sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Hoje tive um sonho...

Acordei com um sorriso, depois de um sonho... Sonhei que estava em um lugar amplo, onde se aglutinavam muitas pessoas oriundas de diversas cidades e de múltiplas culturas. As pessoas tinham em seus corações boas intenções e desejavam participar da sinalização do bem estar para muitas outras pessoas – seus semelhantes. Seguiam fielmente o preceito de amar a Deus e ao próximo, oriundo do pensamento de um jovem sábio, inscrito em um velho rolo de pergaminho. Apesar dos bons intentos, os semblantes estavam pesados. As pessoas estavam desesperançadas e descontentes. Eram muitas as inquietações e dificuldades vivenciadas. O ambiente claro-escuro era evidente e a opacidade dos olhares dizia muito sobre os dramas estruturais no contexto da organização que amavam. Os planos contraditórios, a visão distorcida, os semblantes inseguros, a contigência da vida, os dramas familiares, as crises financeiras, o arroubo das falas arrogantes, o dedo em riste, o medo da sinceridade... tudo isso reunido dentro de um salão marcado pela presença de um “sagrado”. Frio, vento, nebulosidade... Entretanto, as nuvens densas do dia nublado se desfizeram, pois os principais líderes da organização rasgaram suas vestes, se cobriram de cinzas, arrancaram as sandálias dos pés e iniciaram uma celebração inusitada que começou com um pedido claro de perdão num sermão afetuoso e a celebração da santa-eucaristia. Todas as pessoas, como que sendo invadidas por um sopro renovador do vento leste, igualmente rasgaram suas vestes, cobriram-se de cinzas e arrancaram suas respectivas sandálias para pisar aquele ambiente que havia se tornado santo, genuinamente santo. Os bons intentos se encantaram, os semblantes ficaram leves. As pessoas nutriam-se de esperança e se abraçavam contentes. Perdiam as inquietações e vivenciavam o diálogo fraterno. O ambiente ficou brilhante como o domingo de sol e um reflexo inimaginável tomou conta dos olhares, desfazendo paulatinamente os dramas estruturais da organização que amavam. Os planos concordados, a visão definida, os semblantes firmes, a contigência da vida, os desafios familiares, as possibilidades de resoluções financeiras, as falas carregadas de humildade, a sinceridade... tudo isso reunido dentro de um salão marcado pela presença do Cristo. Na ceia-eucaristia-sempre-santa, uma nova organização nascia com cheiro de gente – Deus com a gente, feito gente. O rancor se desfez, as mágoas foram lançadas ao chão e todos(as) se uniam em uma só voz cantando: “No Espírito, unidos, somos um no Senhor”. Espero continuar sonhando...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eu mando... Vocês Obedecem...

