IN LUDERE
Este blog é destinado às pessoas que vivem de bem com a vida. Nele, falamos de Política, Cultura, Educação, Religião, Ludicidade e afins. In Ludere é uma expressão latina que significa: estar em jogo, ilusão, se divertir...
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Cremos na Bíblia - Capítulo 2 do livro de Stokes
O segundo capítulo do livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas (São Paulo, 1992), de Mack Stokes procura enfatizar os elementos mais importantes que nos ligam ao estudo e devoção da Bíblia. A Bíblia é seguida pelos metodistas, juntamente com todos os demais grupos cristãos, como sendo uma fonte de crença e conduta de vida. Ela não existe para melhorar a cultura, embora possa interferir positivamente.
A Bíblia, produto de inspiração divina, é lida por nós, metodistas, em espírito de oração, porque almejamos "conhecer a vontade e o propósito de Deus para nossas vidas”. (p. 21). Para aprofundar a sua reflexão sobre a crença na Bíblia, Stokes vai dividir este capítulo em quatro tópicos. Vamos a eles:
1. A Bíblia: eterna por suas narrativas e acontecimentos – Para Stokes, a Bíblia é “eterna por suas grandes narrativas e acontecimentos, através dos quais Deus falou e continua a falar hoje”. (p. 22). A Bíblia narra a trajetória de fé e vida de homens e mulheres e sua relação com o Deus da história. Desde Abraão até o surgimento da igreja cristã, a Bíblia nos contagia com as narrativas que enfocam um Deus que age na vida humana e se revela na pessoa, obra e ministério de Jesus de Nazaré;
2. A Bíblia: eterna por sua revelação dos propósitos de Deus – Para Stokes, através das personagens e dos acontecimentos, Deus revela o propósito para o qual criou a humanidade. Segundo este autor: “Podemos descobrir muitas coisas por nós mesmos. Podemos alcançar alguns discernimentos acerca de sua vida por meio da experiência e da reflexão. Mas não há fonte como a Bíblia para revelar o propósito de Deus para a nossa criação”. (p. 24). Para Stokes, o propósito de Deus refere-se à prática de valores morais e espirituais na esfera da comunidade. Stokes fala da ação de Deus na pessoalidade humana, mas destaca a conclamação ao povo para viver na dimensão do Reino. “Por esta razão, não foi por acidente que, pelo poder do Espírito Santo, a Igreja nasceu naquele primeiro Pentecoste cristão. Era a comunidade de fé, o povo de Cristo”. (p. 25). Stokes dá prosseguimento à sua argumenação, evidenciando que os valores morais e espirituais atingem sua mais alta realização sob a liderança de Jesus. Seu amor e bondade revelam o caminho que devemos percorrer. Dessa forma, os valores morais e espirituais visam duas coisas: beneficiar os seres humanos e glorificar a Deus (p. 25);
3. A Bíblia: eterna por suas grandes afirmações – As afirmações bíblicas nos ajudam no confronto com o mundo secularizado. São três as grandes crenças contidas na Bíblia para nos auxiliar nesse confronto, a saber: a. a Bíblia nos fala de tudo o que precisamos saber sobre Deus; b. a Bíblia nos fala de tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos (três fatos ficam muito claros nesse ponto: somos criaturas, somos criaturas especiais e somos pecadores); c. a Bíblia nos diz tudo o que é preciso saber sobre o nosso encontro com Deus. “Assim, a Bíblia é um livro que fala de Deus. Fala sobre nós. E fala do encontro entre Deus e nós. Ela jamais permitirá que nos esqueçamos de que Deus nos criou para Si”. (p. 26). Enfim, toda a evidência dessas afirmações está centrada na afirmação bíblica de que Deus tomou a iniciativa por amor a nós;
4. A Bíblia: eterna pelo seu ministério às necessidade humanas – Por intermédio da Bíblia, Deus vem de encontro às nossas necessidades. “Como o mundo satisfaz o anseio humano pela beleza estética, assim é a Bíblia em relação à fome pela verdade espiritual”. (p. 27). Assim, quando sofremos as tentações ou quando enfrentamos a tristeza, ou ainda, quando grandes responsabilidades vêm sobre nós, recorremos a Bíblia e nela encontramos a força que precisamos. Ela é a fonte de renovação que nos lança ao caminho da redenção.
