sexta-feira, 2 de junho de 2023

DIA 23 - Em busca de si mesmo

 


O sentido da vida está intimamente conectado à consciência de si. Todos os dias, ao abrirmos os olhos, invariavelmente somos tomados pela pergunta: “Quem sou eu?” Obviamente, não é uma tarefa fácil enfrentar essa temática, pois ela exige um pouco de reflexão e exposição pessoal, especialmente das contradições que acompanham cada um de nós.

Todas as vezes que eu me deparo com a referida pergunta, deixo-me ser levado pela narrativa do Oráculo de Délfos. A narrativa, guardadas as devidas proporções históricas, convoca o ser em busca da sua consciência, no enfrentamento com os dilemas da vida e o significado de ser no mundo.

Em todos os períodos de nossa existência, nos deparamos com muitas dúvidas, anseios, expectativas e transformações. As memórias passadas e as inquietações quanto ao futuro também se fazem presentes, especialmente quanto ao caminho a se percorrer. Em todos eles, é fundamental que haja um bom conhecimento de si mesmo. Este conhecimento é o que possibilita a valorização dos sonhos e a projeção das realizações no presente, permitindo-se avaliar a historicidade e o protagonismo espontâneo.

A busca pelo conhecimento de si é milenar. Em todas as culturas mais arcaicas, a pergunta pelo significado e sentido de ser se evidenciaram. Um bom exemplo vem da mitologia grega e a sua reconhecida narrativa do Oráculo de Delfos, como segue:

Os gregos acreditavam que o famoso oráculo de Delfos era capaz de lhes dizer coisas sobre o seu destino. Em Delfos, o deus do oráculo era Apolo. Ele falava através de sua sacerdotisa, Pítia, que ficava sentada num banquinho colocado sobre uma fenda na terra. Dessa fenda subiam vapores inebriantes, que colocavam pítia numa espécie de transe. E isto era necessário para que ela se tornasse o meio pelo qual Apolo falava.

Quem vinha a Delfos primeiro fazia suas perguntas para os sacerdotes locais, que iam consultar Pítia. A sacerdotisa do oráculo lhes dava uma resposta, que era tão incompreensível ou tão ambígua que os sacerdotes tinham que ‘interpretá-la’ para os consulentes.

Dessa forma, os gregos podiam se valer da sabedoria de Apolo, que , para eles, era o deus que sabia de tudo, tanto do passado quanto do futuro.

Muitos chefes de Estado não ousavam entrar numa guerra ou tomar decisões importantes sem antes consultar o oráculo de Delfos. Dessa forma, os sacerdotes de Apolo eram quase como diplomatas ou conselheiros, que possuíam um profundo conhecimento do povo e do país.

No templo de Delfos havia uma famosa inscrição: conhece-te a ti mesmo! E ela ficava ali para lembrar aos homens que eles não passavam de meros mortais e que nenhum homem pode fugir de seu destino.

Entre os gregos contavam-se muitas histórias de pessoas que tinham sifo apanhadas por seus destinos. Ao longo do tempo, uma série de peças – as tragédias – foi escrita sobre essas “trágicas” personalidades. O exemplo mais conhecido é a história do rei Édipo, que, na tentativa de fugir do seu destino, acaba correndo ao seu encontro. (GAARDNER, Jostein. O Mundo de Sofia. Romance da história da filosofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 66 e 67).

 

A narrativa sugere-nos os dois movimentos cruciais que nos acompanham em nossa busca pessoal: o movimento interno que busca as nossas emoções e sentimentos e o movimento externo que tem a ver com as nossas relações comunitárias. Assim, conhecer-se a si mesmo coaduna a ideia de um conhecimento do todo social. O desafio de se conhecer a si mesmo requer, também, uma retrospectiva dos acontecimentos que ocorreram desde o nascimento, até o tempo presente. Muito do que se é hoje, decorre das múltiplas vivências experimentadas desde a primeira infância. Conjuntamente ao se repensar o si, aglutina-se a cultura e todas as suas variantes. O si se constitui com o outro, também.

Um exemplo do que estamos considerando encontramos no filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989), dirigido por Peter Wier. A narrativa retrata o ano de 1959. Numa tradicional escola preparatória, a Academia Welton – conhecida pela rigidez da sua formação e os seus quatro princípios elementares: tradição, honra, disciplina e excelência, um ex-aluno se torna o novo professor de literatura. Seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos". Nele, encontramos a inegável importância do ato de se olhar para dentro de si mesmo, valorizado pelo Senhor Keating – Robin Williams e seu contínuo questionamento quanto aos princípios castradores da possibilidade quanto a novos conhecimentos, baseado em um poema de Walt Whitman, intitulado Oh Capitão! Meu Capitão! Em suas letras:

Oh capitão, meu capitão! Nossa viagem de medo findou

O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que perseguíamos foi ganho

O porto está próximo, ouço os sinos, as pessoas todas exultam

Enquanto os olhos seguem a firme quilha, o raivoso e audaz barco

Mas oh coração! coração! coração!

O as rutilantes gotas de sangue

No tombadilho onde jaz meu capitão

caído, frio e morto

Oh capitão, meu capitão

Oh capitão, meu capitão! Levante-se e ouça os sinos

Erga-se - para você a bandeira tremula - para você tocam os clarins

Por você buquês e coroas de flores com fitas - para você as costas estão lotadas

Para você que eles chamam, a massa oscilante, suas faces ansiosas se viram

Aqui capitão! querido pai!

Este braço sob sua cabeça!

É algum sonho que no tombadilho

Você jaz frio e morto.

Meu capitão não responde, seus lábios estão pálidos e quietos

Meu pai não sente meu braço, ele não tem pulso nem vontade

O navio está ancorado são e salvo, sua viagem finda e encerrada

De uma horrível travessia o vitorioso barco vem com esse objeto ganho

Exulta, oh praia, e toquem, Oh sinos!

Mas eu com passos desolados

Ando pelo tombadilho onde jaz meu capitão

Caído, frio e morto.

 

Mediante o brado ao capitão em sua nau livre, a arte, a poesia e a liberdade, Keating convida os rapazes em suas aulas a refletirem por si mesmos, escrevendo poemas sobre si mesmos e os seus respectivos sentimentos, para fazê-los viver a dimensão do “CARPE DIEM” – Colha o dia, viva o momento. Trata-se da busca pelo conhecimento de si, suas possibilidades, qualidades e defeitos, mediante a utópica manifestação dos sonhos e das fantasias que não podem ser desprezados. Dessa forma, buscando o interior de si mesmo, o ser alcança as maiores noções da sua subjetividade, das singularidades e das potencialidades que constituem o ser.

No filme, estes ideais apresentados foram oprimidos e o resultado foi trágico, inclusive com o suicídio de um jovem, vivente em seus novos ideais.