Acho ridícula toda e qualquer afirmação do poder pelo poder. Acho ridícula também toda e qualquer postura de superioridade adotada por esta ou aquela pessoa em relação a outrem. Acho, enfim, ridícula, a pessoa que afirma diante de outros a expressão: “eu mando... vocês obedecem”. Preciso considerar, de antemão, que todas as relações humanas são permeadas por essa esfera de poder, que por sua vez, se torna necessária para organizar a própria vida sócio-política dos seres humanos. Vivemos, assim, sob as determinações de um poder que muitas vezes não dominamos, tampouco controlamos. O problema em relação à questão do poder refere-se, primordialmente, ao fato de que essa manifestação social dá margem a que pessoas dominem pessoas. Assim, o problema não reside ao exercer ou não o poder, mas na forma como se exerce o poder. Em minha concepção, poder não pode ser exercido para subjugar pessoas. Todavia, como podemos pensar melhor as relações de poder sem essa subjugação? Na tentativa de responder a essa questão, fixamos primeiramente os olhos na vida e ministério de Jesus. Indubitavelmente, a forma como ele exerceu o seu poder é exemplar e digna de ser seguida pelas pessoas que tem responsabilidades de cuidado em relação aos outros. Jesus nunca mandou. Ele propôs questões para o juízo de seus discípulos, segundo a máxima: “Quem tem olhos para ouvir... quem tem ouvidos para ouvir...”. O único mandamento refere-se ao amor e o amor não subjuga pessoa qualquer. Jesus é o nosso modelo. No que se refere à conceituação bíblica de poder, podemos constatar que existem duas definições específicas: a primeira refere-se à palavra dinamismo e a segunda à palavra potestade. Dinamismo é a palavra que aparece, por exemplo, em Atos 1.8: “Mas recebereis dinamismo (poder) ao descer sobre vós o Espírito Santo”. Ora, essa dimensão de poder revela a todos nós que o poder, numa conceituação cristã, não pode ser o poder para subjugar as pessoas segundo os princípios da potestade. O dinamismo é a dinâmica da vida em seus intuitos de ampliar a vocação dos santos rumo aos ideais preconizados por Cristo e favorecer a melhor vivência dos cristãos, no mundo no qual se está inserido. Já a potestade tem a ver com dominação. Sendo assim, a frase: “Eu mando... vocês obedecem” não se insere na perspectiva dos principais argumentos bíblicos que exaltam a perspectiva do dinamismo, da força e do milagre. Na contramão da potestade, encontramos versos, como: Mateus 6.13. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o dinamismo (poder) e a glória para sempre”. Ou ainda: Romanos 1.16: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o dinamismo (poder) de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego”. E, enfim: Apocalipse 19.1. “Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o dinamismo (poder) são do nosso Deus”. Como interpretamos, nesses exemplos, averiguamos a dimensão de um poder que tem a ver com a explosão de vida na vida. Aliás, nessa mesma linha de raciocínio o Ricardo Godim diz alguma coisa fascinante: “Não pretendo segurar o amor de ninguém. Anseio por relacionamentos livres, leves e soltos, deixando que meus amigos acertem ou não o caminho deles. Que cada um conviva com as suas escolhas e construa o seu caminho no caminhar. Arrisco conviver na gratuidade dos afetos, sem cobrança. Preciso acreditar que ninguém deve nada a ninguém senão respeito à liberdade e à dignidade. Aventuro-me fazer o bem e não cobrar nada em troca. Já que desisto de um jeito de ser feliz, resta-me seguir pela vereda incerta da minha verdade. É melhor deitar a cabeça, sabendo que sou honesto comigo mesmo, do que aceitar os jogos de poder que me asfixiaram por anos. Não quero fórmulas fáceis, nem aceito “cinco passos para uma vida tranquila”. Essas receitas roubaram o meu bem mais precioso: tempo. Sei que o porvir não se converterá em um idílio no estalar dos dedos. Contento-me em notar que pequenas alegrias e poucos sorrisos pontuarão a minha existência. Não anelo por muito mais. Essas pitadas serão suficientes para eu dizer no fim de tudo: viver valeu”. (Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/para-poder-dizer-viver-valeu/) Sim, de fato, vale a pena viver sob o sol forte e intenso da liberdade. Não podemos abrir mão de sermos o que somos e de deixarmos as pessoas viverem as suas vidas sem as determinações frias das leis que criamos para embotar a aventura de viver e sofrer. Portanto, poder só tem sentido se for pra abrilhantar mais a vida e permitir às pessoas a possibilidade de viverem as suas auroras e seus crepúsculos. Na dinâmica do Evangelho, não há espaços para pessoas que querem mandar, mas sim, para pessoas que, no dinamismo de suas palavras e ações, cultivam relacionamentos de reciprocidade, de afetos e de solidariedade na caminhada. No caminho, come-se o pão com sabor de manjar e se apóia o outro em tempos sombrios, nublados ou primaveris.

sábado, 31 de agosto de 2013

Os Incomodados que se Mudem!?

