terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal é...


Eu sou daqueles que pouco me encanto com a comemoração de Natal. Ora, comemorar significa festejar um acontecimento e para mim, o Natal como acontecimento é o que acontece no cotidiano...
Natal é acordar às 5h30 da manhã, tomar um café correndo pra pegar o metrô lotado em Santana – SP, com a finalidade de bater o cartão no horário previsto.
Natal é um grupo de crianças da periferia de Recife – PE, andando seis quilômetros para ir à escola e se encontrar com uma professora ainda jovem que acredita na utopia do processo educacional.
Natal é o reencontro com os colegas de trabalho – pedreiros, pintores, serventes e ajudantes, todos oriundos do Nordeste do país, cansados da rotina na cidade grande e das dificuldades financeiras originárias do baixo salário.
Natal é comer uma quentinha preparada por uma senhora idosa e trabalhadora que ainda labuta pra ajudar na criação dos netos na cantina ou cozinha da pequena Gráfica em Belo Horizonte – MG.
Natal é enfrentar o chefe chato da Multinacional em Minas Gerais que, disposto tão somente ao lucro, esgota toda a sua equipe com um cronograma de metas.
Natal é a mulher que vai dar a luz a uma criança em um Hospital da rede pública do Rio de Janeiro sem saber se sua criança nascerá bem.
Natal é comparado a centenas de milhares de doentes e acidentados longe das suas respectivas famílias em diversos hospitais e pronto-socorros espalhados pelo país.
Natal é o mendigo que dormiu toda a madrugada de chuva fina debaixo de uma marquise de uma grande loja localizada na Rua 25 de Março – SP e, que ao acordar, remexe o lixo em busca de algo pra comer.
Natal é o carro quebrado em dia de pico na Reta da Penha – Vitória – ES.
Natal é a briga de casal em Campo Grande – MS, por motivos fúteis e inimagináveis.
Natal é a “ceia” familiar realizada às 20h, cujo cardápio revela macarronada e frango assado em Pirapora – MG. Pagode no som e alegria espontânea.
Natal é a criança do Educandário Carlos Chagas – Juiz de Fora – MG, recebendo um brinquedo oriundo de uma pessoa que ela não conhece.
Natal é a velhinha no abrigo em Porto Alegre tomando a sua canja com saudades da filha que não dá noticias há anos.
Natal é a comunhão celebrada por uma família de belenenses no entorno de uma mesa de madeira tendo à disposição dos olhos uma singela vela e pedaço de pão festivo.
Natal é a jovem vendedora com pernas cansadas de tanto ficar em pé durante a jornada do comércio e mercado pesados.
Natal é a loja de X,99 lotada de gente comprando lembrancinhas para o amigo X, amigo oculto, amigo secreto ou amigo urso, que acontecerá na noite do dia 24 de dezembro.
Natal é o carro cheio de bagagens e cheio de gente. Ansiedade no ar, farofada e música sertaneja no ambiente.
Natal é aperto de mãos e beijos aliados a um desejo intenso de que dias melhores aconteçam.
Natal é uma singela celebração em memória do nascimento de Cristo numa capela qualquer em um vilarejo distante.

Natal é, enfim, o paradoxo de se perceber na simplicidade de um bebê a esperança de novos tempos.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Protesto contra os buracos!

As chuvas chegaram fortes à cidade de Juiz de Fora – MG. Interessante notar como todas as nossas potências são insuficientes para deter os fenômenos da natureza. Interessante também notar como somos seres vulneráveis, mesmo com todas as nossas pretensões de autonomia. Além da nossa impotência frente aos fenômenos naturais, sofremos também com a falta de infra-estrutura e de políticas públicas no campo da defesa civil em nossos contextos urbanos. Milhares de pessoas que perderam bens materiais diversos tentam salvaguardar, pelo menos, a dignidade e cuidar dos poucos itens que lhes restaram. O que mais me implica neste processo é o surgimento dos buracos! Ora, não falo dos buracos mágicos que surgem de uma hora para a outra nos asfaltos e ruas, vielas e calçadas da cidade, complicando as vias públicas. Falo sim, dos buracos que surgem na vida das pessoas em diversas localidades das mais distintas cidades do nosso país tão sofrido. Na hora em que famílias inteiras são abaladas pelos fenômenos naturais e acabam perdendo seus bens simbólicos e materiais, a indiferença de muitos políticos é de doer. A desculpa é sempre em relação ao crescimento desordenado das vilas e bairros das cidades. De fato, há situações indevidas que infelizmente foram geradas pela ausência do Estado e dos poderes públicos. O crescimento desordenado é, antes de tudo, um dado que demonstra a ausência de um planejamento para a vida das pessoas que pagam seus impostos. São poucas as cidades que podem se gabar desse planejamento. Em minha concepção, deveria existir um maior engajamento público dos representantes para com os cidadãos. Se os recursos não estiverem sob a mesa dos interesses puramente econômicos e eleitoreiros, poderão estar à disposição para planejamentos mais ousados que, por tão conscientes, contarão inclusive com o apoio dos cidadãos. Penso, não de forma utópica, no critério de co-participação de todos no tecido social, em busca dos interesses comuns, visando sempre o bem-estar de todos. Os buracos que se instalam na vida das pessoas não são cicatrizados com facilidade. É claro que, em nosso caso brasileiro, a força da superação é sempre evidente. No meio das dificuldades, o brasileiro sempre encontra um jeitinho de superar-se. Mas isso só não basta! E não basta também a solidariedade tão nobre que se amplia frente ao caos que se instaura. É preciso algo mais! Espero, sinceramente, que no decorrer dos tempos, novas políticas públicas participativas surjam com o intuito de minorar situações complexas. Quem sabe assim, com gestos políticos concretos, não consigamos evitar os buracos. Não os das ruas que são chatos também, mas prioritariamente os que se instalam na vida e nas almas das pessoas.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

OS OLHOS TRISTES DO LOBO


Eu os vi...
Olhos tristes quando ainda um filhote
Lutando pra escapar da morte
Ansiando o acaso ou a sorte

Eu o vi...
Não deveria ter viçoso vivido
Mas cresceu forte, ensandecido
Devorando mesmo o não-percebido

Eu o vi...
Acabei deixando-o crescer
Como ser, precisava viver
Nada mais poderia o deter

Todavia...
Furioso, quis minh'alma destruir
Me desfez sem me reconstruir
Os seus olhos tristes eu vi

E assim...
Levei o lobo agora criado
Para ser sacrificado
No silêncio do nada enluarado.

A adaga em minha mão reluzia
Sob a parca luz que se via
Todo o meu corpo tremia

Eu vi nos seus olhos o terror
Estampado em meio a dor
De perder todo brilho e vigor

Era preciso dizer ao lobo: basta!
Sua sanha inquieta me arrasta
Para um profundo onde o fogo se alastra...

Mas ao invés de matá-lo num ato
Resolvi liberá-lo no mato
E deixá-lo viver tempo ingrato

Sim, deixei-o viver sem um rumo
Sem chão, sem teto, sem prumo

Seus olhos tristes, cabisbaixo no mundo...

sábado, 16 de novembro de 2013

LONGE DA PAIXÃO

Nada mais há de você em mim.
O tempo passou, o tempo voou e eu me libertei
Não mais estou à beira do caminho.
As flores até perderam o encanto e as nuvens encobriram o sol, mas eu não me importo.
É bom que assim seja. Num momento a gente se enche de amor,
No outro a gente curte o que dor... o medo se foi...
Paixão é bom porque chega e vai, quase nunca fica.
Eu volto a sorrir, com o corpo isento, sem agonia.
Todavia, tal qual onda do mar, insistirá, voltará... talvez...
Tudo suporto, pois eu nada controlo.
Sigo cantando a melodia triste que dá alegria.
Beleza profunda que anima minh’alma num instante silente.
O fogo abaixou e as cinzas me deram o presente.
Ele é tudo o que tenho, pois o passado passou e o futuro é incerto.
Abraço a noite que cai. A lua minguante será minha companheira.
E no sombrio volume da madrugada, ando sem eira, sem beira,
Na rota da ponte que vai do nada ao vazio, pelo simples fato de ir.
Assento-me à beira do rio. Ele vaga calmamente escondendo os redemoinhos do profundo.
Um graveto flutua. Metáfora de mim sendo levado para qualquer lugar,
Longe da paixão...

Moisés Coppe



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Paixão insana...


Descontrola-me a paixão!
Essa força, metáfora do fogo.
Tensão e tesão, larva de vulcão.
Dissonante na pauta musical
Que levanta todo o meu astral e me deixa singular.
Mal estar gostoso de sentir.
Trágico luar das noites sem estrelas
Que ilumina, tão somente, pequenos cacos de telhas.
Barro todo informe e macio,
Vermelho, úmido se moldando
No penhasco dos meus mais remotos sonhos.
Salto no vago precipício, sem chão para pousar, sem asas pra voar.
O corpo em meio aos ventos debate o insano intento da fé pra se jogar,
Sem aparas pra agarrar.
É o doce amargo na boca.
Longe dos abraços e beijos
Arrefeço o poder dos desejos...
E mergulho no fundo profundo
Sentindo-me qual moribundo
Que em meio ao silêncio gritante
Enfrenta o temor fulgurante
Perdendo o sentido do mundo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vale a pena servir a Deus na Igreja???