Enfim, no Oráculo e no filme, manifesta-se o eterno conflito entre os nossos desejos libertários e as nossas inquietações automatizadas reais e cotidianas; entre a nossa sanha por liberdade e os aprisionamentos provocados pelo alheio. Em nosso busca pelo nosso eu, sempre sobrarão os ostracismos da sociedade. A subversão, o bom humor e a poesia sempre se constituirão em um bom caminho para o contentamento pessoal e subjetivo. Carpe diem...    

 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

DIA 22 - Carta aberta aos amigos da EMPREA

 



Em 2021, quando estávamos vivendo a crise pandêmica da Covid-19, tive o privilégio de ser contratado pela Escola Municipal Professor Renato Eloy de Andrade, para ministrar a disciplina de Ensino Religioso para os adolescentes dos 6º ao 9º anos. Para muitos, uma tarefa simples a ser exercida sem maiores esforços. Para mim, um desafio cheio de possibilidades, afinal de contas, para quem havia feito especialização, mestrado e doutorado na área de Ciência da Religião, traduzir todos os prolegômenos das religiões para os adolescentes se consistiria em uma nova experiência vivencial.

Eu sei que a simples expressão Ensino Religioso sugere aspectos intrínsecos às Igrejas e agremiações religiosas. Como pode uma escola sendo instituição laica, marcada pela ideia de ensinar matemática, português, ciências, geografia e história, dar-se ao luxo de proporcionar um estudo sobre as religiões? Como se sabe, é notória a postura de se colocar esta disciplina em um segundo plano, mas acho isso bastante oportuno. Nem tudo o que aparece na primeira prateleira possui um maior valor. Todas as disciplinas provocam boas conduções aos valores presentes na vida. De minha parte, afeito aos estudos e afoito pela partilha das convivências religiosas, desejava ardentemente o contato com as experiências múltiplas dos estudantes para um amplo e amistoso debate conjunto. Em vão. Com a declaração da ONU quanto ao perigo da pandemia, formos orientados ao afastamento social e às vivências remotas. Em nosso caso, na EMPREA, construímos apostilas de trabalho para a continuidade do ensino junto aos adolescentes.

Esmerei-me na tarefa de escrever os textos com base nas orientações do MEC, do FONAPER e das diretrizes educacionais sobre o Ensino Religioso, tal como apontadas pelo estado de Minas Gerais. Escrevi, assim, oito textos, dois para cada bimestre, considerando histórias, memórias, ritos e símbolos das religiões das matrizes indígenas, africanas e europeias, dando valor a todas elas. Aproveitei para sistematizar tais assuntos com as polêmicas mais atualizadas, propondo exemplos simples e atividades reflexivas. Infelizmente, os retornos das apostilas revelaram o pouco interesse dos adolescentes. Somente alguns respondiam ou interagiam, mas eu entendia que tudo aquilo fazia parte de um processo novo que requeria muitas adaptações e ajustes.

Quando as aproximações começaram a se estabelecer, mediante a observação de dezenas de protocolos como o uso de máscaras e álcool gel, demos início em meados de setembro aos processos híbridos e encontros nas salas de aulas. Foi neste período que tive contato com os professores e as professoras, bem como os funcionários e adolescentes. Tudo era novo e estranho. Então, começaram a surgir novas amizades. Primeiramente, com o Fernando, depois com a Cassandra, a Raquel, o Daniel, o Emerson, o Eduardo, a Geruza, a Rosane, a Vera, a Andréa, o Thiago, o Bruno, a Alice, a Jussara, entre outros. Depois, as aproximações fortuitas com os adolescentes. Os estudantes do 6º ano eram pinga-fogo e se reuniam em uma sala pequena com mais de 40 adolescentes que pularam do 3º ano para o 6º sem os devidos processos de aprendizado, cognição e educação. Os adolescentes do 7º e do 8º anos se encontravam bem desinteressados. Os do 9º ano eram poucos, especialmente meninas, mas demonstravam uma ânsia por novas abordagens. Caminhamos em nosso processo educacional como deu. Tudo ocorreu em conformidade.

No último dia do ano, antes do período de recesso, com o SisLame – ferramenta responsável pela gestão escolar – preenchido, fomos para o Rei do Lambari para realizarmos uma hora feliz. Almoçamos, bebemos e jogamos conversa fora, não necessariamente nessa ordem. Foi muito bom o tempo de convivência. Ao final, o Emerson me presenteou com uma garrafa de cachaça da boa. Degustei-a, posteriormente, em celebração à nova amizade.

As festividades do final de ano aconteceram. Depois vieram as férias e, após estas, o início do novo ciclo de estudos. Confesso que eu estava empolgado para montar diversos projetos com os estudantes. A vontade de apresentar todos os pormenores das religiões, conjugando-os aos elementos de cada cultura me davam certo vigor. Todavia, uma coisa é o que se projeta na cabeça, outra, bem diferente, é a realidade do chão vivencial escolar. As demandas pessoais que cada um dos adolescentes trazia para a sala de aula entravam em ebulição nas convivências e dificultavam as formas de convívio que envolve a relação entre o corpo docente e o corpo discente. Acresce-se a essa percepção, a perspectivas dos elementos desafiantes que compõem os processos educacionais na atualidade. É o caso, por exemplo, da ebulição dos meios de comunicação e a facilidade que cada adolescente possui em buscar o seu autoconhecimento na palma da mão, mediante seus aparelhos Smartphone. Infelizmente, o modelo que ainda vigora é oriundo do século XVIII, com sua lousa e giz à base de cal. Em um mundo altamente tecnológico, a condição à qual o professor ou a professora se encontram é arcaico. Mas não vamos problematizar o que já é bem problematizado.

O que importa para mim, então? A gratidão e a certeza de que cumpri o meu papel enquanto professor na EMPREA. Em nada perfeito, mas engajado dentro daquilo que me foi possível oferecer continuamente aos adolescentes.

Desligo-me da EMPREA por conta das leis administrativas que regem os processos educacionais no estado de Minas Gerais. Eu as entendo e acolho pacificamente o entendimento e as interpretações que se dão de forma muito sóbria. Para a resolução desse problema, eu precisaria fazer uma licenciatura, pois tenho dois bacharelados, mas confesso o meu cansaço para me formar em mais uma faculdade.

Sendo assim, despeço-me desejando vivamente que os adolescentes da EMPREA não deixem seus sonhos escorrerem entre as mãos. Eu sempre acreditei no potencial de cada um deles, sabedor de que é através do conhecimento de mundo que podemos alçar novas possibilidades em nossas vidas. A despeito da situação socioeconômica de cada estudante, em seus respectivos nichos familiares, os corredores educacionais são aqueles que podem gerar mais vida na vida, mudança de status quo, ou diversos encantamentos em prol de uma formação mais efetiva nos campos do saber.