Finalmente, Stokes conclui seu capítulo afirmando a importância da Bíblia pra a fé metodista. Ter a Bíblia como base “da nossa crença e prática significa que enxergamos além da natureza, além da civilização e além de nós mesmos, para Deus, nossa esperança e nosso destino últimos”. (p. 28).
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O Significado Permanente do Metodismo - Capítulo 1 do livro de Stokes
“Não há nada que passe mais facilmente desapercebido do que aquilo que está sempre perto”. (p. 11). Com essa afirmativa, Mack Stokes em seu livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas (São Paulo, 1992), inicia o capítulo primeiro intitulado: O Significado Permanente do Metodismo. Na linha de sua afirmação está a ideia de que não damos muito valor ao que é inerente a nós, como o ar, a liberdade e outros valores. Ocorre coisa similar com a nossa herança metodista. Nos tornamos tão próximo dela que, muitas vezes, perdemos o seu brilho.
Entretanto, não podemos deixar de considerar o significado permanente do metodismo. Mesmo porque, para Stokes, o “metodismo é uma força poderosa dentro da comunidade cristã”. (p. 11).
De fato, o metodismo não carrega em sua orientação doutrinária nada diferente dos outros grupos cristãos, de onde decorre a ideia de que o metodismo não tem uma doutrina. Para Stokes, a resposta é clara: “Enquanto o Metodismo repudia qualquer sectarismo estreito, traz á comunidade dos crentes as suas dádivas especiais. E quais são elas? Duas palavras-chave contam a história: vitalidade e equilíbrio. O Metodismo é o cristianismo com equilíbrio vital. E esta é a sua contribuição permanente ao mundo cristão”. (p. 12).
Stokes afirma também que o metodismo veio a expressar esse equilibro vital por causa da vida e ministério de João Wesley e dos seguidores dessa linha. Isso ocorreu porque Wesley juntou o “coração abrasado com a mente consagrada”. (p. 12). Ora, desde o início Wesley estava cônscio de que o cristianismo – e sua pluralidade – é sempre passível de se tornar uma seita, por isso o Metodismo sinalizado por ele sempre se constitui como uma tentativa de se livrar desse risco.
Com base nessas argumentações incipientes, Stokes subdivide seu capítulo da seguinte forma:
1. O Metodismo é um cristianismo vital: Porque nos faz voltar ao fato supremo de nossa fé, ou seja, a graça de Deus nos corações das pessoas. O Metodismo é um meio para se promover um cristianismo apostólico no mundo de hoje. Sem perder o foco na sã doutrina, o Metodismo acredita que o fundamental não é no que acreditamos, mas em quem acreditamos. Não está centrado na crença na Bíblia. Como este autor afirma: “Cremos na Bíblia e a exaltamos como o Livro dos livros, mas insistimos, ao mesmo tempo, que uma pessoa pode conhecer a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, e crer em todas as suas sentenças, mas continuar bem longe do Reino. Porque não somos salvos pela Bíblia, mas pelo Salvador de quem ela fala”. (p.13). De igual modo, não está centrado nos sacramentos: Batismo e Ceia do Senhor, bem como aos sacerdotes. Nós até nos unimos a todos os cristãos na ênfase nos dois sacramentos, entretanto somos forçados a “afirmar que o cristianismo apostólico não consiste de cerimônias e manifestações exteriores”. (p. 14). Enfim, não está fincado em preceitos morais e em boas obras. Apesar de também crermos na vida moral cristã, contamos com o poder do Espírito Santo. “A bondade do ser humano assume grnade significado através do poder do Espírito Santo”. (p. 15).
