sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Pessoas! No próximo dia 21 de dezembro de 2014, lanço este meu novo livro. É um livro para a Juventude, mas também para todos que amam a Juventude. Foram dez anos de trabalho, agora concluídos num livro que, modéstia às favas, vale a pena ser lido por tod@s!.

sábado, 25 de outubro de 2014

MEMÓRIAS DA PASTORAL DA JUVENTUDE NA IV RE


"- Vamos descobrir um tesouro naquela casa?
- Mas não há casa alguma ali!
- Então, vamos construí-la!"
Groucho Marx

Em 1998, por ocasião da realização de um Encontro de jovens nas dependências do SESC – MG, localizado na cidade de Juiz de Fora, mediante orações, diálogos e reuniões, nasceu, de forma mais concreta, uma proposta de Pastoral da Juventude para a IV Região. A proposição de uma pastoral foi sistematizada pela Federação de Jovens da IV Região. Mas é preciso considerar que desde meados de 1985, a Federação de Juvenis já estava clamando por uma Pastoral concisa para a nossa juventude.
Motivado pela reunião do SESC, parti para a elaboração de um documento que fosse orientador para as ações pastorais da juventude metodista. O título deste documento: “Sonhos e esperanças no caminho – apontamentos para uma pastoral da Juventude”. Esse documento foi concebido como fruto de diálogos e reflexões junto à juventude. Na época, elaborei uma versão inicial e encaminhei os escritos para a Faculdade de Teologia em São Bernardo do Campo. Posteriormente, o texto foi aprovado pela comissão de publicações da IV Região. Foram impressos 2000 exemplares e todos foram distribuídos à liderança, bem como a toda a juventude.
Neste mesmo período, realizamos alguns encontros significativos, tais como: “Encontrão 2000”, realizado na cidade de Marechal Floriano – ES. Nesse encontro foi lançado oficialmente o documento norteador da Pastoral da Juventude. No mesmo ano, o bispo em exercício havia me designado como assessor da Pastoral da Juventude.
A partir daí, motivado pelo bispo e pela liderança da IV Região, tive a oportunidade de posicionar pastores e pastoras em todos os distritos da Região. Esses e essas foram designados pelo bispo como assessores distritais da Pastoral da Juventude. Formamos, posteriormente, a mesa da Pastoral da Juventude, constituída pelo coordenador, os pastores assessores das Federações, os Conselheiros regionais de juvenis e os presidentes de Federações de Jovens e Juvenis. Essa mesa estruturou o Plano de Ação da Pastoral da Juventude, que depois foi discutido e ampliado entre os pastores e pastoras assessores(as) distritais. Essas reuniões culminaram em um Encontro de Capacitação ocorrido na cidade de Sarzedo – MG, em 2001, cujo tema foi: “Desculpem-nos os transtornos, estamos em reforma”. O tema foi uma sugestão de um dos nossos pastores assessores. Reunimos cerca de cem líderes jovens e juvenis. Apesar da singeleza, foi um bom encontro. Registro que, mediante a demanda relacionada à Pastoral da Juventude em seu estágio incipiente, muitos erros foram cometidos. Porém, esses erros foram preponderantes para o amadurecimento da Pastoral. Aliás, esse último encontro favoreceu o conhecimento da pluralidade presente em nossa Região no que se refere à juventude.
Arrependo-me de algumas demandas, mas tudo se realizou com a melhor das intenções. Errei quando queria acertar, mas saí sempre melhor em todos os momentos de crise e de oportunidades. De igual modo, não quero passar a impressão de que este foi um tempo tranqüilo, onde os ventos sopraram sempre favoravelmente.
E foi no calor dessas discussões sobre a importância da Pastoral e o papel das Federações de Jovens e Juvenis que ocorreu uma história interessante:
Em 2002, a Federação de Jovens realizou o seu XVII Congresso Regional na cidade de Leopoldina – MG, com o tema: “Reedificando os muros e tampando as brechas”. Fui convidado a participar do Congresso e com muita alegria aceitei. Preguei na abertura do Encontro, mas estabeleci os rumos de minha prédica em uma direção não oposta ao tema, entretanto reflexiva. Em suma, parafraseei o que Jesus disse nos Evangelhos: “ninguém deita remendo novo em veste velha... vinho novo em odres velhos...” (Mt. 9.17). Afirmei que aquele não era o momento de “se colocar massa nova em muro velho. Aquele era um tempo de derrubar o muro e construir uma praça de convivência, comunhão e celebração da presença graciosa de Deus”. Não é preciso dizer que a abordagem gerou um mal estar, pois pareceu que eu estava contra a Federação de Jovens. Aliás, havia um burburinho anterior que “rolava”, afirmando que um dos propósitos da Pastoral era acabar com as Federações. Preciso confessar que prenunciávamos a possibilidade de que, em um futuro longínquo por certo, a Pastoral pudesse coordenar as atividades referentes a toda a nossa expressiva juventude. Porém, isso somente se daria mediante as conversas motivadas pela caminhada e serviço cristão. De qualquer forma, não era meu objetivo desenhar nenhuma espécie de crise, mas sim, motivar um debate regional sobre o papel da juventude no cenário político, social e religioso evidente no novo milênio.
Para encurtar a história, o constrangimento gerado pela palavra pregada ocasionou um tempo de instabilidade para a Pastoral. O ritmo afoito, por mim empregado, precisava ser cadenciado para que nenhuma crise fosse estabelecida desnecessariamente. Combinei com liderança episcopal, uma desaceleração da Pastoral da Juventude, o que gerou a desestabilização das ênfases e projetos iniciados.
O projeto da Pastoral continuou pelo esforço hercúleo do novo pastor assessor, mas aos poucos se arrefeceu até perder-se como grãos de areias movimentados pelo forte vento. Desprovido de qualquer nostalgia, pergunto-me hoje como estaríamos se o projeto estivesse em evidência até os dias atuais?
Enfim, sem a menor pretensão pelo resgate do passado, acho importante repensarmos o papel de nossas juventudes no contexto de nossas Igrejas. Aliás, esse tem sido um sempre vivo e repetitivo clamor de minha parte. Espero que, pela maravilhosa graça de Deus, a gente reinicie nossa jornada e, com os pés no caminho, corramos outros mútiplos percursos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Jesus e os vendilhões dos templos...


O PASTOR - Terceiro texto


A preocupação com ministério pastoral, ou melhor, com o desenvolvimento do ministério pastoral sempre esteve evidente na perspectiva de reflexões que envolvem a vida cristã e eclesiástica. Com essa tônica, o Rev. Isnard Rocha escreveu um texto em 1953, intitulado: OS PASTORES. Segue o texto na íntegra:
“Conversava, certa vez, com um velho irmão, crente muito humilde, mas de testemunho exemplar e de grande influência espiritual na igreja. O assunto se prendia à chegada do novo pastor.
            - Que tal, irmão, o novo pastor? Gostou do sermão dele, no domingo?
            - Muito. Devemos dar graças a Deus porque somos dignos de receber mais um novo pastor. Este é o décimo quarto que a nossa igreja recebe, desde a sua organização! É mais um que nos ajudará por algum tempo. Vamos ver se podemos ser dignos dele para que a causa de Deus continue no ritmo de progresso em que vai
            - Por falar em pastor novo, qual deles, no seu parecer, fez o melhor trabalho? Ou ainda, qual o que o senhor mais apreciou?
O velho irmão pensou por um momento e, calmamente, respondeu:
            - Na Bíblia temos 66 livros bem diferentes! Se me pedissem para dizer qual deles eu aprecio mais e tivesse que dar razoes disso, diria simplesmente: todos eles tem inspirado o mundo, de uma forma ou outra. Seria difícil dizer o mais importante deles, pois todos juntos formam a Bíblia. Isso é coisa difícil para dizer com toda a honestidade. O senhor não acha?
E depois de uma ligeira pausa acrescentou:
            - Assim também são os pastores. São homens diferentes uns dos outros. Uns mais ilustrados, outros menos, embora todos, na maioria, tenham passado pela nossa Faculdade. Mas todos eles tem o seu valor no ministério da Igreja. O que um não consegue fazer, pelo seu temperamento ou jeito de lidar com alguns elementos, outro chega e faz. Um vem para construir e constrói mesmo. Outro vem e levanta o nível espiritual da igreja. Assim, cada um fazendo um tipo de trabalho, mas todos dentro do mesmo ministério, vão cooperando para o pregresso do trabalho em geral. O senhor não acha que é assim mesmo? Este é meu modo de pensar.

Nunca me esqueci das palavras desse velho irmão e cada vez que o concílio decide mandar um novo pastor para a minha igreja, eu me lembro das palavras desse saudoso servo do Senhor e dou graças pelo ministério que acolhe homens os mais variados em seu feitio pessoal e no modo de tratar com o povo de Deus. E cada um deles realiza a sua parte no concerto dos crentes. Aprendi com aquele experimentado irmão a apreciar todos os pastores e a ver neles homens diferentes, com dons e possibilidades diferentes, mas todos com o desejo de fazer o melhor possível”.

UM DESABAFO DE UM PASTOR METODISTA SOBRE ALGUNS LÍDERES EVANGÉLICOS

Segue, na íntegra, um desabafo do amigo e pastor Wesley Fajardo Pereira, de São Paulo:

O que enoja não são os posicionamentos políticos. Todos têm o direito de fazê-los.
O péssimo disso tudo é que esses que se dizem líderes evangélicos usam argumentos morais para condenar Dilma (ok, seria justo, embora eu não concorde com todos os argumentos), mas esses líderes não usam os mesmos argumentos morais para condenar Aécio.
O cara tá cheio de podre (bebedeiras, baladas, cocaína, tráfico, dirigir alcoolizado e com a CNH vencida, corrupções em aeroportos, rádios da família, agressão à namorada etc); por que não condená-lo também?
Esses líderes estão mais para fariseus do que para discípulos. Acho que os fariseus eram mais coerentes, pois pelo menos não se aliaram a Herodes. Jesus teria vergonha desses que se dizem líderes dos evangélicos. Não me representam.
Ao invés de usarem o Evangelho para a conversão, usam-no para a zombaria daqueles que são considerados seus inimigos. Estou farto.
A fé não é barganha, não é vender o pobre por um par de sandálias, nem aguardar a lua nova para fazer seus negócios, mas ser fiel à causa de Jesus Cristo, mesmo que traga prejuízos financeiros ou perseguições.
Desculpem-me pelo desabafo, mas condenação só de um lado é hipocrisia.
(Rev. Wesley Fajardo Pereira - Pastor Metodista).

DUAS I(i)grejas...


Existem duas I(i)grejas!
Existe a Igreja que acolhe a graça de Deus e a igreja que só acolhe as Suas bênçãos.
Existe a Igreja que se preocupa com as pessoas e a igreja que quer, tão somente, se aproveitar das pessoas.
Existe a Igreja que se entende como agente da missão e a igreja que se vê como a única forma de missão.
Existe a Igreja que profetiza com consciência política e a igreja que se usa a política pra se dar bem, com consciência.
Existe a Igreja que afina o social com o espiritual e a igreja que afina o quase espiritual ao que não é usual.
Existe a Igreja que usa as finanças arrecadadas para fazer diferença e a igreja que se faz diferente, inclusive do Evangelho, por causa das finanças.
Existe a Igreja que sinaliza o Reino de Deus e a igreja que deseja ser e dominar seu  próprio reino.
Existe a Igreja que anuncia a salvação no Senhor e a igreja que é pedágio para a “satisfação”, sem o Senhor.
Existe a Igreja que fortalece a fé de seus fiéis e a igreja que cauteriza a fé dos ofertantes.
Existe a Igreja que vive para servir e a igreja que se serve do viver alheio.
Existe a Igreja que abraça a causa do pobre e a igreja que espolia o pobre.
Existe a Igreja que se expressa eucaristicamente como comunidade e a igreja onde não há, sequer, comum unidade.
Existe a Igreja que marca seu tempo vivendo o amor de Deus e a igreja que usa uma forma de amor pra passar o seu tempo.
Existe a Igreja que adora genuinamente ao Deus da vida e a igreja que usa o nome de Deus indevidamente.
Existe a Igreja que se oferta ao fiel e a igreja que só quer a oferta do fiel.
Existe a Igreja que favorece quem precisa e a igreja que precisa dos que lhe podem favorecê-la.
Existe a Igreja ama o Senhor e a igreja que usa o nome do Senhor.

Existe, enfim, a Igreja que caminha no Caminho e a igreja que quer caminhar longe do Caminho.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

TODA AUTORIDADE É CONSTITUÍDA POR DEUS?


A temática da autoridade está presente em toda a Bíblia. De fato, no que concerne à nossa percepção de Deus na história humana, não podemos deixar de refletir sobre o significado da autoridade na conjuntura das relações sócio-políticas e religiosas.
Nosso objetivo neste sucinto texto é o de refletir criticamente o sentido de autoridade numa perspectiva teológico-pastoral, embora outros elementos sociológicos se farão presentes na pauta de debates. Partimos do pressuposto de que Deus é o criador e o sustentador da vida humana. É a partir dessa ação criadora-criativa de Deus e da forma como Ele mesmo cuida do mundo, que averiguamos o princípio de autoridade se evidenciando de forma prima. Acontece que, por uma razão óbvia, os fundamentos dessa criação ocorreram na coletividade das ações da triunidade de Deus. Isso fica evidente na expressão: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Conforme Gênesis 1.26). O plural presente na expressão demonstra coletividade e movimento democrático. Na sua essência, Deus é democrático. Portanto, não se trata da evidência de um Deus totalitário e ditador, mas de um Deus que requer a participação de seus pares na criação de algo ou alguma coisa. Inclusive, Leonardo Boff afirma que Deus é uma comunidade. Em suas palavras:
Pai, Filho e Espírito Santo vivem em comunidade por causa da comunhão. A comunhão é expressão do amor e da vida. Vida e amor, por sua própria natureza, são dinâmicas e transbordantes. Sob o nome de Deus podemos entender, portanto, sempre a Triunidade, a Trindade como união do Pai, do Filho e do Espírito Santo.[1]

Toda essa dinâmica da Triunidade – democracia e comunhão –, que não será aqui problematizada, se amplia no ato de criação do ser humano. Deus confere domínio ou autoridade a este sobre todos os seres vivos. Ora, o ser humano é, dentre toda a criação, aquele que é apto a transformar a natureza, numa dimensão cuidadora e cuidadosa, sem perder a finalidade de salvaguardar a sua vida e sobrevivência, garantindo o bem estar de tudo e todos.[2]
Lembremo-nos também que toda a criativa criação de Deus se manifesta de forma extremamente diversa. Tudo é radicalmente diferente. Coisa alguma pode ser considerada igual. Uma das mais belas expressões dessa expansão criativa de Deus está na possibilidade de todas as coisas serem diferentes, mesmo aquilo que é similar. O Salmo 104, em sua expressão orante afirma: “Que variedade Senhor nas tuas obras...”. Salmo 104.24. Ora, é no entrechoque entre as diferenças que as possibilidades aparecem, dando sentido às vivências entre os distintos seres vivos. Sendo assim, a ideia de igualdade precisa ser questionada. O fundamental não é a igualdade, mas sim a diversidade. O conjunto das relações entre os distintos seres vivos precisa se configurar como a união das diversidades num todo em que todos partilham suas expectativas e anseios visando o bem comum.
Nesse quadro de multiplicidades e de possibilidades de significados, torna-se extremamente necessário a organização e conscientização do distinto e diverso para a evidenciação do bem comum. É justamente nesse contexto que surge a necessidade da autoridade.

O princípio da autoridade
Em nossa concepção, o princípio da autoridade é de extrema valia para o desenvolvimento da vida humana. Desde que o ser humano precisou se organizar em nichos culturais e sociais, paralelamente surgiu a necessidade de instituição deste ou daquele líder, com vias ao bem comum do todo social. Ora, num princípio, a evidenciação do líder se dava mediante o carisma dentro do grupo. Assim, o mais forte ou mais ativo e esperto era o que se exaltava. Posteriormente, surgiram os líderes que seguiam uma determinada linhagem familiar e, por fim, os líderes burocráticos. Essas terminologias estão presentes no pensamento sociológico de Max Weber e se qualificam como os tipos puros de liderança dentro do tecido social. Então, nós não podemos questionar a necessidade de líderes para a organização do grupo visando o bem estar comum. Todavia, também não podemos deixar de questionar as psicopatologias que decorrem desses tipos puros, a saber, a ditadura ou o totalitarismo. Inclusive, ao longo da história humana, o surgimento da teocracia foi uma forma de expressão totalitária, empregada com a finalidade de dominar o outro em nome de Deus.
Ora, em cerca de 1000 anos – do século IV ao século XIV, a cristandade – configuração política da Igreja – dominou consideravelmente o mundo. A Igreja era o meio de graça, segundo a qual as pessoas se achegavam a Deus. Essa estrutura teocrática foi duramente questionada pelos reformadores a ponto de provocar o protesto, alcunhado posteriormente de Reforma. Na concepção dos reformadores, a teocracia estabelecida não representava o anseio das múltiplas gentes. Era preciso uma nova representação da autoridade.
Assim, o movimento de protesto alinhado ao renascimento das obras gregas e os fundamentos filosóficos – que se ampliavam para além da interpretação da Igreja – bem como o desenvolvimento da imprensa, fomentaram ainda mais toda possibilidade de discussões em todos os campos reflexivos. A Igreja foi perdendo paulatinamente seu poder teocrático, tendo que ceder seu espaço para a ciência. O problema da teocracia refere-se ao fato da representação. Ora, como Deus não pode, Ele mesmo, dirimir sobre a vida das pessoas com vias ao bem estar social, alguém vai fazê-lo, “em seu nome”. Este alguém, em geral, se reveste de uma autoridade, seja ela clerical ou institucional, e se manifesta como o representante legal de Deus na terra. E aqui, neste ponto, reside o problema que nos interessa.
Quando um líder se reveste da autoridade de Deus, Ele tem diante de si dois caminhos: o primeiro refere-se ao caminho da legalidade com legitimidade; e o segundo, o da legalidade sem legitimidade. Um líder ascende ao poder por intermédio de uma tradição, de um carisma ou das formulações burocráticas de uma determinada instituição. Entretanto, independente do cargo exercido, a busca da legitimidade por parte do líder que exerce a função é vital. Ora, a legitimidade é o que garante a representação ao líder, em outras palavras, o povo ou as pessoas se sentem representadas nas ações daquela pessoa que exerce autoridade sobre elas. Uma autoridade sem legitimidade tende à autocracia ou ditadura e essa postura é perniciosa para os que sofrem a sua influência. Por esse motivo, embora as mazelas também presentes em sua estrutura, a democracia é a melhor forma de expressão por dar espaço para a legalidade e para a legitimidade. Logicamente, os caminhos de construção do tecido social, por intermédio da democracia são extremamente complexos e longínquos, todavia melhores do que aqueles que apontam a determinação de um sobre os outros.

A autoridade na Bíblia
Uma passagem bíblica que muito me incomoda, justamente por ser ela interpretada de forma equivocada, refere-se ao capítulo 13 de Romanos. Neste texto, o apóstolo Paulo enfatiza que toda a autoridade é constituída por Deus. Entretanto, temos aqui dois problemas complexos: o primeiro refere-se à interpretação do pensamento paulino; o segundo refere-se ao questionamento se, de fato, toda autoridade é constituída por Deus? Alinhada a estas questões, podemos perguntar: Pode ser acusado de rebelde aquele(a) que se levanta contra autoridades constituídas? Paulo se refere a todas as autoridades ou às autoridades políticas? E no caso de autoridades eclesiásticas na atualidade, devemos obedecê-las surda, cega e mudamente?
Como se percebe, essas questões são inquietantes e revelam a complexidade da temática. Nós não pretendemos dar todas as respostas às questões, mas interpretá-las à luz de outros textos que muito podem contribuir com a caminhada daqueles que anseiam a plenificação do Reino de Deus. Na tentativa de contribuir com essa reflexão, vamos tratar, primeiramente, a questão da distinção entre obediência e subserviência. Num segundo momento, vamos pensar sobre o significado do discernimento, exercício fundamental para o estabelecimento de critérios e escolhas. Na seqüencia, pensaremos a ação de Deus e a sua autoridade eivada de amor. E finalmente, pensaremos a autoridade em Jesus e tentaremos responder a questão em evidência: “toda autoridade vem de Deus?”

Distinção entre obediência e subserviência.
O tema da obediência é extremamente complexo, justamente porque nos remete às seguintes perguntas: por que obedecer? A quem obedecer? Como obedecer? Segundo a definição do dicionário, obediência significa: 1. Cumprimento da vontade alheia; 2. Submissão; 3. Preito de homenagem; 4. Domínio, autoridade; 5. Priorado, igreja, mosteiro, granja, etc, dependentes de uma ordem religiosa.
Segundo o Dicionário Enciclopédico da Bíblia, não existe um termo específico para a obediência. Existe, sim, toda uma configuração dialogal. A obediência é a resposta que o ser humano oferece a Deus que manifesta a sua vontade. Nessa perspectiva, forma o centro da expressão religiosa do povo de Deus no Antigo Testamento. O objetivo da obediência é sempre, em última instância Deus, que dá a conhecer a sua vontade de diversas maneiras. O fundamento da obediência não está firmado no reconhecimento da soberania baseado no ato da criação, mas no conceito sempre vivo da Aliança, portanto, o principio da obediência não está ligado ao temor a Deus, mas ao amor a Deus. Trata-se, portanto, da adoção da dinâmica de comunhão. (p. 1059).
Um exemplo interessante que encontramos no Antigo Testamento e muito utilizado para a reflexão sobre a obediência refere-se ao relato de Jonas. Ora, muitos criticam o fato de Jonas ter desobedecido a Deus, deixando de seguir o chamado para pregar em Nínive, fugindo para Társis. De fato, o profeta é extremamente criticado pela sua decisão e muitos afirmam que, por causa da sua desobediência, ele veio a sofrer no interior do grande peixe, tendo que se submeter ao que Deus queria que Ele fizesse.
Entretanto, o capítulo 4 do livro de mesmo nome é revelador. Nele encontramos um Jonas extremamente convicto de sua fé e que diz o porquê de não ter querido ir pregar em Nínive. No fundo, Ele sabia que Deus não é um Deus que age com vingança ou ira, mas com misericórdia e amor. Como nos narra o texto: “E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso que eu disse, estando ainda em minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que se arrepende do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”. Jonas 4. 2-3.
Assim, vemos o profeta frustrado, pois teve que pregar 40 dias em Nínive um sermão que Deus havia lhe ordenado pregasse e que ele sabia que não se concluiria. Diante do escárnio da pregação que não encontra eco, pois há arrependimento entre o povo – inclusive jejum dos animais – e Deus resolve mudar a direção. Donde podemos concluir que a desobediência do profeta é fruto de sua convicção de quem é Deus. Jonas sabia que Deus não ia fazer o que dissera que ia fazer.
Na mesma direção, no Novo Testamento, o sentido da obediência encontra-se em ouvir a Palavra de Deus e guardá-la no coração (cf. Lucas 11.28), fazer a vontade do Pai (cf. Mateus 7.21) e observar os mandamentos (João 14. 15-21). A obediência, então, tem a ver com a abertura que o cristão dá aos impulsos do Espírito Santo em concomitância com o bem-estar do povo, e não a observância deste ou daquele princípio hermeticamente fechado por um dogma ou ditado por alguém. (p. 1060).
O exemplo do movimento kenótico salientado por Paulo é fundamental para que compreendamos profundamente o sentido da obediência, conforme Filipenses 2. 5-11. Neste texto, o apóstolo Paulo evidencia o movimento de humildade vivenciado por Jesus que não julgou como usurpação o ser igual a Deus.
O que queremos evidenciar é que a obediência não é a resposta a uma autoridade e sua palavra. Não é fruto da ditadura de determinado regime, mas o resultado de uma dimensão relacional. Assim, obedecer é fruto de uma relação de confiabilidade e não de mandos e desmandos de um líder que se acha superior aos outros. A aceitação surda, cega e muda a uma liderança, seja ela qualquer, é subserviência. E nem Deus aceita isso das pessoas. Subserviência é o que muitos líderes requerem de seus liderados. Enfim, subserviência é um perigo para as relações de poder onde o uso da autoridade se torna necessário.
Portanto, a obediência está em comum acordo com a comunhão e a dimensão de amor que nos aproxima de Deus. Já a subserviência é a obediência em seu estado patológico, doente. Não existimos para sermos dominados por este ou aquele princípio, afinal de contas somos chamados à liberdade (cf. Gálatas 5.1ss), e não à submissão embrutecida de líderes que se consideram acima das pessoas.

Discernimento da autoridade
Possuímos a potencialidade de discernir sobre todas as coisas. Assim, em nossa concepção, não devemos aceitar prontamente os mandos e desmandos de um determinado líder sem discernimento. Aliás, o discernimento é fundamental para a aplicação de nossa atitude precedente.
Recebemos a graça divina de discernirmos. Além desse dom, temos a experiência pessoal, que conjugados possibilitam a ampliação de capacidade de precisão em relação a um determinado ato de autoridade. É preciso ter clareza em relação a quem manda ou a quem determina o comportamento de outros. Nós não somos bichos, submissos ao que vai ou não acontecer mediante determinada ordem. Somos seres humanos capazes de escolha em relação aos nossos caminhos. E se mesmo Deus dá o discernimento e a capacidade de escolha, como pode exigir a obediência das pessoas sem questionamentos?

Importa mais obedecer a Deus
Não podemos nos esquivar da interpretação das palavras de Pedro: “Mais importa obedecer a Deus que aos homens” (Atos 4.19). Em nossa concepção, segundo o direcionamento de Pedro, a obediência a Deus está em sermos pessoas livres para optarmos pelo melhor caminho em relação à própria vida. O que importa, ao final das contas, é a categoria ética que precisa ser aplicada por todos aqueles que seguem o Deus da vida. Onde a ética fica relegada a um segundo plano ou onde a obediência está sujeita a seguir o que uma determinada lei exige, o princípio da obediência servil precisa ser subvertido. No contexto das palavras de Pedro, encontra-se um princípio específico marcado pela vivência que privilegia o bem-estar das pessoas e jamais a ordem de um autocrático.  
Retomando a carta de Romanos, escrita por Paulo, nos deparamos com a mesma argumentação de que a autoridade deve visar o bem. Essa expressão possui um sentido muito especial no texto bíblico. Ora, se a autoridade está condicionada ao bem, então, aquele(a) que pratica o mal não cabe nesse princípio.
O contexto do capítulo inicia-se em Romanos 12. 1-2: “Rogo-vos, pois, irmãos que apresenteis vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente para que experimenteis a boa, perfeita e agradável vontade de Deus”. O tônus desse verso está na boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Isso significa que toda e qualquer ordenança ou toda e qualquer autoridade só tem sentido se estiver em acordo com a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Ademais, uma das expressões fortes desta passagem refere-se a não conformação com este século! É preciso não aceitar a forma, mas transformar, ou seja, sair da forma, ir para além da forma. Nessa perspectiva, precisamos voltar à pergunta que nos motivou esta reflexão: toda autoridade constituída vem de Deus?
Segundo a Enciclopédia de Teologia Bíblica, “a autoridade confiada por Deus não é absoluta; é limitada por obrigações morais”. (p. 84).  Essa perspectiva se torna basilar e nos ajuda a compreender que pessoa alguma possui a última palavra ou a verdade. Aliás, nada de absoluto pode se configurar na perspectiva do que serve na dimensão da autoridade. Ao contrário, todo o que serve na dimensão da autoridade deve estar sempre aberto a acolher o outro, mesmo o diferente, em suas inquietações. Mas o contrário é o que acontece. A pessoa imbuída pela pecha do poder se acha superior às outras e se acha no direito de mandar ou determinar. Assim, com a finalidade de pensar uma outra dinâmica, precisamos nos ater à dialética entre autoridade e amor.

Autoridade e a prática do amor
            Não podemos deixar de considerar que no contexto bíblico, a autoridade deve ser exercida sob a dinâmica do amor. Em 1 Coríntios 13, o hino ao amor, nos deparamos com um princípio fundamental, caracterizado pelo fato de que toda e qualquer ação, em qualquer nível da existência, deve ser permeada pela prática do amor. Aliás, sem amor, na dimensão agape – o amor ilimitado e sem bloqueios – não há possibilidades de encontro com o outro. Esse tipo de amor é legado pela vida, obra e ministério de Jesus. Ele é o amor que questiona as autoridades.

