sábado, 23 de junho de 2012

Mensagem aos meus irmãos e minhas irmãs da "GALILÉM"

“Eis que Ele vai adiante de vós para a Galiléia” (Marcos 16.7) No evento da ressurreição de Cristo encontramos a marca vital de nossa fé e esperança. De fato, como bem nos adverte o apóstolo Paulo, se a ressurreição não aconteceu, é vã a nossa fé (1 Coríntios 15.14). A ressurreição é um elemento crucial para a dinâmica do nosso viver neste mundo marcado por forças de opressão e de morte. Quando Deus faz reviver o injustiçado, Ele proclama ao mundo uma outra lógica que valoriza quem perde ou quem se frustra. Assim, diante das dificuldades e dos desafios que a vida nos apresenta ou mesmo diante das lutas que nós empreendemos, contamos, ao final das contas, com a manifestação poderosa e justiceira de Deus. Aos aflitos, Deus ministra a sua ressurreição e ela nos lança à esfera da esperança. A esperança é a marca vital do cristianismo, inclusive, mais do que a fé. O próprio Leonardo Boff corrobora com essa afirmativa e confirma nas linhas do seu último livro: Cristianismo – o mínimo do mínimo, o fato de que a esperança é a mola mestra da vida simples dos cristãos. Em todas as tramas de sua narrativa, este autor reflete sobre o que realmente é importante para o cristianismo na atualidade. E o importante é Cristo em nós. Meditando assim, sobre ressurreição, fé e esperança, acabei por me encontrar em oração pela vida de vocês. Oração que se estruturou com base nessas duas esferas já salientadas. Juntos, esperando contra a esperança, aguardamos ansiosamente a manifestação de Deus e sua consequente justiça. Entretanto, não podemos nos esquecer que o Cristo ressurreto já está entre nós. Ele caminha junto a nós. Aliás, como bem advertiu o mensageiro junto ao sepulcro, Ele não se encontra mais lá, vai adiante de nós para a Galiléia. Então, o lugar onde acontece nosso reencontro com o Cristo é a Galiléia. Assim, nossa ação missionária se dá na Galiléia, pois é nessa região pobre da Judéia que se deu o início do ministério de Jesus. Retornar à Galiléia significa, de antemão, retomar, em outra dimensão, o ministério de Jesus. E se retomamos esse ministério, precisamos estar cônscios de algumas atitudes e ações de nossa parte. Na verdade, trata-se de ações que repetem o que Jesus realizou, segundo a lógica: “seguimos as pegadas do mestre”. E, nesse ponto, com vias a animar a fé, quero trazer à tona de nossa reflexão algumas atitudes cruciais para esse tempo de transição: 1. O primeiro sermão de Jesus – Jesus inicia seu ministério na Galiléia com uma mensagem: “O Reino de Deus é chegado. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1.15). Ora, esse singular sermão nos põe frente a duas dimensões complementares, ou seja, primeiramente: que o Reino de Deus é realidade iminente que se estrutura entre nós, pois não somos cidadãos comuns. Recebemos a alcunha de participantes ativos do Reino de Deus. E segundo, que isso não significa que nós somos extraterrestres, como muitos acham, mas pessoas com um legado e uma responsabilidade perante o todo social. Porém, nossa vivência na dimensão do Reino precisa ser digna dele e isso somente é possível por intermédio do nosso condicionamento em arrependimento e crença na boa nova. Longe de nós qualquer tipo de arrogância. Seja bem vinda a humildade, fruto de nossa postura sempre consciente do pecado e constantemente arrependida. 2. A Galiléia é o lugar de ver o ressuscitado – Logo após a ressurreição de Jesus, o mensageiro anuncia aos que visitam o túmulo para que estes não procurem o Cristo lá, mas na Galiléia. De fato, é preciso ver o Cristo lá. E só podemos ver o Cristo vivo na Galiléia. Este é o lugar no desafio, da pobreza, dos problemas, dos constrangimentos, do ecumenismo, das diferenças, dos endemoninhamentos, das curas e libertações (Mateus 8.16). A Galiléia é o nosso chão vivencial que sempre afronta a nossa espiritualidade. Mas é na Galiléia que vemos o Cristo, É lá eu Ele está. Não em Roma, não na Grécia, não em Jerusalém, mas na Galiléia – uma vila de pescadores, onde um pequeno grupo se reúne para celebrar através da Ceia do Senhor, a presença de Jesus. Belém é a nossa Galiléia. 3. Façamos missão na nossa “Galilém” – O evangelho que vivemos é singular e real. Não nos atentamos a elementos alheios à nossa existência. Vivemos o cristianismo em sua essência e singularidade. E nesse interim, não podemos perder o foco de nossa fé e missão. Se cremos no Cristo que vive em nós, precisamos espalhá-lo em todos os segmentos de nossa vida. Assim, como Jesus fez diferença com a mensagem do amor de Deus aos seus contemporâneos, nós, igualmente, devemos nos desenvolver nessa dinâmica. Julgamos, assim, todas as necessidade e inquietações que invadem nosso olhar. Julgamos com base na vivência daquele que nos ajuda constantemente. Portanto, gostaria de estimular cada um dos meus irmãos e minhas irmãs da “Galilém”, a se esmerarem em projetos missionários, pois o evangelho que vejo em cada um é da mesma estirpe daquele vivenciados por homens e mulheres nas primeiras comunidades primitivas (Atos 2.46). 4. Cristo vive em nós – Não podemos perder a esperança, pois em nossa “Galilém”, quem está conosco é o Cristo ressuscitado. Sendo assim, devemos agir de forma concreta, pois a fé em nós é dom de Deus (Efésiso 2.8), gerado pelo Espírito Santo. Sei que ainda estamos na expectativa de uma resposta quanto ao futuro, mas que importa, temos adiante de nós a presença do glorioso Senhor da vida. De alguma forma, a presença do Senhor vivo entre nós leva-nos a agir com proféticas convicções, pois a nossa expectativa em fé, sob o legado de que somos sal da terra e luz do mundo (Mateus 5. 13-14), nos faz viver de glória em glória (2 Coríntios 3.18). Enfim, embora a distância e a saudade, mantenhamos nossos olhares no autor e consumador da nossa fé, vendo, julgando e agindo. Ele, de fato, vai adiante de nós. No amor genuíno de Cristo, despeço-me, rogando ao Senhor que em breve nos vejamos e nos animemos mutuamente. Abraços, Moisés Coppe.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Uma Reflexão sobre a Morte