Os processos educacionais são complexos e como nos disse Paulo Freire em seu livro O Educador da Liberdade: “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade”. E foi com o amor aos colegas e estudantes que me senti um fazedor da justiça social, tudo dentro das possibilidades que estavam em minhas mãos.

Enfim, que o amor ao trabalho e à vida continue a nos motivar em toda a demanda dos nossos dias. Esperancemos, pois é o que nos resta na lida dos dias.

Afetuoso abraço a cada um amigo.

   

 

 

terça-feira, 23 de maio de 2023

DIA 21 - Justiça, injustiça e o racismo

 


Hoje, sinto-me comovido a falar do meu entendimento de justiça. Digo “meu entendimento”, pois não se trata de um tema de simples interpretação. Os meandros e aprofundamentos hermenêuticos que acompanham esta palavra são extensos e profundos. Ao mesmo tempo, ao falar dessa temática, incluo o seu oposto: a injustiça. Infelizmente, todos nós vivemos o grande paradoxo entre a vida justa e as esferas da injustiça presentes em todos os rincões sociais. Quero atrelar a minha reflexão à complexidade do racismo sofrido pelo jogador de futebol Vinícius Júnior do Real Madrid. Um rasgo ferino na dignidade humana.

Compreendo que, ao falar do evidente paradoxo que envolve a justiça, acabo por apontar uma  temática que envolve as relações humanas,  como elas se constroem e o estabelecimento delas em nossos contextos sociais. De fato, a justiça tem a ver com o equilíbrio das forças que se entrechocam, principalmente entre dimensões que são completamente diferentes uma da outra. Por exemplo, em nossa sociedade marcada pela desigualdade social, pelo machismo, pela intolerância religiosa e pelo racismo, é fundamental que tenhamos parâmetros específicos que auxiliem as pessoas a realmente acessarem todos os seus direitos. Pessoa alguma precisa ser igual à outra para se alimentar da justiça, pois este ideal fascinante é o caminho que favorece a igualdade aos direitos fundamentais, previstos no Artigo 5° da Carta Cidadã, segundo a premissa; “Pessoa alguma é melhor do a outra”.

Infelizmente, desde que as primeiras sociedades se formaram, o valor da justiça teve que se manifestar para proteger especialmente os desfavorecidos.
Estas sociedades se constituíram e se estabeleceram com critérios diferenciados, violentos e abusivos entre as pessoas, fazendo com que muitas delas ficassem à margem.

Imaginemos, por exemplo, um núcleo social onde alguns se destacaram pelo carisma, pela aplicação da força violenta ou mesmo pelo sequenciamento tradicional – relembrando aqui os tipos ideais indicados pelo sociólogo Max Weber – se estabelecendo sobre as outras pessoas, determinando processos e aprofundando domínios e acumulação. Certamente, tais pessoas impulsionadas pelas suas posições sociais impuseram as suas vontades sobre as outras, criando normas absolutas com forte teor religioso. Como disse previamente, isso se encontra diretamente ligado ao processo espúrio de acumulação de riquezas, especialmente produtos da terra, enquanto que outros seres que exerciam as atividades agropastoris ficavam espoliados.

Ao falar de injustiça, por sua vez, considero os fatores mais objetivos que levam uma pessoa a determinar como deve ser a vida da outra pessoa. Fatores misóginos, racistas,  religiosos, econômicos e estruturais determinam as formulações injustas que se estabelecem entre as pessoas. Em minhas percepção, entendo que cada um de nós deve se manifestar como um veemente combatente de todas as formas de injustiça humana, sem nenhuma possibilidade de unilateralismos.  O fato é que, querendo ou não,  precisamos que toda forma de violência, agressividade e injustiça ao outro sejam extirpadas dos nossos atuais cenários sociais.

Neste último domingo, fomos aturdidos com a violência, agressividade e injustiça sofrida pelo jogador Vinícius Júnior, do time espanhol Real Madrid. Vini, como tradicionalmente é conhecido, foi chamado de macaco pela torcida. Todavia, é preciso que se diga que a torcida é uma pequena parcela da sociedade, uma reprodutora das ideologias presentes no todo. De fato, o racismo está presente em toda a sociedade espanhola em particular ao fato e em todo o mundo, em geral. Quem o nega presta um desserviço à sociedade. A luta por direitos humanos cada vez mais humanos é urgente e necessária. E ela precisa ser aguerrida, confrontando toda forma de injustiça. Enfim, ficam as palavras contundentes de Vini Júniro em postagem no Twitter em 21 de maio de 2023: “Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas. Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui”.

Nossa luta contra a injustiça é grande. Ela não se finda aqui...

quinta-feira, 18 de maio de 2023

DIA 20 - Contra os abusos e a violência sexual às crianças e adolescentes - 18 de maio

 


Hoje, dia 18 de maio, celebra-se em todo o país o “Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”, instituído pela Lei Federal 9.970/00. Este dia é uma conquista das lutas que envolvem os Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes em todos os municípios do território brasileiro. Neste ano, celebra-se, também, a memória da menina Araceli Crespo – 8 anos de idade – que foi raptada, estuprada e morta na cidade de Vitória – ES, no ano de 1973. O crime, embora bárbaro e hediondo, continua sem um desfecho.

O caso dela que neste ano de 2023 locupleta 50 anos, convoca à mobilização e à construção de estratégias e ações que favoreçam a dignidade e os direitos das nossas crianças e adolescentes, especialmente quanto à proteção e cuidado frente a tantos abusos e violências sexuais.

O objetivo deste dia, segundo o texto base da campanha é: “Destacar a data para mobilizar, sensibilizar, informar e convocar toda a sociedade a participar da defesa dos direitos de crianças e adolescentes. É necessário garantir a toda criança e adolescente o direito ao seu desenvolvimento de forma segura e protegida, livre do abuso e da exploração sexual.”

As organizações parceiras neste processo são: O Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes; a Rede ECPAT Brasil; o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, bem como todas as organizações filiadas e parceiras nacionais. É preciso, de fato, que uma agenda de ações seja elaborada pelas sociedades civil e política, priorizando a promoção, a garantia e a defesa dos direitos de crianças e adolescentes em uma Rede de Proteção intersetorial e articulada em diversos movimentos.

A campanha tem como símbolo uma flor. Em um primeiro plano, ele faz referência aos desenhos feitos pelas crianças na primeira infância. Num segundo, convoca-nos a perceber a fragilidade que envolve o mundo as crianças e dos adolescentes, visando a necessidade de cuidado e proteção para um desenvolvimento saudável. A chamada “Faça Bonito. Proteja nossas crianças e adolescentes", convoca a sociedade a assumir a responsabilidade na proteção de crianças e adolescentes das diversas violências sexuais.

