quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Um Natal com contentamentos...


Muitas coisas nos aconteceram em 2015. De fato, muitas dificuldades foram vivenciadas por todas as pessoas de bem neste ano. Todavia, estamos chegando ao fim de mais um ciclo em nossas jornadas existenciais. Neste ano, já quase passado, muitos eventos ocorreram, alguns positivos, outros negativos, e eles trouxeram alegrias ou desorientações. Em todos eles, saímos mais fortes e com o olhar confiante de que as coisas podiam melhorar. Podem melhorar! Hão de melhorar!
E por estarmos melhores ou esperarmos as coisas melhores, precisamos pausar agora a nossa jornada para agradecer aos céus tudo de oportuno que nos ocorreu. O Natal é sempre um convite para vislumbrarmos a serenidade do menino infante na manjedoura e assim recriarmos a nossa trajetória com os passos firmados em humildade.
Para este tipo de culto à simplicidade, neste tempo de celebrações alusivas ao fim do ano, acho até desnecessária a festa, propriamente dita, mas a necessária companhia das pessoas amigas a quem se quer bem.
Sendo assim, quero desejar a todos(as) um Natal cheio de contentamentos, não necessariamente feliz, pois felicidade é passageira; e um Ano de 2016 relativamente bom e cheio de satisfações pessoais e comunitárias. Tudo isso regado a boas palavras, educação, gentilezas e muita esperança.
Moisés Coppe.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Divagações sobre a música "Faroeste Caboclo" - Legião Urbana


Uma das características do Rock, pelo menos em sua concepção musical incipiente, tem a ver com a manifestação contra a cultura ou contracultura. Nessa perspectiva insere-se a composição musical intitulada “Faroeste Caboclo” – 1990, de Renato Russo e Dado Dolabela.
A canção narra, de forma ficcional, a trajetória de João de Santo Cristo, uma personagem que tendo nascido em condições econômicas adversas, teve que se virar na vida de acordo com os marcos categoriais que ele aprendeu ou apreendeu no decorrer de sua possível existência.
A canção aponta os altos e baixos experimentados, vivenciados e escolhidos pelo Santo Cristo em sua vivência na cidade de Brasília – Distrito Federal.
Basicamente, como afirmam os compositores, Santo Cristo se perdeu quando presenciou o assassinato do pai, efetivado por um policial. Depois de diversas aventuras em sua cidade natal, Santo Cristo resolve ir para Brasília com a finalidade de experimentar nova vida. Ao chegar à cidade, vivencia a experiência de aprendiz de carpinteiro, passando posteriormente a se envolver no tráfico de drogas e na “bandidagem”.
No enredo, em meio aos dramas e contradições de sua trajetória, ele se apaixona pela “Maria Rita, a menina linda a quem ele jura o seu amor”. O desenrolar da narrativa, para ser bem lacônico, tem a ver com os encontros e desencontros desse amor e a morte de Santo Cristo e Maria Rita. Ao final, a canção aponta o surgimento de mitos sobre quem foi o tal de Santo Cristo. Isso fica evidente na seguinte frase: “Ele queria era falar com o presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”. Como se percebe, não era esse o propósito inicial, mas foi o que ficou para a interpretação mítica das gentes, em geral.
Logicamente, a música apresenta uma série de possibilidades para hermenêuticas em diversos campos das ciências sociais e humanas.
Entretanto, nossa abordagem visa analisar dois aspectos centrais, ligados ao tema da psicologia. O primeiro refere-se à perspectiva da psicologia social e de como o meio social, evidenciado principalmente pela convivência entre pessoas, pode influenciar o subjetivo de determinada pessoa. O segundo refere-se à ampla discussão que envolve a perspectiva do desenvolvimento humano, especialmente no que se refere a categorias inatas ou adquiridas.
Uma observação se torna necessária nessa nossa abordagem, e ela se refere a impossibilidade de aprofundarmos as duas perspectivas em relação à música. Portanto, nossa abordagem será, tão somente, introdutória, merecendo uma dialogação futura maior.