Nossa sociedade hoje é regida pelo sistema de mercado e na dinâmica dele as pessoas acabam sendo usadas. Infelizmente, de 15 anos pra cá, as pessoas ficaram reféns dos projetos eclesiásticos que seguiram essa mesma lógica. Nessa perspectiva, as pessoas se transformaram em marionetes e a diferença entre igreja e mundo se perdeu. Além do sistema de mercado, vivemos também a sociedade da embalagem, do simulacro. As pessoas expõem suas imagens e seus trejeitos em papéis multicores, mas não revelam a essência. Por esse motivo, muitos vão à igreja e depois espancam mulheres e crianças em suas casas. Oram a Deus nos templos, mas o coração está muito longe d'Ele. Em minha concepção, somos o que temos dentro de nós e isso é o que vale. Nosso cristianismo tem que ser marcado pela simplicidade do evangelho de Jesus. Nossa linha reflexiva é Jesus. Nosso objetivo é nos parecermos com Jesus. Se a igreja caminha com essa perspectiva, ela caminha bem, ao contrário, serve somente aos anseios do mercado. Por isso a tônica de nossa existência tem que ser a humildade. Não consigo conceber um cristão sem humildade que testemunhe o Cristo. Sobre isso, eu tenho uma opinião radicalmente formada. Nós não podemos ser bonequinhos feitos na doutrina da igreja. Nós somos seres humanos e como tais temos nossas contradições. Elas precisam ser estampadas ou testemunhadas com humildade, pois pessoa alguma é melhor que a outra. Ora, a vida passa muito rápido e nós precisamos aproveitá-la da melhor maneira possível, com equilíbrio, humildade e testemunho. Acho que nós precisamos ser o que somos e assumir do que gostamos. Eu desisti de viver a vida que as pessoas querem que eu viva. Desejo viver a minha própria vida, mesmo porque em todos os lugares vamos encontrar pessoas que nos apontam os erros e defeitos. Isso é crueldade por parte dos acusadores. Isso acontece dentro e fora da igreja. O problema é que a acusação dentro da igreja é feita em nome de Deus e em nome da doutrina. Mas então? por que servir a Deus na igreja? Existem três objetivos nisso: 1. Na igreja, nós buscamos o reconhecimento de nós mesmos, enquanto pessoas que desejam fazer o bem conjuntamente na dimensão da adoração a Deus; 2. Graças a Deus a igreja não salva ninguém, mas ela trás a memória de tudo o que foi e é Jesus para nós. Assim, quando nos afastamos ficamos "desmemoriados". Nos esquecemos das principais referências de Jesus para a nossa vida; 3. a igreja é uma comunidade terapêutica. Luto por isso. Não é lugar pra ninguém julgar ninguém. O grande desafio é o do amor. Por intermédio dele, tudo flui e a gente descobre paulatinamente o valor da vida. Enfim, acho que a gente tem que intensificar aquilo que vale a pena mesmo. Portanto, vamos viver a vida com simplicidade. Estudar e crescer com a finalidade de mostrar aos outros a qualidade da nossa vida com Deus. Na comunidade de fé (acho essa expressão melhor do que igreja), nós temos a oportunidade de fazer diferença com Deus e com o próximo. Podemos contribuir muito com a causa do Senhor na igreja, segundo a lógica: "aquilo que vale a pena", pois são muitos os dons e talentos que Ele colocou em nossas vidas. Tudo de mais belo para nós.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Hoje tive um sonho...

Acordei com um sorriso, depois de um sonho... Sonhei que estava em um lugar amplo, onde se aglutinavam muitas pessoas oriundas de diversas cidades e de múltiplas culturas. As pessoas tinham em seus corações boas intenções e desejavam participar da sinalização do bem estar para muitas outras pessoas – seus semelhantes. Seguiam fielmente o preceito de amar a Deus e ao próximo, oriundo do pensamento de um jovem sábio, inscrito em um velho rolo de pergaminho. Apesar dos bons intentos, os semblantes estavam pesados. As pessoas estavam desesperançadas e descontentes. Eram muitas as inquietações e dificuldades vivenciadas. O ambiente claro-escuro era evidente e a opacidade dos olhares dizia muito sobre os dramas estruturais no contexto da organização que amavam. Os planos contraditórios, a visão distorcida, os semblantes inseguros, a contigência da vida, os dramas familiares, as crises financeiras, o arroubo das falas arrogantes, o dedo em riste, o medo da sinceridade... tudo isso reunido dentro de um salão marcado pela presença de um “sagrado”. Frio, vento, nebulosidade... Entretanto, as nuvens densas do dia nublado se desfizeram, pois os principais líderes da organização rasgaram suas vestes, se cobriram de cinzas, arrancaram as sandálias dos pés e iniciaram uma celebração inusitada que começou com um pedido claro de perdão num sermão afetuoso e a celebração da santa-eucaristia. Todas as pessoas, como que sendo invadidas por um sopro renovador do vento leste, igualmente rasgaram suas vestes, cobriram-se de cinzas e arrancaram suas respectivas sandálias para pisar aquele ambiente que havia se tornado santo, genuinamente santo. Os bons intentos se encantaram, os semblantes ficaram leves. As pessoas nutriam-se de esperança e se abraçavam contentes. Perdiam as inquietações e vivenciavam o diálogo fraterno. O ambiente ficou brilhante como o domingo de sol e um reflexo inimaginável tomou conta dos olhares, desfazendo paulatinamente os dramas estruturais da organização que amavam. Os planos concordados, a visão definida, os semblantes firmes, a contigência da vida, os desafios familiares, as possibilidades de resoluções financeiras, as falas carregadas de humildade, a sinceridade... tudo isso reunido dentro de um salão marcado pela presença do Cristo. Na ceia-eucaristia-sempre-santa, uma nova organização nascia com cheiro de gente – Deus com a gente, feito gente. O rancor se desfez, as mágoas foram lançadas ao chão e todos(as) se uniam em uma só voz cantando: “No Espírito, unidos, somos um no Senhor”. Espero continuar sonhando...

sábado, 5 de outubro de 2013

Almoço beneficente pró-CEMAT

No dia 22 de setembro de 2013, irmãos e irmãs das diversas Igrejas Metodistas da cidade de Juiz de Fora, reuniram-se num encontro formidável que teve por objetivo angariar fundos para o Centro de Apoio aos Toxicômanos – CEMAT. O almoço ocorreu no salão da Igreja Metodista Bela Aurora. Entretanto, antes do momento eucarístico, uma celebração de louvor e edificação ocorreu no templo. Sob a direção dos pastores Jovanir Lage, Adilson Mazeo e Júnio Marcos, o culto a Deus teve a participação do ministério de música da Igreja Metodista de Monte Castelo, a pregação pelo pastor Adilson e, logicamente, dos internos do CEMAT que testemunharam e cantaram ao Senhor da vida. Um momento expressivo deu-se na apresentação dos projetos de melhorias do CEMAT, acompanhado por diversos testemunhos de pessoas que contribuíram diretamente com a história e edificação do CEMAT.
Com o encerramento do culto, todos se reuniram no referido salão para um almoço expressivo que contou com a presença de 400 pessoas. O lucro líquido de R$2500,00 reais, embora pequeno à primeira vista, foi um passo importante para novas mobilizações dos metodistas em Juiz de Fora em relação ao CEMAT. O que se espera, brevemente, é a ampliação dos espaços para acolhimento de novos internos e a divulgação do Evangelho através do seu braço social. Segundo testemunho do pastor Clay, “um dos orgulhos em ser metodista repousa sobre essa sempre viva possibilidade de alinhar obras de piedade e atos de misericórdia”.
Rogamos aos irmãos e irmãs que continuem a orar pelo CEMAT e pela sua atual administração e conselho. E que a graça e a misericórdia de Deus continuem a atuar positivamente na restauração do ser humano em sua dignidade. “Não só a alma do mal salvar. Também o corpo ressuscitar”. Informou: pastor Moisés Coppe.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Manifesto a Respeito da Atual Situação da Igreja Metodista

