sentidos. Por isso, precisei ir para além da forma, subvertendo o que estava à minha frente. Sei que muitas pessoas possuem certo asco à palavra subversão, mas ela tem a ver com uma lógica básica e muito simples: se não dá de um jeito, dá-se outro. E com isso em mente, subverti num Poema do Amor Livre:
Vivo pelo mundo, estampando sentimentos
Quero-os sempre vivos, como pipa em meio aos ventos
Ao sabor da liberdade, pra voar nos pensamentos
Acolher os sonhos lindos dos amantes sem intentos
E romper com a tragédia
De viver sem um sentido
Abraçando só lamentos
Hei de ver em seu sorriso
Teu semblante revestido
De um amor em mil momentos

         Aqui e ali, principalmente nessa órbita relacional de transições, onde o amor se estabelece em mil momentos, o que vale para mim é o estabelecimento de um possível equilíbrio, quem sabe uma homeostase. Preciso me sentir, nem que seja emocionalmente, à beira de um lago translúcido onde o espelho d’água reflita as rugas que se estamparam em meu rosto. Quem sabe, encher as conchas de minhas mãos com o líquido límpido espraiando-o em todo o meu rosto. Depois, levantar os olhos e contemplar a outra margem. Sentir o cheio das ramagens em flor e o sibilar dos inúmeros pássaros selvagens.
         Sinto-me convidado a mergulhar no lago, mas tenho medo. Profundidades escondem segredos que podem machucar, e eu, cansado de tantas machucaduras preciso curar meu interior e adquirir uma mínima boa consciência. Por enquanto, fico com minha angústia, sendo provocado por uma boa dose de razão que visa, ao final das contas, ajudar-me nas minhas vivas transições e recomeços que se tornam extremamente necessárias e urgentes para mim. Já? Agora? Quem sabe!

terça-feira, 7 de abril de 2020

Melhorando e Enfrentando os Altos e Baixos (Décimo texto)



“Seja qual for o caminho que optarmos seguir, haverá altos e baixos. E isso é tudo”.
Martha Medeiros

