domingo, 26 de novembro de 2023

DIA 50 - Delírios de alguém que não deu certo... Ou será que...

 


A vida não obedece a planos. Então, pra quê fazer planos? Que a minha sina me mantenha andarilho, vivendo metamorfoses contínuas.

Ando sem paciência para me sentir lapidado por qualquer ferramenta afiada, oriunda de qualquer ourives. Quero o meu estado bruto, que como fruto maduro e viscoso, é acolhido e comido sem bestagens, a boca toda lambuzada. De pecado se lambuza a minha alma, sombra andaluz sem cheiro e sem curvas que acaba me seduzindo.

Mergulho em lagos profundos cheios de olhos estranhos para me estranhar num corpo que se pretende livre. Quero poder respirar, e sem pirar, aspirar o intenso perfume em minhas narinas dilatadas. Preciso me perder para me jogar em jorro puro de te(n)são definida. Que me acolha e me recolha o puro lago de águas plácidas.

Enquanto o sino da catedral bate, reflito o amor cuja crença me desacredita. Vejo o instante da dor e a dor do instante, sangria que escorre no rito. Subo o monte com uma vela acesa, para rever toda uma vida afetada. Almejo cuidar das minhas tardes e manhãs, enquanto a vigília na noite e da madrugada me atiçam a imaginação e escondem o meu sono. Já não quero viver a metade da metade, pois detestaria reviver o meu refém reprimido.

De asas abertas, como anjo ou demônio, lanço-me ao abismo sem caminho do carinho. Talvez, devotar os meus afetos bem vivos sem expor a dor da existência. Nem sempre insisto, às vezes resisto. Gosto do simples do dia.

Não quero o amor de Romeu,

tampouco a paixão de Julieta.

Ela morreu de amor.

Ele a seguiu, cegueta. Minha constatação é racional, pois a morte é e sempre será a minha conselheira.

Não nutro apelos quanto ao mal, quero o toque real e sensível de qualquer maneira, aquela que me auxilie a encontrar os fragmentos da minha solidão insólita.

Vivi em Paris os momentos de uma brisa fria, melancólica. Sozinho, vivência desértica e cheia de luz. Já não falo de paixão ou amor, minha homeostase é eclética. Às vezes, sinto-me em horror de bicho. Emboto-me, bem desconstruído num fatídico caminho de pedras pontiagudas. Disfarço, afugento o labor moído e rabisco o meu velho pergaminho de papiro. Aproximo-me de pessoas que me encantam para rebuscar as explosões de vida, das inteligências pensantes e pulsantes que emanam das íris dos que tem gosto de vinho licoroso na boca. Meus olhares fazem figa. Querem os belos momentos vividos em outros tempos. Perdi os lamentos e não choro lágrimas.

Há linhas na palma de minha mão e elas não querem dizer coisa alguma. Ainda desejo viver pra cuidar dos meus sintomas. Tomo o cuidado para não esconder os meus monstros grandes, fortes e cafonas. Ainda ouço o meu pai me dizer que um homem tem que arcar com as suas calças. Isso ecoa em minha mente diuturnamente.

À noite, a poeira se faz valsa ou, quiçá, pó ardente, talco aderente. O único repouso que eu encontro está na expressão: eu não sei! Apego-me a tais palavras de real confronto como se fossem um bálsamo para um guerreiro ferido. Recluso em minha lida, sigo questionando os meus medos. Não sei onde estão.

Alguns cavalos empurram a minha viga enquanto me vingo de mim mesmo. Não tenho certezas do futuro. Não posso mentir sobre isso. Amor se faz num monturo. Não crio expectativas e todas as minhas certezas se foram para um saco todo fodido. Nem fé eu tenho mais. Um cadinho de teimosia. Rasgo as páginas do livro lido e sem dinheiro no bolso, caminho sem perspectivas, tentando me sentir um áulico com decente dignidade.

Já remei tanto na vida, mas acho que morrer na praia é pura maldade. Talvez, eu tenha desmaiado ou morrido. Desiludido, sabe? Disfarçar as minhas agonias e sofrer é meu marco temporal.

E por favor, não me digam do meu potencial e nem que sou um cara legal. Flutuo ao vento, nem sei pra onde vou. Não dou conta de mim, tampouco de ninguém que me frustre. Na reta final, tristezas num tempo real.

Ainda respiro, almejando escrever um livro bem ácido, daqueles que escorrem num abismo. O rosto está plácido, mas o corpo está aplacado pelas bobagens de alguém que, para a sociedade em geral, não deu certo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

DIA 49 - Pela simplicidade da vida...

 


Quando eu estava nos anos escolares, mais especificamente no Ensino Fundamental II, eu gostava muito das operações matemáticas que simplificavam números e frações. Eu que nunca fora muito afeito aos ordenamentos lógicos, acreditava que aqueles processos de simplificações favoreciam as minhas formas de ler e conhecer mais claramente a própria ciência matemática. Todavia, o meu encanto pela “bendita” matemática ficou por aí mesmo. Hoje eu a utilizo como arte. Tá de bom tamanho.

Passados os anos, já caminhando pelas ondas da maturidade, vi-me influenciado por uma série de perspectivas e olhares que me convocavam para a urgente e importante ação de simplificar a forma como a vida se me apresentava. Consciente das muitas demandas que me abordavam, especialmente as que ocupavam os meus pensamentos e as minhas reflexões, me debatia frente ao gasto insano da minha energia vital e psíquica com problemas e situações que não me traziam acréscimo, tampouco sentido. Passei, então, a investir naquilo que realmente eu considerava importante para mim. E o importante era a simplicidade mais simples e simplória.

Enquanto muitas pessoas se gastam, pensando em comprar isto ou aquilo ou pensando em fazer esta ou aquela viagem, coisas interessantes obviamente, mas não vitais, eu me propunha a andar na contramão – nada de me gastar ou gastar com algo. Em tempos de convocação para o consumo desenfreado, eu insisto em querer aliviar os pesos mortos – talvez dezenas de paralelepípedos – da minha mochila, pois em minha jornada, seja ela qual for, almejo andar leve, quase flutuando.

A pergunta basilar que me acompanha é a seguinte: do que realmente preciso para viver bem? Será que a compra de um novo automóvel me faria viver bem? Será que a aquisição de um apartamento na orla de uma praia me faria viver bem? Será que uma viagem internacional me faria viver bem?

Ora, não tiro o mérito dessas possibilidades e conquistas triviais, mas todas as dimensões alusivas a uma conquista material possuem prazo de validade. Tudo o que existe neste universo possui princípio, meio e fim. Só na música do cantor brasileiro Fábio Júnior é que o amor não se configura como uma história com princípio, meio e fim. O fato é que todas as conquistas chegam, mas, também, escorrem das mãos, por entre os dedos.

