Recentemente apareceram alguns fios de cabelo branco. Eles não foram vistos por mim, mas por um amigo. Ele não somente os reparou, mas também enfatizou sua homérica gozação: “Tá ficando velho, hem?”
Não vou negar, dentro de alguns dias completarei 40 anos de idade. Acho que estou chegando quase no meio de toda a minha trajetória nesse planeta que gira sem parar pelo universo afora. Tenho uma expectativa silenciosa de viver até os 82 anos. Deixou de ser silenciosa.
Não vou negar também que a idéia de ficar velho não me assusta. Eu até estou gostando. É claro que limites já vão se impondo sobre a demanda dos dias, mas eu continuo driblando o cansaço e os dramas de saúde, ou da falta dela. De qualquer modo, não tenho medo da palavra velho. Até gosto.
E nesse afã por minha velhice, para não perder o costume, fico ansioso pelos dias que ainda não vivi. Essa minha ansiedade tem sido salutar, diferente das anteriores que me deixavam triste. E ela está desembocando na organização de uma festa num canto qualquer em cima da terra e debaixo do céu, regada ao saudosismo de uma infância que não volta mais, aos brinquedos e brincadeiras registrados na memória, a muita conversa fiada, quem sabe um vinho de excelente sabor, cheirosa boa comida e música da melhor qualidade. Usarei nessa festa uma camisa do Flamengo, um short preto e um chinelo desgastado pelo tempo. Deixei, propositalmente, o último ingrediente dessa festa para um destaque especial: os amigos e amigas. A festa somente será assim, tão profundamente festa, com eles, com elas...
E aí, depois da festa, vou querer viver os dias que ainda não vivi. A vida é curta e constato isso, de forma evidente, quando olho pra trás. Ontem era menino, hoje sou quarentão. Tenho cabelos brancos e não quero escondê-los.
Ora, não sou bobo e sei que não poderei viver todos os dias que ainda não vivi. Mas podem ter certeza de que vou me esforçar pra ser maisem muitas coisas e menosem outras não tão poucas. É que, por uma razão bastante singular, apesar de todas as peças que a vida tem me pregado, eu ainda continuo amando-a. Não a deixo por nada. Ela é bela. Mas quero que ela continue a me desafiar ao novo, sempre de novo.
Não, não pensem que perdi o juízo e vou me debandar por aí, fazendo o que der na telha.
Quero fazer tudo o que faço e tudo o que puder fazer de formas sempre novas. Sabe aquelas coisas de se desejar amar sempre a mesma mulher que nunca será a mesma, pois o que ela foi ontem virou novo ser hoje e se tornará outra amanhã? Pois é, não há trivialidades nem cotidianidades quando se tem sempre e de novo, novas simplicidades. Quando se pode ver o que diante dos olhos está com outras imagens, com outros focos, com outras luzes.
Quero dizer mais sim´s do que não´s. Acho que assim, e somente assim poderei viver os dias que ainda não vivi, e deixar as coisas acontecerem.
Ouso citar a Adélia Prado no seu singelo pensamento por título: Tempo
A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.
Sou um homem ocidental, latino-americano e que se fosse mulher amaria chamar-me Reticências.
E no dia 14 de agosto de 2010, além do céu, do frio, da estética, do beijo de qualquer jeito, vou querer faca, queijo, goiabada cascão e fome, como a Adélia.
O que é o amor? Me fizeram essa pergunta! E eu não tinha nenhuma resposta pronta. Ao contrário, fiquei confuso com a questão e me pus a refletir sobre o significado dessa expressão que abarca diversos sentimentos e reações físicas no corpo. Li e reli diversos poemas. Me percebi envolto pelas tramas e romances diversos que me trouxeram emoções. Ouvi e cantei músicas. A somatória de todas essas expressões era ainda, para mim, uma gota d’água no meio do oceano...
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