Jesus questiona as autoridades constituídas
No contexto cristão, o principal exemplo de questionamentos às autoridades constituídas vem de Jesus. Isso não quer dizer que Jesus não reconhecia a autoridade proveniente de Deus. Ora, no seu batismo, às margens do rio Jordão, Jesus reconheceu a autoridade de João Batista para a ministração do ato. A legitimação da ação de João se confirma no encontro inusitado entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Jesus, então, inicia o seu ministério com um primeiro sermão que possui três tônicas: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho”. Marcos 1.15. Esta proposição tem a ver com mudança de paradigma em relação à noção de reino. Não mais Roma e sua dominação em toda a Judéia, mas o Reino de justiça. Nesse ponto, verificamos Jesus opondo uma dimensão à outra. Há uma inevitável crítica a um sistema, visando implantar outro, que em sua essência, nasce da perspectiva comunitária de Deus.
Outro exemplo que Jesus nos dá refere-se ao discurso das Bem aventuranças. No início de sua explanação, figuram entre os contentes aqueles(as) que possuem uma outra dimensão de vida, marcada pela busca do bem estar social. Além disso, na explanação das dimensões corriqueiras de um novo posicionamento, Jesus inicia sua discussão enfatizando: “Ouvistes o que foi dito... Eu, porém, vos digo...” (Mateus 5ss). Essa fórmula demonstra claramente a proposição de que Jesus vai fornecer uma outra interpretação. Vai questionar o instituído pra apresentar um plano diferenciado que valoriza profundamente o bem-estar de todos. Em nossa concepção, isso faz uma diferença muito grande em nossa reflexão sobre a autoridade, pois autoridade sem pensamento fixo na justiça, ação no todo social, prática do bem sob a dinâmica do amor, não tem sentido.
Para a Enciclopédia de Teologia Bíblica, “Jesus aparece, durante sua vida pública, como depositário de uma autoridade (exousia) singular: prega com autoridade (Mt 7.29), tem poder de perdoar os pecados (Mt 9.6ss), é senhor do sábado (Mc 2.28). Poder inteiramente religioso dum enviado divino, diante do qual os judeus se fazem a pergunta essencial: com que autoridade ele faz estas coisas? (Mt 21.23). A esta questão, Jesus não responde diretamente (Mt 21.27). Mas os sinais que ele realiza encaminham os espíritos a uma resposta: ele tem poder (exousia) sobre a doença (Mt 8.8ss), sobre os elementos (Mc 4.41), sobre os demônios (Mt 12.28). Sua autoridade estende-se pois até às matérias políticas; nesse terreno, o poder que ele recusou receber de Satã (Lc 4.5ss), recebeu-o na realidade de Deus. Desse poder, contudo, ele absolutamente não se prevalece entre os homens. (86).
É justamente esse elemento que muito nos interessa: o poder exercido por Jesus não subjugou os seres humanos. Assim, quando lideres impõem suas verdades ou suas regras, acabam conflitando o cristianismo e indo na contramão do legado de Jesus.

Autoridade episcopal é instituída por Deus?
A pastora metodista Nancy Cardoso em seu texto: “Brasil – Vai reclamar com o bispo!”,[3] publicado em 6 de dezembro de 2007, afirma que infelizmente, ao longo da história, a figura de um bispo era a de uma autoridade acima, além e superior.
A figura do bispo de um poder desmedido, movido a favores e exceções, a humores e trânsitos de autoridades: cicatriz da sub-evangelização. Era aquele tempo - e ainda é! - em que bispos e fidalgos se trocavam agrados e beija-anel. Tanto os bispos como os políticos sem território, sem pertença e sem povo. Sem vergonha.

Mas, é lógico que as subversões existem em todo e qualquer processo. Disso nos comprovam as ações de bispos tais como dom Oscar Romero que dizia:  "Eu tenho que escutar o que diz o Espírito por meio de seu Povo...".[4] Mediante sua observação sobre a subversão deste pastor e de outros, tais como Hélder, Tomás, Paulo, Xavier, Mendéz Arceo, Waldir, Mauro, Pagura... e Nelly, bispa metodista na Argentina, Nancy nos indica dois tipos de episcopado: episcopança – os bispos(as) pra quem a gente vai reclamar com (?) reclamando ao...,  e a episcolência – bispos(as) que a gente reclama com (!). A diferença, segundo esta autora:
É que no primeiro grupo estão aqueles (as) que ainda respiram ares de poder de cima. Com estes (estas) a gente marca audiência e vai lá contar nosso problema, pedir que se interesse por algo. Reclamar para... Estes? Continuam incensando governador! fazendo favor pra político! beijando anel de presidente em troca de três solas! Estão todos juntos - querendo ou não! - bispo dono de televisão, bispo sonhador de grandezas, bispo inaugurador de ponte, bispo a serviço do latifúndio e todos os outros em-cima-do-muro! bispos de parolas & carambolas. No segundo grupo, está Dom Luiz Cappio, com quem a gente vai reclamar com... junto! lado a lado. E aí está toda a diferença. Um bispo convertido ao rio e sua beira. Um bispo que faz do rio sua paróquia e com os beradeiros e beradeiras vai aprendendo o que o Espírito diz aos poderosos: agora! basta! não mais![5]

Assim, seguindo o rumo da presente citação, precisamos novamente confirmar o fato de que o poder exercido por um bispo ou episcopisa é poder exercido junto com o povo. Os anseios do povo são os seus anseios. A briga do povo é a briga dos epíscopos. A mesma dimensão de fé encontra-se nos dois lados, que afinal, são um só. A autoridade, nessa dimensão, só tem sentido se for assim.

Conclusão
Logicamente, nossa discussão sobre a questão da autoridade ainda necessita de múltiplos desdobramentos. Ao mesmo tempo, ela é urgente e necessária, principalmente num tempo marcado por tantos mandos e desmandos.
Na perspectiva da triunidade de Deus, nos deparamos com um legado fundamental onde a própria essência de Deus é democracia e comunidade. A imagem de um Deus totalitário e ditador precisa ser extirpada dos arraiais cristãos, urgentemente. É a imagem de um Deus, cuja essência é o amor, que precisa ser evidenciada na fé cotidiana. De fato, embora o desejo pelo poder para mandar seja evidente em todos os seres humanos e o convite para exercer a autoridade seja tônica necessária para a dinâmica social, tanto poder como autoridade precisam se submeter ao amor. Sem amor, tudo é vão e desnecessário. Em nosso raciocínio, não vale a lógica de Aristóteles: “A autoridade e a obediência não constituem coisas necessárias, apenas, mas são também coisas úteis. Alguns seres, quando nascem, estão destinados a obedecer; outros a mandar”, mas a do historiador e escritor italiano Cesare Cantù: “A autoridade é necessária para tutelar a liberdade de cada um contra a invasão de todos, e a liberdade de todos contra os atentados de cada um”.
Enfim, com essas sucintas argumentações, podemos concluir que a autoridade é um legado da força divina presente na própria dimensão da vida. Toda autoridade que quer exercer a autoridade somente pode fazê-lo pela dimensão do que se configura na palavra de Deus. Sendo assim, a autoridade constituída por Deus é aquela que vivencia o amor de Deus segundo os princípios da ética e do bem-estar do povo. É preciso dizer não à “brincadeira boca de forno”, pois não faremos tudo que o mestre mandar.