Nós, membros leigos, leigas, clérigos e clérigas, manifestamos nossa preocupação com a atual conjuntura da Igreja Metodista, denominação à qual pertencemos e onde exercemos nossa vocação cristã e nosso chamado de vida. A Igreja Metodista, ramo do cristianismo protestante surgido como resultado do avivamento evangélico de John e Charles Wesley, tem se destacado na atuação constante e presente na sociedade, visando o testemunho do Espírito Santo através do exercício de atos de piedade (participação nos cultos, sacramentos, exercícios devocionais e de oração) e atos de misericórdia (vestir o nu, alimentar o faminto, visitar o preso e o enfermo, abrigar o peregrino). Neste propósito de avivamento e santidade, conforme a compreensão dos irmãos Wesleys, que não concebiam santidade que não fosse santidade social, a Igreja Metodista foi pioneira na Inglaterra na fundação de escolas públicas para abrigar os filhos e filhas dos mineiros e operários, pioneira no movimento das escolas dominicais, que em sua origem além do ensino bíblico visava o ensino de gramática e matemática para crianças abandonadas e em situação de rua na época da revolução industrial, pioneira na luta por justiça social combatendo ativamente o tráfico escravagista e atuando fortemente pela reforma e humanização do sistema prisional e pioneira na criação de um sistema de enfermarias e caixas de empréstimos para atendimento às populações mais carentes de sua época. A Igreja Metodista estabeleceu-se no Brasil através do trabalho missionário de Spaulding, Kidder e outros, a partir do ano de 1836. Muito embora tal projeto missionário fosse de matriz liberal-conservador, de cunho guerreiro-salvacionista e desta forma rejeitando a cultura brasileira e sua matriz, a Igreja Metodista foi pioneira no Brasil no campo educacional, através da colaboração de Martha Watts; no campo social, com a implantação do Instituto Central do Povo, através de Tucker; na assistência à saúde, principalmente na assistência aos portadores de hanseníase, através do trabalho de Eunice Weaver; na participação política cidadã e republicana, pioneira entre os evangélicos até então alheios às preocupações com a sociedade em geral, através de Guaracy Silveira e Ruy Ramos e no uso do rádio e da televisão para a pregação do evangelho, através de Joel Jorge de Mello. Tais pioneiros e pioneiras metodistas em terras brasileiras esforçaram-se para a perpetuação do legado espiritual de John e Charles Wesley, a despeito de suas limitações. Posteriormente, com o estabelecimento missionário nos mais diversos países do mundo, a Igreja Metodista continuou pioneira ao fazer parte dos mais diversos organismos ecumênicos, nos EUA, na Inglaterra, na Europa, América Latina e no mundo, na grande maioria dos casos como membro-fundador. A Igreja Metodista é membro-fundador do Conselho Mundial de Igrejas, do Conselho Latino Americano de Igrejas, da Confederação Evangélica do Brasil, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Brasil), da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Brasil) e de organismos ecumênicos nos EUA, Reino Unido, Europa e nas demais localidades do mundo. Esta convicção, a de que a unidade de testemunho dos cristãos é um imperativo, sempre foi um elemento impulsionador da missão como libertação integral dos seres humanos do pecado e das forças promotoras da morte. A Igreja Metodista, ainda no século XIX, foi pioneira no desenvolvimento do conceito de Evangelho Social, culminando no fato de ser a primeira igreja a desenvolver um Credo Social, um documento doutrinário basilar que orienta e guia seus membros no exercício cidadão da fé. A Igreja Metodista também é pioneira no reconhecimento e valorização da vocação feminina, desde a época dos irmãos Wesleys, sendo em todas as localidades onde está instalada uma das primeiras (senão a primeira) igrejas a aprovar a ordenação presbiteral de mulheres, garantindo direitos iguais e agindo de maneira contundente em favor da igualdade de gênero. Portanto, causa-nos preocupação a atual situação da Igreja Metodista que, para muitas pessoas, constitui ruptura com a longa e gloriosa trajetória de lutas e conquistas em favor do Reino de Deus e da libertação das pessoas das estruturas promotoras da morte, da exclusão, da discriminação e da opressão. a) Lamentamos e expressamos nossa perplexidade com a intervenção do Colégio Episcopal na autonomia universitária da UMESP e nos atos arbitrários cometidos contra docentes da Faculdade de Teologia. O curso de teologia da Igreja Metodista oferecido na UMESP é reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e avaliado como uma das melhores graduações em teologia em no país. Tal status foi conquistado através da dedicação e excelência acadêmica dos profissionais da UMESP e da FATEO. Há quase cem anos os professores são escolhidos conforme recomendação de Paulo em I Timóteo 5.17: "Devem ser considerados merecedores de dobrada honra os presbíteros e presbíteras que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino". Há tempos a Igreja vem escolhendo homens e mulheres com vocação pastoral reconhecida, que além de pastores e pastoras, cultivam a pesada disciplina do estudo, qualidade tão estimulada pelo próprio John Wesley. Estes servos e servas que, além de presidirem bem à Igreja como pastores e pastoras se afadigam no ensino, há tempos confirmam esta dupla vocação com as nomeações pastorais que recebem ao lado da labuta disciplinada do ensino, como contribuem com reflexões e comunicações não apenas nos inúmeros encontros da Igreja pelo país, como por meio de seus escritos. Nossos professores e professoras da FATEO têm atestado publicamente serem homens e mulheres de Deus. Por isso mesmo, face à inequívoca competência acadêmica acumulada, conseguiram fazer nosso curso de teologia reconhecido pelo MEC, conforme os rigorosos critérios daquele órgão. O curso de pós-graduação (strictu sensu) em Ciências da Religião é um curso avaliado como nota cinco pela CAPES/MEC, e tal situação só é possível pelo fato de que na pós-graduação a ênfase nos estudos é na produção de conhecimento científico, não no estudo de doutrinas denominacionais. Desta forma, sendo a graduação em teologia e a pós-graduação em ciências da religião cursos oferecidos à comunidade em geral, não apenas aos membros da Igreja Metodista, com cobrança de anuidade de acordo com valores de mercado, não nos parece ético que critérios casuísticos sejam adotados para a imposição de medidas que visam restringir a produção de conhecimento, alinhando-o à linha teológica hegemônica adotada pelo Colégio Episcopal, nem que a Igreja Metodista beneficie-se das mensalidades pagas pelos alunos e alunas que não fazem parte da Igreja Metodista para financiarem um seminário confessional. Parece-nos razoável que a Igreja Metodista mantenha seminários confessionais para a formação de obreiros e obreiras de acordo com a doutrina e orientação teológica estabelecidos pela Igreja Metodista em seus Concílios Gerais, como atualmente é o caso do Seminário Metodista César Dacorso Filho, na 1ª Região, que se estabeleceu como curso livre, sem reconhecimento do MEC, para atendimento das necessidades da Igreja Metodista. Todavia, não nos parece razoável que a igreja venha a se locupletar com os recursos financeiros obtidos pelas instituições de ensino, cujo funcionamento é regulamentado pelo Ministério da Educação e Cultura, tendo em vista a imposição de pensamento. b) Lamentamos e expressamos nossa preocupação com a postura autoritária, que busca calar vozes discordantes e divergentes, ao invés de estabelecer um proveitoso diálogo com vistas ao enriquecimento da experiência cristã através do exercício dos múltiplos dons e vocações. Tem-se multiplicado na Igreja Metodista, a partir do XVIII Concílio Geral da Igreja Metodista, realizado em 2006 em Aracruz-ES, exemplos de constrangimentos, perseguições, punições, retaliações, alijamentos e expulsões de membros nas diversas Regiões Eclesiásticas, tanto em nível local, distrital, regional e geral. Quando um membro da Igreja Metodista, seja leigo, leiga, clérigo ou clériga, sofre um processo de perseguição em sua maioria ilegal, esse membro não encontra guarida nas instâncias internas de mediação de conflitos, sejam as Comissões Regionais de Justiça, Comissão Geral de Constituição e Justiça, bispo ou bispa presidente de região ou Colégio Episcopal. Mais de uma vez membros da igreja que buscaram as instâncias internas visando à mediação e solução de conflito foram ignorados, tendo suas queixas sido arquivadas pelos presbíteros e presbíteras competentes. Tais presbíteros e presbítera com nomeação episcopal não tem o direito de ignorar os Cânones, Manual de Disciplina e Código de Ética Pastoral como fizeram nesses casos. Os bispos e bispa são presbíteros e presbítera eleitos e eleita conciliarmente para supervisionarem a Igreja, não se constituindo como ordem ou classe diferenciada de clérigos e clérigas. Na Igreja Metodista o episcopado é visto como cargo e como serviço, sendo o bispo ou bispa submissos aos Cânones e aos Concílios, não o inverso. Preocupa-nos que cada vez mais o ministério episcopal da Igreja Metodista seja caracterizado pelo abandono das tradições democráticas, conciliares e canônicas que marcam a atuação do metodismo no mundo todo desde sua constituição como corpo eclesiástico independente, primeiramente nos Estados Unidos e depois na Inglaterra. Preocupa-nos que o ministério episcopal na Igreja Metodista esteja cada vez mais parecido com ministérios autointitulados apostólicos, que confere ao líder da igreja ou denominação poderes absolutos para decidir sobre os destinos da igreja e de seus comandados, sem que tal líder autocrático e personalista tenha de se subordinar a um sistema conciliar, conexional e canônico. Desta forma manifestamo-nos contra a existência da figura do “Ato de Governo”, que é um instrumento autoritário e ditatorial, reminiscente dos Atos Institucionais utilizados pelo governo de exceção do Brasil. A Igreja Metodista é dirigida canonicamente pelos Concílios (local, distrital, regional e geral) e em seus interregnos pelas Coordenações de Ação Missionária (local, distrital, regional e geral). Portanto, é teologicamente e legalmente estranho ao metodismo a figura do episcopado monárquico, tal como existe nas Igrejas Católicas e Ortodoxas, ou a figura do episcopado autocrático conforme o modelo empresarial adotado pelas novas comunidades evangélicas de matriz neopentecostal. c) Expressamos nossa grande preocupação com a atual falta de transparência na gestão de recursos financeiros e gastos por parte da liderança da Igreja Metodista. As igrejas locais estão enfrentando desde final de 2011 processos de bloqueio judicial de seus recursos financeiros (contas correntes, poupanças e aplicações financeiras) com objetivo de quitar a imensa dívida trabalhista do Instituto Bennett. Até o presente momento não houve nenhuma comunicação oficial por parte do Colégio Episcopal esclarecendo à membresia leiga, que vê os frutos de suas contribuições financeiras e de sua dedicação no exercício da missão bloqueado de maneira aparentemente sem relação com sua atuação local. A situação financeira das instituições educacionais da Igreja Metodista, que são fonte de renda para custeio de despesas das Regiões e da Sede Nacional, através da transferência de recursos a título de aluguel, precisa se tornar pública para a membresia da igreja, bem como a publicação de balancetes mensais e planilhas de custos detalhadas. d) Apelamos ao Colégio Episcopal para que revejam as decisões que tem tornado a Igreja Metodista cada vez mais isolada e sectária e cada vez menos alinhada à tradição e história metodista, de respeito, tolerância, pluralidade e cooperação missionária. Causa constrangimento o fato de termos na figura do revmo. Paulo Lockmann o presidente do Concílio Mundial Metodista eleito na mesma reunião que o corpo que congrega as igrejas de tradição metodista aprovou a assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, unindo-se à Igreja Católica e à Federação Luterana Mundial na compreensão deste aspecto teológico. No exercício de sua presidência o revmo. Paulo Lockmann participou de diversos cultos e celebrações ecumênicas ao redor do mundo, representando a comunidade metodista mundial, mas sua própria comunidade é impedida de vivenciar o testemunho conjunto com cristãos e cristãs de diversas confissões e tradições. O XVIII Concílio Geral aprovou a criação de uma comissão que se incumbiu de revisar a Carta Pastoral sobre o Ecumenismo. Tal comissão deu origem à Carta Pastoral Para Que Todos Sejam Um. Este documento foi chancelado pelos bispos e bispa e nele há orientações para estudo e compreensão da unidade dos cristãos na perspectiva metodista. No XIX Concílio Geral aprovou-se proposta de valorização da Carta, para que a mesma fosse estudada em nível local pelos pastores, pastoras, leigos e leigas. Todavia, até o momento o Colégio Episcopal da Igreja Metodista não tem cumprido seu papel de guardião da unidade orgânica e institucional da igreja e orientado o corpo clerical para o estudo, nem desenvolvido estratégias para a conscientização de sua membresia sobre a concepção metodista da unidade. e) Lamentamos profundamente o fato de que, a despeito de Carta Pastoral escrita e publicada em 2004, a Igreja Metodista esteja em processo de adoção do G-12 como modelo eclesiológico e doutrinário, contando com a omissão ou mesmo com a comissão das autoridades episcopais. Em diversas regiões e diversos distritos da Igreja Metodista no Brasil igrejas, pastores e pastoras têm sido coagidos e coagidas a adotarem o G-12, muito embora em seus documentos oficiais a Igreja Metodista afirme que “discipulado não é metodologia, mas estilo de vida”. Leigos e leigas muitas vezes tem sua participação em ministérios, como colaboradores ou coordenadores, vedada pelo fato deste membro não ter participado dos Encontros (como são chamados os retiros espirituais de iniciação no modelo em células). Leigos e leigas muitas vezes tem sua participação em Congressos Regionais de Discipulado pelo fato desses membros não terem participado de “escolas de líderes” (muito embora tal figura inexista na legislação canônica metodista) ou não serem “líderes de célula” (adotando inequivocamente a nomenclatura e prática do G-12 que o Colégio Episcopal tão clara e inequivocamente condenou). Tais situações são contrárias aos Cânones da Igreja Metodista, que determinam os direitos e deveres dos membros leigos, e também ao documento Dons e Ministérios, adotado oficialmente pela Igreja Metodista como sua forma de organização eclesial e regulando a participação dos leigos e leigas na vida da Igreja Metodista. Lamentamos também o processo de deterioração e abandono da Escola Dominical, que tem sido sistematicamente substituída por encontros de células e escola de líderes nas igrejas locais, a perda de representatividade e manipulação dos grupos societários, o abandono da liturgia oficial da Igreja Metodista, o abandono de práticas metodistas como o batismo infantil, o batismo por aspersão e a Ceia do Senhor às crianças. f) Apelamos ao Colégio Episcopal para que as ações autoritárias e decisões obscuras deem lugar a um amplo processo de diálogo no qual todas as diferentes concepções de missão coexistentes na Igreja Metodista, todas as linhas teológicas representadas em sua membresia leiga e clériga (tradicionais, conservadores, liberais, progressistas, carismáticos e neopentecostais) possam sentar juntos em torno da mesa da fraternidade e da compreensão. Que este processo amplo de diálogo, com ampla representatividade das diversas vocações, não apenas contando com representantes da linha teológica hegemônica, vise à discussão do conceito de missão, dons e ministérios, vocação e atuação cristã cidadã. Que a pluralidade de pensamento sempre presente na Igreja Metodista seja vista como riqueza, não como ameaça. Que todos e todas sejam estimulados e estimuladas a contribuírem ativamente com a missão que é de Deus, sendo portanto, de todas as pessoas. Que todos e todas tenham sua individualidade e particularidade respeitada, dentro de uma concepção de missão construída coletivamente e conciliarmente, conforme a história e tradição metodista. Desta forma, subscrevemos este manifesto, na fé, esperança e amor firmados em Jesus Cristo, Senhor da Igreja e Senhor da história, confiantes na atuação do Espírito Santo no mundo e na igreja, mesmo em momentos de obscuridade e fechamento de espaços de convivência, respeito e diálogo. São Paulo, inverno de 2013, ano do Senhor.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Eu mando... Vocês Obedecem...

Acho ridícula toda e qualquer afirmação do poder pelo poder. Acho ridícula também toda e qualquer postura de superioridade adotada por esta ou aquela pessoa em relação a outrem. Acho, enfim, ridícula, a pessoa que afirma diante de outros a expressão: “eu mando... vocês obedecem”. Preciso considerar, de antemão, que todas as relações humanas são permeadas por essa esfera de poder, que por sua vez, se torna necessária para organizar a própria vida sócio-política dos seres humanos. Vivemos, assim, sob as determinações de um poder que muitas vezes não dominamos, tampouco controlamos. O problema em relação à questão do poder refere-se, primordialmente, ao fato de que essa manifestação social dá margem a que pessoas dominem pessoas. Assim, o problema não reside ao exercer ou não o poder, mas na forma como se exerce o poder. Em minha concepção, poder não pode ser exercido para subjugar pessoas. Todavia, como podemos pensar melhor as relações de poder sem essa subjugação? Na tentativa de responder a essa questão, fixamos primeiramente os olhos na vida e ministério de Jesus. Indubitavelmente, a forma como ele exerceu o seu poder é exemplar e digna de ser seguida pelas pessoas que tem responsabilidades de cuidado em relação aos outros. Jesus nunca mandou. Ele propôs questões para o juízo de seus discípulos, segundo a máxima: “Quem tem olhos para ouvir... quem tem ouvidos para ouvir...”. O único mandamento refere-se ao amor e o amor não subjuga pessoa qualquer. Jesus é o nosso modelo. No que se refere à conceituação bíblica de poder, podemos constatar que existem duas definições específicas: a primeira refere-se à palavra dinamismo e a segunda à palavra potestade. Dinamismo é a palavra que aparece, por exemplo, em Atos 1.8: “Mas recebereis dinamismo (poder) ao descer sobre vós o Espírito Santo”. Ora, essa dimensão de poder revela a todos nós que o poder, numa conceituação cristã, não pode ser o poder para subjugar as pessoas segundo os princípios da potestade. O dinamismo é a dinâmica da vida em seus intuitos de ampliar a vocação dos santos rumo aos ideais preconizados por Cristo e favorecer a melhor vivência dos cristãos, no mundo no qual se está inserido. Já a potestade tem a ver com dominação. Sendo assim, a frase: “Eu mando... vocês obedecem” não se insere na perspectiva dos principais argumentos bíblicos que exaltam a perspectiva do dinamismo, da força e do milagre. Na contramão da potestade, encontramos versos, como: Mateus 6.13. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o dinamismo (poder) e a glória para sempre”. Ou ainda: Romanos 1.16: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o dinamismo (poder) de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego”. E, enfim: Apocalipse 19.1. “Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o dinamismo (poder) são do nosso Deus”. Como interpretamos, nesses exemplos, averiguamos a dimensão de um poder que tem a ver com a explosão de vida na vida. Aliás, nessa mesma linha de raciocínio o Ricardo Godim diz alguma coisa fascinante: “Não pretendo segurar o amor de ninguém. Anseio por relacionamentos livres, leves e soltos, deixando que meus amigos acertem ou não o caminho deles. Que cada um conviva com as suas escolhas e construa o seu caminho no caminhar. Arrisco conviver na gratuidade dos afetos, sem cobrança. Preciso acreditar que ninguém deve nada a ninguém senão respeito à liberdade e à dignidade. Aventuro-me fazer o bem e não cobrar nada em troca. Já que desisto de um jeito de ser feliz, resta-me seguir pela vereda incerta da minha verdade. É melhor deitar a cabeça, sabendo que sou honesto comigo mesmo, do que aceitar os jogos de poder que me asfixiaram por anos. Não quero fórmulas fáceis, nem aceito “cinco passos para uma vida tranquila”. Essas receitas roubaram o meu bem mais precioso: tempo. Sei que o porvir não se converterá em um idílio no estalar dos dedos. Contento-me em notar que pequenas alegrias e poucos sorrisos pontuarão a minha existência. Não anelo por muito mais. Essas pitadas serão suficientes para eu dizer no fim de tudo: viver valeu”. (Disponível em: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/para-poder-dizer-viver-valeu/) Sim, de fato, vale a pena viver sob o sol forte e intenso da liberdade. Não podemos abrir mão de sermos o que somos e de deixarmos as pessoas viverem as suas vidas sem as determinações frias das leis que criamos para embotar a aventura de viver e sofrer. Portanto, poder só tem sentido se for pra abrilhantar mais a vida e permitir às pessoas a possibilidade de viverem as suas auroras e seus crepúsculos. Na dinâmica do Evangelho, não há espaços para pessoas que querem mandar, mas sim, para pessoas que, no dinamismo de suas palavras e ações, cultivam relacionamentos de reciprocidade, de afetos e de solidariedade na caminhada. No caminho, come-se o pão com sabor de manjar e se apóia o outro em tempos sombrios, nublados ou primaveris.

sábado, 31 de agosto de 2013

Os Incomodados que se Mudem!?

Um antigo adágio popular assim reza: “Os incomodados que se mudem”. Quero afirmar, de antemão, que concordo em gênero, número e grau com essa frase. Estou incomodado e estou em mudança. Mudo porque se torna necessária a mudança para o estabelecimento de uma ação contrária ao que se impõe. Mudo porque, recebendo as manifestações de poder ditatorial, preciso me reposicionar. De fato, se me sinto incomodado, é porque algo me transtorna, pois o incômodo é o contrário do confortável. Não me sinto estabilizado, portanto estou incomodado e, pior, demasiadamente entristecido. É cruel saber que a dinâmica que move a maioria das igrejas na atualidade está de mãos dadas com a lógica de mercado. As únicas coisas que importam, ao final das contas, são as cifras. E, para que os objetivos sejam alcançados em qualquer das esferas já citadas, pessoas precisam ser sacrificadas. Estamos vivendo um tempo de sacrifícios bizarros, que são feitos em nome de “Deus”. Em nome deste “Deus” e em nome da “salvação” de vidas com vias ao crescimento numérico das igrejas, um monte de gente é violentamente atropelada. Não há espaço para uma reflexão sobre as temáticas da fé, principalmente se elas não se encontram em acordo com a visão do líder, que por sua vez, busca a unidade a qualquer custo, não por intermédio de conquistas democráticas ou acordos diplomáticos. A unidade que se busca concerne à obediência cega à “visão” do homem ou mulher de “Deus”. Ora, a história da humanidade está repleta de monumentos emblemáticos onde ditadores, em nome de sua particular visão, se impostaram magnanimamente. Lembremo-nos dos Cézares, das Cruzadas, de Stalin, Hitler entre outros. No campo religioso, temos muitos exemplos também. Onde se fez presente a visão de um líder – em nome de “Deus”, o povo teve que se submeter. Um caso exemplar é o de Jim Jones que em 1954 criou a sua própria igreja chamada Peoples Temple Christian Church Full Gospel. Seu trabalho ganhou notoriedade, tanto que em 1960 o prefeito democrata Charles Boswell o nomeou como diretor local da comissão de Direitos Humanos. Depois de tentar ampliar sua denominação, ele acabou por criar um movimento específico na Guiana. Ao fim, levou a morte 900 membros da denominação que, incitados pela visão do líder, acabaram se suicidando. O homônimo Tim Tones – personagem de Chico Anísio – evidenciava no contexto do seu quadro, através do humor-sátira, os desvios e contradições das igrejas de mídia. Sempre ao final, após a mensagem de “esperança”, o “pastor” Tim Tones expressava em tom religioso: “Pode correr a sacolinha”. Ao mesmo tempo em que pessoas são jogadas para escanteio por não concordarem com a visão, o dinheiro entra nos caixas eclesiásticos e os adeptos a essa proposta se colocam no lugar de Deus para anteciparem Seu juízo. Determinam euforicamente quem é santo e quem é pecador; quem é servo e quem é escravo; quem é obediente e quem é rebelde; quem é de Deus e quem é do Diabo. Assim, amparados por textos do Antigo Testamento, principalmente os que ressaltam a visão de um Javé passional, tais lideres buscam a legalização e a legitimação de seus argumentos. Sem o mínimo de critério interpretativo, aplicam o texto pelo texto, a letra morta com cheiro de morte, longe da Boa Nova anunciada por Cristo. Aliás, se pensarmos bem, Jesus, mesmo ele, interpretou a Bíblia dizendo: “Ouvistes o que foi dito. Eu, porém, vos digo...”. Nessa mesma linha de raciocínio, outro fator que muito me incomoda, e que merece a minha mudança, refere-se à obediência aos princípios bíblicos sem o mínimo de critério. Tenho aprendido continuamente que a Bíblia não é um texto para ser obedecido, mas pra ser interpretado. Ora, a Bíblia é uma referência para a dinâmica de fé, mas não é um instrumento para alienar ou oprimir as pessoas. A obediência pode e deve até vir como fruto de uma interpretação da própria Bíblia. A interpretação é fruto de uma leitura orante da Bíblia. Sem oração e discernimento espiritual é impossível interpretá-la. Mudo, assim, minha forma de inserção na leitura bíblica. Acontece que, na mesma onda mercadológica, a ideia de que os fins justificam os meios – ideia atribuída erroneamente a Maquiavel – se evidencia de forma categórica nos nichos eclesiásticos. Em outras palavras, líderes seguem aquela lógica de que não importa o meio, desde que o fim seja a pregação do Evangelho ou levar pessoas a Jesus. Mas, em minha humilde concepção, no que se refere ao Evangelho, os meios são fundamentais. Aliás, encontrei ecos para esse meu raciocínio no pensamento sempre aberto de Eugene Peterson. Segundo ele: “A relação entre os fins (o lugar para onde estamos nos dirigindo) e os meios (como chegamos lá) é uma distinção fundamental na ciência, na tecnologia, na filosofia, na moral e na espiritualidade. Encaixar os meios corretos aos fins esperados é necessário em praticamente tudo o que fazemos, desde coisas tão simples quanto atravessar uma rua e fritar um ovo até complexidades implicadas numa missão à lua ou na composição de um romance. Mas a questão é a seguinte: os meios precisam ser não somente satisfatórios, mas também coerentes com os fins. Os meios precisam se encaixar aos fins. Caso contrário, tudo desmorona”. (O caminho de Jesus e os atalhos da igreja, p. 39). Os meios não podem ser abandonados, mesmo que o fim seja ideal. E finalmente, gostaria de novamente fazer um apelo a todo cristão de bem a não se calar diante das atrocidades feitas em nome de Deus. Confidencio a todos e a todas que num dado momento, frente aos mandos e desmandos ou mesmo frente à exaltação desenfreada da “visão”, acabei pensando que o errado era eu mesmo. Mas, posteriormente, recobrando a razão, me vi novamente me equilibrando em minha sanidade mental e espiritual. Todavia, não podemos nos calar. Temos que mudar a nossa atitude continuamente ante aos incômodos que outros geram em nós ou para nós. Os incomodados irão se mudar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reconsagrando a vida a Deus

Destino essa reflexão a todas as pessoas que desejam, de uma forma direta ou indireta, reconsagrar a vida ao Senhor, Deus da graça. Eu entendo que, em nossa lida cotidiana, muitas vezes deixamos de refletir sobre os valores fundamentais de nossa vivência no campo da espiritualidade. Sendo assim, uma parada reflexiva é sempre um tempo de “zerar as contas” e vislumbrar uma nova oportunidade. Aliás, se pensarmos bem, nossa vida é marcada por ciclos e recomeços. Anos, meses, dias, demarcam nossa nova sempre entrada no campo das novas possibilidades e recomeços. Eis aqui uma chance para a renovação de nossa espiritualidade e reconsagração. Ora, por espiritualidade, compreendemos inicialmente a capacidade do ser humano de estar para além do mundo, do corpo e do tempo. (BOFF e BETTO. Mística e espiritualidade, 49). Isso quer dizer que sempre estamos diante de algo diferente e inusitado, com o qual nos relacionamos. É a experiência com Deus. No caso da fé cristã, esse algo diferente e inusitado está centrado na vida e missão de Jesus Cristo. Sendo assim, nossa perspectiva de fé é profundamente marcada pela presença graciosa e amorosa de Cristo em nós. Já a reconsagração tem a ver com a renovação da nossa dedicação a Deus por intermédio de nossa doação irrestrita de dons, talentos e algo mais. Pensando em tudo isso, resolvi dialogar com o autor de Hebreus, mais especificamente, sobre o que ele escreve no capítulo 12. É que aparece neste texto uma espécie de resumo fundamental para a boa resolução da espiritualidade cristã. Este texto reúne elementos que podem gerar a transformação de nossa vivência em Cristo, bem como a reconsagração de nossa vida ao Senhor. Hebreus A carta de Hebreus é um escrito atípico do Novo Testamento. Ela reúne os aspectos litúrgicos levíticos da cultura israelita e a nova vida/ novo caminho revelados em Jesus. Não sabemos quem foi o autor da carta. Um dos pais da igreja chamado Tertuliano atribuiu-a a Barnabé. Na região de Alexandria, a atribuição foi dada a Paulo. Já Lutero apostou que a autoria da carta seria de Apolo, por causa da referência expressa em Atos 18.24-28. O que sabemos, com certa convicção é que as pessoas dessa comunidade conheciam a Timóteo (13.23) e estavam juntas e efetuavam uma missão difícil, complexa e diferenciada no arcabouço da sociedade judaica. A carta, portanto, foi escrita a este grupo definido de leitores. A questão de fundo O autor de Hebreus tem diante de si um problema específico. De alguma forma, todos os judeus convertidos ao cristianismo assim se fizeram por causa das promessas vívidas da mensagem portada pelos discípulos e discípulas. Era o anúncio de um novo tempo que havia se originado em Jesus. Entretanto, os zelosos aderentes do judaísmo ficaram desapontados com o cristianismo justamente pela ausência de um reino visível. Esse é o motivo pelo qual muitos deixam a vida em comunidade, passando a viver de acordo com os princípios da antiga tradição. Assim, o autor de Hebreus se preocupa terminantemente em ressaltar a absoluta doação de Jesus em prol do mundo. A princípio, segundo William Barclay, o autor de Hebreus neste texto afirma três coisas sobre Jesus: 1. Que Jesus é o caminho vivo para a presença de Deus – quando se vê o sangue e o corpo rasgado, percebe-se também o que de divino há em Jesus; 2. Que Jesus é o sumo sacerdote de Deus, sobre a casa de Deus (mundo) e no céu – isso nos põe na presença de Deus; 3. Que Jesus é o que realmente pode purificar as gentes. Todas essas afirmações determinam aplicações muito evidentes para os que vivem a fé cristã e convocam os crentes a uma reconsagração. São elas: a. Guardar firme a confissão da esperança – o ditado popular afirma que “a esperança é a última que morre”. No arcabouço de nossa dinâmica de vida, é de suma importância que expressemos nossa esperança de que tempos melhores virão. b. Considerarmo-nos uns aos outros – a vida em comunidade exige de todos nós a dedicação ao outro. Pessoa alguma pode viver de forma solitária. Aliás, nós somente nos encontramos conosco quando temos a oportunidade de nos encontrarmos com o outro, nosso semelhante. c. Render um culto comunitário – o terceiro elemento é uma convocação à vivência comunitária. Pessoa alguma pode dizer que vive com Deus sem uma vivência em comunidade. A vivência em comunidade nos ajuda a melhor nos compreendermos como cristãos. Um se torna referencial para o outro. As cargas são partilhadas e a possibilidade de uma espiritualidade renovada ocorre de forma singular. Então, diante dessas sucintas considerações pastorais, desafiamos todas as pessoas a evidenciarem a confissão da esperança, a cuidarem uns dos outros e a vivenciarem a vida em comunidade, num movimento de completa reconsagração, sempre. Caminhemos assim, o Senhor nos ajudando.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Retiro dos Bispos ou Férias na Praia?

O Brasil tem vivido, nos últimos trinta dias, tempos únicos nos quais a população tem levantado a voz questionando os políticos e suas decisões, que supostamente representam o povo. Também tem clamado de maneira enfática por transparência e ética no trato do dinheiro público. Gastos exagerados na construção de estádios para a Copa das Confederações e Copa do Mundo são lembrados a todo instante pela população, cansada do descaso e desonestidade na gestão do dinheiro arrecadado com os impostos. Na semana em que os protestos se intensificaram e a repressão aos manifestantes se tornou especialmente violenta, sobretudo nas cidades-sede da Copa das Confederações, os bispos e bispa da Igreja Metodista se reuniram em Natal-RN para seu retiro espiritual. É de praxe que em retiros, acampamentos e quaisquer reuniões que envolvam clérigos e leigos da Igreja, que haja tempo livre para que os participantes possam gozar o lazer e restaurar suas forças para os momentos de intenso trabalho. Todavia, ainda que o retiro em si possa ser justificado, algumas perguntas ficam no ar e exigem uma resposta clara por parte da liderança da Igreja Metodista: É conveniente que, em uma época de grandes convulsões sociais e movimentação das pessoas marginalizadas em busca da cidadania que sempre lhes foi negada, os bispos e bispa ausentem-se de suas sedes onde deveriam exercer seu papel de líderes espirituais e orientar o exercício cristão da cidadania e da busca pelo Reino de Deus e sua justiça? É transparente a gestão de recursos da Igreja Metodista, recursos que em último caso é fruto dos dízimos e ofertas dos membros leigos? É transparente a transferência de recursos das instituições educacionais da Igreja Metodista, a título de royalties e aluguel, usados para pagar os custos da manutenção das sedes regionais e sede nacional? É justo que os leigos e leigas, que são as pessoas que contribuem financeiramente e também contribuem com sua ação voluntária, sejam completamente excluídos tanto da gestão da Igreja Metodista? É ético e moral que não haja nenhuma prestação de contas e nenhuma divulgação dos gastos da Igreja Metodista com seus programas e eventos? É ético e moral que, a poucos dias de termos participado de uma campanha de arrecadação de fundos para o financiamento da missão do Norte e Nordeste de nosso país, a Igreja desembolse, através de suas sedes regionais, sede nacional e instituições de ensino, uma quantia certamente nada desprezível para que os bispos e bispa possam se reunir? Qual a função do edifício da Sede Nacional, construído a pouco mais de uma década em uma região valorizada da capital de São Paulo, edifício que conta com infraestrutura completa para reuniões de trabalho, hospedagem, local de culto e de encontros, já que houve a necessidade de desembolso de uma alta quantia para acolher os bispos, bispa, seus familiares e secretários e secretárias do Colégio Episcopal? A população de nosso país deseja que seus governantes ouçam e administrem os bens e recursos públicos de maneira ética e transparente. Portanto, é de fundamental importância que os recursos para a missão da igreja também sejam administrados de maneira ética, transparente e participativa. (Em respeito à privacidade dos bispos, bispa e seus cônjuges, não iremos publicar as fotos, muito embora elas estejam divulgadas nos perfis dos bispos nas redes sociais) Postado por Fabio Martelozzo Mendes às 08:00

sábado, 1 de junho de 2013

Mensagem para a IMBA

Saudade... É o que tenho. É o que sinto. É o que me consome. Saudade, palavra que só existe na língua portuguesa e que me faz, e que me refaz na continuidade dos dias que passam e que chegam; que chegam e que passam. Saudade é o sentimento mais presente nesse coração imaginário que guarda na fragilizada retina do olho esquerdo, os rostos, os sorrisos, as faces e os choros. Tenho saudades dos que me são queridos. Tenho saudades de vocês. Aqui em Paris, nos tempos da instalação da saudade, passaram-se segundos, minutos, horas, dias e meses. Pensando nesse tempo vivenciado aqui, me vêm agora na tela inquieta da minha mente três metáforas que quero partilhar com vocês e que resumem meu trajeto até agora. A primeira refere-se ao retiro espiritual que eu vivi aqui, tendo como companhia o silêncio na maioria dos momentos; a língua e a cultura estranhíssimas; um rádio comprado num bazar marroquino e as imagens geradas pelo meu notebook, já cansado de tanto trabalhar. De fato, esse retiro que me trouxe muitos ganhos e fez de mim um ser novo, marcado por ocorrências inusitadas, desagradáveis e felizes, bem como pela sempre presença ausente do ausente, moeu-me, desde o âmago da alma. Purifiquei-me de minhas angústias mais insólitas para novamente me encontrar com o valor singelo dos pequenos e profundos vestígios do Evangelho. Quero afirmar-me, uma vez mais, em todos os becos e vielas das cidades por onde passar, que vivo a simplicidade da herança legada por um Jesus de carne, osso e de um espírito renovado que sempre nos convidou, tão somente, a amar a Deus e ao próximo como a nós. Neste retiro, vi nas caladas das muitas madrugadas, a face de um Deus que eu ainda não conhecia. Minh’alma se encantou com o Eterno. A segunda metáfora tem a ver com a escalada de uma montanha. Minha vida aqui se comparou também a um homem que chegou ao cume do monte e de lá, avistou ao longínquo, a linha sagrada do horizonte. Os olhos lacrimejaram e ele perguntou a si mesmo: - para que me gastei pra esse momento? Como esse homem, me debulhei em questionamentos. Cheguei onde sonhava chegar. Cheguei onde não imaginava chegar. E me fiz ali, no cume do monte, um menino cansado e extasiado, vendo o corpo ferido ser beijado pela brisa gelada e cortante. A alma se decantava nela mesma, para no silêncio de quem só observa o desconhecido, receber a doçura das novas expectativas. A terceira e última metáfora narra o sentimento de pequenez que exaure as potencialidades dos valentes. Em tal momento, não sobra coisa alguma a não ser um vestígio de coragem, tão rara aos aventureiros. Todavia, o que move um aventureiro não é esse vestígio de coragem, mas o medo de não tentar e o medo de não conseguir. Movido então por essas duas lanças pontiagudas miradas ao coração, me vi apavorado e marcado pela experiência da desestabilização. Nada mais bizarro do que se sentir vivo, consciente e desestabilizado. Como artista, debruçado na arte plástica por tempos e sendo criticado veementemente por opositores que desconhecem o sabor do sacrifício, me vi sendo alvo das palavras que não liam o coração e as intenções, mas que rangiam junto às dobradiças das bocas uma espécie de desentendimento sem precedentes e irreal. Tive medos múltiplos. Medos que me assombravam e me deixavam sem chão. Só o Eterno, nas horas perdidas da madrugada, acalentava-me com sua maviosa canção de ninar. Como criança, me aninhava nos braços do que não via, para em minutos, ter o prazer de ver novo dia raiar. O retiro, a escalada e a pequenez gerada pelo medo me fizeram enxergar melhor a vida e perceber que é justamente no campo florido da simplicidade que existem as flores mais perfumadas. De preferência, os girassóis que tanto me inspiram. Penso sempre numa comunidade de girassóis amarelos, de todos os tamanhos exalando perfumes psicodélicos como os que estão nas telas de Van Gogh. Vendo os girassóis amarelos, dos quais também eu sou, me retiro do meu retiro, desço a montanha com vigor renovado e enfrento meus novos medos para continuar a afirmar com veemência que o valor da vida reside – mesmo – na boa vivência com amigos que, despreocupados com as besteiras que todos fazem no cotidiano, se importam, sobretudo, muito mais com a celebração solidária numa mesa regalada a boa comida e regada a saboroso vinho, como o da segunda remessa do casamento de Caná. Eu quero afirmar que a vida em comunidade é uma benção para todos. O que vale, ao final das contas, é a capacidade de conviver com nossas mais preciosas diferenças, sintonizando as estações para, num movimento surreal, fazer diferença na sociedade com ações que a dignifiquem. Diferença essa que não seja embrutecida ou emburrecida pelos discursos de uma verdade sombria, mas, antes, solidária e disposta a sempre caminhar a segunda, a terceira ou a décima milha. Enfim, quero reencontrar-me com essa amada comunidade no dia 7 de julho de 2013, quando terei a oportunidade de deixar meu retiro, chegar ao pé da montanha e declarar os meus medos mais remotos, agradecendo a Deus suas benesses sobre minha família e sobre vocês, bem como celebrar o vigésimo terceiro ano do aniversário de caminhada conjugal com aquela que ganhou ainda mais meu respeito, admiração e amor apaixonado. Faltam 30 dias para eu chegar à bela cidade de Juiz de Fora. Brevemente e conjuntamente, poderemos trocar olhares, sorrisos e abraços, bem como dizer com todas as letras: Deus conosco. Aproveito o ensejo para desejar às mães um restante de domingo bem amistoso, carregado da sinceridade e do respeito dos filhos e filhas – coisas mais preciosas que presentes. Um beijo grande de quem guarda múltiplas memórias de vocês. Deus convosco...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Dúvida de Tomé

Alguns discípulos são estigmatizados por causa da postura e atitude que assumem frente a momentos e vivências. É o caso, por exemplo, de Judas Iscariotes – traidor; Pedro – negador; João – amoroso e Tomé – duvidoso. Eu poderia desenvolver uma série de reflexões sobre qualquer deles e descobrir que apesar dos estigmas históricos que eles sofreram e ainda sofrem, todos estes citados são personagens importantes para o nosso entendimento da história do amor de Deus pelo seu mundo. Nesta simples crônica, quero falar de Tomé. Ora, este discípulo recebe sempre a alcunha de discípulo da dúvida, da suspeita. Entretanto, é fundamental salvaguardá-lo desta posição indecorosa, pois Tomé é um espelho para todos nós. Não sejamos incautos, pois a dúvida faz parte da vida de todos e acabamos em determinados momentos, sofrendo com ela e por meio dela. Ao mesmo tempo, a dúvida é a nossa grande aliada na vida. Se não duvidássemos, tudo seria realizado de forma simplista e rápida, e não nos deliciaríamos com o sabor de cada uma de nossas conquistas. É interessante saber que os desafios em nossa jornada são importantes, pois eles se apresentam para nós como caminhos remotos e duvidosos, instigando nossos sentimentos a uma tomada de posição. Particularmente, gosto das pessoas que se posicionam na vida. Aliás, infelizmente, tem gente que se acomoda na vida e acha que o que já conseguiu é suficiente. Acho que muitas dessas pessoas que se acomodam o fazem por medo das dúvidas que se plantam no caminho da vida. De fato, não é fácil tomar decisões e caminhar em terrenos desconhecidos. Entretanto, nestes terrenos nós encontramos as mais diversas oportunidades de acertar e errar, de rir e sofrer, de amar e até se irar. Voltemos a Tomé, então. Ora, este discípulo não estava presente na primeira aparição do ressurreto narrada pelo evangelho de João. Os demais discípulos contaram a ele que Jesus havia aparecido, mas ele disse que precisava de provas, pois sem estas jamais acreditaria na ressurreição de Cristo. Na segunda aparição de Jesus, Tomé é convidado a não somente ver, mas também a tocar nas chagas cicatrizadas do mestre. Daí vem o vaticínio de Cristo: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. Todavia, Tomé não era um infeliz. É bom que percebamos que em nenhum momento Cristo rechaça ou critica Tomé. Ele o acolhe em sua dúvida. Mais do que isso, Ele se oferece como “objeto” para a pesquisa acurada de Tomé. Este discípulo tocou Jesus, como qualquer um entre nós gostaria de tocá-lo. Em minha concepção, essa mensagem existe para a comunidade de João não se inquietar tanto com provas e aferições sobre a ressurreição. Existe também para todos nós na atualidade como uma referência de que, em primeiro lugar, podemos crer sem tocar e em segundo lugar, de que não há nada de errado em se pesquisar ou se comprovar algo ou alguma coisa em meio às dúvidas. Ora, não precisamos buscar provas de tudo, mas, ao mesmo tempo, não podemos negar nossa vontade de conhecer o que se nos apresenta de forma diferenciada do habitual. Lembremos também que os demais discípulos já tinham visto o Cristo. Eles já tinham percebido o evento da ressurreição. Tomé, mais do que se entregar à busca de uma comprovação, almejava ter a sua experiência pessoal. Hoje, ao contrário dos primeiros discípulos, nós não vemos e não tocamos em Jesus, pelo menos não em concretude, mas o experienciamos pessoalmente, de alguma forma, em nossas vivências cotidianas. Tomé precisa ser lembrado como um de nós que toca o Cristo ressurreto de forma singular buscando sua experiência pessoal. Eu, particularmente, tenho uma apreciação por Tomé. Ele é para mim um exemplo de pessoa que busca referências para sua vida. Os bereianos são um exemplo do que estou dizendo. Enquanto Paulo pregava, eles iam confirmando nas escrituras o que ele estava dizendo. E nem por isso Lucas os chama de mal-aventurados. Assim, eu interpreto o fato de que através das nossas dúvidas, conquistamos outros degraus em nossa jornada de vida e construímos paulatinamente o que concebemos por espiritualidade.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Páscoa: A flor que se abriu em abril

Hoje, dia 01 de abril de 2013 é feriado na França. Curioso notar que num país onde a laicidade é declarada na sua Carta Magna, a própria nação guarde para depois do dia de celebração da Páscoa, um dia de descanso para as pessoas e família. Conversando com uma senhora, que também é cristã, descobri que a festividade da Páscoa tem uma sonorização familiar muito intensa. Em virtude disso, é muito mais privilegiado a celebração e o estar em família do que a alegria em torno do chocolate, que por sua vez, está plenamente presente na cultura cotidiana. Por exemplo, nos mercados e supermercados não existem aqueles corredores expondo ovos de chocolate com seus coloridos e diversidades. Ao contrário, o que se vê são chocolates nos setores corriqueiros, como de costume, e alguns ovinhos também. Na Europa, a Páscoa chega juntamente com a primavera que é ansiosamente esperada, tamanho o rigor do inverno. E é muito bonito ver as árvores irrompendo em flores neste período. Durante todos os meses de fevereiro e março, nós vemos as árvores e seus brotos. Em abril eles começam a se abrir demonstrando todo um colorido especial e significativo. De fato, a Páscoa celebra a flor que se abriu em abril! Para mim, de uma forma particular, essa Páscoa ganhou sentidos especiais. É que depois de algum tempo longe da minha família, estivemos juntos por quinze dias e vivenciamos coisas muito boas, além de andarmos exaustivamente por toda a Paris. Assim, a Páscoa, além de trazer à minha mente as memórias e esperanças dos atos amorosos de Cristo, a Flor-mor que se abriu em abril, foi também para mim a pequena flor que se abriu em abril, enchendo-me de novas possibilidades para suportar os tempos sombrios e estranhos e continuar focado em meus objetivos. Hoje, toda a França, ou pelo menos a maioria dela, descansa e aguarda a explosão da primavera, da “printemps”, para poder viver a vida sem os casacos e sem a friagem inerente aos países europeus. Que venha a esperança e que de alguma forma, o Cristo vivo renasça no coração de todos aqueles que tiveram suas experiências de fé desbotadas frente a tantas guerras e conflitos gerados no bojo mesmo de um cristianismo em suas contradições e da complexa mistura entre Igreja e Estado. Ainda bem que o evento Cristo é bem maior que as instituições frias e calculistas que atravessaram tempos e épocas, constituindo o que hoje concebemos história, e irrompe nas vidas tal como as flores depois do frio do inverno. Que as flores continuem a se abrir em abril.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Achando a Moeda Perdida