2. O Metodismo é um cristianismo equilibrado: quando o assunto é a religião, as pessoas estão em perigo de perder o equilíbrio. O segredo está em pregar o Evangelho, manter a vitalidade e o seu equilíbrio. A Bíblia é o livro do equilíbrio e ela deve ser compreendida da seguinte forma: a. como livro da Igreja, com seu significado na e para a comunidade de fé; b. como livro de tradição e não como livro de versículos isolados. “Deus se revelou na experiência da natureza – aquele reino de realidade conhecido por nós através dos sentidos. Mas, de um modo singular, Deus se revelou através da Bíblia – o reino do mundo espiritual da oração do louvor e graça”. (p. 16); c. como revelação a ser respondida. A Bíblia é a Palavra viva de Deus pedindo a nossa resposta. “Assim, a Palavra se torna útil quando começamos a perguntar: ‘O que Deus está tentando me dizer por meio desta passagem?’ ou ‘O que Ele está me chamando a fazer?’”; d. como elemento de confirmação da nossa experiência cristã. “Suas promessas, suas grandes passagens, suas mensagens e seus ensinamentos práticos – tudo isso é compreendido em seu sentido mais profundo na vida dos crentes”. (p. 16). O equilíbrio do Metodismo também pode ser visto nas ênfases de conversão e educação. Na vida, essas duas coisas se misturam. Existe um processo gradual de aprendizagem do significado de ser cristão. Pode ser visto também no interesse pela salvação das pessoas. Deus bate à porta dos seres solitários. “O Metodismo se preocupa com as guerras, com os lares desfeitos, com o preconceito racial, com a corrupção política, com o crime organizado, com a poluição, com os problemas causados pela superpopulação, com o alcoolismo, as drogas e toda forma de desumanização”. (p. 18). De fato, “Aquilo que prejudica o ser humano atinge a Cristo e desperta o cristão a ação”. (p. 18). Ainda, o Metodismo é um cristianismo equilibrado porque cremos ser uma Igreja ecumênica. “Alegramo-nos com todas as forças que agem para unir os cristãos. [...]. Nas grandes afirmações estaremos unidos. Nas pequenas coisas permitiremos diferenças. Nas questões práticas cooperaremos com os outros”. (p. 18). E, finalmente, o equilíbrio se manifesta em nossa visão das grandes doutrinas cristãs. “Em nosso modo peculiar propugnamos por uma interpretação equilibrada destas grandes doutrinas cristãs”. (p. 19).
Essas bases argumentativas apresentadas nos servirão para estruturarmos uma construção salutar para a nossa espiritualidade dinâmica. Esse é o caminho que percorreremos com vital equilíbrio.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Os Primeiros Passos em 2012
Dados os primeiros passos nesse novo ano, sinto-me desafiado a olhar o tempo presente e consequentemente o porvir, com olhos teimosos. Isso porque não possuo nenhum tipo de expectativa positiva em relação ao tempo vindouro. Não que eu tenha perdido a esperança, essa mola mestra de nossa formação e espiritualidade, mas ela tem se manifestado em minha alma de forma extremamente comedida.
Eu não me considero um pessimista, mas resolvi seguir um antigo conselho de meu pai e colocar as barbas de molho. Descobri que essa expressão está ligada a um provérbio espanhol que diz: “Quando vir as barbas do seu vizinho pegar fogo, ponha as suas de molho”. Aliás, descobri também que na antiguidade e na Idade Média, a barba simbolizava honra e poder. Se cortada, representava uma grande humilhação. Independente de comentários aleatórios, certo é que essa expressão tem a ver com desconfiar daquilo que se posta ante o olhar. Acho mais prudente essa postura porque, de repente, posso ser surpreendido por alguma boa novidade. Eu não temo coisa alguma que me desafia, a não ser a hipocrisia dos que sorriem pela frente e ameaçam pelas costas. Por isso, prefiro colocar as barbas de molho.
Ademais, minha alma é povoada por uma série de sentimentos difusos que se deslocam com facilidade nos meus jogos mentais e me dão a sensação de múltiplas transitoriedades. O poeta já havia declarado que por causa das transitoriedades, era necessário ele se portar como uma metamorfose ambulante, a ter sempre a velha opinião formada sobre tudo. Corroboro com a intuição do poeta e me sinto igualmente em completa e complexa transformação. Talvez decorra daqui essa minha dúvida inquietante frente à esperança.
Por isso, prefiro a teimosia. Sigo aqui um princípio de Gandhi: “Coisas que nos parecem impossíveis, só podem ser conseguidas com uma teimosia pacífica”. Nos dicionários, teimosia se define por uma persistente obstinação às próprias ideias, gostos etc. Eu sei que para muitas pessoas a teimosia tem um aspecto completamente negativo, mas no arcabouço dessa reflexão ela abarca uma conotação positiva e extremamente propícia para esses tempos de transitoriedades. Acontece que, por uma razão óbvia, somente consegui alcançar o que alcancei por causa da minha teimosia. Eu sei também que pelo fato de me auto-designar um teimoso, acabo por ser considerado um chato para muitos. Mas que se dane. Confirmo aquilo dito pelo mesmo poeta de antes: “Não sei aonde vou chegar, mas estou no meu caminho”.
Então, independente do que se estabelecer frente ao meus olhos, vou continuar com minha teimosia, pois é a única forma de continuar sobrevivendo diante do caos – aparentemente visionário – que se instala travestido em discursos informes. Os dias são sombrios e nublados, e na mina concepção pessoal, vão assim continuar. Mesmo diante da minha recatada esperança que se concretiza numa espécie de teimosia chata, faço minhas as palavras de Darcy Ribeiro: “Na verdade, sou um homem feito muito mais de dúvidas que de certezas, e estou sempre predisposto a ouvir argumentos e a mudar de opinião. Tenho mudado muitas vezes na vida. Felizmente.”
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Um Ano Novo cheio de Esperança
Leonardo Boff em seu livro Cristianismo: o mínimo do mínimo, afirma que a força do cristianismo não está na fé, mas na esperança. De fato, a esperança é a mola precursora para aqueles que vivem com vigor a experiência da existência com Deus e a respiração ofegante por um novo tempo, um novo mundo.
A vida exige de nós a esperança. Aliás, viver dia-a-dia nos desafia, pois cada dia possui sua constituição inusitada. Ora, todos os dias somos lançados diante de uma série de desafios complexos que nos afrontam. Geralmente, diante desse quadro, acabamos desenvolvendo certo temor e acabamos por ceder espaço para a angústia e a inevitável desesperança. Mas é preciso dar um salto no escuro e tentar fugir dessa realidade que confronta nossa existência.
O antigo adágio popular expressa: “a esperança é a última que morre”! Mas, mesmo que morra, renasce com uma nova possibilidade de vida.
Infelizmente, não temos como controlar as coisas que acontecem conosco. Existem muitas esferas que fogem ao nosso controle e, na maioria das vezes, nos vemos na condição de passageiros e perdemos a possibilidade de escolher ou decidir.
Quando nos deparamos com situações difíceis em nossa existência, muitas vezes nos sentimos atormentados e até perdemos o sono.
Entretanto, é preciso pensar que apesar de todas as complicações da vida, temos sempre, pela graça de Deus, uma porta aberta que nos possibilita a passagem de uma realidade de desesperança para uma dimensão carregada de esperança.
Aliás, nossa esperança está firmada em Jesus Cristo. Ele é o Senhor e o motivo de nossa esperança. Ele, que passou pela morte de cruz para demonstrar o grande amor de Deus para a humanidade, é o sinal histórico de que há sempre uma nova manhã, há sempre um novo dia.
Enfim, é preciso pontuar que não há coisa alguma que seja impossível ser resolvida. Nenhum problema é para sempre! Nenhuma complicação persistirá por muitos anos.
Sendo assim, cremos na benção de Deus nos acompanhando em todo tempo e motivando-nos a uma nova vida neste novo ano, o ano de 2012.
Cremos que de uma forma especial, Deus estará conosco. Ele nos ama e se importa com nossas vidas.
Portanto, não vamos esmorecer. É preciso ter esperança e viver no amor de Deus.
Que Ele nos abençõe.
Moisés Coppe.
sábado, 24 de dezembro de 2011
O AMOR É O DOM SUPREMO NO NATAL (paráfrase de I Coríntios 13)
Ainda que eu repetisse a história do Natal e cantasse todos os seus hinos, mas não tivesse amor, seria como metal que soa ou como sino que badala.
Ainda que eu distribuísse presentes caros e despendesse muito valor em dinheiro ou realizasse grandes festas de Natal, se não tivesse amor, de nada adiantaria.
Mesmo que ofertasse dádivas aos pobres ou cansasse meu próprio corpo trabalhando pelos necessitados, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
Somente com amor o Natal tem sentido: amor paciente, amor benigno, que não é invejoso, não trata os outros com leviandade, nem se ensoberbece.
Se existe amor no Natal, o ser humano não busca os próprios interesses, não se porta com indecência, não se irrita, não suspeita mal, não permanece indiferente diante da injustiça, mas age em favor do próximo em nome do amor de Deus, manifesto em Cristo.
É este amor divino, manifesto ao mundo através do infante de Belém que nos inspira e nos dá forças para tudo enfrentar, segundo a lógica da força deste amor que ajuda a tudo sofrer, tudo crer, tudo esperar, tudo suportar.