Um antigo adágio popular assim reza: “Os incomodados que se mudem”. Quero afirmar, de antemão, que concordo em gênero, número e grau com essa frase. Estou incomodado e estou em mudança. Mudo porque se torna necessária a mudança para o estabelecimento de uma ação contrária ao que se impõe. Mudo porque, recebendo as manifestações de poder ditatorial, preciso me reposicionar. De fato, se me sinto incomodado, é porque algo me transtorna, pois o incômodo é o contrário do confortável. Não me sinto estabilizado, portanto estou incomodado e, pior, demasiadamente entristecido. É cruel saber que a dinâmica que move a maioria das igrejas na atualidade está de mãos dadas com a lógica de mercado. As únicas coisas que importam, ao final das contas, são as cifras. E, para que os objetivos sejam alcançados em qualquer das esferas já citadas, pessoas precisam ser sacrificadas. Estamos vivendo um tempo de sacrifícios bizarros, que são feitos em nome de “Deus”. Em nome deste “Deus” e em nome da “salvação” de vidas com vias ao crescimento numérico das igrejas, um monte de gente é violentamente atropelada. Não há espaço para uma reflexão sobre as temáticas da fé, principalmente se elas não se encontram em acordo com a visão do líder, que por sua vez, busca a unidade a qualquer custo, não por intermédio de conquistas democráticas ou acordos diplomáticos. A unidade que se busca concerne à obediência cega à “visão” do homem ou mulher de “Deus”. Ora, a história da humanidade está repleta de monumentos emblemáticos onde ditadores, em nome de sua particular visão, se impostaram magnanimamente. Lembremo-nos dos Cézares, das Cruzadas, de Stalin, Hitler entre outros. No campo religioso, temos muitos exemplos também. Onde se fez presente a visão de um líder – em nome de “Deus”, o povo teve que se submeter. Um caso exemplar é o de Jim Jones que em 1954 criou a sua própria igreja chamada Peoples Temple Christian Church Full Gospel. Seu trabalho ganhou notoriedade, tanto que em 1960 o prefeito democrata Charles Boswell o nomeou como diretor local da comissão de Direitos Humanos. Depois de tentar ampliar sua denominação, ele acabou por criar um movimento específico na Guiana. Ao fim, levou a morte 900 membros da denominação que, incitados pela visão do líder, acabaram se suicidando. O homônimo Tim Tones – personagem de Chico Anísio – evidenciava no contexto do seu quadro, através do humor-sátira, os desvios e contradições das igrejas de mídia. Sempre ao final, após a mensagem de “esperança”, o “pastor” Tim Tones expressava em tom religioso: “Pode correr a sacolinha”. Ao mesmo tempo em que pessoas são jogadas para escanteio por não concordarem com a visão, o dinheiro entra nos caixas eclesiásticos e os adeptos a essa proposta se colocam no lugar de Deus para anteciparem Seu juízo. Determinam euforicamente quem é santo e quem é pecador; quem é servo e quem é escravo; quem é obediente e quem é rebelde; quem é de Deus e quem é do Diabo. Assim, amparados por textos do Antigo Testamento, principalmente os que ressaltam a visão de um Javé passional, tais lideres buscam a legalização e a legitimação de seus argumentos. Sem o mínimo de critério interpretativo, aplicam o texto pelo texto, a letra morta com cheiro de morte, longe da Boa Nova anunciada por Cristo. Aliás, se pensarmos bem, Jesus, mesmo ele, interpretou a Bíblia dizendo: “Ouvistes o que foi dito. Eu, porém, vos digo...”. Nessa mesma linha de raciocínio, outro fator que muito me incomoda, e que merece a minha mudança, refere-se à obediência aos princípios bíblicos sem o mínimo de critério. Tenho aprendido continuamente que a Bíblia não é um texto para ser obedecido, mas pra ser interpretado. Ora, a Bíblia é uma referência para a dinâmica de fé, mas não é um instrumento para alienar ou oprimir as pessoas. A obediência pode e deve até vir como fruto de uma interpretação da própria Bíblia. A interpretação é fruto de uma leitura orante da Bíblia. Sem oração e discernimento espiritual é impossível interpretá-la. Mudo, assim, minha forma de inserção na leitura bíblica. Acontece que, na mesma onda mercadológica, a ideia de que os fins justificam os meios – ideia atribuída erroneamente a Maquiavel – se evidencia de forma categórica nos nichos eclesiásticos. Em outras palavras, líderes seguem aquela lógica de que não importa o meio, desde que o fim seja a pregação do Evangelho ou levar pessoas a Jesus. Mas, em minha humilde concepção, no que se refere ao Evangelho, os meios são fundamentais. Aliás, encontrei ecos para esse meu raciocínio no pensamento sempre aberto de Eugene Peterson. Segundo ele: “A relação entre os fins (o lugar para onde estamos nos dirigindo) e os meios (como chegamos lá) é uma distinção fundamental na ciência, na tecnologia, na filosofia, na moral e na espiritualidade. Encaixar os meios corretos aos fins esperados é necessário em praticamente tudo o que fazemos, desde coisas tão simples quanto atravessar uma rua e fritar um ovo até complexidades implicadas numa missão à lua ou na composição de um romance. Mas a questão é a seguinte: os meios precisam ser não somente satisfatórios, mas também coerentes com os fins. Os meios precisam se encaixar aos fins. Caso contrário, tudo desmorona”. (O caminho de Jesus e os atalhos da igreja, p. 39). Os meios não podem ser abandonados, mesmo que o fim seja ideal. E finalmente, gostaria de novamente fazer um apelo a todo cristão de bem a não se calar diante das atrocidades feitas em nome de Deus. Confidencio a todos e a todas que num dado momento, frente aos mandos e desmandos ou mesmo frente à exaltação desenfreada da “visão”, acabei pensando que o errado era eu mesmo. Mas, posteriormente, recobrando a razão, me vi novamente me equilibrando em minha sanidade mental e espiritual. Todavia, não podemos nos calar. Temos que mudar a nossa atitude continuamente ante aos incômodos que outros geram em nós ou para nós. Os incomodados irão se mudar.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Páscoa: A flor que se abriu em abril

