sábado, 24 de novembro de 2012

Para onde vais passos meus?

Para onde vais passos meus? Quando os pés se alternam sem parar Na busca dos desejos presentes e ausentes Ou mesmo os sonhos que se almeja encontrar. Para onde vais passos meus? Sentindo a carga dos tempos, Apressados em distintos terrenos Singrando corredores dos ventos. Para onde vais passos meus? Rumo às trilhas do desconhecido Em jornadas de aflito silêncio E do sonho outrora perdido. Para onde vais passos meus? Sem descanso na água aquecida Como o corpo pesado, exaurido: Para os braços da amada querida.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Tenho um Ministério Fracassado

Por orientação de um amigo a quem muito prezo, resolvi assistir um vídeo aberto ao público na internet intitulado: Ministério Fracassado – Documentário. O vídeo inicia-se com a apresentação de quatro pastores fracassados. Ora, na verdade, a provocativa expressão ministério fracassado é uma contraposição à lógica presente na atualidade, principalmente no mundo evangélico, que aponta que o que vale a pena é ser o sucesso. De fato, quando avaliamos a perspectiva do sucesso na Bíblia, ficamos decepcionados, pois a Bíblia trata a questão da fidelidade e do amor a Deus como aquilo que mais importa. No fundo, os ministérios fracassados são aqueles que não estão coligados à lógica mundana, mas que abraçam profundamente a simplicidade das ações cotidianas da perspectiva pastoral. Os ministérios fracassados não estão à busca dos holofotes, dos grandes ginásios, das grandes igrejas, das maletas com documentos importantes, dos ternos importados, dos carros suntuosos. Os ministérios fracassados buscam o essencial tendo por referência, tão somente, a Jesus. Os ministérios fracassados não esperam coisa alguma dos homens, somente de Deus. Temos muitos exemplos de ministérios fracassados na Bíblia, como por exemplo os ministérios de fracassados de Moisés, de Jeremias, de Amós, de Habacuque, de Jesus, de Paulo, de Timóteo e dos “Joões” (Batista, Evangelista, de Patmos). Sendo assim, cheguei à constatação de que tenho um ministério fracassado, pois não sou eloquente, não sou bem-sucedido, não tenho bens e a vida simples é sempre a luz ao fim do túnel que trás sentido à vida. Se me perguntarem se desejaria tais coisas, afirmaria com a maior radicalidade que não. Já desejei, mas não quero mais! Descobri que as preciosidades da vida estão nas pequenas descobertas do cotidiano junto a pessoas amigas e gente de bem. Ao final das contas, o que vale a pena é abraçar a dimensão da paz que deve habitar o coração humano. E quando, enfim, penso no sucesso, me vem à mente aquela imagem do Cristo subindo ao Calvário, dizendo no íntimo do seu coração: “Eu venci o mundo”. Mediante essa imagem digo: eu realmente tenho um ministério fracassado.

sábado, 29 de setembro de 2012

A VIDA ABERTA ( para a amiga Ellen)

Eu gosto muito de Guimarães Rosa. Apesar de sua conhecida obra Grande Sertão Veredas nos apontar diversas dimensões fundamentais para se pensar a fé na vida, escolho, preferencialmente, suas assertivas que me ajudam no entendimento da pessoa humana, como a que cito: “o mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”. Além desse apontamento literário em relação às pessoas, o filósofo francês Paul Ricoeur, afirma que toda a nossa vida é marcada por duas dimensões: a do voluntário e a do involuntário. Ora, existem múltiplas situações que nós podemos controlar, pois advém de nossas próprias escolhas e outras que nada podemos fazer, pois ocorrem inusitadamente e desestabilizam a jornada. Surgem de repente. Sendo assim, pessoas e situações se entroncam na existência para afirmar contundentemente que a vida está aberta. Em minha humilde concepção, baseando-me em Rosa e Ricoeur, afirmo que somos como músicas que em momentos distintos afinam ou desafinam mediante o jogo da vida. Outros muitos, ao contrário, pensam que o mais importante é que as pessoas sejam iguais ou que ajam da mesma forma. Ora, a riqueza da vida humana está em pensarmos coisas diferentes e somarmos nossas diferenças, quem sabe, para a construção de uma cultura de paz. Tal cultura não pode ser o fruto de uma ditadura ou da ordenança de uma pessoa sobre as outras. A cultura de paz é a resultante de gente que tem ao mesmo tempo um coração aquecido e mente esclarecida. É isso o que eu defendo. Quanto ao voluntário, podemos dizer que é relativamente tranquilo acolher-se o bem e o mal quando estes ocorrem por causa de cada escolha pessoal. Assim, quando sofremos a perda ou celebramos uma vitória, nos organizamos emocionalmente bem, pois sabemos que aquilo é fruto de nossa decisão. Entretanto, quanto ao involuntário, o acolhimento possui outros contornos, mesmo porque o que ocorre nesta dimensão é oriundo dos acidentes de percurso. É extremamente desagradável a gente ser conflitado por uma ou outra situação que surge sem a devida espera ou preparação. Sendo assim, acho que em todos os grandes dilemas da vida, sejam pessoais ou impessoais, a vida aberta deve cultivar os melhores sentimentos em relação às pessoas que nos cercam. Por isso, acho que na dinâmica da vida e suas relações, a gente tem que garantir a todas as pessoas a possibilidade de elas serem elas mesmas ou acolhe-las em suas crises diversas. Não somos pessoas comuns que vivem em organizações comuns. A vida da gente é como a nossa casa, onde as coisas acontecem de forma inusitada e às vezes, atravessada. E eu preciso confessar que eu gosto dessa aparente confusão de situações, pessoas, acidentes etc. A casa, mais do que um motorzinho bem regulado, é um organismo vivo formado por gente que afina e desafina ou que se assusta frente ao inusitado. Nesse ponto, podemos afirmar em tom dissonante que a vida está sempre aberta, mas nem tanto, mesmo porque o mais importante são as pessoas que ainda não foram terminadas. Aliás, foi conversando com uma amiga que essa ideia surgiu. Essa noção de vida aberta está ligada ao fato de sempre estarmos em entroncamentos, os mais diversos, sendo convidados(as) à escolha e também à visualização estupefata do que sobrevém. É que em alguns momentos a gente é motorista e controla o que acontece. Em outros momentos, somos passageiros e nesse ponto, as coisas se complicam para nós. Mas a vida está aberta e não podemos nutrir nenhuma espécie de medo em relação ao que vem ou possa ocorrer. É mais ou menos o que aconteceu com Jó. Ele fez suas escolhas, mas também sofreu o inusitado em sua vida, perdendo tudo e quase todos ao seu redor. Mas assim é a vida e de alguma forma, todos temos que encará-la da melhor maneira possível. Então, na vida aberta – mas nem tanto – e seus respectivos voluntários e involuntários, tenhamos no mínimo a atitude, primeiro para escolher bem quando pudermos escolher; e enfrentar bem, quando precisarmos enfrentar. Em tudo, porém, contando com a graça maravilhosa de Deus e nos tornando mais pessoas: desafinadas ou afinadas? Não nos importa, simplesmente pessoas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Digo Não ao Coco de Cachorro na Rua

Na terça-feira do dia 18 de setembro de 2012, eu fui ao supermercado próximo à minha casa, com o intuito de comprar alguns itens para a composição do almoço familiar. Resolvi ir à pé para aproveitar os primeiros raios de sol da manhã. Ao sair do portão da minha casa, localizada no bairro Cascatinha, na cidade de Juiz de Fora – MG, fiquei estupefato com o que vi: uma quantidade imensa de cocos de cachorros. Rapidamente, tive que abandonar o calçamento para dividir espaço com os veículos. Foi-me impossível manter minhas caminhada da forma como queria. Me desviei e comecei a contar os “montes”. Cheguei à soma de vinte e dois, e desisti. Confesso aos leitores que aquilo me tomou de ira. Algumas perguntas vieram à minha cuca: Será que estes cachorros não têm donos? Será que a Prefeitura da cidade instituiu que agora é lícito transformar as ruas e calçamentos destinados a pedestres em banheiros para cachorros? Os donos desses cachorros não tinham mãos para carregarem sacolinhas plásticas? Eram deficientes? E com essas perguntas circulantes em minha cabeça, passei a ficar enojado com essa trite e vergonhosa realidade. Os que me conhecem de perto sabem que não sou muito fã de cuidar de animais. Minha criação como pessoa não me permitiu esse relacionamento, que até admiro, entre as pessoas e seus bichinhos. Admiro demais as pessoas que gastam seu dinheiro no cuidado com os animais. Não à toa, o mercado de Pet Shop’s e as clínicas veterinárias estão entre os centros que mais crescem na atualidade. Segundo dados da Revista Veterinária, o número de estabelecimentos como os citados cresceu de forma contundente. Segundo fontes do Sebrae: “O mercado brasileiro de pets movimentou R$ 11 bilhões em 2010. Deste total, 66% correspondem à venda de comida para animais de estimação e 20% a serviços do setor. Este mercado realmente é promissor. Mundialmente, o setor faturou US$ 76 bilhões em 2010. Os dados são da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos para Animais de Estimação (Anfalpet). Em artigo, Marcos Gouvêa de Souza, diretor geral da GS&MD – Gouvêa de Souza avalia as boas perspectivas para o segmento de pet shops no Brasil. O segmento teve um faturamento aproximado, na ponta do varejo, superior a R$ 11,3 bilhões, com um crescimento real de 4,5% em 2011. Em 2010 esse mercado cresceu 8,5% em relação ao ano anterior de 2009 e tudo indica que deverá continuar a se expandir em percentual superior ao crescimento do PIB nos próximos anos. Estima-se em 25 mil o número de pet shops no país. Hoje a tendência do mercado de Pet shops inova com produtos diferenciados, como esmaltes e refrigerantes, salões de beleza para animais, novos tipos de banhos, tosas e secagem de pêlos, com produtos importados de alto nível e serviços de entrega. No quesito luxo, o mercado pet do Brasil também tem muito a crescer. Uma pesquisa realizada pelo portal WebLuxo revela que apenas 5,5% do mercado brasileiro é composto por produtos mais caros. Os mais vendidos são coleiras, roupas, bebedouros e casinhas. Os estabelecimentos faturam até R$ 200 mil por mês. O Brasil tem hoje o segundo maior mercado pet do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Segundo dados da (Anfalpet), o Brasil tem estrutura e capacidade de produção para ser também o segundo maior exportador de artigos do segmento, com US$ 4 bilhões ao ano. O Brasil tem 98 milhões de animais de estimação. Segundo Antônio Braz, analista do IBGE o peso dos gastos com animais de estimação representa percentual de 0,7% no orçamento. Por isso, é bom ficar ligado nas tendências de produtos e serviços e nas regras básicas de manutenção de uma loja pet shop ou uma clínica veterinária”. De fato, criar bichinhos como gente é um bom negócio. Mas eu descobri que não estou sozinho nessa luta contra cocos de cachorros. Uma senhora, moradora de Copacabana, no Rio de Janeiro, espalhou um vidro de pimenta na calçada para espantar os cachorros. Segundo ela, “funciona que é uma beleza”. (Folha On Line, 15/09/2008). Ou ainda o caso de Cláudio Althierry que plantou bandeirinhas indicando a falta de educação dos cariocas e seus cachorrinhos no bairro do Flamengo – RJ. Não, não, senhores e senhoras, não sou contra a criação amorosa e o cuidado com os bichinhos. Sou contra o descaso das pessoas com seus animais quando dos passeios matinais, vespertinos e até noturnos. Repito: sou contra o descaso das pessoas que não recolhem os excrementos dos seus bichinhos, antes, deixando-os para deleite sensitivo dos cidadãos em geral. Sendo assim, acho que o cuidado, a atenção e o asseio com os passeios dos bichinhos deve ser assegurado pelo dono ou dona do animal. Eu não quero mais andar pelas ruas do bairro onde moro a mais de 10 anos tendo que me desviar da cáca dos cachorros. Eu quero ver cachorros e seus donos andarem livremente e alegremente com seus bichinhos, numa espécie de desfile da modernidade subjetiva, entretanto com educação, responsabilidade e, pelo menos, singelos gestos de cidadania. Bato palmas quando vejo donos ou donas responsáveis que recolhem o coco dos seus cahorrinhos. A bem da verdade, dá vontade de cumprimentar tal pessoa e ovacioná-la com força tal que todos os demais moradores venham a escutar. Então, vamos combinar uma coisa: que todas as pessoas de bem continuem a passear com seus cachorrinhos, mas que, com o mesmo cuidado dispensado com a caminhada, recolham o coco do animal. Ele não pode fazer isso sozinho. É você, pessoa humana, que possui polegar opositor, diferentemente de todos os demais animais. Assim, todos nós continuaremos a ter nossa caminhada normalizada, livre de visões detestáveis, cheiros repugnantes e, principalmente, daquela cáca alheia, ainda fresca, agarrada no solado do tênis branco. Fica o apelo!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Metodistas de Belém EXCLUÍDOS sem Comunicação! E agora José?

