quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

SE É BOM, SE É MAL, SÓ O FUTURO DIRÁ...

Dentre os textos de Rubem Alves, há um que conta a história de um homem muito rico que ao morrer deixou suas terras para os seus filhos. Todos receberam terras férteis com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para o plantio. Seus amigos se entristeceram e lamentaram a injustiça que lhe ocorrera. Mas ele só lhes disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre a região e as terras de seus irmãos foram devastadas: as fontes secaram, os pastos ficaram esturricados e o gado morre. Mas, o charco do irmão mais novo se transformou em um oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo. Seus amigos se alegraram e ele respondeu: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No dia seguinte, o cavalo fugiu e foi grande a tristeza. Seus amigos se entristeceram e ele lhes disse: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. Passados alguns dias, o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Seus amigos se alegraram e ele novamente lhes disse: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. No dia seguinte, seu filho montou um cavalo selvagem e caindo, quebrou a perna. Seus amigos se entristeceram e ele lhes disse: “Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá”. Passados poucos dias, os soldados do rei vieram para levar os jovens para a guerra. Todos os moços partiram menos o filho da perna quebrada. Seus amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: “Se é bom ou se é mau, só o tempo dirá... ”.
Alves termina a sua história dessa forma: reticente... Essa história é um exemplo claro e explícito de que a vida possui regras e elementos circunstanciais (positivos e negativos) que mudam os rumos das relações e das atividades humanas. Entender esses elementos é desafiante, contradizê-los é néscio. Talvez, a personagem da história se apresente passivo, entretanto, a crônica revela que a vida possui em seu bojo uma dimensão pedagógica. Essa é a realidade da vida humana, balizada por regras que preexistem e que determinam naturalmente êxitos e fracassos. Não existe nada na vida que expresse o finalmente. Em outras palavras, significa dizer que a vida, entendida dentro dessa espontaneidade, apresenta um campo de entendimento vasto, ao que se conclui que é melhor viver a vida do que tentar entendê-la, pelo menos, cientificamente.

Moisés Coppe.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sim à Emoção! Não ao Emocionalismo!

Nunca fui contrário à emoção que perpassa o corpo quando do contato com Deus na esfera da vida.
Nunca deixei de chorar ante as dificuldades de alguém que chorava.
Nunca deixei de rir ao perceber o lado cômico de muitas situações do cotidiano.
Nunca deixei de analisar no testemunho alvissareiro de uma ou outra pessoa o toque singular e gracioso de Deus.
Nunca deixei de expressar que a emoção é parte da nossa vida espiritual.
Mas, ao mesmo tempo, nunca deixei de manifestar-me contra o emocionalismo. E aqui cabe dizer que todo e qualquer emocionalismo é chantagem da alma contra a alma. É, em suma, manipulação diante do sagrado ou diante da vida.
Por isso, digo sim à emoção e não ao emocionalismo. E por razões muito óbvias. Declaro-as:
A emoção faz parte da vida humana. O emocionalismo é produzido por códigos e sistemas.
A emoção está aliada à razão. O emocionalismo ao inconsciente.
A emoção enquadra o ser humano, dando-lhe maturidade. O emocionalismo infantiliza espiritualmente.
A emoção dá dignidade à vida. O emocionalismo esvazia todo o sentido de viver.
A emoção me faz reagir diante das inquietações. O emocionalismo me condiciona a aceitá-las, muitas vezes, calado.
A emoção me dinamiza. O emocionalismo estatifica-me.
A emoção é própria de gente que vive a imanência. O emocionalismo pertence às pessoas dadas à transcendência.
A emoção me lança à esfera da adoração. O emocionalismo joga-me na idolatria.
A emoção lê a Bíblia e busca edificação. O emocionalismo dá a este livro o status de magnitude.
A emoção me faz melhor crente. O emocionalismo me faz "o crente".
A emoção me conquista para a unidade na diversidade. O emocionalismo me faz viver somente na desunião.
A emoção gera novos relacionamentos. O emocionalismo gera somente cumplicidades.
A emoção é capaz de me dar avivamento. O emocionalismo me lança a uma esfera puramente ativista.
A emoção crê nos milagres de Deus. O emocionalismo acredita nos passes de mágica.
A emoção gera frutos. O emocionalismo espinhos.
A emoção desloca-me à ação. O emocionalismo desloca-me da ação.
A emoção me faz enxergar o outro pobre. O emocionalismo vê o pobre como pecador.
A emoção é altruísta - pensa nos outros. O emocionalismo é egoísta - pensa somente em si.
A emoção louva e canta com os olhos abertos. O emocionalismo cante com os olhos fechados.
A emoção ora e se coloca ao lado de Deus para a ação missionária. O emocionalismo clama e espera Deus mover os céus.
A emoção centraliza a fé em Cristo. O emocionalismo centraliza o crer no homem ou na mulher de Deus.
A emoção vê coração. O emocionalismo vê aparência.
Deus nos livre da religião do emocionalismo e nos conserve na fé marcada pela emoção.
Moisés Coppe.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

RECRIANDO O METODISMO A PARTIR DO PENTECOSTES

ENCONTRO CAIPIRA EM BELISÁRIO

Por Moisés Coppe



Segundo o cientista social Boaventura de Souza Santos, em sua obra A Crítica da Razão Indolente (Cortez: 2002): “Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo, entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu”.

Ora, o que Santos evidencia é o fato de que o desassossego é paradoxal, pois revela-nos os excessos do determinismo e dos indeterminismos. Os primeiros estão relacionados à aceleração da rotina. Os segundos à desestabilização das expectativas. Dessa constatação, surge a ocorrência de rupturas e a eventualidade de catástrofes pessoais e comunitárias. O desassossego é, para Santos, a resultante da desorientação dos mapas cognitivos. Os mapas que sempre nos foram familiares deixaram de ser confiáveis, de onde decorre a nossa sociedade intervalar (Santos, p. 41). Assim, se decantarmos nossas intenções a uma razão indolente (preguiçosa), então, aceitaremos o futuro como ele se configura e nenhuma ação decorrerá. Mas, se ao contrário, não aceitarmos a experiência decorrente desse tempo de transições – embora seja muito obsoleto falar de transições – então alguma utopia precisa permear nossas possibilidades em mutações.

Num mundo marcado pelas demandas do esquisito e inusitado, constatações seguras precisam ser formuladas com o intuito de cunhar nossas utopias ou paradigmas. Um breve olhar sobre a vida social denota a todos nós que o egoísmo e a cobiça crescem de forma assustadora. As mega-corporações batem, mês a mês, recordes nas produções. Pessoas se entregam diariamente à amizade virtual através dos micro-computadores e note book´s. Os relacionamentos tornam-se paulatinamente mais frios e calculistas. A natureza geme ante a agressividade dos poderosos que vêem matéria bruta com os olhos da lucratividade. Não se importam com os meios desde que o fim seja o enriquecimento.

Quanto ao ambiente religioso, nunca se falou tanto de Deus, mas também de formas equivocadas. O número dos novos movimentos religiosos que surgem, mostram-nos a fragilidade da fé e dos milhares de “cultos”. Ora, fé, entendida nos diversos movimentos presentes neste chamado mundo pós-moderno, é na verdade um sentimentalismo emocionado na vivência daquele(a) que sente um arrepio no “culto”. Ademais, busca-se prioritariamente a satisfação das necessidades básicas. Busca-se o sagrado, mas ao mesmo tempo este sagrado deve alimentar, curar, vestir, enfim, dar prazer. A ausência do Estado dá margem à religiosidade agressiva.

Um importante desafio para os cristãos do presente século tange à recriação da igreja e de suas organizações secundárias – grupos societários, ministérios, associações etc., a partir da lógica do pensamento peregrino de John Wesley, o fundador da Igreja Metodista. Frisamos, de antemão, que Wesley nunca escreveu um tratado sobre a igreja. Ele era um teólogo do caminho. Por isso, sempre buscou a renovação e o equilíbrio entre fé e obras. Por exemplo: certa feita Wesley reclamou dos pregadores que “se esquecem de suas obrigações morais, desprezam a santidade como se fosse lixo, ensinam às pessoas esse caminho fácil para alcançar os céus, a fé sem obras”. (BARBOSA. Adoro a Sabedoria de Deus, p. 373). Ainda, em consonância com a argumentação anterior, Wesley atesta: “Não reconheço como tendo um grão de fé a pessoa que não faz o bem, que não está disposta a empregar toda oportunidade que tenha em fazer o bem a todos os homens” (idem, p. 373). Finalizando, diz que “o peso de nossa religião, como nós entendemos, reside na santidade de coração e da vida. (...) Não queremos gastar o tempo com disputas, queremos gastar o nosso tempo e nos gastarmos no anúncio da religião autêntica e prática” (idem, p. 373). Mas a renovação eclesiástica praticada por muitos líderes é outra, marcada pelo sensacionalismo, pelo emocionalismo e pelas promessas metafísicas.

O que muitos líderes religiosos têm feito com a igreja é banalização. É claro que em muitas épocas da história eclesiástica, essa atitude de tratar a igreja como objeto factível de desenvolvimento dos ideais personalistas sempre esteve presente. Mas, o que se vê hoje é uma religiosidade coligada às estruturas espoliantes do mercado. O Evangelho tornou-se, para estes, mero produto dos projetos de marketing. Paulo, na epístola à Roma escreveu: “Não me envergonho do Evangelho, pois ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego”. (Rm. 1: 16). Em contraposição ao argumento paulino, esta estirpe de “evangelho” baseado na prosperidade e nas ansiedades da atualidade causa espanto e vergonha.

