Gosto quando os olhares e os
sorrisos oriundos de pessoas diferentes compactuam os sentimentos mais
profundos numa doce simbiose. Pode ser que decorra dela aquele fragmento de
amor delirante que tenta compensar a ausência da paixão, em vão. Paixão é
uma potência capaz de afastar as depressões que revelam o tempo e a finitude.
Enquanto o rio desliza, as águas levam as águas e uma miríade de seres
desconhecidos. Nada de choro. A nascente traz o novo, sempre de novo.
Abraça-se a paixão, abraça-se a
arte que tem a função idílica de salvar as pessoas de suas inquietudes. É
preciso reconhecer a sua presença, mesmo sem saber o que ela realmente
é. O amor também é arte que demanda muito cuidado ao ser inventado continuamente
no cheiro da chuva, no filminho à tarde, no café fresquinho, no perfume
inebriante, na cerveja gelada, no violão em noite de luar. Amor é arte original
e não se limita a juramentos eternos, porque é vida, é dança e harmonia,
movimento num eixo sem fim.
A felicidade é uma utopia da
qual a gente se aproxima em horas de descuido, como nos lembra Guimarães Rosa.
No descuido, é preciso ser lúcido e lúdico para nunca deixar que a luz da
razão, que funciona em meia fase, clarifique o que precisa ser clarificado.
Quando o pensamento funciona, a emoção perde o seu encantamento.
É preciso respeitar os sinais e
controlar os instintos, a fim de se evitar as bugigangas que escorrem pelas
escadas, dia e noite. O melhor mesmo é se dedicar à escrita de poemas que
nunca serão terminados, pois sempre começam naquele beijo fortuito na esquina
central, onde as pessoas experimentam as modificações que só o amor pode
provocar.
Hora de tomar um trago e
experimentar a loucura de beijar a lona, pra depois, beijar a boca e o seu
sabor do mistério. O ambiente sombrio sempre deslinda novos desejos, querendo o
bem do outro.
Às vezes, declama-se o poema e a
cadeira está vazia. A tristeza traz viços maravilhosos para a escrita e aquela
vontade de se afogar na borra das garrafas de vinhos ou de uísque.
Extasiar-se. Às vezes, é preciso a liberdade das verdades para continuar a
viver o lapso de segundo que dura quase um segundo.
Apego-me à beleza, esse bem
precioso, erótico e triste que se revela como um crepúsculo numa manhã de
inquietações. É preciso jogar os dados para se experimentar no corpo o que só é
possível abraçar com a alma. Quem sabe, conviver com a corrupção da delicadeza
da beleza, iluminando-a.
As mariposas giram e abraçam o
fogo presente na lamparina.
Caminhamos e vivemos as
condições e contradições, amando e morrendo sob o único teto que temos: o
céu. Sob ele, cultivamos os girassois que se encontram nos quadros de Van
Gogh. Os buquês de girassol são os mais bonitos e brilhantes. Mesmo sendo
a existência fabulosa, a fatalidade é soberana. Hora de evitar-se as fugas
precipitadas, mesmo quando necessárias.
Que grite pela ruelas o poeta
bêbado e solitário, esperando pelo raiar do sol. Abandonar os carros para pegar
os trens em suas linhas bem rígidas. Abandonar os trens e planar num ultraleve
bem leve em rodopios insanos, torcendo para o amor dar certo. O amor é a
consumação da vida e da morte na pequena morte que transforma vidas
aprisionadas em nada, sempre urgente e necessário. Há riscos maravilhosos
a se correr nas possíveis diversões que ocorrem quando podem ocorrer.
É ruim quando o olhar se perde
no longínquo do nada, um mísero esforço de reações para a manutenção da
previsibilidade no campo da imprevisibilidade. No fundo, o amor só pode
ser entendido como recomeço, jamais como final. Ferir a eternidade é reviver as
reticências. No futuro, as indecências…
Olhar para fora de si, tentando
achar o que se sente em si. Aprender a beleza nas estações do ano e existir
deixando o chato para os chatos. Sem paixões, comoções e a possibilidade
de se fazer coisas novas, sempre novas. Quanto ao que vai acontecer a
partir de agora, não se pode fazer a mínima ideia.

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