Em meu cotidiano, como psicólogo, assumo o desafio de acolher e atender crianças de todas as faixas etárias. É muito complexo quando, ao escutá-las atenciosamente, percepcionamos que ela fora vítima de abusos ou violência sexual. O quadro que se pinta no setting terapêutico é formado por cores desconexas que embaralham todas as convicções e teorias. Lágrimas querem ser gestadas pelos olhos, mas é preciso engolir a percepção e a escuta secamente. O pior é que a grande maioria desses abusos e violências acontece dentro dos espaços que se pretendem mais seguros para as crianças: o interior de suas próprias casas.



No caso de adolescentes, o sentimento de revolta é o mesmo. Não é pelo fato de ser eu um psicólogo que emoções desconexas deixem de se estabelecer em minha corporeidade.

Trabalhando no CRAS, afrontam-me as situações limites que envolvem crianças e adolescentes, especialmente frente aos abusos e violências sofridos. O pior é se deparar com maiores de 18 anos negando, veementemente, os seus crimes.

Enfim, acho extremamente válida a campanha. Ela deve se perpetuar em todos os 365 dias do ano. É uma campanha sem fim, sem limites. Cada cidadão ou cidadã deve se ocupar na luta, afinal de contas, todas as crianças e todos os adolescentes são as nossas crianças e os nossos adolescentes.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

DIA 19 - Que tipo de pássaro eu sou?

 


Nunca neguei o meu apreço pelo teólogo, escritor, educador e psicanalista Rubem Alves. Muito do seu pensamento é corroborado por mim nos dias atuais. Hoje, trago para a minha narrativa uma das suas frases mais pertinentes: “Pássaros engaiolados pensam em gaiolas. Pássaros livres pensam no azul infinito. Eu e os pássaros temos sonhos comuns. Sonhamos com voo e com a imensidão do céu azul”.

Às vezes, paro para refletir sobre que tipo de pássaro eu sou? O engaiolado ou o livre? Todavia, será que faz diferença para mim essa pergunta? Talvez eu só possa ser livre por intermédio dos meus objetos oníricos ou mesmo das poesias que me encantam a alma, fruto das minhas observações pelas trilhas deste mundão de meu Deus. De fato, dou muita importância às observações e ao olhar. Através delas, eu aprendo sobre a vida e, consequentemente, apreendo novas experiências. O olhar possui o poder de captar o que está à volta, oferecendo um primeiro sentido para a vida no mundo. Ao mesmo tempo, ele se assemelha a uma janela aberta com uma vista para o conhecimento do universo interior em cada pessoa. O olhar permite o voo dos pássaros nas imensidões dos obscuros humanos.

O cotidiano de todos nós está marcado pelos olhares. Inclusive, quando se olha para o passado ou para o futuro, a íris se abrilhanta, buscando as novas referências que podem ajudar cada pessoa em sua organização pessoal no tempo presente, suas belezas e seus encantamentos. Cada um de nós tem uma forma de observar as contingências do cotidiano por um ponto de vista. Aliás, o pensador Leonardo Boff, disse certa feita que: “Todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. Com essa frase em meu horizonte, entendo que cada pessoa em sua singularidade tem a oportunidade de se ver e de ser vista de uma maneira muito singular e especial, respeitada em suas convicções, desde que estas não sejam geradoras de constrangimentos ou preconceitos.

A pertinência em se pensar os pontos de vistas reside no entendimento de que todas as pessoas são processos e movimentos que se qualificam na ética do andarilho, indicada por Umberto Galimberti em seu livro Rastros do Sagrado. Em processos e movimentos que se dão nos passos da caminhada de um andarilho, não se pode prescindir os sonhos.

Nisso tudo, resulta o sempre vivo desafio de se possibilitar o encontro com um sentido para a vida. Que isso seja feito e refeito mediante o protagonismo na história, a unicidade de ser dentro das singularidades, das formas de ser, de pensar e de agir.

Tudo isso envolve, também, a percepção contínua da identidade na complexidade da corporeidade que abraça a dimensão do cuidado e da afetividade. Em nossa concepção, isso de dá de três maneiras distintas e complementares. A primeira refere-se às percepções e compreensões de si mesmo, num contínuo diálogo com o eu interior em busca de autoconhecimento. A segunda objetiva o entendimento da relação que envolve o eu e outro, num processo de intersubjetividade. Nessa perspectiva, as questões ligadas diretamente ao convívio com o outro, as relações interpessoais, a tolerância, a empatia, o respeito e a dignidade se entrelaçam trazendo novos significados para a vivência humana. A última refere-se ao encontro com o mundo, ou seja, com os desafios e complexidades que são encontradas no cotidiano vivencial de cada um por conta dos sistemas, acasos e infortúnios que abalam o ser certo de si. Trata-se das muitas vivências que provocam encontros e desencontros diversos.

Obviamente, as relações reais embotam o cotidiano em seus múltiplos desdobramentos, confrontando o eu pessoal. É preciso voar e sonhar com outras possibilidades, voar o voo dos pássaros destemidos, a fim de se possibilitar a afirmação de si mesmo, um novo olhar sobre a intersubjetividade que favoreça o processo de conhecimento com vias ao futuro, que já bate à porta.

Portanto, é preciso se afirmar na condição de um ser autônomo, dotado de fraternura e criativiver (Hugo Assmann). Seres fraternos, ternos, criativos e vivos que voam como os pássaros e que olham e observam o mundo lá do alto, capazes de protagonizar a sua própria história sem as agonias decorrentes das críticas sofridas por outrem, mas livres para ser quem são. A gaiola está aberta, e já não é hora de sonhar. É a hora de voar e conquistar o mundo...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

DIA 18 - Um pouquinho de devaneios poéticos

 


Há cenários descompassados, mosaicos de árvores feitas de jornais cheios de desconfianças aleatórias, aquelas mesmas que compõem os processos relacionais sempre indefinidos.

Não há nada de mal quando os azulejos são pintados à mão. A textura deles se manifesta como fragmentos de múltiplas imagens coletadas em cotidianos situacionais, onde o cachorro se estira preguiçoso sobre o asfalto quente. Ele parece não ter medo dos veículos que passam perto dos seus pelos.

Enquanto eu o observo, preparo a minha “Nikon” para o processo mágico de captação e congelamento de momentos dentro da dimensão do instantâneo. Gosto das máquinas de fotografias. Aquelas antigas em que filmes precisam ser ajustados, cujas imagens precisam ser reveladas num quarto escuro com iluminação vermelha, onde ocorre o genuíno milagre – fiat lux.