         Quando faço um exercício memorial, trazendo à tona as lembranças dos dias em que vivi, me deparo com um quadro muito mal pintado de situações, as mais diversas, dotadas de pinceladas desconexas e multicoloridas, algumas acinzentadas. Todo esse quadro me lembra dos diversos conflitos que transpassaram a minha alma.
         Não nasci num berço esplêndido, mas na complexidade das situações limites. Com meus pais, morei na Favela do Campinho em Madureira – RJ. Não me queixo. Quando fecho os olhos, visualizo a ternura e o carinho de minha família naquele lugar. Tudo o que sou hoje decorre dessa dinâmica que sempre misturou altos e baixos, conflitos e acordos, perguntas e respostas, dúvidas e mais dúvidas. Tenho uma rígida constatação de que a vida em todos os seus níveis se organiza ou se desorganiza nos encontros e desencontros que ocorrem na singularidade do ser-em-si e nos relacionamentos.
         Dos muitos altos e baixos vivenciados ao longo de minha existência, que poderiam gerar diversas narrativas, elenco um em especial, por entendê-lo como uma viva situação de enfrentamento.
         Em julho de 2004, vivi uma experiência complexa quando, sofrendo um simples acidente, perdi completamente a visão do olho direito. Eu estava num churrasco com amigos e num dado momento, em meio à festa e a brincadeira, por estar assentado debaixo de uma árvore, levantei-me precipitadamente e bati com a parte de trás da minha cabeça em um toco saliente. Senti uma dor lancinante e o consequente movimento de substâncias estranhas dentro do globo ocular. Sabia que alguma coisa estava acontecendo, mas jamais poderia imaginar que aquilo era um descolamento de retina. Na mesma semana marquei uma consulta com uma oftalmologista e descobri que eu havia sofrido uma ruptura gigante. Para resumir a história, fui encaminhado para um instituto especializado em cirurgias na retina, passando por duas intervenções convencionais e sete outras a lazer. Num primeiro momento, em meio a toda a adaptação, fiquei bem, mas depois tive uma catarata e não mais foi possível a recuperação da visão. Perdi-a completamente.
         Essa situação poderia ter me deixado muito mal e até me imobilizado na vida, mas resolvi fazer a transição e não me deixar abater por tais circunstâncias. Parece até um paralelo do esquete alusivo ao “Joseph Klimber”, apresentado pela Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo. O fato é que sofri um acidente fortuito. Não tinha feito nada para ele acontecer. Eu também não queria o descolamento da retina, mas ele ocorreu em meu olho direito. Existem situações que não podem ser evitadas por pessoa alguma. E não são justamente esses dois tipos de sofrimento que todos vivenciamos? Os primeiros oriundos das escolhas possíveis. Os segundos, dos acidentes fortuitos e não esperados.
         Quando não tenho respostas em relação ao inusitado, busco o caminho da teimosia, me reorganizando e acreditando na possibilidade de sair das areias desérticas para o oásis; dos charcos para os campos floridos; da tela branca para a obra de arte; do mosto para o bom vinho; da chuva torrencial para o arco-íris. Diante do irônico da vida, quando as perguntas “são” e as respostas “não-são”, preciso recorrer às coisas do espírito. Alguns chamam isso de resiliência.
         O poder da resiliência – essa notável capacidade de se adaptar emocionalmente frente aos infortúnios da vida, me refaz, gerando novas expectativas em relação à minha existência como ser-aí. Preciso das boas expectativas, pois em diversos momentos cotidianos, sinto-me frustrado. Infelizmente, desde os tempos mais remotos da tenra infância, fui condicionado a acreditar num reconhecimento que somente poderia advir dos meus sucessos e vitórias, especialmente os de ordem material. Todavia, posso contar nas mãos os êxitos obtidos nessas duas esferas. Tive, obviamente, bons momentos, mas as lembranças são maiores em relação às derrotas.
         De fato, nunca celebrei muitos sucessos ou vitórias na minha caminhada existencial. Aliás, sempre enfrentei o revés. Lembro-me que na escola eu era sempre o último a ser escolhido para qualquer atividade física, principalmente o futebol. Tudo bem, eu sempre fui ruim de bola, e sempre sofri as mais fortes pressões do que hoje se chama bullyng. Vivi todos os níveis de sofrimento, decorrentes dos apelidos e maus tratos oriundos dos colegas de sala de aula. Só não sofria bullyng quando desenhava, porque nessa área, modéstia às favas, eu mandava bem. Isso me levou bem cedo a fazer uma constatação de que cada pessoa possui sua potencialidade particular. Cada um tem o seu valor e realiza os feitos que pode realizar na singularidade dos seus gestos. Isso jamais pode ser ofuscado.
         Além desse sofrimento ocasionado pelas péssimas brincadeiras de mau gosto oriundas dos colegas, uma pergunta sempre ficou martelando a minha mente: Por que algumas coisas acontecem para algumas pessoas e para outras não? Ora, algumas pessoas tiveram boas oportunidades desde o nascimento; outras, nasceram condenadas a não alcançar coisa alguma. E tem aquelas, ainda, que precisam batalhar muito para estabelecerem um mínimo “lugar ao sol”. É estranho isso. Não escolhemos como nascer e onde nascer. Não escolhemos nem mesmo o nosso nascimento. Podemos, talvez, escolher os(as) amigos(as), e olhe lá.
         Nesse mundo onde são parcas as minhas escolhas pessoais, peregrino enfrentando os altos e baixos. Não me importuno muito, afinal de contas, seria completamente sem graça um mar sem ondas, uma floresta sem clareiras ou o um precipício sem o abismo, daqueles que dá até medo olhar para o fundo.
         Por isso, acho lindo o poema da Adélia, por título: Tão bom Aqui. Ele me revela os altos e baixos pelos quais eu passo.