Começo com Carlos Drummond de Andrade: JOSÉ E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse… Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, pra onde? E agora José? É assim que me vejo... É assim que marcho. Pra onde? Não sei. Mas quem sabe, persistindo. Só pra começar, eu gostaria de pintar quadros expressivos de quem se sente orgulhoso de fazer parte de um “time” engajado com a vida e com as pessoas, todavia, infelizmente, minhas palavras mais uma vez possuem o gosto amargo do absinto. Sinto muito, mas outra vez narrarei minha inquietação quanto a um episódio ocorrido. Acontece que no dia 13 de setembro de 2012, depois de ter encaminhado um e-mail, seguido por diversos telefonemas, consegui falar com o distinto pastor metodista da cidade de Belém do Pará. E descobri que os membros que estão sob meus cuidados desde novembro de 2010 até o dia de hoje, foram sumariamente EXCLUÍDOS. E aí me sobreveio duas perguntas: Por que meu Deus? E agora José? As pessoas excluídas são minhas (meus) irmãs(ãos) em Cristo. Mais do que isso, são pessoas queridas que aprendi a amar e respeitar profundamente. É um grupo pequeno de gente que pensa a vida e a missão da igreja pelo Plano para a Vida e Missão e que está engajada até o tampo da cabeça com a caridade social e o espírito ecumênico – elementos essencialmente protestantes! Ora, eu havia acolhido meus(minhas) irmãos(ãs) em novembro de 2010 na igreja metodista Bela Aurora – Juiz de Fora/MG, em um culto marcado pela emoção e pela presença de Deus. Posteriormente, fui denunciado, acusado de ter ferido a ética pastoral por não ter comunicado ao distinto pastor sob a transferência, que por sinal, havia sido pedida por livre e espontânea vontade pelos irmãos de Belém que, por sua vez, não estavam à vontade com as práticas eclesiais desenvolvidas. Então, fui condenado à admoestação episcopal na presença dos superintendentes distritais da IV região e fui obrigado a cancelar o ato pastoral, desfazendo o registro realizado. O rol da igreja metodista Bela Aurora ficou bonito e colorido, com vistosas cores vermelhas, para deixar ainda evidente minha indignação quanto à condenação. Resolvi acatar a decisão e decidi também não levar a questão adiante para a Comissão Geral de Justiça da igreja metodista, pois recebi um e-mail do saudoso bispo da REMA, dizendo que a situação SERIA TRATADA DE FORMA PASTORAL. Pelo visto, foi mesmo. Eis a inauguração de um novo modelo de pastoreio, marcado pela ação da guilhotina. E diante do narrado, pergunto perplexo, cá com meus botões: POR QUE MEU DEUS? E AGORA JOSÉ? Denunciar? Jamais! Apesar de estar ciente do fato de que vários itens canônicos foram feridos no ato de AMPUTAÇÃO dos MEMBROS, não vou fazê-lo. Não vou entrar nesse jogo onde os homens se anulam, tornando-se meninos acuados pela lei. Ainda almejo o diálogo franco, honesto e aberto onde os homens aparecem e os meninos voltam às suas brincadeiras. Entretanto, provoco meus irmãos e irmãs: ESTA HISTÓRIA VAI FICAR ASSIM? Tudo bem, não espero nenhum “happy end”, comum aos filmes americanos, mas não fico a vontade com o fato de que gente querida é tratada como bicho, mercadoria descartável ou pior que isso. Alguns me indagam: o que você tem a ver com a igreja em Belém? E eu digo: TUDO E ALGO MAIS. Exaltarei a minha voz onde se fizer presente a injustiça, se me for permitido, pois toda e qualquer forma de injustiça com as pessoas que possuem experiências distintas com Deus é um escândalo para os que são desafiados pela Palavra a serem um. Nessa linha, segundo o bispo norte-americano Robert Schnase, os cinco propósitos para uma Igreja frutífera são: 1. Hospitalidade radical; 2. Adoração apaixonada; 3. Desenvolvimento intencional da fé em Cristo; 4. Ação social com ênfase na justiça; 5. Generosidade extravagante. Ora, todas essas expressões que poderiam se desdobrar em múltiplas reflexões são, na verdade, elementos fundamentais para a percepção do que vem a ser o metodismo. Aliás, segundo o próprio Schnase, as igrejas metodistas deveriam ser avaliadas por esses cinco propósitos, o que de fato acho coerente. Particularmente, seria interessante se realmente as igrejas, melhor dizendo, as estruturas das igrejas pudessem passar pelo crivo dos cinco propósitos, serem questionadas e avaliadas quanto aos cruciais valores que determinam a saúde espiritual de uma comunidade de fé. Acho inclusive, que toda a igreja metodista brasileira, a começar pela cúpula, deveria se submeter a essa autoavaliação. Digo isso, pois se uma igreja ou liderança responder positivamente aos cinco propósitos, certamente estará cumprindo o mandamento do Senhor de “amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, fazendo diferença nesta sociedade individualista e sectária na qual estamos inseridos. Mas a história é outra... Confesso não saber o que fazer, além de soltar meu grito insano a plenos pulmões e dizer como Gonzaguinha: “É! A gente não tem cara de panaca. A gente não tem jeito de babaca. A gente não está com a bunda exposta na janela pra passar mão nela... É! A gente quer viver pleno direito. A gente quer viver todo respeito. A gente quer viver uma nação. A gente quer é ser um cidadão. A gente quer viver uma nação..." Algo precisa acontecer. Sim, precisa. Que aconteça, pelo amor de Deus!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Estou Casado! E agora?

Estas três coisas me maravilham; e quatro há que não conheço: O caminho da águia no ar; o caminho da cobra na penha; O caminho do navio no meio do mar; E o caminho do homem com uma mulher. Provérbios 30.18-19
Um dos grandes desafios para as pessoas que optam pelo matrimônio é a dinâmica da vida a dois. De fato, existem muitos dilemas e conflitos quando duas culturas e espiritualidades distintas, oriundas de processos educacionais diferentes, se conjugam num espaço que recebe a alcunha de lar. Comparo a vida a dois como abrir uma picada na mata densa e desconhecida. E o que se tem à mão é, tão somente, um facão amolado para criar a trilha. Anteriormente a nós, outros casais abriram suas respectivas trilhas, mas a experiência de um não pode ser repetida por outro. Sendo assim, cada casal tem que se aventurar em sua própria trilha. Eu que estou casado há 22 anos percebo que em alguns momentos eu e minha mulher nos cansamos, exaustos, de tanto gravitar o facão em busca de melhores trajetos. Então, paramos para descansar em clareiras, para depois nos lançarmos, novamente, ao árduo movimento na mata fechada. E o pior é que nunca chegamos ao destino final, porque não há destino final. O casamento, então, é uma espécie de labirinto onde duas pessoas precisam aprender a viver bem sem a cobrança por uma felicidade final, pronta e acabada. Nessa mata fechada labiríntica, surgem-nos duas opções mais emblemáticas: a primeira refere-se a viver a referida aventura sem o contentamento necessário e fundamental para o ser humano. Para os que optam por esse caminho, fica somente o cheiro da desilusão e da conformação. A segunda opção abraça o divertimento e procura o contentamento, independente dos resultados finais. Ora, esta opção nos dá a possibilidade de melhor nos harmonizarmos na vida e com a pessoa que escolhemos caminhar conjuntamente. Quando se perde esse desejo pelo produto final ou pela plena realização de um sonho, acredito, fica mais fácil viver a jornada a dois. Nesse sentido, o texto bíblico que apontamos para a nossa reflexão nos dá um parecer interessante sobre a pergunta que dá título à nossa mensagem. Ora, o texto em questão demonstra a dificuldade do caminho de um homem com a donzela, no caso, sua mulher. O autor do livro de Provérbios apresenta-nos quatro coisas que são complexas demais para ele. Em sua referência, o primeiro é o caminho da águia no céu; o segundo é o caminho da serpente na pedra; o terceiro é o caminho do navio no mar e o quarto é o caminho do homem com a mulher. A princípio, podemos dizer que o autor busca o sentido das coisas e as razões pelas quais essas dinâmicas se dão tal como se dão. Assim, ele se assusta quando percebe que não há uma resposta clara e evidente. Seu susto é, também, o nosso susto. Sendo assim, fica claro para todos nós que no que se refere a casamento, o caminho a ser trilhado e a própria busca de sentido em sua estrutura é experiência particular onde não existem mapas, tampouco receitas acabadas. Por isso, digo a você, distinto casal, que a aventura que hora vocês abraçam é única e marcada pela sensação de que não existe outra experiência igual em todo o planeta terra. Desta forma, vocês devem se apropriar da experiência conjugal de vocês como sendo a mais especial porque é única. Então, já que não temos a possibilidade de um final feliz, como já pontuei anteriormente, torna-se fundamental que em meio às tensões inerentes ao casamento, vocês tenham oportunidade de se divertir. Acho que este é um bom caminho para a dinâmica de vida a dois. Talvez, com o intuito de melhorar essa brincadeira, Mario Quintana, poeta brasileiro, escreveu certa feita uns versos interessantes que deveriam compor o momento de votos de todas as celebrações de matrimônio vigentes. Digo isso porque na dinâmica do relacionamento conjugal deve existir divertimento, e esse divertimento tem que estar de mãos dadas com a liberdade. Sem liberdade, nenhuma estrutura consegue resistir, inclusive o casamento. Vamos, pois, às suas sugestões poéticas: 1. Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade? 2. Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica? 3. Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? 4. Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela? 5. Promete se deixar conhecer? 6. Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor? 7. Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? 8. Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros? 9. Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina? 10. Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja? Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher. Declaro-os maduros. Enfim, seja realmente esta a demanda de vocês que agora estão casados. E se em algum momento a pergunta “e agora?” surgir nos entroncamentos relacionais, saiba que não existe nada melhor do que um dia após o outro. Nada melhor do que uma noite após a outra. Nada melhor do que um beijo após o outro. Nada melhor do que não ter compromisso com a felicidade – aliada ao contentamento – de querer que o outro seja livre para ser o que é no entrelaçamento do amor. Acho isso fundamental.

sábado, 4 de agosto de 2012

Divagando sobre o texto: “Entreguem as terras às filhas de Zelofeade”. Uma reação à abordagem da Episcopisa Metodista Marisa, da REMNE.

