sábado, 14 de maio de 2011

Considerações aos Metodistas Brasileiros


Juiz de Fora, Páscoa de 2011.



Aos metodistas brasileiros,

Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando com Deus.
Gamaliel – Atos 5. 38-39


Essa circunstância, portanto, não é uma desculpa adequada para não reconhecer a obra de Deus; especialmente se consideramos que sempre aprouve a Deus realizar alguma grande obra sobre a terra, quando mesmo nos tempos mais remotos, ele saiu relativamente do modo comum; seja para excitar a atenção de um grande número de pessoas que, de outra forma, poderiam não nota-lo, seja para separar o orgulhoso e soberbo de coração daqueles de espírito humilde e singelo; os primeiros, conforme ele previu, confiando em sua própria sabedoria, tropeçariam naquela pedra e se quebrariam; ao passo que os últimos, inquirindo com sinceridade, logo reconheceriam que a obra era de Deus.
João Wesley


Prezados irmãos e irmãs,


Ao longo de 18 anos de dedicação exclusiva à Igreja Metodista, passando pela primeira e segunda designação junto às Igrejas Metodistas de Conselheiro Lafaiete – MG e Vila Galvão - SP, tendo por primeira nomeação a Igreja Metodista de Vila Planalto – SBC, seguindo-se as nomeações para as Igrejas Metodistas em Goiabeiras – ES, Central em Belo Horizonte, Benfica em Juiz de Fora, Pastoral do Instituto Metodista Granbery, Jardinópolis, e atualmente Bela Aurora, todas essas seis últimas ligadas à IV Região, sendo extremamente grato a Deus pela oportunidade de servi-lo na dimensão do Reino nestas distintas comunidades de fé, sob a orientação do Espírito Santo, sempre colocando à disposição meus dons e talentos para a equiparação do corpo de Cristo, me apresento aos metodistas brasileiros, na condição de membro da Igreja Metodista, para tecer algumas considerações sobre a dinâmica de acolhimento de irmãos e irmãs metodistas da cidade de Belém do Pará, região Norte do país.

Sei que a situação que envolveu esse acolhimento é inusitada e, talvez, tenha ocasionado alguns constrangimentos para muitas pessoas, mas, por uma razão óbvia, aprendi desde cedo, os caminhos inerentes à mística do ministério pastoral e fui ensinado pelos meus pastores o significado do apoio e acolhimento ao diferente, mesmo o muito diferente. A máxima “Pensar e deixar pensar”, tão fundamental para a dinâmica de uma Igreja conciliar, ou que se pretende conciliar, máxima esta exorcizada por muitos na atualidade, sempre serviu, pelo menos na concepção de muitos metodistas, como um paradigma para a fundamentação relacional, tão cara aos princípios mais basilares do Evangelho.

Aprendi, também, a compreender as pessoas a partir de seus pontos de vistas. Como lembra-nos Leonardo Boff: “Todo ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. (A águia e a galinha. Petrópolis: Vozes, 2008). Nessa lógica, sempre parti da premissa que acordos e conciliações são possíveis, mesmo sabendo que essas possibilidades perpassam os caminhos ásperos e sedimentados da discussão. Os beócios preferem o caminho da ditadura e da determinação, muitas vezes traduzida pela metáfora da “visão”.

Aprendi, por fim, a respeitar os meus líderes, mesmo quando não concordava com eles. Sofri, muitas vezes, fazendo coisas que nada tinham a ver comigo. Entretanto, não quero mais fazer ou realizar coisas que não são compatíveis com o que penso em relação ao Evangelho. O abuso de poder, por parte de líderes não pode ser acolhido no coração de quem quer que seja, principalmente das pessoas ligadas ao povo chamado metodista.

O Evangelho me incita a viver outra lógica, marcada por ideais tais como: a. felicidade como resultante da perseguição por causa da justiça; b. ser último para ser primeiro; c. humilhar-se para ser exaltado; d. se tornar como criança ao invés de ser adulto na busca pelo poder; e. amar aos inimigos ao invés de persegui-los; e. perder para ganhar. Acontece que, por uma razão que me é estranha, esses princípios somente são cobrados daqueles que abraçam a fé evangélica e se dedicam voluntariamente aos princípios desta ou daquela denominação, enquanto que os líderes ficam num patamar diferenciado. Para estes, o Evangelho somente serve para os outros. Para mim, é inconcebível a ideia de um(a) pastor(a) ou bispo(a) não pedir perdão, quando de um erro ou palavra mal posta, à um(a) irmão(ã) em Cristo.

Tenho consciência de que na atualidade, líderes, visando a tranquilidade do arraial impõem sua visão e se afirmam diante da obediência dos liderados. Não poucos(as) pastores(as) têm vociferado em seus púlpitos palavras de abuso, determinando uma obediência muda para que os membros da igreja não se tornem feiticeiros, numa grotesca e fundamentalista alusão a 1 Samuel 15.23. Ao contrário disso, sempre busquei o caminho da elegância e da educação, dando minha resposta, tão somente, através da dedicação e do serviço, com os olhos fitos nos princípios da justiça, mesmo quando era derrotado em decisões conciliares ou em qualquer tipo de reunião. A vontade alheia sempre foi por mim respeitada. Aliás, somente consigo compreender a missão na Igreja e a teologia, ou o que se requer dela, na sua forma encarnada, como práxis, diaconia, serviço, conciliações, justiça e Reino. Sempre me esmerei no intuito de ser realmente pastor. De ser um companheiro e amigo nas horas das alegrias e também das dificuldades.