O cenário político também é suspeito. A qualidade dos nossos “poderes” tripartites e da estrutura bicameral revelam-nos como estão “preparados” nossos governantes. Bem sabido é por nós que Antônio Gramsci sempre afirmou nos seus escritos filosóficos, a saber, os “Cadernos do Cárcere”, que toda atividade é, em suma, atividade política. Se aceitarmos essa afirmação, então nossa prática de fé e de vida também é atividade política. Nosso relacionamento pessoal e familiar também se constitui como atividade política. A sexualidade é atividade política. Nossas decisões e escolhas são, em última instância, atividades políticas. Até mesmo, o lugar que escolhemos para nos assentarmos dominicalmente no templo é espaço de manifestação política. Por outro lado, evidenciando uma contraposição esquizofrênica, sempre afirmamos que não “discutimos política”. Talvez, por causa dessa lacuna gerada pela nossa indiferença, políticos medíocres, inclusive “evangélicos”, estejam assumindo cargos da elite no cenário brasileiro.

Nossa vida social também se encontra castigada por informações de todos os tipos, para todos os gostos. Notícias de outros continentes nos chegam rapidamente e em tempo real. Por certo, a tecnologia avança de forma assustadora e veemente. Vale ressaltar, assim como Júlio de Santana, que em um mundo dotado de uma tecnologia capaz de erradicar a fome de todo o planeta, é inconcebível a idéia de pessoas morrendo de inanição. Mas, de qualquer forma, a tecnologia midiática extrapola todas as possibilidades do raciocínio.

E o que dizer da anorexia e da bulimia, reflexos de um mundo esquisito, marcado pela ditadura da estética. Uns morrem porque não têm o que comer, outros ficam doentes e até morrem porque, mesmo tendo o que comer, por causa dos padrões de beleza vigentes no “mundo” da moda, assumem a postura irresponsável do culto ao corpo em detrimento do próprio corpo.

Diante deste quadro crítico, visualizado sucintamente, reafirmamos que a teologia wesleyana pode nos apresentar algumas pistas significativas. A consistente e persistente busca pela salvação, sempre evidenciada por Wesley centralizou, sem sombras de dúvidas, a doutrina da perfeição cristã. A vontade e empenho em entregar “todo o coração e toda a vida a Deus” (RUNYON. Nova Criação, p. 125), possuía duas vertentes: a primeira, talvez influenciada pela leitura dos místicos católicos, levava Wesley a considerar que o comprometimento com a perfeição cristã estava ligado diretamente a uma condição de santidade marcada pela obediência à Lei de Deus, bem como à prática de obras visando o prêmio final. Em segundo lugar, a perfeição cristã entendida como dom de Deus (KLAIBER, Viver a Graça, p. 313), fruto da manifestação da graça sobre o ser humano (conforme sermão 83,9).

Essas duas características, aparentemente opostas, são argumentadas pelo próprio Wesley, em seu tratado: “O caráter de um metodista”:

Não estabelecemos a totalidade da religião (como fazem muitos e Deus sabe muito bem) em não fazer o mal, nem em fazer o bem ou em seguir os mandamentos de Deus. Nem tampouco todos esses aspectos juntos, porque sabemos por experiência que uma pessoa pode dedicar-se a isso por muitos anos e no final não possuir uma religião verdadeira, nada melhor do que tinha antes. (Obras de Wesley. Tomo VIII, p. 28ss).



A simples postura da observação dos mandamentos ou o seguir cego de orientações e regras é rechaçado por Wesley. Isso se confirma ainda na expressão: “Que o Senhor dos meus antepassados me preserve de uma religião tão miserável!” (Obras de Wesley. Tomo V, p. 18 & 19).

Na seqüência, Wesley se opõe com veemência contra aqueles que criticam o ser metodista. Assim ela afirma:

Metodista é quem tem o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado; quem ama o Senhor seu Deus com todo seu coração com toda a sua alma e com toda a sua mente e com todas as suas forças. Deus é a alegria em seu coração e desejo de sua alma, que clama constantemente: “A quem tenho no céu senão a Ti? Fora de ti não desejo nada na terra! Meu Deus e meu tudo. Tu és a rocha em meu coração e minha porção para sempre!” (Obras de Wesley. Tomo V, p. 19).



Há, neste sermão de 1738, a conjunção conflituosa entre esforço humano e gratuidade de Deus. Entretanto, a aparente contradição se encerra quando o próprio Wesley atesta:

Guarda os mandamentos de Deus com toda a sua força, pois a obediência está em proporção ao seu amor, a fonte pela qual flui. Portanto, amando a Deus como todo coração, lhe serve com todo vigor. Continuamente, apresenta sua alma e corpo em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, completamente e sem reservas, entregando tudo o que possui e a si mesmo para a sua glória. Todos os talentos recebidos, todo poder, toda faculdade da alma e cada membro do corpo, emprega-os constantemente de acordo com a vontade do Mestre. (Obras de Wesley. Tomo V, p. 19).



A importância dada por Wesley ao tema da perfeição cristã se confirma claramente pela dedicação e estudos evidentes ao longo de cinqüenta e dois anos. As muitas revisões do seu estudo denotam que a mesma doutrina estava em evidência na sua formulação teológica. Mais que isso – consistia em ênfase centrada na salvação do ser humano, na nova criação provocada pelo novo nascimento e pela entrega completa da vida a Deus. A salvação alcançada provocaria uma nova vivência. O crente não seria salvo pelas obras, mas justificado mediante o Espírito com o fim de realizar boas obras entre todos os pobres e necessitados.

Então, é na perspectiva dessa ênfase wesleyana que adotamos um importante paradigma, ou seja, o de vivenciar a experiência da fé de forma mais audaciosa e servil. Só assim, podemos manifestar oposição ante ao atual contexto marcado pela proliferação de movimentos religiosos, os mais diversificados. A doutrina da perfeição é uma orientação espiritual das mais significativas e condizentes com os princípios e valores do evangelho genuíno. Mas, além disso, necessita de uma prática vital marcada pela tônica da dedicação ao outro em uma dimensão relacional.

E aqui, cabe-nos refletir um pouco sobre a obra O Cristo de Todos os Caminhos de Stanley Jones. Essa obra muitas vezes é interpretada erroneamente. A análise consistente da Teologia das Religiões ou mesmo a necessidade de um diálogo interreligioso conclama a reflexão atual a uma temática pluralista. Entretanto, a obra de Jones não se refere à urgente necessidade desse campo supracitado.

Jones elabora sua temática na direção de pensar a Igreja inserida na dimensão do Pentecostes. Para os incautos, uma observação: o Pentecostes para Jones nada tem a ver com o pentecostalismo. Segundo este autor: “Por que será que quando se fala à Igreja de hoje a respeito do Pentecostes as pessoas cultas sentem um calafrio percorrer-lhes a espinha dorsal?” E corrobora:



Bem, uma coisa é que o pentecostalismo tem causado um grande mal ao Pentecostes. Os ridículos ridicularizaram o Pentecostes. Fizeram-no de tal maneira que muitos procuram evitar o uso do termo. Mas as palavras, como as pessoas, devem ser redimidas. A Igreja é grandemente responsável por esta situação. Tendo negligenciado esta parte tão importante do Evangelho deixou almas famintas e estas agora são levadas por grupos mal orientados e exóticos. Nestes grupos o emocionalismo desenfreado tem sido identificado com o Pentecostes. E, realmente, a mente pensante do presente século não suporta a religião do puro emocionalismo. (JONES. Obra citada, p. 39).



Ora, Jones continua sua argumentação afirmando a impossibilidade de separar-se emoção da razão. Realmente, é possível concordar com Jones, pois a anulação de qualquer uma dessas duas esferas significa a mutilação da espiritualidade. Numa linguagem puramente wesleyana, pode-se falar que a boa resolução do Pentecostes na espiritualidade metodista depende, necessariamente, da experiência, da razão, da tradição, da criação e, claro, da Bíblia.

Então, ao pensar em qualquer movimento alternativo que queira a recriação de posturas que evidenciem a tônica do equilíbrio, torna-se fundamental a conscientização de que é na vida prática, aliada à teologia que se desfia no caminho no contexto da igreja local que a nossa palavra encontrará eco. Acho que a teorização bem elaborada de aspectos doutrinais ou o levante morto de liturgias cheirando a mofo não pode contribuir para o nosso propósito maior que é, em suma, sinalizar o Reino de Deus e sua justiça.

Mas então? O que fazer diante das desconstruções religiosas presentes em nosso contexto metodista?

Responder a essa questão não é tarefa fácil, mesmo porque todos estamos elaborando perguntas, fazendo análises e alcançando poucas, muito poucas respostas. Mas é inegável o fato de que alguma coisa precisa ser feita. E aqui não cabe o ditado popular que afirma: se não pode vencê-los, junte-se a eles. Em nossa concepção, é bem mais propício o que diz: Gato escaldado tem medo da água fria. Por certo, as experiências passadas que provocaram cisões e divisões continuam a provocar temores e calafrios.

