segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Partida de Rubem Alves: poeta, guerreiro, profeta

Texto do amigo Zwínglio Mota Dias que eu partilho com vocês:
A partida de Rubem Alves: poeta, guerreiro, profeta
 
 
“Mortais, mas eternos somos:
eternos em alma,
eternos em gosto,
em mistérios eternos,
eternos sonoros,
eternos, eternos,
--mortais e eternos já somos...”
(C. Meireles)

O Brasil está de luto... O movimento ecumênico, nacional e internacional, está de luto... Os trabalhadores da educação estão de luto... Os amantes da literatura estão de luto...
Nós em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço estamos de luto... É que faleceu sábado passado, dia 19 de julho, na cidade de Campinas, onde residia, nosso amigo, companheiro e irmão, o teólogo, filósofo, psicanalista, educador, poeta e cronista Rubem Alves, depois de um longo e sofrido período de enfermidades.
Depois de oitenta anos bem vividos e com o corpo enfraquecido por crescentes disfunções orgânicas, Rubem partiu para a eternidade legando-nos uma obra imensa de escritor prolixo voltado para os grandes temas da vida, tratados sempre com leveza, simplicidade e fino humor.
Personalidade ímpar, sabia conjugar com maestria seriedade e sonhos, responsabilidade política e poesia. Sempre com um largo sorriso a lhe iluminar o rosto e um profundo sentimento de dever com relação as suas tarefas de intelectual comprometido com as grandes causas da humanidade, Rubem deixou suas inconfundíveis marcas na construção e consolidação do movimento ecumênico na América Latina e contribuiu de forma criativa e original para o estabelecimento de um novo paradigma teológico no continente que até hoje baliza os esforços de renovação e recriação da comunidade cristã por toda parte. “Para uma teologia da libertação” foi o título que escolheu para a sua tese doutoral, em 1969, na Universidade de Princeton nos Estados Unidos que, quando publicada, ganhou outra denominação. Assim ele se inscreve como um dos “pais” de uma nova forma de se fazer teologia que, desde então, vem agitando os ambientes eclesiásticos, especialmente na América Latina.
Um “protestante obstinado” como se declarou uma vez, Rubem foi, na verdade, um “atravessador de fronteiras”, inconformado sempre com as limitações que encontrava nos vários campos do saber a que se dedicava. Ao descobrir-se poeta e contador de histórias, abandonou os pressupostos formais da teologia para dedicar-se ao que chamou de teopoética que passou então, a expressar nas centenas de contos, poemas e crônicas reunidas em seus mais de 160 títulos publicados. Dedicou-se profundamente aos temas da educação tornando-se um dos mais originais pensadores dessa área a partir de suas práticas e reflexões como professor da Universidade Estadual de Campinas.
Homem sensível, rigoroso consigo mesmo e com todos e todas que faziam parte de sua existência, Rubem acaba de encerrar seus dias entre nós. Mas, a ser verdade o que proclama o também mineiro Guimarães Rosa, o Rubem, na verdade, não morreu... apenas encantou-se, para continuar, de um outro jeito, presente em nossas vidas. Nosso companheiro de sonhos e utopias, dores e lutas, mas também de momentos alegres e festivos, ausenta-se agora, apenas fisicamente, para ressuscitar em nossa memória, com o testemunho de sua vida para nos instigar a seguir em frente na luta incansável de plantar sinais, por menores e insignificantes que possam parecer, de um mundo outro que ele sempre perseguiu, marcado pelo amor, a justiça e pela paz.
Certa vez, acompanhando-o nos funerais de um amigo comum, pude ouvi-lo comparar a vida a uma peça musical. Por mais bela e tocante que venha a ser, dizia ele, a música precisa, em algum momento,ser interrompida para não perder seu encantamento, seu frescor, sua capacidade de nos comover. Entendamos, pois, que a melodia da vida de Rubem Alves acaba de ser interrompida para que possamos ouvi-la de novo, na leitura de seus muitos textos e poemas, sempre que quisermos e ela possa, outra vez, nos sensibilizar, nos fazer sorrir, nos ajudar a corrigir nossos passos, nos enlevar e nos alertar para os perigos tantos que nos rodeiam...
Ao término dos últimos acordes da música que foi sua vida, embora tristes por sua ausência física, nos alegramos por sua “coragem de ser” o que foi e a incorporamos, ainda mais, em nossa vivência, na esperança de que os seus sonhos e a sua ousadia continuem em nossos gestos de amor e solidariedade. Que o Mistério profundo que a todos e todas nos envolve o receba em seu esplendor vital e que todos nós possamos ser consolados pela lembrança de seus sorrisos e recolher as lições de sua vida.
Não tendo palavras próprias de poeta capazes de expressar de forma bela e certeira os sentimentos que povoam as vidas de todos e todas que conviveram com Rubem, tomo emprestado as lindas palavras do poema daquela que foi uma de suas poetas preferidas, Adélia Prado:
“De um único modo se pode dizer a alguém:
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo por que bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas ao meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.”

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, para quem Rubem sempre foi uma referência, registra com pesar e tristeza seu “encantamento” desta vida, porém, nela inspirada, espera que os gestos claros e corajosos de seu compromisso com a dignidade e beleza da vida de todos e todas continuem a reverberar nas novas trilhas do movimento ecumênico e nas lutas pelos direitos de todos e todas no continente.
Deixamos nosso abraço fraterno e solidário para Lidia, Sérgio, Marcos, Raquel, sua esposa, filhos e filha, e demais familiares.
 