Pastoreio, assim, as ovelhas do rebanho que não é meu, é de Deus. Visito-as e acolho-as em suas possíveis crises existenciais.
Por esses motivos apresentados, nunca me imiscuí de acolher pessoas que se achegavam com o coração aberto para a transformação ou a busca por uma nova vida, uma nova aurora. Inclusive, desde o momento que aceitei o desafio de pastorear a Igreja Metodista de Bela Aurora, tive a oportunidade de acolher irmãos e irmãs de outras localidades da própria cidade de Juiz de Fora. Acolhi-os com amor, entretanto, na contramão de tudo o que aprendi, ouvi de alguns pastores expressões tais como: “Pode levar. Deus tira um e manda dez”, ou então: “Só quero aqui os que estão na visão”. Muitas vezes, tais expressões vinham acompanhadas da frase: “O Bispo deu liberdade pra gente fazer assim”, frases que expressam uma particularidade que nunca considerei e não vou considerar porque é pífia.
Dessa forma acolhi 42 membros oriundos de outras Igrejas Metodistas da cidade de Juiz de Fora e um membro da cidade de São Paulo, que no passado fora pastor metodista. Todos, muito queridos por mim. Hoje, sou grato a Deus pela oportunidade de ter essas pessoas ao meu lado. Toda essa situação fez de Bela Aurora uma Igreja atípica, bastante similar a outras comunidades presentes no Brasil. Inclusive, recentemente ouvi de algumas pessoas, cujos nomes eu não citarei, que a Igreja Metodista de Bela Aurora se tornou uma Igreja de pessoas decepcionadas ou descontentes. Uma Igreja de rebeldes. Palavras que repudio embora reconheça a veracidade da constatação. Repudio porque nesses comentários estão as verdades sem o amor cristão. Mas, por outro lado, reconheço a veracidade porque acolhi ao longo desse tempo pessoas que ficaram tristes por causa dos rumos que seus pastores deram ao kerigma cristão. Infelizmente, essas pessoas foram deslocadas de seus respectivos nichos eclesiásticos por pressão, coação, opressão, abuso religioso e indiferença dos pastores e pastoras. Paro por aqui, pois a lista ficaria elástica demais. Felizmente, estas pessoas não deixaram de ser metodistas. Elas têm sido pastoreadas por mim, até que o Senhor da vida me permita fazê-lo. E faço isso com muito esmero e dedicação, com a plena visualização de minhas particularidades, contradições e deficiências. Tenho aprendido a ser e me revelar como realmente sou, sem medo ou hipocrisia.

Confesso, entretanto, que gostaria que fosse diferente. Eu queria que estas pessoas continuassem perpetuando a alegria de celebrar junto aos(às) seus(suas) antigos(as) amigos(as) nas suas respectivas Igrejas. Esse afastamento provocou lutos outros que ainda estão sendo elaborados. Quero somente lembrar que as causas que levaram esses irmãos ao afastamento são as seguintes:

1. Uso indiscriminado de campanhas financeiras travestidas de campanhas de vitória através da oração;

2. Excesso de pregadores de distintas denominações nos púlpitos de nossas Igrejas;

3. Obrigatoriedade de participação no encontro metodista do pacto ou encontro com Deus, para exercimento de funções junto a Igreja;

4. Aceitação indiscriminada de toda e qualquer proposta ou “visão” dos(as) pastores(as). Sobre este último aspecto, é curioso notar que na atualidade, a discordância dos leigos quanto às ideias e formas dos pastores tem a ver com rebeldia. Os chamados “rebeldes” são encaminhados para a “santa inquisição metodista”. O princípio do sacerdócio universal de todos os crentes foi completamente abolido de muitas igrejas.

Ora, o problema do autoritarismo na Igreja por parte das ordens sacerdotais não é novo e já foi denunciado por Martinho Lutero. Em suas próprias palavras: “Pois daí vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Confiam na unção corporal pela qual suas mãos são consagradas e, depois, na tonsura e na veste. Não só creem que são mais que os cristãos leigos, que são ungidos com o Espírito Santo, mas quase os consideram como cachorros indignos de serem enumerados juntamente com eles na Igreja. Por isso, atrevem-se a mandar, exigir, ameaçar, pressionar e espremer em todo o sentido. Resumindo: o sacramento da ordem foi e continua sendo uma maquinação belíssima para consolidar todas as monstruosidades que se cometeram e ainda se cometem na Igreja. Aqui desaparece a fraternidade cristã, aqui os pastores se transformam em lobos, os servos em tiranos, os eclesiásticos em mais que mundanos”. (Do Cativeiro Babilônico da Igreja. In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1989, vol. 2, p. 414). Embora os(as) pastores(as) não estejam ligados(as) à ordem numa configuração sacramental, parece que se imbuem desse espírito. Ora, é evidente o fato de que existe um grande hiato eclesiológico de características medievais na Igreja atual. Numa similar linha de raciocínio, John Wesley, que num primeiro momento era extremamente zeloso, fanático e clerical para com a Igreja, após a experiência de Aldersgate, em 1738, percebeu que mais do que razões e convicções, era necessário uma busca pela dimensão soteriológica e pelo acolhimento ao outro, na dimensão do coração aquecido, em outras palavras, um coração cheio de amor e apaixonado pelas pessoas, não mais pela Igreja. Nessa perspectiva, pastores e pastoras são pessoas com funções distintas, que evidenciam no todo de seus respectivos serviços eclesiásticos, tão somente, o amor humilde aos outros. O pastor José Carlos de Souza corrobora: “Se, pelo batismo, todos os cristãos são feitos sacerdotes, não poderiam prevalecer diferenças relativas a status ou dignidade, porquanto é impossível sustentar quaisquer privilégios com base nas Escrituras ou na Igreja Antiga. A única distinção cabível repousa na diversidade de funções necessárias para que a Igreja cumpra a sua missão (cf. Rm 12 e 1 Co 12-14), porém, isso não fundamenta nenhum direito ou prerrogativa especial. A autoridade eclesiástica é serviço, assentado exclusivamente na conveniência humana e prática. A fim de evitar a desordem e o caos, a comunidade de fé escolhe aqueles que hão de exercer, em seu nome, os ofícios que, a rigor, pertencem a todos. A ordenação é apenas o rito – jamais o sacramento – pelo qual a congregação reconhece publicamente aqueles que são chamados para o cuidado pastoral e, sobretudo, para a pregação da Palavra. Contudo, a qualquer tempo, esse encargo pode ser requerido de volta, se a comunidade assim discernir”. (SOUZA, José Carlos. Leiga, Ministerial e Ecumênica. SBC: EDITEO, 2009, p. 96). Assim, somente podemos conceber o ministério pastoral na Igreja Metodista como um espelho da comunidade. As pessoas precisam se sentir representadas pelo(a) seu (sua) pastor(a). Nessa mesma linha de raciocínio, acho que não dá mais para fecharmos os olhos a essa constatação que pode alterar os rumos eclesiológicos. Torna-se imperativo a sensibilidade. Para mim, o problema eclesiológico (estrutura, episcopado, poder, governo, pastores e leigos) é o grande nó que o próximo Concílio Geral terá que desatar, se não se ater aos joguinhos inerentes às eleições dos bispos e bispas!?!?.