Me escondo no porão para melhor aproveitar o dia e seu plantel de cigarras. Entrei aqui para rezar, agradecer a Deus este conforto gigante. Meu corpo velho descansa regalado, tenho sono e posso dormir. Tendo comido e dormido sem pagar. O dia lá fora é quente, a água na bilha é fresca, acredito que sugestionamos elétrons. Eu só quero saber do microcosmo, o de tanta realidade que nem há. Na partícula visível de poeira em onda invisível dança a luz. Ao cheiro do café minhas narinas vibram, alguém vai me chamar. Responderei amorosa, refeita de sono bom. Fora que alguém me ama, eu nada sei de mim.

         Gosto da Adélia assentada em minha roda de conversa, deslindando poeticamente os altos e baixos sentidos por ela mesma, mulher, alentando todas as múltiplas gentes que enfrentam suas aporias. Sua poesia me toca. Sinto-me num microcosmo também. Sua prosa desliza fácil pelos abismos da minha alma, parecendo preencher os espaços desconexos dos meus sentidos. Doce Adélia que parece ter nome de flor. Talvez, ela mesma seja uma flor. E ela se achega, uma vez mais, nomeando as palavras que revelam o susto e o terror em Antes do nome: 

Não me importa a palavra, esta corriqueira. Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível muleta que me apoia. Quem entender a linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. A palavra é disfarce de uma coisa grave, surda-muda, foi inventada para ser calada. Em momento de graça, infrequentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. Puro susto e terror.

         Momento de graça? Nem sempre. Mas vou perseverando entre dias bons e dias maus, entre as palavras e suas polissemias que me ajudam na organização de minha vida no tempo e no espaço, afinal de contas, ainda não desisti de perseguir o sentido de bem-estar, se ele me for possível. O peixe ainda está vivo na minha mão. Estou atemorizado, mas insisto em inaugurar minhas linhagens e fundar meus reinos. Quem sabe, assim, enfrente melhor todas as variações que me ocorrem entre a vida e a morte, entre os altos e baixos.

