sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

VIDA ÁVIDA, ÁVIDA VIDA

Amar é viver de forma viva e ávida!
Amo viver porque viver é amar...
Intensamente, com angústia ardente
Tal qual a nau perdida no mar.

Enquanto amo, vivo e sonho,
Pois melhor que viver, é viver e sonhar.
E mesmo quando a vida não acede
Teimoso, insisto até naufragar.

Náufrago, solitário sob o sol e o vento
Deixo as ondas me banharem a alma
Sibila o voo da gaivota azul
Que me encanta gerando-me a calma

A vida é ávida, gente!
E é sempre bom que assim seja...
Ela é graça que nem sempre tem graça,
Mas dá sentido ao que a busca, almeja.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PEC 55


Há tempos não escrevo coisa alguma sobre política. Desencanto? Talvez! Embora goste muito da política clássica, reconhecendo nela os fundamentos essenciais para a vida social e econômica de uma sociedade, certo é que no nível da política estrutural orientada pelo Estado, chegamos a um patamar extremado de sandices e bizarrices.
Estudo política clássica desde 2004, de forma mais determinada. Gosto de Maquiavel e Weber, sem desconsiderar Marx e Gramsci. De fato, estes pensadores trouxeram ao terreno político, boas e importantes contribuições, revelando a política como ela é. Assim, pessoa alguma, tendo amplo acesso a uma rede grandiosa de informações sérias e pontuais, pode se afirmar enganada em relação aos processos políticos que acontecem no mundo, em geral, e no Brasil, em particular. Todos são eivados de ampla contradição. Aliás, o desenvolvimento da atividade política é uma síntese de contradições.
Todavia, acho que chegamos a um nível de contradição extremado. Com a derrubada do governo Dilma e com a assunção do governo Temer – e é bom que se diga: são dois governos completamente diferentes –, os sinais que se revelam no país são assustadores. Celebra-se com veemência a possibilidade de avanço econômico. Líderes políticos eleitos pelo povo vociferam a necessidade de se retomar o crescimento econômico e estrutural do Brasil, o que aparentemente é muito bom, passando por cima de tudo e de todos, sacrificando sistemas basilares como a educação, a saúde, a assistência social e a cultura. O que está em jogo, no fundo, é a famigerada busca pelo poder financeiro e a manutenção do status quo para pouquíssimos.
A votação do texto da PEC 55, antiga PEC 241, na noite de terça-feira, dia 29.11.16, que congela os gastos públicos por até 20 anos e pisa na Constituição de 1988, foi aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e em um único turno pelo Senado. Essa foi a prioridade do governo Temer, que procura revelar aos cidadãos brasileiros uma ação simbólica para conter os gastos públicos. O problema refere-se ao fato de que os gastos públicos estão diretamente ligados às políticas sociais que visam, enfim, cuidar definitivamente do bem estar dos mais empobrecidos na sociedade. De fato, a redução significativa dos investimentos com a educação e a saúde é o grande senão da PEC 55, por um fator emblemático: setores privados se estimularão amplamente, se aninhando aos espaços públicos para produzir o simulacro. Sim! Todo esse esforço do Legislativo visa, tão somente, promover ações e discursos que favorecerão um grupo minoritário e economicamente dominante. Por exemplo, ouvimos falar, pela boca pequena, da transformação do SUS em um plano de saúde popular. Assim, mais uma vez, se pisará na Constituição Federal, que afirma o papel do Estado na defesa dos direitos basilares dos cidadãos.
Os favoráveis à PEC 55 dizem que as medidas são necessárias. Necessárias para quem? Logicamente, aos que possuem interesses mercadológicos e que fazem questão de manter as desigualdades evidenciadas em nome de um direito para todos. Se o direito é para todas as pessoas, em um nível de igualdade, os grupos empobrecidos, que são a maioria, ficam mais distantes das possibilidades de melhoria das suas próprias vidas. O princípio que deve reger toda a lógica sociopolítica é o de afirmar os direitos daqueles que menos possuem, melhorando, por exemplo, a distribuição de renda. Todavia, o que ocorre é o contrário. É uma luta inglória.
Ademais, e talvez este seja o ponto mais crítico, a PEC 55 é uma interferência audaciosa à Constituição. Em outras palavras, é um anúncio explícito de um Golpe de Estado.
Manifestam-se contra esse golpe na Constituição, diversos segmentos da sociedade civil, como por exemplo: a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o Movimento Todos pela Educação, o Instituto Alana, o Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil, a Rede Nacional Primeira Infância e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação.
Buscando uma referência mais técnica e crítica, o Centro de Referências em Educação Integral preparou cinco argumentos contrários à PEC 55. São eles:
1.      A PEC 55 fere a soberania e o voto popular. Mesmo que um novo presidente seja eleito em 2018, somente poderá fazer alguma revisão na proposta em 2027. Assim, um chefe do Executivo, legal e legitimamente eleito, não terá a possibilidade de definir os limites e as ações mais expressivas do seu governo, principalmente se quiser melhorar saúde e educação;
2.      Nenhum país do mundo definiu, por lei, limite de gastos públicos: existem em outros países – Holanda, Dinamarca, Finlândia e Suécia, por exemplo – acordos políticos para controle de gastos públicos, mas nunca uma pauta de lei. Nenhum país impõe limites á Constituição como se está fazendo aqui no Brasil. Ademais as experiências dos referidos países definiram os gastos com percentuais acima da inflação, e não como correção;
3.      A PEC 55 vai aprofundar a desigualdade e a justiça social: como já abordamos anteriormente;
4.      Os gastos brasileiros com saúde, educação e assistência social não estão fora de controle: portanto, trata-se de uma falácia para justificar as ações do novo governo;
5.      Ao invés de se mexer na saúde e educação, torna-se urgente mexer na estrutura tributária: Os economistas são unânimes em afirmar que o atual problema da economia reside na forma de arrecadação e tributação e não nos gastos sociais. Assim, o Estado pode arrecadar mais por intermédio de impostos. O problema é que os donos de capital teriam que pagar mais impostos. Há um desiquilibrio tributário. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, os mais pobres pagam 32% de impostos enquanto os mais ricos pagam apenas 21%.