A propósito, tive a oportunidade de participar do último Concílio Geral e vi, ouvi, senti e, infelizmente, participei sem comungar de um dos mais atrozes momentos da história da igreja metodista em terras brasileiras. Fiquei pasmo em descobrir ali os “reais” interesses que moviam as orações e as celebrações. Eu, inclusive, tinha conversado com um bispo informando-lhe que os burburinhos pré-concílio eram terríveis e que a Igreja seria atropelada por decisões unilaterais. Sugeri até mesmo o cancelamento do Concílio, o que não foi possível. As eleições dos bispos e da bispa foram momentos de desrespeito, infâmia, discórdias, maledicência, jogo sujo... Ouvi de um bispo, em particular, o desabafo indignado em relação a pastores que, pela frente, batiam as mãos nas costas dele e por trás, queriam a sua degola.

Sempre tive posições em relação à estrutura da Igreja Metodista. Partilhei muitas com colegas pastores e pastoras. Sinalizava e clamava por mudanças, mas contava com o fato de que as coisas fossem feitas ao meio-dia e não à meia-noite. Quando percebi, junto a outros colegas, que as questões estavam tendo uma visão unilateral marcada pela injustiça e a comentários repugnantes, busquei a oposição. Decorreu disso uma série de preconceitos em relação a minha pessoa e a difamação por intermédio de várias falácias. Por exemplo, pelo fato de ter participado de uma visita a um irmão querido na cidade de Belisário, num encontro que ficou conhecido como Encontro de Belisário, recebi vários telefonemas de amigos me perguntando sobre a campanha para bispo. Espalharam que eu havia promovido o encontro para me lançar a bispo. Só se eu fosse muito burro. Se eu quisesse assim fazê-lo, iria certamente para um grande centro. Não sou de esconder as coisas. E por causa dessa falácia, meu nome figurou em uma lista nos corredores do último Concílio Regional da Igreja Metodista da IV Região, em 2009, como nome não elegível para a composição da delegação da IV Região. Por um acaso dos céus, documentos e e-mail´s caíram em minhas mãos atestando as falcatruas que ocorreram, principalmente na sala destinada à oração. Depois de ter recebido os referidos documentos, conversei com uma pessoa que participou diretamente dos fatos e ela me confirmou o acontecido. Fiquei boquiaberto.

Resolvi, então, reafirmar minha posição perante a Igreja Metodista. Posição herdada dos anos de estudos teológicos e da convivência com líderes com certos princípios éticos. Em minha concepção, existem dois tipos de homens: os que falam e os que fazem. Quero figurar entre os segundos. Chega de palavras. Quero abraçar ações que dignifiquem o ser humano.

Por estas e outras convicções de fórum estritamente pastoral, resolvi acolher os 17 irmãos e irmãs de Belém do Pará e arrola-los como membros em nossa Igreja Metodista de Bela Aurora. Informo que, além desses, ainda serão acolhidos diversos adolescentes e crianças, que ainda não professaram a fé. A abertura desse processo de acolhida se deu justamente pelo precedente que abri ao acolher o ex-pastor da Igreja Metodista que, como disse, mora em São Paulo. São todos sacerdotes. Seguiu-se, assim, a lógica de um antigo adágio mineiro: “Porteira por onde passa um boi, passa uma boiada”. Para ser mais elegante: “Por onde passa uma ovelha, passa um rebanho”, formando um novo aprisco.