Intrigou-me ouvir o clamor profético salientado na epígrafe do texto da pastora Marisa, que exerce na atualidade o governo episcopal. Aliás, ela é a única mulher no chamado colégio episcopal da Igreja Metodista. Eu até acho – e ando dizendo isso por aí – que o referido colégio deveria ter mais representação e governo feminino. Quem sabe assim, se humanizaria mais. A referida pastora, depois de citar histórias que evidenciam o preconceito em relação ao ministério feminino, latente e evidente em nossas comunidades locais, oriundos do perpassar de múltiplas ideias machistas ao longo de tempos, fala de suas dúvidas e inquietações no tempo da juventude e chega, enfim, ao ponto crucial de sua reflexão: a questão do governo na dinâmica da Igreja. Sobre a questão evidenciada, resolvi ler as entrelinhas. Um documento como este é na verdade uma luz amarela neon que se acende para sinalizar a todos(as) que alguma coisa não está legal. E eu acho – aqui é achismo mesmo, para pessoa alguma me julgar de blasfêmias – que num colégio misógino, a presença de uma mulher é secundária e, até mesmo, irrelevante. Duvido que suas ideias e posicionamentos sejam respeitados de forma coerente. Num lugar onde existem sete homens e uma mulher, quem manda é a maioria. As parábolas introdutórias, citadas por ela, nos mostram claramente que o que aparece é, tão somente, uma parte do todo. De fato, o que nos chega são recortes ou fragmentos de realidades. E que fragmentos são esses? Como já dissemos, são os posicionamentos e percepções do lugar feminino que não são considerados pelo lugar masculino, que em suma, é maior que aquele. O mundo é machista e patriarcal. Quando uma mulher busca o seu espaço de direito e mesmo o seu posicionamento frente a uma realidade deve, no mínimo ser respeitada. A questão não é discutir que tipo de governo vale mais. E a referida pastora não quer afirmar que a forma de exercer governo numa lógica feminina é melhor ou pior. Mariza está afirmando que o governo em lógica feminina é tão importante quanto o governo exercido em lógica masculina. Então, não se trata de dois tipos distintos de governo, mas de um só, que independe de ser masculino ou feminino. Exercer o governo é importante, mas precisa ser cadenciado pela dinâmica do equilíbrio, pois todo e qualquer objetivo deste ou daquele governo deve ser o bem estar social. Entretanto, o que vemos na atualidade é, realmente, uma confusão quanto a exercer o poder. Inclusive, é muito triste vermos líderes religiosos de distintas Igrejas “confundir a função, que é uma instrumentalidade, como sendo o absoluto produto final. Confundir governados/as com objetos de manobra que só tem sentido enquanto garantam os benefícios e a perpetualidade da função. Confundir a ‘cadeira do governo’ como sendo a do próprio Deus”. O outro problema destacado pela pastora refere-se ao toque de absolutismo e superioridade presente na fala e ações de pessoas que existem pra servir, segundo a lógica de Cristo. Mas eu digo: os que assim agem foram contaminados pelo vírus de um cristianismo medieval, de cruel estirpe. Então, como se percebe, o problema não está no exercer do governo, mas nos mandos e desmandos de pessoas que foram chamadas para viver uma vida de simplicidade e serviço ao próximo, mas não o fazem. No modo de navegação social brasileiro está explícita a frase: “sabe com quem está falando?” Essa fase demonstra claramente a ideia de que existem pessoas pra mandar e pessoas pra obedecer. Por isso, Marisa afirma que a pergunta que tonifica a práxis dos que governam, em sua maioria não é “quem é que GOVERNA AQUI, mas sim QUEM MANDA AQUI”. Para ela, “há uma diferença gritante entre governar e mandar”. Segundo a lógica da sua argumentação, o governo é inspirado em Deus enquanto que o mandar possui outros fundamentos. A percepção de um Deus que governa o mundo pela lógica do amor é execrada pelos que defendem seu status quo. Então, a reflexão da pastora que afirma que o “o governo não é fim em si mesmo; ele é instrumento de serviço que se move por este clamor: ‘Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Teu Nome. Venha o Teu Reino e seja feita a Tua vontade, assim na terra quanto no céu...’. Ele se alimenta de um princípio básico de Lei: ‘...buscai primeiro o Reino de Deus e todas as outras coisas vos serão acrescentadas”, é uma blasfêmia para os que foram picados pela mosca azul. Por isso a sua crucial pergunta: “Mas para quem estas verdades fazem sentido? Elas mais se parecem com as loucuras da crise existencial da Alice, naquele País das Maravilhas. O mundo real era que lhe parecia louco. Nele havia uma rainha de cabeça enorme, que sabia dar ordens como ninguém – e que pode ser comparada às figuras de autoridade que carregam a enorme cabeça do poder, usando-o despotamente”. A pastora Marisa, depois de fazer uma boa leitura sobre a realidade ocidental que nos afronta, elucidando os dramas das hostes políticas, sociais e econômicas, apresenta-nos os sentimentos e sentidos que devem reagir às formas ignóbeis de poder. Então ela fala, inicialmente, da anuência que se caracteriza como um consentimento e aceitação de tudo na esfera da normalidade. Em segundo lugar, fala da resistência como a postura do perguntador, do que “se sente livre para ser e sentir-se parte do processo do exercício do poder e por isto não se sente inferior/a aquele/a que comanda. Quando percebe algo que entende ser desvio do governo, faz indagações. Via de regra, é tida como subversiva (com um teor jocoso feito aquele que se deu a comunistas: humanos/as maldosos/as que se ‘alimentavam de criancinhas’ mortas por eles/as mesmos/as). Não é bem aceita porque aquele/a que está no comando e que teme qualquer questionamento, entendendo que fazê-lo é o mesmo que ‘querer tomar o lugar de’". Confesso que eu gosto dessa segunda postura. Sinto-me um subversivo. Mas a postura de resistência pode ser também a busca pelo poder, a maquinação do mal e o criticar por desafetos, tão somente. Como tudo na vida, as dinâmicas possuem perspectivas positivas e negativas. Em terceiro lugar está a indiferença. Segundo ela: “Esta postura costuma ser a mais comum. Não se sabe do assunto, não há preocupações com o mesmo, não se tem tempo para isto”, segundo a lógica: “‘quem comanda é quem sabe’; isto não é ‘função minha’; isto não é ‘coisa de crente’; isto é ‘política e não quero inteirar-me disto’, ‘são questões de comunistas e/ou feministas, etc.’”. Marisa ainda enfatiza, nesse terceiro tópico que “as pessoas que exercem esta postura terminam por ser úteis a grupos oportunistas, que as usam segundo seus propósitos absolutamente distantes de qualquer bem estar da humanidade e do mundo criado. São como ovelhas pastoreadas por lobos/as devoradores/as”. Em último lugar está a perspectiva do coração de Deus. Essa linguagem metafórica usada pela pastora visa conceber a ideia de que existem pessoas que “almejam o governo por verem nele uma forma clara de serviço. São capazes de dar a vida pelo que creem. Não se deixam corromper com as seduções satânicas de dobrarem-se e adorarem as formas corruptas para com isto obterem o mundo inteiro”. Para os que abraçam essa lógica, “o exercício do poder não lhe era um fim em si mesmo e sim um instrumento de serviço a Deus e a toda a humanidade”. É dessa forma última que ela percebe o governo das mulheres e dos homens. “Nesta perspectiva o/a maior/a é aquele/a que serve a Deus e aos seus propósitos. O trono no qual se senta é o da Obediência e o que lhe dá autoridade para nele sentar-se é o carregar diário da cruz. Os interesses que movem este governo estão focados nos alvos divinos de fazer das pessoas novas criaturas, guiadas pelo Seu Filho Jesus. Seus/as participantes têm compromisso com a mesma cruz que Cristo carregou: amar a Deus acima de tudo e ao/à próximo/a como a si mesmo/a”. E corrobora: “Em sendo assim este governo eclesiástico deveria ser sinal profético de Deus a todo o mundo existente. Deveria, mas nem sempre o é. O que ocorre é que valores do Reino do Pai são misturados aos do reino deste 'mundo' – que por sua vez jaz no maligno. Ao invés de ser luz para o mundo, torna-se escuridão sob a influência dele. Por ser o evangelho de Jesus, a partir das suas bases de fé, uma loucura para este mundo, comumente se vê o povo de Deus cedendo às pressões e caindo em tentação. O exercício do poder eclesiástico perde a semelhança com o Criador e adquire uma performance do mundo decaído. Como diria a gíria: ‘é aí que o bicho pega’. A leitura da Palavra deixa de ser renovadora para ser instrumento de manutenção do status quo. Ou então para ser apenas assunto de discursos, sem que provoquem qualquer mudança neste século. Com agravantes que podem torná-lo ainda mais maléfico: a divinização de quem o exerce. Aí então é que a situação fica ainda mais aterradora. Sob este foco é que qualquer questionamento do estabelecido corre o risco de ser taxado de ‘coisa de gente rebelde, que não honra aos/às ungidos/as de Deus’. Pode-se chegar ao extremo ideológico de ser chamar de incrédulos/as ou de possuídos/as pelo diabo aqueles/as que ousem inquirir o exercício do poder”. Depois dessa abordagem profética, Marisa elucida a sua reflexão com um texto bíblico. Em suas próprias palavras: “Moisés, nos dias do seu governo, fora abordado por cinco mulheres, conhecidas como sendo as filhas de Zelofeade. Este morrera e deixara cinco filhas. Não havia irmãos, não havia cunhados e muito menos marido na vida de qualquer delas. Para a análise daquele século estas mulheres estariam PERDIDAS, já que não havia um homem que pudesse dar-lhes nome, identidade e direito de existência. Era esta a visão de gênero daquela gente chamada povo de Deus. Em suas leis, que pretendiam ser representações da justiça e da ordem divinas, estava escrito que nenhuma delas teria direito aos bens que o pai deixara, após a sua morte. A única razão desta impossibilidade era o fato de a descendência de Zelofeade não contar com nenhum representante do gênero masculino. O ‘pecado’ daquelas filhas era o de ser mulheres – isto lhes tirava o direito do governo das propriedades familiares. E segundo a lei não haveria o que discutir: que se cumprisse o escrito e que as mesmas se ativessem a obedecer sem questionar. Lei é lei; ordem é ordem. Neste cenário clássico surge o inesperado. Aquelas mulheres decidem ir até Moisés e pedir a ele que alterasse aquele enunciado legal e a elas concedesse as terras que foram do seu pai e, portanto, delas também. Sem dúvida este foi um clamor de coragem e até de subversão da ordem estabelecida. O que se esperava era que Moisés exercesse sua função legislativa e interpretasse a lei: ‘não, não era cabível dar ouvidos aquela petição. Que elas voltassem ao seu lugar de somenos e acatassem as sabedorias da lei’. Mas não mais que de forma surpreendente, Moisés faz algo inusitado: pede tempo a elas para orar antes de respondê-las. MOISÉS DECIDE OUVIR A DEUS E NÃO APENAS SEGUIR POR CAMINHOS JÁ ANTES CONHECIDOS. O fato é que, enquanto orava, Deus falou a Moisés: ‘Entregue a elas o que a elas pertence.’ E as terras de Zelofeade foram entregues às suas filhas, para que exercessem o governo das mesmas”. Como se percebe, a argumentação é profética e gera no que é temente a Deus uma série de reflexões outras que precisam sair da zona das ideias para se instalarem na zona da ação. De fato, como pessoas presenteadas com vida pela graça de Deus, não podemos ceder às mais distintas formas de maldição travestidas pela alcunha de poder para subjugar. Somos convidados, assim, a ouvirmos Deus e nos levantarmos contra toda e qualquer forma de injustiça. Fiz questão de reagir ao texto da distinta pastora Marisa, que exerce o governo episcopal na Região Missionária do Nordeste, por ser um eco a muito do que tenho falado e defendido. E espero que, de uma forma ou de outra, tenhamos a possibilidade de marcar esse tempo com atitudes que denunciem toda e qualquer forma de poder arbitrário e malicioso. Kyrie Eleison.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Importância do Perdão

