segunda-feira, 17 de novembro de 2008

WESLEY E NÓS

"Não tenho medo que o povo chamado metodistas deixe de existir na Europa ou na América. Somente receio que eles existam como uma seita morta, tendo a forma de religião, mas não o poder dela; e isto certamente será o caso se não conservarem a doutrina, a disciplina e o espírito com que iniciaram a jornada".
John Wesley
A guinada reacionária que a Igreja Metodista vem sofrendo ao largo nas últimas duas décadas por causa da forte concorrência praticada no mercado dos bens religiosos imposta pelo avanço do neo-pentecostalismo e do gospel marqueteiro, é uma tentativa desesperada de se evitar o pior: a débâcle institucional do metodismo brasileiro. Digo institucional porque programaticamente temos deixado de ser metodistas de forma gradual ao longo de nossa história de mais de duzentos e cinqüenta anos. Historicamente este não foi um problema criado por nós, pois foi importado junto com os missionários. Na Grã-Bretanha o metodismo primitivo foi uma resposta religiosa aos primórdios da revolução industrial, ao surgimento e crescimento dos centros urbanos, à formação do proletariado. Nas colônias da América do Norte se viveu uma conjuntura completamente diferente pois a colonização redundou na formação de uma sociedade praticamente rural e agrária formada por sitiantes pequenos e independentes. Em conseqüência os metodistas norte-americanos abandonaram num curto período de tempo o ensino e a pratica da santidade de coração e vida promovida pelo movimento wesleyano no interior de uma igreja estabelecida – Church of England (Igreja da Inglaterra). Ao invés de um movimento de renovação houve a formação de uma instituição denominacional – The Methodist Episcopal Church (Igreja Metodista Episcopal). Houve também ao mesmo tempo a substituição progressiva da co-responsabilidade no crescimento gradual em santidade promovida nas classes metodistas pela introversão intimista e exacerbada das conversões instantâneas promovidas pelos "camp-meetings", o carro-chefe dos "American Revivals" . De fato o que ocorreu foi a apostasia individualista que tomou conta não somente do metodismo mas de todo o espectro religioso norte-americano. Tal apostasia transformou numa religião introvertida a religião social tão cara a Wesley, que proclamara "O evangelho de Cristo não conhece religião, que não seja religião social; não conhece santidade, que não seja santidade social", religião e santidade sociais que encontraram sua maior expressão nas classes metodistas do metodismo primitivo.O metodismo que recebemos no Brasil na última quadra do século dezenove já exacerbadamente individualista foi o resultado desse processo de acomodação do metodismo à sociedade de consumo norte-americana, consolidada vitoriosamente ao longo de todo aquele século. Basta ver a forma como nos Estados Unidos a escravidão deixou de ser uma questão soteriológica inerente à espiritualidade wesleyana, nos termos intransigentes de Wesley e Cooke, passou a ser considerada uma questão política pelo metodismo oficial e majoritário americano, portanto, sujeita às barganhas e conchavos de grupos, quer fossem escravagistas ou abolicionistas. Essa foi a prova mais evidente que o metodismo de Asbury e Jesse Lee, ao contrário do de Wesley e Cooke, no dizer feliz de um estudioso do metodismo norte-americano, resolveu ser uma igreja grande ao invés de ser uma grande igreja. Por isso, desde então, o nosso metodismo ter renunciado na prática ao compromisso proposto por Wesley de "Reformar a nação, de maneira particular a igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra".É freqüentemente afirmado que atual crise do metodismo brasileiro tem a ver com a chamada crise de identidade do metodismo. Mas em termos de crise de identidade confessional não estamos sozinhos. Esta é uma tensão que as demais igrejas, inclusive a católica com o crescimento avassalador de sua renovação carismática, e mesmo as pentecostais clássicas, como a Assembléia de Deus, não estão sabendo responder e acabam indo a reboque das incessantes novidades do mercado de bens religiosos. Aí diante da concorrência agressiva do neopentecostalismo, querendo salvar a instituição igreja, se deixam levar pelo que mercadologicamente dá certo – se o marketing religioso funciona então é bom e certo. O resultado dessa obsessão conservadora com o fortalecimento institucional e mercadológico é sua fixação com o crescimento numérico a qualquer custo. Creio que não há forma mais hedionda de mundanização da Igreja do que esta de se render o projeto missionário da Igreja ao deus mercado, voltando-se idolatricamente as costas a JAVÉ. Isto sim é que é IDOLATRIA!Diante do crescimento exponencial de outras igrejas, muitas lideranças metodistas são levadas a assumir discursos e práticas do chamado neopentecostalismo no intento de atingirmos semelhantes índices de crescimento numérico. A afirmação do metodismo histórico é encarada como uma ameaça ou impedimento para o crescimento da Igreja e, pior, como fator de perda de membros de nossas igrejas para igrejas cujas teologias e práticas estão próximas de posicionamentos mais conservadores ou, até mesmo, fundamentalistas. Daí o ataque ao batismo infantil, ao batismo por aspersão (com a crescente prática de rebatismo imersionista, não só de católicos mas até mesmo de metodistas ou outros evangélicos batizados na infância), à santa-ceia para as crianças, ao sacerdócio universal de todos os crentes (o laicato manipulado pela crescente clericalização do pastorado metodista), às propostas do Plano de Vida e Missão da Igreja, ao ecumenismo, à itinerância pastoral, ao pastor cura-de-almas (substituído pelo pastor animador de auditório), ao sistema episcopal, ao genuflexório e ao altar (substituídos na maioria de nossas igrejas pelo palco da sociedade de espetáculo), à hinologia do HE e à hinologia metodista dos anos 80 e 90, à Faculdade de Teologia, às Diretrizes para a Educação Metodista, às pastorais populares junto a grupos sociais empobrecidos e fragilizados, às pastorais escolares, aos grupos societários e suas Federações e Confederações, à Escola Dominical (para uma Igreja de 180.000 membros temos somente 90.000 alunos na ED!), às revistas da Escola Dominical, à Festa de Suzana Wesley, e por aí vai a coisa.... Paralelamente, tem havido em muitas de nossas igrejas crescente introdução de ensino e costumes próprios do movimento neopentecostal. Curiosamente o atual ataque hiper-conservador ao ecumenismo, ao liberalismo e à teologia da libertação não faz nada mais, nada menos, do que, mutatis mutandis, reprisar os mesmos ataques que o movimento "Esquema" no Concílio Geral de 1965 fez ao ecumenismo, ao modernismo e ao comunismo! A história, quando se repete, mais do que farsa, o faz freqüentemente em forma de tragédia...Creio que concessões doutrinárias e práticas como essas entre os metodistas acabam por nos tornar presas fáceis de práticas como G-12 (com os seus "encontros com Deus"), Louvor, Ato e Danças Proféticas, Igreja com Propósito, e outros, pois não sabemos mais afirmar com clareza e coragem o que nos distingue do neopentecostalismo, e deixar claro por que não podemos aceitar que a agenda de tais movimentos seja adotada acriticamente por um grupo crescente de pastores e pastoras metodistas somente porque produz crescimento numérico da igreja. E digo isto não porque sou contra crescimento numérico mas porque entendo que, como já nos advertiu anos atrás o líder pentecostal argentino Juan Carlos Ortiz em seu livro O Discípulo, freqüentemente a Igreja tende a tomar crescimento numérico como resultado de crescimento espiritual quando na verdade o que está ocorrendo é inchação, que não é sinal de saúde mas de doença grave. Por outro lado, tais concessões teológicas e práticas nos levam a cair na falácia do argumento que não se deve criticar o crescimento