[1] BOFF, Leonardo. A trindade, a Sociedade, a Libertação. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 15.
[2] Deixamos claro que essa nossa abordagem poderia apresentar outras chaves hermenêuticas, por exemplo, uma que estivesse em diálogo com as Ciências Sociais, e assim, possuir um outro nível de abordagem, mas nos ateremos de forma mais precisa ao nível teológico sem desprezar os outros níveis, logicamente.
[4] (Carta Aberta para o Irmão Romero, de dom Pedro Casaldáliga http://elistas.egrupos.net/lista/cidal/archivo/indice/373/msg/402/)

[5] A referência a Dom Cappio tem a ver com o conflito sobre a transposição do Rio São Francisco, conforme: http://www.umavidapelavida.com.br/detalhes_cartas.asp?ID=14

sábado, 6 de setembro de 2014

O Pastor - Segundo texto

O FOGO SOBRENATURAL

Na seqüência do pequeno livro O Pastor, de 1953, Antônio Pacitti, baseando-se em Exôdo 3:2 assim escreve:
“O vocacionado no Reino de Deus recebe um chamado divino. A vocação não vem por sucessão apostólica e muito menos por ordenação do exterior. Vocação genuína, real, é a ação do Espírito Santo no coração do redimido em Cristo e a par deste aspecto subjetivo, há também como prova do chamado divino os resultados satisfatórios que alcança o vocacionado ao realizar o ministério cristão.
Moisés quando apascentava o rebanho de seu sogro teve uma nítida certeza de seu chamado para ser o guia espiritual de um povo e, dirigindo esse povo, se tornaria uma inspiração para os vocacionados de Deus de todos os tempos. Quando tinha oitenta anos, teve a célebre visão da sarça que inflamada pelo fogo não se consumia. Este fogo foi aceso não pelo ser humano, mas pelo Todo-poderoso. Havia naquela sarça o natural, porém o sobrenatural se manifestou de maneira clara e visível ao grande legislador de Israel. Há quem pense realizar o ministério sagrado confiando nos conhecimentos científicos ou à luz da erudição intelectual. O fogo inflamado pela ciência da mente do homem realiza mil e uma maravilhas e o fogo que ilumina o campo da especulação intelectual ao espírito humano produz inúmeros benefícios à humanidade. Porém, sem o fogo do céu, o fogo sobrenatural, o fogo do Espírito Santo, há também múltiplos perigos para quem confia só na Luz da ciência e no brilho da erudição intelectual. Haja vista a guerra de destruição destes últimos tempos, a ansiedade constante em que vive o homem e o descontentamento geral de todos os corações; tudo isto é responsabilidade do homem de ciência e do homem de saber. Tivessem os grandes líderes da humanidade a chama divina em seus corações, realizariam eles uma obra construtiva de paz e felicidade na terra.
            Moisés nos seus dias conheceu o fogo da ciência e da cultura, mas só se tornou benção quando viu a sarça arder e em seu coração recebeu o calor do fogo sobrenatural.
            O ministro do Senhor para executar obra evangélica eficiente, para levar pecadores arrependidos aos pés de Cristo, para ser porta-voz das palavras consoladoras do Evangelho é necessário que tenha prova a sarça divina em seu intimo. Mister se faz que a luzerna de Deus se acenda em sua alma. A luz só se ateia quando o ministro do Senhor medita na vida espiritual.
            Naquelas paragens solitárias, onde as águas e pastagens eram raras, Moisés meditava. No seu íntimo uma voz lhe segredava, que tinha oitenta anos e nada fizera de importância até essa idade, e portanto, o “EU SOU” responsabilizava-o para a grande e portentosa tarefa de libertar o Israel de Deus. Nesse recolhimento viu Moisés através da sarça o fogo de Deus, o fogo do céu e, ali, contemplou um mundo espiritual de maneira que naquele momento histórico, deixou de ser pastor de ovelhas, para ser condutor de um povo do qual sairia o Redentor do gênero humano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
            Nessa concentração viu mais que um arbusto queimando-se sem ser devorado pelo ardor do fogo. Observou o sobrenatural e percebeu que uma chama celestial inflamava-se em seu espírito. Era a paixão que invadia sua alma para realizar a árdua tarefa de libertar seus irmãos escravizados no Egito. Desse momento em diante se tornou o grande herói, condutor do povo de Deus para a terra da Promissão.
            O fogo divino acende-se quando o coração medita e se recolhe para pensar nas cousas do Espírito. Foi numa ocasião de recolhimento espiritual que o salmista declarou “O Senhor acendeu um fogo dentro de mim, quando meditava” (Salmo 39:1)
            Agostinho, Lutero e Wesley tiveram a experiência da sarça ardente, sentiram o calor do fogo do céu e então se tornaram verdadeira benção para seu século e homens de valor na História da igreja. Estes varões sentiram a chama espiritual quando em reflexões subjetivas, íntimas, buscavam a graça abundante de Deus.
            Não há inconsistência alguma entre ciência, cultura e unção do Espírito. Moisés conheceu a ciência de seus dias e foi homem educado em todos os conhecimentos da época. Isto não foi obstáculo para ser homem espiritual e para ser vocacionado divino para um ministério sagrado. Não houve incompatibilidade entre o fogo da ciência e a luz da sabedoria com o poderoso clarão sobrenatural que iluminou a alma de Moisés. O que fez de Moisés uma benção foi o chamado de Deus por meio da chama que ardia na sarça.
            Busque o ministro a luzerna da ciência, ilumine-se na cultura do intelecto, mas para derramar felicidade na terra, para levar uma palavra de consolo aos corações angustiados para transmitir mensagem de vida eterna só há um caminho, o fogo divino, a brasa viva do altar, a chama do Espírito Santo, que se recebe nos momentos de recolhimento interior, quando o ministro medita acerca do mundo espiritual e está pronto para ouvir a chamada de Deus.

            O servo do Senhor é criatura frágil como arbusto, mas com o fogo do Espírito Santo, no deserto espiritual em que vive, torna-se chama poderosa para iluminar corações, a fim de que contemplem o Cristo crucificado e ressurrecto para receberem a graça da redenção”.

