Acordei
com um gosto estranho na boca, como se tivesse comido algo mais estranho ainda.
De fato, desde a semana passada, mais precisamente desde o dia 23 de fevereiro
de 2026, quando a cidade de Juiz de Fora e circunvizinhanças se viram afetadas
pelas fortes chuvas, provocando enchentes, deslizamentos, desalojamentos e
mortes, sabores esquisitos e inusitados se fizeram presentes no meu paladar e
nos meus sentidos mais sentidos.
Com
a boca estranha, não consegui me concentrar em quase nada. Até comer o que
tanto apeteço não me favoreceu. Eu me conectava com as telas, completamente
aturdido por conta do que via e ouvia, a garganta embargada e as lágrimas
querendo jorrar. Eu não fora atingido de forma direta, mas indireta e
profundamente. Amigos e conhecidos muito próximos, tiveram as suas casas
abaladas pelos infortúnios gerados pelo acúmulo de águas, além da normalidade.
Ademais, as notícias que comunicavam as mortes das pessoas traziam a ideia
evidente do quanto a vida é frágil. As lanças pontiagudas que atravessavam os
meus concidadãos me atravessavam também. Não pude negar as dores que se
instalaram em meu corpo e, principalmente, em minha alma.
Foram
dias de agonia e angústia. Além do amargor na boca, o sentimento transpassado
pelo choro e pela dor alheia que me comoviam o ser. À propósito, a dor não era
tão alheia assim, pois muito próxima a mim ou a cada um de nós, cada um com a
sua percepção. Entretanto, para muitas pessoas, todo o ocorrido foi um acontecimento
normal. Fiquei boquiaberto com o volume de insensibilidade presente nas falas e
posicionamentos de gente que nem merece ser chamada de gente.
Nunca
a cidade de Juiz de Fora havia sido atingida de forma tão violenta e aviltante
quanto dessa última vez. Até me lembro de uma saraivada de granizo ocorrida em
setembro de 1985, quando pedras de gelo, algumas no tamanho de laranjas, atingiram
casas e carros, provocando quebras diversas além da geração de pequenas
escoriações e ferimentos nas pessoas. Entretanto ninguém morrera por causa da
chuva. Foram 20 min de tormento, com ventos que chegavam a 90km por hora. À
época, eu estudava no Colégio Técnico Universitário – CTU. Eu e alguns amigos,
depois de termos assistido toda aquela tempestade, descemos à pé até o centro,
pois nos faltava o transporte público, suspenso naquela tarde juntamente com as
aulas. Invadia-nos o terror ao vermos casas destelhadas e vidros estilhaçados.
Pisávamos aquele gelo com certa satisfação, pois as relvas estavam
completamente esbranquiçadas. Meninos como éramos, tudo era aventura. Não
tínhamos competência para avaliar as perdas. O prefeito à época, Tarcísio
Delgado, teve até a sensibilidade de decretar estado de emergência para a
cidade, mas não foi necessário. Rapidamente, a cidade se refez, diferentemente
do momento atual quando todos sentimos o cheiro da morte em nossas narinas.
Perdemos
63 pessoas, inclusive crianças em tenra idade. 8584 se encontram desalojadas,
não podendo retornar às suas casas, pois os riscos de deslizamentos e
desabamentos ainda continuam. Nada fácil, principalmente porque a casa é o
lugar da intimidade, do sentimento familiar, das memórias e dos conflitos. Guardamos
em nossas casas os objetos mais importantes, as nossas coisinhas preciosas e os
nossos documentos. É muito cruel perder em uma tragédia o que tem um valor
sentimental, cheio de simbolismos e significados. Mas nada se compara a perda
de vidas.
Perder
um amor é muito triste, mesmo porque isso também deixa um gosto amargo na boca.
Em todo e qualquer relacionamento, sempre fica alguma pendenguinha em aberto,
uma conversinha que precisava de mais desdobramentos, mas não teve tempo. Ademais,
quando se perde alguém importante no círculo relacional, se instala um medo
quanto a recomeçar tudo de novo. Exigências da vida, depois de uma tragédia.
Infelizmente, pessoa alguma pode se furtar a reconstruir a sua vida e os seus
relacionamentos após sofrer um infortúnio.
O
sofrimento está no ar, queria que fosse o amor. Obviamente, a tragédia é fruto
de um complexo de situações, as mais diversas. Caçar bruxas ou achar culpados é
uma atitude muito ingênua. A tragédia é oriunda de elementos multifatoriais,
tais como: aquecimento global, forte precipitação, solo encharcado, má ocupação
geopolítica, fatores sociopolíticos, construções irregulares, impermeabilização
do solo, entupimento do bueiros pelos lixos desovados pelos próprios cidadãos.
Independente de qualquer observação mais criteriosa elaborada por nós, ou mesmo uma leitura mais cientificizada, o fato é que a tristeza não vai embora tão facilmente e o gosto ruim na boca continuará persistente. Entendo que não podemos perder a nossa sensibilidade. Não podemos deixar que o tempo nos distancie de nossos sentimentos e solidariedade. O amor e a dedicação de uns para com os outros precisa continuar evidenciado. É o que espero que aconteça. Não estamos no mesmo barco, mas não podemos deixar de nos salvaguardarmos em meio ao oceano, principalmente quando ele fica mais bravio. Somos um pelo outro. A dor alheia também me pertence e que coisa alguma arranque do nosso ser o nosso mais expressivo senso de humanidade, por mínima que seja.