numérico das igrejas de tais pastores e pastoras, nas diferentes regiões da Igreja Metodista no Brasil, pois é descrer do "mover de Deus" e crescimento numérico é que enseja a possibilidade de crescimento qualitativo, numa espécie de absurdo silogismo de que é quantidade que produz qualidade, numa inversão do ensino de Jesus de que é a árvore boa que produz bons frutos.Contudo, creio que há muita gente que não compactua em nada com essa guinada reacionária de nossa igreja. Muitos, tanto entre os chamados conservadores-tradicionais e carismáticos, como entre os chamados progressistas (rótulos para mim considerados como ultrapassados já que não fazem mais sentido diante da gravidade da atual situação da igreja), estão insatisfeitos com os atuais caminhos do metodismo brasileiro. Esta insatisfação não é tanto com o que aconteceu em Aracruz, mas é muito mais com o que vem acontecendo em todos os níveis de nossa denominação, pela forma como entre nós a doutrina e a prática do metodismo histórico vêm se desfigurando ao longo das últimas décadas.Estou cada vez convencido que para superar tal obsessão institucional e mercadológica temos de reinventar no interior da Igreja Metodista a estratégia de John Wesley de permanecer dentro e fora da igreja, elusivamente como ele o fez. Declarar adesão incondicional á igreja e ao mesmo tempo buscar ser uma comunidade espiritual de resistência intra-eclesial nos termos wesleyanos da constante tensão entre a santidade da vida e a vida de santidade. Reinterpretar para nossos tempos pós-modernos do capitalismo tardio a doutrina wesleyana da santificação não como prática religiosa introvertida, mas de crescimento em amor a Deus e ao próximo inseridos nas experiências do duro cotidiano. Santidade pessoal manifesta na santidade social, numa tensão criativa entre obras de misericórdia e obras de piedade. Santidade pessoal e social como caminho de salvação, pois "se não somos salvos pelas obras, não somos salvos sem as obras", no dizer de Wesley, citando Santo Agostinho, "Aquele que nos fez sem nós, não nos salvará sem nós". Santidade interior em termos das motivações mais profundas de nossa existência e santidade exterior no compromisso fiel no uso disciplinado, contínuo e constante dos meios de graça, e no exercício contínuo das obras de amor na solidariedade irrestrita com os pobres e os setores mais vulneráveis de nossa sociedade, o amor incondicional a Deus e ao próximo.Ao afirmamos o caráter soteriológico da santidade de coração e vida, afirmamos também que a santidade que buscamos é uma santidade ética e a ética que defendemos é uma ética de santidade – santidade da vida e vida de santidade! Com este compromisso resgatamos a força da proposta do Plano de Vida e Missão em seu engajamento na luta em favor da vida e contra todas as forças que produzem a morte.Em resumo, estou convencido de que devemos esquecer definitivamente o modelo denominacional inserido no mercado dos bens religiosos e reinventar o modelo wesleyano contra-cultura de "ecclesiola in ecclesia". Continuarmos dentro da igreja comprometidos com sua renovação, mas sem apostarmos na "salvação" da igreja institucional, desafiando a prática eclesiástica vigente através de uma prática eclesial de forte disciplina devocional comunitária e pessoal. Assumirmos nossa própria agenda em termos de santidade de coração e vida – de intensa espiritualidade wesleyana acaboclada (nos moldes de Taizé e Iona, no espírito mas não necessariamente de sua forma). Nos colocarmos a serviço da Igreja sem aceitar participação no seu jogo político. Não nos desgastarmos nas lutas políticas pelo controle dos órgãos burocráticos da Igreja – como concílios, coordenações, comissões, conselhos, etc.. Aceitarmos, sim, participar deles sempre que ofereçam possibilidades para o exercício da lógica da santidade da vida na prática cotidiana e dinâmica das obras de misericórdia e de piedade.Para tal penso que enfrentar pessoal e comunitariamente duas duras questões colocadas pelos irmãos Wesley aos primeiros metodistas quanto à prática das obras de misericórdia e de piedade:(1) Como submeter o nosso exacerbado individualismo ao compromisso com a religião social expressa na vida comunitária disciplinada – reinventar a vida disciplinada em comunidade nos termos wesleyanos de co-responsabilidade na caminhada mútua [reinvenção das classes metodistas à luz da experiência das CEBs?];(2) Como submeter nossas aspirações econômicas pequeno-burguesas ao compromisso com os pobres – reinventar, no contexto do capitalismo consumista, a ética econômica de Wesley de "ganhar tudo o que puder, poupar tudo o que puder, e dar tudo o que puder" (Sermão 50 – "O Uso do Dinheiro").Tal reinvenção significará a gente deixar de apostar incondicionalmente na instituição eclesiástica (pois, "deixem os mortos enterrarem os seus mortos"... "não se põe remendo novo em pano velho"... "arrependei-vos e crede no evangelho"), mas sim procurar explorar as brechas institucionais que por ventura ainda existam ("enchei as talhas"... "lançai as redes"... "tirai a pedra"... "das riquezas de origem iníqua fazei amigos..."), e buscar desenvolver práticas eclesiais e missionárias alternativas na adoração, proclamação, testemunho e serviço. A denúncia profética das atuais práticas da religião de mercado entre nós metodistas será respaldada pelo anúncio do Evangelho do Reino mediante o testemunho eclesial missionário não-eclesiástico, no engajamento em projetos missionários concretos, prioritariamente juntos aos setores mais sofridos e vulneráveis de nossa (como, por exemplo, Uma Semana para Jesus da 5ª Região Eclesiástica). Esta será nossa maneira de reinventar o mandato histórico do metodismo de "Reformar a nação, de maneira particular a igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra". Com John Wesley missionariamente declararemos o mundo, e não a igreja, como nossa paróquia, reafirmando assim o espírito católico (ecumênico) do metodismo.Creio que nós metodistas brasileiros, especialmente as lideranças pastorais e as lideranças leigas altamente clericalizadas, não estamos sabendo dentro de nosso contexto ter a mesma sabedoria espiritual de João Wesley, que percebendo os sinais do tempo, não aceitou ser um mero "entusiasta", nem também um mero "deísta", e muito menos um mero "antinominiamo" ou "quietista". Foi assim que Wesley, com suas possibilidades e limitações, através de uma espiritualidade articulada em termos de santidade de coração e vida, levou a sério as demandas missionárias do povo de seu tempo, particularmente das empobrecidas e incultas massas urbanas na emergente sociedade industrial da Inglaterra, e pode responder aos desafios de sua época.O avivamento metodista do século XVIII é um bom exemplo de um movimento espiritual que procurou não perder o trem da história. Meu temor é que, como a Igreja da Inglaterra nos dias de Wesley, a instituição metodista brasileira, a nossa amada Igreja Metodista, parece que não sabe mais como fazer isto. Por isso, creio que estamos diante de uma situação tão nova que exige não o tentar restaurar o passado, mais sim afirmar o nosso compromisso com o futuro que está por chegar. Tal compromisso demanda de todos nós o mesmo rigor e compromisso espiritual, intelectual e pastoral que Wesley teve em seus dias. Não se trata mais de querer imitar ou reproduzir Wesley e o seu movimento em nossa época, mas como ele ter uma efetiva espiritualidade que responda aos desafios do mundo de hoje, e, assim descobrirmos novos caminhos que nos capacitem desenvolver uma práxis teológico-pastoral que nos possibilite enfrentar com decisão e destemor a crise espiritual e teológica que vivemos em nossos dias."Ecclesia reformata semper reformanda est."SOLI DEO GLORIA!
Reflexão apresentada pelo Bispo Paulo Ayres Mattos na abertura do Primeiro Encontro de Metodistas Confessantes