domingo, 5 de abril de 2020

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

        
“No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
Dante Alighieri

         Em meu recomeço, mediante o enfrentamento dos meus altos e baixos, sinto-me ainda andarilho a atravessar a ponte. Ela é ampla e comprida. Não consigo visualizar o outro lado. A neblina é espessa. Não posso recuar. A peregrinação iniciada me incita a ir à frente, passo a passo. Tento manter-me sóbrio e forte.
         Embora eu tente, não tenho condições de manter um alto padrão de potência em todos os momentos da minha complexa vida. Em outras palavras, nem sempre estou bem e meu humor varia como as estações do ano. Confesso que existem dias onde a angústia se instala forte na minha alma e eu não tenho vontade de fazer coisa alguma. O passado me visita de forma intensa, tentando me trazer o arrependimento do que eu fiz e do que eu não fiz. Fujo, convictamente, dessas insanidades para não dar cabo de minha vida. Que pessoa alguma me julgue, afinal de contas, quem nunca pensou em pausar a existência quando diante de um grande conflito emocional? Não controlo meus selvagens pensamentos. Quero asas como as de uma condor. Podem me rotular de insano. Recorro a uma taça de vinho. Pego o violão e busco desanuviar meus pensamentos com boas canções.
         A potência para viver oscila. Ela chega e vai, vai e chega como os movimentos das nuvens nos ares. E o bom da vida não é essa experimentação de altos e baixos? A ausência de uma linearidade torna tudo mais encantador. Uma hora está tudo bom. Em outra, está tudo ruim e a gente caminha de boa, como dá.
         Todos esses extremos estão diretamente ligados à ideia de crise. Essa é uma dimensão de desestabilização sofrida por aquele que se depara com o seu próprio mundo e com o seu próprio eu. Quando me vejo como realmente eu sou e o mundo que me cerca, fico extremamente aflito, consternado e em crise. Todas as vezes que, por uma situação ou outra, eu entro nessa crise, e sofro com ela, também tenho a oportunidade de refazer as minhas ideias e as minhas ações, ressignificando-as em minha própria vivência. Além disso, crise, no ideograma mandarim identifica duas vertentes. A primeira é crise mesmo, ligada à ideia de conflitos e guerras. A segunda tem a ver com a oportunidade.
         Eu acho que as duas significações caminham juntas. Não há possibilidades de se separar as duas dimensões, pois toda oportunidade sempre motiva a sair da letargia e toda crise é um sinal de nova oportunidade, mesmo que gestada no campo do sofrimento. Particularmente, eu gosto mais de crise no seu sentido primeiro. No sentido segundo, é um acontecimento que pode surgir como o resultado das possíveis escolhas feitas dentro do meio em que se vive. Em geral, a oportunidade é a conquista decorrente de muita luta, muito suor, muito desgaste, muita renúncia, muito esforço e muito sacrifício.
         Preciso considerar que não tenho uma boa impressão do sacrifício. Para ser sincero, não gosto da (i)lógica do sacrifício. Para mim, pessoa alguma deve se sacrificar por coisa alguma. Embora a palavra tenha a sua origem no latim, e signifique “fazer-se santo”, o que é uma coisa boa, ela sempre denota uma manifestação de dor e sofrimento em sua essência, talvez por causa da forte ênfase religiosa que a ornou no decorrer dos séculos. O fato é que, por uma razão não tão explícita, sacrifício tem a ver com coisa boa e coisa ruim, ao mesmo tempo. De qualquer forma, não gosto dos sacrifícios. Acho que eles não acrescentam coisa alguma à vida de pessoa alguma. O pior é que, em geral, se sacrifica o corpo, deixando-se de comer, de beber e às vezes, exercitando-se com violência e agressões. Eu questiono tudo aquilo que, em nome de um alto ideal como a beleza e a estética, interfira na saúde e na integridade física das pessoas. Acho que o ideal mesmo é cultuar a beleza e viver a vida sem pressões, respeitando os limites. Então, uma vida saudável requer boa comida, boa bebida, brincadeiras e zoações, trabalho, sexo e relacionamentos. É isso o que, de fato, vale a pena, o que gera Contentamentos:
Seu dia! Seu tempo! Em tudo, sua hora.
Dia de celebrar!
Tempo de recriar!
Hora de se refazer!
Celebrar a vida, Recriar as relações, Refazer as utopias!
Vida que passa a cada dia!
Relações que se valorizam no tempo!
Utopias que lampejam a toda hora!
Nos dias que se passaram e que chegarão.
No tempo que era ontem e já é amanhã.
Na hora que se encanta com simplicidade e sorrisos.
Enfim, contentamentos!

         Não sou feliz! Sinto-me contente! Felicidade é efêmera e passageira. É orgasmo que culmina e depois se esvai. Já o contentamento é essa sempre viva possibilidade de se encontrar conteúdo e sentido nas pequenas situações provocadas pelos encontros e desencontros vivenciais. Contentamento ocorre quando a oportunidade surge como acaso, sem interferências quaisquer, sem uma explicação lógica, como um milagre que aparece no nada inundando o cotidiano de uma pessoa.
         Na minha crise pessoal, tendo consciência de meus limites, desejo estabilizar as minhas emoções, mantendo certa potência em minha lida diária. Quem sabe meu companheiro de nome contentamento não me ajude? E quando os intentos insanos tentarem encontrar uma estadia em minha alma, serei furtivo e driblarei os dramas que se estruturem à minha frente. Mesmo sem uma clareza quanto às oportunidades futuras que poderão me advir, ainda assim, continuarei a me reinventar ao meio dia.

sábado, 4 de abril de 2020

Buscando o que Vale a Pena (Oitavo texto)

