segunda-feira, 31 de outubro de 2011

À propósito dos 494 anos da Reforma

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Rm. 6. 23. Ao lermos esse verso, precisamos perguntar: o que é pecado? Ora, sem delongas, pecado é toda e qualquer ação que contraria a justiça e o amor de Deus. O verso 18 de Romanos 1 afirma: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”. Assim, pecado não se refere a questões da vida cotidiana, mas sim a dimensões onde o ser humano se apossa da verdade com base na injustiça. As pessoas que assim agem mudam a glória de Deus e acabam sendo entregues à morte. Ora, dessa forma, a tribulação virá sobre os homens que desobedecem a verdade e praticam a injustiça, conforme: Rm 2.8.
Isso implica dizer que todos estamos imersos em uma dimensão de pecado, como está escrito: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer”. Rm. 3.10 a 12. Isso concorda com verso 23 do mesmo capítulo: “Todos pecaram e carecem da gloria de Deus”. Dessa forma, somente é possível uma justificação por intermédio da graça, mediante a fé. É simples assim. Trocando em miúdos: 1. Somos pecadores e ninguém escapa; 2. Essa nossa condição muda a glória de Deus; 3. Somos salvos dessa condição pela justificação; 4. A justificação é gratuita; 5. Ela é oferecida de graça; 6. Por intermédio da fé; 7. Pela redenção que há em Cristo Jesus. A Reforma Protestante que hoje é celebrada por nós, convida-nos a novamente refletirmos sobre esse grandioso presente: a graça de Deus. Além disso, a Reforma é a confirmação doutrinária de que “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Rm. 5.1. Há uma reconciliação. Não ficamos á mercê dos nossos próprios instintos ou certezas, mas dependentes da graça de Deus, e isso é bom. E nesse ponto, fico com as palavras de Wesley: “Se então os pecadores encontram favor de Deus é ‘por graça sobre graça!’ Se Deus ainda condescende em derramar bênçãos sobre nós, sendo a salvação a maior delas, que podemos dizer a respeito dessas coisas senão: ‘Graças a Deus por seu dom indizível’”, conforme relatado no sermão: “Salvação pela fé”.

sábado, 22 de outubro de 2011

CIdadã Honorária???