Além desta constatação, gostaria de destacar que a simplificação da vida pode favorecer a quebra da ansiedade, porque se uma dada pessoa não alimenta a necessidade de se suprir com múltiplas parafernálias, objetos, sonhos remotos ou coisas do gênero, poderá gastar o seu tempo para o cultivo do que realmente importa, ou seja, para ser quem é. Com essa conquista, tornam-se desnecessários 13 pares de tênis ou 172 camisas ou, ainda, 18 litros de perfume. A verdade é que coisa alguma é suficiente para fazer uma pessoa se sentir bem e feliz. Ter-se o básico para uma pequena diversificação no cotidiano é mais do que o suficiente.

No fundo, quando alguma pessoa compra para si algo, muitas vezes não compra por necessidade. Talvez, o que mova uma determinada pessoa a adquirir o que não precisa seja o desejo de revelar ao outro o seu poder de compra. Todos os dias, o sistema de mercado lança nas mídias em geral diversas novas opções para o consumo. Visam despertar o desejo, a fim de que as pessoas gastem os limites dos seus cartões de crédito ou economias com produtos que aparentemente favoreçam o bem-estar pessoal. Aqui, vale aquela velha premissa tão bem abordada por Erich Fromm e outros pensadores, a saber, de que é mais importante ser a ter.

Diante da vida social e seus prazeres, cada pessoa precisa apreender melhor o seu processo de simplificação. Nada melhor do que se assentar em uma cadeira e com a alma sossegada, contemplar a viva natureza que se revela exposta a cada um, permitindo que ocorra a simbiose e a inundação de uma tranquilidade contínua que aglutine o segredo da boa vida ou da vida boa. Tal vida se resume justamente na consideração de que tudo é muito simples, lindo e complexo. E está tudo bem. Por que matar-se tanto com as atividades rotineiras dos respectivos trabalhos desempenhados? Por que perder a oportunidade de festejar ou celebrar a vida, divertindo-se sem limites? Por que deixar tudo tão chato, assombrado e estranho? Aliás, eu detesto a chatice dos dias. Eu gosto mesmo é de coisas novas e se elas não me chegam, eu as crio.

Portanto, acho crucial que cada pessoa encontre em seu cotidiano as possíveis formas de leveza. Talvez, dessa maneira, a gente encontre o segredo de vivermos mais livres e soltos, como flores e passarinhos. Já que cada pessoa é nada mais, nada menos, que uma faísca no meio do incêndio, eu entendo ser coerente assinalar a ideia de se investir em um novo olhar sobre as dimensões existenciais com a simples vontade de se perceber o quanto de beleza, esplendor e simplicidade elas contém. Beleza, esplendor e simplicidade similar ao bater de asas de um beija-flor entre as flores cheinhas de néctar.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

DIA 48 - Incômodos quanto à violência contra a mulher...

 


Nem todos os dias em que temos a oportunidade de viver são bons e tranquilos. Continuamente, experimentamos as variações que ocorrem no desenrolar dos segundos, dos minutos e das horas; da aurora ao crepúsculo.

Nestas variações, somos aturdidos por problemas, os mais diversos, cujas perspectivas podem provocar o desequilíbrio emocional. De fato, as dificuldades que ocorrem com cada um de nós são inerentes à nossa condição de seres viventes neste mundo. Aliás, não existe absolutamente coisa alguma que aconteça conosco que não seja pertencente às esferas existenciais nas quais estamos inseridos. Obviamente, muitos destes acontecimentos nos incomodam profundamente.

No atual momento da minha vida eu tenho me sentido bastante desconfortável com as formas pelas quais os homens se relacionam ou tratam as mulheres. Eu aqui me incluo, pois não sou melhor do que qualquer um dos homens e nem me considero assim. Não sou um exemplo para qualquer pessoa alheia seguir. Todavia, vivo a sempre viva insistência pela condução de minhas posturas mais pessoais de uma forma tal que as minhas convicções sejam razoavelmente coerentes. Não posso abrir mão da elegância e da gentileza para com todas as mulheres, tanto as próximas como as distantes, indistintamente. Mesmo com essa minha insistência pela coerência, não me sinto ou me vejo como um arauto dos relacionamentos perfeitos, nem mesmo nas horas em que fui convocado a sê-lo. Sei dos meus podres e posso conta-los a quem de direito, um a um, acompanhado, obviamente, de uma gelada e alguns deliciosos petiscos numa mesa de bar.

Acontece que, por uma razão lógica, sinto-me um artesão e, como tal, eu procuro desenvolver a minha obra de arte relacional da melhor maneira possível, sem uma preocupação quanto ao êxito final. Como um bom artesão, faço o que posso dentro das minhas limitações, com o que tenho e no momento oportuno. Gosto de assim sê-lo. Dessa maneira, talvez, eu possa oferecer um pouco do que é melhor e mais autêntico em mim mesmo ao que me circunda.

Mediante esta postura, o que almejo oferecer? Sem ser pretencioso, almejo apresentar algumas possibilidades em meu viver que possam favorecer a reflexão em torno do aumento da gentileza dos homens para com as mulheres. É crucial que os homens em meu entorno ampliem as suas visões para que alcancem uma maior consciência de quem são e de como podem melhorar as suas formas de cuidado para com as mulheres em geral.

Este autoexame é fundamental para que se evitem litígios e discussões indevidas contra as mulheres.  Infelizmente, muita violência é gerada dentro das casas. Muitos homens intimidam as mulheres de formas verbal, física e psicológica. Batem e até estupram as mulheres com as quais se relacionam. Há estupros no casamento. Como é cruel recebermos as notícias pelas mídias apontando as situações em que as mulheres são completamente expostas em situações constrangedoras.

Na minha atuação como psicólogo tenho acolhido diversas mulheres de várias idades e de vários amores, e todas elas trazem os seus respectivos relatos quanto aos maus tratos, abusos morais e abusos sexuais. Quando acolho as narrativas, não consigo me eximir ao fato de sofrer empaticamente estes níveis de violência. Atônito em meus pensamentos e corado de vergonha, fico cabisbaixo e angustiado, especialmente por muitas pessoas – mulheres e homens – acharem que tudo isso é normal. Toda e qualquer violência contra a mulher é a prova visível e cabal de que fracassamos como sociedade e como família.

Enfim, eu espero sinceramente que no decorrer dos tempos, mediante os acolhimentos oferecidos por mim no setting terapêutico, as palavras se transformem em ações e estas ações favoreçam a conquista dos direitos das mulheres. As mulheres pelas mulheres e os homens se sensibilizando mais, evidenciando o respeito e as palavras gentis, se responsabilizado, também, por esta luta. Toda a sociedade precisa renunciar às possibilidades trágicas e violentas que se anunciam às mulheres em suas vidas cotidianas, a fim de que, com os olhos trocados com o outro, provoquemos e proporcionemos paulatinamente o desenvolvimento de um olhar mais integral e mais humano. De todos para com todos, favorecendo a igualdade de direitos.

Ao final, quem ganha somos nós e a vida boa aplaude.

 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

DIA 47 - Duvido do amor! Que ele seja eterno enquanto hard...

 


Eu duvido do amor!

E quando duvido, questiono!