1. Santo Cristo e a psicologia social;
A psicologia social caracteriza-se, basicamente, como um ramo da psicologia moderna que estuda a interdependência, interação e a influência entre as pessoas. Isso denota um processo onde pessoa alguma pode viver ou mesmo angariar sua autonomia sem a participação efetiva de seus semelhantes, dentro de determinado contexto cultura e social.
Esse sucinto apontamento indica que a vida das pessoas e seus possíveis desenvolvimentos em âmbito subjetivo e social decorrem do processo de interação. Nessa perspectiva, o personagem João de Santo Cristo é ao mesmo tempo influenciado pelo meio e agente de mudanças dentro do seu nicho de mundivivência.


2. Santo Cristo e seu desenvolvimento humano;
Aliada a constatação anterior, a dinâmica do desenvolvimento biopsicossocial, inerente a todo ser humano, consiste em conhecimentos inatos, que fazem parte da própria constituição física de cada ser humano, bem como de conhecimentos adquiridos nas múltiplas relações com os agrupamentos humanos.
Assim, a música expressa as características de João, mais precisamente aquelas que lhe são inatas, próprias da sua natureza, como por exemplo: sua coragem e  ousadia. Mas também suas características adquiridas, por causa da vivência com outras pessoas e os respectivos acontecimentos que envolveram sua vida.

Considerações Finais

Com base na música e nas nossas observações singulares que aqui fizemos, enfatizamos, finalmente, que o desenvolvimento biopsicossocial de João se dá mediante a conjunção de diversos fatores, internos e externos, assim como ocorre na vida real, na vida de cada um de nós.

sábado, 18 de abril de 2015

Reforma da pesca faz a revolução em Santa Catarina (Texto Histórico sobre Paulo Wright)


Paulo Stuart Wright é natural de Joaçaba em Santa Catarina. Filho de missionários – Rev. Latran e Da. Bela Wright foram seus genitores – adquiriu os conhecimentos primários na Escola Evangélica de Joaçaba de onde se transferiu para o Instituto Educacional de Passo Fundo, a fim de cursar o ginásio e o científico, e, posteriormente para o “College of the Ozanks”, no estado de Arkansas, EUA, onde se graduou em sociologia e política. Posteriormente, especializou-se em estudos de população, na universidade da Flórida, também nos Estados Unidos, após o que volta ao Brasil. Na terra de seus pais, foi um dos fundadores de um expressivo grupo contrario à discriminação racial, na universidade da Flórida. Não obstante haver concluído com brilhantismo todos os cursos, sentiu necessidade, à certa altura de sua vida, de tomar um contato mais íntimo com as classes trabalhadoras a fim de conhecer, na realidade, suas reações sociológicas. Em 1956, quando se achava em nova viagem aos EUA, fez-se trabalhador braçal, no setor da construção civil, em Los Angeles. No ano seguinte, voltou ao Brasil e se empregou como ajudante de torneiro-mecânico numa outra indústria de São Paulo. Em 1960, foi secretário regional da União Cristã de Estudantes do Brasil e, no ano seguinte, Secretário da D. R. da Fronteira Sudoeste[1], em Joaçaba. Pouco depois, foi convidado pelo governador do estado para dirigir a imprensa oficial, de onde saiu para dar início à organização da FECOPESCA – Federação das Cooperativas de Pesca de Santa Catarina.
Jovem, inteligente e dinâmico, e reunindo preciosa experiência, Paulo Wright é, hoje, figura quase simbólica para os homens-do-mar do seu estado. Seu nome, ao lado do que leva a organização de qual é o autor, é tido como sinônimo de redenção pelos milhares de pescadores sulistas.[2]


[1] Delegado Regional.
[2] Texto escrito pó Carlos Pizarro em 1964. Revista Cruz de Malta. Ano XXXVI n• 1 – 1964. P. 12 Jan – Fev.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Carta de Desligamento da Igreja Metodista no Brasil


JUIZ DE FORA, Páscoa de 2015 – Domingo da Ressurreição

Palavras iniciais
Combati o bom combate
Completei a carreira
Guardei a fé.
II Timóteo 4.7

Amigos e amigas que me conquistaram na trajetória pastoral,
Graça e paz!

