quinta-feira, 30 de junho de 2011

Se excluírem meus(minhas) irmãos(ãs), terão que me excluir também!


Desde que assumi o desafio de acompanhar os irmãos e irmãs de Belém do Pará tive a impressão de estar numa empreitada evangélica cuja tônica seria, tão somente, a da evidenciação dos valores que acredito e prego. Ao contrário do que muitos colegas disseram, não entrei nessa sem saber o que realmente estava acontecendo. Eu entrei, sabendo de fato, sobre cada minúcia. Um mote me perseguiu naquele momento de decisão: “tua luta é minha luta; teu problema é o meu problema; tua vitória é minha vitória; tua derrota é a minha derrota”. É claro que gostaria de ficar com as três dimensões anteriores. Entretanto, quero afirmar que a derrota ou exclusão de membros da igreja metodista de Belém se desenha estranhamente. Entretanto, expresso com veemência tácita: se excluírem meus irmãos e minhas irmãs, terão que me excluir também.
Ora, é muito fácil acusar os membros de uma igreja de rebeldes. É muito fácil provocar o abuso espiritual sobre gente que faz parte da nossa recente história metodista em terras brasileiras. Digo que isso tem um nome: covardia!
Li em blogs e ouvi muitos comentários absurdos de gente que não se conscientizou do que é e do que faz. Fiquei enojado com o grau de maniqueísmo presente em pessoas que existem tão somente para amarem a Deus e ao próximo como a si. O que li e ouvi foram distúrbios mesquinhos marcados pela lógica do exclusivismo religioso, típico de uma arena romana. Realmente, a estrutura da igreja metodista está mais próxima do papismo do que da reforma protestante.
Se por um acaso, um lampejo de sensatez chamar alguns à ordem, descobrir-se-á que toda e qualquer hierarquia foi destruída pela certeza de que Deus está em todos os lugares, pois que é vento que sopra onde quer, não só na igreja metodista ou nas chamadas evangélicas, mas onde deseja. Se Deus quer atuar aqui ou acolá, o problema é d´Ele, não nosso. E sabemos bem que Deus está agindo no mundo sem a nossa pretensa santidade.
Eu mesmo tenho visto Deus agir de formas inusitadas. E sempre foi assim. Pedro teve que comer coisas que ele não queria porque Deus purificou. Mas muitos santos atuais não querem, sequer, considerar a visão. Mesmo que Deus diga que a coisa é boa, eles a rejeitarão usando, inclusive, o nome daquele que foi acusado de maioral dos demônios.
É triste perceber pastores se manifestando de forma agressiva e boçal sem o mínimo de critério e sem conhecimento de causa. Mas eu sei que a verdade vem à tona, cedo ou tarde. Ela vem. Sim, vem. Espero que venha...
Assim, absorto em um turbilhão de comentários maliciosos, clamo aulicamente por justiça. O sofrimento pode ser até aceito e assimilado, mas o sofrimento provocado por líderes religiosos tem que ser extirpado urgentemente. Por isso, o sofrimento dos meus irmãos e das minhas irmãs de Belém do Pará, tanto para a comunidade Nova Aurora ou para os que comungam na central, provocado por pessoas que existem para abençoar, somente abençoar, não pode ser por mim aceito. Persigo aqui uma lógica existente na cultura mineira: “Se mexer com a minha família, mexe comigo”. Mexendo com eles, mexem comigo. Se eles(as) forem excluídos(as), que me excluam também. A mesma coragem que líderes possuem para decidir a vida dos leigos precisa ser demonstrada a pastores, na mesma moeda, na mesma medida.
Diriam os práticos, diante dessa minha argumentação: “se não está satisfeito, cai fora”. Com prazer o faria se não existissem tantas boas pessoas metodistas nesse Brasil de meu Deus. Não fico por causa de questão subsidiária, tampouco por segurança econômica. Por graça de Deus não sou como alguns que dependem da igreja para sobreviver. Eu sei de muitos que estão representando papéis para permanecerem em suas posições, mas o coração está muito longe daquilo que dizem ou pregam.
O que acontece com estes(as) quando colocam a cabeça no travesseiro? Duvido que haja sossego a não ser que a vida pastoral se configure no campo da indiferença.
Não quero criar contendas, mas não vou abrir mão de pensar diferente. Podem me chamar de rebelde, de feiticeiro, de aproveitador, de fazer politicagem, mas não me acusarão de duas caras. Pelo menos, falo o que penso e me exponho, doa a quem doer. Vou expor meus pontos de vistas e dou direito a todos(as) exporem os seus. Só não vitimem as pessoas em nome de uma pretensa santidade maniqueísta e exclusivista. Acho que o pastorado deve ser sempre o símbolo da unidade entre as contradições. Ter uma postura e uma convicção é fundamental para a nossa ética de convicção, mas não podemos abandonar a nossa ética de responsabilidade para com os outros.
Enfim, em todo esse processo somente me importei com algumas pessoas e aprendi a amá-las. Poderiam ser pessoas de qualquer outro lugar. Belém é uma terra esquecida pela igreja metodista. O que existe lá é muito pouco. Aliás, um diálogo amigável e respeitoso entre as partes poderia resolver o problema. Isso é muito possível desde que as pessoas não sejam obrigadas a concordar com todas as coisas, afinal de contas, a liberdade é um valor incomensurável para a vida cristã.
Que fique evidente o fato de que a mesma coragem para exclusão de membros leigos seja também praticada aos membros clérigos. Acho que isso é, no mínimo, agir com integridade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