E quando questiono, complico!

E quando complico, viajo aos interstícios de mim mesmo,
para encontrar com o que, talvez, nunca seja parte de mim mesmo ou que seja o todo do meu todo, em minha plenitude.

Plenificado de nada, singro o mar dos meus pensamentos desconexos em uma jangada já desgastada pelo tempo e pela lida, ansiando a insanidade dos fragmentos que me foram adicionados por pessoas que eu encontrei nos corredores apertados desses canais da vida, os mais diversas. Algumas eram próximas, outras bem distantes. A maioria era amistosa, algumas poucas bem cruéis. De todas elas, recebi a afetação sem anfetaminas, enquanto o rio caudaloso que eu filosoficamente observava me ensinava sobre o sentido sem sentido da existência e seus fluxos nômades.

O rio, nem tão rio assim, fazia-me rir, pois era nada mais que um riacho. Diacho! Ele tinha amor ao amar e desejava perder-se no seu objeto amado para nunca mais ser o que sempre foi. Expressava assim, mediante o mavioso dançar das águas em correntezas e redemoinhos a indicação do seu destino, cujo destino era não ter destino algum.

Todas as coisas se fazem e se refazem em seus ciclos e a água, este ser extraterrestre que habita este planetinha de fazer rir, tão grandioso em suas bobagens e guerras sem razão, viaja livremente pelos céus em nebulosas formas disformes,  para desaguar onde quiser, banhando plantações ou inundando cidadelas, casas e favelas, sem pedir permissão. Mesmo quando impostas às garrafinhas plásticas, nada as detém. Livram-se daqueles recipientes transparentes para em suas transparências habitarem os obscuros dos abismos oceânicos, das profundezas dos rios e das corporeidades humanas. Enquanto faço a água circular em todo o meu corpo até o momento de libertá-la de mim, num ato compulsório e gozoso, experimento toda esta louca dimensão dos ciclos nos quais estamos condenados a coexistir.

Mergulho frente a onda altiva e penetro toda a sua vaga salgada de areias remexidas, para me rever do outro lado de suas correntes sem certezas. O mar não tem cabelos...

Percebo como a existência congela a coluna vertebral, provocando os encontros e os desencontros entre as gentes dos diversos continentes.
Em várias casas, dores.

Em cada uma das dores, sofrimento.

Em cada sofrimento, a singularidade dos sabores daquele fruto proibido no paraíso, nunca dantes encontrado, sempre telúrico e perdido.
Um casal se beija na rua. Pós e poeiras misturam-se nas bocas molhadas de salivas.

Outro anda cabisbaixa-mente, sem dar as mãos. As algemas sentimentais parecem já fracionadas e um restolho de afeto agride ainda a alma.

Um terceiro conduz criancinhas que deveriam fazer um pacto para serem escondidas pelo próprio tempo.

Um quarto está desiludido com a ilusão plantada ao longo dos anos pueris e adolescentes. Seu quarto foi pintado com as cores da desilusão e sua cama desabrochou-se silenciosa, aflita?

Um quinto se agride em palavras e gestos, não necessariamente nesta ordem. Palavras fazem mal quando “mal-ditas”. Fazem bem quando “bem-ditas” na boca da criancinha em seu arrolhamento com hálito de leite materno.

A mulher expõe o seu seio para alimentar o mundo, dando contornos de sensibilidade ao amor em seu fragmento de dádiva. No gesto sereno de pura dádiva ao infante, por sua vez, aguerrido em suas sucções e mordiscadas junto ao seio túrgido, a vida vai se entranhando, se estranhando e se emaranhando em figuras nada geométricas riscadas em situações e circunstâncias que não cabem nas profundidades obscuras dos oceanos, complexificando a vida.

Os relacionamentos que emaranham a vida são mais complexos ainda, pois poliedros eivados de diversos ângulos e lados.

É preciso bailar os dias no céu, revelando, de tempos em tempos, seus pirilampos de luz. Tudo é tão próprio, tão singular.

Gosto de me aninhar de novo em minhas dúvidas, a fim de respeitar, até mesmo, o ciclo que ocorre em torno do sol.
Quero me seduzir de mim mesmo para experimentar o encantamento da nudes do amor que eu duvido, mas que se reflete em minha crua retina.

Eu, de mim mesmo, continuo a me debater frente ao amor, aquele mesmo que eu questiono. Enquanto assim questiono, teimosamente insisto em fazê-lo acontecer nas finas teias relacionais que me envolvem continuamente em meu cotidiano, tentando fazer como bem sugeriu Vinícius de Moraes, o "poetinha": que o amor duvidado seja eterno enquanto dure, ou enquanto hard...

terça-feira, 31 de outubro de 2023

DIA 46 - Temos mais onze meses para o "Outubro Rosa"

 


Chegamos ao final do mês de outubro, mas não ao final do movimento internacional de conscientização para a detecção precoce do câncer de mama. Outubro emoldurou as ações batizadas pela alcunha de “Outubro Rosa”. Originalmente, quem lançou esta campanha foi a Fundação Susan G. Komen for the Cure, em 1990 e ela se configura em vários países do mundo. De nossa parte, em nosso pequeno microcosmo, na condição de psicólogo ligado ao CRAS perante os desafios da saúde mental, acompanhamos de forma direta ou indireta as ações que objetivaram compartilhar informações e promover a conscientização sobre o câncer de mama.

Ora, o câncer de mama é o tipo que mais acomete mulheres em todo o mundo. Cerca de 2 milhões de casos novos ocorrem estimativamente a cada ano. No Brasil, o surgimento de novos casos gira em torno de 60% para cada 100.000 mil mulheres. Infelizmente, o câncer de mama ocupa o primeiro lugar no ranking de mortalidade de câncer entre as mulheres no Brasil. As maiores taxas de incidência e de mortalidade estão nas regiões Sul e Sudeste, onde há uma maior aglomeração. Isso levou o Governo Federal a criar a Lei nº 13.733 de 2019, que instituiu o mês de conscientização sobre o câncer de mama – outubro rosa, período em que devem ser desenvolvidas as seguintes atividades, entre outras:

I – iluminação de prédios públicos com luzes de cor rosa;
II – promoção de palestras, eventos e atividades educativas;
III – veiculação de campanhas de mídia e disponibilização à população de informações em banners, em folders e em outros materiais ilustrativos e exemplificativos sobre a prevenção ao câncer, que contemplem a generalidade do tema.

 

Todos os interessados e as interessadas no assunto sabem que não existe uma causa para a aparição e desenvolvimento de qualquer câncer. A doença ocorre por conta de uma conjunção de fatores, os mais diversos. Obviamente que os fluxos nos quais cada um de nós se envolve em determinados ambientes podem contribuir neste processo. Sempre observo o fato de muitos buscarem causas clássicas ou cartesianas para as doenças e as enfermidades, mas, sabemos, toda e qualquer doença possui causas multifatoriais.