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Capacidade do nosso Cérebro

Teste o seu... De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Sohw de bloa. Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4 M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O! NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45 N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M PR3C1S4R P3N54R MU1TO, C3RTO? POD3 F1C4R B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3! P4R4BÉN5!

Extraído da Net

sábado, 1 de novembro de 2008

Como Sinalizar a Vida em um Mundo Esquisito?


O nosso mundo anda esquisito demasiadamente. O egoísmo e a cobiça, entre seres humanos, crescem de forma assustadora. As mega-corporações batem, mês a mês, recordes nas produções. Pessoas se entregam diariamente à amizade virtual através dos micro-computadores e note book´s. Os relacionamentos tornam-se paulatinamente mais frios e calculistas. A natureza geme ante à agressividade dos poderosos que vêem matéria bruta com os olhos da lucratividade. Não se importam com os meios desde que o fim seja o enriquecimento.
Quanto ao ambiente religioso, nunca se falou tanto de Deus, mas também de formas equivocadas. O número dos novos movimentos religiosos que surgem, mostram-nos a fragilidade da fé e dos milhares de “cultos”. Ora, fé, entendida nos diversos movimentos presentes neste chamado mundo pós-moderno, é na verdade um sentimentalismo emocionado na vivência daquele(a) que sente um arrepio no “culto”. Ademais, busca-se prioritariamente a satisfação das necessidades básicas. Busca-se o sagrado, mas ao mesmo tempo este sagrado deve alimentar, curar, vestir, enfim, dar prazer.
Um importante desafio para os cristãos do presente século tange à recriação da Igreja e de suas organizações secundárias – grupos societários, ministérios, associações etc., a partir da lógica do pensamento peregrino de John Wesley, o fundador da Igreja Metodista. Frisamos, de antemão, que Wesley nunca escreveu um tratado sobre a Igreja. Ele era um teólogo do caminho. Por isso, sempre buscou a renovação e o equilíbrio entre fé e obras. Por exemplo: certa feita Wesley reclamou dos pregadores que “se esquecem de suas obrigações morais, desprezam a santidade como se fosse lixo, ensinam às pessoas esse caminho fácil para alcançar os céus, a fé sem obras[1]. Ainda, em consonância com a argumentação anterior, Wesley atesta: “Não reconheço como tendo um grão de fé a pessoa que não faz o bem, que não está disposta a empregar toda oportunidade que tenha em fazer o bem a todos os homens[2]. Finalizando, diz que “o peso de nossa religião, como nós entendemos, reside na santidade de coração e da vida. (...) Não queremos gastar o tempo com disputas, queremos gastar o nosso tempo e nos gastarmos no anúncio da religião autêntica e prática[3]. Mas a renovação eclesiástica praticada por muitos líderes é outra, marcada pelo sensacionalismo e pelas promessas metafísicas.
O que muitos líderes religiosos têm feito com a Igreja beira a banalização. É claro que em muitas épocas da história eclesiástica, essa atitude de tratar a Igreja como objeto factível de desenvolvimento dos ideais personalistas sempre esteve presente. Mas, o que se vê hoje é uma religiosidade coligada às estruturas espoliantes do mercado. O Evangelho tornou-se, para estes, mero produto dos projetos de marketing. Paulo, na epístola à Roma escreveu: “Não me envergonho do Evangelho, pois ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego”. (Rm. 1: 16). Em contraposição ao argumento paulino, esta estirpe de “evangelho” baseado na prosperidade e nas ansiedades da atualidade causa espanto e vergonha.
O cenário político também é suspeito. Muitos “severinos” e “sanguessugas” revelam-nos como estão “preparados” nossos governantes. Bem sabido é por nós que Antônio Gramsci sempre afirmou nos seus escritos filosóficos, a saber, os “Cadernos do Cárcere”, que toda atividade é, em suma, atividade política. Se aceitarmos essa afirmação, então nossa prática de fé e de vida também é atividade política. Nosso relacionamento pessoal e familiar também é atividade política. A sexualidade é atividade política. Nossas decisões e escolhas são, em última instância, atividades políticas. Até mesmo, o lugar que escolhemos para nos assentarmos dominicalmente no templo é espaço de manifestação política. Em contraposição sempre afirmamos que não “discutimos política”. Talvez, por causa dessa lacuna gerada pela nossa indiferença, políticos medíocres estejam assumindo cargos da elite no cenário brasileiro.
Nosso mundo anda castigado de informações de todos os tipos para todos os gostos. Notícias de outros continentes nos chegam rapidamente e em tempo real. Por certo, a tecnologia avança de forma assustadora e veemente. Vale ressaltar, assim como Júlio de Santana, que em um mundo dotado de uma tecnologia capaz de erradicar a fome de todo o planeta, é inconcebível a idéia de pessoas morrendo de inanição. E o que dizer da anorexia e da bulimia, reflexos esquizofrênicos de um mundo esquisito. Uns morrem porque não têm o que comer, outros ficam doentes e até morrem porque, mesmo tendo o que comer, por causa dos padrões de beleza vigentes no “mundo” da moda, assumem a postura irresponsável do culto ao corpo em detrimento do próprio corpo.
Poderíamos discorrer sobre muitos temas neste breve artigo, entretanto a pergunta – “como sinalizar a vida em um mundo esquisito?” – necessita ainda de uma resposta.
Diante deste quadro crítico, visualizado sucintamente, reafirmamos que a teologia wesleyana pode nos apresentar algumas pistas significativas à questão proposta.
A consistente e persistente busca pela salvação, sempre evidenciada por Wesley centralizou, sem sombras de dúvidas, a doutrina da perfeição cristã. A vontade e empenho em entregar “todo o coração e toda a vida a Deus[4] possuía duas vertentes: a primeira, talvez influenciada pela leitura dos místicos católicos, levava Wesley a considerar que o comprometimento com a perfeição cristã estava ligado diretamente a uma condição de santidade marcada pela obediência à Lei de Deus, bem como à prática de obras visando o prêmio final. Em segundo lugar, a perfeição cristã entendida como dom de Deus[5], fruto da manifestação da graça sobre o ser humano (conforme sermão 83,9).
Essas duas características, aparentemente opostas, são argumentadas pelo próprio Wesley, em seu tratado: “O caráter de um metodista”:

Não estabelecemos a totalidade da religião (como fazem muitos e Deus sabe muito bem) em não fazer o mal, nem em fazer o bem ou em seguir os mandamentos de Deus. Nem tampouco todos esses aspectos juntos, porque sabemos por experiência que uma pessoa pode dedicar-se a isso por muitos anos e no final não possuir uma religião verdadeira, nada melhor do que tinha antes.[6]

A simples postura da observação dos mandamentos ou o seguir cego de orientações e regras é rechaçado por Wesley. Isso se confirma ainda na expressão: “Que o Senhor dos meus antepassados me preserve de uma religião tão miserável!”[7]
Na seqüência, Wesley afirma com veemência contra aqueles que criticam o ser metodista:


Metodista é quem tem o amor de Deus derramado em seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado; quem ama o Senhor seu Deus com todo seu coração com toda a sua alma e com toda a sua mente e com todas as suas forças. Deus é a alegria em seu coração e desejo de sua alma, que clama constantemente: “A quem tenho no céu senão a Ti? Fora de ti não desejo nada na terra! Meu Deus e meu tudo. Tu és a rocha em meu coração e minha porção para sempre!”[8]

Ora, o que se percebe claramente neste sermão de 1738, refere-se à conjunção conflituosa entre esforço humano e gratuidade de Deus. Entretanto, a aparente contradição se encerra quando o próprio Wesley atesta:


Guarda os mandamentos de Deus com toda a sua força, pois a obediência está em proporção ao seu amor, a fonte pela qual flui. Portanto, amando a Deus como todo coração, lhe serve com todo vigor. Continuamente, apresenta sua alma e corpo em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, completamente e sem reservas, entregando tudo o que possui e a si mesmo para a sua glória. Todos os talentos recebidos, todo poder, toda faculdade da alma e cada membro do corpo, emprega-os constantemente de acordo com a vontade do Mestre[9].

