O que é o amor? Me fizeram essa pergunta! E eu não tinha nenhuma resposta pronta. Ao contrário, fiquei confuso com a questão e me pus a refletir sobre o significado dessa expressão que abarca diversos sentimentos e reações físicas no corpo. Li e reli diversos poemas. Me percebi envolto pelas tramas e romances diversos que me trouxeram emoções. Ouvi e cantei músicas. A somatória de todas essas expressões era ainda, para mim, uma gota d’água no meio do oceano...
sábado, 25 de abril de 2020
sábado, 18 de abril de 2020
É preciso ter bom humor (Décimo sexto texto)
“O bom
humor é a única qualidade divina do homem”.
Arthur
Schopenhauer
Viver é uma aventura cheia de
percalços. O tempo todo eu enfrento os dramas diversos que em nada favorecem as
boas harmonizações do meu ser interior. Então, não dá para eu viver o cotidiano
e suas (in)conclusões sem uma boa dose de bom humor e boas risadas. Aliás,
coisa boa é a gente estar em uma roda de boa conversa, tendo um bom contador de
prosas, causos e piadas.
Eu gosto de conviver com gente bem-humorada.
Logicamente, eu sei, que por causa das complexidades inerentes aos relacionamentos
diversos que todos possuímos, é-nos impossível manter a potência do humor
elevada em todo tempo. Tem horas que a pilha perde a carga, o que é
absolutamente natural, pois, às vezes, sou surpreendido por situações geradas
por outros que me fogem ao controle. Paciência. A surpresa faz parte do jogo no
dia a dia e, mesmo quando tudo me parece fechado e sem definições, preciso
surpreender a minha alma, olhando-me no espelho, trocando um sorriso com a
minha imagem. Eu sei que isso, por si só, não resolve, mas já é um bom começo.
Minha índole é daquelas onde o humor
varia consideravelmente. Em alguns momentos, fico eufórico; em outros me
deprimo a ponto de perder meu olhar num espaço vazio. De qualquer forma, em
meio a minha rotina na montanha russa, eu sei que não posso deixar a alegria e
o bom humor se esvaírem, deixando o cotidiano chato.
Ao mesmo tempo, não sou daqueles que
acham que a gente tem que ficar de boca aberta o dia todo, rindo como um
boboca. Aliás, é muito esquisito quando me deparo com gente que fica rindo à
toa, às vezes, sem nenhuma causa aparente.
Pra não fugir muito da regra, o ideal
mesmo é buscar a zona de equilíbrio, visando o bem estar da própria existência.
E aqui não é abertura para autoajuda. Eu, particularmente, não gosto disso. Pra
mim, em especial, o bom humor tem a ver com a forma como minha psique interior
se resguarda quanto aos fenômenos que ocorrem no exterior. Assim, o bom humor
nasce do bom equilíbrio emocional que é essencial à vida de qualquer pessoa.
A necessidade de manifestação do bom
humor se dá mediante às situações que confrontam o bem-estar pessoal ou social.
Todas as vezes que somos agredidos em nossa vida comum, somos forçados à
reação. O bom humor, nessa perspectiva é sempre a reação ante ao caótico e, não
entendido. Em todos os momentos onde a vida pessoal é posta em xeque, o bom
humor se estabelece como uma válvula de escape. E existem os humoristas profissionais
que, muitas vezes, exageram em suas piadas, gerando diversos constrangimentos.
Isso se dá por causa de uma linha tênue que separa o risível do não-risível.
Com isso, chegamos à conclusão de que existem dois tipos de bom humor: o
sensato e o ridículo. Ora, o primeiro refere-se ao bom humor que se manifesta
de forma equilibrada e não agride pessoa alguma, ao contrário, só provoca o
bem-estar e o riso, até mesmo a gargalhada que faz bem para a alma. Já o
segundo, cria mal-estar aos ouvintes e aquele sentimento de constrangimento que
acaba conflitando os sentimentos humanos. É o caso da piada mal posta num
ambiente não preparado para ela.
A cada dia, fica mais claro para mim
que o bom humor é fundamental para o desencadeamento de emoções equilibradas no
decorrer do dia. De fato, pessoas bem-humoradas conseguem transpor os maiores
desafios do cotidiano sem perder a sensibilidade. Obviamente, existem muitas
pessoas que são mestras na arte de celebrar o bom humor. Fazem piadas e contam
causos sobre quase tudo. Existem aquelas que são chulas, e vivem em meio a
gozações diversas, algumas delas espúrias. Há, entretanto, outras que possuem
um humor refinado, favorecendo na dinâmica dos dias, o fluir das palavras e dos
gestos pontuais geradores de contentamento.
Portanto, para se levar a vida com bom
humor, não é necessário ser irônico, preconceituoso e sátiro. Tudo bem que
essas três dimensões estejam também presentes no cotidiano de todas as pessoas,
mas o excesso delas leva ao constrangimento de outrem. O problema é quando
ironia, preconceito e sátira interferem diretamente na dignidade da pessoa que
é posta numa roda de conversa jocosa. Esse é o caminho para o cômico que acaba
desconfigurando o humor. Conheço gente que gosta de fazer gozação com todo
mundo, mas quando passa a ser o centro das piadas, fica aborrecida. Mas é assim
mesmo! Rir dos outros é bem mais fácil do que rir de si mesma.
Todavia, é preciso rir de si mesmo! É
preciso fazer chacota com o próprio eu. É preciso encarar as dificuldades e
vicissitudes da vida com certa dose de alegria, afinal de contas, somos todos
imperfeitos! E quando rimos da nossa imperfeição, damos abertura para a
aceitação, tão necessária a qualquer pessoa.
Levar a vida com muita seriedade não é
vigoroso para ninguém. O famoso comediante Charles Chaplin certa feita disse: “Através
do humor vemos no que parece racional, o irracional; no que parece importante,
o insignificante. Ele também desperta o nosso sentido de sobrevivência e
preserva a nossa saúde mental!”
O bom humor nos ajuda a vermos o mundo
de outra maneira. Ora, não se trata aqui de repetir o “jogo do contente”
realizado pela Pollyanna no famoso clássico publicado em 1913, escrito por
Eleanor H. Porter, uma cristã presbiteriana. Basicamente, o livro trata as
relações da menina Pollyanna, uma menina órfã de onze anos, com diversas
pessoas mais velhas, especialmente com uma tia rica, com quem vai morar. Na sua
nova casa, ensina a todos o “jogo do contente”, aprendido com seu pai, que
consiste em sempre olhar o lado positivo de todas as coisas, mesmo nas
aparentemente desagradáveis.