Eu entendo que o corpo é o único lugar em que habitamos no universo. E, portanto, ele deve ser cuidado continuamente. A grande receita para o cuidado corporal é muito antiga, e ela se refere à busca pelo equilíbrio em todas as esferas da existência: biológica, emocional, afetiva, sexual, psíquica e social.

Curiosamente, as campanhas do Outubro Rosa tiveram uma abrangência maior no campo virtual a partir da pandemia da SARS-COV-02. Muitas lives e documentários buscaram evidenciar a importância do toque e o acompanhamento a qualquer sinal diferente na mama. Por exemplo, encontra-se disponível no YouTube um vídeo que considera a questão, buscando aumentar a criatividade daqueles que querem ampliar este campo de informação. Disponibilizamos o link ao final do artigo. Obviamente, a inovação na forma de comunicação e abordagem sobre o câncer de mama foi fundamental para a promoção da saúde da mulher e de alguns homens que também podem desenvolver este respectivo câncer.

Todavia, o que me levou a escrever este texto neste dia, mais do que enfatizar mais uma vez a importante campanha no mês, é a de alertar os cidadãos e as cidadãs a se alinharem continuamente em ações que não se permitam qualquer nível de paralisação. É preciso que a conscientização seja contínua em todos os outros onze meses e que todos, indistintamente, acompanhem os avanços do Instituto Nacional de Câncer – INCA.



Hoje, dia 31 de outubro, afirmo contundentemente que as campanhas de conscientização para a prevenção do câncer de mama devem continuar. Mais do que isso, serem ampliadas no cotidiano dos profissionais da saúde e de todos os cidadãos e cidadãs que almejam o bem-estar dos seus amores, bem como de todos aqueles que querem viver com ampla qualidade de vida. Em meu ponto de vista como profissional da saúde mental, empenho-me para que preconceitos e barreiras relativas à corporeidade sejam postas de lado, afinal de contas, quando o assunto alusivo à qualidade de vida está em jogo, o que vale é a luta contínua.

Enfim, quero ressaltar que existem exemplos significativos nesta luta. É o caso da pedagoga Keila Ferrari que se dedicou à escrita terapêutica em seu blog: Lua em Primavera, enquanto lutava contra o câncer de mama. Alcançou a cura em 2018, mas no mesmo ano descobriu uma recidiva com metástase no pulmão. Nesta luta, declarou: “Tem dias melhores e outros piores, mas as noites têm sido difíceis, pois bate aquele medo da morte”. Quanto ao blog, afirma: “Tenho buscado dar voz de forma poética a mulheres que passam pelo mesmo problema. É uma forma de expressão, assim como a dança, distrai um pouco”. O blog pode ser conferido neste link: https://professorakeylaferari.blogspot.com/.

 

 

Fontes:

1. Instituto Nacional de Câncer – INCA

2. Union for International Cancer Control (UICC)

3. Repensando as campanhas sobre o câncer de mama. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1UmTPQYrSDE.

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

DIA 45 - Imagens refletidas nas sombras irrefletidas

 


Eu me vejo espelhado, mas nem sempre confortável. Prefiro o reflexo das lagoas translúcidas que acolhe em sua lâmina o céu e as suas nuvens, quando há nuvens. Em qualquer delas, reconheço as distorções e os reflexos do que imagino ser real, se é que existe algo real.

De posse do irreal que me habita, tenho fortes impressões sobre o meu eu e elas não são ideais. Revelam-me as minhas sombras e os levianos espectros do meu doar decantador. Reconheço-me como um doador contumaz, especialmente quando o assunto é o acolhimento às pessoas em suas inquietações mais profundas.

Em todo o tempo, eu procuro o meu gozo fortuito peregrinando nas trilhas do meu segundo (in)sano e passageiro. Como transeunte, saliento o meu egoísmo e me cubro com retalhos de pano azul turquesa. Quero destacar-me na avenida das pirambeiras enquanto me escondo em minha mais íntima intimidade e paraliso as batidas do meu coração.

Dizem-me que eu não posso ser egoísta, somente altruísta. Todavia, cansei-me do altruísmo exagerado e sem tréguas, e me lanço à aventura insana de escalar a montanha sem equipamento de proteção. Será que chegarei ao cume? Não sei e nem pretendo saber. Já tá valendo a rota torta que me entorta a coluna e me faz doer a perna direita. Preparo uma pequena refeição leitosa para me deleitar, com alguns cereais e uma carne de sol.

Eu que não fumo, tento deletar a minha fome com uma lasca de pão quase bolorenta, enquanto ofereço lentilhas a qualquer alma faminta que me dê os seus direitos de fêmea. Não nego o que possuo e persigo o meu dilema emocional, sem saber, de fato, qual ele é. A fêmea no cio.

Sei que o mundo gira tal qual uma montanha russa, daquelas radicais que liquidificam sensações. Eu, igualmente, rodopio em um trilho imaginário e agressivo, soberano. Tudo é meu e eu me completo, me bastando sem me considerar um bastardo. Passo a viver assim, sem fazer nenhum plano para ontem, sequer para amanhã. Aliás, agora é a hora do looping.

Completamente atordoado, passo a percorrer os caminhos que me levam à mina de rubis. Quando retorno de seu subterrâneo, meus olhos se sentem agredidos pelos raios de sol da aurora magistral. Não tenho óculos escuros. Meu grau é grandão. Tais caminhos e jornadas trazem o amor e o poder de volta ao self interior, o que sustenta o egoísmo. Na perspectiva do andarilho, experimentar cenários que se modificam e se transformam continuamente. Mudo com eles e colho o pó em ouro puro. Perdi as contas de quantas vezes eu me perdi em minhas andanças.

Adoro perder-me e subtrair-me. Nunca fui muito bom em matemática. Sempre afoito às artes humanas, minha fascinação. Com o ouro, espalmo as minhas mãos, balanço-as ao ar tentando tocar o horizonte que se esvai, dando lugar à dama da noite. Minha boca calada já não quer calar-se, a língua já foi mordida. Junto aos camafeus, procuro me refazer na saudade.

Às vezes, cai sal na ferida, pandemia que arruína Proteus. Eu grito na gruta, luzeiros acesos, agonia que não cessa. O olhar mais perdido agora tenta contemplar a noite sem estrelas e as mãos cheias de purpurinas douradas que não me deixam rico. Enquanto as pálpebras escondem os olhos que ardem, o cansaço visita todo o corpo. O chão empoeirado convida ao deitar-se maviosamente, sem conforto. A garganta já ressecada requer o líquido límpido, incolor e sem sabor.

Nem tudo é dor, e o momento requer posturas eivadas de vivacidade. Nadar no rio é opcional, mas as águas escondem as pedras lodosas. Contusões e feridas podem ocorrer. Preciso repousar e enquanto assim faço, deparo-me novamente com a minha imagem refletida, agora em uma lápide de granito. Ela ainda está retorcida e eu me contorço em sentimentos e desejos vulcânicos. Minha Nárnia pessoal continua viva.


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

DIA 44 - O inefável...