A importância dada por Wesley ao tema da perfeição cristã se confirma claramente pela dedicação e estudos evidentes ao longo de cinqüenta e dois anos. As muitas revisões do seu estudo denotam que a mesma doutrina estava em evidência na sua formulação teológica. Mais que isso – consistia em ênfase centrada na salvação do ser humano, na nova criação provocada pelo novo nascimento e pela entrega completa da vida a Deus. A salvação alcançada provocaria uma nova vivência. O crente não seria salvo pelas obras, mas justificado mediante o Espírito como o fim de realizar boas obras, de antemão preparadas desde a criação do mundo, entre todos os pobres e necessitados.
Por certo, o cenário religioso brasileiro marcado pela proliferação de movimentos religiosos, os mais diversificados, precisa de orientações, ditas espirituais, mais significativas e condizentes com os princípios e valores do evangelho genuíno. A doutrina da perfeição cristã torna-se referencial para a boa elaboração de uma espiritualidade sadia e formativa.
É desnecessário dizer que no âmbito das comunidades de fé, principalmente as de tradição wesleyna, torna-se evidente o desafio de se viver a dinâmica do amor humilde de Deus.
De qualquer forma, a doutrina da perfeição cristã somente pode ser pensada a partir das seguintes considerações:
1. Na lógica do pensamento de Wesley, que acompanha cinqüenta e dois anos de vida pastoral e dedicação teológica em meio à caminhada do povo, chamado metodista, e do movimento incipiente;
2. Na influência dos pais orientais e sua doutrina da deificação, bem como na leitura das clássicas obras de Taylor, Kempis e Law;
3. Na aproximação do tema da perfeição com o processo da santificação;
4. Nos inúmeros debates e reflexões com os contemporâneos sobre o tema;
5. Na compreensão da doutrina a partir do prisma da sinergia – participação conjunta em entre Deus e o ser humano;
6. Em uma vivência de amor humilde, que poderia ser traduzida como ápice do processo de santificação, portanto a plena santificação ou perfeição cristã;
Se é possível ou não alcançar a plena santificação na existência, não cabe julgamentos transitórios e infundados. Para Wesley era possível. Mas, a despeito do que seja realmente a dimensão da perfeição cristã, por certo, as pistas apresentadas neste artigo serão norteadoras para uma boa reflexão da teologia wesleyana no âmbito de nossa própria vida. Enfim, poderemos dizer que o Espírito de Deus busca a reconciliação do mundo com Deus e espera deste a resposta. A nova criação está sendo gerada pela ação amorosa de Deus entre os seres humanos. É, indubitavelmente, na vivência amorosa em relação ao outro que poderemos sinalizar a vida nesse mundo cada dia mais esquisito. Seja essa a nossa atitude perante a lógica da perfeição cristã de Wesley.
[1] BARBOSA, José Carlos. Adoro a Sabedoria de Deus. Piracicaba: UNIMEP, 2002. P. 373.
[2] Idem. P. 373.
[3] Idem. P. 373.
[4] RUNYON, op. cit, p. 125.
[5] KLAIBER, op. cit, p. 313.
[6] Obras de Wesley. Tomo VIII, p. 28ss.
[7] Obras de Wesley. Tomo V, p. 18 & 19.
[8] Obras de Wesley. Tomo V, p. 19.
[9] Idem, p. 24.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Campeão e o Vencedor - Divagações poéticas






A vida é marcada por uma série de ritos de passagens. Desde o nascimento até a morte, colecionamos ritos que nos lançam ao inesperado e inusitado. Todos os dias, portais se abrem para todos nós e ao atravessá-los, vislumbramos o “novo” que se reveste de realidade. Essa realidade nos conduz aos mais diversos riscos inerentes à vida. E a vida é marcada por vitórias e derrotas. É na dialética dessas duas dimensões que confrontamos e somos confrontados.
Ao pensar nos confrontos e nas peças que a vida nos apresenta, à minha memória vem a imagem da atleta Gabriele Andersen-Scheiss. Quem não se lembra desta brava suíça capengando, desorientada, se arrastando no final da maratona Olímpica de 1984, em Los Angeles. No calor escaldante daquele dia, Gabriele desafiou a natureza e o clima ao não aceitar água no ultimo posto d’agua no percurso. Gabriele disse depois que estava com 39 anos e não teria outra oportunidade de honrar o seu diploma de participação olímpica. Resolveu, então, cumprir o seu calvário nos últimos 500 metros para completar a maratona em 2:48.42. E a suíça Gabriele é hoje mais lembrada que a própria Joan Benoit, vencedora da primeira maratona de 1984, exatamente a primeira maratona olímpica feminina. Mas também nos lembramos do nosso atleta brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima na maratona nas Olimpíadas de Atenas - Grécia.
Vanderlei liderava a prova com mais de 45 segundos de vantagem. Foi quando o insano padre irlandês Cornélius Horan resolveu pregar aquela peça e travá-lo na sua jornada rumo ao ouro. Vanderlei chegou em terceiro lugar, depois desse indesejado ocorrido. Trouxe o bronze para o Brasil e ganhou do COI - Comitê Olímpico Internacional - a medalha "Pierre de Coubertin", que é dada a pessoas que dignificam o esporte com o conhecido "fair play". Como Gabrielle e Vanderlei, escolhemos ir ao final de nossa maratona, e mesmo que não cheguemos em primeiro lugar, o importante é chegar. Aliás é justamente nesse ponto que vale a pena fazer uma distinção entre o campeão e o vencedor. A distinção que ora faço, é muito mais simbólica do que real, mesmo porque há uma aproximação entre as duas expressões. Mas quero sugerir que a distinção perpassa a lógica da plausibilidade.
O campeão é aquele que chega em primeiro lugar, ganha os louros da vitória e a taça dourada que, em breve, ficará empoeirada em uma estante qualquer, como Joan Benoit. A conquista do primeiro lugar é efêmera, embora marcada pelo glamour dos aplausos.
O vencedor não necessariamente é aquele que chega em primeiro lugar. É aquele que chega. É aquele que experimenta a luta do cotidiano e se impõe, mesmo que tudo lhe diga o contrário. O vencedor é aquele que resiste, agüenta, suporta... como Gabrielle A. Scheiss.
A vida é cheia de oportunidades, de possibilidades, de conquistas. Entramos nela completamente inexperientes. Vivenciamos alegrias, tristezas, namoros, paixões, desentendimentos, construções, separações. Conhecemos lugares, pessoas, coisas e culturas diferentes. Enfrentamos situações diversas, boas ou ruins que contribuem para a grande mudança do efêmero.
Nesse caminho de desafios e incertezas, inunda-nos um sentimento de realização. Doravante, em qualquer canto deste planeta cada dia mais apertado, novos paradigmas serão superados. E nessa esfera de pululação inusitada, almejamos a consciência de um mundo melhor, um mundo formado por vencedores que façam a diferença nos relacionamentos e não por campeões que se gabam por causa da vaidade.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Carta escrita pela educadora Ana Maria Araújo Freire - Em repúdio à matéria publicada na Veja, pelas jornalistas: Monica Weinberg e Camila Pereira



Viúva de Paulo Freire escreve carta de repúdio à revista Veja

Na semana passada, a viúva do educador Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, escreveu uma carta de repúdio à revista Veja, em decorrência de reportagem publicada na edição de 20 de agosto, intitulada "O que estão ensinando a ele?". De autoria das jornalistas Monica Weinberg e Camila Pereira, a reportagem foi baseada em uma pesquisa sobre a qualidade do ensino no Brasil. Em um determinado trecho da reportagem, lê-se:
"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa, que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado". Diante disso, Ana Maria Araújo Freire escreveu a seguinte carta de repúdio:
"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo deste.
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoa pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.
Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do "filósofo" e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu "Norte" e "Bíblia", esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorado com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja os dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!


São Paulo, 11 de setembro de 2008

Ana Maria Araújo Freire

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

AFETANDO E SENDO AFETADO

A vida é relacional, portanto afetuosa.
A cada dia, fico mais convicto de que as micro dimensões dos nossos relacionamentos se dão na complexidade da existência e dos afetos. Aliás, quando se vai à etimologia da palavra complexo, se descobre que “com plexus” é tudo o que se encontra emaranhado, tal como os fios de um tecido.
Ora, ninguém se engane, a vida é realmente complexa. Mesmo sendo presente sagrado, possui ramificações que nos encantam e nos amedrontam. A vida é um todo muito maior do que as partes que a compõem, parafraseando Aristóteles.
Já dizia o grande rabino dos Evangelhos: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Às vezes, para refletir sobre o significado e profundidade dessas palavras que – aliadas a outras histórias, tais como a das duas casas ou a dos dois caminhos – me levam a considerar a vida sobre duas dimensões distintas: o carrossel ou montanha russa.