A vida cristã possui suas peculiaridades e desafios. Um dos maiores refere-se ao ato de dar e receber perdão. Quando avaliamos os textos sagrados, chegamos à nítida conclusão que a maioria das referências tem a ver com a questão do perdão. O simples aspecto basilar que concerne à conversão nasce, necessariamente, da atitude graciosa e perdoadora de Deus para conosco. Deus é, indubitavelmente, um Deus que perdoa e esquece. Ora, o perdão de Deus para conosco é fruto da graça maravilhosa que acolhe e abraça todo o nosso planeta. Deus não nos vê a partir dos nossos delitos e pecados. Ele nos percebe a partir de Cristo. Então, é por intermédio de Jesus Cristo que o perdão de Deus nos chega maviosamente. Entretanto, para que Deus nos veja em Jesus, torna-se necessário também o auto reconhecimento de nossa realidade de vida. Se me enxergo a partir do prisma da humildade e me reconheço tal como sou, então posso olhar para Cristo e percebê-lo superior a mim mesmo. Dessa forma, destaco minha total e irrestrita dependência dele e me lanço à sua misericórdia. Somente com essa atitude de entrega total é que posso entender as minhas carências, e assim, consequentemente, afirmar que não sou em coisa alguma, superior aos outros. Aliás, a Bíblia deflagra que temos que considerar os outros superiores a nós mesmos. Segundo Thomas à Kempis, um místico do século XV que muito influenciou a vida piedosa de John Wesley, “você precisa aprender a quebrar seu próprio eu em muitas coisas, se quer ter paz e concórdia com outros (Gl 6.1). Não é fácil residir em comunidades religiosas ou em uma congregação, conversar ali sem reclamação e perseverar ali fielmente, até a morte (Lc 16.10). Bem-aventurado é aquele que já viveu bem lá, e terminou bem”. (KEMPIS, A Imitação de Cristo, p. 36). Ora, o que Kempis evidencia é que não é fácil ter paz e concórdia com todas as pessoas, mas é preciso terminar bem essa jornada espiritual. Daí, podemos considerar que é nas discórdias e inquietações relacionais que surgem as más resoluções do amor, gerando a ansiedade, o ressentimento, o rancor e finalmente o ódio. Todos esses elementos obstruem, de forma evidente, a ação do perdão na zona das emoções humanas. É preciso evidenciar que no que se refere ao perdão, não temos opções. É, entre outras, uma esfera da vida espiritual que necessita de radicalidade. O evangelho de Mateus apresenta-nos a oração do Pai Nosso e sua ênfase na expressão: “Perdoa as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores”. Essa parte da oração é tão importante que mereceu um comentário do evangelista. E Mateus corrobora: “Se vós não perdoardes aos homens os seus pecados, tampouco vosso Pai celeste perdoará os vossos pecados”. Mt 6. 15. Portanto, é preciso considerar que o grande “nó” da vida cristã está justamente na perspectiva do dar e receber perdão. Somos desafiados a essa ação de forma tal a provocarmos liberdade. Não há dúvida de que dar ou receber perdão não é tarefa fácil. É por isso que, diante desse desafio, precisamos contar com a ajuda de Jesus. Diante do grau de dificuldade para dar e receber perdão, somente Jesus pode provocar a reconciliação, e isso por intermédio da Graça de Deus.

domingo, 22 de julho de 2012

Somos Pastores com Ovelhas e Ovelhas com Pastores

Para esta reflexão, recomendo inicialmente a leitura dos seguintes textos bíblicos: Primeira Leitura: Jeremias 23.1-6 Segunda Leitura: Efésios 2.13-18 Terceira Leitura: Marcos 6.30-34 Os que são chamados ou pelo menos reconhecidos pela alcunha de discípulos(s), encontram-se envolvidos numa ação evangelizadora no mundo e na sociedade onde estão inseridos. De fato, o discipulado é uma tarefa de pastoreio de vidas e confronto das injustiças. É uma ação cotidiana que parte daqueles(as) que desejam ou almejam parecer-se com Jesus e espalhar a solidariedade aos outros na dimensão do cuidado. As narrativas do Evangelho de Marcos, escritas após o ano 70, afirmam que o(s) primeiros(as) discípulos(as) enfrentaram o referido desafio. Aliás, além da perspectiva do cuidado, Rikk Watts salienta que este mesmo Evangelho possui em seu bojo três perguntas chaves: 1. Como o Reino de Deus se manifesta entre nós? 2. O que significa ser cristão? 3. O que significa, de fato, seguir a Jesus? Além dessas perguntas, os discípulos tiveram também que se esforçar para a vivência da compaixão segundo os moldes da pregação impulsionada pelo mestre de Nazaré. No relato evangélico destacado, nos deparamos com os discípulos retornando de uma missão. O contexto dessa missão segue-se ao relato da morte de João Batista, numa clara alusão ao fato de que a ação evangelizadora precisava continuar. João é morto, mas a mensagem que transforma vidas não está morta. E os discípulos agora são os portadores da mensagem de boas novas. Ora, depois das andanças, das partilhas, dos encontros e desencontros, os discípulos estavam cansados e exaustos e Jesus os chama para o descanso em um lugar tranquilo. Esse descanso, merecido por sinal, era essencial para os peregrinos do Caminho e o mestre sabia disso. O ritmo alucinante de vidas envolvidas com vidas, na esfera da ação evangelizadora, acaba provocando cansaços, os mais diversos e até mesmo a exaustão. Porque essa ação é um corredor aberto onde pessoas e suas histórias transitam, impelindo-as a saírem de suas mediocridades com a finalidade de alcançar novas possibilidades na espiritualidade encarnada do evangelho. Dessa forma, então, nos deparamos com um ciclo onde as vivências no referido corredor exige também o descanso e vice-versa. E nesse ponto cabe-nos uma observação, pois há um perigo constante quando nos envolvemos em demasia numa frente que visa a promoção da vida. Enquanto o sangue está aquecido pelo empenho, as coisas caminham bem, entretanto é igualmente necessário, num momento segundo, nos protegermos em uma caverna qualquer, sob os cuidados da graça de Deus. Jesus sabia disso, e por isso, convida seus discípulos ao descanso num lugar silencioso. De igual modo, o lugar de silêncio é sempre um lugar que oportuniza escutarmos, uma vez mais, a voz de Deus através da oração e da interpretação da sua palavra. Não existe ação desvinculada de devoção, assim como não existe devoção desvinculada de ação. E nesse ponto de nossa reflexão, somos novamente chamados ao viver equilibrado, tão preconizado por João Wesley. Encontramos a mesma dinâmica do equilíbrio nas linhas reflexivas de William Barclay: “O ritmo da vida cristã é a alternância entre o encontro com Deus em um lugar secreto e o serviço aos homens na praça”. Jesus, então atravessou o lago em uma pequena nau, juntamente com seus discípulos para o merecido tempo de descanso. Entretanto, nesse tempo surge a compaixão. A multidão os esperava. O tempo urge e as pessoas têm suas necessidades. É curioso notar como as pessoas se alinham a um fio de esperança, seja ele qual for. É curioso notar como as pessoas seguem líderes, os mais diversos, quando percebem a oportunidade de mudar de vida, quem sabe, para melhor. É curioso notar como a ansiedade gestada em uma alma desesperada pode se tornar um terreno passível de transformação, sejam elas boas ou ruins. No caso de Jesus, as pessoas sabiam que se tratava de uma gloriosa transformação. Diante da multidão, Jesus faz uma constatação chocante: “São como ovelhas que não têm pastor”. Diante dessa constatação, não há lugar para fenecer. O descanso dos discípulos é interrompido e a ação evangelizadora recomeça. Mas o que significa essa expressão chocante de Jesus: Significa, primeiramente, que a vida apresenta suas complexidades e sempre nos conduz para o terreno da obscuridade. Todos enfrentamos problemas, os mais diversos, e nos perdemos em devaneios e pensamentos. Em múltiplos instantes do nosso cotidiano, tememos e precisamos do ombro amigo para a sustentação e redirecionamento da vida. As pessoas, entre a multidão, precisavam do ombro amigo de Jesus. Em segundo lugar, precisamos nos deparar com alguém que nos inspire e nos dê a possibilidade de avançarmos. De fato, para aquela multidão e para nós, Jesus é a fonte de inspiração. Num mundo onde a lógica de Mamon organiza a vida social, torna-se urgente e importante a manifestação de uma inspiração que nos oportunize uma outra lógica. O cristianismo é desafiado pelos ventos dos sete Espíritos de Deus a viver no mundo sem ser do mundo, ou seja, viver outra lógica confrontando a que está presente diante de nossos olhos, visando uma sensibilidade solidaria. Nessa mesma linha de pensamento, Hugo Assmann e Jung Mo Sung no livro co-escrito: Competência e sensibilidade solidária” apontam para a necessidade de negar o olhar para os valores da cultura dominante e ver o que ainda não pode ser visto pela força interior do desejo. Dessa forma, criando um horizonte de esperança e utopia, "que ainda não existe e que talvez nunca venha a existir, mas que dá um sentido às ações que nascem do nosso desejo de um mundo melhor. Este horizonte de utopia e esperança nasce juntamente com este desejo de vivenciar a sensibilidade solidária para além das relações pessoais, ou em um pequeno grupo, o desejo de que toda a sociedade, toda a realidade seja invadida e ‘grávida’ desta solidariedade mais genuína. E é este horizonte utópico que alimenta este desejo e dá sentido a esta sensibilidade solidária” [ASSMANN & SUNG, 134 E 135]. A sensibilidade solidária é, de fato, uma outra lógica frente ao mundo hermeticamente fechado em suas verdades sem amor. E finalmente, uma ovelha sem pastor está desprovida de cuidado e segurança. Se um sistema que existe para favorecer o bem estar das pessoas não o efetua, então, se torna necessário abraçar um outro sistema, quem sabe, marcado por pequenas comunidades de vida, onde a manifestação do Reino de Deus seja mais concretizada em versos, prosas, boa comida, saborosa bebida e justas amizades. Aliás, em 2011, pensando nos desafios que nos levam ao anúncio do Reino, veio-me intuitivamente um poema. Eis aqui o relato: O Reino de Deus é uma coisa modesta É sinal de vida, num mundo de cão É força que brota da simplicidade De quem tem no peito um bom coração O Reino de Deus é um grão de mostarda Que cresce, que murcha, dá flor e dá fruto Mas faz diferença no cotidiano De quem tá cansado e só quer relaxar O Reino de Deus é viúva que acha Moeda perdida num canto qualquer E reúne as amigas pra uma festinha É o riso e alegria querendo chegar O Reino de Deus é acontecimento Que ocorre aqui, que ocorre acolá É Deus sempre junto da história da gente Mandando as tristezas pras bandas de lá E nas metáforas desse singelo poema chegamos à conclusão de que o Reino é sempre maior que a igreja e que as pessoas, igualmente, são maiores que as instituições e seus líderes. Sendo assim, mais do que a valorização da instituição ou da figura personalista de um determinado líder, o pastoreio é sempre um nicho comunitário de pessoas que querem viver bem, viver melhor. Na perspectiva do que Jesus constatou, não há espaços para personalismos, mas um lugar, em um canto qualquer onde mestre e discípulos(as) se organizam numa comunidade sem patentes e sem hierarquias, onde Deus é tudo em todos. Então, em tom de conclusão, afirmamos que as pausas para o descanso e a compaixão que visa o cuidado das vidas se misturam na lida diária. Num e noutro espaço, é a graça de Deus que nos ajuda na conciliação, quem sabe, numa mesa farta com risos e riscos, onde pessoas concretas que sofrem dramas concretos se cuidam umas das outras sem peso ou ressentimento. É como Dom Hélder Câmara, saudoso bispo de Olinda, afirma: “As pessoas te pesam? Não as carregue no ombro. Leve-as no coração”. De alguma forma, seja assim a tônica de nosso mútuo pastoreio, de uns com os outros, de uns para com os outros, pelos outros, pois ao final das contas, somos pastores uns dos outros e ovelhas com pastores(as), os mais diversos(as). Que o Senhor nos ajude.