Para mim, em especial, bom humor não é
jogo do contente. É atitude assumida diante das dificuldades e percalços que a vida
nos apresenta. É uma forma de dizer: deu ruim, mas a gente vai dar um jeito de
melhorar contando causos, piadas, chacotas e rindo das desgraças que nos
ocorrem.
Ao final das contas, a gente vai
perceber que estamos cercados por um monte de bobagens, as mais diversas. O bom
humor nos leva a fazer a seguinte pergunta: o que realmente importa para ser
contente? Não nos assustemos se chegarmos conjuntamente á conclusão de que bom
humor é estar de bem com a vida e com as pessoas, de preferência, numa roda de
boa conversa, comida, bebidas, violão e cantorias...
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Simplesmente o amor (Décimo quinto texto)
“Tão bom
morrer de amor! E continuar vivendo...”
Mário
Quintana
Vivo o amor! Sofro o amor! Morro de
amor! Ah! O amor, vero amigo e carcereiro algoz! O grande gerador das maiores
alegrias e das mais agonizantes tristezas humanas. Cantado e poetizado em
diversas línguas e de múltiplas formas. Das emoções humanas, talvez a mais
vital. Força maravilhosa que me martiriza, deixando-me inquieto com a vida. O cantor
Renato Russo, citando Camões, expressou que “o amor é fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente. É um contentamento descontente”. É um paradoxo
sem limites paradoxais.
Eu, de minha parte, não consigo viver a
minha lida sem expressar as dimensões mais profundas do que realmente penso ser
o amor. Não consigo amar pela metade ou de uma única maneira. Intento, o tempo
todo, amar e amar muito, sem pestanejar. Sinto-me plenamente aberto para o amor
e para amar. Louco, com todo o horizonte aberto diante dos meus sentidos, lanço-me
ao distinto espaço vazio para amar quem quer que me apareça, como me for
possível. De amor em amor, vou sobrevivendo, tentando me resgatar nesse mar de
ondas espumantes e calmarias.
Amor não é substantivo, mas verbo. Precisa
ser construído na dinâmica relacional entre gente que se quer bem. Não há
porquês e não há respostas. O amor é a conjugação dos mais vivos sentimentos
que passeiam no corpo humano, mediante enzimas e substâncias que compõem a sua
química.
Entretanto, eu preciso confessar que,
para além da felicidade e do gozo, o amor me deixa triste, fragiliza-me a alma
e joga-me na lama. Mas o amor não é uma coisa boa? Não duvido disso! Todavia, é
coisa boa que detona os sentimentos dos que se envolvem numa paixão, seja ela
qual for. Poetizo num Amor que Insiste:
O corpo é
vivamente cremado...
A vida
depressa passou!
Valeu a
pena viver?
Foi vivo
e intenso o amor?
As
perguntas chegam tarde.
As
respostas nunca virão!
Resta a
lágrima no rosto vivido,
E o nada
dos passos no chão.
Quando
tudo se perde na mente,
Resta a
flor que enfrenta o inverno
E o gosto
insano da dor.
A alma
encontra remanso
Nas
letras sagradas do verso
Que
insiste querer o amor.
A insistência pelo amor é fluxo entre as
gentes. De um lado, há quem ame; do outro, a incerteza e a ambiguidade, pois o
que garante que uma pessoa, de fato, ame a outra?
Sabe o que vejo? Muitos dramalhões teatrais!
Gente que diz que ama, mas não ama. Gente que finge amar e assim vai levando a
vida. Gente que nunca soube o que de fato é amar. Faces ocultas da melancolia.
Por outro lado, junto e misturado com
as pessoas, não tenho como controlar o grito do amor na alma. Ele vem e ele
vai, tal como a lua em suas fases. Não é fácil controlar a composição química
que faz a gente acordar de madrugada e se perder em pensamentos desconexos e
insanos. É preciso se manter Longe das Paixões:
Nada mais
há de você em mim.
O tempo
passou, o tempo voou e eu me libertei.
Não mais
estou à beira do caminho.
As flores
até perderam o encanto e as nuvens encobriram o sol, mas eu não me importo.
É bom que
assim seja. Num momento a gente se enche de amor,
No outro
a gente curte o que é dor... O medo se foi...
Paixão é
bom porque chega e vai, quase nunca fica.
Eu volto
a sorrir, com o corpo isento, sem agonia.
Todavia,
tal qual onda do mar, insistirá, voltará... Talvez...
Tudo
suporto, pois eu nada controlo.
Sigo
cantando a melodia triste que dá alegria.
Beleza
profunda que anima minh’alma num instante silente.
O fogo
abaixou e as cinzas me deram o presente.
Ele é
tudo o que tenho, pois o passado passou e o futuro é incerto.
Abraço a
noite que cai. A lua minguante será minha companheira.
E no
sombrio volume da madrugada, ando sem eira, sem beira, na rota da ponte que vai
do nada ao vazio, pelo simples fato de ir.
Assento-me
à beira do rio. Ele vaga calmamente escondendo os redemoinhos do profundo.
Um
graveto flutua. Metáfora de mim sendo levado para qualquer lugar,
Longe das
paixões...
De fato, as paixões que evocam o amor
provocam dores, as mais diversas e intensas. O pior é saber que não existe uma
receita pronta para desfazer os sentimentos ambíguos, desviantes e
inimagináveis que se instalam num lugar imaginário chamado coração.
Além das dores, a paixão do amor sugere
fantasias desassossegadas. O pensamento, sob o domínio dessa desordem em
evidência, é uma fonte inesgotável de imaginações, na sua grande maioria,
pervertidas, que às vezes se plasmam em sonhos. Ainda bem que não existe nenhum
instrumento humano para registrar as imagens que nos visitam nos pensamentos e
nos sonhos. Mas o que nos impede de realizar nossas imaginações mais
pervertidas? Os filósofos me diriam que é a moral. Mas, moral e paixão não
combinam. Paixão, pra ser amor, precisa ser imoral. Do contrário, é mera
burocracia.
Desburocratizando o amor no cotidiano,
quero vivê-lo como uma grande aventura, formada essencialmente, de idas e
vindas, encontros e desencontros. Anseio viver as paixões ao sabor de cada dia,
enfrentando os dilemas e os problemas comuns que me fazem um humano ser de
contradições. Nesses deslocamentos corriqueiros o amor me lança ao universo
tresloucado do sexo.
Para o equilíbrio de uma vida marcada
pelo amor, o sexo, ou a boa resolução deste, é condição necessária para a
homeostase emocional.
Sei que muitas pessoas têm dificuldades
pra pensar ou falar sobre o sexo. Sei de gente que só faz o sexo habitual, quem
sabe, para manter a relação regulada. Sei de gente que não faz mais sexo. Sei
de gente que faz sexo escondido. Sei de gente que acha o sexo sujo. Sei de
gente que gosta de fazer sexo, principalmente quando tem liga e pele. Sexo bom
não tem pudores. Pode e não pode ficam para escanteio. O combinado e as
besteiras entre as partes é o que vale. Sexo tem que ser sujo, instintivo, lambuzado
e, surpreendentemente, prazeroso. Obviamente, o prazer é efêmero, passageiro
mesmo. Chega e vai. Vai e chega. Que beleza! Já basta. Acontece de forma
inusitada e não precisa de validade. É preciso ser mais hedonista e aproveitar
os prazeres que o corpo pode oferecer. Acredito que o prazer está presente nas
mínimas oportunidades do cotidiano e é inusitado. Ele tem que ser descoberto das
melhores maneiras possíveis.
Se o que desejamos ao outro é o bem-estar
real em todos os níveis, então o amor, o sexo, o prazer e a paixão que se
manifestam entre as gentes não podem ser ofuscados por parcas percepções. Nos
caminhos e descaminhos dos romances, alegrias e tristezas, contentamentos e
sofrimentos sempre darão sentido ao que não tem sentido algum. Que nos
sobrevenha uma descarga libidinosa. Talvez, por esse motivo intuitivo, Niezstche
tenha feito questão de frisar: “Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre
um pouco de razão na loucura”.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
As amizades que fazem a diferença (Décimo quarto texto)
“A
amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; Ela exerce-se (é uma
virtude)”.
Simone
Weill
O poeta Milton Nascimento afirmou certa
feita que “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do
coração”. Já, outro, o Renato Teixeira, canta pelas paragens das rotas
sertanejas que “amizade sincera é grande remédio, um abrigo no mundo”. Cá, no
meu canto, sinto as profundas emoções e inspirações que subjazem a essas
canções. Fica claro para mim que o desenvolvimento de uma boa amizade é coisa
pra lá de boa.
Por isso, quero continuamente a boa vivência
junto aos amigos e as amigas. Quero me assentar frente a uma mesa farta e
nutrir minha alma das conversas eivadas de besteiras, as mais diversas. Quero o
absurdo da harmonia que favorece o bem-estar em meio ao caos social. Que
ninguém compactue das ideias alheias, pois pensar diferente é fundamental.
Sejam evidenciadas as contradições, toda a subjetividade e os desejos mais
internalizados. Cada um tem a sua vida e os seus problemas, mas a gente se ajunta
numa mesa para afogar as mágoas. Na companhia dos amigos e das amigas, não há lugares
para o efêmero e o passageiro, pois tudo é efêmero e passageiro...
No entorno da mesa, importam as pessoas
que não querem saber de disputas ou questiúnculas. Somente resiste ali naquele
momento de eternidade a boa conversa, misturada a risos e gargalhadas. De fato,
não há nada mais prazeroso do que sentar-se à roda com alguns petiscos e bom
vinho para celebrar histórias e rir com amigos e amigas. Se tiver um violão e
uma música bem cantada, tudo fica quase perfeito! Nesse tempo onde as prosas e
as poesias enchem o ar, permanece a vontade intensa de abraçar as pessoas,
cuidando delas de uma forma carinhosa e sofisticada. Eis o grande legado oriundo
dos momentos marcantes da trajetória comunitária, afinal de contas, a única
coisa que prevalecerá em nossa fugaz jornada de vida são as amizades que
constituímos.
Entretanto, quando me deparo com as más
resoluções relacionais, principalmente quando pessoas insanas querem se dar bem
em cima das outras, fico boquiaberto. Num processo, onde muita gente se veste
de insanidade, buscando a frugalidade do sucesso e do status – duas grandes bobagens
que se constituem em vazios herméticos – não consigo reconhecer uma pitada de
humanidade. Não conheço pessoa alguma em minha jornada de vida que, tendo tido
êxito em algum momento de sua parca existência, e que se lança numa busca
desenfreada por sucesso e status, alcance o êxito com dignidade. Ao contrário,
vejo que a busca pelo glamour requer um alto grau de comprometimento e
exigência, transformando pessoas alheias em coisas e objetos. Conheço, igualmente,
os exemplos de pessoas que tendo galgado um terreno de grandes possibilidades
na vida, acabaram se perdendo na avenida da bancarrota. Triste fim para aqueles
que acharam que, por intermédio do sucesso e do status, poderiam ser
reconhecidos. Não emito um juízo de valor fechado em relação aos que acham que
estão dando o tombo no outro. Todavia, sei que o que se planta, se colhe. De
minha parte, quero plantar boas amizades, fugindo de toda e qualquer
possibilidade de ser visitado por algum tormento insano nas caladas da
madrugada.
Não quero gastar o meu tempo com as más
resoluções relacionais. Vou é investir meu curto tempo de vida na espetacular
aventura de conhecer os universos que se encontram nas consciências humanas –
suas neuroses e até as suas psicoses.
Vou apertar as mãos e beijar as faces
de todas quantas pessoas eu quiser. Deixar-me ser absorvido pela retina dos
olhos que me observarem. Não tenho medo da exposição. Sou o que sou e ninguém
tem nada com isso. Se eu não puder viver a minha vida diante dos amigos e das
amigas como ela deve ser vivida, quem a viverá, então? Apego-me a essa frágil
esperança de viver a vida como ela se me apresenta, pois me sinto uma flor
sendo causticada pelo calor do sol. Embora viceja, ficará ressequida e morrerá.
Precisa ser bela, enquanto puder sê-lo.
Assim, vou vivendo a vida curtindo cada
momento como se fosse o último. Quero que, no entorno da mesa de celebração,
cada amigo e amiga se torne companhia serena em minha caminhada. Desejo
compartir o pão cotidiano e oferecer nas palmas das minhas mãos a água fresca a
ser sorvida por quem está sedento. Que os sentimentos e gestos sejam estampados
na sua mais intensa comensalidade.
E se advierem as críticas quanto ao meu
jeito e comportamento, não me importarei, afinal de contas, não sou perfeito,
nem nunca desejei sê-lo. Sou, tão somente, uma síntese de contradições e
conheço profundamente todos os meus defeitos, até os mais complexos. Posso até
contá-los a você, se me permitir!
Lembrei-me do Rubem Alves que, quando
arguido em um congresso sobre seus posicionamentos quanto ao Jaime Wright,
respondeu: “O Jim era meu amigo!” Encerrou a conversa, pois o mestre sabia que
o bom da vida, ainda, é encontrar gente amiga que entende o outro e não o
avalia por meros atos ou palavras. No fundo, para os amigos, no sentido mais
estrito do termo, os defeitos não existem. São irrelevantes.
Na minha transição, rumo a um lugar
qualquer, fica claro a necessidade de romper com a solidão. Preciso da amizade
sempre viva, próxima a mim, dando-me sentido e abraçando-me nos momentos de
desorganização existencial. Tudo tem que ser regado a muita simplicidade e
pé-no-chão. Vou exercer a minha amizade...
terça-feira, 14 de abril de 2020
Quixotagens (Décimo terceiro texto)
“Concordo
com D. Quixote: o meu repouso é a batalha”.
Pablo Picasso
Nem sempre eu encontro um lugar de
recôndito para a minha alma. Às vezes, o que penso ou sonho é inexistente.
Continuo a luta utópica, aprendendo a brigar com as armas que possuo. Sei que
não vale a pena lutar com as situações e contextos que não serão alterados.
Nesse sentido, às vezes me comparo à Dom Quixote, o “cavaleiro da triste
figura”.
Muitas pessoas já ouviram falar desta
narrativa fictícia, escrita por Miguel de Cervantes e editada no ano de 1605. Uma
interessante obra literária, cuja trama apresenta os idealismos e alucinações
de Alonso Quixano – um fidalgo decadente e o seu companheiro lavrador e fiel
escudeiro Sancho Pança.
Dom Quixote, influenciado pelos
romances dos cavaleiros andantes, acaba perdendo a razão e sai de sua letargia
em busca dos sonhos impossíveis, das conquistas irrealizáveis, das estrelas
inalcançáveis, do amor platônico e da paz interior que proporciona o descanso
da alma. No início de suas andanças, ele elege uma lavradora chamada Dulcinéia
como sua musa, e por ela, entra em delírios e luta contra monstros imaginários
e situações irreais. Em uma de suas lutas mais fabulosas, Dom Quixote enfrenta
os moinhos de ventos, achando que eram monstros, os mais diversos. Montado em
seu cavalo, o Roncinante, vai ao encontro dos monstros, desferindo golpes
aleatórios e se ferindo em uma luta vã.
Todos os idealistas e apaixonados pela
vida possuem comportamentos quixotescos. A trajetória de Dom Quixote de La
Mancha é uma espécie de espelho para as minhas atitudes igualmente quixotescas.
Quando comparo o herói pouco usual de Cervantes com a minha lida diária e com
as lutas amorfas e sem sentido que deflagro contra os sistemas ideológicos bem
montados, chego a constatação que tudo é paixão inglória.
Em muitos momentos da minha lida,
imagino dragões ou monstros imaginários, quando na verdade, estão adiante de
mim somente os moinhos de ventos. Assim, diante de problemas ou dificuldades
aparentes, eu preciso ser resoluto, pois no fundo, no fundo, todo dragão é um
moinho de vento. Eu tenho medo! Aliás, tenho muitos. O meu medo é o meu grande
aliado e meu grande inimigo. Os monstros imaginários tentam me destroçar.
Dentre os meus medos, um sobressai: o
de não ser o que pretendo ser, melhor dizendo, o de não deixar claro o que sou
e o que quero. Acho que isso tem a ver com a clareza que possuo em relação ao
mundo em que vivo e o sentido que ele me dá. Eu acho que é muito triste para
uma pessoa passar por essa vida tão efêmera sem dizer a que veio. Sinto-me
angustiado toda vez que penso na impossibilidade de alcançar o topo de um morro
qualquer com um megafone, com a única finalidade de dizer: eu estou aqui e eu
sou isso! Sei que para muita gente, isso parece uma bobagem, mas para mim não!
Não quero aparecer ou lançar holofotes sobre meu próprio ego. Não se trata de
marketing pessoal, mas necessidade de marcar a minha trajetória existencial com
um legado. Mas, e se isso não for possível? Bem, pelo menos fica evidente a
minha intenção de fazê-lo vivamente.
Os medos ainda atormentam todo o humano
em mim, principalmente, nas caladas da madrugada. Quero exorcizá-lo, mas não
sei como fazê-lo. Preciso combatê-lo com coragem e ousadia. Arregaço as mangas
e enfrento os dramas que me atormentam. Não posso ficar acuado num canto
qualquer. O mundo é um campo minado, mas eu não posso deixar de exercer ações
expressivas para ressignificá-lo, mesmo que com quixotagens! Assim, vago pelas
vielas e becos do cotidiano sobre o meu Roncinante imaginário, sentindo o vento
da liberdade fazer um gostoso cafuné nos meus cabelos. Com dignidade, brado a
todo mundo, e para quem quiser ouvir, o motivo de ter vindo a este mundo. Ao
fazê-lo, inevitável recorrer à memória e recordar todos os projetos frustrados
de uma lida. Com Darcy Ribeiro, eu me
expresso:
“Fracassei
em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não
consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade
séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e
fracassei. Mas os fracassos são as minhas vitórias. Eu detestaria estar no
lugar de quem me venceu”.
sábado, 11 de abril de 2020
Persistindo Dignamente (Décimo segundo texto)
“Não
queremos perder, nem deveríamos perder: saúde, pessoas, posição, dignidade ou
confiança. Mas perder e ganhar faz parte do nosso processo de humanização”.
