sábado, 7 de outubro de 2017

UMA REFLEXÃO SOBRE A IDEOLOGIA DE GÊNERO


Ideologia de Gênero: O gatilho do pânico.
Por * Helena Vieira *

Com insônia passei a noite reunindo e lendo material sobre " Ideologia de Gênero", porque pretendo escrever a respeito e talvez fazer um vídeo. (Além de estar empenhada na construção de um dossiê).
É extremamente impressionante como uma ideia, sem absolutamente nenhum embasamento científico ( em nenhuma ciência) parido no seio da Igreja Católica tenha se popularizado de forma tão assustadora e se convertido em verdadeiro instrumento de guerra cultural e política.
Reúne ignorância, pânico moral, verossimilhança e funciona como uma arma que tem sido absolutamente poderosa, e que, 20 anos depois de sua primeira aparição em um documento da Igreja já está nos parlamentos de cada cidade e Estado, pequeno ou grande em mais de 50 países. Espalhada por think tanks, ligada a setores ultra conservadores da Igreja Católica, construída, não apenas como forma de combater as proposições feministas e LGBTs, mas como um instrumento de recentralização religiosa, agora é instrumentalizada por conservadores religiosos e não religiosos.
Diferente do que foram as campanhas anti-gay dos EUA ou anteriores aos anos 90, o dispositivo da " ideologia de gênero" é um organismo completo, reúne sob o mesmo signo tanto o comunismo, o marxismo, a teoria queer, o feminismo radical, Butler, Marx e Beauvoir e tem sido um dos principais estandartes de avanço da direita.
É muito mais fácil mover as pessoas contra um grupo que elas pensam querem fazer mal a seus filhos do que movê-los por um debate econômico.
A operação retórica dos que criaram essa ideia, ao mesmo tempo que opera criando pânico, medo e tornando o terreno cada vez mais duro para as políticas de igualdade de gênero e orientação sexual, anulam as possibilidades de resposta ou de argumentação:
Se apresentamos dados da ONU, eles dirão que é uma organização controlada pela Agenda de Gênero, o mesmo com os acadêmicos, com as universidades, com os jornais, com os livros. Não há fonte ou referência ou dado capaz de confrontá-los.
Aquilo que chamam de ideologia de gênero se estrutura em distorções básicas:

1-) A distorção de que existe uma agenda internacional de destruição dos modelos tradicionais de família;
2-) A distorção de que o feminismo atual tem por objetivo a supremacia feminina ou ainda o fim da reprodução humana;
3-) A distorção de que o entendimento da homossexualidade como um dado da realidade, como a heterossexualidade, promoveria a destruição ou condenação da heterossexualidade;
4-) A distorção de que queremos confundir as crianças, dizendo que elas devem experimentar múltiplos gênero e múltiplas sexualidades;

É um instrumento de medo, fundado em distorções profundas. Não resiste ao debate acadêmico e por isso foge dele.
Pra vocês terem uma ideia, já nos anos 90 fala-se em um alerta para que parlamentares cristãos façam oposição ao que eles nomearam de ideologia de gênero. Em 98 já falam, em um documento da Igreja, em Escola Sem Partido, mas com outro nome, dizem que o feminismo e a " agenda de gênero" querem transformar as escolas em " campos de reeducação", já falam em doutrinação.
A censura que enfrentamos hoje tem sido gestada há muito tempo.
É isso. Eles nos puseram contra a parede com suas mentiras, nomearam e distorceram os Estudos de Gênero sob o nome de ideologia, palavra usada em sentido pejorativo.

É assustador.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

GENTE INOCENTE


(Fabrício Carpinejar)

Como explicar alguém que queima crianças de 4 a 5 anos? Que sabe o que está fazendo, que conscientemente chama para perto uma turma absolutamente indefesa e frágil e joga álcool nela e depois ateia fogo sem piedade nenhuma?
Não há vingança que justifique tamanha crueldade, não há acerto de contas que amenize o desamparo, não há atenuante humano, não há perdão divino. Nem o suicídio é um desconto.
O que se viu em Janaúba, no Norte de Minas Gerais, na manhã desta quinta-feira (5), adoecerá os olhos do país pelo resto de nossa história.
O guarda do Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, no Bairro Rio Novo, matou covardemente os pequenos estudantes. Quatro deles morreram carbonizados na hora, e quatorze estão internados, com 20 por cento da pele queimada.
Quem não tem filho já não aguenta ler a notícia até o fim, imagine quem tem? Virá até garganta o grito de cinzas do lugar destruído, engoliremos o fogo maldito da imoralidade. Acordaremos com o gosto ruim na boca, o desgosto perpétuo de fantasiar o quanto os anjos sofreram sem ao menos entenderem o que acontecia.
Serão vidas que jamais chorarão no colo dos pais.
Serão pais que jamais dirão: isso passa! Porque nunca passará.
Como chegar perto daquele endereço de novo, atravessar a rua Rosenda Pereira, sem o frio na espinha? Nem o frio da espinha apagará um dia o fogo.
Famílias estarão na frente do portão aguardando a saída dos filhos às 18h para todo o sempre.
Talvez as crianças estivessem rindo, talvez pensassem que o tio, que era segurança da escolinha, estivesse fazendo uma brincadeira. Não pressentiram o perigo. A inocência nunca cogita o pior. A inocência confia. A inocência jura que o adulto pode ser bom, pode querer brincar de roda, de ciranda, de jogar líquido na cabeça. Não enxerga a maldade. Não enxerga a ameaça crescendo.
É uma tragédia que não me fará desacreditar em Deus. Mas passo a acreditar firmemente que o Diabo existe.

😭😭 #lutojanauba

Atravessando a Ponte na Companhia da Crise (Nono texto)

         “No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighi...