domingo, 5 de abril de 2020

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

        
“No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
Dante Alighieri

         Em meu recomeço, mediante o enfrentamento dos meus altos e baixos, sinto-me ainda andarilho a atravessar a ponte. Ela é ampla e comprida. Não consigo visualizar o outro lado. A neblina é espessa. Não posso recuar. A peregrinação iniciada me incita a ir à frente, passo a passo. Tento manter-me sóbrio e forte.
         Embora eu tente, não tenho condições de manter um alto padrão de potência em todos os momentos da minha complexa vida. Em outras palavras, nem sempre estou bem e meu humor varia como as estações do ano. Confesso que existem dias onde a angústia se instala forte na minha alma e eu não tenho vontade de fazer coisa alguma. O passado me visita de forma intensa, tentando me trazer o arrependimento do que eu fiz e do que eu não fiz. Fujo, convictamente, dessas insanidades para não dar cabo de minha vida. Que pessoa alguma me julgue, afinal de contas, quem nunca pensou em pausar a existência quando diante de um grande conflito emocional? Não controlo meus selvagens pensamentos. Quero asas como as de uma condor. Podem me rotular de insano. Recorro a uma taça de vinho. Pego o violão e busco desanuviar meus pensamentos com boas canções.
         A potência para viver oscila. Ela chega e vai, vai e chega como os movimentos das nuvens nos ares. E o bom da vida não é essa experimentação de altos e baixos? A ausência de uma linearidade torna tudo mais encantador. Uma hora está tudo bom. Em outra, está tudo ruim e a gente caminha de boa, como dá.
         Todos esses extremos estão diretamente ligados à ideia de crise. Essa é uma dimensão de desestabilização sofrida por aquele que se depara com o seu próprio mundo e com o seu próprio eu. Quando me vejo como realmente eu sou e o mundo que me cerca, fico extremamente aflito, consternado e em crise. Todas as vezes que, por uma situação ou outra, eu entro nessa crise, e sofro com ela, também tenho a oportunidade de refazer as minhas ideias e as minhas ações, ressignificando-as em minha própria vivência. Além disso, crise, no ideograma mandarim identifica duas vertentes. A primeira é crise mesmo, ligada à ideia de conflitos e guerras. A segunda tem a ver com a oportunidade.
         Eu acho que as duas significações caminham juntas. Não há possibilidades de se separar as duas dimensões, pois toda oportunidade sempre motiva a sair da letargia e toda crise é um sinal de nova oportunidade, mesmo que gestada no campo do sofrimento. Particularmente, eu gosto mais de crise no seu sentido primeiro. No sentido segundo, é um acontecimento que pode surgir como o resultado das possíveis escolhas feitas dentro do meio em que se vive. Em geral, a oportunidade é a conquista decorrente de muita luta, muito suor, muito desgaste, muita renúncia, muito esforço e muito sacrifício.
         Preciso considerar que não tenho uma boa impressão do sacrifício. Para ser sincero, não gosto da (i)lógica do sacrifício. Para mim, pessoa alguma deve se sacrificar por coisa alguma. Embora a palavra tenha a sua origem no latim, e signifique “fazer-se santo”, o que é uma coisa boa, ela sempre denota uma manifestação de dor e sofrimento em sua essência, talvez por causa da forte ênfase religiosa que a ornou no decorrer dos séculos. O fato é que, por uma razão não tão explícita, sacrifício tem a ver com coisa boa e coisa ruim, ao mesmo tempo. De qualquer forma, não gosto dos sacrifícios. Acho que eles não acrescentam coisa alguma à vida de pessoa alguma. O pior é que, em geral, se sacrifica o corpo, deixando-se de comer, de beber e às vezes, exercitando-se com violência e agressões. Eu questiono tudo aquilo que, em nome de um alto ideal como a beleza e a estética, interfira na saúde e na integridade física das pessoas. Acho que o ideal mesmo é cultuar a beleza e viver a vida sem pressões, respeitando os limites. Então, uma vida saudável requer boa comida, boa bebida, brincadeiras e zoações, trabalho, sexo e relacionamentos. É isso o que, de fato, vale a pena, o que gera Contentamentos:
Seu dia! Seu tempo! Em tudo, sua hora.
Dia de celebrar!
Tempo de recriar!
Hora de se refazer!
Celebrar a vida, Recriar as relações, Refazer as utopias!
Vida que passa a cada dia!
Relações que se valorizam no tempo!
Utopias que lampejam a toda hora!
Nos dias que se passaram e que chegarão.
No tempo que era ontem e já é amanhã.
Na hora que se encanta com simplicidade e sorrisos.
Enfim, contentamentos!

         Não sou feliz! Sinto-me contente! Felicidade é efêmera e passageira. É orgasmo que culmina e depois se esvai. Já o contentamento é essa sempre viva possibilidade de se encontrar conteúdo e sentido nas pequenas situações provocadas pelos encontros e desencontros vivenciais. Contentamento ocorre quando a oportunidade surge como acaso, sem interferências quaisquer, sem uma explicação lógica, como um milagre que aparece no nada inundando o cotidiano de uma pessoa.
         Na minha crise pessoal, tendo consciência de meus limites, desejo estabilizar as minhas emoções, mantendo certa potência em minha lida diária. Quem sabe meu companheiro de nome contentamento não me ajude? E quando os intentos insanos tentarem encontrar uma estadia em minha alma, serei furtivo e driblarei os dramas que se estruturem à minha frente. Mesmo sem uma clareza quanto às oportunidades futuras que poderão me advir, ainda assim, continuarei a me reinventar ao meio dia.

sábado, 4 de abril de 2020

Buscando o que Vale a Pena (Oitavo texto)

        
“Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Fernando Pessoa

         Decidir por um recomeço não é simples. Requer ousadia e coragem, ou quem sabe, receio e covardia. A interpretação sobre o que ocorre com dada pessoa em dado momento de decisão é sempre alheia. Da minha parte, por que daria ouvidos a quem não me quer bem? Julguem-me a vontade e se deleitem com minhas parcas vitórias e múltiplas derrotas.
         Por causa de uma consciência clara sobre a minha finitude, resolvi investir meu restante de trajetória nas coisas que realmente valem a pena. Deste momento de decisão, em diante, encarei com hombridade a lenta e dramática via daqueles que almejam encontrar algum sentido na vida. Queria que a minha vida estivesse harmonizada aos meus pensamentos díspares, aos sonhos inconciliáveis com a realidade e com a extrema humildade dos que caminham descalços pela terra empoeirada.
         Nessa busca pelo que vale a pena, desisti, inicialmente, da pressa. Lembrei-me de Lenine e sua música poética, intitulada: Paciência.

Quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para.
Enquanto o tempo acelera e pede pressa.
Eu me recuso, perco o passo, vou na valsa
A vida é tão rara.
Enquanto todo mundo espera acura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal,
Eu finjo ter paciência.
E o mundo vai girando cada vez mais veloz.
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência.
Será que é tempo que lhe falta pra perceber,
Será que temos esse tempo pra perder,
E quem quer saber? A vida é tão rara.
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
Eu sei, a vida não para...

         Assim, com calma e com alma, não queria sair a galopes, tal qual uma criança em seu recreio escolar. Tampouco, queria grandes e suntuosas conquistas, pois para mim, os pequenos ganhos cotidianos são os sinais de outro mundo possível, o qual todos desejamos.
         Confesso não saber se alcançarei o que me propus a alcançar, mas o que importa? Já há prazer na busca, por si só. Gosto de pintar, e muitas vezes desisti de uma obra de arte, vindo a cobri-la com tinta branca a fim de recomeçar outra. Perco um desenho ou obra para conquistar outra. A busca iniciada pela vontade de beleza é tal qual a busca pela possibilidade de mudar o quadro mal pintado no museu insólito da minha alma. De fato, a busca, pela excitação, já vale a pena.
         Essa busca, tão urgente, vai, obviamente, levar ao equilíbrio desejado, tão necessário para o bom e harmônico entendimento na existência. E pergunto conscientemente: Cara ou Coroa?:

Cara ou Coroa? Coragem ou Covardia? Não importa! O que vale é ficar de bem com a consciência! No fundo, toda moeda possui três lados! A cara, a coroa e a interface.

         Com essa singela constatação, estabeleço uma aproximação ao movimento dialético presente no pensamento do filósofo alemão Georg W. F. Hegel. Nem tese, nem antítese, mas a síntese. Nem cara, nem coroa, mas a interface que conecta uma à outra, todavia autônoma. É o paradoxo funcionando na dinâmica das reflexões mais agudas de quem quer ficar de bem com a consciência.
         O bom da vida consiste em encontrar nas dinâmicas relacionais, a consciência sintética dos elementos que favorecem meu bem-estar. E não é justamente isso o que eu mais preciso? Luto continuamente pelo bem-estar inquieto. Luto porque alcançar o bem-estar exige enfrentar os altos e os baixos na lida diária.
         Quando me encontro nessas buscas e nesses enfrentamentos, recorro aos mestres das letras, homens e mulheres que muito me ensinam sobre o que não sei discorrer poeticamente. Gosto de Rubem Alves, de Adélia Prado e de Mário Quintana. Este último escreveu sobre a busca no campo da Esperança:
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano vive uma louca chamada Esperança. E ela pensa que quando todas as sirenas, todas as buzinas, todos os reco-recos tocarem, atira-se. E – ó delicioso voo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada... Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: “ – Como é o teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não se esqueçam: – o meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

         Não ando muito à vontade com a noção da esperança. Já esperei muito. Por quanto tempo ainda terei que esperar? E não é bem isso o que se precisa para que as coisas, de alguma forma, aconteçam sobre a vida? Foi Niezstche quem disse: “A esperança é o derradeiro mal; o pior dos males, porquanto prolonga o tormento”.
         A expectativa pelo que vai acontecer não pode dominar a minha vida, afinal de contas, não quero passar o resto dos meus dias esperando algo mais chegar enquanto o meu presente se esvai das mãos. Então, espero contra a esperança. Teimosamente, resolvo Agir no tempo presente, pois não sei o que poderá ocorrer amanhã.
                     
Ajo.
Ajo sempre.
Ajo e me modifico interiormente.
Ajo e transformo meus pensamentos e ideais.
Ajo e mudo meu exterior. Visto uma roupa nova, mudo os móveis de posição e crio um ambiente completamente novo.
Ajo em minha espiritualidade. Jogo fora as verdades absolutas e aninho-me ao terreno das dúvidas.
Ajo em amor. Tenho um novo olhar sobre as pessoas que me cercam.
Ajo sorrindo e sonhando.
Ajo e busco sempre-vivas-renovadas-ações.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

É Preciso Recomeçar (Sétimo texto)


        
E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência.
Caio Fernando Abreu

         Mesmo ciente do efêmero, da letargia no deserto, com agonia, incômodos e sob a égide da hipocrisia, sinto que preciso recomeçar. Não nutro asco em relação ao recomeço, como muitos que conheço, mas assumo a efetiva necessidade de refazer a rota urgentemente. A música dos difusos sentimentos precisa finalizar-se. É hora de ouvir outra canção.
         Sinto-me um pequeno ser andarilho dando passos trôpegos nas trilhas existenciais. Um andarilho que caminha e para, para e caminha, não necessariamente nessa ordem. Um eterno ciclo entre paragens e recomeços. Cada um destes é sempre o grito contra a passividade frente aos desafios. É a porta aberta para mudar o que está caducando, que salvaguarda as minhas emoções, as minhas potencialidades e a ditosa dignidade de viver.
         Ao buscar minha salvaguarda, principalmente nos dias sombrios, quando a relação claro-escuro não está definida, recolho-me à dimensão do silêncio. Quero ouvir todo o som do silêncio para tirar da alma toda a inquietação, me desfazendo, quem sabe, para me refazer.
         Penso furtivamente em Guimarães Rosa quando diz: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Obviamente, desfazer-se para refazer-se num recomeço exige coragem, já que tudo é paradoxal. Com o paradoxo em minha mente, resolvo sair da letargia por uma Porta Aberta. Poetizo:

Vejo uma porta.
Ela está aberta.
Talvez, passando por ela, eu tenha alguma oportunidade
Para mudar o que precisa ser mudado...
Sento-me num monte para contemplar o momento crepuscular, abraçado ao silêncio e à coragem.
A chegada da noite me remete ao barulho ensurdecedor do silêncio.
Na vigília da noite, uma graça misteriosa me visita.
Aos amados, ela ocorre enquanto dormem.
O brilho da manhã machuca a retina ainda sonolenta.
Uma chuva fria e fina toca o telhado de minha casa.
Lembro-me que a cada manhã renova-se também a misericórdia.
É preciso esquecer-se para avançar.
Resolvo romper com a minha letargia
E me lançar ao inusitado do mundo.
A porta está aberta.

         Sim! A porta está aberta e se torna urgente, para mim, passar por ela. Tenho que caminhar, mesmo que seja sem rumo, contra o vento. Certamente, meus passos enfrentarão o relento e contemplarão os primeiros brilhos cintilantes das imensas pequenas estrelas. O caminho largo-estreito desafia-me a lida e desfere golpes profundos no meu ser interior, ainda inquieto. Precisa pacientar-se! Aconselham-me, assim, os que almejam desejar o consolo. Mas tais palavras são vãs. Meu olhar se lança ao infinito onde o alcance das mãos nada podem pegar. Nessa hora, abro o sorriso e, teimosamente, tento de novo, tudo de novo. Contento-me em encontrar algum sentido vital no cotidiano. Piso firme o chão de gelatina e desequilibrado, prossigo em meu recomeço.
         Lembro-me de Sören Kierkegaard, quando disse que “ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar, é perder-se”. Não vou me perder, e embora desequilibrado como um bêbado, ousarei ainda, corajosamente, lançar-me à lida cotidiana para viver intensamente o que a vida pode me oferecer. A ousadia é sempre um convite A virar a página, embora:
Virar algumas páginas é ato difícil.
O livro está velho.
As páginas amareladas e frágeis.
Um odor fétido e irritante sobe às narinas.
Brotam os espirros, mas é preciso virar as páginas.
Há risco em se rasgar cada uma delas...
Mas é preciso virá-las,
Nem que para isso, a página seja arrancada.
Sei, o livro ficará mutilado,
Todavia, às vezes, é preciso transgredir...

         Virando a página ou rasgando-a, transgrido para não mais agredir a minha alma. Não vou mais fazer o jogo social para manter meu status quo. Não quero mais ser exemplo ou padrão para ninguém. Quero o contentamento de ser o que sou, sem necessariamente depender de sistemas ou pessoas que não me querem bem. Se não concordam comigo, pelo menos não me atrapalhem. Quero o sossego para novamente olhar a vida com a leveza que lhe é devida. Abandono o que não vale a pena, cantarolando Raulzito outra vez: “Veja! Não diga que a canção está perdida. Tenha fé em Deus! Tenha fé na vida! Tente outra vez!”
         Vou tentar, e tentar, e tentar, sem desistir – ou desistindo do que não vale a pena – quantas vezes for preciso. Um recomeço é sempre bom e necessário.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Vi a Hipocrisia (Sexto texto)



“Está morto: podemos elogiá-lo á vontade”.
Machado de Assis

         Em meio aos meus incômodos lancinantes, ainda vivo e busco a sempre aberta possibilidade de ser realmente o que sou ou o quero ser. Assumo o desafio de não ser hipócrita, embora em vão. Quero tirar a máscara, mas dependo dela para continuar a representar minha vida no palco da sociedade. Vasculho a memória, e visualizo todas as figurações da tragédia grega, sempre teatral e dramática, cujas máscaras, nos atores e atrizes, ocultam as faces de suas reais emoções. A angústia, a agonia e o incômodo ficam escondidos. A máscara evita que eu fique exposto aos olhares alheios e curiosos, mesmo porque confio em poucas pessoas.
         Minha mundi-vivência depende da hipocrisia. Dependo dessa faceta para a minha própria sobrevivência. Disfarço-me continuamente, escondendo o que penso e o que quero na representação dos papéis sociais, que me são devidos. Na minha viva contradição, esforço-me para ser mais transparente. Tenho crises homéricas, pois não posso fugir da exposição de uma vida mais autêntica. Igualmente, não posso mascarar a minha existência e as minhas contradições, mas recuo. Tenho medo de que as pessoas me vejam como realmente eu sou.
         Pergunto-me se é possível viver de forma mais autêntica. Mascaro e fantasio minha vida, deixando de lado o real, embora seja difícil defini-lo. Sou um hipócrita cercado de hipócritas que, em muitas situações, se consideram melhores do que as outras pessoas. Fico embasbacado com gente que é orgulhosa ou que se acha alguma coisa, pois ao final das contas, todos(as) sabemos que ninguém é melhor do ninguém. Vejo isso de forma explícita no pensamento de Caio Fernando Abreu: “Um dia tu vais compreender que não existe nenhuma pessoa totalmente má, nenhuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos somos apenas humanos e sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não entrar na ciranda deles, compreendes?” Sim! Claro que compreendo! Por isso não vou viver por aí, expondo-me de qualquer maneira, de qualquer jeito. Ademais, considero um absurdo quando um beltrano qualquer considera mau caráter um cicrano outro, pelo simples fato de expor o que pensa ou o que gosta, mesmo que de forma indevida. Poetizo: Cada um com seu cada um.
De minha parte, nada mensuro do que o outro vive!
Não dou conta nem de mensurar
O que sou ou o que faço.
Vou ficando por aqui,
Com a mente sempre aberta pra entender,
Mesmo que eu não compreenda.
Cada um com seu cada um,
E cada vida de acordo com suas possibilidades.
De uma forma decisiva,
A gente vive como dá.
A gente existe como ser-aí.

         Conheço a minha vida e as minhas intimidades. Não me julgo melhor do que o(a) outro(a). Faço coro com Bob Marley: “Quem é você para julgar a vida que vivo? Eu sei que não sou perfeito – e nem vivo para ser perfeito – mas antes de começar a apontar o dedo... tenha certeza de que suas mãos estão limpas”. Assim, quando exponho minha alma diante do espelho, concluo que minhas mãos não estão limpas. Somente sou o que sou e todas as minhas imperfeições e contradições ficam expostas. Não as vejo como inimigas. Preciso equilibrá-las. Imperfeições e contradições me acompanham, fazem parte da dinâmica da minha própria vida. Embora não queira, preciso esconder as minhas próprias mazelas. Talvez, com algumas pessoas, tenha condições de revelar meus monstros ocultos e meus íntimos dramas insanos.
         Penso na minha hipocrisia e relaciono-a a exposição do meu caráter. Para mim, o caráter não é algo estático, mas dinâmico. Ele muda de cores. É camaleônico. É a consciência sobre algo a ser definido, um acontecimento momentâneo, uma atitude assumida em determinado momento da jornada de vida. Não vem do berço, tampouco dos processos educacionais sofridos. Caráter não é somente o que as pessoas acham que determinada pessoa é, mas o que a pessoa é num determinado momento. O bom-caratismo ou o mau-caratismo dependem do momento. Ninguém tem um caráter 100% e ninguém é sem caráter 100%. Caráter não tem a ver com o conceito de perfeição, mas com a resposta coerente, ou não, que esta ou aquela pessoa apresenta no cotidiano vivencial. Há contradição no caráter. Para muitas pessoas, sou hipócrita e sem caráter! Para outras, não. Tudo muito subjetivo e sem amparo lógico.
         Nas minhas idas e vindas, em meio às minhas hipocrisias, bom-caratismo e mau-caratismo, peregrino como dá e como posso. No fundo, no fundo, o que ficam são as ações significativas que tive a oportunidade de empreender a esta ou aquela pessoa num dado momento de sua lida. No bojo das boas ações e das ações sem sentido, a vida vai se organizando como num sacolejante caminhão que sai da zona rural, carregado de legumes e hortaliças.
         Ao final das contas, duas perguntas me sobrevêm à mente: Por quem serei julgado? Pelo que serei julgado? Será que o sublime mistério está preocupado com as minhas remotas idiossincrasias? Será que as pessoas que me cercam têm, realmente, moral suficiente para me julgar? Ora, todos nós somos feitos da mesma substância e o simples fato de nos julgarmos melhor do que o(a) outro(a) é um claro indício da pequenez da alma alheia. Mas quem é mais hipócrita? O que se afirma hipócrita ou o que esconde a sua hipocrisia? Eis a aporia da qual tenho que dar conta. Em um ou em outro caso, acho que deve existir um esforço pela solidariedade, pela ajuda mútua, pois estamos num mesmo barco e ele tem diversos furos. Como nos lembra Niezstche: “A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. [...] Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho”.
         Então é preciso dizer um basta às verdades do rebanho que selecionam as pessoas de acordo com seus interesses, valorizando uns em detrimento dos outros. É igualmente preciso assumir a necessidade de hipocrisia que faz parte de cada pessoa, pois o que assume suas próprias imperfeições e contradições, dentro das possibilidades, pode dar uma chance a melhores relações afetivas. Viva a hipocrisia!

quarta-feira, 1 de abril de 2020

E eu fiquei Incomodado ( Quinto texto)



“Vejo a multidão fechando todos os meus caminhos, mas a realidade é que sou eu o incômodo no caminho da multidão”.
Chico Buarque
        
         O sol é parco e a agonia ainda persiste, deixando-me profundamente incomodado.
         Incômodo é também um não-lugar. Uma insatisfação gerada por todas as percepções que se deslocam na órbita dos meus sentidos. Percebo os sistemas que determinam a minha vida e como devo proceder. Achei que eu tinha livre-arbítrio para decidir por mim mesmo. Ledo engano. Observo-me, boquiaberto, aprisionado aos sistemas simples ou complexos. Invade-me um asco lancinante em relação àqueles que fetichizam símbolos e mercantilizam pessoas. Tais sistemas descartam a minha liberdade, expondo-me a sacrifícios bizarros, aniquiladores da dignidade humana. Incomoda-me esse ritual macabro, celebrado por gente que se considera melhor, cujos interesses são espúrios. Gente que, com o punho cerrado, agride a mesa de madeira, ordenando insanamente como as coisas devem ser.
         Incomodam-me as posturas excludentes e polarizadas que sempre deixam o mais pobre em situação de penúria. Tais posicionamentos se balizam, basicamente, na ideia de que os fins justificam os meios – ideia erroneamente atribuída a Nicolau Maquiavel. Vejo o destilar da crueldade em agrupamentos sociais, políticos e religiosos, vestidos da supracitada máxima, utilizando-se de técnicas absurdas para dominar as pessoas, inclusive, hipnotizando-as. Indigno-me com ações sórdidas e abusivas que tornam cativas emocionalmente as pessoas.
         Meu incômodo não é somente uma expressão do meu interior. É incômodo que me leva a ações concretas no cotidiano. Embora, almeje os caminhos mais ponderados para a busca da dignidade humana, me perco diante das minhas falas contraditórias, eivadas de paixões. Luto pelas mudanças concretas, sem a pretensão de que sejam grandes mudanças. Não penso em mudanças estruturais, tipo: um novo governo, um novo líder ou um novo messias, mas em pequenas modificações oriundas das pequenas comunidades onde o sentido de humanidade ainda é preservado. Começo comigo, multiplico intentos para com a família e, posteriormente, para um pequeno nicho comunitário. As mudanças precisam acontecer, mesmo que em menor grau. Outro dia, pensando nisso, poetizei dizendo que Eu já acreditei:
Eu já acreditei que mudanças poderiam acontecer mediante as minhas palavras.
Eu já acreditei que mudanças poderiam acontecer mediante minhas ações.
Eu já acreditei que mudanças poderiam acontecer mediante minha participação ativa em fóruns.
Eu já acreditei que mudanças poderiam advir das interlocuções de um grupo coeso e bem intencionado.

Quer saber? As pessoas defendem somente as suas proposições pessoais e usam os outros como se fosse massa de manobra para a satisfação pessoal. Então, tive que desacreditar nas mudanças. Agora sou um descrente.
         Incomodam-me os caminhos que me levaram a descrer. Tal descrença foi o fruto da minha própria indignação com os sistemas. Não nutro nenhum medo em relação a estes. Ouso lutar continuamente pela constante alteração deles, mas descreio das grandes mudanças. Abraço, então, as pequenas oportunidades que encontro com vias à transformação de uma determinada realidade local.
         Incomodam-me, enfim, os processos fechados que não possibilitam mudanças. Entendo que toda boa mudança é essencial para gerar a qualidade de vida necessária a todos(as). Todavia, eu sei que existem dimensões que jamais se modificarão. “O que não tem remédio, remediado está”. Mantenho meu incômodo e indignação. Mudo a mim mesmo e o que dá pra ser mudado, cantarolando com o Raulzito que eu “prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que (sic) ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. O incômodo continua...

terça-feira, 31 de março de 2020

E Vejo a Agonia (Quarto texto)


“É horrível assistir à agonia de uma esperança”.
Simone de Beauvoir

         A agonia instalada em minha alma me joga ao canto da sala, me afundando num sofá, deixando-me em (in)completo estado de perplexidade. Dos tempos desérticos sobraram as perguntas convictas e as respostas obscuras. Nada é lógico. Em que pese minha vontade por uma vida mais cartesiana, a agonia provocada pelo fortuito e inusitado, ilógico enfim, é muito maior. A alma partida e o coração acelerado me tornam um ser fragmentado. Uma dor lancinante se instala e a fé se estremece. A experiência é obtusa e faculta as mais extremadas ilusões, deixando o ser em estado catatônico. Enxergo nitidamente O Paradoxo:
Toda vela deixa de espargir o seu brilho depois do desgaste.
Todo vulcão volta ao seu repouso depois de cuspir suas larvas.
Toda onda se espraia na praia depois de se avolumar.
Todo dia chega a ser noite depois de um ciclo.
Toda noite instaura o silêncio e se desfaz ao romper da aurora.
Todo o riso, mesmo a gargalhada, cessa diante da dramaticidade da vida.
Todo choro banha o rosto, se perdendo depois num sono profundo.
        
         No paradoxo, sinto a sombra da morte aninhar a minha alma. No terreno da agonia, sob a tal sombra assustadora, me sinto completamente arruinado. Penso em mim como uma verdadeira Ruína, e poetizo:
Sou edificação,
Mas também sou ruína.
Sou forte e tão frágil,
Essa é a minha sina.

Mas ruína também é beleza,
Quando toca a emoção,
E se torna obra prima
Na simples contemplação.

Não me diga apressado:
É hora de restauração.
A ruína conta conto
Que dá fé e motivação.

         Na condição de uma ruína, anseio pelos desejos cheios de uma esperança teimosa que podem me ajudar numa possível edificação. Todavia, em ruínas, sob a sombra, teimo e resisto contra os sentimentos intempestivos que querem se instalar em minha alma agoniada. Resisto para não perder a sensibilidade. Tento tirar de um baú instalado em meu inconsciente a vontade de superação, tão necessária para o estabelecimento do meu equilíbrio emocional. Vejo-me frente à vida e a morte. Preciso tecer escolhas sensatas para me livrar da agonia. No turbilhão de pensamentos que inundam a minha consciência fragilizada, quero transformar as palavras sem consistência em ações que valorizem a dignidade de ser.
         A busca pelas genuínas atitudes me faz nutrir a expectativa de que a agonia passará. Entretanto, ela ainda paralisa as minhas múltiplas atividades do cotidiano. Não sei quando ela passará ou se apaziguará. Instalou-se em meu peito e se espraiou em meus poros. Luto continuamente para arrancá-la. Quero desaninhá-la.
         Nutro a convicção de que depois da tempestade que me reporta à agonia, os raios de sol voltarão a aquecer o corpo. E mesmo que outra chuva torrencial desse nível venha, outros raios de sol insistirão em romper as densas nuvens para abraçar-me. Bronzeando-me sob o sol de uma nova inspiração, invade-me luminosamente na íris dos meus olhos as possibilidades de me organizar sempre, sem desistir jamais, com agonia ou sem agonia, não necessariamente nessa ordem. Valha-me a poesia novamente em Um pensamento em meio ao parco sol:
O sol é parco. As nuvens opacas,
Mas o sorriso amigo torna tudo colorido.
Somos seres que desejam o apego sobrenatural
Que nos dá sustentação nos difíceis dias de aflição.
Mas não há de ser nada. O amor frágil e pequenino
Sobrevive ante a tempestade, desfazendo a ansiedade...
Tudo é calmo. Sereno dia de sol parco
Uma criança brinca. Eu penso em você...

segunda-feira, 30 de março de 2020

No Deserto (Terceiro texto)


“O que dá beleza ao deserto é que esconde um poço de água em qualquer parte”.
Antoine de Saint-Exupéry
        
         Nem sempre é possível fazer bolhas de sabão! Nem sempre é possível plantar e contemplar os girassóis. Em diversos momentos da minha jornada existencial, as bolhas, os jardins e as obras de arte são, tão somente, vestígios na memória – objetos oníricos. O que tenho à frente dos sentidos é o deserto que um dia foi mar. Habito esse lugar inóspito, árido e sem muitas possibilidades de sobrevivência. Durante o dia, sou escaldado pelo sol, pois exposto a temperaturas que chegam a cinquenta graus centígrados. À noite, o frio intenso me congela a alma. Chuvas? Não as vejo, e a vegetação é parca. A plenificação de minha vida nesse instante-estágio é praticamente impossível. Adapto-me, sobrevivendo numa adversidade.
         Minha alma, ou o que entendo dela, sem muitas opções, se aninha a esse deserto inóspito e emocional, oscilando entre Eros e Tánatos. Nesse não-lugar, evoco os mais estranhos monstros imaginários e a luta insana ocorre na minha inconsistente inconsciência.
         Sinto-me um afortunado, todavia, entendo que uma vida para ser vivida vividamente não pode prescindir o deserto. Meu crescimento, se é que posso falar de algum crescimento nesse estágio, passa pelo sofrimento insano e sem sentido das imagens misturadas numa cripta hodierna em algum lugar desse poço chamado ser.
         Neste deserto, aprendo a viver com pouco. Não carrego bagagens desnecessárias, pois sou um sempre ativo peregrino. Não quero desgastar-me com excesso de peso e esmorecer. Sabiamente, hoje sei que, para viver no deserto emocional, menos é mais! Hoje sei, também, que, menos peso garante mais possibilidade de sobrevida, mesmo porque pisar a areia fofa com peso adicional cansa ainda mais as pernas.
         Busco um oásis. Armo a minha pequena tenda visionária para aliviar o corpo exposto há tempos às intempéries. Quero descobrir as submersas poças de água. Sob a sombra e no sorver do pequeno filete de água encontro a significação e o sentido de toda a vida. Preciso de pouco para viver. Passo a dar valor ao que de fato vale a pena. Só isso me importa.
         Descanso sobre o chão arenoso. Chão, este, que denota a minha origem e o meu final. Vim do pó. Ao pó voltarei. Chão, este, que é a referência de um espaço, onde a vida é percebida em sua rudeza. Fecho os olhos e narro meus cotidianos, tentando recriar o melhor entendimento de minha identidade pessoal. Sei que todas as minhas histórias e sagas foram construídas no chão do deserto. Minha alma se sente apequenada.
         O deserto me colocou frente a uma inquietação limite. Tenho uma súbita consciência da presença da morte e a consequente ausência da vida. Tudo fica muito claro. Preciso sair da letargia e fazer escolhas possíveis e inusitadas para ajudar a minha alma angustiada a sair das areias movediças. Sinto-me e poetizo:
Sinto-me equivocado
Vivendo num mundo equivocado
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar meus equívocos!