Vale dizer ainda que o problema que enfrentamos não é novo. Os primeiros metodistas enfrentaram situações similares. Inclusive,



No verão de 1781, John Wesley recebe da sociedade metodista de Yorkshire uma carta assinada por diversos líderes, a respeito de uma questão bastante difícil. Já que Wesley incentivava e até exigia que todos os metodistas continuassem participando dos cultos da Igreja Anglicana, o que deveriam fazer quando ouvissem dos ministros anglicanos doutrinas falsas? [...] O que fazer: ouvir e engolir calado? [...] A questão foi colocada na conferência. Como o problema era comum a toda Grã-Bretanha, Wesley permitiu que os pregadores, membros daquele conclave, falassem a respeito. Depois do debate, decidiu-se unanimemente que “todos os metodistas, educados como metodistas, assistam aos serviços da Igreja Anglicana tão frequentemente quanto possível; porém, quando o ministro começar a pregar sobre os Decretos Absolutos ou ridicularizar a doutrina da perfeição cristã, eles devem, calada e silenciosamente, sair da igreja, retornando na próxima oportunidade”. (BARBOSA. Adoro a Sabedoria de Deus, p. 27).



Acho interessante o posicionamento dessa conferência e entendo que nossa postura, de alguma forma, precisa ser similar a esta. Não vamos fazer oposição frente aos movimentos complexos desse tecido religioso conturbado, principalmente no nosso chão metodista, tampouco levantar bandeiras tresloucadas, mas nos posicionarmos politicamente dando as costas aos absurdos “terrológicos” presentes em muitas das nossas comunidades. Outrossim, a grande resposta que qualquer metodista pode dar na atualidade se expressa na lógica da kenosis e da diakonia, ou seja, do esvaziamento e do serviço. E esvaziamento e serviço se configuram de forma emblemática na igreja local. É na simplicidade de nossa dedicação na igreja local que a resposta dos metodistas e confessantes será indelével.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

INDIGNAÇÃO CONTRA OS BEÓCIOS

Ó Deus, não fique longe de mim; ó meu Deus, apresse-se em ajudar-me (Sl 71.12). Envie relâmpagos e disperse os inimigos, atire suas flechas (Sl 144.6), e que todas as imaginações do Inimigo sejam confundidas. Recolha e faça seus estes meus sentidos; faça-me esquecer todas as coisas mundanas; conceda que eu lance fora bem depressa e despreze todos os espectros pecaminosos. Socorre-me, ó eterna Verdade, para que nenhuma vaidade me comova! Venha a mim, doçura celestial, e que toda impureza fuja de diante de sua face”.

Thomas à Kempis.

Vez por outra, sou tomado de extrema indignação. E não me indigno por causa de leviandades. Sei que elas são imaginações do inimigo e, certamente, possuem um endereço certo: minha repulsa. Indigno-me contra aqueles que, levantando a voz e com sutileza, demonstram sentimentos díspares cauterizados pelo desejo por poder. Ah! O poder, essa mísera palavra que mexe profundamente com toda a existência humana, que exalta o egoísmo embora a sede dos injustiçados seja por altruísmo. Pelo poder, mata-se; pelo poder abandona-se; pelo poder, trai-se; pelo poder, corrompe-se; pelo poder, anulam-se amizades e sonhos que outrora foram dignificantes. Perdem-se, assim, as possibilidades de um outro mundo possível.

Indigno-me com a busca pelo poder; do poder para o poder. Do poder para poder. E como se não bastasse esta ansiosa disputa insolente na esfera da vida, vislumbro ainda por parte de muitos a repartição dos despojos e a celebração com mordacidade, perante uma mesa inescrupulosa, dos restos de alguém outrora querido. E vale aqui o clamor de Kempis: recolha a Ti Senhor os meus sentidos. Isso porque meus sentidos querem trair-me ou mesmo levar-me a atitudes contestadoras de teor blasfemo. Mas que sentidos podem se expressar frente a situações sem sentido? Que resposta dar frente a questões que não possuem razão ou estrutura, só falcatruas, pois eivadas de comentários perniciosos daqueles que vociferam: “o meu Deus é maior”.

Indigno-me, sim, com a injustiça daqueles que, com o dedo em riste, insistem em expor mentiras, inventar causos e semear discórdias sem ao menos perguntar pela verdade. Tal como o salmista, anseio ecoar minha voz aos céus expressando: “se fosse o meu inimigo, eu suportaria, mas é tu, meu amigo e íntimo companheiro...”.

Entretanto, continuo a lutar para defender de forma muito precisa a minha honra, coisa última que me resta. E assim o farei com astúcia e coragem. Aprendi desde cedo, com aqueles que me geraram a vida que honra é um tesouro imensurável que se deve estampar na expressão do rosto. Honra é coisa de áulico e não de gente medíocre que teatraliza no real por medo de se assumir como é, como está, o que quer. Honra é um pedaço de pão embrulhado em um guardanapo, guardado em algum armário da despensa, mas conservado para a hora da necessidade, não para a vaidade. Honra é o fim último de todos aqueles que almejam fazer diferença na vida, com vida.

Indigno-me com os beócios, que de tão idiotas, acham que seu pequeno mundo de sentidos medíocres possui dimensões inimagináveis. Quão tolos são. Diante da imensidão deste universo com mais de 100.000.000 (cem milhões) de galáxias, acham-se possuidores das chaves dos céus e do inferno. Assim, imagino Deus dando as costas para os dados à tolice de suas briguinhas de fazer rir.

Não sou perfeito, tenho minhas contradições. Entretanto, anseio por justiça. Anseio por gente que aja com respeito, com o mínimo de responsabilidade social, com postura cristã. É muito triste saber que pessoas disseminam maledicências, em nome de Deus, por se julgarem melhores, por se considerarem superiores. Para estes (as), vale aquele conselho esquecido, oriundo de um velho livro de sabedoria, que evidencia: “considere o outro superior a você mesmo”.

Mas o pior é perceber que estes “santos homens” e “santas mulheres” usam de sua argúcia para conduzir gente crente e temente a Deus não pelas vias da santidade, mas pelas avenidas da insanidade eclesiástica. Dizem servir a Deus, todavia são condicionados por desejos que seguem a lógica do “outro”, com forte ênfase na expressão: “tudo isso te darei se prostrado me adorares”.

Enfim, indigno-me com os que semeiam discórdias nas caladas da madrugada num ambiente que existe para a “conciliação”. Indigno-me com os que não têm coragem de encarar os olhos ou com os que não têm a hombridade de revelar o que pensam. Indigno-me com os buchichos e conversinhas de bastidores que amealham a ética. Indigno-me com aqueles que não deslindam a verdade e se arvoram de fraudulentas argumentações ou mexericos de dar dó.

Mas, mesmo em meio a esse caudal de indignação, que venha a mim a doçura celestial e que toda a impureza fuja do meu coração, e de alguma forma, também da face do meu Senhor.

Moisés Coppe.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Meu caminho para Brasília

Tomei emprestada a ditosa frase de JK que dá nome à sua autobiografia para salientar o título desta crônica e pontuar alguns pormenores sobre a primeira vez que fui a Brasília.
Eu acho que todo brasileiro deve, no mínimo, conhecer a capital federal. Confesso aos leitores que fiquei pasmo ao contemplar toda uma cidade movimentada pelo poder - este instrumento relacional efêmero.
Além de algumas considerações, vou também expor algumas fotos particulares. É minha intenção partilhar algumas opiniões, alguns pontos de vista.

"Em frente ao palácio da alvorada"

A viagem ocorreu em setembro de 2008. De antemão, agradeço aos irmãos Martinho Lutero, Janice e Lúcio Flávio pela acolhida, bem como à igreja metodista Asa Norte em BSB.



Preciso confessar que nos preparativos, era grande a ansiedade para conhecer a referida cidade.


À tarde, andei pela avenida principal do plano piloto e conheci a belíssima Catedral Metropolitana Nossa Senhora de Aparecida, mais conhecida como Catedral Metroolitana de Brasília, inaugurada em 31 de maio de 1971. Ela foi projetada por Niemeyer.

Seu interior também é delicadamente projetado, dando singeleza e conotando certa espiritualidade no ar.

Continua...