        
“Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Fernando Pessoa

         Decidir por um recomeço não é simples. Requer ousadia e coragem, ou quem sabe, receio e covardia. A interpretação sobre o que ocorre com dada pessoa em dado momento de decisão é sempre alheia. Da minha parte, por que daria ouvidos a quem não me quer bem? Julguem-me a vontade e se deleitem com minhas parcas vitórias e múltiplas derrotas.
         Por causa de uma consciência clara sobre a minha finitude, resolvi investir meu restante de trajetória nas coisas que realmente valem a pena. Deste momento de decisão, em diante, encarei com hombridade a lenta e dramática via daqueles que almejam encontrar algum sentido na vida. Queria que a minha vida estivesse harmonizada aos meus pensamentos díspares, aos sonhos inconciliáveis com a realidade e com a extrema humildade dos que caminham descalços pela terra empoeirada.
         Nessa busca pelo que vale a pena, desisti, inicialmente, da pressa. Lembrei-me de Lenine e sua música poética, intitulada: Paciência.

Quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa.
Eu me recuso, perco o passo, vou na valsa
A vida é tão rara.
Enquanto todo mundo espera acura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal,
Eu finjo ter paciência.
E o mundo vai girando cada vez mais veloz.
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência.
Será que é tempo que lhe falta pra perceber,
Será que temos esse tempo pra perder,
E quem quer saber? A vida é tão rara.
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
Eu sei, a vida não para...

         Assim, com calma e com alma, não queria sair a galopes, tal qual uma criança em seu recreio escolar. Tampouco, queria grandes e suntuosas conquistas, pois para mim, os pequenos ganhos cotidianos são os sinais de outro mundo possível, o qual todos desejamos.
         Confesso não saber se alcançarei o que me propus a alcançar, mas o que importa? Já há prazer na busca, por si só. Gosto de pintar, e muitas vezes desisti de uma obra de arte, vindo a cobri-la com tinta branca a fim de recomeçar outra. Perco um desenho ou obra para conquistar outra. A busca iniciada pela vontade de beleza é tal qual a busca pela possibilidade de mudar o quadro mal pintado no museu insólito da minha alma. De fato, a busca, pela excitação, já vale a pena.
         Essa busca, tão urgente, vai, obviamente, levar ao equilíbrio desejado, tão necessário para o bom e harmônico entendimento na existência. E pergunto conscientemente: Cara ou Coroa?:

Cara ou Coroa? Coragem ou Covardia? Não importa! O que vale é ficar de bem com a consciência! No fundo, toda moeda possui três lados! A cara, a coroa e a interface.

         Com essa singela constatação, estabeleço uma aproximação ao movimento dialético presente no pensamento do filósofo alemão Georg W. F. Hegel. Nem tese, nem antítese, mas a síntese. Nem cara, nem coroa, mas a interface que conecta uma à outra, todavia autônoma. É o paradoxo funcionando na dinâmica das reflexões mais agudas de quem quer ficar de bem com a consciência.
         O bom da vida consiste em encontrar nas dinâmicas relacionais, a consciência sintética dos elementos que favorecem meu bem-estar. E não é justamente isso o que eu mais preciso? Luto continuamente pelo bem-estar inquieto. Luto porque alcançar o bem-estar exige enfrentar os altos e os baixos na lida diária.
         Quando me encontro nessas buscas e nesses enfrentamentos, recorro aos mestres das letras, homens e mulheres que muito me ensinam sobre o que não sei discorrer poeticamente. Gosto de Rubem Alves, de Adélia Prado e de Mário Quintana. Este último escreveu sobre a busca no campo da Esperança:
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano vive uma louca chamada Esperança. E ela pensa que quando todas as sirenas, todas as buzinas, todos os reco-recos tocarem, atira-se. E – ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada... Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: “ – Como é o teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não se esqueçam: – o meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

         Não ando muito à vontade com a noção da esperança. Já esperei muito. Por quanto tempo ainda terei que esperar? E não é bem isso o que se precisa para que as coisas, de alguma forma, aconteçam sobre a vida? Foi Niezstche quem disse: “A esperança é o derradeiro mal; o pior dos males, porquanto prolonga o tormento”.
         A expectativa pelo que vai acontecer não pode dominar a minha vida, afinal de contas, não quero passar o resto dos meus dias esperando algo mais chegar enquanto o meu presente se esvai das mãos. Então, espero contra a esperança. Teimosamente, resolvo Agir no tempo presente, pois não sei o que poderá ocorrer amanhã.
                     