Hoje, dia 01 de abril de 2013 é feriado na França. Curioso notar que num país onde a laicidade é declarada na sua Carta Magna, a própria nação guarde para depois do dia de celebração da Páscoa, um dia de descanso para as pessoas e família. Conversando com uma senhora, que também é cristã, descobri que a festividade da Páscoa tem uma sonorização familiar muito intensa. Em virtude disso, é muito mais privilegiado a celebração e o estar em família do que a alegria em torno do chocolate, que por sua vez, está plenamente presente na cultura cotidiana. Por exemplo, nos mercados e supermercados não existem aqueles corredores expondo ovos de chocolate com seus coloridos e diversidades. Ao contrário, o que se vê são chocolates nos setores corriqueiros, como de costume, e alguns ovinhos também. Na Europa, a Páscoa chega juntamente com a primavera que é ansiosamente esperada, tamanho o rigor do inverno. E é muito bonito ver as árvores irrompendo em flores neste período. Durante todos os meses de fevereiro e março, nós vemos as árvores e seus brotos. Em abril eles começam a se abrir demonstrando todo um colorido especial e significativo. De fato, a Páscoa celebra a flor que se abriu em abril! Para mim, de uma forma particular, essa Páscoa ganhou sentidos especiais. É que depois de algum tempo longe da minha família, estivemos juntos por quinze dias e vivenciamos coisas muito boas, além de andarmos exaustivamente por toda a Paris. Assim, a Páscoa, além de trazer à minha mente as memórias e esperanças dos atos amorosos de Cristo, a Flor-mor que se abriu em abril, foi também para mim a pequena flor que se abriu em abril, enchendo-me de novas possibilidades para suportar os tempos sombrios e estranhos e continuar focado em meus objetivos. Hoje, toda a França, ou pelo menos a maioria dela, descansa e aguarda a explosão da primavera, da “printemps”, para poder viver a vida sem os casacos e sem a friagem inerente aos países europeus. Que venha a esperança e que de alguma forma, o Cristo vivo renasça no coração de todos aqueles que tiveram suas experiências de fé desbotadas frente a tantas guerras e conflitos gerados no bojo mesmo de um cristianismo em suas contradições e da complexa mistura entre Igreja e Estado. Ainda bem que o evento Cristo é bem maior que as instituições frias e calculistas que atravessaram tempos e épocas, constituindo o que hoje concebemos história, e irrompe nas vidas tal como as flores depois do frio do inverno. Que as flores continuem a se abrir em abril.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meu Carnaval de Silêncio e Frio

Aqueles que conhecem Paris sabem muito bem que neste período do ano, onde o frio se instala de forma agressiva, a cidade fica silenciosa. As pessoas passam pelas grandes boulevards e pelas pequenas ruas com passos apressados, encolhidas e envolvidas pelos seus casacos escuros. Todos parecem correr, talvez para se abrigarem do frio ou encontrarem um lugar aquecido para o descanso do corpo. Como é interessante perceber que no bojo dos dias, as pessoas se entregam ao trabalho com intensidade para, ao final do mesmo, se recolherem aos seus lares, quem sabe para tomar uma sopa ou um chocolate quente, acompanhado logicamente de uma tradicional baguete e da companhia de alguém. Ao final de cada tarde, vejo as pessoas passando com seus embrulhos e seus passos apressados. Fogem do quê? Fogem de quem? Para mim, inegavelmente do frio. Nas mesmas tardes cinzentas, vejo as crianças saindo das escolas. Elas são pacotinhos ambulantes que caminham nas ruas tal qual pequenos robozinhos. Tamanho o número de roupas e acessórios que as envolvem. Vejo-as de mãos dadas com as mães ou então nas garupas das bicicletas com os pais. Elas também caminham silenciosas. Mesmo porque nessa época do ano todos os parques estão fechados e a alegria, inerente a cada uma delas, está escondida dentro das toucas e nos sonhos bizarros. O silêncio só é quebrado pelo canto de uma nota só dos corvos. São eles, vestidos em seus distintos ternos pretos, que quebram o silêncio no alto das árvores secas ou dos prédios e suas chaminés. O que ocorre em Paris e em grande parte da Europa é uma liturgia sem cor, sem canto, sem dança, sem festa, que parece querer romper de uma forma exuberante. Enquanto discorria me olhar sempre incauto percebendo as tramoias do cotidiano, lembrei-me que neste próximo fim de semana no Brasil é Carnaval. E fiquei pensando no paradoxo. Eu, um brasileiro amante dos trópicos, tendo que me aninhar no silêncio do meu quarto, envolto em múltiplos pensamentos, enquanto meu povo se diverte pelas ruas e vive, independente de sua crença e fé, a explosão de uma sempre eterna arrumada bagunça. Sim minha gente, é Carnaval, e o meu terá alegorias mil, tendo corvos puxando o samba enredo de uma nota só; na bateria automóveis e sirenes de todas as instituições do Estado; na avenida desfilarão as alas das mulheres e homens bem vestidos com seus casacos, bem como as crianças que formarão a comissão de frente com a grande inovação: virão fantasiadas de pacotinhos. E tem as alas dos marroquinos e suas lojas de bugigangas, dos chineses com seus pratos típicos – expondo patos assados ao caramelo e eu, silencioso na arquibanda das minhas mais remotas imaginações vendo o desfile acontecer. De fato, será um Carnaval bem diferente... frio e silencioso. Paris, 08, février, 2013.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Basta a Solitude...