As luzes se acendem e se apagam compulsoriamente em seus respectivos ambientes. Eu, diante do espelho contemplo a barba que cresce impulsionada pelos batimentos cardíacos. Há mais fios brancos do que na semana passada. A mão percorre os pelos, parecidos com os daquele cachorro no asfalto, como se houvesse a oportunidade de se escalar a montanha de espinhos, sentindo-se um alpinista. Eu, sempre alheio a mim mesmo, sequer saio do chão, pois é nele que pareço me sentir mais seguro. Em vão. Talvez eu devesse ter vivido na década de 60, poderia usar brilhantina em meus cabelos cada dia mais rebeldes.

Foi em um Fusca verde com estofados de couro sintético na cor branca que eles saíram para a lua-de-mel. Imagens de uma infância que, independente dos giros do globo terrestre, aguarda o ônibus naquele ponto cheio de cartazes de shows que já aconteceram. Alguns foram bons e encantadores. Outros deixaram um gosto amargo na boca. As fotografias continuam a ser tiradas.

No fundo das figuras e nas figuras e seus fundos, deparo-me com os pedidos inusitados que ocorrem nas caladas das madrugadas silenciosas. Os sorrisos são mentirosos e a prancheta aguarda aquele desenho que ainda não existe na imaginação.

Vejo as marcas do corpo e as cicatrizes que foram feitas ontem. Os ovos do pente despencaram e se romperam ao chão. Não há limites para os desvarios humanos enquanto a caneta é girada na mão esquerda.

Não é bom sentir a luz brilhar incandescente no fundo do olho. Baladas escondem os rostos e as emoções incrustadas na tela do córtex pré-frontal. Enquanto isso me visita o cheiro da gasolina azul que exala do besourinho verde. Não há mais casamento, senão memórias de um tempo que já se foi, que escorreu pela parede dos azulejos fragmentados.

Enquanto o meu olho brilha, procuro no tapete persa aquele meu brinco de argola moldado em prata. Gosto dele, pois não me causa feridas. Minha mão direita o toca, enquanto me mantenho assentado em uma cadeira rústica bem desgastada pelo sol que entra pela fresta da janela de alumínio. Tento espantar os cupins que nela tentam se aninhar. Não sou muito afeito a estes seres poderosos, principalmente aqueles que voam. É deveras muito chato varrer os pós, oriundos das mordeduras vorazes desses insetos incertos.

Não foi possível fazer um álbum de casamento. Bobagem. Um amigo tirou e revelou duas ou três fotos. Presenteou aos nubentes, agora separados pela morte.

No alto do morro do Cruzeiro, na igrejinha na qual eu fui batizado, eles subiram os 382 degraus com um bebê nos braços, aquele que num futuro nada desenhado viria a se apaixonar pelos temas aporéticos da Filosofia. Sartre o posicionou em um lugar insólito onde o movimento da liberdade continua a lhe soprar nos ouvidos.

Agora, é hora de beber um café ou uma cerveja. Somente necessário molhar a língua com algum líquido e comer um pedaço de pão que não seja bolorento. Que ele seja aquecido em uma frigideira e que o queijo seja derretido, dissolvendo-se sobre um metal polido e quente.

Hoje vi o livro que eu queria ler pela vitrine da loja virtual. A capa não era bonita, parecia obscura. Disseram-me que as letras eram vivas e que as emoções brotariam selvagens dos poros desconexos de minha pele cheia de melanina.

Lembrei-me do dia em que, no parque Guanabara, às margens da Lagoa da Pampulha, eu me diverti no minhocão e no carrinho de bate-bate. Sensação de liberdade para uma criança presa em um nicho familiar conservador cheio de gente errada. Movimentos de liberdade.

Depois, deslizei no divã para falar as coisas mais desconexas das minhas mitologias subjetivas. Adoro as associações livres e as palavras soltas que não precisam ser filtradas em filtros de barros. Ao longo dos anos, bebi todas as águas de fontes que eu desconheço para suá-las nas ruas cheias de paralelepípedos aleatórios.

Continuarei a trocar os passos na trilha de terra batida que me conduzem àquele cantinho chamado Ribeirão de São José. Lá, talvez, eu me perca para reinventar a vida que um dia foi desenhada nas conchas que eu encontrei na areia da Praia Brava, no litoral de Angra dos Reis, para fazer um colar. 

 

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Sem medo de dizer quem eu sou! Paris e a Psicoterapia!


No livro de John Powell, intitulado “Por que tenho medo de lhe dizer quem sou?” (Belo Horizonte, Crescer, 1989), nos deparamos com um desafio que se propõe a cada um de nós que tem a necessidade de viver a vida da maneira mais honesta possível, sendo ouvidos e compreendidos por uma escuta atenciosa. Embora nem todas as pessoas possuam a capacidade de acolher simpaticamente e empaticamente o que cada um revela em sua essência, os possíveis acolhimentos cotidianos são essenciais.

Especialmente, nos processos psicoterápicos que se desenvolvem nos settings terapêuticos, cada cliente ou paciente é estimulado a falar e viver com a mais extrema sinceridade, potencializando quem de fato é em seu cotidiano. Isso favorece a ampliação das relações. Nas palavras de Paul Tournier, que prefacia o livro de Powell: "Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, nem encontrar uma vida plena, sem sentir-se compreendido por uma pessoa, pelo menos...." (p. 5).

Ser ou se sentir acolhido na psicoterapia é fundamental, principalmente na sociedade atual que embaça a autenticidade inerente a cada ser. A tendência à robotização e à automação força cada sujeito a se aplicar sobre as suas respectivas máscaras, exercendo papéis teatrais que o afastam das suas mais pertinentes espontaneidades. A implicação disso é que, em algum lugar, dentro de cada ser, se esconde o sentido real do que se é de fato.

A busca pelo ser real pode se consolidar por intermédio do caminho psicoterápico. Para mim, em especial, a psicoterapia é o processo essencial que favorece a busca de sentido do ser humano em seus contextos vivenciais, tanto subjetivos como comunitários.

Hoje, na condição de um psicoterapeuta, eu vivencio experiências extremamente significativas no contexto da minha própria vida, mediante as minhas escutas atenciosas e provocações diversas. É muito especial perceber os meus clientes avançando em suas reflexões e em suas respectivas conquistas – procedimentos fundamentais que levam cada pessoa a ter uma melhor visão de si mesma. Eu acredito que este é um dos grandes fundamentos da psicoterapia: caminhar lado a lado com a pessoa, possibilitando a essa pessoa a descoberta de suas potencialidades e a oportunidade de se posicionar melhor em seu mundo de vivências.