As questões que envolvem a PEC 55 estão longe de uma resolução, mesmo porque grande gama da população está passiva frente a tudo o que está acontecendo no Congresso e Senado. As manifestações estão acontecendo, mas não contam com o apoio maciço dos que gostam de “bater panela”, sequer dos que não batem também. Um restrito grupo de trabalhadores, sindicalistas, professores e alunos tem se manifestado publicamente, sendo rechaçado pelo poder executivo, vitimados e violentados pela polícia. Mas o problema principal não está sendo tratado. Segundo Marcus de Aguiar Villas-Boas, doutor pela PUC-SP, em artigo na Carta Capital, os “defensores da PEC usam uma cortina de fumaça para fugir do real problema, ao criticar quem infla o valor dos juros com os valores da dívida rolados. A questão é que o País está pagando dívida, juros altíssimos e contraindo nova dívida, o que não gera retorno. É um círculo vicioso que provoca enorme aumento das despesas estatais. O déficit brasileiro não estourou por conta das despesas primárias, que crescem regularmente desde 1997, apesar de que poderiam ser otimizadas: reduzir corrupção e má eficiência, por exemplo, para gastar melhor”.
Dessa forma, torna-se vital mudar o eixo da prosa para entender que a PEC 55 aponta um problema irreal, para favorecer o enriquecimento dos que já estão com o bolso cheio de dinheiro.

O fim dessa história, mesmo para os cegos que não conseguem ver coisa alguma, é um só: o aumento da desigualdade entre ricos e pobres. E para aqueles que acham que tais medidas vão solucionar a crise, mero engano. O acirramento será cada dia maior, pois o que se busca de fato é um Estado que se configure como Welfare State e dignifique os seus cidadãos pobres, mesmo porque o hiato historicamente gerado inerente a segregação social é fruto da acumulação de bens por parte de poucos. O mal estar social se estabelece entre nós brasileiros e os tempos vindouros não serão tão salutares. Se as vacas estavam vistosas no pasto, agora vão secar... e morrer...

ESPERANÇAR - Capítulo 1 - O sol numa caixa de papelão

  No fundo de uma caixa de papelão, Ela desenhou um sol com retalhos de gizes de cera. Os dias estavam nublados. Pela janela pintada de ...