Há muito tempo coisa alguma escrevo que me dê estrito prazer. E o abandono a este tipo de escrita deveu-se especificamente à transição que estou vivenciando neste exato momento de minha vida. Estou na França, mais precisamente vivendo dias em Paris. Cheguei no dia 14 de janeiro de 2013 e estou em pleno processo de adaptação à vida, língua e cultura do povo francês. Mas que França? Como no Brasil, é grande o número de pessoas oriundas de outras etnias ou mesmo fruto de diversos processos de miscigenação. Poderíamos aqui falar da França negra, da França latina, bem como da França oriental. Eu, por exemplo, resido numa autêntica Babel invertida, chamada Cité Universitaire, onde jovens de diversas partes deste planeta se encontram e se desencontram paulatinamente. É Babel invertida porque garante a variedade e a democracia das línguas, numa confluência final e possível com a fala francesa. Na França onde estou habitando, o céu cinza rodeia a cabeça confusa e cheia de inquietações. Elabora-se no âmago da alma uma espécie de espiritualidade da solitude, já que em francês, assim como em outras etnias, não existe a palavra saudade. De fato, solitude não é saudade, porque saudade pode ser uma coisa boa, uma alegria inusitada instalada nas agonias do ser. Mas solitude tem a ver com solidão e apertos constantes nos lados obscuros da humanidade. O céu cinza é acompanhado de um frio penetrante que provoca em todas as gentes o encolhimento e a conversa extremamente curta ao longo das distintas boulevards. As toucas e as luvas escondem partes preciosas da corporeidade e afetam os relacionamentos. Não se houve risos, tampouco a alegria nos semblantes. Em todos os cantos, o canto repetido dos corvos demarcando territórios. Eles voam e dominam os parques, com seu colorido peculiar – noir, anunciando mais frio e quebrando o silêncio das gentes. Vejo da janela do quarto a neve chegar. Ela é bonita. Os flocos de gelo caem lentamente como plumas de algodão doce e vão embranquecendo a paisagem. As árvores e seus brotos acolhem os flocos. O gramado dos campos e dos parques recepciona o gelo que se impõe. Nos lagos se forma uma fina camada de gelo e os corvos ainda cantam sua canção na mesma nota. O transporte se complica mais ainda, os grandes magazines se enchem e as pessoas buscam refúgios em locais acalentadores. Da minha parte, continuo na janela a observar os flocos caindo, acompanhado de uma saborosa caneca de café. O silêncio, a solitude, tudo se transforma em convite para a depressão, para o ensimesmar-se. É preciso dar um basta. Vestir um casaco e aventurar-se pelas ruas brancas. A neve não pode barrar-me. É preciso romper o gelo e criar alternativas. É preciso dizer com Gabriel Marcel: “La solitude est essentielle à la fraternité ». De fato, a solidão é essencial à fraternidade. E assim, nos abrimos à fraternidade, ao abraço amigo, à divisão da garrafa de vinho e a partilha do que não se deve partir. Paris, 24, janvier 2013.

sábado, 24 de novembro de 2012

Para onde vais passos meus?