Eu já estive do outro lado da psicoterapia, como uma pessoa que se disponibilizou a ser cuidada no setting terapêutico. Essa experiência me proporcionou aprofundadas visões do meu mundo de sentidos. Aliás, existem duas experiências que eu considero fundamentais em minha dinâmica de vida. A primeira delas se deu quando eu tive a oportunidade de estudar em Paris na França em 2013, permanecendo lá por seis meses. Considero essa primeira experiência um divisor de águas em minha vida. Tendo sido criado por uma família que não cessou esforços para cuidar de mim, esta foi a primeira vez em que eu tive uma responsabilidade plenificada sobre mim mesmo, preparando a minha comida, lavando a minha roupa, arrumando o meu quarto e fazendo todas as atividades corriqueiras, inerente a qualquer pessoa que mora sozinha. Ao mesmo tempo, pratiquei o meu direito de ir e vir sem ter que dar satisfação a qualquer pessoa na minha vida. Não que isso me incomode tanto, mas é uma experiência singular possuir a mínima liberdade para ir aonde se desejar, beber o quanto se quer e o que se quer, comer as besteiras mais exóticas sem necessariamente ter que prestar algum tipo de relatório a pessoas próximas. Viver como eu vivi na França me trouxe um frescor inenarrável.

A segunda experiência igualmente marcante em minha vida se deu no processo psicoterápico. Eu já havia voltado de Paris e já estava cursando a Psicologia. Em meio aos meus encontros e desencontros, principalmente os desencontros e as crises provocadas pela reflexão em torno da Psicologia, vivi na clínica psicoterápica a busca de um conhecimento mais aprofundado de mim mesmo. Procurei por psicólogos e por psicólogas, visando estabelecer o vínculo terapêutico. Quando me encontrei com essa vinculação, pois sou daqueles que se acreditam na vinculação terapêutica, eu me joguei completamente ao processo psicoterápico. Para mim, a vinculação terapêutica corresponde a 80% do processo. Obviamente, para que ela aconteça, faz-se necessária uma boa simbiose, ampla sintonia, empatia e simpatia entre o psicoterapeuta e o seu cliente.

A minha psicóloga é psicanalista. Conduziu-me de forma firme, fortalecendo a transferência e possibilitando o meu encontro comigo mesmo de uma forma intensa e profunda. Eu tive múltiplos insights em seu consultório. Passei por experiências marcantes e me desconectei dos meus medos, anseios e culpas. A psicoterapia para mim foi libertadora. Ajudou-me a me perder o medo de dizer que eu realmente sou. E quanto às pessoas que me cobram determinadas posturas ou composturas, acho melhor elas tomarem cuidado, pois, para mim que perdi o medo, a língua afiada por ser ferina também. Se insistirem em fofocar, eu lhes responderei: “Está tudo bem, mas, me chamem para fofocar, também. Posso contar a vocês coisas horríveis sobre mim”. E como diria uma amiga minha: “Beijinhos de luz para vocês”!  

quinta-feira, 27 de abril de 2023

DIA 16 - O tempo psicológico, o aqui e agora, o sentido da vida e o amor...

 


Quando paramos para refletir sobre o significado do tempo, reconhecemos nitidamente que ele é uma forma de organização dos momentos, eventos e acontecimentos importantes que vivenciamos em nossa trajetória existencial, tanto de uma forma pessoal e subjetiva, quanto comunitária.

Somos seres envolvidos em muitas atividades em nosso cotidiano sobre a terra. Todas as nossas histórias são narradas de formas épicas e contadas em diversas variações. O historiador Jacques Le Goff em sua obra História e Memória (1990) nos trás a informação de que os eventos históricos são monumentos erigidos para a manutenção da memória humana e que favorecem a busca pela sua localização enquanto espécie viva na inédita jornada da existência em seu mundo de sentidos. Quando nos referendamos em relação ao universo, chegamos à constatação de que somos um lapso no tempo, uma espécie de bip agudo, cujo zumbido, de alguma maneira, vai sumindo... sumindo... sumindo.

Ao considerarmos os eventos como tempo histórico, consideramos também o tempo cronológico. Curiosamente, na língua grega existem duas variações para a palavra tempo: cronos e kairós – na mitologia, Cronos e Kairós são deuses. Cronos tem a ver com a divisão do tempo, tanto nos relógios quanto nos calendários. Representa a divisão do tempo em fracionamentos que ocorreu, paulatinamente, pela observação do sol e das sombras, das fases da lua, o dos ciclos das estações e dos eventos comunitários tais como o nascimento e a morte de entes próximos.

Já kairós é o tempo da oportunidade, do aqui e do agora, do hic et nunc. É o tempo que ocorre no cotidiano caracterizando os instantes de eternidade que ocorrem em todos os momentos da vida. Ele não é previsível, tampouco preciso, entretanto é cheio de significados para aqueles que se plenificam continuamente diante da própria existência. Não podemos extinguir um tempo ou o outro. É na conjugação de cronos e kairós que se estabelecem as nossas melhores leituras de mundo. Tanto em cronos, quanto em kairós, nossa busca de sentido se imbrica em todas as possibilidades que ela mesma nos apresenta por acasos ou escolhas.

Embora eu reconheça as definições de tempo em todas as culturas, como a mesopotâmica, judaica, islâmica e cristã, quero me referir mais especificamente ao tempo psicológico, que em minha concepção evoca a biologia, a narratividade e a ética.

O tempo biológico tem a ver com os estágios da vida e seus desdobramentos no desenvolvimento humano. Assim, computam-se as conquistas angariadas desde o nascimento até a morte. Esse tempo é diferente para os seres humanos, enquanto os animais se desenvolvem mediante sua combinação genética instintiva. Os seres humanos se veem modulados pelas suas respectivas culturas, diferentemente dos outros seres de vida dinâmica. O tempo biológico é marcado por fotografias de eventos vivenciados ao longo da vida dos que amamos ou nos importamos (#maltm). Todavia, existem os estraga prazeres que incidem sobre o tempo biológico e o mutilam.

Ao me referir às narratividades no tempo, evidencio as qualidades que envolvem a narrativa que, por sua vez, se liga diretamente à produção de sentido, especialmente quando transformada em discurso ou texto. Na narratividade ocorre uma alquimia da linguagem com valoração da estética. O fenômeno estético ocorre no receptor da mensagem, favorecendo ao mesmo tempo, a construção ativa da história. Neste processo, é fundamental a suspensão da descrença ou a fixação na verdade cartesiana a fim de favorecer o encontro de sentido com a narrativa, mesmo ficcional. É na apreensão da expressão artística, capaz de proporcionar a recriação dos horizontes no mundo em contínua atualização, que os processos narrativos miméticos de pré-configuração, configuração e refiguração, conforme o filósofo francês Paul Ricoeur em sua obra Tempo e Narrativa (Tomo I – 1994), valorizam a historicidade sempre representada em seus amplos sentidos. De alguma maneira, esse conceito se alinha à esfera do tempo psicológico.