QUERO A EXPERIÊNCIA DIVINA DE SER HUMANO


Se pudesse perguntar a Deus sobre qual teria sido a sua maior experiência como ser espiritual, acho que Ele me responderia: “Foi a de ser como um humano”. Se atentarmos para essa resposta, à princípio poderemos até ficar perplexos, mas em uma segunda análise, chegaremos à conclusão de que, sem dúvida, a maior experiência de Deus foi a encarnação. O evangelista João, por exemplo, atesta no primeiro capítulo do seu evangelho que o verbo que estava com Deus se fez carne e armou tenda entre nós (João 1: 14). Ora, sei das complexidades teológicas que envolvem as argumentações e discussões sobre o tema da encarnação. Sei, também, que este dogma foi transformado em puro discurso segundo interesses escusos, mas é indiscutível que na vivência de Emanuel, Deus se fez como um de nós.
As vezes, fico decepcionado com os projetos de espiritualidade que ocorrem na dimensão eclesiástica. São projetos que acabam desconectando o ser humano da sua realidade vivencial, bem como do seu chão, lançando-o em uma espécie de sincretismo emocional. O crente deixa de ser gente. Acho que isso é um grande golpe sobre a vida de homens e mulheres que buscam, sinceramente, a presença de Deus e almejam ser melhores. Vejo que as pessoas, imbuídas por sua busca pessoal de Deus, muitas vezes são enganadas, pois há muita demagogia nas instituições religiosas. Tenho verdadeira ojeriza desse tipo de perspectiva que expõe pessoas transformando-as em mero objeto de interesse estrutural.
Quero, na contramão do que me dizem ou fazem-me, assumir as minhas contradições e imperfeições. Quero viver a vida como ela é, evidenciando-me como realmente sou. Quero ser passional e experimentar as sensações extremadas do prazer. Quero a liberdade e a pipa empinada ao sabor do vento. Quero a ansiedade e o chocolate meio amargo. Quero a angústia e o travesseiro acolhedor na calada da noite. Quero tudo o que me faz mais humano, pois não almejo ser uma pessoa desconectada da realidade. Assim, ouvirei as músicas que alimentam a alma e encantam-me. Chorarei, deixando as lágrimas rolarem por pura emoção. Quem sabe, ainda, lançar um grito insano no espaço aberto do tempo sem dar satisfação a ninguém. Talvez assim, seja menos ético e mais afeito ao inusitado e improvável.
Quero, enfim, mostrar às pessoas que viver é uma aventura perigosa na qual não se pode titubear. Mas se porventura alguém titubear, tem problema não. Damos um jeito e recriamos as situações da vida. Isso, se Deus estiver conosco, lógico. E assim, quanto mais humano eu for, mais perto de Deus estarei. Se estivermos juntos na caminhada, estaremos também mais perto da sua maior experiência como ser espiritual. E isso, por certo, nos basta.

sábado, 16 de maio de 2009

Para não viver em vão - Texto de Ricardo Godim

Clint Eastwood produz e dirige filmes densos, especialmente os que lidam com o abuso de crianças. Gostei da trama de “A Troca” (“Changeling”), baseado em fatos reais. Um garoto desaparece enquanto a mãe, divorciada, trabalha algumas horas extras no sábado. Para encontrar o filho, Christine, personagem encenada por Angelina Jolie, precisa enfrentar sozinha a corrupta máquina policial de Los Angeles e ainda tem de manter o emprego, apesar da solidão e do desespero pelo sumiço do menino.
O pastor presbiteriano Rev. Gustav Briegleb (John Malkovich), que lutava contra a violência policial, se une a Christine em sua luta contra a politização do Xerife que deveria cuidar da segurança pública. A militância de Briegleb é ética, corajosa e persistente. No final, enquanto projetavam as explicações finais sobre os desdobramentos do que aconteceu no filme, desabafei: “Quando crescer, quero ser igual a esse pastor”. O ministério de Briegleb desencadeou mudanças profundas nas leis da cidade. A obstinação de um homem salvou a vida de milhões de pessoas que ainda nem tinham nascido.
Fui ordenado ao ministério em 1977. Desde então, trabalho com evangelização, missões urbanas e plantação de igrejas. Preguei milhares de sermões, participei de centenas de congressos, mesas-redondas e seminários. Comparo-me ao que Jesus disse aos primeiros discípulos: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça” (Jo 15.16). Conto os anos de ministério, vejo que o meu futuro é mais curto que o passado e me pergunto: “Qual a pertinência do meu esforço? O fruto do meu ministério permanecerá?”.
Não pretendo terminar os dias desempenhando as funções sacerdotais como mero sacerdote que batiza, celebra ritos de passagem e enterra os mortos. Não almejo acomodar-me à função de xamã. Não tolero o papel de “baby-sitter” de crentes burgueses, sempre ávidos por bênçãos.
É possível encontrar muitos cristãos em movimentos populares que reivindicam reforma agrária. Porém os pastores, com certeza ocupados com a máquina reli giosa, não dispõem de tempo para se aliarem aos oprimidos pela burocracia estatal, que perpetua a injustiça. Poucos se atrevem a sair do conforto das catedrais para defender o meio ambiente.
Como pastor pentecostal, inquieto-me com o massacre da teologia da prosperidade, que ocupa a maior parte do culto com promessas de bênção. Não gosto de ver a instrumentalização de quase todo esforço missionário para fazer proselitismo, em nome de uma evangelização.
Pastores semelhantes a mim vivem a responder a questiúnculas sobre doutrina, a legislar sobre moralismos e a apagar fogo de contendas entre os membros de suas comunidades. O discipulado desaparece na catequese que tenta adequar as pessoas às demandas religiosas. O resultado é trágico e o testemunho cristão, pífio.
Por todos os lados pipocam sinais de que os evangélicos começam a repensar a teologia fundamentalista que lhes serviu de suporte. Agora urge fazer o dever de casa com a eclesiologia. O significado de ser igreja em áreas cosmopolitas tem de ser mais bem avaliado. Os paradigmas atuais sufocam o surgimento entre os evangélicos de gente como Martin Luther King ou Dorothy Stang.
Caso não mexamos com os conceitos fundamentais da teologia da missão, continuaremos repetindo fórmulas desgastadas. Resgatar pessoas do inferno, garantir o céu, mas esquecer a “plenitude da vida” diminui brutalmente o mandato cristão. O tempo gasto das pessoas, os recursos financeiros aplicados, a mobilização de talentos, não podem ser desperdiçados. A função da igreja é também resgatar vidas, proteger os indefesos da burocracia estatal, da opressão do mercado e até da frieza eclesiástica.
Como cuidei basicamente de igrejas urbanas, lamento o tempo perdido com a máquina religiosa. Fui absorvido por programações irrelevantes. Defendi teologias desconexas da existência. Fiz promessas irreais. Discuti ideias estéreis. Corri em busca de glórias diminutas. O tempo é uma riqueza não renovável, portanto, resta-me lamentar tanto esforço para tão pouco resultado.
Entreguei-me de corpo e alma à oração, fiz vigílias, jejuei. Ralei os joelhos em busca de uma espiritualidade eficiente. Acreditei piamente que a maturidade humana aconteceria pelo caminho da piedade religiosa. Ledo engano. Muitos companheiros de oração se levantaram ferozmente contra mim.
O mundo passa por mudanças radicais e as igrejas, se quiserem ser relevantes, precisam repensar seu papel na sociedade. Se não quiserem sucumbir à tentação de serem meros prestadores de serviços religiosos, os pastores precisam abrir mão de egolatrias tolas como o fascínio por títulos. É tolice brincar de importante usando o nome de Deus.
O descrédito do cristianismo ocidental se tornou agudo nos últimos 20 anos. Urge que os pastores revejam os seus sermões e se questionem se pregam conceitos relevantes em uma sociedade profundamente injusta, cruel e opressiva. Não fazer nada custará muito à próxima geração. Mais jovens se fatigarão prematuramente. E os idosos morrerão com o gosto amargo de terem gastado a vida em vão. O que seria muito triste.“Soli Deo Gloria”.
• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros,
Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. www.ricardogondim.com.br

terça-feira, 21 de abril de 2009

O Professor está sempre errado

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor! (Jó Soares)


É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia'.
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém o escuta.
Não falta ao colégio, é um 'caxias'.
Precisa faltar, é um 'turista'.
Conversa com os outros professores, está 'malhando' os alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não sabe se impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala corretamente, ninguém entende.
Fala a 'língua' do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, deu 'mole'.
É! o professor está sempre errado, mas, se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.

(fonte - Revista do Professor de Matemática, número 36,1998).

O CHOQUE DAS DEFINIÇÕES



No artigo: “O Choque das Civilizações”, escrito e editado em uma revista que discute palestras externas intitulada: “Foreign Affair”, Samuel Huntington aponta que os conflitos políticos dar-se-ão de forma ideológica, dicotomizando civilizações ocidental e oriental. Segundo Edward Said (1935-2003), tal apontamento ressuscita a memória da Guerra Fria, logicamente, com nova roupagem. Mas a questão intrínseca na proposição de Huntington é de que há uma cultura e civilização superior à outra. No caso, Huntington evidencia que o ocidente, idealizado pelos EUA precisa ressaltar as diferenças presentes no Islã; apoiar os países que são simpáticos ao ocidente e promover conflitos entre países, que mesmo sendo islamitas, possuem suas diferenças.
Ora, Huntington qualifica sua tese na concepção nós e eles. Tal postura etnocentrista desconsiderava a pluralidade e diversidade presente neste “planeta cada vez mais apertado”. Percebe-se nitidamente, na citação: “As fronteiras do Islã são sangrentas, como também o são suas entranhas”, que Huntington faz questão de esboçar preconceituosamente o perfil do Islã – violento, sangrento, bojudo. E se assim o faz, é porque considera sua própria civilização o oposto, a saber, um exemplo a ser seguido por todas as demais civilizações, principalmente orientais.
Entretanto, Edward Said se opõe a toda a argumentação de Huntington. Segundo Said, o que pode dar direito a esta ou aquela civilização de estabelecer valores, princípios, modos de condutas, cultura, religião ou estilos sociais?
Ora, Said aponta que toda construção histórica é evidenciada por alguém com um objetivo claro. Tais relatos e narrativas estruturam tradições dando desfechos apoteóticos aos heróis e demonizando o inimigo. Ironicamente, Said critica Huntington por entendê-lo poético e emocional. Tal argumentação fica evidente na citação acima descrita.
Said evidencia também que Huntington, com sua tese, não coopera para o encontro entre as civilizações, mas ao contrário, incita e fomenta o conflito. O problema não tange a refletir sobre mônadas culturais, mas perceber que a compreensão de si passa necessariamente pela compreensão do outro. Trata-se, outrossim, de perceber que não existem blocos monolíticos, embora muitos ainda insistam em exaltá-los.
Aliás, Said evidencia que nos EUA, movimentos populares querem a mudança da história, e que a mesma inclua os escravos, criados e pobres imigrantes na oficialidade. E o que dizer do artigo: “Atenas negra”, citado por ele que revela uma Grécia diferente da concebida pelos livros de história e pelo ocidente – formada por negros, semitas e, posteriormente, setentrionais. É preciso ver com outros olhos as historiografias, pois todas as culturas e civilizações tomam parte naquilo que Clifford Geertz chamaria de “colagem”.
Por fim, Edward Said aponta que o posicionamento de Huntington é preconceituoso. Favorece a sua própria nação em detrimento das outras.
Citando Aimé Césaire (1913 – 2008) – poeta e político francês, ideólogo do conceito de negritude – Said assim finaliza seu artigo:

"Mas a obra do homem está apenas começando e resta ao homem conquistar toda a violência entrincheirada nos recessos de sua paixão.
E nenhuma raça possui o monopólio da beleza, da inteligência, da força, e há lugar para todos no encontro da vitória
".