Para onde vais passos meus? Quando os pés se alternam sem parar Na busca dos desejos presentes e ausentes Ou mesmo os sonhos que se almeja encontrar. Para onde vais passos meus? Sentindo a carga dos tempos, Apressados em distintos terrenos Singrando corredores dos ventos. Para onde vais passos meus? Rumo às trilhas do desconhecido Em jornadas de aflito silêncio E do sonho outrora perdido. Para onde vais passos meus? Sem descanso na água aquecida Como o corpo pesado, exaurido: Para os braços da amada querida.

sábado, 29 de setembro de 2012

A VIDA ABERTA ( para a amiga Ellen)

Eu gosto muito de Guimarães Rosa. Apesar de sua conhecida obra Grande Sertão Veredas nos apontar diversas dimensões fundamentais para se pensar a fé na vida, escolho, preferencialmente, suas assertivas que me ajudam no entendimento da pessoa humana, como a que cito: “o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”. Além desse apontamento literário em relação às pessoas, o filósofo francês Paul Ricoeur, afirma que toda a nossa vida é marcada por duas dimensões: a do voluntário e a do involuntário. Ora, existem múltiplas situações que nós podemos controlar, pois advém de nossas próprias escolhas e outras que nada podemos fazer, pois ocorrem inusitadamente e desestabilizam a jornada. Surgem de repente. Sendo assim, pessoas e situações se entroncam na existência para afirmar contundentemente que a vida está aberta. Em minha humilde concepção, baseando-me em Rosa e Ricoeur, afirmo que somos como músicas que em momentos distintos afinam ou desafinam mediante o jogo da vida. Outros muitos, ao contrário, pensam que o mais importante é que as pessoas sejam iguais ou que ajam da mesma forma. Ora, a riqueza da vida humana está em pensarmos coisas diferentes e somarmos nossas diferenças, quem sabe, para a construção de uma cultura de paz. Tal cultura não pode ser o fruto de uma ditadura ou da ordenança de uma pessoa sobre as outras. A cultura de paz é a resultante de gente que tem ao mesmo tempo um coração aquecido e mente esclarecida. É isso o que eu defendo. Quanto ao voluntário, podemos dizer que é relativamente tranquilo acolher-se o bem e o mal quando estes ocorrem por causa de cada escolha pessoal. Assim, quando sofremos a perda ou celebramos uma vitória, nos organizamos emocionalmente bem, pois sabemos que aquilo é fruto de nossa decisão. Entretanto, quanto ao involuntário, o acolhimento possui outros contornos, mesmo porque o que ocorre nesta dimensão é oriundo dos acidentes de percurso. É extremamente desagradável a gente ser conflitado por uma ou outra situação que surge sem a devida espera ou preparação. Sendo assim, acho que em todos os grandes dilemas da vida, sejam pessoais ou impessoais, a vida aberta deve cultivar os melhores sentimentos em relação às pessoas que nos cercam. Por isso, acho que na dinâmica da vida e suas relações, a gente tem que garantir a todas as pessoas a possibilidade de elas serem elas mesmas ou acolhe-las em suas crises diversas. Não somos pessoas comuns que vivem em organizações comuns. A vida da gente é como a nossa casa, onde as coisas acontecem de forma inusitada e às vezes, atravessada. E eu preciso confessar que eu gosto dessa aparente confusão de situações, pessoas, acidentes etc. A casa, mais do que um motorzinho bem regulado, é um organismo vivo formado por gente que afina e desafina ou que se assusta frente ao inusitado. Nesse ponto, podemos afirmar em tom dissonante que a vida está sempre aberta, mas nem tanto, mesmo porque o mais importante são as pessoas que ainda não foram terminadas. Aliás, foi conversando com uma amiga que essa ideia surgiu. Essa noção de vida aberta está ligada ao fato de sempre estarmos em entroncamentos, os mais diversos, sendo convidados(as) à escolha e também à visualização estupefata do que sobrevém. É que em alguns momentos a gente é motorista e controla o que acontece. Em outros momentos, somos passageiros e nesse ponto, as coisas se complicam para nós. Mas a vida está aberta e não podemos nutrir nenhuma espécie de medo em relação ao que vem ou possa ocorrer. É mais ou menos o que aconteceu com Jó. Ele fez suas escolhas, mas também sofreu o inusitado em sua vida, perdendo tudo e quase todos ao seu redor. Mas assim é a vida e de alguma forma, todos temos que encará-la da melhor maneira possível. Então, na vida aberta – mas nem tanto – e seus respectivos voluntários e involuntários, tenhamos no mínimo a atitude, primeiro para escolher bem quando pudermos escolher; e enfrentar bem, quando precisarmos enfrentar. Em tudo, porém, contando com a graça maravilhosa de Deus e nos tornando mais pessoas: desafinadas ou afinadas? Não nos importa, simplesmente pessoas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Digo Não ao Coco de Cachorro na Rua