Àqueles que já tiveram a oportunidade de ir a um parque de diversões sabem muito bem o que vou propor: o carrossel – cavalinhos que giram em uma mesma direção em um sobe e desce mavioso. Uma música meio que irritante ao fundo e pouca, quase nenhuma emoção. Risos pálidos e tédio, muito tédio. As crianças separadas, montadas em seus cavalinhos plásticos. E o giro revela, minuto após minuto, o mesmo cenário, bucólico...



A montanha russa – um trenzinho em que ninguém vai sozinho, mas acompanhado. A subida lenta sugere uma respiração pausada, a inquietação é premente. Os risos carregados de excitação e expectativa dão lugar ao grito prazeroso justamente quando os carrinhos alçam uma velocidade estrondosa em poucos instantes. E ali, naquele insólito momento, já não há razões, nem sensos de direção. Não há preocupações, somente o desejo de chegar ao fim da linha. Mas todos podemos concordar em um coisa: a vida é muito mais uma montanha russa do que um carrossel. Aliás, se eu tivesse que escolher a forma como sempre viveria minha vida, optaria pela montanha russa.
Mesmo porque vida sem emoção pode ser considerada morte. É preciso que tenhamos em mente a certeza de que vida em abundância é muita vida, portanto emocionante e cheia de curvas fechadas e “loops”.
Ademais, no carrossel há isolamento. Na montanha russa, vai-se acompanhado. E nada melhor do que experimentarmos o outro, diferente e tão igual, afetando-nos e sendo afetado.
De igual modo, diante dessa simples analogia da vida, ocorre a complexidade educacional. Somente mediante afetos recíprocos, a educação em todos os seus níveis permitirá a sinalização de um mundo melhor. Temos consciência que os afetos, assim como a vida, são dialógicos, ou seja, possuem lados opostos e díspares. Tem muita gente que sabe afetar o outro positivamente, mas também existe muitos outros que afetam o outro, consequentemente a vida sem o devido respeito e dignidade.
Que aprendamos em todas as dimensões do cotidiano a vivenciar as múltiplas dinâmicas de nossas montanhas russas afetuosas.


Moisés A. Coppe

QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA





segunda-feira, 15 de setembro de 2008

DOZE CONSELHOS PARA TER UM INFARTO FELIZ


por Dr. Ernesto Artur - CARDIOLOGISTA


1. Cuide de seu trabalho antes de tudo. As necessidades pessoais e familiares são secundárias;


2. Trabalhe aos sábados o dia inteiro e, se puder também aos domingos;


3. Se não puder permanecer no escritório à noite, leve trabalho para casa e trabalhe até tarde;


4. Ao invés de dizer não, diga sempre sim a tudo que lhe solicitarem;


5. Procure fazer parte de todas as comissões, comitês, diretorias,conselhos e aceite todos os convites para conferências, seminários, encontros, reuniões, simpósiosetc.;


6. Não se dê ao luxo de um café da manhã ou uma refeição tranqüila. Pelo contrário, coma o mais rápido possível pra não perder tempo e aproveite o horário das refeições para fechar negócios ou fazer reuniões importantes.


7. Não perca tempo fazendo ginástica, nadando, pescando, jogando bola ou tênis. Afinal, tempo é dinheiro;


8. Nunca tire férias, você não precisa disso. Lembre-se que você é de ferro;


9. Centralize todo o trabalho em você, controle e examine tudo para ver se nada está errado. Delegar é pura bobagem; é tudo com você mesmo;


10. Se sentir que está perdendo o ritmo, o fôlego e pintar aquela dor de estômago, tome logo estimulantes, energéticos e anti-ácidos. Eles vão te deixar tinindo;


11. Se tiver dificuldades em dormir não perca tempo: tome calmantes e sedativos de todos os tipos. Agem rápido e são baratos.


12. E por último, o mais importante: não se permita ter momentos de oração, meditação, audição de uma boa música e reflexão sobre sua vida . Isto é para crédulos e tolos sensíveis.Repita para si: Eu não perco tempo com bobagens.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MOVIMENTOS EDUCACIONAIS



“Para a liberdade foi que Cristo vos libertou.
Permanecei pois sóbrios e não vos submetais de novo ao jugo da escravidão”.
Gálatas 6:1

Indubitavelmente, os caminhos inerentes ao que chamaremos neste texto de movimentos educacionais precisam ser marcados pela (i)lógica do amor. Não há como conceber tais movimentos sem a perspectiva relacional, fruto de possibilidades libertadoras[1] coligadas a um desvelo “agapático”.[2]
Ao falarmos de movimentos educacionais, desenvolvemos a singela reflexão de que educação que se preze acontece naturalmente na criação, recriação, decisão, dinamização do mundo, domínio da realidade e humanização.[3] Ela não se institui. Ora, toda e qualquer instituição tende a limitar as ações humanas. É inegável a capacidade que a instituição tem em delimitar a vida humana do nascimento à morte. Quem nasce, nasce dentro de um complexo institucional, sobrevive por causa dele, se forma e se informa, entretanto, acaba em algum momento de sua singular trajetória, se sentindo aprisionado. Se almejar a ruptura, sofre. Não é fácil controlar o sofrimento decorrente de uma separação institucional. Rubem Alves, em seu livro: “Dogmatismo e Tolerância”, assim expressa:
Uma instituição é um mecanismo social que programa o comportamento humano de forma especializada, de sorte que ele produz os objetos predeterminados pela instituição. Igrejas, exércitos, escolas, hospitais, manicômios, casamento – são todos instituições. Pode-se, na verdade, ver que todos eles: 1. Programam o comportamento. 2. Forçam o indivíduo a produzir comportamentos e “bens” segundo as receitas monopolizadas pela instituição.[4]

Ora, Alves nos incita à discussão sobre o conceito de liberdade ante à instituição. E bem sabemos que o conceito de liberdade é ambíguo. Mas será que podemos realmente falar de liberdade em nossos movimentos educacionais?
A bem da verdade, ainda não conseguimos nos libertar da educação depositária, denunciada por Paulo Freire.[5] É claro que existem reflexos inusitados dentro dos nossos movimentos educacionais que nos lançam ao princípio da liberdade, mas ainda são reflexos. É preciso que nos lembremos da vocação primeira que nos conduziu à dinâmica dos movimentos educacionais. Se a “água” da atividade presente estiver contaminada, é preciso (re)visitar a fonte incipiente e beber água pura. Tal atitude, embora pueril, é fundamental para descortinarmos as janelas dessa utopia chamada liberdade e retomarmos nossos movimentos com renovada esperança.
Mas se há uma trilha para a liberdade, essa trilha é o amor. Embora, a palavra amor esteja desgastada, assim como muitas das suas manifestações, ainda assim continua a ser um ideal epicentral. E sabemos que nenhuma pessoa é movida por razões da cabeça, senão por razões que tocam a alma e o coração. Ademais, as possíveis “verdades” somente podem se constituir se há o estabelecimento de uma relação amorosa. Nessa linha, Alves expressa que o que move as pessoas não são as razões da ciência e das convicções, mas as razões do coração. Quando a emoção é tocada, as idéias deslizam com facilidade.[6] Isso sem perder a capacidade de criticidade.
Se optarmos em estabelecer boas resoluções em nossa vivência, mediante a partilha de verdades com amor, então poderemos falar de coerência nos movimentos educacionais que passam, necessariamente, por nossa assimilação de mundo e atitude de desvelo em relação às pessoas.
Portanto, cuidar das pessoas na dimensão do amor favorece aquilo que E. Morin chamou de unitas multiplex. Mais especificamente:
Cabe à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a idéia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Há uma unidade humana. Há uma diversidade humana. A unidade não está nos traços biológicos da espécie Homo sapiens.[7]

O desafio que se posta ante ao olhar do educador é o que confere a dinâmica do amor na afirmação das diferenças, visando aquilo que Morin batizou de antropo-ética, ou seja, a relação entre indivíduo singular e espécie humana como todo.[8]
Freire na mesma linha aponta: “Nas relações que o homem estabelece com o mundo há, por isso mesmo, uma pluralidade na própria singularidade. E há também um traço de criticidade”.[9] E assim, o desvelo nos movimentos educacionais, que possui necessariamente uma característica de alteridade, é a possibilidade que os educadores desenvolvem ao harmonizarem-se com os educandos. E essa tarefa não acontece do dia para a noite, tampouco vice–versa, mas na lida diária. Em uma espécie de desvelo pericorético–amoroso.[10] E nesse nível de desvelo inicia-se nossa tarefa.