É hora de Desistir!


Quando nos cansamos, a alternativa é uma: desistir. Assim, quero nesse singelo texto fazer a minha lista de desistência

1. Desisto de querer controlar tudo em minha vida para confiar bem mais na graça maravilhosa de Deus;
2. Desisto de viver a vida na linha da mediocridade para ser mais ativo nos relacionamentos e na influência de pessoas;
3. Desisto de achar que tudo conspira contra a minha vida e que as pessoas estão sempre falando de mim;
4. Desisto de viver uma vida cristã sem compromisso com a realidade social;
5. Desisto de achar que a minha pretensa vida santa é o que as pessoas precisam para serem melhores;
6. Desisto de querer uma igreja que seja do meu jeito para assumir o fato de que eu sou e faço a igreja;
7. Desisto de pensar que o problema da igreja é por causa daquele que não vem ou não se interessa por ela. O problema da igreja sou eu;
8. Desisto de ser mero expectador da obra de Deus para me lançar como autêntico ceifeiro na seara;
9. Desisto de achar que as músicas evangélicas são os fundamentos da minha fé. Elas me motivam, mas não são mais que motivações;
10. Desisto de perceber a igreja como uma empresa para vê-la, tão somente, como um organismo vivo formado por pessoas contraditórias como eu;
11. Desisto de viver uma vida espiritual fria e sem vigor para abraçar a experiência de um coração aquecido e de uma mente esclarecida;
12. Desisto de jogar a culpa no outro, pois a ausência de êxito de dá pela minha falta de dedicação;
13. Desisto de cargos, posições e status, pois o mais importante é o serviço na dimensão do Reino, não importa onde;
14. Desisto de orar somente pedindo para orar agradecendo;
15. Desisto de orar pedindo o amor para vivê-lo radicalmente no cotidiano;
16. Desisto de ser um membro da igreja para ser autêntico cristão no mundo;
17. Desisto de ver os milagres de Deus para crer no Deus que opera em nós tanto o querer como o efetuar;
18. Desisto de ir à igreja por obrigação para ir com alegria;
19. Desisto de criticar as pessoas para estabelecer uma autocrítica;
20. Desisto de abraçar meu ego para ser mais solícito e altruísta;
21. Desisto, enfim, de desistir, pois quero continuamente renascer para a esperança. Cristo me ajudando, me motivando, me agraciando. Assim seja para com todos nós.