Ajo.
Ajo sempre.
Ajo e me modifico interiormente.
Ajo e transformo meus pensamentos e ideais.
Ajo e mudo meu exterior. Visto uma roupa nova, mudo os móveis de posição e crio um ambiente completamente novo.
Ajo em minha espiritualidade. Jogo fora as verdades absolutas e aninho-me ao terreno das dúvidas.
Ajo em amor. Tenho um novo olhar sobre as pessoas que me cercam.
Ajo sorrindo e sonhando.
Ajo e busco sempre-vivas-renovadas-ações.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

É Preciso Recomeçar (Sétimo texto)


        
E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência.
Caio Fernando Abreu

         Mesmo ciente do efêmero, da letargia no deserto, com agonia, incômodos e sob a égide da hipocrisia, sinto que preciso recomeçar. Não nutro asco em relação ao recomeço, como muitos que conheço, mas assumo a efetiva necessidade de refazer a rota urgentemente. A música dos difusos sentimentos precisa finalizar-se. É hora de ouvir outra canção.
         Sinto-me um pequeno ser andarilho dando passos trôpegos nas trilhas existenciais. Um andarilho que caminha e para, para e caminha, não necessariamente nessa ordem. Um eterno ciclo entre paragens e recomeços. Cada um destes é sempre o grito contra a passividade frente aos desafios. É a porta aberta para mudar o que está caducando, que salvaguarda as minhas emoções, as minhas potencialidades e a ditosa dignidade de viver.
         Ao buscar minha salvaguarda, principalmente nos dias sombrios, quando a relação claro-escuro não está definida, recolho-me à dimensão do silêncio. Quero ouvir todo o som do silêncio para tirar da alma toda a inquietação, me desfazendo, quem sabe, para me refazer.
         Penso furtivamente em Guimarães Rosa quando diz: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Obviamente, desfazer-se para refazer-se num recomeço exige coragem, já que tudo é paradoxal. Com o paradoxo em minha mente, resolvo sair da letargia por uma Porta Aberta. Poetizo:

Vejo uma porta.
Ela está aberta.
Talvez, passando por ela, eu tenha alguma oportunidade
Para mudar o que precisa ser mudado...
Sento-me num monte para contemplar o momento crepuscular, abraçado ao silêncio e à coragem.
A chegada da noite me remete ao barulho ensurdecedor do silêncio.
Na vigília da noite, uma graça misteriosa me visita.
Aos amados, ela ocorre enquanto dormem.
O brilho da manhã machuca a retina ainda sonolenta.
Uma chuva fria e fina toca o telhado de minha casa.
Lembro-me que a cada manhã renova-se também a misericórdia.
É preciso esquecer-se para avançar.
Resolvo romper com a minha letargia
E me lançar ao inusitado do mundo.
A porta está aberta.