sábado, 14 de julho de 2012

Os Dragões são Moinhos de Ventos

Acho que a maioria de nós já ouviu falar da história de Dom Quixote – o cavaleiro da Triste Figura – escrita por Miguel de Cervantes, cujo livro foi editado em janeiro de 1605. De fato, essa é uma importante obra da literatura mundial. A narrativa apresenta os idealismos e alucinações de Alonso Quixano – um fidalgo decadente e o companheirismo de seu vizinho lavrador e fiel escudeiro, Sancho Pança. Dom Quixote, influenciado pelos romances dos cavaleiros andantes, acaba perdendo a razão e sai de sua letargia em busca dos sonhos impossíveis, das conquistas irrealizáveis, das estrelas inalcançáveis, do amor platônico e da paz interior que proporciona o descanso da alma, visando, enfim, um mundo melhor. No início de suas andanças, ele elege uma lavradora chamada Dulcinéia, e, por ela, entra em delírios e luta com monstros imaginários e situações irreais. Uma de suas lutas mais fabulosas é a que retrata a luta de Dom Quixote contra os moinhos de ventos. Na verdade, ele achava que aqueles moinhos eram monstros os mais diversos, e montado em seu cavalo, o Rocinante, parte de forma suntuosa, desferindo golpes aleatórios e se ferindo em sua luta vã. A trajetória de Dom Quixote de La Mancha é um espelho para as nossas atitudes quixotescas no arcabouço da vida. De certa forma, quando comparamos o herói pouco usual de Cervantes com a nossa lida diária, acabamos por descobrir aproximações as mais diversas. Nós somos quixotescos todas as vezes que lutamos contra estruturas as mais diversas ou sofremos por problemas que, na verdade, são bem menores do que os pintamos. Um exemplo bíblico do que estamos apontando se encontra no pré-encontro de Jacó com Esaú, depois de muitos anos de afastamento. Jacó estava receoso em relação ao encontro e esperava, ao final das contas, a sua própria morte. Jacó pintou o “dragão” de forma tal que ele parecia em sua mente bem maior do que realmente era. Qual não foi a sua surpresa quando o seu irmão Esaú, ao invés de mata-lo, como ele esperava, foi ao seu encontro e o abraçou com carinho e muita comoção. De igual modo, o filho da parábola do pai amoroso também foi surpreendido com a atitude do pai. O filho esbanjador esperava a veemente exortação do pai em relação à sua desvairada aventura, mas recebeu o abraço afetuoso. E é assim com todos nós. Muitas das vezes imaginamos dragões, quando na verdade o que temos adiante são, nada mais, nada menos, que moinhos de vento. Então, quando estivermos diante de um problema ou de uma dificuldade aparente, tenhamos calma, oremos e busquemos o discernimento de Deus para as nossas vidas. Eu sei que, enfim, vamos realmente chegar à constatação de que os dragões são, no fundo, no fundo moinhos de vento. Fica a dica.

sábado, 23 de junho de 2012

Mensagem aos meus irmãos e minhas irmãs da "GALILÉM"

“Eis que Ele vai adiante de vós para a Galiléia” (Marcos 16.7) No evento da ressurreição de Cristo encontramos a marca vital de nossa fé e esperança. De fato, como bem nos adverte o apóstolo Paulo, se a ressurreição não aconteceu, é vã a nossa fé (1 Coríntios 15.14). A ressurreição é um elemento crucial para a dinâmica do nosso viver neste mundo marcado por forças de opressão e de morte. Quando Deus faz reviver o injustiçado, Ele proclama ao mundo uma outra lógica que valoriza quem perde ou quem se frustra. Assim, diante das dificuldades e dos desafios que a vida nos apresenta ou mesmo diante das lutas que nós empreendemos, contamos, ao final das contas, com a manifestação poderosa e justiceira de Deus. Aos aflitos, Deus ministra a sua ressurreição e ela nos lança à esfera da esperança. A esperança é a marca vital do cristianismo, inclusive, mais do que a fé. O próprio Leonardo Boff corrobora com essa afirmativa e confirma nas linhas do seu último livro: Cristianismo – o mínimo do mínimo, o fato de que a esperança é a mola mestra da vida simples dos cristãos. Em todas as tramas de sua narrativa, este autor reflete sobre o que realmente é importante para o cristianismo na atualidade. E o importante é Cristo em nós. Meditando assim, sobre ressurreição, fé e esperança, acabei por me encontrar em oração pela vida de vocês. Oração que se estruturou com base nessas duas esferas já salientadas. Juntos, esperando contra a esperança, aguardamos ansiosamente a manifestação de Deus e sua consequente justiça. Entretanto, não podemos nos esquecer que o Cristo ressurreto já está entre nós. Ele caminha junto a nós. Aliás, como bem advertiu o mensageiro junto ao sepulcro, Ele não se encontra mais lá, vai adiante de nós para a Galiléia. Então, o lugar onde acontece nosso reencontro com o Cristo é a Galiléia. Assim, nossa ação missionária se dá na Galiléia, pois é nessa região pobre da Judéia que se deu o início do ministério de Jesus. Retornar à Galiléia significa, de antemão, retomar, em outra dimensão, o ministério de Jesus. E se retomamos esse ministério, precisamos estar cônscios de algumas atitudes e ações de nossa parte. Na verdade, trata-se de ações que repetem o que Jesus realizou, segundo a lógica: “seguimos as pegadas do mestre”. E, nesse ponto, com vias a animar a fé, quero trazer à tona de nossa reflexão algumas atitudes cruciais para esse tempo de transição: 1. O primeiro sermão de Jesus – Jesus inicia seu ministério na Galiléia com uma mensagem: “O Reino de Deus é chegado. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1.15). Ora, esse singular sermão nos põe frente a duas dimensões complementares, ou seja, primeiramente: que o Reino de Deus é realidade iminente que se estrutura entre nós, pois não somos cidadãos comuns. Recebemos a alcunha de participantes ativos do Reino de Deus. E segundo, que isso não significa que nós somos extraterrestres, como muitos acham, mas pessoas com um legado e uma responsabilidade perante o todo social. Porém, nossa vivência na dimensão do Reino precisa ser digna dele e isso somente é possível por intermédio do nosso condicionamento em arrependimento e crença na boa nova. Longe de nós qualquer tipo de arrogância. Seja bem vinda a humildade, fruto de nossa postura sempre consciente do pecado e constantemente arrependida. 2. A Galiléia é o lugar de ver o ressuscitado – Logo após a ressurreição de Jesus, o mensageiro anuncia aos que visitam o túmulo para que estes não procurem o Cristo lá, mas na Galiléia. De fato, é preciso ver o Cristo lá. E só podemos ver o Cristo vivo na Galiléia. Este é o lugar no desafio, da pobreza, dos problemas, dos constrangimentos, do ecumenismo, das diferenças, dos endemoninhamentos, das curas e libertações (Mateus 8.16). A Galiléia é o nosso chão vivencial que sempre afronta a nossa espiritualidade. Mas é na Galiléia que vemos o Cristo, É lá eu Ele está. Não em Roma, não na Grécia, não em Jerusalém, mas na Galiléia – uma vila de pescadores, onde um pequeno grupo se reúne para celebrar através da Ceia do Senhor, a presença de Jesus. Belém é a nossa Galiléia. 3. Façamos missão na nossa “Galilém” – O evangelho que vivemos é singular e real. Não nos atentamos a elementos alheios à nossa existência. Vivemos o cristianismo em sua essência e singularidade. E nesse interim, não podemos perder o foco de nossa fé e missão. Se cremos no Cristo que vive em nós, precisamos espalhá-lo em todos os segmentos de nossa vida. Assim, como Jesus fez diferença com a mensagem do amor de Deus aos seus contemporâneos, nós, igualmente, devemos nos desenvolver nessa dinâmica. Julgamos, assim, todas as necessidade e inquietações que invadem nosso olhar. Julgamos com base na vivência daquele que nos ajuda constantemente. Portanto, gostaria de estimular cada um dos meus irmãos e minhas irmãs da “Galilém”, a se esmerarem em projetos missionários, pois o evangelho que vejo em cada um é da mesma estirpe daquele vivenciados por homens e mulheres nas primeiras comunidades primitivas (Atos 2.46). 4. Cristo vive em nós – Não podemos perder a esperança, pois em nossa “Galilém”, quem está conosco é o Cristo ressuscitado. Sendo assim, devemos agir de forma concreta, pois a fé em nós é dom de Deus (Efésiso 2.8), gerado pelo Espírito Santo. Sei que ainda estamos na expectativa de uma resposta quanto ao futuro, mas que importa, temos adiante de nós a presença do glorioso Senhor da vida. De alguma forma, a presença do Senhor vivo entre nós leva-nos a agir com proféticas convicções, pois a nossa expectativa em fé, sob o legado de que somos sal da terra e luz do mundo (Mateus 5. 13-14), nos faz viver de glória em glória (2 Coríntios 3.18). Enfim, embora a distância e a saudade, mantenhamos nossos olhares no autor e consumador da nossa fé, vendo, julgando e agindo. Ele, de fato, vai adiante de nós. No amor genuíno de Cristo, despeço-me, rogando ao Senhor que em breve nos vejamos e nos animemos mutuamente. Abraços, Moisés Coppe.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Uma Reflexão sobre a Morte

Vez por outra, somos tomados por múltiplas perguntas e poucas convicções e respostas. Em que pese a nossa vontade e desejo por uma vida mais cartesiana e lógica, somos, invariavelmente, assaltados por situações inexplicáveis que nos deixam atemorizados. Como que do nada, recebemos a notícia da partida de um ente querido e sentimos nossa alma fragmentar-se. Uma dor lancinante se instala, nossa fé se estremece e o caminho, dantes reto e límpido, se torna tortuoso e nebuloso. É uma experiência de claro-escuro que faculta ilusões e desilusões. De fato, o turbilhão oriundo de um momento fatídico deixa-nos tal qual a nau sem leme e sem remo no meio de um oceano bravio. E, então, perguntamos como o salmista: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O clamor do salmista, relembrado por Jesus na cruz do calvário, que ecoa ainda em nossos dias, é tomado emprestado por nosso espírito com a finalidade de tentar conter a “sombra da morte” e declarar, “esperando contra a esperança”: “Não temerei o mal porque Tu estás comigo”. É essa atitude teimosa que insiste em resistir ao inusitado. Pessoa alguma pode perder a sensibilidade frente ao inusitado, pois viver é realmente muito complexo, entretanto bom; e viver pela graça de Deus é melhor ainda. Acho que foi com o olhar em torno da complexidade da vida que o salmista escreveu: “Tua graça é melhor do que a vida”. Ora, a graça de Deus é essa dimensão que nos ajuda a melhor conceber as relações humanas e todos os acidentes delas decorrentes. Sendo assim, todos os bons sentimentos e superações, oriundos das relações entre semelhantes ou mesmo dos acidentes de percurso, são interpretadas por nós de diversas maneiras e se harmonizam em nossa vida, tão somente, pela concretude da graça. Essa dimensão cuidadora e amorosa de Deus para com seus(suas) filhos(as) amados(as), independente dos momentos – sejam eles bons ou ruins – é manifestação de uma presença sempre furtadora da dor. Sendo assim, o sofrimento, inerente a todos ser humano, é experimentado porque somos seres ainda ligados aos elementos físicos. Mas tal sofrimento é apaziguado por Deus, pois somos seres marcados pelo espírito. Ora, a zona espiritual é a zona da superação. É a zona da poesia, da música, das artes, da contemplação e da memória bem resolvida com o seu passado. Ao mesmo tempo, somos seres físicos e espirituais, imanentes e transcendentes. Experimentamos a vida, suas belezas e tragédias e somos projetados pela graça para o campo florido e perfumado da superação. A graça é melhor do que a vida porque é ela a agente de Deus que nos permite a superação. Quando não temos respostas frente a qualquer ocorrido, nos alimentamos da presença cuidadora de Deus e superamos a nossa dor. Então, diante do irônico da vida, quando as perguntas “são” e as respostas “não-são”, recorremos, enfim às coisas do espírito. E é o Rubem Alves quem poeticamente nos diz que nós não morremos, mas transformamo-nos em aves selvagens e livres que voam rumo ao paraíso gestado pelo Criador. Em outras palavras, somos tal como uma música bem harmonizada, com boa melodia, ritmo e dissonância; música que no devido tempo cessa de ser tocada e cantada, deixando nos palácios da memória a saudade e a convicção de que a música será novamente executada, em tempo oportuno, no templo da eternidade.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Anistia de Anivaldo Padilha