Nosso desafio, portanto, é o de entender as diferenças culturais, aceitar o princípio de liberdade entre todos os povos, visando a harmonização do mundo.

Resumo do artigo de Said
de mesmo título.
Preparado por Moisés Coppe

Muitos "sems" e o Fundamental

Muito se estuda, se fala , se prega e se escreve sobre “igreja” no meio evangélico nos nossos dias. Aliás, fala-se mais sobre “igreja” do que de Jesus Cristo, de Deus e do Espírito Santo. A Trindade só ocupa lugar nas falas e nos escritos quando está a serviço da “igreja”, ou seja, o Senhor tornou-se refém daquela que deveria ser serva.
Nós, evangélicos brasileiros, somos tão católicos quanto os católicos na sua relação com a “igreja”, pois colocamo-na no centro da vida de tal sorte que para muitos “fora da igreja não há salvação”. A diferença é que os católicos creem assim mesmo, apesar da maioria não “seguir” o que a Igreja Católica orienta; e nós dizemos não crer assim, mas a maioria “segue” o que as “igrejas” ordenam. Mais que isso: muitos de nós vivemos de tal forma que, se alguém nos tirasse o que entendemos e vivemos como sendo “igreja”, perderíamos a fé.
Fico imaginando se pudéssemos passar um dia conversando com o Jesus dos evangelhos. Sinceramente acho que Ele diria: “Vocês criaram isso que chamam de ‘Igreja’! Eu vivi e proclamei o Reino de Deus, que já está entre os que me seguem, sobre os que me seguem, dentro dos que me seguem. Um Reino inabalável e sem visível aparência. Quando os que me seguem se reúnem em meu nome para adorarem ao Pai, a mim, ao Espírito, para nos ouvirem, comerem o pão e o beberem o vinho, como irmãos-seguidores meus, isso é igreja! Só isso! No mais, vivam e proclaram as boas novas que vocês encontraram em mim!”
O que muitos de nós faríamos sem templo, sem bispo, sem pastor, sem padre, sem presbítero, sem diácono, sem patrimômio, sem ministério de administração, sem tesouraria, sem ministério de louvor, sem instrumentos musicais, sem coral, sem altar, sem púlpito, sem escola dominical, sem culto de oração, sem reuniões ministeriais, sem atas, sem estatísticas, sem relatórios? Quanto de nossas orações, tempo e saúde temos empregado em tudo isso? De tudo isso, o que levaremos para eternidade?
E como seríamos se vivêssemos no Reino, sob o Reino, cheios do Reino? E nos reuníssemos para adorar e ouvir a Trindade? E vivêssemos juntos, no mundo, de tal forma que nossa vida fosse uma proclamação de que Deus está entre nós? Quanto de nossas orações, tempo e saúde temos empregado nisso? E disso, o que levaremos para eternidade?
Já paramos para pensar se existem seguidores de Jesus Cristo vivendo com todos os “sems” acima citados – ou outros mais? Se existem, onde estarão eles/as?
Para meditar: Lucas 10.38-42.

Maurício Ramaldes.
São Paulo, 5/4/2009.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ensinando com criatividade


O corvo estava morrendo de sede. Viu um vaso que tinha tão pouca água que o bico não alcançava. Tentou derrubar o vaso com as asas, mas era muito pesado. Tentou quebrar com o bico e as garras, mas era muito duro. O corvo, com medo de morrer de sede tão perto da água, teve uma idéia brilhante. Pegou umas pedrinhas e foi jogando dentro do vaso. A água subiu e ele pode beber”. Não há beco sem saída pra quem se esforça na lida.[1]


PARA INÍCIO DE CONVERSA

Ensinar e perseverar na atividade docente são sempre grandes desafios!
A bem da verdade, possuímos uma gama de experiências educacionais para todos os gostos e necessidades. Não é possível pensar em um único modelo que auxilie e oriente a formação e valoração da vida nas pessoas. A atividade docente não é um privilégio da Igreja, está também presente em outras estruturas sociais e afins sempre a serviço da humanidade.
Nossa tentativa será a de apontar pistas que servirão de diálogo para a formulação de um ensino criativo. Nossa intenção é justamente a de traçar uma discussão sobre a importância da criatividade no processo docente, ou melhor, como a criatividade pode contribuir na formulação de uma educação religiosa cristã mais expressiva.
A noção de corporeidade estará presente inicialmente em nossa reflexão, visto que não podemos entender criatividade na educação sem esta noção. Todo processo educacional deve passar pela experiência do corpo, pelos sentimentos, os desejos, o riso, o choro, a felicidade e a satisfação das necessidades básicas como comer, beber e vestir.


A CORPOREIDADE

Todo processo educacional salutar possui uma preocupação voltada à corporeidade. Isto significa dizer que tal processo preocupa-se com a valorização do ser humano e a provocação da vida em abundância.
Ao falarmos de vida em abundância, referimo-nos às reflexões de José Lima Júnior. O referido autor aponta-nos a capacidade transcendente do ser humano em superar as opressões vigentes em nosso mundo que transitam nos seguintes níveis:
a) O nível político: o fazer que privilegia - ao nível soma - o palpável;
b) O nível teológico: o crer que privilegia - ao nível pneuma - o provável;
c) O nível erótico: o sentir que privilegia - ao nível psiquê - o programável
.[2]
Claramente, José Lima revela a relevância da corporeidade em qualquer processo de transcendência da opressão no corpo humano.

É a saída da ingenuidade-postiça para a criticidade-própria; é a saída da individualidade ingênua para a sociedade crítica; é a saída da acomodação no natural-necessário para a transformação do contigente-histórico. Falar de transcendência do corpo oprimido, portanto, é o mesmo que falar de desejos, relações e mudanças deste corpo.[3]


A compreensão de ser humano a partir da noção de corpo é ilimitada. O corpo vivencia o riso e o choro, a dança e a saúde, o belo e o feio, o medo e a coragem, os sonhos e os pesadelos, a guerra e a paz, o prazer e o dever, o amigo e o inimigo.

Sobre este assunto, Rubem Alves expressa o seguinte:

Parece que esta é a marca característica do mundo dos homens: ele é duplo, rachado. Vivemos entre fatos e valores; as coisas tais como são, e as coisas tais como poderiam ser.[4]


O mundo do ser humano é duplo dentro de um mesmo corpo. Por isso, quando refletimos sobre o corpo, precisamos pensar de antemão na corporeidade que transcende a realidade orgânica e experimenta o desejado e o sonhado.

Talvez seja por isso que Rubem Alves expressa:

Cada corpo é o centro do mundo. Quaisquer que sejam as realidades que me atingem, nada sei sobre elas em si mesmas. Só as conheço como reverberações do meu corpo. Os limites do meu corpo denotam os limites do meu mundo.[5]


Os limites do meu corpo e os limites do meu mundo, portanto, não me deixam outra opção a não ser a de transcender na busca de meus mais saudáveis desejos. O corpo também possui limitações e torna-se fundamental respeitá-las. Os seres humanos, não conformados, buscam a transcendência, o sonho o desejo e utopia. Esta constatação revela outras vertentes do desafio do ensino. Rubem Alves ainda expressa:

O mundo é uma extensão do corpo. É vida: ar, alimento, amor, sexo, brinquedo, prazer, amizade, praia, céu azul, auroras, crepúsculos, dor, multidões, impotência, velhice, solidão, morte, lágrimas, silêncio. Não somos seres do conhecimento neutro, como queria Descartes. Somos seres do amor e do desejo.[6]

Este é o nosso mundo; esta é a nossa vida.
É a partir destes pressupostos que entendemos ser fundamental que educadores e educadoras nas comunidades de fé desenvolvam um diálogo entre o processo educacional e o corpo, buscando acima de tudo, dar significado imanente ao que muitas vezes é transcendente. Diante desta consideração, entendemos que torna-se importante fugir da dicotomia social e espiritual (muito empregada em nossas Igrejas). É necessário pensar no corpo integral, no corpo dos desejos e das utopias.
A Igreja é um corpo formado por muitos corpos (e muitos mundos), onde estão presentes as diversas manifestações de vida e de morte; onde encontramos o desafio de sonhar e desejar na nostalgia, a dimensão pedagógica-lúdica-ética do Reino de Deus.
O corpo em si é frágil. Os desejos do corpo, ao contrário, renovam-se constantemente, aflorando sentimentos de poder. Pode-se acabar com o corpo mutilando seus órgãos, mas não é possível mutilar os desejos e sentimentos. Para Rubem Alves, o corpo deve combinar desejo e possibilidade de poder avançar este desejo, Segundo ele:

É necessário crer que há um poder disponível, seja no poder do corpo, seja no poder de muitos corpos, de mãos dadas, seja no poder do Universo... E é assim que, sob a magia do desejo e o sentimento de poder, os corpos se levantam da letargia, para se exprimirem no trabalho, na dança, no amor, no brinquedo, na luta, nos altares...[7]

A educação religiosa cristã está marcada pela possibilidade de alcançar os objetos do desejo, ou seja, o reconhecimento humilde de que somos agentes proclamadores de vida numa atitude sinergista[8].
O ensino passa pelo corpo. A corporeidade é o elemento fundamental para o seu desenvolvimento. Na relevância da corporeidade, prenunciamos a ressurreição do corpo.
Arlindo C. Pimenta anota que


é provável que de início os seres humanos fossem ligados à natureza como hoje o são os animais. Inteiramente submetidos a ela, não tinham o menor traço de consciência desta submissão. Não tinham angústia. Não tinham conflito. A evolução levou o homem a uma ruptura com esse estado. Surgiu um novo ser, a partir daí, consciente da presença do mortífero em si, da falta, da separação da natureza, que ele tenta desesperadamente superar[9].

Pimenta ainda acrescenta que na busca deste reencontro, os seres humanos desenvolveram o que a Psicologia conhece como pulsão, ou seja, um aspecto bifronte do ser humano que expressa desejos psíquicos e orgânicos. Por isso, os seres humanos possuem prazer na satisfação das carências biológicas (fome, sede, tensão sexual).
O que estamos querendo dizer é justamente que, ao falar de ensino dentro de uma concepção criativa, temos a obrigatoriedade de refletir sobre o corpo: sentimentos, emoções, mundos; mesmo porque, um processo educacional que se apresenta criativamente entende o corpo como espaço para a valoração da vida e crescimento do conhecimento.
Estamos certos de que este tema é bastante complexo, justamente porque existem muitos elementos fundamentais e importantes que dialogam com a educação religiosa cristã. Nossa abordagem não está fechada dentro de uma verdade considerando-se única e absoluta; ao contrário, ela deve estar associada permanentemente com outros aspectos que definem e identificam a espécie humana.
Ademais, necessário nos é pensar que o processo educacional criativo não pode ser uma obrigação. Mas agora, reflitamos um pouco sobre o que vem a ser criatividade.

A CRIATIVIDADE NO ENSINO


Um processo de ensino que se desenvolve criativamente possui muito mais expressão do que um que nada possui de criativo. É claro que o papel pedagógico-criativo não será definido de forma regrada. Não podemos sistematizar nenhum processo de atividade educacional, pois ela acontece fundamentada na expontaneidade das relações. Mas o que podemos entender por criatividade? Passemos a este tópico.

Entendendo o termo criatividade

O termo criatividade nasceu nos EUA na época do segundo pós-guerra, no âmbito das ciências psicológicas, para designar a capacidade de reação da inteligência do indivíduo, diante de um problema totalmente inédito: se ele, em vez de se limitar a uma solução única (‘converger’) conseguir excogitar - descobrir, imaginar e elaborar - o máximo de soluções possíveis, poderemos falar de inteligência criativa[10].

Rapidamente, o termo passa a fazer parte do corpo da pedagogia como chave para um novo tipo de educação principalmente para as crianças, atingindo posteriormente os âmbitos mais numerosos da atividade humana.
A criatividade é, ao nosso ver, a possibilidade de descobrir diversos caminhos diferentes quando, ante a um primeiro olhar, encontramos uma ou nenhuma solução aparente.
A verdade é que o conceito de criatividade ficou muito difícil de ser definido com precisão. Parece-nos mais útil apresentar os principais tipos em que ela aparece:
a) Criatividade de expressão: atividade querida por si mesma, sem dar importância à habilidade, à originalidade, `a qualidade da obra ( exemplo: desenhos espontâneos de crianças);
b) Criatividade de produção: controle e canalização da atividade lúdica depois do progressivo aumento dos condicionamentos da técnica;
c) Criatividade de invenção: capacidade de captar a possibilidade de relações novas entre elementos até então dissociados;
d) Criatividade de inovação: modificação dos próprios fundamentos e postulados de determinado sistema;
e) Criatividade de emergência: a manifestação de uma norma ou de uma hipótese completamente novas, como no caso da arte abstrata.[11]

A criatividade é uma importante manifestação da vida e, torna-se viável a busca de um tipo de criatividade que está ao alcance dos(as) cristãos(as). É justamente a criatividade que se manifesta no culto, na celebração, no ensino nos grupos pequenos que se empenha em valorizar o encontro com os mistérios do Senhor[12].
A partir dessas breves considerações, passaremos a refletir especificamente na educação religiosa cristã e como esta pode se desenvolver criativamente.

SÓ SE APRENDE SER CRIATIVO CRIANDO


Atualmente, homens e mulheres que assumiram o ministério docente não se preocupam com processos significativamente criativos. O que geralmente acontece é que educadores e educadoras possuem uma criatividade estéril. Ademais, criar é virtude para o enriquecimento de determinado valor partilhado. A criatividade tem profundas e íntimas ligações com a obra de arte, que é artesanato: só se aprende fazer, fazendo. Só se aprende ser criativo criando. A criatividade nunca deixa de ser artística.
Então, o ensino que dialoga com a criatividade está relacionado com a vida e responsabiliza-se por esta. Nesta ótica, procuraremos refletir, de forma mais direta, sobre a realidade de nossas comunidades de fé.

ENSINO CRIATIVO COM AMOR E RESPONSABILIDADE


Todo processo docente parte das necessidades. Para descobrir as necessidades, faz-se necessário conhecer bem o grupo a partir das individualidades e não somente por uma análise institucional ou de classes. Isso se faz necessário justamente porque as “razões da cabeça não fazem as pessoas caminhar, o que impulsiona as pessoas é justamente as razões do coração[13]. Então é preciso afirmar que no que tange a falar de razões do coração, necessário nos é pensar que o ensino precisa acontecer com responsabilidade e mor. O (A) educador(a), antes de dizer qualquer coisa, de anunciar sua verdade, de viver uma vida de serviço e de bondade, precisa ser profundamente amado(a). “Depois que estes laços de amor e confiança forem estabelecidos, as palavras deslizam com muita facilidade[14]. Consideramos este um aspecto vital.
Portanto, afirmamos que um ensino que se esboça responsável, amoroso e criativo provocará excelentes resultados para a vivência do grupo.
Jesus, conforme percebido pelas comunidades de fé do primeiro século, desenvolveu um ministério pedagógico criativo. Isto é aferível, quando deciframos seus jogos parabólicos. Estes jogos nos levam a conclusões óbvias com significados tão simples e ao mesmo tempo tão profundos. Estes jogos parabólicos nos tornam crianças, pois as palavras de Jesus dialogam com as nossas experiências cotidianas revelando-nos a beleza da simplicidade da vida. É preciso resgatar a alegria de ensinar, principalmente porque não somos sujeitos que transformarão a realidade somente pela práxis, mas principalmente pela atuação gratuita de Deus.

CONCLUSÃO


Concluir nunca é satisfatório. Apesar de termos consciência da fragilidade de uma conclusão, acreditamos que conseguimos atingir o nosso objetivo, ou seja, o de resgatar a importância da criatividade na educação religiosa cristã. Entendemos que todos os projetos que envolvem a ação ministerial docente da Igreja estão marcados pela criatividade.
Afirmamos que, no contexto atual é impossível pensar em ensino sem pensar em criatividade. Professoras e professores, lideranças em geral são desafiadas(os) a acreditarem na possibilidade de que a Igreja precisa ser um espaço de cultivo da criatividade, e não somente isso, mas também, espaço para a brincadeira e para a expressão livre de nossos desejos e anseios. Se a Igreja juntamente com a ministério docente conseguir desenvolver uma nova proposta dinâmica, então teremos condições de tornar o ensino prenúncios do que chamamos Reino de Deus.


[1] BENNETT, William J. O Livro das Virtudes. Rio de Janeiro, Novas Fronteiras, 1995. Pg. 348.
[2] JÚNIOR, José Lima. Corpoética: cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia. São Paulo, Paulinas, 1988, p.17.
[3] Id. Ibid., p. 26 - 27.
[4] ALVES, Rubem. Variações sobre a vida e a morte. São Paulo, Paulinas, 1982, p. 43.
[5] Id. Ibid., p. 37.
[6] Id. Ibid., p. 39.
[7] Id. Ibid., p. 199.
[8] O sinergismo evidencia que a salvação humana se dá de acordo com a colaboração da graça divina com a vontade humana.
[9] PIMENTA, Arlindo C. Sonhar, brincar, criar, interpretar. São Paulo, Ática, 1993. P. 23.
[10] SARTORE, Domenico & TRIACCA, Achille M. Dicionário de Liturgia. São Paulo, Paulinas, 1992. P. 256.
[11] Id. ibid., p. 256.
[12] Id. ibid., p. 268.
[13] Este artigo foi escrito no ano de 1981, quando o CEDI estáva iniciando o Programa de Acessoria à Pastoral Protestante. A época era de discussões. Muitas idéias , concepções de pastoral e perspectivas teológicas estavam sendo revistas na tentativa de encontrar os caminhos de atuação de uma pastoral popular para as igrejas evangélicas. Rubem Alves escreveu este texto no sentimento e no espírito das reflexões daquela época, no entanto ainda consideramos as suas reflexões plausíveis para o momento atual. Os comentários em itálico são todos retirados desta cartilha. P. 7.
[14] Id. ibid., p. 25.