Lya Luft
Não sou daqueles que desistem fácil das
lutas diárias e dos obstáculos impostos por gente impiedosa. Resisto firmemente
enquanto ainda vejo sentido para um pleito qualquer. Entretanto, acho uma
grande bobagem ficar brigando por um espaço num lugar onde não se é bem quisto.
Se eu tiver que permanecer num lugar para manter minha posição social, pelo
menos, que seja com dignidade. Caso contrário, é melhor abortar tudo.
Tem gente que tem mais “coragem” e
permanece em sua posição, se vangloriando de sua postura de fidelidade. Eu não!
Mesmo que eu tenha direitos, prefiro abrir mão para abraçar a amiga dignidade,
pois melhor do que viver, é viver com dignidade estampada na face. Detestaria
ter meu rosto ruborizado, envergonhado por não ter tido a ousadia de romper com
o que estava me fazendo mal.
Para mim, em especial, dignidade tem a
ver com a honra, com a decência e a honestidade que precisam ser resguardadas
por quem se entende humano. Está ligada também a ideia de integridade,
principalmente no campo da moral. Não aquela moralidade apegada a questiúnculas
que nada constroem, mas aquela que busca continuamente o sentido da vida.
Nessa busca pela dignidade e pelo
sentido, luto contra a letargia que insiste em amainar todas as minhas ações. Novamente,
ínsito em dizer: embora eu perceba os ventos contrários, não penso em desistir
de lutar, seja ela qual for. Desisto, somente, das lutas que já foram perdidas
e me atenho, sem nenhum ressentimento, a começar do zero. Saio correndo, sem
rumo e sem direção, na direção de uma praia deserta. Quero a brisa gelada da
liberdade para não me aprisionar nas caladas das noites emocionais. Preciso levitar
a minha vida, mesmo sem saber como. Tal qual uma jangada sem vela, ao sabor de
vento nenhum, no meio do oceano bravio, veleja a minha alma no tempo e no
espaço, desejando recomeçar, sem desistir jamais. Não há sequer uma bússola.
Perco minhas referências e fico ao léu, ao sabor das correntes marítimas.
Nesse arfar pela dignidade, choca-me o
comportamento das pessoas que insistem nos conflitos sem sentido, que nada
acrescentam ao ser interior. Não quero a aproximação das pessoas que supervalorizam
suas próprias vivências, numa prática egóica, desmerecendo todas as demais. Quero
distância de gente que se aproveita dos níveis de intimidade para usar e abusar
da boa vontade alheia. Não quero mais ficar exposto no chão da intimidade, pois
se trata de chão frágil e volátil que distorce o diálogo evidenciado num foro
íntimo.
Fico inquieto com a dúbia interpretação
decorrente das minhas falas e ações, principalmente quando sou mal compreendido.
O pior é quando tais interpretações ganham a alcunha de fatos, mesmo tendo sido
sugeridas num campo de conversas informais. Angustia-me não poder me defender. Como
o leite derramado, a ação a ser efetivada é, tão somente, pegar o balde, o rodo
e espraiar o pano no chão, com a finalidade de operar a limpeza, se possível.
Doutra forma, somente o tempo poderá elaborar a cicatriz. Mas sempre é bom
recolher-se ao profundo da alma com o propósito de avaliar e recomeçar com
outros princípios. Nunca é tarde para um recomeço digno!
Nesse ponto, cabe uma leve observação.
É que existem duas dimensões de valoração da dignidade. Uma é interna. A outra
é externa. A interna tem a ver com a atitude que a pessoa mesmo assume em sua
dinâmica de vida. Tem um pouco a ver com a autoestima. Lembro-me, por
exemplo, quando num tempo de agonia, me vi envolto nos seguintes versos:
Sim! Eu
vou! Vou porque preciso ir.
Vou
porque me sinto mais livre assim.
Vou
porque meu voo é dos pássaros
Que nunca
experimentaram a gaiola.
Voo pra
tornar distante
Os que
almejam desestabilizar o canto do encanto.
Sim, vou
num voo pra qualquer canto.
Vou, porque quero a dignidade, aquela
dos pássaros livres. Talvez eu tenha encontrado inspiração no famoso verso de
Mário Quintana: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles
passarão, eu passarinho”.
Passarinhando, desenho em círculos e
retas minha rota no céu acinzentado pelas nuvens carregadas que anunciam a
chegada da chuva. É o ciclo em sua coordenada composição, ensinando que nada é
estático, tudo é recomeço. A vida se reinventa todos os dias. Eu, sendo bom
aprendiz, recomeço com a dignidade que me é devida. Poder efêmero e múltiplas utopias
demarcam os meus novos princípios e valores, sem estabelecer uma zona
limítrofe. Vivo o que quero viver e como desejo viver.
Jogo-me na vida, pois há muito a ganhar
sem nada a perder. E dialeticamente, há muito a perder sem nada a ganhar. Nos
ganhos e perdas, nas perdas e ganhos, pelo menos, pelo mais, faço valer a pena
minha frágil existência de porcelana.
Sei que a minha vida é extremamente
frágil e qualquer movimento mais agudo pode me levar ao fenecimento. Todos os
dias sou posto à prova, diante da morte. Aliás, a morte é a grande sombra que
se projeta sobre o iluminado viver de todos os meus dias. Não tenho medo da
morte. Ela é minha companheira inevitável e a qualquer momento ela baterá à
minha porta. Então, se a vida precisa ser reinventada, precisa, ao mesmo tempo,
ser considerada dentro de um prisma equilibrado e digno.
Portanto, eu resolvo viver a minha vida
como ela é, como um ser-aí no tempo e no espaço, esbanjando simplicidade e o
máximo de autenticidade que me for possível. Sei que, por assumir uma postura
assim, serei rotulado e criticado. Respeitando os pontos de vistas contrários,
acabo rindo em meu íntimo destes que ficam aficionados aos seus sisteminhas de
fazer dó. Quero fazer valer a pena a minha vida, deixando as coisas acontecerem
ao sabor do vento, sem mais confiar naquelas pessoas que arrotam com empáfia e
arrogância o seu poderzinho de merreca. Bem-aventurados os que se recolhem às
suas frágeis existências de porcelana. Da minha parte, por exemplo, Já
atravessei alguns mares com marés. Já percorri alguns desertos sem oásis. Já
subi algumas montanhas e vi os abismos. Quando quis o sol, veio a chuva! Quando
quis a chuva, veio a névoa! Quando veio a névoa, resolvi calar. E me recolhi
num canto qualquer, para plantar meu jardim de sentidos. Agora entendo melhor o
Rubem Alves.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
Saboreando a Angústia (Décimo primeiro texto)
“Não ser
o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não
está sendo. E então vem o desamparo de se estar vivo. Estou falando de angústia
mesmo, do mal. Porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se
contrai”.