sábado, 30 de agosto de 2014

O Pastor - Primeiro texto


Em 1953, a Imprensa Metodista em seus primeiros e promissores passos lançou uma pequena série devocional chamada “O Pastor”. Tratava-se de uma pequena revista, especializada para pastores, fruto da visão e idealismos do irmão Luiz Aparecido Caruso, gerente da referida Imprensa. No primeiro número, os organizadores alimentavam a esperança de lançar “uma pequenina semente que, irrigada pela graça divina e com o correr dos dias, haveria de nascer e crescer”. Entretanto, eles mesmos se espantaram ao perceber que a “semente encontraria terreno tão fértil a ponto de germinar, nascer e crescer quase que da noite para o dia”.
Assim, pela boa aceitação da revista, principalmente por parte dos ministros que se empenham na obra gloriosa de redenção da humanidade pela propagação do Evangelho de Cristo, a revista que foi igualmente bem acolhida por leigos, buscou animar os Metodistas e “oferecer aos colegas de ministério e aos irmãos interessados nos assuntos ventilados nestas páginas, leitura que, pelo conteúdo e pela forma, esteja a altura do desenvolvimento intelectual e espiritual das igrejas evangélicas, e não desmereça o nome do ministério nacional”.
Nessa perspectiva, J. d’Azevedo Guerra escreveu um pequeno artigo intitulado Nasce hoje “O PASTOR”. Nas suas palavras:
“Em dia de nascimento nada mais se tem a dizer ou a escrever, senão algo que diga respeito ao que ainda ontem era um nascituro. Não sei por quantos meses esteve “O PASTOR” em gestação; sei, no entanto, que não foi o tempo normal de um ser humano ou de qualquer irracional, pois, não me lembro agora quando foi que o pai desta criança linotipada falou-me que o havia gerado em sua mente. Antes, pois, de aparecer tal qual se nos apresenta hoje, há muito estava gerado. Agora tomou forma e esperamos vê-lo firmar-se entre seus companheiros de labor, desenvolver-se e cumprir a sua santa vocação. Esta revista “O PASTOR” nasceu do intimo da alma de um pastor experimentado as lides pastorais, ainda que não seja um veterano do exercito de Cristo. Como pastor teve e ainda tem momentos de prazeres inefáveis, sofreu e sofrerá ainda carências próprias ao ministério sagrado. Com aquelas, contando-as aos futuros mensageiros, dar-lhes-a alento e apontando as carências que sofreu, mostrando-lhes o espírito humilde como as suportou, há de minorar as dos futuros companheiros de jornada. O pai deste rebento de sua alma o alentará com o seu saber ao contar-lhe as provas por que passou, as noites mal dormidas, as longas jornadas sobre o lombo, muitas vezes mal arreado, de uma fraca alimárias. Contará como, algumas vezes, ou talvez muitas, pregou em saletas mal alumiadas por fumarentas lamparinas, antes de chagar ao pastorado de uma paróquia de templo santuoso e bem iluminado. Dirá como tresnoitou sobre livros ou laudas de papel. Antes de chegar a ser catedrático de Teologia Prática ou Pastoral e como ainda tresnoita no preparo das lições para ministrar àqueles que, dentro de alguns anos, preencherão as vagas deixadas pelos que são jubilados, devido ao seu precário estado de saúde, ou dos que se aposentam, porque alcançaram o tempo que lhes garante esse privilégio, ou daqueles que foram chamados pelo Senhor.  Em auxilio dos primeiros passos deste filho de sua alma pediu e continuara pedindo que outros companheiro o ajudem a faze do filho hoje nascido o porta-voz das próprias experiências e do saber de suas especialidade. E ele, “o pastorinho” recém-nado, mas ostentando já o nome adequado à sua finalidade, no desempenho silencioso de sua comissão, humilde e serviçal irá destilando nas mentes receptivas, ensinos de suma importância e os que souberem aproveitar, dentro de pouco te, insensivelmente, serão senhores de boa bagagem literária, teológica e filosófica e muitos hão de reconhecê-los como pessoas cultas. Ele nos recordará o que sonhamos ser; mostrará o que temos sido, o que somos e o que devemos ser. Nele teremos avivado o que desaprendemos e por ele muitas coisas novas havemos de aprender. Se lhe dermos alento é provável que por ele muitos alcancem a glória. Bem vindo seja, pois, o novel colega no desempenho do seu sagrado mister de falar, especialmente, a nós, que somos ministros do Senhor, pastores e curas de almas”.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Partida de Rubem Alves: poeta, guerreiro, profeta

Texto do amigo Zwínglio Mota Dias que eu partilho com vocês:
A partida de Rubem Alves: poeta, guerreiro, profeta
 
 
“Mortais, mas eternos somos:
eternos em alma,
eternos em gosto,
em mistérios eternos,
eternos sonoros,
eternos, eternos,
--mortais e eternos já somos...”
(C. Meireles)

O Brasil está de luto... O movimento ecumênico, nacional e internacional, está de luto... Os trabalhadores da educação estão de luto... Os amantes da literatura estão de luto...
Nós em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço estamos de luto... É que faleceu sábado passado, dia 19 de julho, na cidade de Campinas, onde residia, nosso amigo, companheiro e irmão, o teólogo, filósofo, psicanalista, educador, poeta e cronista Rubem Alves, depois de um longo e sofrido período de enfermidades.
Depois de oitenta anos bem vividos e com o corpo enfraquecido por crescentes disfunções orgânicas, Rubem partiu para a eternidade legando-nos uma obra imensa de escritor prolixo voltado para os grandes temas da vida, tratados sempre com leveza, simplicidade e fino humor.
Personalidade ímpar, sabia conjugar com maestria seriedade e sonhos, responsabilidade política e poesia. Sempre com um largo sorriso a lhe iluminar o rosto e um profundo sentimento de dever com relação as suas tarefas de intelectual comprometido com as grandes causas da humanidade, Rubem deixou suas inconfundíveis marcas na construção e consolidação do movimento ecumênico na América Latina e contribuiu de forma criativa e original para o estabelecimento de um novo paradigma teológico no continente que até hoje baliza os esforços de renovação e recriação da comunidade cristã por toda parte. “Para uma teologia da libertação” foi o título que escolheu para a sua tese doutoral, em 1969, na Universidade de Princeton nos Estados Unidos que, quando publicada, ganhou outra denominação. Assim ele se inscreve como um dos “pais” de uma nova forma de se fazer teologia que, desde então, vem agitando os ambientes eclesiásticos, especialmente na América Latina.
Um “protestante obstinado” como se declarou uma vez, Rubem foi, na verdade, um “atravessador de fronteiras”, inconformado sempre com as limitações que encontrava nos vários campos do saber a que se dedicava. Ao descobrir-se poeta e contador de histórias, abandonou os pressupostos formais da teologia para dedicar-se ao que chamou de teopoética que passou então, a expressar nas centenas de contos, poemas e crônicas reunidas em seus mais de 160 títulos publicados. Dedicou-se profundamente aos temas da educação tornando-se um dos mais originais pensadores dessa área a partir de suas práticas e reflexões como professor da Universidade Estadual de Campinas.
Homem sensível, rigoroso consigo mesmo e com todos e todas que faziam parte de sua existência, Rubem acaba de encerrar seus dias entre nós. Mas, a ser verdade o que proclama o também mineiro Guimarães Rosa, o Rubem, na verdade, não morreu... apenas encantou-se, para continuar, de um outro jeito, presente em nossas vidas. Nosso companheiro de sonhos e utopias, dores e lutas, mas também de momentos alegres e festivos, ausenta-se agora, apenas fisicamente, para ressuscitar em nossa memória, com o testemunho de sua vida para nos instigar a seguir em frente na luta incansável de plantar sinais, por menores e insignificantes que possam parecer, de um mundo outro que ele sempre perseguiu, marcado pelo amor, a justiça e pela paz.
Certa vez, acompanhando-o nos funerais de um amigo comum, pude ouvi-lo comparar a vida a uma peça musical. Por mais bela e tocante que venha a ser, dizia ele, a música precisa, em algum momento,ser interrompida para não perder seu encantamento, seu frescor, sua capacidade de nos comover. Entendamos, pois, que a melodia da vida de Rubem Alves acaba de ser interrompida para que possamos ouvi-la de novo, na leitura de seus muitos textos e poemas, sempre que quisermos e ela possa, outra vez, nos sensibilizar, nos fazer sorrir, nos ajudar a corrigir nossos passos, nos enlevar e nos alertar para os perigos tantos que nos rodeiam...
Ao término dos últimos acordes da música que foi sua vida, embora tristes por sua ausência física, nos alegramos por sua “coragem de ser” o que foi e a incorporamos, ainda mais, em nossa vivência, na esperança de que os seus sonhos e a sua ousadia continuem em nossos gestos de amor e solidariedade. Que o Mistério profundo que a todos e todas nos envolve o receba em seu esplendor vital e que todos nós possamos ser consolados pela lembrança de seus sorrisos e recolher as lições de sua vida.
Não tendo palavras próprias de poeta capazes de expressar de forma bela e certeira os sentimentos que povoam as vidas de todos e todas que conviveram com Rubem, tomo emprestado as lindas palavras do poema daquela que foi uma de suas poetas preferidas, Adélia Prado:
“De um único modo se pode dizer a alguém:
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo por que bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas ao meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.”