Dedico este depoimento à memória de Paulo Wright e Ivan Mota Dias (prebiterianos) e de Heleni Guariba (metodista), mortos sob torturas e desaparecidos; à memória de Celso e Fernando Cardoso da Silva, jovens metodistas presos comigo, e que já não se encontram mais entre nós; à memória de Richard Shaull, missionário americano presbiteriano, um dos que plantaram as sementes da Teologia da Libertação; e à memória de Brady Tyson, missionário americano metodista que nos viabilizou os laços com Martin Luther King, Jr. Minhas primeiras palavras são de agradecimento pela honra que o a Procuradoria da República e o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) me concederam ao me convidar para fazer este depoimento. Sinto-me honrado porque minha história, nos últimos 50 anos, está intimamente ligada ao CMI e ao movimento ecumênico. E o projeto Brasil: Nunca Mais, é um dos capítulos mais importantes da história da contribuição do movimento ecumênico brasileiro e internacional à luta pelos Direitos Humanos no Brasil. O projeto Brasil: Nunca Mais só pôde ser desenvolvido porque contou com um movimento ecumênico que se desenvolveu em nosso país a partir da primeira metade da década de 1950 quando, no seio do protestantismo, a Confederação Evangélica do Brasil, inspirada pelo CMI, criou o Setor de Responsabilidade Social, responsável por desenvolver uma série de reflexões sobre o papel da Igreja no Brasil, em um contexto de rápidas transformações sociais e políticas. Desse processo surge o Movimento Latino-Americano de Igreja e Sociedade (ISAL), que teve papel fundamental na organização do pensamento social ecumênico na América Latina. Concomitantemente, a partir do início da década de 1960 a Igreja Católica Romana também sentia os efeitos renovadores trazidos pelo Papa João XXXIII, e pela primeira vez se abria para o ecumenismo. Esses novos ares tiveram grande impacto nas igrejas, especialmente entre a juventude e intelectuais, estudantes, e pastores e padres jovens, levando-nos a construir processos de diálogo e de cooperação nas lutas pelas transformações sócio-econômicas em nosso continente. É nesse processo que germinam as sementes do que veio a ser conhecida como Teologia da Libertação, tanto em suas vertentes protestante quanto católica. Esse processo é interrompido temporariamente pelo golpe militar de 1964 que leva à prisão, à clandestinidade ou ao exílio grande parte das nossas lideranças e ao desmantelamento das nossas organizações, inclusive da Confederação Evangélica do Brasil. O período pós-golpe significou re-aglutinar as pessoas, criar novas formas de organização e redefinir nosso papel. Com os novos ventos que sopraram da Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín, em 1968, o movimento ecumênico ganha novo ímpeto e possibilita uma ação ecumênica mais efetiva com a adesão de grandes contingentes católicos. É importante destacar o papel do Centro Evangélico de Informação, fundado em 1965 (transformado em Centro Ecumênico de Documentação e Informação em 1975 e, a partir de 2004, em KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço). A partir do AI-5, quando a tortura é institucionalizada como método sistemático de interrogatório e instrumento de terror político do Estado, coube ao movimento ecumênico alimentar as redes ecumênicas internacionais com informações sobre o que se passava nos porões da ditadura e denunciar as torturas internacionalmente. Outra contribuição foi a criação de redes ecumênicas de apoio para proteger perseguidos políticos rumo ao exílio. Foi como participante ativo desse movimento que fui preso na manhã do dia 28 de fevereiro de 1970, por agentes da OBAN, em São Paulo, principal centro de torturas do país. Comigo foi presa também Eliana Rolemberg, que me assessorava em uma pesquisa que eu coordenava para a ULAJE [Unión Latinoamericana de Juventudes Evangélicas] sobre Juventude e Mudança Social na América Latina. Na época, eu exercia as funções de Secretário, para o Brasil, da ULAJE e de redator de uma revista mensal, Cruz de Malta, da Igreja Metodista. Ao chegarmos à OBAN, depois que Eliana e eu fomos separados, fui conduzido a uma sala para ser interrogado. Assim que a porta se fechou, recebi um soco no estômago com tal violência que caí e fiquei alguns segundos sem poder respirar. Começaram, então, a aplicar em mim o “telefone”, método de tortura que consiste em golpear os ouvidos da vítima com as duas mãos ao mesmo tempo, em formato côncavo. Os golpes foram repetidos várias vezes, seguidos de gritos para que eu confessasse ser membro de uma organização clandestina e que revelasse os nomes e endereços de todos os meus amigos. Após esse interrogatório fui levado a uma das celas. Na parte da tarde, fui levado novamente para interrogatório. A partir desse momento, as torturas se intensificaram. Trouxeram Eliana, Celso e Fernando Cardoso da Silva, dois jovens metodistas como eu, que tinham sido presos também, e nos aplicaram golpes de “palmatória”, novamente o “telefone” e choques elétricos. Depois de muito tempo de torturas, nos separaram e fui levado de volta à cela, já ao escurecer. Eu não havia ingerido nenhum alimento desde o café da manhã. Minha boca estava extremamente seca. Tinha a impressão de que minha língua ia rachar ou que minhas mucosas estavam se esfacelando. Pedi água e o carcereiro me respondeu: “não tenho autorização para dar água a presos que voltam do interrogatório. Beber água logo depois de levar choques pode matar”. Trouxeram a janta: sobras da comida do quartel trazidas em grandes caldeirões. Tive dificuldade para comer. Além da boca seca, minhas mãos estavam inchadas e eu mal conseguia segurar a colher. Ademais, eu tinha grande dificuldade para deglutir a comida composta de arroz, feijão e tomate picado. Meu companheiro de cela insistiu para que eu comesse porque aquela era a única refeição diária. Às vezes, serviam o café da manhã, que consistia em uma pequena caneca de café com leite e um pãozinho. Conheci, naquele instante, uma outra forma de tortura: a fome. Não consegui dormir. Tarde da noite, vieram me buscar novamente. Achavam que eu devia ser um comunista importante porque tinha relações internacionais, especialmente com o mundo ecumênico. E, segundo eles, esse era um movimento subversivo. Forçaram-me a tirar minha roupa e me colocaram na “cadeira do dragão”. Uma cadeira revestida com folhas de metal conectadas por um fio a um rádio militar de campanha. Fui colocado nu no assento com minhas mãos e pés amarrados. Exigiram que eu desse todas as informações que eu possuía. A cada negativa, o torturador girava a manivela do telefone para aumentar a intensidade dos choques. Para tornar os efeitos mais fortes, colocaram uma toalha úmida sob minhas nádegas. Os choques me provocavam convulsões e gritos. A sensação era de perda total de controle sobre minha capacidade mental, racional, e sobre os meus movimentos. Era insuportável! Até aquele momento, eu não tinha informação sobre o que acontecia com Eliana ou com Celso e Fernando. De repente, percebi que Eliana estava também estava sendo torturada na sala ao lado. Podia ouvir seus gritos e suas recusas em cooperar com os torturadores. De madrugada me levaram de volta à cela. O medo tomava conta de mim. Eu tinha medo de não conseguir resistir e acabar por revelar nomes e endereços de meus amigos e companheiros. Pela primeira vez na minha vida me via confrontado pela possibilidade real e iminente de morrer. Como evitar esse desfecho? Ou como encará-lo com dignidade? Então, decidi que, já que morrer parecia inevitável, era melhor que isso acontecesse antes que novas torturas ocorressem. O suicídio parecia ser o único caminho. E, se cooperar era o preço para salvar minha vida, eu não conseguiria conviver com o profundo sentimento de culpa que certamente me acompanharia para sempre. Seria uma vida sem Vida! Procurei e não encontrei nada que eu pudesse usar para me suicidar e percebi que nem a opção do suicídio me era disponível. Eu estava só e à mercê dos torturadores! Iniciei, então, um processo de revisão da minha vida. Lembrei-me, sobretudo, do meu desenvolvimento pessoal, na Igreja Metodista, baseado em uma espiritualidade encarnada no mundo e nas dores do meu próximo. E que foi essa espiritualidade que me levou a dedicar-me à solidariedade com os oprimidos e discriminados e à construção de um mundo mais justo, solidário e verdadeiramente democrático. Tomei consciência, nesse momento, de que a minha vida não mais me pertencia pois eu a havia dedicado inteiramente às exigências da minha Fé. Matar-me seria como se eu estivesse a exigir a devolução de algo que eu havia doado. Minha vida pertencia a Deus. Tudo isso me fez encontrar as forças necessárias para resistir. Eu era fisicamente muito fraco em relação aos torturadores e me perguntava: “Por que usam tanta violência para me dominar”? Essa pergunta não saía da minha mente até que tudo começou a clarear. Eu tinha algo mais forte dentro de mim: o amor à Verdade, à Justiça, à Ética, e o compromisso com o povo, além do apoio de uma imensa comunidade que não se calava diante da tirania nem se deixava dominar pelas forças que haviam usurpado o poder em nosso país. Os torturadores eram fisicamente fortes, mas moralmente eu era mais forte e tinha condições de resistir. Se eu tivesse que morrer, não podia ser por ato voluntário. Que a ditadura assumisse a responsabilidade pela minha morte. Entrei em um processo lento de tranquilidade e de serenidade. Senti que eu estava me preparando para o que me parecia inevitável. O medo, ainda que presente de forma muito forte, não mais me dominava. Eu tinha me reencontrado com minha história e comigo mesmo. Já amanhecia e, finalmente, consegui dormir. Mais tarde, ao ser levado para mais uma sessão de torturas, percebi que estava sofrendo de uma espécie de amnésia pois não conseguia me lembrar de praticamente nenhum dos meus companheiros. Os únicos nomes presentes na minha memória eram os de meus familiares imediatos. Minha memória havia se apagado seletivamente. Por isso, apesar da intensidade das torturas, eu não tinha como colaborar. Foi um fenômeno para o qual jamais encontrei explicação racional e conclusiva. Creio que o ser humano, quando se encontra em uma situação-limite, como eu me encontrava ali, é levado a buscar em suas profundezas aquela força divina que todos possuímos dentro de nós. E essa força não é monopóplio de cristãos ou de pessoas religiosas. Pude presenciar situações semelhantes de resistência por parte de companheiros ateus. Para mim, foi resultado da força daquela fé, qualquer fé, que há dentro de todos nós. Os interrogatórios diários, acompanhados de torturas físicas (choques, cadeira do dragão, socos, palmatória) e morais (simulação de execução, saída de carro com ameaças de jogarem meu corpo na Serra do Mar, insultos, ser qualificado com palavras de baixíssimo calão, ameaças de torturarem meus pais etc.) continuaram por muitos dias e depois diminuíram, até que, finalmente, fomos enviados ao DOPS para as formalidades policiais. Foram vinte dias diretos de “interrogatórios” na OBAN. No DOPS – depois de de enviados de volta a OBAN por duas vezes, Celso, Fernando e eu fomos indiciados na Lei de Segurança Nacional e enviados ao antigo Presídio Tiradentes. A acusação formal: “infiltração subversiva na Igreja Metodista"!!! O próprio promotor não aceitou as bases para o nosso indiciamento e fomos colocados em liberdade. Ao sair da prisão, sem condições de trabalhar e sob risco de nova prisão, tive que me exilar. Com o apoio do CMI e das redes ecumênicas de apoio, consegui chegar clandestinamente ao Uruguai, depois à Argentina e ao Chile. Após alguns meses, fui para os Estados Unidos com o apoio das igrejas protestantes daquele país onde consegui reconstruir minha vida e continuar, no exterior, a luta contra a ditadura. Posteriormente, transferi-me para a Suíça. No total, passei 13 anos no exílio. Por mais de seis anos tive pesadelos nos quais eu revivia as sessões de tortura. Os torturadores continuavam dentro de mim a me torturar. Eu tinha que vencê-los. A luta foi longa até que percebi que compreendi que o caminho a seguir era o do perdão. Ao perdoá-los, consegui vencê-los. O perdão significou para mim um processo terapêutico. Há momentos que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado, mas isso no nível das relações inter-pessoais. Isso não significa compactuar com a impunidade. Os crimes cometidos não foram apenas contra mim. Foram contra a sociedade brasileira e a sociedade tem o direito de investigá-los e punir os responsáveis diretos e indiretos. Termino com um apelo. Suponho que todos neste auditório sabem que a tortura era uma política de Estado. Por isso, é essencial o estabelecimento de uma comissão da verdade para investigar os crimes da ditadura, apontar quem são os torturadores, seus mandantes, seus colaboradores e apoiadores. A punição deles é importante para resgatar a dignidade dos que foram torturados, a dignidade da memória dos assassinados e desaparecidos e a dignidade das famílias que não puderam ainda sepultar seus entes queridos. Além disso, a impunidade contribui para que a tortura ainda seja praticada em larga escala nas delegacias e prisões brasileiras e para que outras formas de intolerância se fortaleçam em nosso país. Os que se opõem à abertura dos arquivos da ditadura e à divulgação da verdade e a punição dos que estabeleceram o Terror do Estado nos chamam de revanchistas. Revanche ou vingança seria tratá-los como nos trataram. Não, não queremos vingança, mas Justiça. Que sejam investigados, processados, garantindo a eles o devido processo e julgados pelas cortes do Estado de Direito e não por tribunais de exceção como fizeram conosco. Em suma, a punição representaria o resgate da dignidade da sociedade brasileira que foi violentada por um regime autoritário. Termino citando o profeta Jeremias: “quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lamentações 3.21). Minha esperança é que a memória desse passado contribua para que esse Brasil, nunca mais! Muito obrigado. Anivaldo Padilha