         Sim! A porta está aberta e se torna urgente, para mim, passar por ela. Tenho que caminhar, mesmo que seja sem rumo, contra o vento. Certamente, meus passos enfrentarão o relento e contemplarão os primeiros brilhos cintilantes das imensas pequenas estrelas. O caminho largo-estreito desafia-me a lida e desfere golpes profundos no meu ser interior, ainda inquieto. Precisa pacientar-se! Aconselham-me, assim, os que almejam desejar o consolo. Mas tais palavras são vãs. Meu olhar se lança ao infinito onde o alcance das mãos nada podem pegar. Nessa hora, abro o sorriso e, teimosamente, tento de novo, tudo de novo. Contento-me em encontrar algum sentido vital no cotidiano. Piso firme o chão de gelatina e desequilibrado, prossigo em meu recomeço.
         Lembro-me de Sören Kierkegaard, quando disse que “ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar, é perder-se”. Não vou me perder, e embora desequilibrado como um bêbado, ousarei ainda, corajosamente, lançar-me à lida cotidiana para viver intensamente o que a vida pode me oferecer. A ousadia é sempre um convite A virar a página, embora:
Virar algumas páginas é ato difícil.
O livro está velho.
As páginas amareladas e frágeis.
Um odor fétido e irritante sobe às narinas.
Brotam os espirros, mas é preciso virar as páginas.
Há risco em se rasgar cada uma delas...
Mas é preciso virá-las,
Nem que para isso, a página seja arrancada.
Sei, o livro ficará mutilado,
Todavia, às vezes, é preciso transgredir...

         Virando a página ou rasgando-a, transgrido para não mais agredir a minha alma. Não vou mais fazer o jogo social para manter meu status quo. Não quero mais ser exemplo ou padrão para ninguém. Quero o contentamento de ser o que sou, sem necessariamente depender de sistemas ou pessoas que não me querem bem. Se não concordam comigo, pelo menos não me atrapalhem. Quero o sossego para novamente olhar a vida com a leveza que lhe é devida. Abandono o que não vale a pena, cantarolando Raulzito outra vez: “Veja! Não diga que a canção está perdida. Tenha fé em Deus! Tenha fé na vida! Tente outra vez!”
         Vou tentar, e tentar, e tentar, sem desistir – ou desistindo do que não vale a pena – quantas vezes for preciso. Um recomeço é sempre bom e necessário.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Vi a Hipocrisia (Sexto texto)



“Está morto: podemos elogiá-lo á vontade”.
Machado de Assis

         Em meio aos meus incômodos lancinantes, ainda vivo e busco a sempre aberta possibilidade de ser realmente o que sou ou o quero ser. Assumo o desafio de não ser hipócrita, embora em vão. Quero tirar a máscara, mas dependo dela para continuar a representar minha vida no palco da sociedade. Vasculho a memória, e visualizo todas as figurações da tragédia grega, sempre teatral e dramática, cujas máscaras, nos atores e atrizes, ocultam as faces de suas reais emoções. A angústia, a agonia e o incômodo ficam escondidos. A máscara evita que eu fique exposto aos olhares alheios e curiosos, mesmo porque confio em poucas pessoas.
         Minha mundi-vivência depende da hipocrisia. Dependo dessa faceta para a minha própria sobrevivência. Disfarço-me continuamente, escondendo o que penso e o que quero na representação dos papéis sociais, que me são devidos. Na minha viva contradição, esforço-me para ser mais transparente. Tenho crises homéricas, pois não posso fugir da exposição de uma vida mais autêntica. Igualmente, não posso mascarar a minha existência e as minhas contradições, mas recuo. Tenho medo de que as pessoas me vejam como realmente eu sou.
         Pergunto-me se é possível viver de forma mais autêntica. Mascaro e fantasio minha vida, deixando de lado o real, embora seja difícil defini-lo. Sou um hipócrita cercado de hipócritas que, em muitas situações, se consideram melhores do que as outras pessoas. Fico embasbacado com gente que é orgulhosa ou que se acha alguma coisa, pois ao final das contas, todos(as) sabemos que ninguém é melhor do ninguém. Vejo isso de forma explícita no pensamento de Caio Fernando Abreu: “Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa totalmente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos somos apenas humanos e sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não entrar na ciranda deles, compreendes?” Sim! Claro que compreendo! Por isso não vou viver por aí, expondo-me de qualquer maneira, de qualquer jeito. Ademais, considero um absurdo quando um beltrano qualquer considera mau caráter um cicrano outro, pelo simples fato de expor o que pensa ou o que gosta, mesmo que de forma indevida. Poetizo: Cada um com seu cada um.
De minha parte, nada mensuro do que o outro vive!
Não dou conta nem de mensurar
O que sou ou o que faço.
Vou ficando por aqui,
Com a mente sempre aberta pra entender,
Mesmo que eu não compreenda.
Cada um com seu cada um,
E cada vida de acordo com suas possibilidades.
De uma forma decisiva,
A gente vive como dá.
A gente existe como ser-aí.