Clarice
Lispector
Afronta-me a angústia. Sinto o meu coração
em taquicardias descompassadas. Sei que há normalidade nisso, pois se trata da somatização
de diversos sentimentos que se misturam no interior de minha humanidade.
Lembro-me novamente de Kierkegaard – um dos filósofos que estabeleceu como
ponto fundamental da perspectiva das transições necessárias à vida humana o
conceito de angústia.
Além de me impulsionar a um novo estágio
na vivência habitual, a angústia me acompanha no confronto com uma nova
realidade, especialmente a que está na contramão do que eu penso ou do que
quero. Um paradoxo se estabelece em minha frágil consciência. Se para o
referido filósofo dinamarquês a angústia faz parte da natureza humana, jogando
o ser humano num precipício de possibilidades e impulsionando-o a saltar no
escuro, tornando-o responsável pela sua própria existência, para mim é a
genuína síntese de contradições emocionais.
Mesmo assim, continuo meus recomeços e
minhas transições, tentando satisfazer a minha pergunta pelo sentido da vida. E
não é isso o que todas as pessoas procuram? De minha parte, busco, além disso,
o que está intimamente ligado ao conceito de viver inquietamente de boa.
A flor da angústia nasce no chão da
fragilidade, adubado pela solidão dos profundos pensamentos, mesmo em contato
com diversas pessoas. Ela cresce assombrosamente quando a vontade de se
cultivar amizades no campo da sinceridade, humildade e cumplicidade se vê
abatida por alguma vontade de poder.
Ora, não há coisa alguma errada em se
buscar o poder, pois o mesmo é inerente ao ser humano e as suas relações em
geral. O problema mais específico reside nas atitudes desenfreadas,
inescrupulosas e desrespeitosas, tantas vezes evidenciadas nos pequenos nichos
sociais, onde gente quer se impor sobre gente. Pessoa alguma se sente bem quando
se vê usada pelo outro que almeja, tão somente, seus próprios interesses
alheios.
Quando me percebi envolvido numa teia
maldita como esta, fiquei estressado e doente. Minhas emoções ficaram estáticas
e eu não conseguia transgredir a ordem que estava sendo imposta sobre mim.
Aconselharam-me a calma, mas eu queria a agressão. Não me conformava com aquela
situação e sofria, pois não encontrava formas adequadas para o estabelecimento
de minha frágil zona de sentidos. Por isso, precisei ir para além da forma,
subvertendo o que estava à minha frente. Sei que muitas pessoas possuem certo
asco à palavra subversão, mas ela tem a ver com uma lógica básica e muito
simples: se não dá de um jeito, dá-se outro. E com isso em mente, subverti num Poema
do Amor Livre:
Vivo pelo
mundo, estampando sentimentos
Quero-os
sempre vivos, como pipa em meio aos ventos
Ao sabor
da liberdade, pra voar nos pensamentos
Acolher
os sonhos lindos dos amantes sem intentos
E romper
com a tragédia
De viver sem
um sentido
Abraçando
só lamentos
Hei de
ver em seu sorriso
Teu
semblante revestido
De um
amor em mil momentos
Aqui e ali, principalmente nessa órbita
relacional de transições, onde o amor se estabelece em mil momentos, o que vale
para mim é o estabelecimento de um possível equilíbrio, quem sabe uma
homeostase. Preciso me sentir, nem que seja emocionalmente, à beira de um lago
translúcido onde o espelho d’água reflita as rugas que se estamparam em meu
rosto. Quem sabe, encher as conchas de minhas mãos com o líquido límpido
espraiando-o em todo o meu rosto. Depois, levantar os olhos e contemplar a
outra margem. Sentir o cheio das ramagens em flor e o sibilar dos inúmeros
pássaros selvagens.
Sinto-me convidado a mergulhar no lago,
mas tenho medo. Profundidades escondem segredos que podem machucar, e eu,
cansado de tantas machucaduras preciso curar meu interior e adquirir uma mínima
boa consciência. Por enquanto, fico com minha angústia, sendo provocado por uma
boa dose de razão que visa, ao final das contas, ajudar-me nas minhas vivas transições
e recomeços que se tornam extremamente necessárias e urgentes para mim. Já? Agora?
Quem sabe!
terça-feira, 7 de abril de 2020
Melhorando e Enfrentando os Altos e Baixos (Décimo texto)
“Seja qual for o
caminho que optarmos seguir, haverá altos e baixos. E isso é tudo”.
Martha Medeiros
Quando faço um exercício memorial, trazendo
à tona as lembranças dos dias em que vivi, me deparo com um quadro muito mal
pintado de situações, as mais diversas, dotadas de pinceladas desconexas e
multicoloridas, algumas acinzentadas. Todo esse quadro me lembra dos diversos
conflitos que transpassaram a minha alma.
Não nasci num berço esplêndido, mas na
complexidade das situações limites. Com meus pais, morei na Favela do Campinho
em Madureira – RJ. Não me queixo. Quando fecho os olhos, visualizo a ternura e
o carinho de minha família naquele lugar. Tudo o que sou hoje decorre dessa
dinâmica que sempre misturou altos e baixos, conflitos e acordos, perguntas e
respostas, dúvidas e mais dúvidas. Tenho uma rígida constatação de que a vida
em todos os seus níveis se organiza ou se desorganiza nos encontros e
desencontros que ocorrem na singularidade do ser-em-si e nos relacionamentos.
Dos muitos altos e baixos vivenciados
ao longo de minha existência, que poderiam gerar diversas narrativas, elenco um
em especial, por entendê-lo como uma viva situação de enfrentamento.