Tenho a nítida clareza de que agi, insisto, num foro estritamente pastoral, numa brecha de lei canônica e numa ampla porta aberta, marcada pela (i) lógica do Evangelho de Jesus. Não fiz coisa alguma pensando em denegrir ou afrontar a imagem de quem quer que seja. Entretanto, sei que acabei apontando e denunciando o problema da autoridade, que em minha compreensão, é o calcanhar de Aquiles da Igreja atual. Ora, autoridade é fundamental para a dinâmica da práxis missionária da Igreja, mas é preciso considerar que uma autoridade somente pode ser exercida em três variáveis: pelo caminho da legalidade (que se caracteriza pela imposição da lei ou da força de coerção); pelo caminho da legitimidade (que ocorre quando uma comunidade percebe o carisma de seu líder ou pessoa responsável e legitima sua autoridade); e pelo caminho ideal, numa espécie de dialética entre legalidade e legitimidade, desde que a legitimidade seja a tônica do discurso, porque marcada pela conquista e serviço. Assim, acredito piamente que autoridade, com princípios bíblicos, é conquistada pelos caminhos relacionais na dialética de uma legalidade afirmada, posteriormente legitimada na vivência com a comunidade.

Nesse fórum pastoral, não creio ter ferido a ética. Para os que acham que a feri, pergunto: que ética? Será que alguém poderia legal e legitimamente reclamar pela ética neste momento tão complexo que vive a Igreja? Confesso que, em todo este processo, não pensei em condicionar ou ferir a ética. Ao contrário, fiz o que apontou o meu coração. Segui minhas convicções pessoais, seguindo um velho conselho de Max Weber. Aboli, por um lapso de tempo a minha ética de responsabilidade e pelo afã da ética de convicção, acolhi estes(as) irmãos(ãs) pensando no critério evangélico. Resolvi seguir um princípio apreendido nas sagradas letras que afirma: “Mas, como fomos aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens, mas a Deus, que prova os nossos corações”. 1 Tessalonicenses 2.4. Pensei cá com os meus botões que o evangelho atingiria maior tonalidade mediante o grandíssimo abraço aos irmãos de Belém.

Decorreu desse abraço a formulação de uma queixa contra a minha pessoa por parte da liderança da REMA e da igreja central de Belém. A queixa questiona minha atitude, principalmente pelo fato dos(as) irmãos(ãs), que foram acolhidos por mim, estarem em disciplina. Ora, que disciplina? A que vem arbitrariamente do púlpito? A que vem como abuso do poder? Quando percebo que alguém está se desviando dos princípios da igreja ou mesmo da fé evangélica, procuro essa pessoa, vou a casa delas. Desejo ouvi-las e conciliá-las. Como se pode estabelecer disciplina eclesiástica para membros na Igreja Metodista sem os percalços canônicos? Expliquem-me, por favor!

Informo também que nos primeiros contatos com estes(as) irmãos(ãs) acolhidos(as), ficou claro para mim a perspectiva de que eles(as) não queriam ir para Igrejas Batistas ou Igrejas Presbiterianas, entre outras, mas queriam continuar membros da Igreja Metodista. Assim, assumi o acolhimento pensando em coisas estranhas que acho, não fazem mais parte do nosso convívio eclesiástico, tais como, por exemplo: unidade, conexidade, liberdade de espírito, pastoreio, entre outras.

Informo aos irmãos que trabalhei tão somente para resguardar a unidade da Igreja. Eu sei que às vésperas de um Concílio Geral, essa minha ação pastoral pode parecer ação politica para evidenciação de minha pessoa. Tenho o coração no altar e todos os mais próximos sabem muito bem que as decisões tomadas se deram por uma estrita devoção ao Evangelho.

Na prática, todas essas ações estão fazendo surgir um ponto missionário em Belém do Pará. Um meu amigo me disse que meu erro foi declarar que se tratava de um ponto missionário. Na concepção dele, se eu tivesse dito que era uma “célula”, não haveria problemas. Eu até estou pensando em abrir “células” em Belo Horizonte, em Vitória e onde estiverem metodistas decepcionados com os rumos da Igreja. Aliás, sobre este aspecto acho que vale a pena perguntar sobre que igreja que o colégio episcopal quer? Acho que o colégio deveria escrever uma carta pastoral dizendo: “queremos que os metodistas brasileiros sejam assim! Quem não concordar, sai fora”. Isso tem sido dito. Acho, sinceramente, que deveria ser escrito e posto no maravilhoso altar das cartas pastorais do colégio para a igreja.

Então, a minha ação de acolhimento, tão somente isso, não é uma ação esporádica com tonalidade puramente teórica. Como já evidenciei, o Evangelho para mim é Evangelho encarnado e, como tal, precisa ser prático seguindo a lógica do serviço. Por isso, tenho estado com o grupo mensalmente. Celebramos a Ceia do Senhor e nos apoiamos mutuamente. Pergunto-me: por que essas pessoas foram excluídas? Por que tinham que aceitar a imposição de uma visão pastoral? Por que as decisões conciliares não foram respeitadas? Por que não se pôde sentar em uma mesa para saborear uma deliciosa maniçoba ou o pato no tucupi e buscar amizades?
Mesmo diante dessas questões de ordem prática, eu estou sendo questionado em minha ação de acolhimento. Eu disse na primeira reunião da comissão de disciplina que se eu tivesse adulterado com mulheres da igreja local, ou dado um calote em estabelecimentos da cidade, ou ainda, se tivesse tido uma vida irresponsável em relação às finanças e organização da minha igreja, então eu diria estar arrependido, choraria, pediria perdão, receberia uma exortação, uma disciplina de três meses, e tudo voltaria “tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Diante da encruzilhada em que resolvi me envolver, marcada pela dicotomia entre lei e pessoas, preferi as pessoas, preferi estar ao lado dos mais enfraquecidos. Se os sentimentos dessas pessoas fossem ao menos ouvido, certamente nada disso teria acontecido. Ora, eu não criei esta situação, somente entrei nela para, quem sabe, ajudar na resolução.