Sinto-me errado
Vivendo num mundo errado
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar meus erros!

Sinto-me deslocado
Vivendo num mundo deslocado
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar meus deslocamentos!

Sinto-me confuso
Vivendo num mundo confuso
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar minhas confusões!

Sinto-me perplexo
Vivendo num mundo perplexo
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar minhas perplexidades!

Sinto-me angustiado
Vivendo num mundo angustiado
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar minhas angústias!

Sinto-me atormentado
Vivendo num mundo atormentado
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar meus tormentos!

Sinto-me, enfim, sem sentido
Vivendo num mundo sem sentido
Dotado de pessoas que me ajudam a ampliar minha momentânea ausência de sentido...

         Ainda estou no deserto. A tempestade de areia atinge a minha tenda, deteriorando todos os meus parcos pertences. Tudo se esvai e nada permanece soerguido. Sobra-me o corpo ferido pelo contato com as rajadas de vento e areia. Sofro as dores, choro a lágrima e me perco em meio aos dilemas e as dúvidas. As referências se foram. As histórias e sagas não fazem mais sentido. Tudo é desencanto e a alma estremece. Sob o monte de areia arfo o ar tão necessário à vida. Estabelece-se em mim a agonia.

domingo, 29 de março de 2020

Pois tudo é efêmero. (Segundo texto)


“... E tudo que era efêmero se desfez. E ficaste só tu, que é eterno”.
Cecília Meireles

         As bolhas de sabão me ensinam sobre a efemeridade da vida. Tudo passa, e essa é a grande certeza que eu tenho. No exato momento em que escrevo estas linhas, contemplo o relógio em meu pulso e o seu ponteiro me lembra como rapidamente o presente vira passado.
         No âmbito dessa percepção, às vezes, me comparo a um alpinista, daqueles que escalam a montanha pelo puro prazer de subir, arriscando a vida na jornada. Ao alcançar o cume, finca a bandeira do seu país e contempla toda a linha do horizonte com os olhos marejados. Em meio a sentimentos difusos, que vão da angústia à felicidade, se pergunta: por que me gastei tanto para este momento tão efêmero? Assim, inquieto por ter chegado onde desejava, o alpinista, como menino extasiado e feliz, sente o corpo ferido ser beijado pelas correntes dos ventos gélidos e cortantes de um polo qualquer. Nesse instante de base e abismo, balbucia palavras de gratidão, exaltando a potência dos valentes.
         Deixo o alpinista em seu lugar, recobro a razão e, tal qual artista que busca no fundo da alma a inspiração para transpirar sobre a obra de arte, insisto em encontrar o solitário que mora em mim.
         Nesse instante surreal e igualmente efêmero, vejo os girassóis. Tanto os do quadro de Vincent Van Gogh, como os do meu solitário jardim, ainda não plantado. Todos são lindos e impressionantes. Eles estão nascendo. Ambos são frágeis e se desfazem rapidamente pelo poder químico ou pela química do poder. Eu os quero bem, perto de mim, pois suas cores me inspiram, além de perfumarem minhas lembranças mais remotas. Vejo os girassóis e quero regá-los com a água fresca que incha os caules. Que o sol venha favorecer o milagre da fotossíntese cuidando de sua efêmera beleza no período da primavera.
         Um girassol é só um girassol se for visto como um girassol. Por outras retinas, se torna um mundo. Tenho medo de que os girassóis deixem de sê-los. Não os quero como palha, talvez como sementes, pois nestas deposito as minhas esperanças mais remotas. Tenho medo de me perder na pura contemplação dos girassóis. É porque sei que eles passarão. Os girassóis passam, a vida é igualmente efêmera e eu me encanto com as coisas simples.
         Nesse fugaz instante de eternidade, reflito novamente no caminho a ser percorrido, valorizando o que vale a pena. Inconformado com o que me aflige a alma, continuo a abraçar a tensão de não saber para onde ir. Nesta trilha, quero que a vida aconteça e que eu deixe de esquentar a cabeça com tantas caraminholas. Quero curtir a vida e o que ela pode me dar, mesmo inquieto quanto ao que virá. Apego-me à frágil perspectiva da esperança, pois não me sobra muita coisa. Então, preciso esperar, esperar, esperar, embora não goste muito de esperar.
         Olho novamente o relógio pulsar no pulso e aguardo novas possibilidades. Sei que a vida oferece diversas aberturas, embora sem muitas opções. As oportunidades são limitadas e isso é um tanto cruel. Assim, quando chego à constatação de que não conseguirei alcançar o que sempre almejei, opto por continuar vivendo a aventura da vida no cotidiano, entendendo que Tudo Passa. Sobre isso poetizei:
Sei que a vida às vezes é barra
E as tensões se instalam no peito
O amor que escorre das mãos
As estrelas que caem no chão

Sempre existe uma porta aberta
E um ombro amigo, irmão.
Vá em frente, confie em si mesmo
E na prosa do Grande Autor
Nunca deixe seus sonhos de lado
Acredite na força do amor...
Sempre existe uma porta aberta
E um ombro amigo, irmão
Você pode crer, tudo passa!