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sigo as Pegadas do Mestre

Sigo as pegadas do Mestre, impressas em passos largos que rumam para a justiça. Que anseiam pela liberdade. Que demarcam a jornada. Que definem os sentimentos. Que alimentam a esperança. Sigo as pegadas do Mestre, pegadas de humildade. De orgulho quebrado e ferido. De alma decantada. De ambição espalhada ao chão. De negação do mundo. Sigo as pegadas do Mestre que me mostram a simplicidade. O viver num casebre simplório. A lagoa serena em meio a mata densa. O canto da ave ferida.
Sigo as pegadas do Mestre, da busca silenciosa da presença divina. Da adoração genuína marcada pelo coração quebrantado. Da oração no quarto escuro. Da visibilidade de um espírito compungido. Sigo as pegadas do Mestre que confiam na graça e na misericórdia. Que ama a Deus de forma sincera. Que odeia defraudar o próximo. Que espera um mundo melhor e mais humano. Que requer a encarnação da espiritualidade e a espiritualidade da encarnação. Sigo as pegadas do Mestre mesmo quando elas estão apagadas pelo tempo. Ou varridas pelas torrentes de águas. Fugidias frente às chuvas de verão. Sigo as pegadas do Mestre que me ensinam a orar não com as palavras, mas com os gestos. Que me mostram que a moeda é de César e as pessoas são de Deus. Que dá sentido ao sorriso amistoso e a lágrima da noite mal dormida. Sigo as pegadas do Mestre que me fazem aguardar com esperança, o arco-íris depois da chuva dantesca, dos ventos fortes do sul e do languido estado do ser. Sigo as pegadas do Mestre que trazem o sorrir das crianças, o canto dos passarinhos, o perfume das flores do campo, o hálito da neblina no monte, o sabor da fruta silvestre e o aroma do vinho e suas castas. Sigo, enfim, as pegadas do Mestre que me levam daqui pra acolá, do nada pro tempo sem fim, do cronos para o kairós, do rio para o alto mar, da dor lancinante para o frescor da hortelã e da morte para a vida.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Cremos na Centralidade do Amor - Capítulo 10 do livro de Stokes

O amor é central porque nos une a Deus e ao próximo. É a lei da vida que cumpre todas as leis, conforme Romanos 13.8-10 e Gálatas 5.14. Jesus encarna perfeitamente o amor de Deus em sua vida e missão. Aliás, para ele, o amor é o princípio básico dos relacionamentos. É a partir de Jesus que entendemos realmente que Deus é amor. Apesar do Primeiro Testamento apontar em suas letras a importância do amor a Deus e ao próximo, Jesus o radicaliza na parábola do samaritano – Lucas 10.25-37. Porém, mais do que ensinar este amor, Jesus o vive. Ele, que disse “amai os vossos inimigos” orou, pendurado na cruz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Lucas 23.34. De igual modo, o apóstolo Paulo registrou palavras magistrais no seu hino ao amor em 1 Coríntios 13. Para Paulo, o amor é o caminho sobremodo excelente. De fato, o amor que permanece junto à fé e esperança. É maior e permanece mais. Mas, o que é o amor? Stokes afirma que o amor cristão não é uma emoção fraca, tampouco somente uma doce amabilidade, mas também firmeza de espírito. Jesus, por exemplo, não foi meigo ao chamar Herodes de raposa (Lucas 13.32), nem quando chamou Pedro de Satanás (Mateus 16.23), e nem quando chamou os fariseus de hipócritas (Mateus 23.13-36). O importante, entretanto, é ter equilíbrio no amor. “Dentro da comunidade dos remidos, significa paixão ardente em fazer a obra de Deus em conjunto, na igreja. Significa o desejo de carregar nossa parte do fardo e, ao mesmo tempo, levar o fardo dos outros. Fora da comunidade, o amor é um desejo ardente de que todos no mundo tenham bençãos de Deus”. (p. 94). Quando observamos o mundo, o vemos amargo e afastado do amor de Deus. O mundo é reconciliado com Deus através do amor de Jesus, por intermédio do ministério da compaixão. De igual modo, as pessoas, individualmente, também estão fadadas á solidão. Mas o amor de Deus está engajado em ação graciosa para reconquistar as pessoas. No encontro com o amor revelado em Jesus, deixamos de lado nossa própria vida para nos encontramos com a vida plena, conforme Mateus 8.35: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á”. O ato de exercer o amor também está ligado à lei e a sabedoria. No primeiro caso, porque o exercer do amor está diretamente relacionado à política que desenvolvemos pelos bons anelos éticos e morais. No segundo caso, porque amor e ignorância não andam juntos. O amor autêntico não é cego. “Pelo contrário, é orientado e instruído pela sabedoria que Deus quer que reflitamos em todos os nossos esforços para expressar o seu amor”. (p. 96). O amor deve ser desenvolvido pela dimensão da inteligência prática. Finalmente, podemos afirmar que cremos na nova vida de amor. A vida exige o amor e a graça de Deus o supre em nossas vidas. De fato, o Reino de Deus é o reino de amor. “Nós, metodistas, sabemos que somos pecadores redimidos pela graça e chamados a proclamar o poder de Cristo para transformar as pessoas para a glória de Deus e para abençoar aos outros”. (P. 97). (Décimo capítulo do livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas, São Paulo, 1992).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Estou com uma Doença...

Estou com uma doença esquisita. É uma doença que está me deixando muito mal, afetando inicialmente, todos os meus 206 ossos e os meus 640 músculos, inclusive a estrela entre eles, o coração. Na verdade, descobri que essa doença está me provocando uma fobia, melhor dizendo, uma aversão à instituição e seu respectivo institucionalismo, aumentando meus batimentos cardíacos e fazendo meu sangue correr em todos os 96.560 km dos meus vasos sanguíneos. Aliás, essa fobia tem me provocado náuseas, principalmente quando me deparo com a esfera do poder, com gente que só quer saber de mandar em gente. Também tem me provocado ânsias quando visualizo, mesmo que sucintamente, qualquer ato ditatorial da parte daqueles que existem para servir. Tenho dores infernais na cabeça, principalmente quando leio artigos e documentos que estão longínquos da essência do Evangelho sinalizado por Jesus Cristo. Vejo múltiplas manchas vermelhas no meu corpo quando percebo o espírito de dominação, traduzido pela metáfora da visão ou da profecia, nos discursos e “pregações”. Triste saber de gente que usa a fé alheia para satisfazer seus desejos e viajarem a custa dos outros. Surgem-me calafrios quando contato a veracidade destes pares que buscam essa estirpe de espiritualidade idolátrica. Nessa percepção, minhas glândulas sudoríferas, localizadas na derme, produzem um suor salino e meus olhos ficam irritados, frente ao algo triste revelado, produzindo lágrimas que fluem para as narinas e provocam a vermelhidão. O choro se estrema e uma dor lancinante se instala no peito. A pele é ferida, os capilares são rompidos, me deixando expostos a uma infecção. Meu sistema respiratório arfa por oxigênio. A respiração fica difícil, vírus invadem o meu corpo e busco remédios e vacinas. Pior são os calafrios que ocorrem, invariavelmente, quando constato também, o surgimento de campanhas de vitória e sucesso feitas em nome de Deus. Mas o que me mata mesmo é a taquicardia que altera toda a pressão arterial da alma provocando muitas inflamações no espírito. Tais inflamações não permitem aproximações de quem quer que seja, fazendo-me recolher a um canto qualquer onde minha solidão seja elaborada e eu experimente a restauração misteriosa da graça. Alia-se a estas patologias citadas uma alergia aos títulos de toda e qualquer ordem – dos chamados “espirituais” aos acadêmicos. Meu encéfalo – mais complexo do que qualquer computador que exista no mundo – controla o meu sistema nervoso. De todos os órgãos do corpo humano, este é o que é mais afetado pelo envelhecimento. Isso significa que no auge dos meus 41 anos, meu encéfalo já não é o mesmo de quando tinha 16. Não posso perder energia em bobagens, tais como estas citadas, com os meus 80,4 km de nervos do corpo. Assim, meus feixes de axônios e neurônios precisam liberar e transportar impulsos elétricos com coisas que valham à pena. Fui ao médico e ele me receitou indiferença. E mais duas doses de “não esquenta a cabeça”. Segui as orientações, mas não teve jeito. Resolvi apelar e visitar um curandeiro. Ele me deu algumas ervas pra fazer um chá de indignação. Deu-me também umas raízes, com as quais eu pude fazer uma pasta de rebeldia para passar na cabeça, o que de alguma forma me aliviou as dores cefálicas, entretanto a alma continua em agonia. Não sei se há saídas para a minha doença. Acho que ela é incurável. Diante disso, me sobram duas perspectivas: resignar-me ou lutar contra a doença. Escolhi a segunda opção. Vou lutar contra essa doença, mesmo que ela me leve à morte. Vou lutar com todas as minhas forças contra essa invasão bárbara que não foi gerada por mim, mas que me atinge profundamente e silenciosamente como uma metástase. Já estive no CTI, passei pela enfermaria e agora caminho trôpego com muletas emprestadas por amigos que não me desamparam nunca: o paulistano do trem, o crente do “pii” quente, o alienígena e o quixotesco dos livros. Moribundo, espiritualmente, só me resta a esperança...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cremos na Vitória por Meio da Vida Disciplinada - Capítulo 9 do livro de Stokes