Na epígrafe em evidência, o apóstolo Paulo, no contexto da segunda carta a Timóteo, nos estágios finais de sua própria vida, revela um resumo de sua jornada espiritual com Cristo. As três frases constituem-se num tripé fundamental para toda pessoa que deseja de todo o coração, ser fiel à carreira a que se propõe. Segundo William Barclay, teólogo escocês, é provável que o apóstolo Paulo tenha feito uma analogia entre a sua vida e os jogos romanos, usuais em seu tempo. Por exemplo, ao falar de combate, alude à competição que ocorria na arena do circo romano. Combater o bom combate refere-se, então, à consciente disposição do atleta em doar energia numa boa e justa luta independente de ganhar ou perder. No que se refere a completar a carreira, Barclay afirma que “é fácil começar; difícil terminar. Na vida é necessária a resistência, e muita gente não a tem”. Entretanto, Paulo declara que concluiu bem a carreira a que se propôs. E, em terceiro lugar, Paulo afirma ter guardado a fé, numa possível alusão ao fato de que ele honrou sua missão, sendo fiel a Cristo. (BARCLAY: The second letter to Timothy. Disponível em ipuniao.org.br/ biblioteca).
Longe de parecer-me com o referido apóstolo, tomo emprestadas as suas palavras e o comentário devocional de Barclay, para dizer: combati o bom combate, guardei a fé, mas não vou completar a carreira, pelo menos no campo ministerial na igreja metodista no Brasil. Entretanto, fiz o melhor que pude e com sincero sentimento de dedicação, pastoreei com responsabilidade os paroquianos a mim confiados, honrando em meu ministério Cristo, meu Senhor.
Numa perspectiva pessoal, esta será a última vez que escrevo a essa que foi sempre minha amada igreja. Quanto aos (às) amigos (as), continuarei a relatar meus sentimentos, num campo mais amplo e livre. De antemão, gostaria muito que todos considerassem esta minha narrativa na perspectiva de uma alma inquieta, que sempre desejou contribuir sobejamente pela causa do Reino de Deus. Em segundo lugar, espero que este comunicado seja acolhido como a expressão de alguém que espera o bem estar para todas as pessoas.


Desencantamento com a igreja metodista
Para os que acham que a minha decisão foi impensada ou tomada puramente no campo das emoções, quero deixar claro que minha inquietação com a igreja metodista iniciou-se em 2006, no campo de guerra chamado concílio geral.
Neste conclave, marcado por um alto índice de politicagem suja nos bastidores e corredores, antes e durante as sessões, acordos espúrios foram efetivados, gerando umas das mais insanas eleições da história do metodismo em terras brasileiras. Sempre ouvi em testemunhos múltiplos oriundos de amigos (as), que a eleição de um bispo ou de uma episcopisa se dava num campo de sensibilidade espiritual, onde os (as) pastores (as) reconheciam entre os pares os mais capacitados pastoralmente para o exercício de pastorear pastores (as). Entretanto, o clima pesado das eleições em 2006, a decisão contra a proposição ecumênica da igreja metodista e a patinação administrativa, aliada a hipocrisias díspares, me fizeram sofrer um primeiro processo de desencantamento. A igreja era para mim a namorada ideal, com suas imperfeições, é claro, mas ideal em minhas perspectivas pontuais. Muito do que conquistei em minha vida devo a igreja metodista, como por exemplo, os rudimentos da fé, a formação teológica e os valores que fizeram de mim uma pessoa melhor. Adjunto a essas conquistas, aprendi a ser transparente por demais. A primeira sessão do concílio em Aracruz finalizou-se, sem finalizar-se. Veio a segunda sessão, pois todas as temáticas administrativas estavam em aberto, entretanto novas conciliações esquizofrênicas aconteceram em São Bernardo do Campo, na Umesp. Os conchavos por debaixo dos panos continuaram. Fingiu-se a conciliação, mas a ferida aberta na primeira sessão, imensa por sinal, ficou aberta.