Prezados(as) irmãos(ãs), teria muito a escrever ou narrar, mas sei que os(as) senhores(as) têm mais a fazer. Quero somente finalizar dizendo que não envolvi CLAM, tampouco Concílio nessa situação. Somente conversei com os membros da Igreja e ouvi seus sentimentos. Como a Igreja possui pessoas que também foram acolhidas de forma similar, o apoio foi irrestrito e, creio, unânime. Então, a decisão foi de foro estritamente pastoral, um ato de governo pastoral. Não envolvi os membros através dos mecanismos legais que estruturam a Igreja. Assim, a responsabilidade é tão somente pastoral, embora legitimamente apoiada pelos irmãos e irmãs de Bela Aurora.

Concluo, assim, esse meu breve relato, solicitando aos(às) meus(minhas) irmãos(ãs) metodistas que se manifestem contra arbitrariedades, que denunciem os abusos de poder, que reclamem pelo genuíno Evangelho de Jesus Cristo, que busquem a justiça, que digam não ao “papismo” que afronta a simplicidade do Reino que é sempre uma dimensão modesta, de pequenas ações. Ora, quem faz a Igreja é o povo, não os(as) pastores(as), os(a) bispos(a); quem dá dízimo para a manutenção da Igreja são as pessoas de coração sincero que amam a Igreja. A Igreja precisa ser ouvida. Curioso vir à minha mente uma emblemática passagem dos Evangelhos em que o Mestre de Nazaré expressa: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da Lei, ate que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. Mateus 5. 17-20.
No amor de Cristo, Senhor da Vida,

Moisés Abdon Coppe
Membro e pastor na Igreja Metodista de Bela Aurora.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Carta Aberta aos Membros da IMBA

“Metodista é quem tem o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado; quem ama o Senhor seu Deus com todo seu coração com toda a sua alma e com toda a sua mente e com todas as suas forças. Deus é a alegria em seu coração e desejo de sua alma, que clama constantemente: “A quem tenho no céu senão a Ti? Fora de ti não desejo nada na terra! Meu Deus e meu tudo. Tu és a rocha em meu coração e minha porção para sempre!”. (John Wesley. Obras. Tomo V, p. 19.)

Introdução
Indubitavelmente, o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. A marca do amor é uma marca metodista, e é ele que nos constrange a abnegação dos prazeres deste mundo no qual estamos inseridos para, na concretude dos dias, vivenciar a realidade cotidiana do amor humilde diante das pessoas. Por isso, podemos afirmar, categoricamente, que participamos do propósito de Deus para a salvação do mundo, pela dedicação amorosa e por intermédio das regras gerais que assim rezam: 1. Não praticar o mal. 2. Zelosamente, praticar o bem. 3. Atender às ordenanças de Deus. “Fundamentada nesses princípios, a Igreja confia que os metodistas preservem a sua tradição e continuem a ser reconhecidos como pessoas de vida regrada. Os metodistas são: moderados nos divertimentos; modestos no trajar; abstêmios do álcool como bebida; empenhados no combate aos vícios; observadores do Dia do Senhor, especialmente dedicado ao culto público, ao cultivo espiritual, pelo estudo da Bíblia, e ao descanso físico; observadores dos princípios da Igreja e dos meios de graça que ela oferece, participando dos ofícios divinos e da Ceia do Senhor; praticantes do jejum e da oração individual e em família; honestos em negócios; fraternais nas relações de uns com os outros; tolerantes e respeitadores das ideias e opiniões alheias; praticantes de boas obras; benfeitores dos necessitados; defensores dos oprimidos; promotores de instrução secular e religiosa; e operosos na obra de evangelização”. (Conf. Cânones, p. 48). Essas marcas metodistas se caracterizam como evidentes sinais de uma ética de responsabilidade, para usar aqui uma linguagem weberiana, a ser empenhada no cotidiano, visando, tão somente, o anúncio de um projeto de salvação que tenha por objetivo a libertação da pessoa das amarras do mundo moderno. Aliás, a dimensão da salvação é o tônus maior que nos lança aos princípios basilares da fé cristã. Como Igreja do Senhor, sinalizamos a salvação a tempo ou fora de tempo, como uma irrupção do presente visando uma vida abundante em Jesus Cristo, realidade última.
Com essas palavras iniciais, essencialmente bíblicas, pastorais e metodistas, apresento a todos os irmãos e irmãs algumas constatações oriundas desse tempo de convivência amistosa, visando a partilha de opiniões, oriundas deste momento singular em que estamos posicionando a nossa fé, e refletindo sobre o novo tempo que se abre para cada um de nós. O objetivo mais específico deste documento é proporcionar uma agenda para os anos vindouros com a finalidade de recriação da Igreja, marcada pelos dons e ministérios e por uma vivência alternativa para a realidade atual.

Sucinto Histórico
Há três anos, tenho tido o privilégio de pastorear esta comunidade com temor e tremor. Desenvolvi meu ministério nesses anos enfatizando quatro práticas pastorais: pregação, ensino, discipulado e visitas. No decorrer desses anos, vivenciamos diversas experiências significativas que marcaram nossa vida, chão e missão. Dentre elas, destaco: intercâmbios com as Igrejas Metodistas de Botafogo – RJ e Goiabeiras – ES; série de conferências com os pastores Antônio Carlos Ferrarezi, Ewander Ferreira de Macedo, Ronan Boechat, Márcio Abreu de Freitas e os bispos Nelson Luiz Campos Leite, Mariza de Freitas, Roberto Alves de Souza; acampamento em Nova Almeida;
Ao longo desse período também tive a oportunidade de participar da Coordenação Regional de Ação Missionária – COREAM e atender a todas as convocações episcopais para Concílios Regionais e Ministeriais pastorais.
Celebramos Ceias do Senhor, recebemos novos membros, batizamos muitas crianças, celebramos casamentos e realizamos ofícios fúnebres de pessoas ligadas ao bairro.