Além de crermos no perdão dos pecados, cremos na graça capacitadora de Deus. Desde o início do metodismo, João e Carlos Wesley apostaram na vida cristã por intermédio de uma vida disciplinada. Sendo assim, para Stokes, “a denominação ‘Metodista’ reúne várias comunidades de fé que compartilham desta grande herança de vida disciplinada. Acreditamos na vitória através do cumprimento de todas as condições. Nada do que é fundamental na vida moral e espiritual acontece por acaso. Colhemos o que plantamos”. (p. 83). Quando nos analisamos, constatamos que temos muitas coisas boas, mas é preciso ampliá-las. Na mesma direção, precisamos de coragem para sustentar o que é certo e abandonar o que é equívoco. Mas como podemos nos tornar o que Deus espera de nós? Primeiramente, por intermédio da promessa bíblica. A Bíblia nos informa que somos “mais do que vencedores”. (Romanos 8.37). Essa vitória é prometida para os que buscarem vida acertada. Desenvolvemos nossa fé como atletas espirituais. (1 Corintios 9.24). E a Bíblia ainda nos encoraja mediante a renovação de Deus. (Isaías 40.30-31). Mesmo diante da promessa, temos que enfrentar muitas barreiras. O principais obstáculos são, na concepção de Stokes, distração e egoísmo. “A distração está relacionada aos nossos pensamentos e o egoísmo aos nossos desejos”. (p. 85). De fato, no podemos controlar nossos pensamentos. Eles se instalam, sejam bons, ruins ou medíocres e nos dispersam. Nossa mente está aberta à multiplicidade, entretanto precisamos nos focar na unidade de nossa fé em Cristo. De igual modo, o egoísmo nos faz fugir do grande propósito de Deus que é de amar o próximo e adorá-lo. Nós gostamos do amor próprio, do amor por nós mesmos. Mas precisamos ir em busca do altruísmo. Fugir do egoísmo. Qual é a resposta a esse drama? Para Stokes, torna-se necessário uma disciplina na vida espiritual. Trata-se mais especificamente, de estabelecer horários para a nossa prática de adoração. Nesses momentos de intimidade, Deus trás para o que o busca uma beleza nova e sagrada para todo o resto da vida. (p. 87). No âmbito desses momentos devocionais, torna-se fundamental também a prática da conversão, voltando-nos para Deus. Enfim, “através dos hábitos da devoção cristã, Deus nos concede o poder de viver diariamente sob a inspiração dos nossos momentos mais sagrados e nos dá, também, o poder que provém da plena consagração. Pela disciplina, ele desvenda as grandes passagens da Bíblia, até que a alma encontre o elemento para o qual foi criada, isto é, o amor a Deus e ao próximo”. (p. 89). (Nono capítulo do livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas, São Paulo, 1992).

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Sol Brilha Diferente

Quando as coisas não vão bem com a gente, o sol brilha diferente. Se ao contrário, tudo está em ordem, o sol brilha diferente. Quando os amigos se afastam e os bons risos cessam, o sol brilha diferente. Se surgem novas amizades e a sinceridade irradia nos olhares, o sol brilha diferente. Quando a enfermidade e a doença se instalam em nosso corpo, o sol brilha diferente. Se ficamos sãos e nos lançamos novamente a todas as nossas atividades sem limitações, o sol brilha diferente. Quando as questões familiares não têm uma boa resolução em nossos lares, o sol brilha diferente. Se estamos em harmornia, casais conjugados e filhos em diálogo, o sol brilha diferente. Quando a saudade se instala no profundo da alma, o sol brilha diferente. Se nos reencontramos com a pessoa amada ou com o amigo distante, o sol brilha diferente. Quando oramos, mas nos dispersamos em nossa oração por causa dos muitos problemas, o sol brilha diferente. Se oramos, silenciando nosso ser para ouvir o grande Deus, o sol brilha diferente. Quando querem transformar nossa espiritualidade em comércio, o sol brilha diferente. Se nos aninhamos a uma vida espiritual cercada de realidade e esperança, o sol brilha diferente. Quando somos banhados com a chuva da tempestade, o sol brilha diferente. Se nos chega aos telhados a chuva fina que rega a terra, o sol brilha diferente. Quando nos falta a fé para a jornada espiritual na dimensão do Reino de Deus, o sol brilha diferente. Se o Reino de Deus é vivido por nós na dimensão plenificada da esperança, o sol brilha diferente. Quando tomamos consciência de que Jesus morreu na cruz no calvário, o sol brilha diferente. Se vamos ao túmulo e percebemos que ele não mais lá está, o sol brilha diferente. Quando somos tomados pelo medo da morte ou pelos assaltos do pecado, o sol brilha diferente. Se nos alimentamos da esperança da vida eterna, o sol brilha diferente. De fato, o sol sempre brilha diferente? Moisés Coppe

Cremos no Perdão dos Pecados - Capítulo 8 do livro de Stokes

A doutrina do perdão dos pecados é muito especial para a fé cristã. Os tons dessa doutrina embasam-se nas perspectivas das palavras paulinas: “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. ( Romanos 8.1). Mesmo diante da força dessa doutrina, hoje, muitas pessoas não dão o devido valor a ela. De fato, as pessoas não consideram a presença do pecado em suas realidades vivenciais. Entretanto, o pecado sempre está conosco. Para Stokes, pessoa alguma deve se escusar de suas responsabilidades. “E não há sinal mais seguro de nossa sanidade mental do que nos sentirmos culpados quando realmente o somos”. (p. 76). Estamos diante do pecado e muitas vezes vivemos na dinâmica das complexidades, preferindo um caminho adverso, muitas das vezes. Como nos diz Paulo: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio agir, pois não faço o que prefiro, e sim, o que detesto”. (Romanos 7.15). Diante desse quadro, vem a resposta de Deus: a Sua graça perdoadora. Pessoa alguma pode se auto-salvar. Nem as nossas boas obras, tampouco as nossas ações. Menos ainda um auto-penitência. Somente pela aceitação da dádiva amorosa e perdoadora de Deus que podemos nutrir alguma esperança. No auge dessa humilde aceitação, somos justificados pela graça. A justificação é um presente de Deus para o ser humano. Deus nos olha, e ao nos olhar não nos vê. Ele vê Jesus em nós. “O homem não é justificado por obras ou lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus”. (Gálatas 2.16). Mesmo diante da certeza do perdão e da justificação, o ser humano precisa se tornar consciente de que há uma necessidade contínua de perdão. Como nos diz Stokes: “Sempre que vasculhamos além da nossa superficialidade descobrimos, também, que nos afastamos de Deus, trilhando os nossos próprios caminhos. Perdemos o propósito para o qual Deus nos criou e assim repudiamos a razão de estarmos aqui”. (p. 80). Pelo fato de nos perdermos em nosso cotidiano, precisamos dessa contínua necessidade de busca do perdão. Aliás, “o arrependimento e o perdão pela fé são o ponto de partida para toda renovação nas pessoas e culturas”. (p. 81). Acreditamos no perdão do pecados. (Oitavo capítulo do livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas, São Paulo, 1992).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Cremos na Cruz de Cristo - Cap 7 do livro de Stokes

Segundo Stokes, a cruz de Cristo deve sempre ser analisada em comparação com a nossa preciosidade para Deus e as nossas falhas. A cruz declara ao mesmo tempo nossa importância e nossa necessidade diante de Cristo. Pelo fato de sermos seres religiosos, sempre ansiamos pelo encontro do sentido duradouro em face do pecado e da morte. Essa ânsia demonstra nossa convicção de que fomos feitos para Deus e só se acha descanso n’Ele. Há, em todo ser humano, uma inegável sede de Deus. De fato, todas as coisas que tentam nos preencher frente ao nosso anseio por sentido, falham. Por exemplo, a natureza com suas belezas e suas ameaças não dá conta de preencher o ser humano. De igual modo, nós seres humanos não conseguimos resolver nossos eternos problemas. A história não perdoa nossos pecados e não nos salva. Sendo assim, “perdidos no mundo ao nosso redor, perdidos nos tenebrosos corredores da história, perdidos em nós mesmos, temos sede de Deus”. (p. 69). É nesse ponto, segundo Stokes, que ocorre um elemento estranho: “começamos a compreender que Deus quer falar conosco”. (p. 69). Assim aconteceu com os patriarcas, com Moisés, com os profetas. Entretanto, doutra forma, Deus resolveu falar diferente ao mundo, por intermédio de Jesus, reconciliando o mundo. (2 Coríntios 5.19). “A reconciliação está bem no centro do cristianismo”. (p. 70). Diante dessas argumentações, Stokes faz a seguinte pergunta: Qual é o significado da cruz? E afirma que a igreja cristã nunca conseguiu dar um significado para essa questão. Segundo este mesmo autor, nós, metodistas, identificamos o significado da cruz em seis fatos redentores: 1. A iniciativa divina: Deus, em Cristo, toma a iniciativa de amar-nos. Através da cruz, compreendemos que Deus nos vê primeiro. Como bem atesta Romanos 5.8: “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. 2. Deus leva o pecado a sério: Quando elevamos os olhos para Cristo crucificado, percebemos a natureza terrível das nossas falhas. Dessa forma, somos convidados ao arrependimento que nos move, novamente, em direção a Deus. 3. Somente Deus pode salvar: Somente Deus tem o poder de perdoar pecados e salvar da morte. “A cruz significa que Deus penetrou na nossa humanidade para fazer por nós aquilo que nós não pudemos fazer por nós mesmos”. (p. 71). Resta-nos, portanto, somente colocar nossa vida em confiança perante Deus. 4. Não há limites para o amor de Deus: Deus faz qualquer coisa por nós. Ora, a cruz proclama que Deus não reteve nada de si, inclusive doando seu filho pelo mundo. A cruz é o “sinal eterno da infalível prontidão do Pai para nos perdoar e nos unir a Ele”. (p. 71). 5. Deus sofre para dar a vida: a cruz é o preço da nossa salvação mediante o sofrimento de Deus. De fato, Deus tomou sobre si o sofrimento da humanidade com o propósito de elevá-la. “Ele sabia que a vida não era assim tão simples. Havia feridas a serem curadas, pessoas tristes a serem confortadas, pecadores a serem perdoados e temores a serem vencidos”. (p. 72). Assim, a cruz é o símbolo desse amor perfeito, altruísta e sofredor de Deus por nós. 6. A cruz: ontem, hoje e sempre: Deus foi, é e sempre será revelado ao mundo através da cruz de Cristo. Sempre que o pecado e a tristeza florescem a crucificação é, de alguma forma, reencenada para que nos aproximemos de Deus em santa comunhão. E finalmente, Stokes considera que a cruz se alinha ao sacramento da Santa Ceia. “Na sua celebração, metodistas se reúnem em volta da mesa do Senhor para relembrar o que Jesus fez na cruz”. (p. 73). A Ceia do Senhor é uma ocasião de profundo significado onde vem a nossa memória o agir de Deus em nosso favor para nos redimir e nos refazer o viver criativo. De fato, nós metodistas acreditamos na cruz! (Sétimo capítulo do livro As Crenças Fundamentais dos Metodistas, São Paulo, 1992).

Revista Foco da Fé

Com alegria, quero compartilhar com os amigos mais uma publicação. Agradeço aos autores e aos co-organizadores pela parceria. Valeu Mois...