Moisés Coppe.
[1] Para maiores ampliações do termo, ver: FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
[2] Termo relativo à palavra grega – agape – amor incondicional. Adotamos também a idéia freriana de amor como ato de coragem que não teme o debate.
[3] FREIRE, op. cit, p. 51.
[4] ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 40 – 41.
[5] FREIRE, op. cit, p. 104.
[6] ALVES, Rubem. Apontamentos para um pastoral protestante. Cartilha publicada pelo CEDI.
[7] MORIN, Edgar. Os Sete Saberes necessários à educação do futuro – 5. ed. – São Paulo: Cortez; Brasília – DF: Unesco, 2002, p. 55.
[8] Idem, p. 113.
[9] FREIRE, op. cit, p. 48.
[10] Pericórese é uma terminologia grega para indicar unidade na aletridade. Conceito desenvolvido por João Damasceno no século II da era cristã.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Passos para tornar-se um/a pastor/a bem sucedido/a



Sou pastor metodista há quinze anos, ordenado há dez. Participei como membro clérigo de sete Concílios da IV Região Eclesiástica (Minas e Espírito Santo) e visitei – pela primeira vez e por um dia – um Concílio Geral (2006). Imaginei-me aconselhando um jovem para tornar-se um pastor “bem sucedido” na nossa Igreja Metodista.
Já fiz isso em outras ocasiões – a última vez há seis anos – e não incluí na conversa o adjetivo “bem sucedido” porque eu achava que pastorado não combinava com “sucesso”. Mas eu estava enganado. Os tempos são outros! Por isso, mudaria minhas orientações.
Primeiro passo: Seja esperto. Você já está com 25 anos e sem perspectiva de vida. Não consegue entrar para universidade pública, não tem um bom emprego. É um bom rapaz, apesar de ser um pouco preguiçoso. Não quer ser pastor? Veja, que alternativa você tem? O mercado de trabalho não vai te absorver tão cedo! Como pastor solteiro você terá, de cara, salário, casa, água, luz, ajuda para transporte, plano de saúde e até seguro de vida. Chamado? Deus já te chamou, rapaz! Só você não percebeu. Olhe as circunstâncias. Olhe as suas necessidades. O mundo está cada vez mais religioso e nós, evangélicos, estamos crescendo neste país. Você vai ficar de fora? Pense bem!
Segundo passo: Apareça. Agora que Deus te chamou, você vai precisar da recomendação da igreja local. É importante que você tenha visibilidade na comunidade. Se você toca algum instrumento, ótimo! Se não, cante no ministério do louvor. É um ministério concorrido, mas eu garanto que para você não haverá escala – você “ministrará” em todos os cultos. Entenda por “ministração” aquela falação entre uma música e outra, com chavões indispensáveis para impressionar a congregação e alguns gemidos com mudança da voz. Mas não se preocupe. É só a gente arranjar alguns dvds de ministérios de louvor famosos e você aprende tudo em duas horas. Aliás, guarde bem o que te digo agora: sempre que puder compre cds e dvds de músicas evangélicas. Esteja por dentro de tudo sobre o “mundo gospel”. Se tiver de escolher entre comprar um livro ou um cd, nunca hesite: compre o cd, ele te ajudará mais. Voltando para a questão da visibilidade, devo te exortar: nunca apareça na congregação da periferia ou da zona rural, nunca apareça no hospital para visitar os enfermos, nunca apareça na cadeia para visitar os presos, nunca apareça na casa dos irmãos para visitá-los – mesmo se estiverem enfermos ou forem idosos, nunca apareça nas atividades dos ministérios que trabalham com proclamação, evangelização, missões ou ação social. Nada disso dá ibope, meu filho! Lembre-se: você precisa da recomendação para ingresso no pré-teológico. Com menos de um ano, aparecendo assim como estou orientando, garanto que toda comunidade votará favorável a você.
Terceiro passo: Seja dissimulado. No pré-teológico você será avaliado para ver se tem condições de entrar para Faculdade de Teologia. Você terá de ler os textos indicados e freqüentar todas as reuniões. Como ninguém te conhece e ao final de um ano você terá passado algumas horas com outros candidatos e uns professores, dá para enganar. Não fale demais. Ouça com atenção. Em qualquer discussão, nunca seja o primeiro a falar; preste atenção nas falas e tente concordar com todos, passando uma impressão de conciliador – no popular, “em cima do muro”. Tente passar a imagem de que você é estudioso. Na entrevista com o diretor mostre firmeza e certeza do seu chamado. Na entrevista com a psicóloga, cuide para revelar-se liberal especialmente se houver perguntas sobre sexualidade. Depois, virá o vestibular, que não é um “bicho de sete cabeças”. Ah, é preciso contar com a sorte também!
Quarto passo: Seja um louco-irresponsável-puxa-saco. Você vai estudar quatro anos na Faculdade de Teologia em São Bernardo do Campo. Aproveite bem esse tempo, ele não volta mais. Mas aproveite do modo certo. Primeiro, liberte-se do mundinho de moralidade que foi sua igreja local e sua família. Esteja aberto a qualquer experiência sexual ou com drogas que te traga prazer ou te faça “transcender”. Quem sabe você fará a grande descoberta de que está “no armário” e precisa sair dele. Ou, se não for o seu caso, e tiver sorte, consiga casar-se para “legalizar” o “relacionamento”. Busque todo prazer e arranje uma teologia para justificar esse modo de vida. Cuide para não se viciar, porque depois de quatro anos você retornará à sua região de origem para ser pastor. Segundo, não estude. Ou, como se fala em todos os tempos, “pique o fumo”. Aluno de Teologia não é reprovado. E o que importa é o diploma de Bacharel em Teologia que você exibirá orgulhosamente em alguma parede. Então, seja medíocre mesmo. Tenha a honra de dizer o que disse um aluno no culto de formatura para um amigo meu há quatro anos: “terminei o curso de Teologia e não li quatro livros inteiros”. Ou o orgulho de tantos outros que passaram por lá e hoje dizem de boca cheia: “passei pela Faculdade mas ela não passou por mim”. Terceiro, comece a treinar a habilidade de “puxar saco” de quem está acima de você: professores, reitores, componentes de conselho diretores, superintendentes distritais, bispos. Você terá muitos concorrentes nesse treinamento, mas esmere-se, porque seu futuro vai depender disso.
Quinto passo: Seja um gerente. Agora você vai assumir sua primeira igreja. O material para sua leitura diária deve ser tudo que você conseguiu juntar sobre estrutura e funcionamento da igreja, administração e liderança. Se possível, faça alguns cursos rápidos como: vendas, porque o Evangelho que você vai pregar é como um produto que precisa ser apresentado convincentemente para ser comprado; marketing, porque sua igreja vai precisar criar necessidades nas pessoas para freqüentarem os cultos. Faça seminários de fins de semana com os pastores de sucesso sobre como dobrar a arrecadação da sua igreja. Enfim, existem cursos e farto material para transformar você num grande manager. Porque o que importará quando você for avaliado será o “resultado”, que é culto lotado de gente e aumento da arrecadação – obviamente não como fruto da fidelidade a Deus, mas por sua habilidade gerencial.
Sexto passo: Seja um líder ditador. A membresia da Igreja Metodista não admite um/a pastor/a que ouve, é democrático, é conciliador e não abre mão de presidir, dirigir a comunidade. Ela prefere um/a pastor/a “banana”, aquele/a que não dirige nada, não se posiciona e deixa a comunidade na mão de um grupinho “que faz” – desde que tenha algum poder de influência, seja econômico ou de conhecimento – ou prefere um/a pastor/a ditador/a, aquele/a que centraliza tudo, não ouve, manda, faz a agenda para seus “súditos” cumprirem. Prefira, jovem, ser o ditador. Combina mais com o quinto passo dado. Aliás, apesar da ditadura ter acabado no Brasil há mais de vinte anos, ela está de volta na América Latina com uma nova roupagem, arrancando elogios de muitos “democratas”!