Na terça-feira do dia 18 de setembro de 2012, eu fui ao supermercado próximo à minha casa, com o intuito de comprar alguns itens para a composição do almoço familiar. Resolvi ir à pé para aproveitar os primeiros raios de sol da manhã. Ao sair do portão da minha casa, localizada no bairro Cascatinha, na cidade de Juiz de Fora – MG, fiquei estupefato com o que vi: uma quantidade imensa de cocos de cachorros. Rapidamente, tive que abandonar o calçamento para dividir espaço com os veículos. Foi-me impossível manter minhas caminhada da forma como queria. Me desviei e comecei a contar os “montes”. Cheguei à soma de vinte e dois, e desisti. Confesso aos leitores que aquilo me tomou de ira. Algumas perguntas vieram à minha cuca: Será que estes cachorros não têm donos? Será que a Prefeitura da cidade instituiu que agora é lícito transformar as ruas e calçamentos destinados a pedestres em banheiros para cachorros? Os donos desses cachorros não tinham mãos para carregarem sacolinhas plásticas? Eram deficientes? E com essas perguntas circulantes em minha cabeça, passei a ficar enojado com essa trite e vergonhosa realidade. Os que me conhecem de perto sabem que não sou muito fã de cuidar de animais. Minha criação como pessoa não me permitiu esse relacionamento, que até admiro, entre as pessoas e seus bichinhos. Admiro demais as pessoas que gastam seu dinheiro no cuidado com os animais. Não à toa, o mercado de Pet Shop’s e as clínicas veterinárias estão entre os centros que mais crescem na atualidade. Segundo dados da Revista Veterinária, o número de estabelecimentos como os citados cresceu de forma contundente. Segundo fontes do Sebrae: “O mercado brasileiro de pets movimentou R$ 11 bilhões em 2010. Deste total, 66% correspondem à venda de comida para animais de estimação e 20% a serviços do setor. Este mercado realmente é promissor. Mundialmente, o setor faturou US$ 76 bilhões em 2010. Os dados são da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos para Animais de Estimação (Anfalpet). Em artigo, Marcos Gouvêa de Souza, diretor geral da GS&MD – Gouvêa de Souza avalia as boas perspectivas para o segmento de pet shops no Brasil. O segmento teve um faturamento aproximado, na ponta do varejo, superior a R$ 11,3 bilhões, com um crescimento real de 4,5% em 2011. Em 2010 esse mercado cresceu 8,5% em relação ao ano anterior de 2009 e tudo indica que deverá continuar a se expandir em percentual superior ao crescimento do PIB nos próximos anos. Estima-se em 25 mil o número de pet shops no país. Hoje a tendência do mercado de Pet shops inova com produtos diferenciados, como esmaltes e refrigerantes, salões de beleza para animais, novos tipos de banhos, tosas e secagem de pêlos, com produtos importados de alto nível e serviços de entrega. No quesito luxo, o mercado pet do Brasil também tem muito a crescer. Uma pesquisa realizada pelo portal WebLuxo revela que apenas 5,5% do mercado brasileiro é composto por produtos mais caros. Os mais vendidos são coleiras, roupas, bebedouros e casinhas. Os estabelecimentos faturam até R$ 200 mil por mês. O Brasil tem hoje o segundo maior mercado pet do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Segundo dados da (Anfalpet), o Brasil tem estrutura e capacidade de produção para ser também o segundo maior exportador de artigos do segmento, com US$ 4 bilhões ao ano. O Brasil tem 98 milhões de animais de estimação. Segundo Antônio Braz, analista do IBGE o peso dos gastos com animais de estimação representa percentual de 0,7% no orçamento. Por isso, é bom ficar ligado nas tendências de produtos e serviços e nas regras básicas de manutenção de uma loja pet shop ou uma clínica veterinária”. De fato, criar bichinhos como gente é um bom negócio. Mas eu descobri que não estou sozinho nessa luta contra cocos de cachorros. Uma senhora, moradora de Copacabana, no Rio de Janeiro, espalhou um vidro de pimenta na calçada para espantar os cachorros. Segundo ela, “funciona que é uma beleza”. (Folha On Line, 15/09/2008). Ou ainda o caso de Cláudio Althierry que plantou bandeirinhas indicando a falta de educação dos cariocas e seus cachorrinhos no bairro do Flamengo – RJ. Não, não, senhores e senhoras, não sou contra a criação amorosa e o cuidado com os bichinhos. Sou contra o descaso das pessoas com seus animais quando dos passeios matinais, vespertinos e até noturnos. Repito: sou contra o descaso das pessoas que não recolhem os excrementos dos seus bichinhos, antes, deixando-os para deleite sensitivo dos cidadãos em geral. Sendo assim, acho que o cuidado, a atenção e o asseio com os passeios dos bichinhos deve ser assegurado pelo dono ou dona do animal. Eu não quero mais andar pelas ruas do bairro onde moro a mais de 10 anos tendo que me desviar da cáca dos cachorros. Eu quero ver cachorros e seus donos andarem livremente e alegremente com seus bichinhos, numa espécie de desfile da modernidade subjetiva, entretanto com educação, responsabilidade e, pelo menos, singelos gestos de cidadania. Bato palmas quando vejo donos ou donas responsáveis que recolhem o coco dos seus cahorrinhos. A bem da verdade, dá vontade de cumprimentar tal pessoa e ovacioná-la com força tal que todos os demais moradores venham a escutar. Então, vamos combinar uma coisa: que todas as pessoas de bem continuem a passear com seus cachorrinhos, mas que, com o mesmo cuidado dispensado com a caminhada, recolham o coco do animal. Ele não pode fazer isso sozinho. É você, pessoa humana, que possui polegar opositor, diferentemente de todos os demais animais. Assim, todos nós continuaremos a ter nossa caminhada normalizada, livre de visões detestáveis, cheiros repugnantes e, principalmente, daquela cáca alheia, ainda fresca, agarrada no solado do tênis branco. Fica o apelo!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Importância do Perdão