  
Debate de ideias, defesa das pessoas
Com a chegada do atual bispo da IV Região, em 2007, as expectativas eram grandes e alvissareiras. Teríamos um tempo diferenciado para a região? No concílio regional de 2006, fui eleito para a Coordenação regional de ação missionária – Coream (2007-2008). Na mesa, já no exercício da função, debatemos questões específicas inerentes à natureza da igreja metodista na IV Região, e logicamente, muitas indisposições advieram, pois a tonalidade impositiva da “presidência” se tornou evidente. Embora ciente de que as questões estavam sendo tratadas no campo das ideias e não no campo pessoal, decorreu dessa relação o surgimento de uma série de comentários, principalmente oriundos dos meus pares, que afirmavam que eu estava me levantando contra o bispo da região. Todavia, longe de mim estava a ideia de importunar qualquer pessoa dentro dos círculos sociais e eclesiásticos. Ao contrário, estava tão somente, defendendo os interesses da IV Região, tendo sido legitimamente eleito em concílio para a função. Inclusive, em uma reunião afirmei em alto e bom som que não estávamos contra o bispo. Estávamos querendo que as demandas regionais dessem muito certo, como até hoje muitos querem – Eu abandonei essa ideia. E por causa de palavras como essa e outras proposições, os comentários se ampliaram. Na época não dei muita atenção. Mas ultimamente, em meio a múltiplas revisões de vida, tenho me debruçado em agonia. Minha família muito sofreu, por ouvir o que não precisava ouvir. Enfim, minha intenção sempre foi a de trabalhar em prol do bem estar social, segundo o princípio bíblico de buscar o Reino de Deus e sua justiça.


Concílio Regional de 2008
No concílio regional de 2008, confesso ter ficado muito indignado quando percebi ter sido vitimado por colegas que usaram o meu nome de forma indevida, inclusive acusando-me de armar um golpe contra o bispo, em virtude de estar participando do movimento: Metodistas Confessantes. Detesto a ideia de ver ou saber que meu nome está sendo talhado em círculo alheio. A tal sala de oração, neste mesmo concílio, que se transformou em covil de salteadores – situação da qual o bispo tomou conhecimento – corroborou com a injustiça e desfez os princípios sagrados do Reino de Deus. De minha parte, gosto muito da conversa ao pé da mesa, embora, naquele tempo e na atualidade, elas não sejam muito permitidas, afinal de contas, o que vale é seguir a “visão” imposta.
Do meu envolvimento com os Metodistas Confessantes, como a maioria sabe, surgiu a questão dos irmãos de Belém em 2010. Pela amizade e o carinho que nutria, especialmente por um irmão em específico, o qual conheci no Instituto Metodista Granbery, agi com o intuito de tentar reverter um quadro que, na minha concepção pessoal, estava sendo conduzido de forma indevida e poderia ter um desfecho pastoral emblemático e significativo. Sempre acreditei no pluralismo da igreja e na sua sempre constante busca por unidade. Sempre acreditei que o mais belo em toda a trajetória da igreja metodista estava figurado no fato dela saber lidar com as suas diferenças de forma conciliar. De fato, somos diferentes e plurais, mas isso não nos impede de termos objetivos comuns, conquistados no terreno do diálogo franco, honesto e preocupado com o bem estar das pessoas, pelo menos em sua maior parte. Em suma, nossa identidade ou o que se pensa dela, é marcada pela síntese das contradições. Essa é a minha concepção.
Na mesma época supracitada, fiquei triste ao saber, que por ocasião de uma visita a um irmão e sua família, que moravam na cidade de Belisário, juntamente com vários outros irmãos e irmãs da cidade de Juiz de Fora, espalhou-se a notícia de que eu estava me lançando candidato a bispo. Fiquei estupefato com a fofoca. Assimilei-a com certo humor e o tempo, sempre meu grande aliado, mostrou o quanto os burburinhos estavam equivocados.