 


Resolvi escrever sobre o inefável. De antemão, quero deixar claro que eu sei que é bem paradoxal escrever sobre esta dimensão, justamente pela impossibilidade de situar em um texto algo que não pode ser descrito como sujeito ou objeto, mas como fenômeno. Todavia, entendo que este é um desafio válido.

Segundo os dicionários disponíveis nas redes digitais, inefável significa aquilo que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza. Trata-se daquilo que é indizível, indescritível e que causa imenso prazer. Em suma, o inebriar-se no pleno encantamento das delícias.

Ao longo dos meus anos de vida e existência vivenciei algumas experiências e percepções que não poderiam ser traduzidas em palavras. Lembro-me que a minha primeira experiência com o inefável se deu no meu encontro com a praia. Eu e os meus pais, juntamente com a minha irmã pequena, fomos ao Recreio dos Bandeirantes no litoral do Rio de Janeiro. Quando me deparei com aquela areia branca e espessa, misturada àquele mar azul dividido por uma pedra ovalada, vivenciei a minha primeira experiência indizível. Na revisita às minhas memórias, considero esta como a primeira manifestação de encantamento da qual me recordo.

O inefável também se manifestou em minha vida nos sonhos, especialmente os que eu sonhava que estava voando. A sensação de voar sobre todos os espaços vivenciais era realmente indizível. Palavra alguma poderia orientar o sentimento que se manifestava em meu ser, mesmo depois em vigília. Na memória se manifestavam o sonho e aquela sensação de liberdade, experimentada pelos pássaros. Obviamente, como um ser em construção, eu nunca pude voar em minha realidade, mas o sonho e sua potente linguagem me impulsionavam a sentir o que não se manifestava em minha realidade. Eu, de minha parte, produzia a arte.

Eu entendo que a experiência do inefável ocorre todas as vezes que temos a oportunidade de focar o momento de uma forma consciente ou inconsciente. Tudo o que percepcionamos de uma forma intensa e inigualável num determinado momento, no aqui e no agora, pode se traduzir em experiência do inefável. Aliás, para mim em especial, é justamente a percepção atenta e intensa no aqui e no agora que garante a experiência do inefável. Nela, não há possibilidades para teorizações cartesianas, somente para percepções e sentimentos profundos nunca antes evocados pelos sentidos. Trata-se da percepção pela percepção, do sentir pelo sentir, do experimentar pelo experimentar de uma forma aprofundada. Em outras palavras, não somente molhar os pés e os tornozelos, mas se afogar nas águas profundas, transparentes ou turvas de um mundo ainda não percepcionado.

Lembro-me de outra experiência do inefável vivida na Igreja de Santo Agostinho em Paris. Fui ao recinto com alguns amigos. Lá, deparei-me com uma orquestra e uma solista que tocavam o coração dos que ali estavam presentes de uma forma absurdamente encantadora. Enquanto cerca de mil pessoas faziam contido silêncio diante da apresentação, a música e a voz da solista faziam os pelos da pele arrepiarem-se. Faltavam-me palavras para descrever o que eu sentia, porque, de fato, eu não sabia o que era ouvir conjuntamente a tantas pessoas que se encontravam em silêncio absoluto, aquilo que tocava a alma de cada uma de uma forma única. As palavras cantadas sequer eram entendidas, pois expressas em latim. Enquanto eu percepcionava todo aquele momento, a melodia, o incenso, o silêncio e as pessoas, brotavam dos meus olhos copiosas lágrimas quentes. Elas escorriam pelo meu rosto. Eu não tinha a coragem de levantar a minha mão direita para enxugá-las, pois elas produziam em mim um sentido que eu ainda não havia sentido. Experiência similar eu vivenciei quando visitei o Jardim de Monet. Foi inefável percepcionar aquela miríade de cores, flores e perfumes. Silenciei a minha alma e fotografei aqueles instantes que para mim se tornaram instantes eternos. As melhores fotografias foram as que impregnaram a minha retina.

Como já afirmei, para mim, a experiência do inefável se revela na profundidade da percepção do momento. Quando eu retornei dos meus estudos no exterior, depois de longo tempo fora do Brasil, tive a oportunidade de “matar” a saudade dos nossos famosos “pãezinhos de sal”. No trajeto entre São Paulo e Juiz de Fora, depois de ter viajado a noite toda, parei em um posto com apoio logístico e restaurante. Pedi um café puro e comi quatro “pãezinhos de sal”, como se fossem um manjar dos deuses. Embora eu cheirasse e saboreasse aqueles pães quentinhos, eu fui muito além. Minhas percepções me levaram a uma experiência do indizível, embora, para muitos, comer “pãezinhos de sal” seja uma experiência trivial, cotidiana e corriqueira.

O inefável não somente tem a ver com o inusitado e novo, mas com o simples e básico. Ele se revela no beijo afetuoso, no abraço apertado, no toque sensível na pele, nos encantamentos que são originados nos brilhos que escorrem dos olhos. Revela-se também na intensidade da entrega, no desejo pelo outro, na vontade pelo bem-estar da pessoa amada, na profundidade do encantamento provocado pelo sorriso solto leve aberto e, obviamente, no orgasmo.

As experiências, complexas ou simples, que não podem ser ditas ou descritas, têm a ver com a percepção do inefável. São como encontros com sistemas planetários que nós nem imaginamos que existam. A experiência do indizível é tão profunda, tão única, tão subjetiva e tão própria àqueles que saboreiam a vida em seu instante-segundo, que nos lançam ao terreno das contradições. Como nos lembra Ferreira Gullar

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão;

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera;

outra parte delira.

 

O mundo sem fundo, multidão, estranhamento, solidão, ponderação e delírio só podem ser percepcionados na dimensão do inefável, no encontro do beija-flor com o seu lírio preferido, nas contradições. Enquanto eu tento encerrar este texto, sou surpreendido na rádio pela música “Paralelas” do inesquecível Belchior. Parei a escrita para ouvir a música com os olhos fechados, percepcionado a profundidade do que não poderia dizer ou escrever. Somente senti a música percorrer a minha corporeidade a ponto de eu mesmo querer abrir as janelas da minha casa e gritar bem alto, enquanto o carro passa: “Meu infinito sou eu”.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

DIA 43 - Grandes momentos se encontram na simplicidade do momento!

 


Quem disse que precisamos de eventos bons e glamorosos para nos divertimos? Quem disse que precisamos de pompas e circunstâncias para nos consideramos mais gente?

Há duas semanas eu tive a oportunidade de viajar para o Rio de Janeiro, onde vivi algumas boas e inusitadas experiências. Após concluir o meu compromisso, motivo de minha viagem, fui à casa de minha tia onde iria pousar. Reencontramo-nos, almoçamos juntos e rumamos ao hospital Miguel Couto no Leblon, onde o esposo dela estava internado. Eu a deixei na portaria, pois eu não poderia entrar. Fiquei aguardando ela resolver todas as questões inerentes ao processo de cuidado e recuperação dele.