Vez por outra, somos tomados por múltiplas perguntas e poucas convicções e respostas. Em que pese a nossa vontade e desejo por uma vida mais cartesiana e lógica, somos, invariavelmente, assaltados por situações inexplicáveis que nos deixam atemorizados. Como que do nada, recebemos a notícia da partida de um ente querido e sentimos nossa alma fragmentar-se. Uma dor lancinante se instala, nossa fé se estremece e o caminho, dantes reto e límpido, se torna tortuoso e nebuloso. É uma experiência de claro-escuro que faculta ilusões e desilusões. De fato, o turbilhão oriundo de um momento fatídico deixa-nos tal qual a nau sem leme e sem remo no meio de um oceano bravio. E, então, perguntamos como o salmista: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O clamor do salmista, relembrado por Jesus na cruz do calvário, que ecoa ainda em nossos dias, é tomado emprestado por nosso espírito com a finalidade de tentar conter a “sombra da morte” e declarar, “esperando contra a esperança”: “Não temerei o mal porque Tu estás comigo”. É essa atitude teimosa que insiste em resistir ao inusitado. Pessoa alguma pode perder a sensibilidade frente ao inusitado, pois viver é realmente muito complexo, entretanto bom; e viver pela graça de Deus é melhor ainda. Acho que foi com o olhar em torno da complexidade da vida que o salmista escreveu: “Tua graça é melhor do que a vida”. Ora, a graça de Deus é essa dimensão que nos ajuda a melhor conceber as relações humanas e todos os acidentes delas decorrentes. Sendo assim, todos os bons sentimentos e superações, oriundos das relações entre semelhantes ou mesmo dos acidentes de percurso, são interpretadas por nós de diversas maneiras e se harmonizam em nossa vida, tão somente, pela concretude da graça. Essa dimensão cuidadora e amorosa de Deus para com seus(suas) filhos(as) amados(as), independente dos momentos – sejam eles bons ou ruins – é manifestação de uma presença sempre furtadora da dor. Sendo assim, o sofrimento, inerente a todos ser humano, é experimentado porque somos seres ainda ligados aos elementos físicos. Mas tal sofrimento é apaziguado por Deus, pois somos seres marcados pelo espírito. Ora, a zona espiritual é a zona da superação. É a zona da poesia, da música, das artes, da contemplação e da memória bem resolvida com o seu passado. Ao mesmo tempo, somos seres físicos e espirituais, imanentes e transcendentes. Experimentamos a vida, suas belezas e tragédias e somos projetados pela graça para o campo florido e perfumado da superação. A graça é melhor do que a vida porque é ela a agente de Deus que nos permite a superação. Quando não temos respostas frente a qualquer ocorrido, nos alimentamos da presença cuidadora de Deus e superamos a nossa dor. Então, diante do irônico da vida, quando as perguntas “são” e as respostas “não-são”, recorremos, enfim às coisas do espírito. E é o Rubem Alves quem poeticamente nos diz que nós não morremos, mas transformamo-nos em aves selvagens e livres que voam rumo ao paraíso gestado pelo Criador. Em outras palavras, somos tal como uma música bem harmonizada, com boa melodia, ritmo e dissonância; música que no devido tempo cessa de ser tocada e cantada, deixando nos palácios da memória a saudade e a convicção de que a música será novamente executada, em tempo oportuno, no templo da eternidade.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...