Águas passadas não movem moinhos
Dizem por aí que "águas passadas não movem moinhos", o que compartilho, mas não podemos nos esquecer de que as águas passadas podem arruinar e até apodrecer o moinho. Sendo assim, não quero mais ver os moinhos que giram em minha vida serem arruinados por coisa ou pessoa alguma. Na minha concepção, alguns moinhos precisam ser abandonados à própria sorte e lançados ao mar do esquecimento, para usar aqui uma figura bíblica.
Outrossim, expresso a todos que a minha vida sempre foi um livro aberto. Casado há 24 anos com uma mulher especial e companheira, tendo um filho e uma filha, ambos na adolescência, sempre me preocupei com a minha vida familiar. Ultimamente, estava fazendo minha família sofrer, pois eu mesmo estava em sofrimento. Fiquei deprimido por três semanas. Não tinha vontade de sair de casa. Procurei um médico e ele me disse que o remédio que eu precisava administrar não poderia ser receitado por ele. Sim, meu problema era a igreja metodista no Brasil. Não a sua belíssima e rica doutrina, mas os elementos que compõem sua rasa visão na atualidade.
Em minhas intermináveis buscas por sentido em relação ao momento que estava vivenciando, a memória levou-me a lembrar-me do meu encontro diferenciado com Cristo aos 16 anos, na igreja metodista do bairro Monte Castelo – JF. Entretanto, antes de fazer meus votos na referida igreja, pesquisei e visitei diversas outras denominações com o finalidade de saber onde eu poderia desenvolver meus dons e talentos. Enfim, descobri que a que mais me apetecia era a metodista, por três fatores específicos:
1. Abertura para a ecumenicidade numa dimensão criteriosa;
2. Perspectiva conciliar com amplas participações dos leigos;
3. Teologia da graça;

Esses elementos me alimentaram a alma e me deram contentamento para a jornada cristã. Trabalhei sempre entendendo a nossa pluralidade. Defendi perspectivas, valorizando ideias alheias e até diferentes das minhas. Nunca fui um conservador ou tradicional. Sempre lutei e preguei pela boa renovação da igreja. Sempre entendi que uma igreja viva precisava de novas inspirações para a vida pública. No metodismo, sempre encontrei isso.
Mas agora, os tempos são outros. Eu estou completamente boquiaberto com o volume de proposições neopentecostais no arcabouço da igreja metodista no Brasil. O fato é que uma instituição como a metodista precisa de dinheiro para se manter estruturalmente. Antes, o dinheiro provinha de instituições ecumênicas e das Universidades Metodistas. Hoje, o caminho se dá pela arrecadação financeira indiscriminada. Recentemente, encontrei uma manifestação em rede social, convidando pessoas para comprarem a “água consagrada”. Nesse arcabouço, entristece-me saber que líderes nas igrejas estão oprimindo seus membros com doutrinas espúrias e campanhas fraudulentas. Entristece-me saber das campanhas financeiras travestidas de campanhas de prosperidade. Entristece-me saber que muitos estão evidenciando o assédio moral sobre os membros da igreja, quando estes se opõem aos famigerados “encontros com Deus(?)”. Entristece-me saber que os bons são os que fazem a igreja encher-se a qualquer custo. Entristece-me saber que a boa fé dos(as) irmãos(ãs) é usada para que a(o) pastora(or) tenha um alto salário. A(O) obreira(o) é digna(o) do seu salário, mas é indignidade explorar a fé alheia. Entristece-me saber que as assessorias estão preocupadas, em sua maioria, com a posição social e o status quo. Pastores(as) estão abandonados(as) à própria sorte. Muitos só permanecem por falta de opção. Poderia citar uns cinquenta, sem pestanejar. Isso só na IV Região. Nunca se chegou a um nível tão grandioso de doenças emocionais e físicas, como na atualidade, além de crises homéricas. Nos corredores eclesiásticos, clamores, os mais diversos, se intercruzam desvelando problemas, no mínimo, assustadores.