Desafios Ministeriais
No ano de 2010, nos vimos envolvidos com uma série de dificuldades para a organização ministerial, e ainda nos vemos. Acontece que, por causa da contingência da vida, nossos ciclos sociais se alteram, às vezes, vertiginosamente. Assim, as pessoas, no afã de organizarem suas vidas pessoais e familiares optam pelo afastamento de suas funções ministeriais junto à Igreja. Assim, muitos ministérios que organizam a vida eclesial tiveram que ser alterados e outros, ainda, precisam ser. Ainda bem que, para a realização da obra de Deus, não é necessário tanta burocracia. Deus age como vento, como pode como quer e onde quer (Conf. João 3), e incita-nos ao contentamento e à alegria. De qualquer forma, não podemos deixar de lado nosso compromisso com a obra, bem como nossa dedicação como membros do Corpo de Cristo e participantes do projeto salvífico de Deus.

O acolhimento aos irmãos de Belém do Pará
Nessas últimas semanas, nossa Igreja se viu envolvida em uma série de acontecimentos inusitados, oriundos de uma ação pastoral marcada pelo abraço e pelo acolhimento ao outro. Recebemos 17 novos membros em nossa Igreja, provenientes da cidade de Belém do Pará; outro estado, outra cultura, outro povo... . Essa ação provocou em todo o cenário metodista nacional uma série de discussões, compreensões e críticas as mais diversas. A partir dessa ação, a Igreja Metodista de Bela Aurora passou a fazer parte da pauta de muitas reflexões, necessárias para o presente momento, em todas as esferas da vida eclesial: local, distrital, regional e nacional.
Toda essa situação nos colocou no “olho do furacão”, por três motivos específicos. Em primeiro lugar, porque essa foi uma ação que nunca dantes acontecera no Brasil, pelo menos, não nessa proporção. Em segundo, porque ferimos alguns princípios do código de ética pastoral, contrapondo-os a outros princípios éticos, tais como amor ao próximo e respeito, que em nossa concepção, respaldam melhor o que pensamos dos legados missionários da Igreja Metodista em terras nacionais. E em último, porque acabamos sendo pechados como uma “Igreja de resistência”. Ora, essa expressão é mal posta, pois não estamos resistindo à coisa alguma. Nós estamos, tão somente, colocando em prática o que aprendemos ao longo de toda a nossa trajetória como metodistas, recriando nossa fé mediante aspectos doutrinários que se tornaram fundamentos para a vida eclesial e sempre estiveram na pauta das melhores discussões conciliares, como: unidade, conexidade, liberdade. O fato é que, neste momento, serei inquirido por uma comissão de disciplina que buscará, pelos caminhos pastorais, uma solução aprazível para o caso. Reitero a todos e todas que acolhi os irmãos e irmãs de Belém por amor a eles e por uma estrita devoção ao Evangelho.

Novas possibilidades
Entretanto, este novo tempo que se apresenta para nós é um tempo de novas possibilidades. Seguimos assim as linhas do que disse Jesus: “o que põe a mão no arado não pode olhar para trás” (Lucas 9. 62). Por isso, precisamos intensificar mais ainda as nossas ações e o nosso compromisso com o Senhor da vida. Nós temos que nos apresentar ao mundo como a possibilidade de nova vida. Aliás, a nossa nova vida precisa ser o elemento crucial que vai ressignificar o contexto no qual estamos inseridos. O nosso cristianismo não pode ser uma estrutura marcada somente pela teoria, mas primordialmente por nosso compromisso. É o nosso compromisso amoroso, melhor dizendo, comprometimento com a obra, que pode mostrar para as pessoas a qualidade de nossa fé, vida e missão. Resumindo: assim como Deus se apresenta a nós, graciosamente, para nos amparar e nos abençoar por exclusiva graça e dedicação voluntária, nós nos colocamos também em dedicação voluntária para com o próximo, para com as pessoas. Isso se dá de duas maneiras: no cotidiano, com nosso tratamento educado e carinhoso junto aos nossos familiares, principalmente, e às pessoas que aparecem vez por outra ou cruzam os nossos caminhos; e na vida congregacional, quando nos reunimos com pessoas que possuem o mesmo paradigma e a mesma utopia que nós. É na vivência comunitária que precisamos nos ater mais com o intuito de celebrarmos a Deus com intensidade de coração e espiritualidade viva. Sobre este aspecto, quero ressaltar o quão importante é congregarmos continuamente e experimentarmos o amor de Deus na comunhão e nos meios de graça. Somente esse amor de Deus pode nos ajudar a melhor compreendermos o outro.