Enquanto eu a aguardava, tive oportunidade de rever muitas das minhas ideias. Eu sempre tenho o costume de paralisar o meu momento presente com a finalidade de refazer as minhas intenções. Eu acredito plenamente no processo de contínua revisão da vida e da existência. Faço essas revisões com muito prazer e alegria. Não me sinto constrangido em me autodeclarar um ser em contradições. Gosto de ressignificar o que vivo e entendo que este movimento precisa existir continuamente entre nós. E, assim, escrevo poemas, faço poesias...

Enquanto eu visitava as minhas ideias, comprei um picolé para saboreá-lo e passar o tempo. Saboreei o meu preferido: o Tablito, enquanto eu assistia a reprise do filme Rocky VI, estrelado por Sylvester Stallone. O filme na verdade estava dentro de um projeto de merchandising da Rede Globo de televisão e do Banco Itaú. O sistema de mercado dando o seu “tchauzinho” para toda a galera numa tarde de sábado. Na sequência do filme, veio o programa exibido pela referida emissora, intitulado Caldeirão com Mignon e aquela enxurrada de propagandas ligando o apresentador ao ator norte-americano. Percebi que tudo se encontrava bem orquestrado para favorecer a contínua venda de produtos da rede bancária. Nada novo debaixo do sol.

Depois, eu busquei a minha tia no hospital e nos destinamos à sua casa. Tive a oportunidade de me encontrar com o meu primo. Ele é um contador de histórias do cotidiano. Muito divertido, fala às pessoas e conta casos com uma precisão tão fantástica e tão bem humorada, digna dos grandes humoristas espalhados por este país de meu Deus. Só para ter uma ideia do que eu estou falando, ele trabalha com o turismo na cidade do Rio de Janeiro. Naquele mesmo dia, ele falou que acompanhou um casal de Porto Alegre em uma visita ao Cristo Redentor. Como um bom guia turístico, contou diversas histórias sobre o Rio e sobre a construção do Cristo. Ao se aproximar do destino final, aquele que dá destino às Vans do último trecho, ele percebeu que a fila dos turistas estava completamente lotada. Então ele provocou uma das cenas mais hilárias que eu já tive a oportunidade de ouvir. Combinou com a senhora do casal para que ela se passasse por uma pessoa com deficiência visual. Ela titubeou, mas concordou. Então, ele cortou toda a fila para ir à frente, com a finalidade de adentrar em uma das Vans. A missão foi cumprida, e com sucesso. Se verdade ou não, não importa. A história é boa e nos rimos a valer.

À noitinha, eu e a minha tia resolvemos fazer uma programação bem simples e próxima à sua casa. Fomos para uma barraquinha organizada em uma calçada onde havia um pai e um filho fazendo churrasquinhos e pães de alho. Resolvemos tomar umas cervejas, celebrando aquele momento todo especial de conversa aberta franca e honesta.

Um vento forte começou a nos visitar, fazendo redemoinhos de poeira e anunciando a chegada de uma chuva. Ela já era esperada, pois o dia fora extremamente quente. A chuva veio como uma dádiva. Não nos importamos com ela e permanecemos assentados em nossos banquinhos de plástico, curtindo o momento e sendo banhados pela água fria. Eu já disse algumas vezes aos amigos mais próximos o quanto eu gosto da chuva. Tanto isso é verdade que quando vem uma forte chuva, gosto de banhar-me nela.

Bebemos, comemos, divertimo-nos e tomamos banho de chuva. Nenhum glamour, mas muita alegria e satisfação. Quem disse que precisamos de eventos bons e glamorosos para nos divertimos? Quem disse que precisamos de pompas e circunstâncias para nos consideramos mais gente? Grandes momentos se encontram na simplicidade do momento.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

DIA 42 - "O mestre do jogo: Rubem Alves" e o jogo do mestre Damiano

 


O professor Gilberto Damiano lançou recentemente o seu livro “O mestre do jogo: Rubem Alves” (1986), publicado e distribuído  pela Editora Siano (www.editorasiano.com.br), resultado da sua Dissertação de Mestrado, marcada pela originalidade e por constar, historicamente, entre os primeiros escritos “acadêmicos” sobre o pensamento do teólogo, educador, cronista, contador de histórias e psicanalista Rubem Alves.

Desde que soube dos reflexos alvesianos presentes na obra escrita de Damiano, sempre me esforcei com o intuito de vê-la publicada. Assim como o mestre de Boa Esperança, Damiano extenua a questão da corporeidade em seus aspectos biológicos, linguísticos e desejantes, questionando a obviedade dos tecnicismos acadêmicos, desfraldando a beleza estética em sua primazia. Aliás, mais do que exercer a atividade esteta, Damiano brinca e joga continuamente com o seu mestre do jogo, num protagonismo invejável, trazendo à mesa outros coadjuvantes igualmente importantes para a confecção de sua teia narrativa.

Sempre tive um apreço pelo jogo e pelo aspecto lúdico. Estes são temas bem caros para mim. Ao longo dos meus 30 anos de reflexão sobre o aspecto lúdico, sempre me apeteceu ler questões inerentes, balizadas pelos filósofos Kierkegaard e Nietzsche em geral e Huizinga, em particular. Este último, por exemplo, expressa o seguinte em sua obra Homo Ludens:

“O jogo é uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter qualquer lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras”.

 

Essa reconhecida assertiva de Huizinga indica, à priori, que, quando se joga, se joga pela vontade de prazer, num apreço profundo à espontaneidade e adequação de cada qual na dinâmica da vida. Não se pode excetuar o fato de que o aspecto lúdico abrange uma gama de emoções e sentimentos que tocam no mais profundo do ser. Assim, além de ser gerador de alegria, o aspecto lúdico e sua práxis, chamada de jogo, possibilitam a transcendência do corpo para dimensões ligadas às atividades do espírito.

O texto de Damiano é alegre e nos possibilita a transcendência e a liberdade de expressão do poder criador e recriador da própria vitalidade humana em sua harmonização existencial. Isso fica evidenciado nas suas provocações sobre uma educação ligada ao (im)programável viver em detrimento do mero pragmatismo eivado de obviedades cartesianas, presentes nas diversas matizes do processo educacional brasileiro. Na contramão das matizes, Damiano insiste em jogar o leitor, naturalmente, nos campos da criação, recriação, decisão, dinamização do mundo, domínio da realidade e humanização, relembrando aqui os movimentos propostos pelo educador Paulo Freire. Essa proposição lúdica se encontra na oposição das diversas instituições que tendem a limitar as ações humanas.

É inegável a capacidade de limitação que as instituições possuem na vida humana do nascimento à morte. Os seres humanos nascem e sobrevivem dentro de complexos institucionais, muitas vezes, aprisionando-se. No caso de almejarem a ruptura, descobrem-se em sofrimento. Não é fácil controlar o sofrimento decorrente de uma separação institucional. Rubem Alves, em seu livro: “Dogmatismo e Tolerância”, assim expressa:

“Uma instituição é um mecanismo social que programa o comportamento humano de forma especializada, de sorte que ele produz os objetos predeterminados pela instituição. Igrejas, exércitos, escolas, hospitais, manicômios, casamento – são todas instituições. Pode-se, na verdade, ver que todos eles: 1. Programam o comportamento. 2. Forçam o indivíduo a produzir comportamentos e “bens” segundo as receitas monopolizadas pela instituição”.

