quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Achando a Moeda Perdida

Pessoa alguma gosta de perder coisa alguma. A perda de algum objeto provoca-nos uma série de inquietações. E quando perdemos alguma coisa importante ou de valor, ficamos ainda mais inquietos e ansiosos. Entretanto, uma coisa é certa: convivemos com perdas todos os dias da nossa vida. Algumas dessas perdas são simples, outras mais complexas. Mas quando achamos o que perdemos, invade-nos uma alegria que é similar à manifestação do Reino de Deus. Aliás, Jesus comparou a alegria do encontro da moeda perdida, por parte da viúva, com o Reino. Assim diz o texto em Lucas 15. 8-10 Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida. Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende Como é inusitado o fato de Jesus usar uma metáfora bastante corriqueira assemelhando-a ao Reino de Deus. O que ressalta nesse relato é que a alegria do reencontro do que estava perdido tem a ver com a explosão do Reino nas vidas humanas. A palavra chave nessa parábola é a palavra reencontro. Somente se reencontra aquilo que fazia parte do cotidiano e que foi perdido. Assim, a alegria do reencontro é a tônica central do texto bíblico. Nesse ponto, em específico, preciso esclarecer que a dimensão do reencontro tem a ver com a vida e suas múltiplas manifestações. Ora, todos temos tido o privilégio de viver, mas, às vezes, deixamos de lado o aspecto central da qualidade de vida. Então, vez por outra, nos deparamos com sinais e vestígios significativos que nos reconduzem a uma nova vida. O encontro da vida na vida provoca a alegria do reencontro e, consequentemente, a novidade de vida que, em outras palavras, é o próprio evangelho. Quando nos encontramos com a vida na vida, temos a oportunidade de celebrar a nova vida. Aliás, esse encontro com a vida na vida é o que garante a todos nós a leveza em nossos relacionamentos. Passam-se a angústia, a ansiedade, o sentimento de perda e se instalam no ser a alegria, o equilíbrio e a estabilidade dentro do fundamento da liberdade. Eu, particularmente, quero convidá-lo(a) a encontrar mais vida na sua vida, provocando, assim, muitos reencontros. Reencontre-se consigo, com os familiares, com os amigos, com Deus; reencontre-se com os prazeres, com a boa comida, com o lazer, com a sexualidade; reencontre-se com os valores, a ética, a liberdade, a humildade; reencontre-se, enfim, com o que você perdeu. Aquilo que você perdeu ou que ainda está perdido: reencontre. Vale a pena esse reencontro. Há festa no céu quando o pecador se arrepende da velha vida e encontra a nova vida. Pelo menos, no amplo leque desses reencontros, você terá a oportunidade de perceber um lampejo dessa dimensão maravilhosa que conhecemos e chamamos Reino de Deus. Sejamos felizes em nossos reencontros.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meu Carnaval de Silêncio e Frio

Aqueles que conhecem Paris sabem muito bem que neste período do ano, onde o frio se instala de forma agressiva, a cidade fica silenciosa. As pessoas passam pelas grandes boulevards e pelas pequenas ruas com passos apressados, encolhidas e envolvidas pelos seus casacos escuros. Todos parecem correr, talvez para se abrigarem do frio ou encontrarem um lugar aquecido para o descanso do corpo. Como é interessante perceber que no bojo dos dias, as pessoas se entregam ao trabalho com intensidade para, ao final do mesmo, se recolherem aos seus lares, quem sabe para tomar uma sopa ou um chocolate quente, acompanhado logicamente de uma tradicional baguete e da companhia de alguém. Ao final de cada tarde, vejo as pessoas passando com seus embrulhos e seus passos apressados. Fogem do quê? Fogem de quem? Para mim, inegavelmente do frio. Nas mesmas tardes cinzentas, vejo as crianças saindo das escolas. Elas são pacotinhos ambulantes que caminham nas ruas tal qual pequenos robozinhos. Tamanho o número de roupas e acessórios que as envolvem. Vejo-as de mãos dadas com as mães ou então nas garupas das bicicletas com os pais. Elas também caminham silenciosas. Mesmo porque nessa época do ano todos os parques estão fechados e a alegria, inerente a cada uma delas, está escondida dentro das toucas e nos sonhos bizarros. O silêncio só é quebrado pelo canto de uma nota só dos corvos. São eles, vestidos em seus distintos ternos pretos, que quebram o silêncio no alto das árvores secas ou dos prédios e suas chaminés. O que ocorre em Paris e em grande parte da Europa é uma liturgia sem cor, sem canto, sem dança, sem festa, que parece querer romper de uma forma exuberante. Enquanto discorria me olhar sempre incauto percebendo as tramoias do cotidiano, lembrei-me que neste próximo fim de semana no Brasil é Carnaval. E fiquei pensando no paradoxo. Eu, um brasileiro amante dos trópicos, tendo que me aninhar no silêncio do meu quarto, envolto em múltiplos pensamentos, enquanto meu povo se diverte pelas ruas e vive, independente de sua crença e fé, a explosão de uma sempre eterna arrumada bagunça. Sim minha gente, é Carnaval, e o meu terá alegorias mil, tendo corvos puxando o samba enredo de uma nota só; na bateria automóveis e sirenes de todas as instituições do Estado; na avenida desfilarão as alas das mulheres e homens bem vestidos com seus casacos, bem como as crianças que formarão a comissão de frente com a grande inovação: virão fantasiadas de pacotinhos. E tem as alas dos marroquinos e suas lojas de bugigangas, dos chineses com seus pratos típicos – expondo patos assados ao caramelo e eu, silencioso na arquibanda das minhas mais remotas imaginações vendo o desfile acontecer. De fato, será um Carnaval bem diferente... frio e silencioso. Paris, 08, février, 2013.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...