A vida cristã possui suas peculiaridades e desafios. Um dos maiores refere-se ao ato de dar e receber perdão. Quando avaliamos os textos sagrados, chegamos à nítida conclusão que a maioria das referências tem a ver com a questão do perdão. O simples aspecto basilar que concerne à conversão nasce, necessariamente, da atitude graciosa e perdoadora de Deus para conosco. Deus é, indubitavelmente, um Deus que perdoa e esquece. Ora, o perdão de Deus para conosco é fruto da graça maravilhosa que acolhe e abraça todo o nosso planeta. Deus não nos vê a partir dos nossos delitos e pecados. Ele nos percebe a partir de Cristo. Então, é por intermédio de Jesus Cristo que o perdão de Deus nos chega maviosamente. Entretanto, para que Deus nos veja em Jesus, torna-se necessário também o auto reconhecimento de nossa realidade de vida. Se me enxergo a partir do prisma da humildade e me reconheço tal como sou, então posso olhar para Cristo e percebê-lo superior a mim mesmo. Dessa forma, destaco minha total e irrestrita dependência dele e me lanço à sua misericórdia. Somente com essa atitude de entrega total é que posso entender as minhas carências, e assim, consequentemente, afirmar que não sou em coisa alguma, superior aos outros. Aliás, a Bíblia deflagra que temos que considerar os outros superiores a nós mesmos. Segundo Thomas à Kempis, um místico do século XV que muito influenciou a vida piedosa de John Wesley, “você precisa aprender a quebrar seu próprio eu em muitas coisas, se quer ter paz e concórdia com outros (Gl 6.1). Não é fácil residir em comunidades religiosas ou em uma congregação, conversar ali sem reclamação e perseverar ali fielmente, até a morte (Lc 16.10). Bem-aventurado é aquele que já viveu bem lá, e terminou bem”. (KEMPIS, A Imitação de Cristo, p. 36). Ora, o que Kempis evidencia é que não é fácil ter paz e concórdia com todas as pessoas, mas é preciso terminar bem essa jornada espiritual. Daí, podemos considerar que é nas discórdias e inquietações relacionais que surgem as más resoluções do amor, gerando a ansiedade, o ressentimento, o rancor e finalmente o ódio. Todos esses elementos obstruem, de forma evidente, a ação do perdão na zona das emoções humanas. É preciso evidenciar que no que se refere ao perdão, não temos opções. É, entre outras, uma esfera da vida espiritual que necessita de radicalidade. O evangelho de Mateus apresenta-nos a oração do Pai Nosso e sua ênfase na expressão: “Perdoa as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores”. Essa parte da oração é tão importante que mereceu um comentário do evangelista. E Mateus corrobora: “Se vós não perdoardes aos homens os seus pecados, tampouco vosso Pai celeste perdoará os vossos pecados”. Mt 6. 15. Portanto, é preciso considerar que o grande “nó” da vida cristã está justamente na perspectiva do dar e receber perdão. Somos desafiados a essa ação de forma tal a provocarmos liberdade. Não há dúvida de que dar ou receber perdão não é tarefa fácil. É por isso que, diante desse desafio, precisamos contar com a ajuda de Jesus. Diante do grau de dificuldade para dar e receber perdão, somente Jesus pode provocar a reconciliação, e isso por intermédio da Graça de Deus.

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