Autor: Zwinglio Dias
Data: 21/7/2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dissertação de mestrado

Pra quem curte um texto acadêmico, segue o link para a minha dissertação de mestrado cujo título é: A RESPONSABILIDADE SÓCIOPOLITICA DOS CRISTÃOS - História e memória da União Cristã dos Estudantes do Brasil - UCEB.
http://www.livrosgratis.com.br/arquivos_livros/cp141200.pdf

terça-feira, 1 de julho de 2014

Entre o evento da copa e as memórias


Sou amante do futebol arte e gosto de assistir um jogo de futebol com a tensão inerente a um torcedor. Não sou nenhum enlouquecido, tampouco exagerado em jeitos e trejeitos, tanto nas vitórias como nas derrotas.
Não posso negar o fato de gostar da celebração futebolística alcunhada como Copa do Mundo. Em que pese todos os interesses políticos e econômicos inerentes a este macro evento, o fato é que a alegria e o sentimento de nação simbolizado em um time de futebol dá a todos nós a certeza de que vale a pena pertencer a um todo cultural.
Nasci em 1970, quando o Brasil havia conquistado o seu tricampeonato. Da Copa de 1974, não tenho lembranças. A de 1978 foi a primeira que curti, talvez motivado pela coleção de fotos dos atletas que vinha por intermédio das tampinhas de alguns refrigerantes. Em 1982, as figurinhas eram adquiridas pelo Chiclete de bola “Ping Pong”. Esta foi a minha Copa! Em primeiro lugar, porque o time era brilhante e cheio de estrelas que jogavam um futebol arte. Torci ao lado de minha família, vestido com o uniforme da seleção, saboreando um amendoim torrado e doce que minha mãe preparava. Ainda hoje, quando vejo estes amendoins torrados nas esquinas e vielas, minha memória viaja no tempo. Em segundo lugar, porque depois dos jogos, eu, ainda uniformizado, me reunia com meus amigos em um campinho de argila na cidade de Betim – MG, para uma partida até o pôr do sol. Ali, o Zico, o Sócrates, o Júnior, o Éder, o Cerezo, o Leandro, o Mozer era eu, eu mesmo.
Não chorei, mas fique silencioso quando o Paulo Rossi desfez os sonhos do tetracampeonato naquela Copa.
Então veio 1986. Torci, mas sem a mesma empolgação de 1982. Fomos eliminados pelo time de Marcel Platini.
Chegou 1990 e faltou empolgação também. Maradona e sua trupe nos tiraram o sonho.
Em 1994, estava eu em São Paulo, fazendo meu curso de Teologia e sendo abrigado aos fins de semana na casa de pessoas queridas em Vila Galvão - Guarulhos. Nos jogos que aconteciam durante a semana, torcíamos no Pombal – como ainda é conhecido o setor de hospedagem dos seminaristas metodistas na Universidade de São Paulo. Vi a final em Guarulhos e vi o grande jogador Roberto Baggio da seleção italiana perder o pênalti. Celebrei e fomos às ruas ver as pessoas, cumprimentá-las e ouvir os fogos que singravam os céus.
Na Copa da França, a empolgação estava em alta, ainda mais porque o Brasil bateu adversários difíceis e se classificou para a final juntamente com a França. Já no início, a notícia esquisita de que o Ronaldinho não jogaria a final porque tinha passado mal me deixou cabreiro. Dito e feito, três a zero para a França. Brasil ficou com o vice-campeonato mundial.
Gato escaldado tem medo até da água fria. E foi assim que em 2002, fiquei mais cauteloso. Mas o Ronaldinho queria apagar aquela “situação” ocorrida na final de 1998 e fez daquela Copa, a sua Copa. Brasil, pentacampeão de futebol. Fiz muita festa. Foi muito bom. Nesta época, eu estava em Belo Horizonte e assisti a final na casa de amigos também.
Em 2006, depois de muitas situações complexas que afetaram minha família, não podia ter a mesma alegria. Assisti a Copa sem muita empolgação. Ademais, estava vivendo um tempo profissional de muita instabilidade e tudo contribuía para meu desânimo. Perdemos pra França, mais uma vez.
Já em 2010, minha alegria havia retornado e reunimos a família para vários encontros em frente à televisão. Havia comprado uma TV de 42” que era a sensação na época em que ainda existiam muitas TVs antigas de 29”. Agora aquela TV está obsoleta por causa de revolução tecnológica. Ao final, vi a tonalidade da TV nova ficar mais alaranjada, principalmente no jogo contra a Holanda.
Pois bem, estamos em 2014 e todas essas e outras memórias me visitam. A mais forte pra mim é a dos jogos nos campinhos, onde nos tornávamos os jogadores que assistíamos. Independente do resultado desta Copa, já vale as histórias e memórias que nos sobressaltam. Para mim, em específico, já tá valendo a festa nas cidades sedes dos jogos. Se a seleção do Brasil ganhar, beleza. Se não, a vida vai continua do mesmo jeito. Aliás, não temos nenhuma obrigação de ganhar coisa alguma e nem de cobrar êxitos de um bando de garotos que não se cansa de fazer selfies e lançar na web, salvo algumas exceções. De qualquer forma, no fundo, no fundo, estes eventos ressaltam em nós a alegria teimosa que insiste em resistir mesmo nas cadeias e hospitais. Coisa boa é a capacidade que o ser humano possui para reagir mesmo quando as coisas não estão boas.

Assim, como uma borboleta que insiste em exibir a exuberância de suas cores nas relvas e jardins, mesmo sabendo que vai se extinguir entre duas semanas a um mês – com exceção da borboleta monarca que vive até 9 meses – nós insistimos em revelar a beleza da alegria, mesmo sabendo que ela possui prazo de validade. A copa vai acabar, mas as memórias vão continuar. Que pelo menos, nós brasileiros, nos lembremos de que eventos são eventos e a vida é muito maior que o evento. Lembremo-nos igualmente que o que vale é a representação de um espírito nacional e não a vitória.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...