Já o tempo psicológico em uma perspectiva ética refere-se às nossas formas subjetivas de percepção do tempo. São formadas pelas percepções mais intensas alusivas aos eventos que nos impactaram de forma emocional. Por exemplo, em geral, todos nós lembramos aonde nós estávamos quando ocorreram os atentados contra as “Torres Gêmeas” no dia 11 de setembro de 2001. Lembramo-nos, também, dos acontecimentos sui generis ocorridos em nossa família, principalmente eventos de nascimento, ritos de passagens – batizados, casamentos, formaturas e morte. Revivemos com grande nitidez cada um desses eventos em nossa memória como se acontecessem no presente. Em geral, o tempo psicológico pode gerar temores, culpas, arrependimentos e ansiedades. Isso ocorre porque o pensamento humano não é linear, tampouco contínuo. Ele figura entre passado e futuro de uma forma furtiva e intensa, paradoxalmente. No tempo psicológico, enfrentamos a ambiguidade e a contradição do nosso próprio ser, bem como as afetações que desembocam em fenômenos complexos que precisam ser ressignificados no tempo presente.

Segundo B. Nunes em seu livro O tempo na narrativa (1995), o tempo psicológico é variável, pois tem a ver com a percepção qualitativa de cada sujeito, cuja representação se encontra na literatura. Eu, por exemplo, sou tomado pelo tempo psicológico quando leio Presente do Mar de Anne Morrow Lidenbergh (2001) e O Desterro dos Mortos (2001), do poeta baiano Aleílton Fonseca. Não podemos deixar de aludir ao fato de que o tempo é uma condição fluída e modal. Ele se conforma aos momentos de vida aos quais nos inserimos poeticamente em um determinado momento. Talvez seja por este motivo que o filósofo francês Henri Bergson em sua obra Duração e Simultaneidade (2006), assim expresse:

“Quando estamos sentados na margem de um rio, o correr da água, o deslizar de um barco ou o voo de um pássaro, o murmúrio ininterrupto de nossa vida profunda são para nós três coisas diferentes ou uma só, como quisermos. Podemos interiorizar o todo, lidar com uma percepção única que carrega, confundidos, os três fluxos em seu curso; ou podemos manter exteriores os dois primeiros e repartir então nossa atenção entre o dentro e o fora; ou, melhor ainda, podemos fazer as duas coisas concomitantemente, nossa atenção ligando e, no entanto, separando os três escoamentos, graças ao singular privilégio que ela possui de ser uma e várias”.

 

Tive essa percepção sugerida por Bergson em uma foto que o Júlio – um querido amigo que encontrei em Portugal – tirou de mim às margens do Rio D’Ouro. Eu me inseri em mim, tendo a ampla percepção do todo que me envolvia, mas também notei detalhes da tarde fria que não queria ir embora, do rio em suave deslize, do crepúsculo aquarelado, do meu coração que batia ao sabor dos meus mais iludidos pensamentos... tudo em minha consciência...

Sim! É na consciência, envolta pelas perspectivas éticas e sem julgamentos moralizantes, que as mais profundas percepções de mundo se aninham em nossa mente permitindo-nos escorregar nos diversos fluxos nômades que se manifestam em cada um de nós de forma profunda e inigualável. Talvez, seja justamente dessa forma que os momentos e eventos devam ser considerados em nossa lida diária, como fluxos nômades e narratividades, tadaa, que só podem ter sentido no tempo presente, na vivência do dia-a-dia totalmente protegida dos comentários alheios, mesmo dos que são próximos a nós. Ao entrarmos em um novo dia ou um novo mês – (o que é maio na fila do pão?), não há coisa alguma de nova, a não ser a nossa intencionalidade de viver o aqui e o agora de forma intensa.

Enfim, por que considerar o que não precisa ser considerado? Por que dar valor ao que não precisa ser valorado? Por que importunar-se com os alheios que só sabem importunar? Por que perder a alegria do instante se o que passou, já passou? E se não passou, que passe. Como diria o escritor norte-americano William Faulkner: “...o tempo morre sempre que é medido em estalidos por pequenas engrenagens; é só quando o relógio para que o tempo vive”.

Que o relógio pare! Que o calendário se rasgue! Que as datas marcantes, ou nem tanto assim, sejam consideradas sopros. Enfim, que o amor seja celebrado em sua eternidade no beijo que nunca deveria deixar de existir. Só existir naquela corrente do vento que liga corações distantes a 35 quilômetros.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

DIA 15 - Dizendo não à automação em 1000 balões...

 


Eu acredito no princípio ativo da espontaneidade como uma vacina contra toda e qualquer forma de automação do ser humano. Embora sejamos livres para vivermos as nossas experiências e tomarmos as nossas decisões, todos os dias somos convidados a robotizarmos as nossas ações dentro dos contextos sociais aonde vivemos os mais diversos processos. A perspectiva da automação parece ser uma convidativa porta aberta em nossa vida pessoal conduzindo-nos ao abraço à rotina.

Desde a dinâmica família até a estrutura do ambiente de trabalho a rotina se manifesta como companheira, marcando-nos pela mesma repetição das atividades corriqueiras. São poucas as vezes em que temos a oportunidade de recriar as nossas próprias ações e viver coisas que fazem um novo sentido em nossa dinâmica existencial.

O Grande Mestre da espontaneidade, a meu ver, é o médico romeno Jacob Levi Moreno. Ele é o pai do Psicodrama, que se caracteriza por uma abordagem psíquica baseada no teatro espontâneo. Ao criar o Psicodrama, Moreno enfatizou as profundas dinâmicas subjetivas e coletivas que envolvem a espontaneidade e a criatividade, elementos fundamentais para a vivência humana, favorecendo a projeção humana para uma nova realidade de bem-estar.
É importante situar que o conceito de espontaneidade em Moreno tem a ver com a questão da adequação. Pessoa alguma pode ser espontânea e sem limites. Toda liberdade precisa ser equilibrada pelos limites. Assim, toda e qualquer atitude marcada pela espontaneidade precisa considerar os parâmetros dessa ação.

Todavia, como somos seres limitados pela nossa corporeidade, pelo tempo e pelo espaço, a criatividade se atrela à espontaneidade para possibilitar atitudes extremamente novas diante de contextos que parecem bem resolvidos. Não precisamos deslindar as nossas vidas em ações deslocadas de uma realidade vivencial, mas podemos evidenciar uma série de cenas e ações psíquicas que possibilitem a contemplação de  outros mundos mais coerentes com as nossas expectativas.
Curiosamente, enquanto escrevo este texto, recebo a notícia de que hoje se completam 15 anos do desaparecimento do padre Adelir de Carli. O referido padre ficou conhecido por voar com 1000 balões, cheios de gás hélio, do Paraná até o Mato Grosso do Sul. Ele queria arrecadar uma quantia de dinheiro para construir um hotel para abrigar os caminhoneiros na região do Paranaguá, no litoral do Paraná.

Infelizmente, apesar de toda a sua experiência com voos e saltos de paraquedas, o referido padre acabou enfrentando uma tempestade tropical, vindo a  desaparecer no mar, sendo encontrado somente sete meses depois no litoral do Estado do Rio de Janeiro.