 

Apesar de fazer uma detecção precisa da programação institucional, Rubem nos incita à discussão sobre o conceito de liberdade ante a instituição. E bem sabemos que o conceito de liberdade é ambíguo. Todavia, é justamente à liberdade que Damiano nos convoca a todos, por intermédio dos jogos de linguagens, pontuações estéticas e a digressão e heterodoxia, num amplo movimento subversivo.

Seduzido pela rede de sentidos proposta pelas tricotagens alvesianas, Damiano espraia a sua sede de saber e provoca o leitor, convocando-o para se deitar nas profundidades hermenêuticas capazes de evocar novas relações com o mundo, que não sejam puramente dogmatizadas. Sua vontade é marcada pela sede de humanidade sensível, presente tanto em sua vida e prática docente, quanto em sua obra dialogal. Lendo o seu texto, sinto novamente o cheiro de Freire, quando diz:

“Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também um traço de criticidade”.

 

E assim, desvela-se um pluriverso sem necessidades conclusivas, onde a alteridade é respeitada na harmonização de uma educação que seja vida e de uma vida que seja jogo, que se pretenda lúdica e lúcida. Essa jogatina não acontece do dia para a noite, mas na lida diária, sob a égide de um fazer amor.

Enfim, eu recomendo vivamente este livro do amigo Damiano, tendo a consciência clara de que seus saberes e sabores, mais do que determinar as regras de um possível jogo, possibilitam ao leitor o jogar-se na aventura da vida em meio aos processos educacionais, sem perjúrios ou danos, mas numa gostosa prosa com o mestre do jogo: Rubem Alves.

 

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

DIA 41 - Das intuições que alicerçam os assombros dos dias

 

Tenho aprendido a respeitar as minhas intuições e os meus pensamentos cheios de convicções, principalmente quando tenho que tomar decisões mais complexas. O referido respeito nasceu por conta de uma questão bem pessoal alusiva a mim mesmo e aos meus desejos. Passei a acreditar no pensamento espontâneo que sinalizava o melhor caminho a seguir. Respeitando a minha intuição, percebi que as coisas aconteciam bem mais leves. Quando não, acabava vivendo um infortúnio em minha própria trajetória existencial.

Em um desses dias corriqueiros da semana, quando eu rumava para o meu ambiente de trabalho, acabei buscando outra rota que passava por uma estrada de terra e em meio diversos povoados rurais. Fiz este trajeto de carro investindo tão somente na minha pura contemplação.  Aproveitei o máximo todo aquele trajeto a fim de repensar ou reorganizar meu bem-estar. Eu queria ampliar a minha sintonia com o cosmos, e foi isso o que aconteceu. Curti cada instante dirigindo suavemente o carro com as janelas abertas, recebendo os beijos da brisa fria matinal. Contemplei todas as tonalidades de verde, visualizei riachos, lagos, ao mesmo ao mesmo tempo em que ouvia os sublimes cantos das aves mais diversas.



Não nego que os meus olhos se encheram de encantamento naquele momento de eternidade. Tive a oportunidade de estabelecer aquilo que muitos chamam de higiene mental. A natureza em sua majestosa rudeza abraçou-me de forma carinhosa e aconchegante. Foi um momento ímpar para mim. Talvez eu nunca me esqueça dos sentimentos que se formaram em meu interior.

Infelizmente, muitas pessoas perdem as belezas do cotidiano por conta das suas correrias sociais. Não permitem a sintonia ou mesmo a simbiose com a natureza. Encontram-se tão chafurdadas em suas demandas que não conseguem sequer respirar o ar fresco ou sentir as fragrâncias que se espraiam na atmosfera. Acho coerente pensar que nem tudo é compromisso ou trabalho. A vida é dinâmica e requer mais brincadeiras e suavidades. É fundamental pensarmos a possibilidade de salvaguardarmos um tempo para visualizar o que realmente importa em nossa natureza humana, a saber, acolher as dinâmicas da vida que se encontram muito além do nosso cotidiano automatizado. Confesso a todos que, para mim, o encontro com a natureza foi extremamente importante e renovador.
Todavia, mal sabia eu que o dia que se descortinava prometia uma série de percalços e enfrentamentos. Além dos meus atendimentos no setting terapêutico, enfrentei duas inusitadas interferências nas rodovias em que me desloco todos os dias.  Assim que eu saí da rota de terra, peguei o asfalto em direção ao município de Coronel Pacheco – MG. Quando estava chegando, deparei-me com um grande engarrafamento. Eu já havia percebido que eram escassos os veículos na estrada. Com um bom humor instalado pelo trajeto evidenciado anteriormente, achei até que todos tinham sido abduzidos. Na verdade, ocorreu um acidente na Vila de Santa Rita no referido município. Dois cidadãos se envolveram no sinistro: um de moto e outro em um Uno. Ainda bem que, embora os ferimentos decorrentes, ambos escaparam com vida.

Com o trânsito completamente paralisado, acabei chegando atrasado ao ambiente de trabalho. Embora externando a minha solidariedade  aos acidentados, passei aos atendimentos clínicos. Já era sexta-feira e devidos aos eventos alusivos à Campanha do Setembro Amarelo – um em Ribeirão de São José, outro em Coronel e outro, ainda, no Centro Universitário Estácio JF, além de algumas sessões mais complexas e desafiantes, ainda visitou-me o cansaço físico. Depois das 14h, quando me retirei do município e me destinava aos atendimentos psicoterápicos, deparei-me com um comboio. Diversos veículos de apoio e um caminhão carregando um transformador gigante, ocupando duas pistas da estrada. Gastei 50 minutos em um percurso que levaria 12 minutos. Este infortúnio atrasou as minhas consultas.

Depois dos meus atendimentos, lá pelas 21h, eu recebi uma mensagem pouco usual para acompanhar um amigo querido no seu pós-cirúrgico. Eu teria que passar a noite como acompanhante e assim desenvolver um pouco mais a solidariedade e a gentileza tão necessária neste mundo insensível. Não podemos deixar que os cansaços dos dias, das tardes e das noites nos impeçam de estar junto às pessoas queridas, especialmente quando de infortúnios. Resolvi passar a noite e perceber as horas passando lentamente, enquanto fingia dormir. Em meio à madrugada, remexi os meus pensamentos, chegando à constatação de que estamos continuamente na montanha russa. A princípio, tudo tranquilo. Na sequência, altos e baixos.