Cansaço gerado pela teimosia
Eu não sou perfeito e nem padrão de santidade amorfa para ninguém, mas sempre zelei pelo púlpito e pela prática pastoral equilibrada. Luto pelas pessoas quando as vejo injustiçadas pelo sistema. Foi essa igreja quem me conquistou para o ministério pastoral e quem me preparou para ser o que hoje sou. Amei profundamente e me desiludi profundamente quando suas principais balizas foram alteradas, fazendo ruir o edifício histórico que apresentava os monumentos de uma sempre viva tradição wesleyana. Não compactuo com:
1.      Autoritarismo dos líderes eclesiásticos, com aceitação muda de imposições ditatoriais;
2.      Visão do G12;
3.      Igreja em células;
4.      Favorecimento dos bajuladores ou os que “puxam o saco”;
5.      Chacotas e piadinhas sobre os que não se adéquam;

Eu, de fato, hoje, não consigo mais defender ou mesmo aplicar à dinâmica do meu ministério pessoal os procedimentos burocráticos solicitados pela igreja metodista, em geral. Não consigo mais ser submisso ao que não acredito. Se no passado assim agi, foi muito mais por acreditar na possibilidade de transformação. Mas ela não veio; ela não ocorreu, ou veio de um jeito estranho ao meu olhar e ao olhar de muitos.
Pode parecer fuga ou coisa do gênero, mas não quero mais lutar contra os monstros imaginários que perambulam por esta instituição. Ademais, o que julgo importante não serve para a “visão” atual. Cansei, e não mais quero exercer o meu direito de falar e de me expor como muitas vezes o fiz. Cansei de tudo isso. Recolho-me à minha insignificância. Todas essas reflexões nascem no terreno da angústia e se aguçam ainda mais quando percebo que sou apenas um joguete nas mãos da instituição. Não quero mais sê-lo.
Assim, lanço-me à sorte, deixando uma trajetória pastoral de 22 anos, começada na igreja metodista de Conselheiro Lafaiete (1992) – meu primeiro desafio missionário, passando pelas igrejas metodistas de Goiabeiras – ES (1997-1999); Central de Belo Horizonte (2000-2003); Benfica em Juiz de Fora (2004-2005); Pastoral do Granbery (2006-2007); Jardinópolis em Juiz de Fora (2007); e culminando agora na igreja metodista Bela Aurora (2008-2015).


O exercício do ministério pastoral
Para mim, ainda, o exercício da carreira ministerial em uma comunidade que tipifica sempre a esperança de um novo amanhecer é especial, mesmo quando o momento é um crepúsculo cinzento e nebuloso.
Juro que tentei salvaguardar a minha alma das intempéries do dia-a-dia para manter-me sóbrio no exercer de minha prática na igreja local. Mas, em vão! Os mandos e desmandos oriundos de um processo sem base histórica, sem o mínimo de leitura criteriosa da tradição, deixaram-me sempre com uma pulga atrás da orelha e múltiplas inquietações no exercício de minha função.
Deixo o exercício ministerial na igreja metodista com honra. Não dividi a comunidade e nem convidei qualquer pessoa para sair comigo.
Saio sem nenhuma perspectiva profissional, tampouco atividade remunerativa que me auxilie financeiramente, pelo menos por enquanto. Corro o risco da minha decisão, acompanhado de minha família. Como já se tornou evidente em minhas palavras, perdi todas as coisas, porque perdi a alegria – esse elã vital – em exercer, prontamente, minhas autênticas inclinações e convicções pastorais. Mas vou recuperá-la, brevemente.  Mesmo assim, quero deixar claro que deixo de ser pastor da igreja metodista no Brasil, mas não deixo de ser um pastor metodista!


Nãos!
E para os incautos, um ditoso aviso: coisa alguma me desabona no campo da moral. Não estou em pecado. Não roubo. Não adultero. Não sou relapso com a obra. Não prego mal e sem fundamentos bíblicos. Não organizo o culto nas coxas. Não sou um teólogo fraco. Não ministro equivocadamente os sacramentos. Não maltrato as pessoas. Não sou preguiçoso. Não sou maledicente. Não tenho medo. Não recuo diante dos desafios que valem à pena. Não me considero melhor e nem pior do que qualquer pessoa. Sou, sim, tomado continuamente por um angustiante sentimento de inadequação e de desencantamento para com a igreja metodista.
Essas deformações que se instalaram em minha alma me fazem desistir do ministério na igreja metodista no Brasil, mas não do ministério pastoral para o qual Deus me chamou.