Em julho de 2004, vivi uma experiência
complexa quando, sofrendo um simples acidente, perdi completamente a visão do
olho direito. Eu estava num churrasco com amigos e num dado momento, em meio à
festa e a brincadeira, por estar assentado debaixo de uma árvore, levantei-me
precipitadamente e bati com a parte de trás da minha cabeça em um toco
saliente. Senti uma dor lancinante e o consequente movimento de substâncias
estranhas dentro do globo ocular. Sabia que alguma coisa estava acontecendo,
mas jamais poderia imaginar que aquilo era um descolamento de retina. Na mesma
semana marquei uma consulta com uma oftalmologista e descobri que eu havia
sofrido uma ruptura gigante. Para resumir a história, fui encaminhado para um
instituto especializado em cirurgias na retina, passando por duas intervenções
convencionais e sete outras a lazer. Num primeiro momento, em meio a toda a
adaptação, fiquei bem, mas depois tive uma catarata e não mais foi possível a
recuperação da visão. Perdi-a completamente.
Essa situação poderia ter me deixado
muito mal e até me imobilizado na vida, mas resolvi fazer a transição e não me
deixar abater por tais circunstâncias. Parece até um paralelo do esquete
alusivo ao “Joseph Klimber”, apresentado pela Companhia de Comédia Os Melhores
do Mundo. O fato é que sofri um acidente fortuito. Não tinha feito nada para
ele acontecer. Eu também não queria o descolamento da retina, mas ele ocorreu
em meu olho direito. Existem situações que não podem ser evitadas por pessoa
alguma. E não são justamente esses dois tipos de sofrimento que todos
vivenciamos? Os primeiros oriundos das escolhas possíveis. Os segundos, dos
acidentes fortuitos e não esperados.
Quando não tenho respostas em relação
ao inusitado, busco o caminho da teimosia, me reorganizando e acreditando na
possibilidade de sair das areias desérticas para o oásis; dos charcos para os
campos floridos; da tela branca para a obra de arte; do mosto para o bom vinho;
da chuva torrencial para o arco-íris. Diante do irônico da vida, quando as
perguntas “são” e as respostas “não-são”, preciso recorrer às coisas do
espírito. Alguns chamam isso de resiliência.
O poder da resiliência – essa notável
capacidade de se adaptar emocionalmente frente aos infortúnios da vida, me refaz,
gerando novas expectativas em relação à minha existência como ser-aí. Preciso
das boas expectativas, pois em diversos momentos cotidianos, sinto-me
frustrado. Infelizmente, desde os tempos mais remotos da tenra infância, fui condicionado
a acreditar num reconhecimento que somente poderia advir dos meus sucessos e vitórias,
especialmente os de ordem material. Todavia, posso contar nas mãos os êxitos
obtidos nessas duas esferas. Tive, obviamente, bons momentos, mas as lembranças
são maiores em relação às derrotas.
De fato, nunca celebrei muitos sucessos
ou vitórias na minha caminhada existencial. Aliás, sempre enfrentei o revés. Lembro-me
que na escola eu era sempre o último a ser escolhido para qualquer atividade
física, principalmente o futebol. Tudo bem, eu sempre fui ruim de bola, e
sempre sofri as mais fortes pressões do que hoje se chama bullyng. Vivi todos
os níveis de sofrimento, decorrentes dos apelidos e maus tratos oriundos dos
colegas de sala de aula. Só não sofria bullyng quando desenhava, porque nessa área,
modéstia às favas, eu mandava bem. Isso me levou bem cedo a fazer uma
constatação de que cada pessoa possui sua potencialidade particular. Cada um
tem o seu valor e realiza os feitos que pode realizar na singularidade dos seus
gestos. Isso jamais pode ser ofuscado.
Além desse sofrimento ocasionado pelas
péssimas brincadeiras de mau gosto oriundas dos colegas, uma pergunta sempre
ficou martelando a minha mente: Por que algumas coisas acontecem para algumas
pessoas e para outras não? Ora, algumas pessoas tiveram boas oportunidades
desde o nascimento; outras, nasceram condenadas a não alcançar coisa alguma. E
tem aquelas, ainda, que precisam batalhar muito para estabelecerem um mínimo
“lugar ao sol”. É estranho isso. Não escolhemos como nascer e onde nascer. Não
escolhemos nem mesmo o nosso nascimento. Podemos, talvez, escolher os(as)
amigos(as), e olhe lá.
Nesse mundo onde são parcas as minhas
escolhas pessoais, peregrino enfrentando os altos e baixos. Não me importuno
muito, afinal de contas, seria completamente sem graça um mar sem ondas, uma
floresta sem clareiras ou o um precipício sem o abismo, daqueles que dá até medo
olhar para o fundo.
Por isso, acho lindo o poema da Adélia,
por título: Tão bom Aqui. Ele me revela os altos e baixos pelos quais eu passo.
Me
escondo no porão para melhor aproveitar o dia e seu plantel de cigarras. Entrei
aqui para rezar, agradecer a Deus este conforto gigante. Meu corpo velho
descansa regalado, tenho sono e posso dormir. Tendo comido e dormido sem pagar.
O dia lá fora é quente, a água na bilha é fresca, acredito que sugestionamos
elétrons. Eu só quero saber do microcosmo, o de tanta realidade que nem há. Na
partícula visível de poeira em onda invisível dança a luz. Ao cheiro do café
minhas narinas vibram, alguém vai me chamar. Responderei amorosa, refeita de
sono bom. Fora que alguém me ama, eu nada sei de mim.
Gosto da Adélia assentada em minha roda
de conversa, deslindando poeticamente os altos e baixos sentidos por ela mesma,
mulher, alentando todas as múltiplas gentes que enfrentam suas aporias. Sua
poesia me toca. Sinto-me num microcosmo também. Sua prosa desliza fácil pelos
abismos da minha alma, parecendo preencher os espaços desconexos dos meus
sentidos. Doce Adélia que parece ter nome de flor. Talvez, ela mesma seja uma flor.
E ela se achega, uma vez mais, nomeando as palavras que revelam o susto e o terror
em Antes do nome:
Não
me importa a palavra, esta corriqueira. Quero é o esplêndido caos de onde
emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”, o “o”, o
“porém” e o “que”, esta incompreensível muleta que me apoia. Quem entender a
linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. A palavra é
disfarce de uma coisa grave, surda-muda, foi inventada para ser calada. Em
momento de graça, infrequentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a
mão. Puro susto e terror.