Acompanhando nesta sexta-feira, 21/10/2011, os noticiários que veiculavam nas rádios difusoras, fiquei mais uma vez embasbacado. Pois é, o gabinete da presidência da Assembleia Legislativa de Minas foi tomado nessa última quinta-feira por um clima de micareta. Literalmente, “rolou a festa”. É que a cantora baiana Ivete Sangalo recebeu o título de cidadã honorária do estado de Minas Gerais. O pedido foi requerido pelo deputado estadual Bruno Siqueira, que têm por principal colégio eleitoral – eleitoreiro? – a cidade de Juiz de Fora. Além do referido deputado, outros foram ao gabinete da presidência para, pelo menos, vislumbrarem de perto a beleza da cantora e constatar “o quê que a baiana tem”. Simpaticíssima, Ivete distribuiu beijos e autógrafos aos nobilíssimos homens do poder público, bem como a seus respectivos familiares. Imaginem vocês que o deputado Carlin Moura do PC do B postou em seu Twitter as imagens da, agora, honrada cidadã mineira. O deputado Adelmo Carneiro do PT discursou num tom de tietagem e assim, sucessivamente, outros deputados se desmancharam em elogios. E estavam presentes também os membros da Câmara Municipal, inclusive seu presidente Léo Burguês do PSDB. Mais uma vez, revelou-se a capacidade política de nossos governantes que insistem em manter a lógica romana bem sucedida de pão e circo. A questão ressaltada pela maioria da casa tinha por tônus a ideia de que o título à cantora baiana pode fomentar mais ainda o turismo de Minas. Inclusive o próprio deputado Bruno Siqueira justificou o pedido nessa mesma linha de raciocínio, dizendo que a cantora divulga o estado e “ajuda” as economias das cidades, principalmente as pequenas. Em suas palavras: “Ivete esteve em Juiz de Fora, minha cidade natal, e mesmo sendo uma cidade de tamanho médio, foi grande a movimentação de pessoas, vindo de todas as regiões”. Preciso concordar com o Siqueira, pois realmente as nossas belezas naturais e culturais – rios, cachoeiras, lagos, serras, vales, montanhas, cidades históricas, cidades modernas, queijo, pão de queijo, culinária, brejeirices, músicas, músicos – deixam a desejar. É, realmente, precisamos da Ivete para alavancar o turismo. Assim, o pedido do deputado foi encaminhado pela Comissão de Cultura e sancionado pelo governador Anastasia. Ora, prezados leitores, a minha indignação se dá por um motivo que considero simplesmente moral. É que a constituição de uma cidade se dá mediante gente real que se esmera cotidianamente com o intuito de sobreviver e manter o estamento social. Na minha humilde concepção, é um absurdo sem proporções o encaminhamento de pedidos, tais como este aqui referido, de gente que nada tem a ver com a cultura do local. Não tenho absolutamente nada contra a Ivete Sangalo, mas, cá pra nós, a cantora não é melhor do que nenhum cidadão de nossa Gerais. Eu sei que artistas, em geral, são muito preocupados com a imagem que veiculam na mídia. Aliás, artistas vivem da imagem. Mas, aceitar um título como este oferecido é, no mínimo, um absurdo, principalmente porque o título deveria ser conferido a quem de mérito relevante e não a quem de representação. Um título de cidadão honorário deveria ser entregue a pessoas que tivessem relevância política para a cidade, estado ou nação, mas ao contrário, é dado segundo interesses subjetivos dos futuros candidatos em futuras eleições. De qualquer forma, para mim, falta bom senso de quem aceita tais homenagens. Ademais, com tantos problemas em tantas esferas sociais no conjunto do nosso estado, é cruel saber que nossos governantes, pífios em sua maioria, gastam tempo e dinheiro público para encaminhamentos como este. Então, cidadãos como eu ficam com uma pulga atrás da orelha e com uma pergunta sempre inquietante: o que está por trás dessa indicação? Infelizmente, não consigo ver outra coisa que os fins eleitoreiros. Ao final das contas, pelo menos o Siqueira passa do anonimato em sua bancada para a referência no imaginário coletivo. Hoje, Minas Gerais sabe quem é o dito “cidadão” que pediu título para a “cidadã”. Faço desse texto um manifesto político indignado. E não pensem que estou chateado ou mal resolvido. É que diante de besteiras como essa que eu ouvi e constatei, não consigo me conter. Quero a democracia e não a midiocracia! Quero a integridade e não a mediocridade. Portanto, com a finalidade de ser bastante prático, quero convidar todos a refletirem sobre as entregas de títulos como este a pessoas sem significado real. Aliás, em minha concepção, a pessoa sabe se ela merece ou não aquele título. Em muitos casos, se a pessoa for de notável presença no todo social ou possua envergadura política, social e econômica, tudo bem, não vamos ser radicais; mas, se por outro lado, a pessoa não tiver coisa alguma a ver com aquela cidade ou estado, é melhor se recolher a um canto qualquer e aguardar em silêncio a passagem dessa tentação de ser exaltado diante de outros. Seria sensato para estes rejeitarem concessões como essas. Ao final, com a finalidade de apaziguar a minha alma, fica para mim a seguinte frase de Weber: “O político deve ter: paixão por sua causa; ética em sua responsabilidade; mesura em suas atuações”. Na rede da filosofia político, me deito, e espero, sim, espero, hei de esperar... pelos homens simples que farão coisas simples sem segundas intenções.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