Moisés Coppe.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Não vamos deixar pessoa alguma para trás

Por mais que todos nós lutemos contra a estrutura de pensamento maniqueísta – que divide o mundo entre o bem e o mal –, sempre nos debatemos no cotidiano com essa tônica em nossas discussões e falácias. Invariavelmente, buscamos separar ovelhas de bodes e assim, quem sabe, estabelecermos diferenças em relação a si e ao outro.
Entretanto, agir dessa forma somente provoca mais cisões e separações. De alguma forma, precisamos compreender que não há uma luta entre bem e mal, mas sim, uma luta entre princípios, pois como bem sabemos, nós pensamos diferente em relação a quase todos os temas inerentes à vida. E é bom que seja assim.
Numa modernidade como a nossa, quem sabe líquida, para usar aqui a expressão de Zygmunt Bauman, fechamentos de ideias não cabem. Embora seja evidente o fato de que muitas comunidades procuram determinar zelosamente seus limites, compreendo que o campo das ágoras continua a ser o terreno fértil onde as possibilidades mais criativas podem surgir. E elas surgem dos relacionamentos e da boa resolução destes. Por isso, acho que o melhor caminho é sempre a harmonização dos sentimentos, quando possível, é claro.
Ora, todos somos sínteses de contradições. Pessoa alguma pode ab-rogar o direito de ser pura ou isenta de paradoxos. Pessoa assim não existe e todos nós sabemos disso. Então, como sínteses de contradições, pendulamos entre as paixões e as razões e, muitas vezes, nos perdemos em ambas. Por isso, não concordo com as argumentações que polarizam as pessoas, sendo que sempre é mais sensato polarizar as ideias. Digo isso porque recentemente passei por uma situação de julgamento das minhas ideias e posturas. Claro que as ideias e posturas tinham a ver com pessoas. Entretanto, em algum momento as paixões falaram mais alto e as pessoas passaram a se ferir com palavras e com comportamentos. Eu, particularmente, quero afirmar meu compromisso com as pessoas e confirmar que na situação em que todos nós estamos envolvidos não há vencedores. Todos nós perdemos, infelizmente. Quero afirmar que em todo tempo em que estivemos atentos à nossa questão de apoio aos belenenses metodistas sempre entendi que era uma luta dos irmãos e das irmãs confessantes. Não era eu sozinho, mas todos nós que amamos essa igreja. Portanto, em nenhum momento me vi como solução ou salvador da pátria. Quem sou eu pra ambicionar isso? Um mero pastor que gosta de sê-lo. Eu, mesmo depois do veredito da comissão de disciplina, estou bem, somente preocupado com os rumos das minhas irmãs e dos meus irmãos da igreja metodista em Belém.
Agora, não é hora de nos engalfinharmos e nos debatermos em sentimentos difusos. Vamos aquietar o coração e continuar a nossa luta contra as hostes das ideias equivocadas, sem perder a ternura pelos outros. Nessa perspectiva, não lanço nenhum tipo de crítica aos colegas pastores que participaram da comissão de disciplina. Sinceramente, são meus amigos que, em outros momentos, me pastorearam. Entretanto, neste momento, foram passageiros em um processo que não criaram, mas precisavam salvaguardar de alguma forma. Tiveram razões para isso. Como pastor, eu sei que eles estavam aplicando a disciplina a eles também. Aprendi isso com um autor norte-americano chamado Eugene Peterson. Ele sempre disse que quando um pastor cai, todos caem com ele. Quando um pastor peca, todos pecam com ele. Quando um pastor é disciplinado, todos o são com ele, e assim por diante. Acho que ele tem razão.
Nas letras do Hino 293 – Grande Amor:
Ó Senhor, não te separes do rebanho terrenal,
Une a igreja estreitamente, dá-lhe vida fraternal;
Abençoa todo crente, ilumina-lhe o andar,
E que todos se comprazam em teu nome proclamar.


Eu ainda acredito que é por intermédio do amor responsável que todos nós poderemos fazer diferença em nossa vida e em nossa igreja, o Senhor nos ajudando.
Assim, pensando em todo esse processo, acho que agora é hora de nos recolhermos à caverna com o intuito de nos sararmos ou de sararmos uns aos outros. Essa é hora de aliviarmos as tensões e estendermos os nossos braços em direção ao outro, mesmo o outro que pensa opostamente diferente. Não é essa a nossa causa?
Continuaremos a lutar pelo que acreditamos, mas não vamos deixar pessoa alguma para trás.
Abraços fraternos a todos.
Moisés Abdon Coppe

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...