Entrega das credenciais
Ao longo dos últimos nove anos, fui convidado a entregar minhas credenciais. Diziam: “Se não está satisfeito, então sai! Pois a igreja metodista agora é assim!” Muitos, inclusive, torceram para eu entregar as credenciais. Demorei a tomar essa decisão, pois para mim, entregar uma credencial é mero ato institucional e sem valor espiritual. Mesmo porque o meu ministério pastoral pessoa alguma pode tirar! Além do mais, por causa da igreja metodista em Bela Aurora, segurei a entrega até onde pude! Hoje, continuo submisso a Deus e ao chamado que Ele me fez. Hoje, quero tão somente a possibilidade de exercer meu ministério. Hoje, almejo a oportunidade de expressar a minha fé em consonância com outros, visando o bem estar comum e integral. Hoje, não quero mais continuar nesta igreja metodista, pois seus mandos e desmandos atuais provocam-me náuseas. Não existem mais as construções no campo conciliar, somente a imposição de visões inconsistentes. Sempre me preparei para assessorar a medida do possível as instâncias da igreja, visando a sua maior aproximação à dinâmica do Reino de Deus. Acontece que, por uma razão óbvia, elencada em várias frases neste texto, minhas emoções foram determinantemente afetadas e me fizeram uma pessoa triste. Mas eu não sou assim!
Sendo assim, entreguei as minhas credenciais à igreja metodista no Brasil. Para os que torceram por isso, dedico minhas credenciais. Tomem-na nas mãos e celebrem os despojos como bem pretenderem.


Palavras finais
Uma pergunta agora se faz necessária. Quais coisas ficam para mim?
Ficam para mim, tão somente, as pessoas queridas que tornaram minha caminhada menos áspera, as boas memórias e os rastros de coisas boas realizadas ao longo dos últimos anos.
Peço perdão aos que se decepcionaram com a minha decisão. Peço perdão aos que ficaram chateados. Mas que todos saibam que eu tentei permanecer. Foi-me impossível, por causa das afrontas que sofri a ainda sofro por parte de gente que nunca conversou comigo.
Portanto, já desligado oficialmente da igreja metodista no Brasil, lanço-me às proposições que o mundo me apresentar.
Não citarei nomes aqui, mesmo porque aos amigos eu já confidenciei todos os meus sentimentos. Saio com a benção de gente que gosta de mim. Saio com a benção de quem conhece a minha vida. Saio com a benção de gente que eu respeito profundamente.
No mais, só posso agradecer o que se passou, lamentar profundamente o caminho proposto para a igreja metodista na atualidade, e confiar na trajetória que em algum momento, se abrirá para mim, ou não.
Kírie Eleyson.

Moisés Abdon Coppe

Ex-pastor da igreja metodista no Brasil

quarta-feira, 11 de março de 2015

Vou num vôo & Virando as páginas

Sim! Eu vou!
Vou porque preciso ir.
Vou porque me sinto mais livre assim.
Vou porque meu vôo é dos pássaros que nunca experimentaram a gaiola.
Vôo pra tornar distante os que almejam
Desestabilizar o canto do encanto.
Sim, vou num vôo pra qualquer canto.



Virar algumas páginas é difícil.
O livro está velho,
As páginas amareladas e frágeis,
Um odor fétido e irritante sobe às narinas.
Brotam os espirros.
Mas é preciso virar as páginas,
Há o risco em se rasgar cada uma delas...
Mas é preciso virá-las,
Nem que para isso, a página seja arrancada
Sei, o livro ficará mutilado,
Às vezes, é preciso transgredir...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Do recomeço