Se existe amor, o Natal jamais acaba.
Ainda que haja pinheirinhos, eles secarão; ainda que haja enfeites coloridos, eles se quebrarão; Ainda que hajam presentes e brinquedos, eles ficarão esquecidos, porque todas essas coisas são símbolos culturais do Natal e, eles passarão e se perderão.
Quando éramos crianças, compreendíamos o Natal como crianças, agora que chegamos a ser adultos afastamo-nos das compreensões próprias de crianças para celebrar o genuíno sentido do Natal. Infelizmente, o mundo vê o Natal de forma deturpada.
Agora, conhecemos em parte, mas um dia compreenderemos no todo o sentido real do Natal, cujo símbolo mor é a revelação de Jesus Cristo.
Agora, pois podemos afirmar que
Natal é fé,
Natal é esperança,
Natal é amor, estes três, mas a maior celebração é a do Natal amor.
(Autoria desconhecida adaptado por Moisés Coppe
Feliz Natal a Todos(as).
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Coar os Mosquitos e Engolir os Camelos
Não gosto da hipocrisia. Não gosto de pessoas que dizem ser o que não são ou fazem aquilo que não acreditam. Por isso, pago o preço da busca por uma coerência entre palavras e ações.
Acho que Jesus também tinha problemas com a hipocrisia. No capítulo 23 do Evangelho de Mateus, há uma longa argumentação contra os que pregam e não vivem. Ora, o antigo adágio “coar mosquitos e engolir camelos”, citado por Jesus no embate com os fariseus e escribas denota a intencionalidade do mestre de Nazaré em criticar a hipocrisia. Jesus era um veemente combatente da hipocrisia. Aliás, em muitas outras narrativas neotestamentárias, a crítica à hipocrisia se exalta de forma categórica. De fato, a hipocrisia é uma atitude evidenciada por gente que mascara ou fantasia a sua própria vida real, não se assumindo como é ou como se encontra. Em geral, o hipócrita é o que se apega, tão somente, à aparência em detrimento da essência. Nessa perspectiva, os dados à hipocrisia falam mais do que fazem e fazem menos, muito menos do que dizem. O pior, dentro da perspectiva que estamos apontando, é que o hipócrita esconde muito das coisas que faz. O hipócrita faz coisas escondidas, mas não assume que as faz. Ora, todos temos os nossos quartos obscuros onde escondemos nossas mazelas, entretanto o hipócrita sequer admite o fato de ter mazelas. Num sentido mais aprofundado, portanto menos lato, a hipocrisia se estabelece realmente na lógica do adágio citado por Jesus.
Na realidade, todos somos tentados a coar mosquitos e engolir camelos. Uma breve análise da vida social revela-nos que a todo tempo estamos aceitando dimensões escabrosas e injustas, bem como nos apegando a comentários sobre questões triviais e próprias da subjetividade de cada pessoa. Assim, apontamos o dedo com muita facilidade para as pessoas e as acusamos, na maioria das vezes, indevidamente. Isso ocorre porque nosso olhar fica preso a besteiras, próprias da subjetividade e liberdade de cada pessoa. Por outro lado, aquilo que é importante e significativo e que pode trazer uma maior qualidade de vida, fica no limbo, ou seja, côa-se mosquitos, coisas pequenas e subjetivas inerentes a cada pessoa, e engole-se camelos – dimensões comunitárias ligadas à prática do bem viver e da justiça social. Esse adágio combina com o ensinamento de Jesus que expressa que hipócritas são os que tentam tirar o cisco que há no olho do irmão enquanto há uma trave em seus próprios olhos. Realmente, é cruel essa atitude marcada pelo apontamento do dedo ao outro sem a percepção de si-mesmo. Pior ainda é o fato de que quem acusa o faz com amplo moralismo. Ora, os moralistas são pífios e insanos, porque não se auto-avaliam. Julgam e condenam os outros, mas ao fazerem isso, estampam inveja à coragem do outro. Confesso ficar enojado frente aos hipócritas que possuem asco frente aos mosquitos, mas saboreiam com gozo os camelos. Como se percebe, os adjetivos que acompanham os dados à hipocrisia são os piores. De fato, Jesus aponta que a atitude moralista parte, infelizmente, dos religiosos da época. Gente que ao invés de deturpar, criticar, apontar e condenar deveria, tão somente, existir para amar e abençoar.