Certamente ele vai ficar registrado na memória de todo e qualquer brasileiro que teve a oportunidade de conhecer a sua história. Hoje, passados quinze anos, ele é relembrado como o “padre do balão”. O seu ato certamente foi um ato espontâneo e criativo. Ele ousou fazer o voo por conta dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida. Quis arrecadar dinheiro de uma forma inusitada, mas a situação saiu do controle. Seu legado continua entre nós.

Não vou entrar no mérito quanto a decisões certas ou erradas tomadas por ele. Não cabe a qualquer um de nós um julgamento. Ele fez o que acreditava e isso é o que importa.

Mas passo a refletir com os meus botões: Será que em nossos cotidianos não precisamos também fazer os nossos voos inusitados com balões? Obviamente, não precisamos ir às últimas consequências, vindo a  enfrentar situações intempestivas, mas criarmos possibilidades novas que nos afugentem daquilo que é tão concreto, tão cartesiano, tão lógico e tão matemático.
Enfim, eu acho que podemos acreditar um pouquinho mais em nós mesmos em nossas potencialidades pessoais. Indicarmos a nós mesmos os nossos limites com a finalidade de alcançarmos novos tônus vitais em nossa dinâmica existencial, afinal de contas, como sempre gosto de refletir, a aventura da vida é inédita e precisamos experimentar coisas novas todos os dias, de preferência.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

DIA 14 - O inferno sou eu

 


Todos os que já tiveram a oportunidade de conhecer previamente o pensamento do filósofo francês Jean Paul Sartre sabem muito bem da sua assertiva: “o inferno são os outros”, presente na peça teatral “Entre quatro paredes”. Nesta peça Sartre apresenta-nos três personagens: Garcin, Inês e Estelle. Os três estão presos em uma sala sem janelas – uma espécie de inferno sartriano. Além das três pessoas, existem três canapés, uma estátua de bronze e uma lareira. Dentro da sala é dia o tempo todo e os olhos precisam ficar diuturnamente abertos. Obviamente, em um cenário como esse, os desafios relacionais são contínuos e o cansaço emocional extenuante. Cada personagem possui uma personalidade distinta e as aproximações se dão, vis-à-vis, numa contínua perturbação onde há um revezamento entre as posições de vítimas e carrascos. Os olhares intercruzados de cada um dos três referenda a existência de cada qual ao mesmo tempo em que vaticina a debilidade que cada um percepciona em si mesmo. A trama se desenvolve em seus encontros e desencontros entrechocados até o momento que em um embate mais acirrado, Garcin solta a célebre frase: “O inferno são os outros”.

Mas, por que o inferno são os outros?

Em nossa percepção e leitura, diversos aspectos são possíveis de ser elencados na referida peça. Sartre se utiliza de um enredo surreal para considerar a dinâmica das relações que ocorrem nas ambientações sociais. De fato, o olhar do outro sobre nós em um determinado ambiente sugere a incidência de uma série de desconfortos. A maneira pela qual nos vemos estampados nas faces, nas críticas e nos conceitos das pessoas que nos circundam, provoca em cada um de nós uma série de inquietações diversas. Na maioria das vezes, nos vemos e não gostamos do que vemos. É como se o outro oferecesse a nós um espelho onde a nossa própria imagem se projeta, dissociando-nos de nossa própria certeza. Ao mesmo tempo e de certa maneira, aquele que se oferece como espelho acaba julgando a existência alheia, bem como as formas de condutas de um. Tudo isso coloca o ser humano no entroncamento entre os subjetivos encontros e desencontros com o seu próprio eu.

Inspirado nessa peça de Sartre, eu resolvi enfocar o prisma que realmente me importa: “O inferno sou eu”! Sei que essa frase pode até provocar uma inquietação pessoal e subjetiva, mas ela é honesta!

Tenho por mim que cada pessoa deveria se observar e se percepcionar com vias ao autoconhecimento. Ver-se e aceitar-se em suas contradições é um caminho sumamente importante para o bem-estar. Lembro-me da célebre frase do filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955): “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. Nela, o referido filósofo entende que a vida se encontra em um contínuo processo de mudanças. Seu sistema filosófico baseia-se no que chamou de razão vital, ou seja, a ideia de que a racionalidade é uma função da existência e abarca as condições físicas, sociais e psíquicas de cada sujeito. O ser humano vive e interage com o mundo como um sujeito ativo em meio a diversas circunstâncias. Desde o nascimento até a morte, o ser humano vive os movimentos do aprendizado no arcabouço da vida social. Acresce-se a esse sucinto toque tangencial a uma frase do filósofo espanhol a constatação que brota em minha própria consciência de que estamos todos, querendo ou não, nos diversos relacionamentos que ocorrem nos nichos socioculturais marcados pela diversidade.

Infelizmente, estamos acostumados a julgar as pessoas ou lançar críticas ao outro sobre as questões que nos incomodam individualmente. Obviamente, é bem mais simplório colocar o dedo em riste e afirmar que o outro é o culpado quanto a eu viver esta ou aquela vida, esta ou aquela situação, a me assumir. Todavia, sabemos que aceitar que a culpa é do outro significa abraçar uma mentira. Como se diz popularmente: “Mentira tem perna curta”. Acho que essa mentira nem tem pernas, pois na página dois teremos plena consciência das contradições e circunstâncias que nos envolvem. Chegarei à nítida constatação de que o “inferno sou eu”! E pessoa alguma poderá me retirar dessa posição incômoda. Tornamo-nos mentirosos se não assumimos vivamente a nossa responsabilidade frente à nossa liberdade. Somos seres livres, inclusive para escolhermos os caminhos de nossos aprisionamentos.

Enfim, eu não gostaria de estar entre as quatro paredes de Sartre, mas estou. Independente do que pensarem a meu respeito ou dos pretensos julgamentos que me ferirem, vou celebrar o meu próprio caminho amando, dando vexame e sendo ridículo no que eu faço. Só tenho compromisso comigo. Daqui a cem anos, pessoa alguma se lembrará de mim. Sou, como poetizei recentemente: “Eu... Num incêndio, chama miúda. Cristalina gota num mar. Poeira livre, partícula, vento. Húmus terra, sangue a pulsar. Mistura fina que respira amar”.  Sinto-me assim: uma parte no todo, no charco, um lodo. Sei que quanto mais claro eu for sobre mim mesmo, mais terei a oportunidade de me oferecer e me encontrar. Acho que eu vou sair por aí estampando e desfraldando a bandeira de que de fato eu sou o meu próprio inferno. E tenho dito.

 

A tragédia em Juiz de Fora - MG

Acordei com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda. De fato, desde a semana passada, mais precisamente d...