Sétimo passo: Seja um animador de altar. Você será um palrador, um tagarela, mas nunca um pregador. Esse “tipo” de pastor/a, que ainda teima em pregar a Bíblia, está fora de moda, vai acabar. Para ser um bom animador de altar, ou palco – algumas igrejas já não têm altares – é preciso: Primeiro, ter um bom grupo de louvor. Leia de novo o segundo passo nomeado “apareça”. Esse grupo será tão importante que muitas vezes você nem terá o trabalho de falar; as pessoas vão “sentir” Deus e vão ficar na sua igreja. Segundo, não preocupar-se com a Bíblia. Ela, a Bíblia, é sua grande desconhecida. Você nunca a leu toda. Ela vai te servir como material decorativo e algumas vezes como amuleto. Mas, antes de falar, leia um texto ainda que você nada fale sobre ele. E se por acaso for falar sobre algum texto, não se importe com o contexto em que foi escrito. Leia os fatos históricos do Antigo Testamento sempre como analogia para interesses individualistas da sua congregação e transforme Jesus Cristo num grande milagreiro como fazem os tagarelas da confissão positiva e teologia da prosperidade. Uma boa mensagem também é aquela retirada de manuais de auto-ajuda. Você pode ler um salmo como pretexto para tagarelar e vai fazer um grande sucesso se aprender a psicologizar sua tagarelice. Mas cuidado. Evite os versículos de lamento e confissão de pecado. Terceiro, usar “chavões” e berros para impressionar a congregação. Preste atenção: até a saudação já virou um chavão e um identificador do “pregador ungido”. Se você disser um “boa noite” no lugar de um “a paz do Senhor” corre o risco de não ganhar a simpatia dos fiéis. Ao ler qualquer texto e em qualquer falação use estas palavras (e os verbos correspondentes): unção, vitória, alegria, glória, conquista, promessa, saúde, cura, prosperidade, diabo, bênção, maldição, etc... Se você agüentar tagarelar aos berros, melhor. Se não, guarde-os para as frases de efeito, por meio das quais você convencerá os ouvintes. Aí você os verá levantando as mãos, dizendo “amém” e “aleluia”, batendo palmas, mesmo que tenham acabado de ouvir uma grande bobagem.
Oitavo passo: Celebre os sacramentos a seu bel prazer. Nunca use qualquer ritual para tais celebrações. Tire tudo da sua cabeça sob a inspiração do momento, pois o que mais vale é a espontaneidade! Que a Ceia do Senhor não seja mais que um pequeno “anexo” ao final de um culto que teve mais de uma hora de “louvor” e mais uma de tagarelice. Quanto ao Batismo, atenção! Não estude com os/as batizandos/as sobre conteúdo e forma desse sacramento. Apenas pergunte de que jeito ele/a quer ser batizado: aspersão, imersão ou derramamento? Sobre a administração do mesmo às crianças, faça o que você achar melhor. Há pastores que batizam. Há outros que não batizam e pregam contra o batismo de crianças. E todos são metodistas! A Igreja Metodista aprovou a participação das crianças na Ceia do Senhor desde o início dos anos 90. E o fez porque sempre recebeu as crianças no Corpo visível de Cristo – a igreja local – por meio do Batismo. Por serem batizadas, as crianças são convidadas à Mesa do Senhor. Contudo, a falta de Batismo para crianças fez surgir uma prática que não existe em nenhuma Igreja Cristã séria na face da Terra: a participação de não batizados/as na Santa Ceia. A Igreja Metodista foi muito responsável ao trabalhar a inclusão das crianças por meio dos únicos sacramentos por ela celebrados. Mas, se pastores/as e pais excluem as crianças do Batismo, com que consciência admitem a participação delas na Ceia? Não é uma questão teológica séria? Mas não se preocupe, jovem candidato ao ministério! Isso é demais para sua cabeça! Se você não entende e nem se importa, como vai ensinar? Deixe as coisas como estão. Sacramentos têm a ver com a história e a tradição cristãs. Mas, hoje, quem se interessa por isso?
Nono passo: Seja sectário. Você está proibido de ler, pelo menos, três textos de J. Wesley: “Carta a um Católico Romano” e os sermões “Contra o Sectarismo” e “O Espírito Católico”. Demarque bem a linha divisória dos que “são abençoados” e dos que “não são abençoados”, justificando que você e sua igreja receberam uma “nova unção” que outras igrejas não têm e que por isso todos devem vir para a “sua” igreja se quiserem ser “abençoados”. Não esqueça de gastar bastante tempo em suas tagarelices falando contra a Igreja Católica. Seja anti-católico como um apaixonado torcedor de futebol torce contra o time adversário. Alimente o anti-catolicismo com as histórias de perseguição sofridas pelos nossos antepassados protestantes, de tal maneira que gere entre os fiéis rancor, ódio e sede de vingança. Você vai contribuir para a intolerância crescente dos dias atuais.
Décimo passo: Guarde os pecados alheios como “trunfos na manga”. A Igreja de Cristo é santa e pecadora. Homens e mulheres são pecadores/as salvos pela Graça de Deus. No decorrer do seu trabalho muitos serão os pecados que você cometerá e que outros cometerão contra você. E você sabe que Deus perdoa pecados. Ele, em Cristo, reconciliou consigo o mundo. Mas como essa conversa sobre perdão é para gente simples e humilde, que não perdeu o coração, então esqueça. Você estará em outro nível, rapaz. Deus perdoa, mas você não! Pelo contrário, revide, vingue! E como muitas vezes não dá para revidar ou vingar na hora, então guarde os pecados dos outros como “trunfos na manga”. Mais tarde você vai usá-los. Para você, jovem, que deseja ter sucesso e crescer, aprenda cedo esse “jogo” do poder. É o que os antigos chamavam de ter “rabo-preso”: manter pessoas sob controle pelo conhecimento que se tem de pecados do passado ou do presente. Só tenha cuidado para não descobrirem os seus pecados também. Mas se descobrirem-nos, não se afobe. Você apenas estará no círculo de pessoas que têm “rabos-presos” umas com as outras. É só fingir que está tudo bem e todos se mantêm como estão!
Décimo-primeiro passo: Busque os seus direitos. Se algum dia você se sentir ofendido ou injustiçado, busque seus direitos. Mas lembre-se: você não perdoa, não há possibilidade de reconciliação, você não pode “sair perdendo”. Quem “pisar na bola” com você vai pagar caro. E não adianta tentar resolver o problema “entre os santos” (haverá algum?) como o apóstolo Paulo aconselha. Vá para a justiça comum. Vá para a mídia escrita e televisiva – de preferência com repercussão nacional. A má fama das igrejas evangélicas no Brasil e a formação secularizada de muitos juízes são dois fatos que te farão sair em vantagem em qualquer processo. Você poderá até ganhar uma boa grana! Depois de todo estardalhaço vão reconhecer que você é corajoso. Então você volta ao “seio da amada igreja” ainda mais forte com a testa escrita “cuidado, não mexam comigo!”
Pode ser que a lista de passos a serem dados para você se tornar um pastor metodista de sucesso seja bem maior, mas vou ficando por aqui.
Agora, se tudo isso não enche os seus olhos, rapaz, há um outro caminho. E te digo de uma vez que é estreito e espinhoso. Quer saber?
Você terá de receber o chamado de Deus para aventurar-se na vida sacerdotal e ministerial. Você terá certeza do chamado. Junto com a certeza você terá dúvida. A dúvida será fruto do sentimento de indignidade, de incapacidade e inadequação: “Eu não sei falar”, “Eu sou o menor na casa de meu pai”, “Não passo de uma criança”, “Ai de mim, estou perdido, sou homem de lábios impuros”... A dúvida estará presente sempre, podendo chegar ao ponto de você dizer “fui enganado” ou “persuadido” ou “seduzido” por Deus, “já não falarei no seu nome”. Seu inimigo não será a dúvida, mas o medo. Por isso, necessário será ouvir dEle continuamente: “Não temas, eu estou contigo!”
Você terá de ser você mesmo, se assumindo como “pecador salvo pela graça de Deus”.
Você terá de ser normal, responsável e aberto para amizades saudáveis.
Você terá de ser fiel àquelas tarefas que um/a pastor/a deve fazer sem que ninguém veja: a oração, a leitura da Palavra e a orientação espiritual.
Você terá de trabalhar como cooperador de Deus, “plantando e regando” e deixando por conta dEle o “crescimento”. Como canta o grupo Logos “até porque resultados não são o indicador verdadeiro de aprovação. Há quem curou e o diabo expulsou mas Jesus nunca o conheceu” (do cd “Conteúdo”).
Você terá de celebrar os sacramentos e pregar a Palavra de Deus tendo a tradição e a história cristãs como instrumentos de inspiração e avaliação para a caminhada de hoje, sem ser denominacionalista – como aqueles que se arrogam ser os “mais metodistas” – nem sectarista – como aqueles que se sentem “donos” da salvação.
Você terá de perdoar os que te prejudicarem, assim como você tem sido perdoado por Deus em Cristo Jesus. Isso vai depender de você se colocar humildemente diante do Pai e abrir-se ao poder curador de sua Graça, desistindo do “direito de não perdoar”, como dizia o Dr. David Seamands. Não é fácil, especialmente se você for “ferido na casa de amigos”.
Como você pode ver, jovem, o que precisamos fazer é conseqüência da Graça de Deus revelada em Cristo e atualizada em nós pelo Espírito Santo.
Esse caminho é bem mais difícil por causa do nosso afastamento de Deus, da nossa autoconfiança, da nossa soberba, da nossa sede de poder, da nossa busca de reconhecimento a todo custo, do abandono da nossa condição de pecadores/as, e tantos outros tropeços, buracos, curvas que nós mesmos acrescentamos ao caminho.
E o “prêmio” desse caminho não é “o sucesso”. Quem nele seguirá?
“Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, e mais especialmente para convosco.” (Paulo – 2 Co 1.12)
“Ora, o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.” (Pedro – 1 Pe 5.10,11)