Considerações Pastorais
A partir dessas abordagens, quero ressaltar algumas questões de ordem mais prática, pensando nos anos vindouros e em todas as possibilidades missionárias que advirão, sem excetuar, é claro, os desafios inerentes à nossa jornada.
a. Precisamos recriar nossa vida comunitária, estabelecendo novos princípios relacionais. Ora, somos diferentes e pensamos de forma diferente, mas não podemos, de forma alguma, desrespeitarmos o outro na sua forma de pensar diferente. Somos uma Igreja eclética, formada por adultos, jovens, juvenis e crianças, e como tal, nossas celebrações possuem e possuirão características ecléticas, sem hegemonia de qualquer pensamento, mas com aglutinação das diferenças. Como nos atesta a Escritura: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. (1 Coríntios 12. 4-6).
b. Trabalharemos na valorização de todas as expressões artísticas que, de uma forma ou de outra, celebram a vida com Deus. Os nossos cultos serão espaços para a louvação através do canto coral, do louvor jovem, das coreografias e de toda e qualquer participação que vise, tão somente, engrandecer o Senhor da vida, segundo a lógica: “Todo ser que respira louve ao Senhor. Aleluia”. (Salmo 150. 6).
c. Estudaremos refletidamente e nos posicionaremos contrários a toda e qualquer forma de apologia à teologia da prosperidade. Seremos implacáveis a todo e qualquer movimento que, sob a força da estrutura gospel midiática, visa alienar as pessoas de suas vidas reais. Com respeito e atenção, selecionaremos nossas músicas, nossas expressões artísticas, nossa mensagem, para que o Evangelho seja, realmente, a essência de nosso proceder. “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. [...]. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”. (Mateus 7. 15-23).
d. Valorizaremos nossos espaços cúlticos, destinados à oração, ao estudo da palavra e à orientação doutrinária. Aconselhamos que todo membro metodista “belaurorense” deve eleger, no mínimo, dois espaços para a vivência, crescimento e celebração. Não se trata de pressão, mas de evidenciação da qualidade de nosso compromisso com o projeto de salvação do Senhor entre nós. O Plano para a Vida e Missão da Igreja assim expressa: “O Culto deve ser amplamente participativo, em que a comunidade tenha vez e voz; ser inserido no dia a dia da comunidade na qual está localizada; expressar as angústias, lutas, alegrias e esperanças do povo, ofertando-as a Deus”. (Cânones, p. 85).
e. Uma marca vital da Igreja Metodista é a escola dominical. Esse espaço destinado especificamente ao estudo da palavra é elemento de grande fomento de comunhão. Sabemos que, na atualidade, existem muitas formas de acesso ao conhecimento bíblico. São muitas as versões de Bíblias com comentários, existem também muitos comentários escritos por estudiosos da Bíblia e são muitas as informações adquiridas via web. As possibilidades de acesso ao conhecimento em qualquer tempo e momento esvaziaram o espaço da escola dominical. Creio na necessidade de recriação desse espaço para a revitalização da Igreja. Para o PVM, “a Educação Cristã é um processo dinâmico para a transformação, libertação e capacitação da pessoa e comunidade. Ela se dá na caminhada de fé e se desenvolve no confronto da realidade histórica com o Reino de Deus, num comprometimento com a Missão de Deus no mundo, sob a ação do Espírito Santo, que revela Jesus Cristo segundo as Escrituras”. (Cânones, p. 96).
f. Empenharemos nosso compromisso com as pessoas através do discipulado cristão. Entendemos que a IMBA deve se comprometer em espaços para a dinâmica do discipulado, para além dos paradigmas: templo, tempo, culto e pastor. Acreditamos que a emergência de grupos pequenos pode fazer emergir também uma Igreja dinamizada pela graça de Deus e pelo poder do Espírito Santo. Os pequenos grupos são uma valorosa herança wesleyana e num contexto atual, marcado por subjetivismos e individualismos, repartir o “pão” nas casas se torna pilar para uma Igreja que se pretende viva.
g. Buscaremos a dialética entre um coração aquecido e uma mente esclarecida. Ora, esses dois aspectos serão panoramas sempre evidentes em nossa temática diária como Igreja. É nos rudimentos de uma teologia wesleyana que encontramos a possibilidade de afirmar que o metodismo não é isso ou aquilo, mas isso e aquilo. O metodismo foi um movimento efervescente na Inglaterra do séc. XVIII, num período marcado pela constituição do império colonial e pela incipiente revolução industrial na Inglaterra. Nesse período, a sociedade sofreu transformações que obrigaram os indivíduos a novas adaptações de vida. Isso gerou desemprego, miséria e desigualdade social. Foi um processo de mutações sociais aceleradas e as mudanças nas vidas das pessoas tornaram-se obrigatórias. Nesse contexto, o metodismo irrompe como movimento libertário com características amplamente sociais e distintas para a época. Segundo Heitzenrater: “Em suas reflexões sobre a origem e crescimento do metodismo, Wesley sempre deu ênfase à espontaneidade de suas origens e à imprevisibilidade de seu desenvolvimento.” Isso implicaria dizer que o metodismo histórico foi um movimento que surgiu e se desenvolveu de maneira imprevisível, ainda que Wesley entendesse que o mesmo “tinha sido levantado por Deus para um propósito específico e apropriado.” A imprevisibilidade do movimento metodista na Inglaterra é marcada pela forma como Wesley faz teologia: no caminho, na vida, mediante os desafios impostos pelo tempo. De qualquer forma, o movimento exerceu um papel fundamental como “pequena igreja dentro da grande igreja”. (Richard Heitzenrater. Wesley e o povo chamado metodista, p. 33). Isso quer dizer que o movimento não se desenvolveu com características divisionistas, ao contrário, possuía o clamor pela renovação e comunhão. É preciso ainda lembrar que o propósito que sempre norteou o metodismo foi: reformar a nação, especialmente a Igreja e espalhar a santidade sobre a face da terra. Então, não há nenhuma possibilidade de se pensar o metodismo em perspectiva originária institucional. É preciso pensá-lo a partir do seu eixo propulsor da renovação como coração aquecido e mente esclarecida.
h. Sem perder o foco de que a salvação se dá por intermédio da graça, nos dedicaremos ao cultivo de práticas espirituais, evidenciando a oração, o jejum e a leitura da palavra como elementos fundamentais da vida devocional cristã. Dessa forma, também cumpriremos nossa missão “realizando o Culto de Deus, pregando a Sua Palavra, ministrando os Sacramentos, promovendo a fraternidade e a disciplina cristãs e proporcionando a seus membros meios para alcançarem uma experiência cristã progressiva, visando o desempenho de seu testemunho e serviço no mundo”. (Cânones, p. 145).
i. Seguiremos o aforismo de Wesley: “Ganhe o máximo que você puder. Economize o máximo que você puder. Dê o máximo que você puder”. Nessa perspectiva evidenciaremos o zelo de dizimarmos e ofertarmos na causa do Senhor, não por coação, constrangimentos ou qualquer outro elemento de ordem violenta, mas de boa vontade, de bom coração. Se pretendemos ser uma Igreja forte, precisamos contribuir conjuntamente nesse propósito.
j. Rogamos a todos(as) para se esforçarem na participação ativa das reuniões da Coordenadoria Local de Ação Missionária – CLAM e dos Concílios Locais. É de fundamental importância a participação dos membros nos processos decisórios da IMBA. Aliás, nesse próximo ano vamos intensificar as reuniões conciliares com o intuito de seguirmos o princípio democrático. Ora, democracia é sempre a ditadura da maioria. Não é a melhor forma de governo, mas a necessária para esse tempo de imposições.
k. Precisamos vencer todo o qualquer processo de partidarismo que porventura detectarmos entre nós. É crucial a participação de todos neste processo de aproximação de ideais com a finalidade de, no possível e quando depender de nós, termos paz com todos os homens.
l. Vamos dinamizar a lógica do sacerdócio universal de todos os crentes, entendendo que o desenvolvimento saudável da Igreja não se dá somente por atuação do pastor ou pastores, mas, primordialmente, por intermédio de cada membro empenhado no serviço cristão e doação ao outro Em minha concepção, a maior herança da Reforma Protestante é a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes. Ora, tal evidência possibilitou a superação do hiato entre “clero” e “plebe”. Segundo Richard Shaull: “Não pode existir na igreja uma posição mais elevada que a do crente que recebe de Deus o extraordinário Dom de perdão e justificação. Qualquer pessoa que aceita isto pela graça é escolhida por Deus e elevada a uma posição sem igual. Além do mais, não pode existir um chamado mais elevado do que aquele que foi dado a cada crente para transmitir esta mensagem, com sua oferta de vida aos demais e para expressar esta fé em serviço de amor a eles”. (Richard Shaull. Protestantismo e Reforma, p. 45). Essa citação pode ser resumida na lógica de Lutero que afirmava que o cristão é “um Cristo para o outro”. (Idem, p. 46). Isso quer dizer que o cristão, além de conservar atividades de abnegação, humildade e altruísmo, deve se esforçar para desenvolver uma dinâmica de vida fundamentada na prática do amor às pessoas. Tal possibilidade não é privilégio de místicos, ordens religiosas ou segmentos afins, mas de todos(as) que se relacionam com Deus, visando uma expressão mais presente da fé na realidade contingente.
m. Cientes de todos os processos administrativos que envolvem a Igreja Metodista em suas instâncias local, distrital, regional e geral, precisamos trabalhar por uma organização do pensamento que nos ajude a consolidar as ênfases de nossa ação missionária. Somos uma parcela do Corpo de Cristo e precisamos nos desenvolver de forma tal que a maturidade seja a ênfase maior de nossa prática em geral. Somente uma Igreja madura bíblica e doutrinariamente será capaz de enfrentar possíveis e futuros desafios oriundos de mandos e desmandos de líderes autoritários.


