sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MOVIMENTOS EDUCACIONAIS



“Para a liberdade foi que Cristo vos libertou.
Permanecei pois sóbrios e não vos submetais de novo ao jugo da escravidão”.
Gálatas 6:1

Indubitavelmente, os caminhos inerentes ao que chamaremos neste texto de movimentos educacionais precisam ser marcados pela (i)lógica do amor. Não há como conceber tais movimentos sem a perspectiva relacional, fruto de possibilidades libertadoras[1] coligadas a um desvelo “agapático”.[2]
Ao falarmos de movimentos educacionais, desenvolvemos a singela reflexão de que educação que se preze acontece naturalmente na criação, recriação, decisão, dinamização do mundo, domínio da realidade e humanização.[3] Ela não se institui. Ora, toda e qualquer instituição tende a limitar as ações humanas. É inegável a capacidade que a instituição tem em delimitar a vida humana do nascimento à morte. Quem nasce, nasce dentro de um complexo institucional, sobrevive por causa dele, se forma e se informa, entretanto, acaba em algum momento de sua singular trajetória, se sentindo aprisionado. Se almejar a ruptura, sofre. Não é fácil controlar o sofrimento decorrente de uma separação institucional. Rubem Alves, em seu livro: “Dogmatismo e Tolerância”, assim expressa:
Uma instituição é um mecanismo social que programa o comportamento humano de forma especializada, de sorte que ele produz os objetos predeterminados pela instituição. Igrejas, exércitos, escolas, hospitais, manicômios, casamento – são todos instituições. Pode-se, na verdade, ver que todos eles: 1. Programam o comportamento. 2. Forçam o indivíduo a produzir comportamentos e “bens” segundo as receitas monopolizadas pela instituição.[4]

Ora, Alves nos incita à discussão sobre o conceito de liberdade ante à instituição. E bem sabemos que o conceito de liberdade é ambíguo. Mas será que podemos realmente falar de liberdade em nossos movimentos educacionais?
A bem da verdade, ainda não conseguimos nos libertar da educação depositária, denunciada por Paulo Freire.[5] É claro que existem reflexos inusitados dentro dos nossos movimentos educacionais que nos lançam ao princípio da liberdade, mas ainda são reflexos. É preciso que nos lembremos da vocação primeira que nos conduziu à dinâmica dos movimentos educacionais. Se a “água” da atividade presente estiver contaminada, é preciso (re)visitar a fonte incipiente e beber água pura. Tal atitude, embora pueril, é fundamental para descortinarmos as janelas dessa utopia chamada liberdade e retomarmos nossos movimentos com renovada esperança.
Mas se há uma trilha para a liberdade, essa trilha é o amor. Embora, a palavra amor esteja desgastada, assim como muitas das suas manifestações, ainda assim continua a ser um ideal epicentral. E sabemos que nenhuma pessoa é movida por razões da cabeça, senão por razões que tocam a alma e o coração. Ademais, as possíveis “verdades” somente podem se constituir se há o estabelecimento de uma relação amorosa. Nessa linha, Alves expressa que o que move as pessoas não são as razões da ciência e das convicções, mas as razões do coração. Quando a emoção é tocada, as idéias deslizam com facilidade.[6] Isso sem perder a capacidade de criticidade.
Se optarmos em estabelecer boas resoluções em nossa vivência, mediante a partilha de verdades com amor, então poderemos falar de coerência nos movimentos educacionais que passam, necessariamente, por nossa assimilação de mundo e atitude de desvelo em relação às pessoas.
Portanto, cuidar das pessoas na dimensão do amor favorece aquilo que E. Morin chamou de unitas multiplex. Mais especificamente:
Cabe à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a idéia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Há uma unidade humana. Há uma diversidade humana. A unidade não está nos traços biológicos da espécie Homo sapiens.[7]

O desafio que se posta ante ao olhar do educador é o que confere a dinâmica do amor na afirmação das diferenças, visando aquilo que Morin batizou de antropo-ética, ou seja, a relação entre indivíduo singular e espécie humana como todo.[8]
Freire na mesma linha aponta: “Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também um traço de criticidade”.[9] E assim, o desvelo nos movimentos educacionais, que possui necessariamente uma característica de alteridade, é a possibilidade que os educadores desenvolvem ao harmonizarem-se com os educandos. E essa tarefa não acontece do dia para a noite, tampouco vice–versa, mas na lida diária. Em uma espécie de desvelo pericorético–amoroso.[10] E nesse nível de desvelo inicia-se nossa tarefa.

Moisés Coppe.
[1] Para maiores ampliações do termo, ver: FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
[2] Termo relativo à palavra grega – agape – amor incondicional. Adotamos também a idéia freriana de amor como ato de coragem que não teme o debate.
[3] FREIRE, op. cit, p. 51.
[4] ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 40 – 41.
[5] FREIRE, op. cit, p. 104.
[6] ALVES, Rubem. Apontamentos para um pastoral protestante. Cartilha publicada pelo CEDI.
[7] MORIN, Edgar. Os Sete Saberes necessários à educação do futuro – 5. ed. – São Paulo: Cortez; Brasília – DF: Unesco, 2002, p. 55.
[8] Idem, p. 113.
[9] FREIRE, op. cit, p. 48.
[10] Pericórese é uma terminologia grega para indicar unidade na aletridade. Conceito desenvolvido por João Damasceno no século II da era cristã.

Revista Foco da Fé

Com alegria, quero compartilhar com os amigos mais uma publicação. Agradeço aos autores e aos co-organizadores pela parceria. Valeu Mois...