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, para quem Rubem sempre foi uma referência, registra com pesar e tristeza seu “encantamento” desta vida, porém, nela inspirada, espera que os gestos claros e corajosos de seu compromisso com a dignidade e beleza da vida de todos e todas continuem a reverberar nas novas trilhas do movimento ecumênico e nas lutas pelos direitos de todos e todas no continente.
Deixamos nosso abraço fraterno e solidário para Lidia, Sérgio, Marcos, Raquel, sua esposa, filhos e filha, e demais familiares.
 
Autor: Zwinglio Dias
Data: 21/7/2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dissertação de mestrado

Pra quem curte um texto acadêmico, segue o link para a minha dissertação de mestrado cujo título é: A RESPONSABILIDADE SÓCIOPOLITICA DOS CRISTÃOS - História e memória da União Cristã dos Estudantes do Brasil - UCEB.
http://www.livrosgratis.com.br/arquivos_livros/cp141200.pdf

terça-feira, 1 de julho de 2014

Entre o evento da copa e as memórias


Sou amante do futebol arte e gosto de assistir um jogo de futebol com a tensão inerente a um torcedor. Não sou nenhum enlouquecido, tampouco exagerado em jeitos e trejeitos, tanto nas vitórias como nas derrotas.
Não posso negar o fato de gostar da celebração futebolística alcunhada como Copa do Mundo. Em que pese todos os interesses políticos e econômicos inerentes a este macro evento, o fato é que a alegria e o sentimento de nação simbolizado em um time de futebol dá a todos nós a certeza de que vale a pena pertencer a um todo cultural.
Nasci em 1970, quando o Brasil havia conquistado o seu tricampeonato. Da Copa de 1974, não tenho lembranças. A de 1978 foi a primeira que curti, talvez motivado pela coleção de fotos dos atletas que vinha por intermédio das tampinhas de alguns refrigerantes. Em 1982, as figurinhas eram adquiridas pelo Chiclete de bola “Ping Pong”. Esta foi a minha Copa! Em primeiro lugar, porque o time era brilhante e cheio de estrelas que jogavam um futebol arte. Torci ao lado de minha família, vestido com o uniforme da seleção, saboreando um amendoim torrado e doce que minha mãe preparava. Ainda hoje, quando vejo estes amendoins torrados nas esquinas e vielas, minha memória viaja no tempo. Em segundo lugar, porque depois dos jogos, eu, ainda uniformizado, me reunia com meus amigos em um campinho de argila na cidade de Betim – MG, para uma partida até o pôr do sol. Ali, o Zico, o Sócrates, o Júnior, o Éder, o Cerezo, o Leandro, o Mozer era eu, eu mesmo.
Não chorei, mas fique silencioso quando o Paulo Rossi desfez os sonhos do tetracampeonato naquela Copa.
Então veio 1986. Torci, mas sem a mesma empolgação de 1982. Fomos eliminados pelo time de Marcel Platini.
Chegou 1990 e faltou empolgação também. Maradona e sua trupe nos tiraram o sonho.
Em 1994, estava eu em São Paulo, fazendo meu curso de Teologia e sendo abrigado aos fins de semana na casa de pessoas queridas em Vila Galvão - Guarulhos. Nos jogos que aconteciam durante a semana, torcíamos no Pombal – como ainda é conhecido o setor de hospedagem dos seminaristas metodistas na Universidade de São Paulo. Vi a final em Guarulhos e vi o grande jogador Roberto Baggio da seleção italiana perder o pênalti. Celebrei e fomos às ruas ver as pessoas, cumprimentá-las e ouvir os fogos que singravam os céus.
Na Copa da França, a empolgação estava em alta, ainda mais porque o Brasil bateu adversários difíceis e se classificou para a final juntamente com a França. Já no início, a notícia esquisita de que o Ronaldinho não jogaria a final porque tinha passado mal me deixou cabreiro. Dito e feito, três a zero para a França. Brasil ficou com o vice-campeonato mundial.
Gato escaldado tem medo até da água fria. E foi assim que em 2002, fiquei mais cauteloso. Mas o Ronaldinho queria apagar aquela “situação” ocorrida na final de 1998 e fez daquela Copa, a sua Copa. Brasil, pentacampeão de futebol. Fiz muita festa. Foi muito bom. Nesta época, eu estava em Belo Horizonte e assisti a final na casa de amigos também.
Em 2006, depois de muitas situações complexas que afetaram minha família, não podia ter a mesma alegria. Assisti a Copa sem muita empolgação. Ademais, estava vivendo um tempo profissional de muita instabilidade e tudo contribuía para meu desânimo. Perdemos pra França, mais uma vez.
Já em 2010, minha alegria havia retornado e reunimos a família para vários encontros em frente à televisão. Havia comprado uma TV de 42” que era a sensação na época em que ainda existiam muitas TVs antigas de 29”. Agora aquela TV está obsoleta por causa de revolução tecnológica. Ao final, vi a tonalidade da TV nova ficar mais alaranjada, principalmente no jogo contra a Holanda.
Pois bem, estamos em 2014 e todas essas e outras memórias me visitam. A mais forte pra mim é a dos jogos nos campinhos, onde nos tornávamos os jogadores que assistíamos. Independente do resultado desta Copa, já vale as histórias e memórias que nos sobressaltam. Para mim, em específico, já tá valendo a festa nas cidades sedes dos jogos. Se a seleção do Brasil ganhar, beleza. Se não, a vida vai continua do mesmo jeito. Aliás, não temos nenhuma obrigação de ganhar coisa alguma e nem de cobrar êxitos de um bando de garotos que não se cansa de fazer selfies e lançar na web, salvo algumas exceções. De qualquer forma, no fundo, no fundo, estes eventos ressaltam em nós a alegria teimosa que insiste em resistir mesmo nas cadeias e hospitais. Coisa boa é a capacidade que o ser humano possui para reagir mesmo quando as coisas não estão boas.

Assim, como uma borboleta que insiste em exibir a exuberância de suas cores nas relvas e jardins, mesmo sabendo que vai se extinguir entre duas semanas a um mês – com exceção da borboleta monarca que vive até 9 meses – nós insistimos em revelar a beleza da alegria, mesmo sabendo que ela possui prazo de validade. A copa vai acabar, mas as memórias vão continuar. Que pelo menos, nós brasileiros, nos lembremos de que eventos são eventos e a vida é muito maior que o evento. Lembremo-nos igualmente que o que vale é a representação de um espírito nacional e não a vitória.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...