SUBVERSÃO
Explodiu em minha mente a constatação de que os ensinamentos de Jesus, especialmente as suas parábolas, possuem um grande teor subversivo. Eu sei que essa palavra possui uma forte carga de preconceitos. É que ela condiciona a mente a pensar em coisas que são negativas em sua essência. Mas, seguindo aqui um conselho de Stanley Jones, “as palavras, assim como as pessoas, precisam ser resgatadas”. Assim, vou tentar resgatar o sentido dessa palavra e pensar na espiritualidade subversiva e protestante, em si. Subversão é uma palavra polissêmica. Ela pode ser interpretada a partir de diversos prismas. Subversão tem a ver com movimentações intestinais que escatologicamente se impõem. É uma dimensão que ocorre sem que haja, necessariamente, uma causa. Subversão é acontecimento extático. É a ação da água represada que busca caminhos alternativos. É o mofo na parede ou no muro. É o esguicho transtornador que insiste em se lançar ao ar, num afã libertário. É a semente debaixo da terra que insiste, teimosamente, a buscar um lugar ao sol. Basicamente, subversão tem a ver com verter por baixo; fazer ruir estruturas; destruir conceitos; superar paradigmas. Quem me alertou sobre o teor subversivo da fé foi Eugene Peterson. Nos seus livros: A Espiritualidade Subversiva e O Pastor Contemplativo, ele ressalta a natureza da subversão como um princípio da espiritualidade humana coligada à ideia de Reino de Deus. Aliás, não há dimensão mais subversiva do que a do Reino de Deus. Essa nossa constatação se dá porque a natureza do Reino está ligada a algumas coisas que nada tem a ver com o mundo real. Nessa linha de raciocínio, todas as questões inerentes ao Reino de Deus acabam acontecendo nas entranhas estranhas da espiritualidade humana. A fé é a mola mestra da subversão. Fé é a qualidade da atitude que todos assumimos frente ao desconhecido. Uma fé subversiva não possui limites, pois não se condiciona a estruturas ou institucionalizações. Ela vai além e provoca ações e reações que mexem e remexem com as pessoas dadas a tranqüilidade e conforto. A subversão provoca pessoas a agirem e reagirem contra estigmas e postulações pré-fixadas. O agente, contaminado pelo espírito da subversão, não tem medo, não tem culpa, não se ressente, não se prostra, não se enquadra, subverte, independente das lógicas e dos mandos e desmandos. A fé é salto no escuro, já nos advertiu Kierkegaard no estágio religioso de sua filosofia existencial que critica o idealismo, principalmente o hegeliano, e salto no escuro é subversão sempre seguindo a lógica: “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se”, conforme este mesmo autor. Acho que o que vale a pena é a elaboração de temáticas que buscam elaborar jocosamente uma série de argumentos que criticam a ordem estabelecida e as lógicas do poder. Ora, a subversão ri daquilo que está evidente e reelabora a interpretação do mundo e das suas armações pelos caminhos inimagináveis de uma outra lógica. Realmente, os últimos serão os primeiros e quem quiser ganhar, vai perder. Portanto, trata-se de um processo ironicamente criativo, extremamente criativo. Somente os criativos podem se considerar subversivos. Jesus, inclusive admoestou seus discípulos a serem símplices como as pombas e astutos como as serpentes, conforme Mateus 10.16. Assim, a opção que se impõe a nós é a de subvertermos. Ora, não se trata de perverter, mas subverter: pensar, falar e agir diferente, segundo a lógica do que é atribuído a Che Guevara: Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás! Ora, é realmente preciso acolher essa síntese marcada pela postura firme, pela serenidade e pela ternura sempre. Assim, pode-se empreender uma guerra e até estabelecer o posicionamento das armas, mas não se pode perder a serenidade. É o estabelecimento dialético entre o lúdico e o lúcido. Dessa forma, os olhos demonstram a firmeza e a ternura. A convicção e a tranqüilidade. A iluminação de um futuro antecipado frente a um presente complexo. Nesse estágio de iluminação, tranqüilidade e consistência, coisas e fatos podem acontecer e ninguém pode prever, pois não há afeição plena ao poder. O subversivo possui um encantamento pelas pessoas e luta contra sistemas e instituições. Acho que essa é a lógica abraçada e empenhada anteriormente pelos reformadores protestantes. Subversão é o que eu abraço nesse momento. Seja ela bem-vinda em minha alma.

Revista Foco da Fé

Com alegria, quero compartilhar com os amigos mais uma publicação. Agradeço aos autores e aos co-organizadores pela parceria. Valeu Mois...