Conclusão
Cremos na necessidade de uma renovação espiritual para a nossa comunidade. Uma Igreja não pode ser somente politizada, deve ser também uma comunidade que sinaliza a essência do Reino de Deus com dons e ministérios.
Queridos irmãos e irmãs, o tempo que ora se revela para nós é um tempo de grandes possibilidades. É um tempo de percepção do nosso papel como homens e mulheres no contexto local e nacional. Creio que Deus está nos desafiando a sermos um pequeno castiçal a iluminar rostos e vidas.
Nessa linha de raciocínio: “A única alternativa para que a Igreja se torne, efetivamente, um sinal de vida e esperança, seja pôr em prática a recomendação paulina, incansavelmente repetida por Wesley: ‘ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus’; abraçar a via da kenosis, do autoesvaziamento; renunciar à condição de igreja autoridade-poder, para ser, paradoxalmente, igreja povo-comunhão-serviço. Renúncia ao poder; abdicação de todos os sinais externos que a afastam do convívio com as pessoas comuns; adoção prudencial de estruturas que agilizem a sua comunicação com o tempo presente; enfim, interconexão com todos os órgãos que partilham metas comuns, mesmo que por caminhos diferentes; são passos importantes para que, esvaziada de si mesma, a Igreja seja sinal do amor de Deus”. (José Carlos de Souza. Leiga, Ministerial e Ecumênica, p. 227).
Com essas palavras finais, afirmo que é meu desejo e minha oração que todos vivenciemos tempos novos onde a Graça e o Amor de Deus sejam a tônica maior de todas as nossas ações.
Em Cristo, Senhor da vida,
Moisés Coppe
01/01/11

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

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