domingo, 5 de abril de 2020

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

        
“No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.
Dante Alighieri

         Em meu recomeço, mediante o enfrentamento dos meus altos e baixos, sinto-me ainda andarilho a atravessar a ponte. Ela é ampla e comprida. Não consigo visualizar o outro lado. A neblina é espessa. Não posso recuar. A peregrinação iniciada me incita a ir à frente, passo a passo. Tento manter-me sóbrio e forte.
         Embora eu tente, não tenho condições de manter um alto padrão de potência em todos os momentos da minha complexa vida. Em outras palavras, nem sempre estou bem e meu humor varia como as estações do ano. Confesso que existem dias onde a angústia se instala forte na minha alma e eu não tenho vontade de fazer coisa alguma. O passado me visita de forma intensa, tentando me trazer o arrependimento do que eu fiz e do que eu não fiz. Fujo, convictamente, dessas insanidades para não dar cabo de minha vida. Que pessoa alguma me julgue, afinal de contas, quem nunca pensou em pausar a existência quando diante de um grande conflito emocional? Não controlo meus selvagens pensamentos. Quero asas como as de uma condor. Podem me rotular de insano. Recorro a uma taça de vinho. Pego o violão e busco desanuviar meus pensamentos com boas canções.
         A potência para viver oscila. Ela chega e vai, vai e chega como os movimentos das nuvens nos ares. E o bom da vida não é essa experimentação de altos e baixos? A ausência de uma linearidade torna tudo mais encantador. Uma hora está tudo bom. Em outra, está tudo ruim e a gente caminha de boa, como dá.
         Todos esses extremos estão diretamente ligados à ideia de crise. Essa é uma dimensão de desestabilização sofrida por aquele que se depara com o seu próprio mundo e com o seu próprio eu. Quando me vejo como realmente eu sou e o mundo que me cerca, fico extremamente aflito, consternado e em crise. Todas as vezes que, por uma situação ou outra, eu entro nessa crise, e sofro com ela, também tenho a oportunidade de refazer as minhas ideias e as minhas ações, ressignificando-as em minha própria vivência. Além disso, crise, no ideograma mandarim identifica duas vertentes. A primeira é crise mesmo, ligada à ideia de conflitos e guerras. A segunda tem a ver com a oportunidade.
         Eu acho que as duas significações caminham juntas. Não há possibilidades de se separar as duas dimensões, pois toda oportunidade sempre motiva a sair da letargia e toda crise é um sinal de nova oportunidade, mesmo que gestada no campo do sofrimento. Particularmente, eu gosto mais de crise no seu sentido primeiro. No sentido segundo, é um acontecimento que pode surgir como o resultado das possíveis escolhas feitas dentro do meio em que se vive. Em geral, a oportunidade é a conquista decorrente de muita luta, muito suor, muito desgaste, muita renúncia, muito esforço e muito sacrifício.
         Preciso considerar que não tenho uma boa impressão do sacrifício. Para ser sincero, não gosto da (i)lógica do sacrifício. Para mim, pessoa alguma deve se sacrificar por coisa alguma. Embora a palavra tenha a sua origem no latim, e signifique “fazer-se santo”, o que é uma coisa boa, ela sempre denota uma manifestação de dor e sofrimento em sua essência, talvez por causa da forte ênfase religiosa que a ornou no decorrer dos séculos. O fato é que, por uma razão não tão explícita, sacrifício tem a ver com coisa boa e coisa ruim, ao mesmo tempo. De qualquer forma, não gosto dos sacrifícios. Acho que eles não acrescentam coisa alguma à vida de pessoa alguma. O pior é que, em geral, se sacrifica o corpo, deixando-se de comer, de beber e às vezes, exercitando-se com violência e agressões. Eu questiono tudo aquilo que, em nome de um alto ideal como a beleza e a estética, interfira na saúde e na integridade física das pessoas. Acho que o ideal mesmo é cultuar a beleza e viver a vida sem pressões, respeitando os limites. Então, uma vida saudável requer boa comida, boa bebida, brincadeiras e zoações, trabalho, sexo e relacionamentos. É isso o que, de fato, vale a pena, o que gera Contentamentos:
Seu dia! Seu tempo! Em tudo, sua hora.
Dia de celebrar!
Tempo de recriar!
Hora de se refazer!
Celebrar a vida, Recriar as relações, Refazer as utopias!
Vida que passa a cada dia!
Relações que se valorizam no tempo!
Utopias que lampejam a toda hora!
Nos dias que se passaram e que chegarão.
No tempo que era ontem e já é amanhã.
Na hora que se encanta com simplicidade e sorrisos.
Enfim, contentamentos!

         Não sou feliz! Sinto-me contente! Felicidade é efêmera e passageira. É orgasmo que culmina e depois se esvai. Já o contentamento é essa sempre viva possibilidade de se encontrar conteúdo e sentido nas pequenas situações provocadas pelos encontros e desencontros vivenciais. Contentamento ocorre quando a oportunidade surge como acaso, sem interferências quaisquer, sem uma explicação lógica, como um milagre que aparece no nada inundando o cotidiano de uma pessoa.
         Na minha crise pessoal, tendo consciência de meus limites, desejo estabilizar as minhas emoções, mantendo certa potência em minha lida diária. Quem sabe meu companheiro de nome contentamento não me ajude? E quando os intentos insanos tentarem encontrar uma estadia em minha alma, serei furtivo e driblarei os dramas que se estruturem à minha frente. Mesmo sem uma clareza quanto às oportunidades futuras que poderão me advir, ainda assim, continuarei a me reinventar ao meio dia.

Revista Foco da Fé

Com alegria, quero compartilhar com os amigos mais uma publicação. Agradeço aos autores e aos co-organizadores pela parceria. Valeu Mois...