Deus tenha piedade dos hipócritas. Deus os ajude a enxergarem suas próprias mazelas ao invés de olharem os outros. Deus derribe dos santuários os que dizem e não fazem. Deus anule os que atam fardos pesados e difíceis de suportar. Deus nos livre dos que realizam a obra somente para serem vistos pelos outros. Deus torça o nariz em relação àqueles que fecham as portas do reino dos céus aos semelhantes. Deus tire dos caminhos dos que almejam a justiça, todos os hipócritas que coam mosquitos e engolem camelos. Para estes, fica o vaticínio de Jesus: “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?”
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A Música "Palavra"
Eu tenho uma apreciação dantesca pela música Palavra de Irene Gomes. A singela letra dessa canção é poetizada da seguinte maneira:
Palavra não foi feita para dividir ninguém.
Palavra é a ponte onde o amor vai e vem.
Palavra não foi feita para dominar
Destino da palavra é dialogar.
Palavra não foi feita para opressão.
Destino da palavra é a união.
Palavra não foi feita para vaidade
Destino da palavra é a eternidade
Palavra não foi feita pra cair no chão.
Destino da palavra é o coração
Palavra não foi feita para semear
A dúvida a tristeza ou o mal estar
Destino da palavra é a construção
De um mundo mais feliz e mais irmão.
De fato, é através da palavra que temos a oportunidade de construir possibilidades outras. Isso ocorre porque há um há um poder nas palavras. E provo isso com uma ilustração: Minha filha não gosta de coco. Assim, ela evita todo e qualquer alimento que contenha coco. Em fins de setembro de 2011, ela comeu um bolo apelidado “formigueiro”, sem saber que tinha coco, sempre afirmando que o bolo estava uma delícia. Aí, ela resolveu ler na embalagem a composição alimentícia do bolo e descobriu que tinha coco. Pronto, o drama estava montado, porque agora, o bolo gostoso possuía um elemento que ela não aprecia. Então, ela começou a comer o bolo com certa suspeita. Mas o que realmente importou? Por certo, o poder da palavra coco. Foi a palavra que provocou nela um estranhamento. Aquilo que estava saboroso passou e ser suspeito.
É interessante notarmos como as palavras provocam em nós os mais diversos sentimentos e reações. Por isso, temos que ter um cuidado singular com a forma como conduzimos as palavras. Isso também é verdade quando analisamos a esferas dos relacionamentos. Ora, nessa esfera, se não temos coisa alguma de boa pra dizer para outrem, então é melhor não dizer nada. Aliás, nossa intencionalidade tem que ser sempre a voltada para a manifestação de palavras agradáveis às pessoas. Isso constroi a ponte onde o amor vai e vem.
No livro de Provérbios, há um verso que muito me agrada e que corrobora com nossa breve narrativa. Trata-se de Provérbios 16.24: “Palavras agradáveis são como favo de mel. Doces para a alma e medicina para o corpo”.
Há dois princípios interessantes nesse verso. O primeiro refere-se ao fato de que as palavras, como ditas, podem provocar a cura das emoções e a cura do físico numa dimensão holística. Em minha convicção, não se trata de mais um chavão evangélico, mas de um princípio que favorece a boa harmonização dos relacionamentos. Ora, se temos problemas na família e na igreja, um dos fatores fundamentais está relacionado ao fato de que usamos mal a palavra. Isso é muito verdadeiro, pois muitas vezes, mesmo sem saber, machucamos as pessoas com as palavras. Ora, todas as pessoas têm o direito de defenderem suas posturas e verdades, mas ao fazê-lo, devem se imbuir de uma atmosfera de boas resoluções relacionais, inscritas na esfera do shalom – paz, mesm na adversiadade. Pessoa alguma é obrigada a aceitar afrontas ou palavras deselegantes oriundas de quem quer que seja.
Por isso, a música de Irene e o verso bíblico ressaltado se tornam boas referência para todos nós. Entendemos da música e do verso que as palavras agradáveis são pontes onde o amor se desloca trazendo amenos sentimentos e cura emocional e física. Acho que é isso que deve estar na pauta das nossas conversas: bons sentimentos e desejo de cura para o outro. Fora isso, não tem sentido.
Então, cuidemos de nossas palavras, segundo a lógica: “destino da palavra é a construção de um mundo mais feliz e mais irmão.
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