         Encolhido em meus pensamentos, chego novamente à sensível conclusão de que tudo é passageiro e efêmero, como as bolhas de sabão. Elas estouraram. Talvez eu possa refazê-las soprando o canudo ainda imerso num recipiente qualquer. Quanto aos girassóis, eles estão murchos, mas eu ainda penso em replantá-los.

sábado, 28 de março de 2020

Pra início de Conversa... (Primeiro Texto)



“Há um único recanto do universo que podemos ter certeza de melhorar: o nosso próprio eu”.
Aldous Huxley

         “Deu ruim! Mas vai melhorar...” é uma singular tempestade de ideias e sentimentos oriundos de uma mudança radical que resolvi empreender em minha vida, depois de trinta anos envolvido numa esfera de atividades e ações. Urdido pela vontade de mudar o rumo da prosa e um vestígio de esperança, lancei-me a outro caminho de percurso incerto. Assim, tateando formas no escuro, com muito temor e tremor, busquei com o olhar perdido a referência da luz em algum lugar.
         O caminho incerto era na verdade o início de uma trilha a ser aberta no meio da mata densa e perigosa. Nessa trilha, onde se misturavam excitações, sentimentos e contentamentos, me encontrei com pessoas, as mais diversas, que viviam a mesma experiência que a minha. Não perguntei se elas queriam ir comigo. Respeitando seus posicionamentos pessoais, continuei a minha jornada de incertezas, convicto de que cada passo valeria à pena.
         Pergunto-me, hoje, onde quero chegar? Não sei e nem sei se quero especular uma resposta, pois sigo a entonação poética do Zeca Pagodinho: “deixo a vida me levar”, mesmo porque quando tento controlar as demandas de cada dia, eu me frustro. Então, deixo as coisas acontecerem e vivo cada dia como dá, afinal de contas, a vida é “como uma onda no mar”, aonde tudo vem e vai, acontecendo... Já diria o Lulu Santos. Portanto, não vou especular em relação à coisa alguma, pois tenho mais perguntas do que respostas, e as respostas me sugerem mais perguntas.
         Mesmo assim, preciso confessar: eu gosto deste jogo entre perguntas e respostas. Eu gosto de coisas novas, mesmo que elas me tragam problemas. Conheço gente que tem medo do novo, mas eu sou atilado. Gosto da excitação decorrente da expectativa de que alguma coisa vai aparecer do nada. Foi o que aconteceu comigo, por exemplo, num dia especial em que eu fazia uma caminhada e vagava em meio a pensamentos difusos. Eu o vi:
Pousou em uma árvore cujos galhos estavam sem folhas.
Parecia brincar, parecia sorrir.
Nunca o tinha visto antes ali, mas se mostrou a mim, proximamente.
Os raios de sol da manhã o iluminaram.
Suas penas brilharam e seu bico suntuoso, em tons e semitons alaranjados me deu uma percepção única da singularidade da beleza – uma teofania.
Olhei ao meu redor para tentar partilhar o que só a mim estava sendo revelado, mas em vão.
O mundo oblíquo das pessoas deixa passar o inusitado que transborda em gestos graciosos.
Sim, eu o vi!
Um tucano, que foi para mim mais que uma ave.

         Assim como esse tucano apareceu para mim, inusitadamente, vou continuamente sendo visitado e tocado pelo instante de eternidade que torna a vida humana menos monótona. Eis o evento da gratuidade que modifica o cotidiano e dá novos ares à existência. Ao pensar na gratuidade, escrevi recentemente Vida Ávida:

Amar é viver de forma viva e ávida!
Amo viver porque viver é amar...
Intensamente, com angústia ardente
Tal qual a nau perdida no mar.

Enquanto amo, vivo e sonho,
Pois melhor que viver, é viver e sonhar.
E mesmo quando a vida não acede
Teimoso, insisto até naufragar.

Náufrago, solitário sob o sol e o vento
Deixo as ondas me banharem a alma
Sibila o voo da gaivota azul
Que me encanta gerando-me a calma

A vida é ávida, gente!
E é sempre bom que assim seja...
Ela é graça que nem sempre tem graça,
Mas dá sentido ao que a busca, almeja.


         É assim que se compila este pequeno livro. De eventos fortuitos da gratuidade e da generosidade da natureza, na alma inquieta de alguém que vive de utopias e quixotagens.
         Espero, sinceramente, que todos(as) visualizem seus íntimos sentimentos, e que joguem fora todo peso inútil. Ao final das contas, é sempre bom dizer: Vale à pena!

Tantas coisas mudaram!
Tantas coisas se passaram!
Tantas coisas se refizeram!
O tempo não volta mais,
A não ser por intermédio da memória.

O que desejo para o novo ciclo vindouro?
Que as coisas mudem!
Que as coisas passem!
Que as coisas se refaçam...
Afinal, tudo vale à pena.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...