Enquanto escrevo este texto, tenho diante de mim o Rio Paraibuna que corta a cidade de Juiz de Fora, onde resido. Ele suavemente desliza as suas águas em seu leito, refletindo o céu azul sem nuvens e as árvores e arbustos que o cercam. Desliza suavemente em meio a selva de pedras, parecendo analisar a vida corrida e zoada da cidade. Pessoas correm, caminham, se exercitam, enquanto outras lutam pelas suas vidas em seus leitos hospitalares. Enquanto tudo acontece, o rio segue o seu fluxo sem pressa. Seu caminho está traçado, mas existem novos obstáculos. Talvez, o rio e seu percurso sejam umas das grandes metáforas encontradas para o melhor entendimento de quem somos e o que fazemos neste mísero planeta.



Em meio a tantas correrias percepcionadas, a sexta e o sábado se viram envoltas pela morte da jogadora de vôlei Walewska Oliveira. Recebi a notícia com muita tristeza e com um peso a mais, pois eu havia discutido e conversado sobre as temáticas do desespero e da autodestruição durante toda a semana. Como um profissional envolvido com a saúde mental do meu município, sabedor dos dilemas que estão presentes na vida de cada um de nós, eu fiquei muito consternado com o fato.



Não sei detalhes da vida da atleta, mas é certo que a depressão, à qual todos nós estamos sujeitos, é muito silenciosa. Eu acho que aos primeiros sinais de tristeza ou encontros com as dificuldades para a compreensão da existência, cada qual deve investir em psicoterapias e tratamentos psiquiátricos, quando necessário. É preciso que as nossas caminhadas reflexivas, especialmente aquelas que consideram a vida como ela é, sejam equilibradas em nossa dinâmica diária, possibilitando que as nossas angústias sejam acolhidas da melhor maneira possível em nosso interior.

Da minha parte, continuarei a seguir as minhas intuições. Acho que não perco coisa alguma com isto.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

DIA 40 - Ipês, girassóis e o suicídio no espectro dos tons amarelos – Para não dizer que não falei de setembro

 


Não há nenhuma relação intrínseca entre os ipês amarelos, os girassóis e o suicídio, mas curiosamente, em setembro, mês em que espocam as flores da citada árvore, anunciando a chegada da primavera, somos também convidados a pensar sobre as ideações e comportamentos suicidas, frutos dos múltiplos desesperos e depressões tão presentes e tão próximos a nós. Os ipês amarelos e suas flores tão brilhantes, em sua inerente experiência de “quase morte”, nos convidam também a pensar este aspecto que muito nos afronta, especialmente quando consideramos a vida e existência.

Segundo informações que circulam na internet, o setembro amarelo surgiu de uma situação trágica que atingiu uma determinada família nos EUA no ano de 1994. Conta-se que o adolescente Michael Emme, de 17 anos, provocou a autodestruição ou suicídio, dentro de um Mustang 1968, customizado e pintado por ele mesmo com a cor amarelo brilhante. No dia do seu enterro, os pais distribuíram um pequeno cartão com uma fita amarela afixada. No cartão estava escrita a seguinte mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. Nasceu ali, a Associação Yellow Ribbon – Fita Amarela, que passou a conscientizar as pessoas quanto aos cuidados necessários, especialmente frente aos transtornos, síndromes e depressões. No Brasil, pessoas que possuem ideações ou comportamentos suicidas podem fazer contato com o Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188. Este centro fica disponível em rede pelo período de 24 horas.

Pensando nas contigências que nos acompanham, cabe-me respaldar as minhas argumentações com a ideia de que não podemos negar o fato de que estamos expostos à múltiplas fragilidades. Somos humanos e não super-heróis. Temos as nossas debilidades e precisamos cuidar de cada uma delas de uma maneira única e atenciosa.

Ao mesmo tempo, precisamos destacar a realidade intrínseca à nossa provisoriedade existencial. Não há pessoa alguma que possa se considerar plena e eterna. Todos nós, querendo ou não, somos provisórios como as flores dos ipês amarelos. Em relação ao todo do universo, a existência de cada um de nós é uma espécie de bolha de sabão – que cresce ao sopro e flutua brilhante, vindo a estourar efemeramente. Ademais, vivemos a vida em sua complexidade e, muitas vezes, somos aturdidos por uma série de demandas que nos agridem. Um dia, todos nós vamos morrer. Alguns, infelizmente, não suportam a sua existência atual e resolvem finalizar as suas trajetórias, mediante uma interferência intensificada marcada pela autodestruição. Somos todos como flores que murcham e caem. O cuidado que temos para com as pessoas não pode ficar restrito somente ao mês de setembro.

É fundamental ressignificarmos nossas trajetórias, reconhecendo as nossas efemeridades, impermanências e fragilidades emocionais, cientes das complexidades afetam a cada um nós. Absurda é a vida em sua inteireza e em suas fatalidades. Absurda é a existência que insiste em ser quando não há possibilidades para ser. Absurda é a finalização da existência, num último ato chamado convencionalmente de morte. Embora a morte seja a presença mais viva e insistente a visitar o cotidiano, não podemos perder de vistas o fato de que somos especiais dentro do cosmos e, talvez por esse motivo, compreendamos a morte com mais tragicidade e angústia.

As coisas acontecem com todos os seres vivos, muitas delas, sem as mínimas explicações. Diante do fatídico momento em que o facão amolado ceifa o caule, fazendo jorrar a seiva, a garganta resseca, a lágrima é vertida e a saudade – vontade de estar perto, se longe, e mais perto se perto, é violentada pelo acaso, pelo infortúnio, pelo que pessoa alguma espera.

O cotidiano se rompe, desfazendo tudo o que é concreto. O perfume das flores deslocadas dos seus galhos, fincadas na água de um jarro, dá lugar a um odor fétido. O belo deixa o palco, abrindo as cortinas para o horrendo. Todas as cores e poesias ficam opacas e sem brilho. Faltam luzes e os pássaros cessam os seus cantos e encantos. Tudo fica desinteressante, mesmo o sorriso da criança não provoca o encantamento. O sopro da vida é tão passageiro quanto fugaz, e as ondas da ressaca inundam o arquipélago do contentamento. Tudo se esvai, como águas nas conchas das mãos. Os por quês continuam a insistir pelas respostas. Elas se recusam a sair dos claustros profundos das cavernas pluviais. Instaura-se um vazio cheio de palavras silenciadas que jamais serão pronunciadas, pois no fundo de toda alma aterrada pelo infortúnio, não há o que dizer.

Por isso, em horas de infortúnio, recorremos à sabedoria dinamizada do momento vivencial, mesmo em meio a dores lancinantes. Não há canções, poesias e preces suficientes que possam ajudar nessas horas. Continuamente, somos convocados a abraçar quem precisa ser abraçado, a chorar as dores das dores, sem julgamentos, a contemplar os ipês amarelos que espocam em amores e a olhar a lua cheia. Ela insiste em brilhar entre as nuvens densas e turvas. Em setembro, amarelo ou cinzento ou mesmo em qualquer ano, mês ou dia, havemos de recorrer a um mínimo vestígio de esperança...

 

A tragédia em Juiz de Fora - MG

Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente d...