A vida da gente é feita de recomeços. Hoje, recomeço minha jornada, principalmente salvaguardando minhas emoções e espiritualidade. Preciso dessa salvaguarda, pois sou homem passional e envolvo-me rapidamente com as inerentes paixões das pessoas, inclusive sendo empático.
Por causa desse nível de envolvimento, e de intimidade também, tudo fica muito exposto e a exposição nem sempre é vantajosa. Há uma linha tênue entre a pessoalidade de cada um e as situações externas. Na passagem dessa linha, entre os abscônditos da intimidade de pessoa qualquer e a realidade nos campos das relações interpessoais, tudo se torna muito frágil e volátil, inclusive favorecendo os acidentes de percurso.
Grande parte destes acidentes refere-se ao mau entendimento do que foi discutido num foro íntimo. Aliás, o problema mais complexo refere-se à dúbia interpretação, que, como nau sem bússola, perde referências e se lança a sabor das correntes marítimas. É muito duro quando as interpretações ocorrem num terreno sem limites. O pior é quando tais interpretações ganham a alcunha de fatos, mesmo tendo sido sugeridas no campo das conversas informais. Quando isso ocorre, as angústias decorrentes da não possibilidade de defesa são evidentes; com o leite derramado, o caminho é, tão somente, juntar o balde, pegar o rodo e espraiar o pano de chão, com a finalidade de operar a limpeza, se possível. Doutra forma, somente o tempo poderá elaborar a cicatriz.
De minha parte, recolho-me ao profundo de minha alma com a finalidade de avaliar a vida e recomeçar com outros princípios. Nunca é tarde para um recomeço. E, dessa vez, prometo não me expor e não expor quem quer que seja, pois, ao final das contas, as pessoas ficam chateadas e se distanciam.
Sim, é preciso salvaguardar as emoções e a espiritualidade. É preciso, igualmente, seguir alguns conselhos clássicos de nossa cultura popular. Aprendi com meu pai um adágio que assim dizia: “Coração dos outros é terra que ninguém pisa”. Acho que esse dito tem sua parcela de verdade. Então, pra quê andar no terreno alheio se já tenho o meu próprio terreno para explorar?
Em dias sombrios, quando a relação claro-escuro não está definida e tudo se faz e se refaz e tons de cinza, o melhor é o recolhimento na dimensão do silêncio. Silenciar a alma e a inquietação para experimentar a quietude; se desfazendo para se refazer.
Não quero mais saber da vida das pessoas.
Não quero mais entender o porquê de tantas agonias e angústias.
Não quero mais me morder, sentindo a dor do outro.
Sigo, enfim, um aforismo de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Viver exige coragem, inclusive para recomeçar, já que tudo esquenta e esfria. Com coragem, quero ao fim do dia, sentar-me em um monte qualquer para contemplar o crepúsculo, mesmo nas tardes de chuva fria e fina; mesmo quando o arco-íris for apenas uma tênue imagem; mesmo quando o sol não irradiar sua luz e brilho intensos. Faço minhas as palavras do velho livro de intensa sabedoria; “Esqueço o que fica para trás, avanço em direção ao alvo da soberana vocação”.

Sim, vou viver a vida, sempre me refazendo... sempre recomeçando...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Hipocrisia


Coisa triste é a hipocrisia. Ora, esta palavra significa fingimento, falsidade, sentimentos, crenças e virtudes que na verdade, a pessoa não possui. Hipocrisia tem a sua origem na tragédia grega, sempre teatral. O hipócrita é o que oculta a sua face usando uma máscara.
Tudo bem, me diriam os céticos, toda a sociedade é hipócrita, pois depende dessa dimensão para a própria sobrevivência. Não nego isso, mas o esforço pela melhor e mais transparente convivência entre as pessoas não pode ser ofuscado por gente que se acha superior às outras, fingindo comportamentos.
Em várias passagens do Evangelho, os hipócritas são denunciados por Jesus. O interessante é notar que os hipócritas não eram os pecadores, mas os religiosos que insistiam em parecer ser o que não eram. Veja, por exemplo, Marcos 7.6: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”. Ou ainda, Mateus 6.5: “E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu asseguro que eles já receberam a recompensa”. E, enfim, 1 João 4.20: “Se alguém disser que ama a Deus, mas odiar o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.
Bem, acho que esses versos bastam para mostrar claramente como Jesus tinha (e tem) verdadeiro asco de gente hipócrita.
Enfim, que diante dos nossos mais específicos relacionamentos, tenhamos a coragem e a autenticidade de fazer diferença, vivendo da melhor maneira possível, com dignidade e tolerância. O Senhor com a gente.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...