Para os amigos de Minas Gerais.


CARTA MINEIRA

Prezado amigo TEÓFILO OTONI.
Nesta VIÇOSA manhã de primavera, de onde se contempla um BELO HORIZONTE, um CAMPO BELO e MONTES CLAROS, e, ainda, neste ambiente FORMOSO de nossa terra, quando se pode contemplar também, pela madrugada, a ESTRELA DALVA, escrevo-lhe para colocá-lo a par dos últimos acontecimentos.
No âmbito familiar, a nossa prima LEOPOLDINA, ESPERA FELIZ dar a LUZ a seu primeiro filho que, se for homem, se chamará ASTOLFO DUTRA e JANUÁRIA, se mulher. Para cuidar do rebento, ela contará com abnegação da sua governanta MOEMA. Mas, enquanto ela aguarda seu bebê, lava roupa tranqüilamente nas BICAS existentes em um RIO NOVO, afluente do RIO ACIMA, que passa pelas terras de DONA EUZÉBIA, naquele LARANJAL, perto da CAPELA NOVA, onde, na hora do RECREIO, a meninada sobe na PONTE NOVA, para pescar LAMBARI e PIAU e soltar PAPAGAIOS.

A prima NATÉRCIA comprou uma casa na rua ANTONIO DIAS, perto da casa do ANTÔNIO CARLOS. Você já sabia? Orou a Jesus de NAZARENO em agradecimento, ajoelhada aos pés da SANTA CRUZ DO ESCALVADO no alto do MONTE SIÃO, que fica lá para as bandas da GALILEIA, às margens do MAR DE ESPANHA.

Lembra-se daquelas pedras da tia MARIA DA CRUZ que você queria comprar? Ela resolveu vendê-las, menos a PEDRA AZUL, porque ela diz ser a mais bonita e valiosa.

Quanto aos aspectos sociais e religiosos, temos novidades.
Na próxima semana, o CÔNEGO MARINHO, da diocese de VOLTA GRANDE, vai fazer a Festa de SÃO TOMAS DE AQUINO. Se você quiser aparecer será um grande prazer. A nossa prima VIRGINIA é quem será a responsável pelo evento. Vai ter missa celebrada pelo reverendo local, CÔNEGO JOÃO PIO, em honra ao Santíssimo SACRAMENTO. De manhã, o bispo DOM SILVÉRIO irá crismar as crianças. Depois haverá um show com o Agnaldo TIMOTEO e também com as TRÊS MARIAS. Em seguida, a Banda Musical SANTA BÁRBARA, sob a regência do maestro BUENO BRANDÃO, executará o GUARANI, de Carlos Gomes. Depois o Barão de COROMANDEL fará a saudação ao aniversariante. A festa era para ser no mês que vem, mas todas as datas do cantor estavam preenchidas. As primas SERICITA e AZURITA vão fazer a comida. Como prato principal teremos PERDIGÃO e PERDIZES à milanesa e PATOS DE MINAS ao molho pardo. De sobremesa teremos compota de MANGA, tendo sido escolhida a UBÁ, por ser mais saborosa, pêssego em CALDAS e, ainda, licor de PEQUI.
À noite, haverá um baile no OLIVEIRA Country Clube, ao som da orquestra do maestro MATIPÓ, tendo como principais solistas os renomados músicos IBIRACI ao saxofone e NEPOMUCENO ao trompete. Será uma boa ocasião para os convidados exercitarem os seus PASSOS ao ritmo de boleros e rumbas.

Mudando de assunto, na fazenda, fizemos algumas reformas.
O CURRAL DE DENTRO estava com o telhado estragado, com problemas no madeirame e tivemos que trocar as vigas. Desta vez colocamos CANDEIAS, por ser madeira de muita durabilidade, todas compradas do CORONEL XAVIER CHAVES. Com a sobra da madeira ainda reformei a PORTEIRINHA que dá entrada para o quintal. Estou também reformando a CAPELINHA de SENHORA DE OLIVEIRA, para comemorar o aniversário de LIMA DUARTE. Na festa estarão presentes o CORONEL MURTA, o PRESIDENTE WENCESLAU, o JOÃO MONLEVADE, o CORONEL FABRICIANO, o CAPITÃO ENÉAS, o BARÃO DE COCAIS, o Barão de BARBACENA, e várias outras personalidades. Dizem que até o TIRADENTES pretende comparecer. Mas ele ficou meio aborrecido, porque queria que a festa fosse em SÃO JOÃO DEL REI. Só não poderá comparecer o VISCONDE DO RIO BRANCO porque ele está em CAMPANHA política. Iremos cobrar um valor simbólico como entrada, para reverter em benefício dos desabrigados da chuva, mas apenas uma MOEDA de PRATA.
Vou lhe dar outra grande notícia.
Perto do ENGENHO NOVO, naqueles barrancos cheios de FORMIGA, um empregado nosso descobriu MINAS NOVAS de OURO BRANCO, OURO PRETO, ESMERALDAS e TOPAZIO, portanto será uma NOVA ERA e uma BOA ESPERANÇA para todos nós. Infelizmente, por causa dessa riqueza, a violência já começou a aparecer na região. Um homem de TRÊS CORAÇÕES foi morto por um garimpeiro, usando uma faca de TRÊS PONTAS, porque ele havia descoberto uma enorme TURMALINA e também uma pedra de RUBIM, de menor tamanho, mas muito valiosa.
Na área do desenvolvimento, a dona CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, proprietária da usina açucareira de URUCÂNIA, quer aumentar a fábrica e incrementar a produção de açúcar, mas para isso precisará de mais energia elétrica. Assim, tem um projeto de construir uma usina hidroelétrica aproveitando as quedas dágua da CACHOEIRA DO CAMPO, formada pelo rio PIRANGA, mas o senhor RESENDE COSTA, que é o chefe do IBAMA na região, quer embargar a obra, alegando impacto ambiental.

Falarei agora da nossa justiça.
Chegou um JUIZ DE FORA, chamado EWBANK DA CÂMARA, para ocupar o lugar de BIAS FORTES, que terminou o seu mandato. Mas o CONSELHEIRO LAFAYETE, acompanhado de RAUL SOARES, pediu ao GOVERNADOR VALADARES para interceder junto ao PRESIDENTE BERNARDES para efetivar naquele cargo o SENADOR FIRMINO, que muito fez por nós. Ele foi DESCOBERTO ainda novo, tanto que sequer usava sapatos, usava ALPERCATAS, quando estava na companhia do CORONEL PACHECO, na famosa LAGOA DA PRATA, depois daquela GOIABEIRA e daquela árvore de JANAÚBA da fazenda POUSO ALEGRE, onde tem aquela VARGINHA, às margens do RIBEIRÃO VERMELHO.

Ele se tornou um homem sério e honesto, sendo de muito valor para a nossa causa.
Quanto à lagoa a que me referi, dizem que ela contém ÁGUA BOA, tanto que o Aleijadinho teria se curado dos seus males tomando banho nela, por isso passou a ser chamada de LAGOA SANTA. Dizem que um cego também lavou os olhos naquelas águas e voltou a enxergar, mas ele atribuiu esse milagre a SANTA LUZIA.

Outro dia encontrei o BETIM, a MARIA DA FÉ e a ALMENARA nadando nas ÁGUAS FORMOSAS da LAGOA DOURADA, e lhe mandaram lembranças. A lagoa fica nas terras de PEDRO LEOPOLDO, onde ainda tem mais SETE LAGOAS.
Avisam que estarão viajando para ALÉM PARAÍBA no próximo feriado de SANTOS DUMONT.
Também lhe mandam um grande abraço o DIOGO VASCONCELOS e o JACINTO.
Agora, vou lhe contar as fofocas.
O FRANCISCO SÁ teve um desentendimento com o JOÃO PINHEIRO por causa daquela LAJINHA que faz o SALTO DA DIVISA das terras dos dois fazendeiros com as terras da MARIANA, às margens do Rio PARACATU, porque dizem que ali tem muita MALACACHETA.
A coisa andou quente. Um deles, não sei qual, queria agredir o outro com um MACHADO. Ainda bem que o coronel MATEUS LEME chegou na hora e evitou o PATROCÍNIO de uma morte desnecessária, e, ainda, promoveu uma NOVA UNIÃO dos dois.