Pessoa alguma gosta de perder coisa alguma. A perda de algum objeto provoca-nos uma série de inquietações. E quando perdemos alguma coisa importante ou de valor, ficamos ainda mais inquietos e ansiosos. Entretanto, uma coisa é certa: convivemos com perdas todos os dias da nossa vida. Algumas dessas perdas são simples, outras mais complexas. Mas quando achamos o que perdemos, invade-nos uma alegria que é similar à manifestação do Reino de Deus. Aliás, Jesus comparou a alegria do encontro da moeda perdida, por parte da viúva, com o Reino. Assim diz o texto em Lucas 15. 8-10 Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida. Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende Como é inusitado o fato de Jesus usar uma metáfora bastante corriqueira assemelhando-a ao Reino de Deus. O que ressalta nesse relato é que a alegria do reencontro do que estava perdido tem a ver com a explosão do Reino nas vidas humanas. A palavra chave nessa parábola é a palavra reencontro. Somente se reencontra aquilo que fazia parte do cotidiano e que foi perdido. Assim, a alegria do reencontro é a tônica central do texto bíblico. Nesse ponto, em específico, preciso esclarecer que a dimensão do reencontro tem a ver com a vida e suas múltiplas manifestações. Ora, todos temos tido o privilégio de viver, mas, às vezes, deixamos de lado o aspecto central da qualidade de vida. Então, vez por outra, nos deparamos com sinais e vestígios significativos que nos reconduzem a uma nova vida. O encontro da vida na vida provoca a alegria do reencontro e, consequentemente, a novidade de vida que, em outras palavras, é o próprio evangelho. Quando nos encontramos com a vida na vida, temos a oportunidade de celebrar a nova vida. Aliás, esse encontro com a vida na vida é o que garante a todos nós a leveza em nossos relacionamentos. Passam-se a angústia, a ansiedade, o sentimento de perda e se instalam no ser a alegria, o equilíbrio e a estabilidade dentro do fundamento da liberdade. Eu, particularmente, quero convidá-lo(a) a encontrar mais vida na sua vida, provocando, assim, muitos reencontros. Reencontre-se consigo, com os familiares, com os amigos, com Deus; reencontre-se com os prazeres, com a boa comida, com o lazer, com a sexualidade; reencontre-se com os valores, a ética, a liberdade, a humildade; reencontre-se, enfim, com o que você perdeu. Aquilo que você perdeu ou que ainda está perdido: reencontre. Vale a pena esse reencontro. Há festa no céu quando o pecador se arrepende da velha vida e encontra a nova vida. Pelo menos, no amplo leque desses reencontros, você terá a oportunidade de perceber um lampejo dessa dimensão maravilhosa que conhecemos e chamamos Reino de Deus. Sejamos felizes em nossos reencontros.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Meu Carnaval de Silêncio e Frio

Aqueles que conhecem Paris sabem muito bem que neste período do ano, onde o frio se instala de forma agressiva, a cidade fica silenciosa. As pessoas passam pelas grandes boulevards e pelas pequenas ruas com passos apressados, encolhidas e envolvidas pelos seus casacos escuros. Todos parecem correr, talvez para se abrigarem do frio ou encontrarem um lugar aquecido para o descanso do corpo. Como é interessante perceber que no bojo dos dias, as pessoas se entregam ao trabalho com intensidade para, ao final do mesmo, se recolherem aos seus lares, quem sabe para tomar uma sopa ou um chocolate quente, acompanhado logicamente de uma tradicional baguete e da companhia de alguém. Ao final de cada tarde, vejo as pessoas passando com seus embrulhos e seus passos apressados. Fogem do quê? Fogem de quem? Para mim, inegavelmente do frio. Nas mesmas tardes cinzentas, vejo as crianças saindo das escolas. Elas são pacotinhos ambulantes que caminham nas ruas tal qual pequenos robozinhos. Tamanho o número de roupas e acessórios que as envolvem. Vejo-as de mãos dadas com as mães ou então nas garupas das bicicletas com os pais. Elas também caminham silenciosas. Mesmo porque nessa época do ano todos os parques estão fechados e a alegria, inerente a cada uma delas, está escondida dentro das toucas e nos sonhos bizarros. O silêncio só é quebrado pelo canto de uma nota só dos corvos. São eles, vestidos em seus distintos ternos pretos, que quebram o silêncio no alto das árvores secas ou dos prédios e suas chaminés. O que ocorre em Paris e em grande parte da Europa é uma liturgia sem cor, sem canto, sem dança, sem festa, que parece querer romper de uma forma exuberante. Enquanto discorria me olhar sempre incauto percebendo as tramoias do cotidiano, lembrei-me que neste próximo fim de semana no Brasil é Carnaval. E fiquei pensando no paradoxo. Eu, um brasileiro amante dos trópicos, tendo que me aninhar no silêncio do meu quarto, envolto em múltiplos pensamentos, enquanto meu povo se diverte pelas ruas e vive, independente de sua crença e fé, a explosão de uma sempre eterna arrumada bagunça. Sim minha gente, é Carnaval, e o meu terá alegorias mil, tendo corvos puxando o samba enredo de uma nota só; na bateria automóveis e sirenes de todas as instituições do Estado; na avenida desfilarão as alas das mulheres e homens bem vestidos com seus casacos, bem como as crianças que formarão a comissão de frente com a grande inovação: virão fantasiadas de pacotinhos. E tem as alas dos marroquinos e suas lojas de bugigangas, dos chineses com seus pratos típicos – expondo patos assados ao caramelo e eu, silencioso na arquibanda das minhas mais remotas imaginações vendo o desfile acontecer. De fato, será um Carnaval bem diferente... frio e silencioso. Paris, 08, février, 2013.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Basta a Solitude...

Há muito tempo coisa alguma escrevo que me dê estrito prazer. E o abandono a este tipo de escrita deveu-se especificamente à transição que estou vivenciando neste exato momento de minha vida. Estou na França, mais precisamente vivendo dias em Paris. Cheguei no dia 14 de janeiro de 2013 e estou em pleno processo de adaptação à vida, língua e cultura do povo francês. Mas que França? Como no Brasil, é grande o número de pessoas oriundas de outras etnias ou mesmo fruto de diversos processos de miscigenação. Poderíamos aqui falar da França negra, da França latina, bem como da França oriental. Eu, por exemplo, resido numa autêntica Babel invertida, chamada Cité Universitaire, onde jovens de diversas partes deste planeta se encontram e se desencontram paulatinamente. É Babel invertida porque garante a variedade e a democracia das línguas, numa confluência final e possível com a fala francesa. Na França onde estou habitando, o céu cinza rodeia a cabeça confusa e cheia de inquietações. Elabora-se no âmago da alma uma espécie de espiritualidade da solitude, já que em francês, assim como em outras etnias, não existe a palavra saudade. De fato, solitude não é saudade, porque saudade pode ser uma coisa boa, uma alegria inusitada instalada nas agonias do ser. Mas solitude tem a ver com solidão e apertos constantes nos lados obscuros da humanidade. O céu cinza é acompanhado de um frio penetrante que provoca em todas as gentes o encolhimento e a conversa extremamente curta ao longo das distintas boulevards. As toucas e as luvas escondem partes preciosas da corporeidade e afetam os relacionamentos. Não se houve risos, tampouco a alegria nos semblantes. Em todos os cantos, o canto repetido dos corvos demarcando territórios. Eles voam e dominam os parques, com seu colorido peculiar – noir, anunciando mais frio e quebrando o silêncio das gentes. Vejo da janela do quarto a neve chegar. Ela é bonita. Os flocos de gelo caem lentamente como plumas de algodão doce e vão embranquecendo a paisagem. As árvores e seus brotos acolhem os flocos. O gramado dos campos e dos parques recepciona o gelo que se impõe. Nos lagos se forma uma fina camada de gelo e os corvos ainda cantam sua canção na mesma nota. O transporte se complica mais ainda, os grandes magazines se enchem e as pessoas buscam refúgios em locais acalentadores. Da minha parte, continuo na janela a observar os flocos caindo, acompanhado de uma saborosa caneca de café. O silêncio, a solitude, tudo se transforma em convite para a depressão, para o ensimesmar-se. É preciso dar um basta. Vestir um casaco e aventurar-se pelas ruas brancas. A neve não pode barrar-me. É preciso romper o gelo e criar alternativas. É preciso dizer com Gabriel Marcel: “La solitude est essentielle à la fraternité ». De fato, a solidão é essencial à fraternidade. E assim, nos abrimos à fraternidade, ao abraço amigo, à divisão da garrafa de vinho e a partilha do que não se deve partir. Paris, 24, janvier 2013.

Revista Foco da Fé

Com alegria, quero compartilhar com os amigos mais uma publicação. Agradeço aos autores e aos co-organizadores pela parceria. Valeu Mois...