Maurício C. Ramaldes Guimarães.

À GUISA DE INQUIETAÇÃO


Amigo e irmão - sei que posso chamá-lo assim com todo o teor das palavras,

De antemão, quero parabenizá-lo pelo texto: Pastores de Sucesso. Ele é uma verdadeira ironia com características proféticas, ou se preferir, uma profecia com características irônicas. Sei que muitas pessoas não entenderão o que você expressou, mas não importa, afinal, o mundo plural no qual todos estamos inseridos permite-nos pensar qualquer coisa. Kyrie Eleisson

Seu texto combina com o aforismo de T. S. Eliott, tão citado por Rubem Alves: "Em um país de fugitivos, quem anda na direção contrária parece que está fugindo". Grande paradoxo esse, não acha? Como é interessante notar que as pessoas que se despontam com o único intuito de expressar ética e integridade no cenário eclesial são tratadas com indiferença, seguida pela lacônica expressão: "está em crise" – jargão que determina, em suas entrelinhas: “não possuo argumentos”. Kyrie Eleisson

Mas eu quero a crise! Quero vivê-la com toda a intensidade! Quero percebê-la, não no seu outro sentido mandarim - oportunidade. Quero me apropriar dela no seu sentido mais latino e passional, ou seja, sofrimento e inquietação.
Estou, assim como você, remando contra a maré. E com a nau caotizada pelos furos e intempéries das águas e das chuvas ácidas.

Entretanto, quero me dirigir aos céticos espirituais, quem sabe por causa de um restolho de esperança presente em minha alma angustiada:

Sei que os impressionados com os jargões evangelicais dirão: olha, aí está um pastor sem visão. Por favor, não se enganem! Orgulho-me de não ter visão (literalmente dizendo), mas continuo a me humilhar ante a luz daquele que é muito maior que todas as minhas insignificantes mediocridades. Não se enganem, pois tudo isso que em mim acontece me remete a uma consciência plena de liberdade e gratuidade. Acho, entretanto, que as pessoas, principalmente as ligadas ao cristianismo se esqueceram da tônica dessas manifestações de Deus. Kyrie Eleisson
Liberdade e Graça estão diretamente ligadas à idéia do amor de Deus, que se revela na simplicidade de cada momento e nos convida para um desenvolvimento relacional e até mesmo paritário. Esse Deus não quer ser manipulado ao bel prazer ilícito dos que vociferam continuamente contra as pessoas de bem. Nessa mesma linha, o Kíwitz afirma que Deus não é um ventilador para ser manipulado. Ele é vento que sopra onde quer. Aliás, acho que a maioria dos evangélicos não gosta muito dessa idéia de Deus como vento. Eles preferem o ventilador e quanto mais pequenino melhor, pois se pode movimentá-lo com mais facilidade - Kyrie Eleisson.

Preciso ainda confessar, que em muitos momentos gostaria de não ter pudor evangélico. Pelo menos poderia xingar um "palavrão" com o intuito de revelar, no mínimo, minha indignação ante ao lixo em que se torna o evangelho no Brasil - generalizando mesmo. Nunca se ouviu falar tanto de "homens" e "mulheres" "de Deus", como se isso credenciasse qualquer pecador perdoado a um patamar superior, como crentes de primeira classe. Quero a cruz!

A bem da verdade, acho que preciso "vomitar" muita coisa, principalmente os absurdos engolidos ao longo de uma trajetória de fé. Encontrei-me com a graça de Deus na vida e, posteriormente, na Igreja Metodista. Observei e me espelhei em pastores e pastoras, em irmãos e irmãs que vivenciavam suas experiências de fé e conquistavam suas igrejas pela simplicidade e carisma. Vi ministros não tão eloqüentes, que viviam com intensidade a dimensão da graça... Só graça... E me encantei com isso.
Mas a senhora, inescrupulosa e prostituta, conhecida também pelo nome de mediocridade sobressaiu nos púlpitos dessa igreja ainda amada que perde, cotidianamente, o sentido de ser.

Como diria a Adélia Prado:

"Tudo está na esfera do religioso, não tem jeito de fugir..." "Eu vi um documento esses dias, o documentário se chama Fé, sobre as manifestações religiosas no Brasil, então pegaram umas velhinhas lá em Canindé, mas aquelas velhinhas mesmo, espertinhas, e o repórter perguntou pra uma delas: 'Por que a senhora está aqui em Canindé? ' - 'Ah! Vim agradecer uma graça, meu filho, porque neste mundo a gente tem que sofrer, tem que sofrer. ' Qualquer psicólogo modernoso vai falar: 'Ai, que complexo de culpa! Leva essa mulher logo... ' Não, ela está certa! Ela estava falando 'tem que sofrer' com a cara mais feliz, mais iluminada do mundo!" (Adélia Prado).


Somente faria uma adaptação à crônica de Adélia - pífia pretensão a minha, mas necessária - 'Qualquer pastor modernoso vai falar: Ai, você não pode dizer assim. Você é mais que vencedora! Leva essa mulher para uma campanha de oração! '

Triste ironia a nossa, não acha?

Mas ainda bem que existe apocalipse.

Valeu mano, por provocar em minha mente insana essas palavras emblemáticas.

Moisés Coppe.
30 de agosto de 2008.

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...