         Conheço a minha vida e as minhas intimidades. Não me julgo melhor do que o(a) outro(a). Faço coro com Bob Marley: “Quem é você para julgar a vida que vivo? Eu sei que não sou perfeito – e nem vivo para ser perfeito – mas antes de começar a apontar o dedo... tenha certeza de que suas mãos estão limpas”. Assim, quando exponho minha alma diante do espelho, concluo que minhas mãos não estão limpas. Somente sou o que sou e todas as minhas imperfeições e contradições ficam expostas. Não as vejo como inimigas. Preciso equilibrá-las. Imperfeições e contradições me acompanham, fazem parte da dinâmica da minha própria vida. Embora não queira, preciso esconder as minhas próprias mazelas. Talvez, com algumas pessoas, tenha condições de revelar meus monstros ocultos e meus íntimos dramas insanos.
         Penso na minha hipocrisia e relaciono-a a exposição do meu caráter. Para mim, o caráter não é algo estático, mas dinâmico. Ele muda de cores. É camaleônico. É a consciência sobre algo a ser definido, um acontecimento momentâneo, uma atitude assumida em determinado momento da jornada de vida. Não vem do berço, tampouco dos processos educacionais sofridos. Caráter não é somente o que as pessoas acham que determinada pessoa é, mas o que a pessoa é num determinado momento. O bom-caratismo ou o mau-caratismo dependem do momento. Ninguém tem um caráter 100% e ninguém é sem caráter 100%. Caráter não tem a ver com o conceito de perfeição, mas com a resposta coerente, ou não, que esta ou aquela pessoa apresenta no cotidiano vivencial. Há contradição no caráter. Para muitas pessoas, sou hipócrita e sem caráter! Para outras, não. Tudo muito subjetivo e sem amparo lógico.
         Nas minhas idas e vindas, em meio às minhas hipocrisias, bom-caratismo e mau-caratismo, peregrino como dá e como posso. No fundo, no fundo, o que ficam são as ações significativas que tive a oportunidade de empreender a esta ou aquela pessoa num dado momento de sua lida. No bojo das boas ações e das ações sem sentido, a vida vai se organizando como num sacolejante caminhão que sai da zona rural, carregado de legumes e hortaliças.
         Ao final das contas, duas perguntas me sobrevêm à mente: Por quem serei julgado? Pelo que serei julgado? Será que o sublime mistério está preocupado com as minhas remotas idiossincrasias? Será que as pessoas que me cercam têm, realmente, moral suficiente para me julgar? Ora, todos nós somos feitos da mesma substância e o simples fato de nos julgarmos melhor do que o(a) outro(a) é um claro indício da pequenez da alma alheia. Mas quem é mais hipócrita? O que se afirma hipócrita ou o que esconde a sua hipocrisia? Eis a aporia da qual tenho que dar conta. Em um ou em outro caso, acho que deve existir um esforço pela solidariedade, pela ajuda mútua, pois estamos num mesmo barco e ele tem diversos furos. Como nos lembra Niezstche: “A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. [...] Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho”.
         Então é preciso dizer um basta às verdades do rebanho que selecionam as pessoas de acordo com seus interesses, valorizando uns em detrimento dos outros. É igualmente preciso assumir a necessidade de hipocrisia que faz parte de cada pessoa, pois o que assume suas próprias imperfeições e contradições, dentro das possibilidades, pode dar uma chance a melhores relações afetivas. Viva a hipocrisia!

Casamento: uma aventura a ser (des)conhecida

  Estas três coisas que me maravilham, quatro que não compreendo: o caminho da águia no céu; o caminho da serpente na rocha; o caminho do na...