Os índios AIMORÉS tentaram invadir a reserva dos índios MAXACALIS, armados de ARCOS e flechas, por causa daquela reserva de JEQUITIBÁ existente no PÂNTANO DE SANTA CRUZ, mas, felizmente, foram contidos pelas tropas da Polícia FLORESTAL comandadas pelo MAJOR EZEQUIEL, evitando um massacre sem precedentes. Os presos foram levados para o QUARTEL GERAL.
E tem mais.
ELOI MENDES me contou, confidencialmente, que o Dr. CARLOS CHAGAS está de caso com a CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS. A CÁSSIA, que é muito linguaruda, contou para a mulher dele, dona CRISTINA, que, imediatamente queria a separação e iria mudar-se para DIAMANTINA. Mas a dona MERCÊS, que é muito benquista por todos, conseguiu convencê-la a não tomar essa medida EXTREMA, e lhe propôs que aguardasse a chegada do seu primo, MARTINHO CAMPOS, que é um homem de mãos de FERROS, para ouvir o seu conselho. Ele achou que seria uma missão muito ESPINOSA, mas, ainda assim, aceitou o desafio. Sendo ele também um homem ponderado, sugeriu ao marido que pedisse PERDÕES à sua esposa, na presença do PADRE PARAÍSO, e assim foi feito e tudo teve um BONFIM.
Depois desta CONTAGEM dos fatos, damos graças a SENHORA DOS REMÉDIOS, SANTO ANTÔNIO DO AMPARO, SANTO ANTÔNIO DO GRAMA e SÃO TIAGO, que têm sempre protegido a nossa família, para que nossas lutas tenham sempre um BOM SUCESSO.
Terminando, receba um forte abraço do seu primo,
MATIAS BARBOSA.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Para refletir sobre a atual crise


"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia,
fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável.
O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"

Karl Marx, in Das Kapital, 1867

Revisão Ortográfica???







sábado, 7 de fevereiro de 2009

SEMEANDO A PALAVRA DE DEUS



Também, vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. I Pedro 2: 5

O Senhor da vida nos chama para um novo tempo. Um tempo de inspirações e aspirações que tecerão as linhas da manifestação do Reino de Deus. Aliás, é importante que afirmemos: O Reino de Deus é maior do que a igreja. Tenho visto muitas pessoas servirem a igreja e poucas servirem o Reino. Há, indubitavelmente, uma pequena, mas significativa diferença entre uma dimensão e outra. Entretanto, o Reino é sempre mais importante.
Se trabalharmos na igreja, seremos ativistas. Se trabalharmos para o Reino, faremos o serviço espiritual;
Se desejarmos o poder na igreja, nos lançaremos à politicagem. Se desejarmos o poder do Reino, nos consideraremos o menor, como uma criança;
Se sonharmos com as estruturas da igreja, seremos pífios. Se sonharmos com a dimensão do Reino, encheremos o nosso coração de esperança;
Se almejarmos novas vidas para a igreja, seremos prosélitos. Se almejarmos novas vidas para o Reino, seremos semeadores da Palavra;
Se nos consagrarmos para a igreja, seremos praticantes de boas obras. Se nos consagrarmos para o Reino, seremos arautos da boa nova;
Se orarmos somente na igreja, seremos modernos fariseus. Se orarmos na dimensão do Reino, o Senhor nos verá;
Se acreditarmos que o Senhor só age na igreja, seremos míopes em relação à fé. Se acreditarmos na ação do Senhor no Reino, veremos a glória de Deus;
Se somente a igreja nos motivar, seremos infelizes. Se a nossa motivação estiver no Reino, viveremos na certeza de que a alegria do Senhor é a nossa força;
Se crermos na essência da igreja, não passaremos de sinos que retinem. Se crermos no espírito do Reino, amaremos com o amor de Deus;
Se amarmos somente os que compõem a igreja, anularemos a comunhão. Se amarmos todos os que são acolhidos na dimensão do Reino, conheceremos o significado da graça;
Se olharmos somente para os problemas da igreja, ficaremos frustrados. Se olharmos para os problemas do Reino, nos tornaremos ativos com Deus;
Se adorarmos somente na igreja, seremos meros crentes. Se adorarmos na dimensão do Reino, adoraremos o Pai em Espírito e em Verdade;
Se edificarmos a igreja, sucumbiremos. Se edificarmos o Reino, amontoaremos tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não corroem;
Se dizimarmos para a manutenção da igreja, seremos simples depositantes. Se dizimarmos para a dimensão do Reino, celebraremos o amor de Deus, pois Deus ama a quem dá com alegria;
Poderíamos ampliar a nossa relação, mas sempre pensando: a igreja é bem menor que o REINO. E somente nesse contexto é que podemos entender o texto de Pedro. Ser um sacerdote santo e oferecer sacrifícios agradáveis a Deus só é possível na dimensão do Reino. Mas, e a igreja? Deixa de ter a sua importância? Ora, a igreja somente pode ser viva se estiver em acordo com o Reino. E é isso o que realmente importa.

Moisés Coppe.

Metodistas na barriga do grande peixe


“Vou sair da igreja onde congrego”; “Igreja X dividiu-se”; “tantos membros deixaram a igreja Y”; etc...
Divisões e evasões sempre foram para mim dores agudas. Já chorei, aconselhei, orei, preguei a fim de evitá-las dentro da denominação em que pastoreio e até fora dela.
Sempre fiz o esforço de ouvir os dissidentes e os remanescentes.
Na maoiria das vezes os motivos são os mesmos citados pelo apóstolo Paulo em 1 Co: ciúmes, invejas, brigas por espaços de “destaque” dentro da congregação – desde a ornamentação do altar, passando pela ministração do louvor até a administração financeira. Coisa de criança mesmo.
Sempre ouvi dos que ficaram – membros, pastores, superintendentes distritais e até bispos – aquela conclusão final bem “consoladora”: “saíram porque não eram metodistas de verdade”.
De dissidentes, independentemente da denominação, já vi até a tentativa da construção de uma “teologia da divisão”, baseada na separação entre Paulo e Barnabé em Atos dos Apóstolos.
O fato é que muitos podem ser os motivos justos e injustos de divisões e evasões.
Muitos metodistas têm permanecido na denominação por amor a Deus, ao Evangelho de Cristo e amor às pessoas. A unidade interna está, há algum tempo, em muitas igrejas locais, comprometida em termos de práticas dos sacramentos, ensino doutrinário, liturgia, política de nomeação pastoral, etc... Assim, podemos nos considerar artistas, porque conseguimos manter uma unidade dentro de uma diversidade que faria inveja a João Wesley!
O problema é quando as pessoas sentem que lhes está sendo tirado aquilo que as tem feito permanecer na igreja metodista, e que não é a história do metodismo, não é a doutrina, não é o tipo de governo, não são os documentos episcopais, e outras virtudes que a denominação considera ter, mas o Evangelho de Cristo Jesus.
Sim, o velho e simples Evangelho não é mais pregado, estudado, celebrado, orado, desejado, necessitado. Foi substuído por outro evangelho, que não é Evangelho, porque é destituído da Graça de Deus.
Esses e essas metodistas, privados do Evangelho na própria congregação, é que estão na “barriga do grande peixe”. Ou seja, estão espiritualmente deslocados onde congregam, mas ainda não foram para outro “lugar” ou “povo”.
As igrejas locais deveriam ser como a arca de Noé: feita segundo a instrução de Deus por aquele que achou graça diante do Senhor, que era justo e íntegro; possibilidade de sobrevivência no meio do caos; sinal da salvação que recria a humanidade.
Mas muitas igrejas locais preferem ser como o navio que ruma para Társis, “para longe da presença do Senhor” (Jn 1.3). Társis é uma grande aventura, fantasia, alienação. O navio está cheio de pagãos, cada qual com o deus que mais lhe agrada. Neste navio, a pessoa de fé em Deus é fugitiva desobediente. A presença dele/a traz sérios problemas para a “segurança”, “estabilidade” e “paz” dos passageiros. Lançá-la ao mar é o remédio! Bom para ela, porque, apesar de frustrar sua viagem, tira-a do caminho da alienação.
Eugene Peterson chama o navio de “barco religioso”. Dirigindo-se a pastores, escreve: “A maior parte do que passa por religião nada tem a ver com o Evangelho. A maior parte do que passa por religião é idolatria. A maior parte do que passa por religião é autopromoção. É urgente e imperioso que os pastores façam distinção entre a religião cultural e o Evangelho cristão. No meio de uma grande tempestade no mar, Jonas aprendeu a diferença”. (À sombra da planta imprevisível, p 39.)
Estou na “barriga do grande peixe” há algum tempo. Sou solidário a todos que “foram lançados”, que “se lançaram” ou estão “se lançando” ao mar e vindo direto pra cá. Sim, porque Deus, em sua misericórdia, não nos deixa a mercer de ventos e ondas.
Sejam bem-vindos! Aqui, na “barriga do grande peixe”(Jn 2.1-9), é o início da nossa salvação!
Este não é o “lugar” onde você deseja estar, mas é necessário devido aos acontecimentos anteriores.
Este “lugar” é de oração. Oração em grito e angústia, mas oração ouvida por Deus.
Este “lugar” leva você para “viagem” ao que é profundo, desconhecido, até se encontrar lançado diante Daquele que tudo vê, tudo conhece, sem saber se vai sair vivo/a dali.
Este “lugar” é próprio para você “morrer” e experimentar Deus “subir da sepultura” a sua vida.
Neste “lugar” você fará a distinção entre Deus e idolatria.
Neste “lugar” você vai louvar sem que ninguém veja seus gestos, ouça sua voz, senão o próprio Deus: “Ao Senhor pertence a salvação!”
Quanto tempo você vai passar na “barriga do grande peixe”? O tempo não importa. O que importa é Deus! Tudo é com Ele.


Maurício Ramaldes
São Paulo, 2/2/2009.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...