Momento de graça? Nem sempre. Mas vou perseverando
entre dias bons e dias maus, entre as palavras e suas polissemias que me ajudam
na organização de minha vida no tempo e no espaço, afinal de contas, ainda não
desisti de perseguir o sentido de bem-estar, se ele me for possível. O peixe
ainda está vivo na minha mão. Estou atemorizado, mas insisto em inaugurar
minhas linhagens e fundar meus reinos. Quem sabe, assim, enfrente melhor todas
as variações que me ocorrem entre a vida e a morte, entre os altos e baixos.
domingo, 5 de abril de 2020
Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)
“No
inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a
neutralidade em tempo de crise”.
Dante
Alighieri
Em meu recomeço, mediante o
enfrentamento dos meus altos e baixos, sinto-me ainda andarilho a atravessar a
ponte. Ela é ampla e comprida. Não consigo visualizar o outro lado. A neblina é
espessa. Não posso recuar. A peregrinação iniciada me incita a ir à frente,
passo a passo. Tento manter-me sóbrio e forte.
Embora eu tente, não tenho condições de
manter um alto padrão de potência em todos os momentos da minha complexa vida. Em
outras palavras, nem sempre estou bem e meu humor varia como as estações do ano.
Confesso que existem dias onde a angústia se instala forte na minha alma e eu
não tenho vontade de fazer coisa alguma. O passado me visita de forma intensa,
tentando me trazer o arrependimento do que eu fiz e do que eu não fiz. Fujo,
convictamente, dessas insanidades para não dar cabo de minha vida. Que pessoa
alguma me julgue, afinal de contas, quem nunca pensou em pausar a existência
quando diante de um grande conflito emocional? Não controlo meus selvagens
pensamentos. Quero asas como as de uma condor. Podem me rotular de insano. Recorro
a uma taça de vinho. Pego o violão e busco desanuviar meus pensamentos com boas
canções.
A potência para viver oscila. Ela chega
e vai, vai e chega como os movimentos das nuvens nos ares. E o bom da vida não é
essa experimentação de altos e baixos? A ausência de uma linearidade torna tudo
mais encantador. Uma hora está tudo bom. Em outra, está tudo ruim e a gente
caminha de boa, como dá.
Todos esses extremos estão diretamente
ligados à ideia de crise. Essa é uma dimensão de desestabilização sofrida por
aquele que se depara com o seu próprio mundo e com o seu próprio eu. Quando me
vejo como realmente eu sou e o mundo que me cerca, fico extremamente aflito, consternado
e em crise. Todas as vezes que, por uma situação ou outra, eu entro nessa crise,
e sofro com ela, também tenho a oportunidade de refazer as minhas ideias e as minhas
ações, ressignificando-as em minha própria vivência. Além disso, crise, no
ideograma mandarim identifica duas vertentes. A primeira é crise mesmo, ligada
à ideia de conflitos e guerras. A segunda tem a ver com a oportunidade.
Eu acho que as duas significações caminham
juntas. Não há possibilidades de se separar as duas dimensões, pois toda oportunidade
sempre motiva a sair da letargia e toda crise é um sinal de nova oportunidade,
mesmo que gestada no campo do sofrimento. Particularmente, eu gosto mais de
crise no seu sentido primeiro. No sentido segundo, é um acontecimento que pode
surgir como o resultado das possíveis escolhas feitas dentro do meio em que se
vive. Em geral, a oportunidade é a conquista decorrente de muita luta, muito
suor, muito desgaste, muita renúncia, muito esforço e muito sacrifício.
Preciso considerar que não tenho uma
boa impressão do sacrifício. Para ser sincero, não gosto da (i)lógica do
sacrifício. Para mim, pessoa alguma deve se sacrificar por coisa alguma. Embora
a palavra tenha a sua origem no latim, e signifique “fazer-se santo”, o que é
uma coisa boa, ela sempre denota uma manifestação de dor e sofrimento em sua
essência, talvez por causa da forte ênfase religiosa que a ornou no decorrer
dos séculos. O fato é que, por uma razão não tão explícita, sacrifício tem a
ver com coisa boa e coisa ruim, ao mesmo tempo. De qualquer forma, não gosto dos
sacrifícios. Acho que eles não acrescentam coisa alguma à vida de pessoa alguma.
O pior é que, em geral, se sacrifica o corpo, deixando-se de comer, de beber e
às vezes, exercitando-se com violência e agressões. Eu questiono tudo aquilo
que, em nome de um alto ideal como a beleza e a estética, interfira na saúde e na
integridade física das pessoas. Acho que o ideal mesmo é cultuar a beleza e
viver a vida sem pressões, respeitando os limites. Então, uma vida saudável
requer boa comida, boa bebida, brincadeiras e zoações, trabalho, sexo e
relacionamentos. É isso o que, de fato, vale a pena, o que gera Contentamentos:
Seu dia!
Seu tempo! Em tudo, sua hora.
Dia de
celebrar!
Tempo de
recriar!
Hora de
se refazer!
Celebrar
a vida, Recriar as relações, Refazer as utopias!
Vida que
passa a cada dia!
Relações
que se valorizam no tempo!
Utopias
que lampejam a toda hora!
Nos dias
que se passaram e que chegarão.
No tempo
que era ontem e já é amanhã.
Na hora
que se encanta com simplicidade e sorrisos.
Enfim,
contentamentos!
Não sou feliz! Sinto-me contente!
Felicidade é efêmera e passageira. É orgasmo que culmina e depois se esvai. Já
o contentamento é essa sempre viva possibilidade de se encontrar conteúdo e
sentido nas pequenas situações provocadas pelos encontros e desencontros
vivenciais. Contentamento ocorre quando a oportunidade surge como acaso, sem
interferências quaisquer, sem uma explicação lógica, como um milagre que
aparece no nada inundando o cotidiano de uma pessoa.
Na minha crise pessoal, tendo consciência
de meus limites, desejo estabilizar as minhas emoções, mantendo certa potência
em minha lida diária. Quem sabe meu companheiro de nome contentamento não me
ajude? E quando os intentos insanos tentarem encontrar uma estadia em minha
alma, serei furtivo e driblarei os dramas que se estruturem à minha frente. Mesmo
sem uma clareza quanto às oportunidades futuras que poderão me advir, ainda
assim, continuarei a me reinventar ao meio dia.
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